segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

MINHAS AULAS COM DR. EBERLIN, CIENTISTA CRIACIONISTA QUE DEFENDE CLOROQUINA

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"De forma implícita, há crítica à vacina Sputnik simplesmente porque o imunizante é produzido na Rússia, numa clara demonstração de xenofobia e anticomunismo tosco. Já para criticar a Coronavac, cujo insumo é de origem chinesa, Eberlin diz que a 'vacina é feita com um vírus inativado, havendo o risco do paciente se contaminar com a covid'". 

                  (A Teoria Que Reforçou os Argumentos Dos Criacionistas)

Por Charles Nisz (No DCM)

Nesta semana, um áudio circulou pelo WhatsApp com uma crítica feita às vacinas contra a Covid-19 feita por Marcos Eberlin, ex-professor do Instituto de Química da Unicamp. Referência no campo da espectometria de massas, Eberlin, um cientista evangélico, usa da sua posição de cientista para referendar absurdos pseudocientíficos.

Com duração de seis minutos, o áudio destila preconceito e xenofobia ao fazer um ranking das vacinas (Oxford, SputnikCoronavac e Pfizer). Ao falar das duas primeiras, Eberlin diz que “essas vacinas usam adenovírus que carregam informações para dentro da célula e irão editar o DNA”. Mistificação digna de qualquer grupo de WhatsApp.  

De forma implícita, há crítica à vacina Sputnik simplesmente porque o imunizante é produzido na Rússia, numa clara demonstração de xenofobia e anticomunismo tosco. Já para criticar a Coronavac, cujo insumo é de origem chinesa, Eberlin diz que a “vacina é feita com um vírus inativado, havendo o risco do paciente se contaminar com a covid”.  

Por fim, Eberlin faz uma defesa velada da vacina da Pfizer, uma vacina de RnaEberlin diz que “a vacina da Pfizer foi desenvolvida por empresas de alta tecnologia, como a BioNTech”. O ex-professor da Unicamp fez seu pós-doutorado na Universidade americana de Purdue (EUA). A crítica às vacinas inglesas, russa e chinesa é análise ou lobby pró-EUA?    

Eberlin tem doutorado em química e portanto, tem noção do princípio elementar de funcionamento de qualquer vacina. É um agente pouco ativado ou morto da doença, que faz o organismo reconhecê-lo como ameaça e produzir anticorpos. Ou seja, não há risco nenhum na ingestão de qualquer vacina.    

O histórico de Eberlin na defesa de pseudociência é antigo. Fui aluno de Eberlin no curso de Engenharia Mecânica da Unicamp em 2001. 20 anos atrás, Eberlin já defendia pseudociência com o intuito de conciliar Ciência e criacionismo.  

Eberlin já demonstrava de forma ostensiva suas crenças religiosas. Nós, alunos, não entendíamos, e achávamos até engraçado um professor com tanta titulação ser tão crente. Estava ali um dos germes do bolsonarismo – a junção de fé religiosa com pseudociência. 

                                                       (Prof. Marcos Eberlin)

Na ocasião, Eberlin advogava a tese do Design Inteligente, uma pataquada que tenta explicar supostas falhas na teoria da evolução. O intuito é encontrar sinais de um projeto inteligente nos seres vivos. O arquiteto desse design, seria, obviamente, Deus.    

Se voltarmos na História, veremos que o Design Inteligente surgiu nos EUA como uma estratégia da “guerra cultural” norte-americana. O objetivo era oferecer uma alternativa filosófica ao materialismo e ateísmo da Ciência moderna – e também do comunismo. 

Diferentemente de qualquer teoria científica, o Design Inteligente não foi baseado em dados científicos. Foi a teoria científica – e em larga escala, religiosa – que surgiu primeiro. Isso talvez explique muito das posições anticientíficas de Eberlin – um cientista de grande capacidade técnica, mas com visões obscurecidas por suas posições religiosas e políticas.    

Mas essa não é a primeira vez que Eberlin usa de sua posição acadêmica para defender disparates pseudocientíficos. Ainda no debate sobre o coronavírus, o cientista assinou uma carta, junto com outros 25 pesquisadores, defendendo o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19. 

Assim como muitos outros pesquisadores, Eberlin “argumenta” que não há estudos científicos definitivos sobre o uso da cloroquina no tratamento de pacientes com covid-19. Os fatos mostram justamente o contrário – nesta semana, Ddider Raoult, cientista francês cujo estudo sobre o tema foi pioneiro, admitiu que a cloroquina não reduz a mortalidade da doença. 

Também é utilizado o argumento de que os efeitos colaterais da cloroquina são mínimos. Na verdade, médicos e pacientes relatam sintomas severos causados pelo coquetel de remédios batizado de tratamento precoce contra a Covid. 

A desastrada defesa da cloroquina termina com um apelo pseudojurídico. “Se não sabemos se a cloroquina salva ou não vidas, então in dúbio, pro reo”. 

Quase no final da carta, Eberlin se revela: “Não encontrei até agora nenhum crítico da cloroquina que não fosse de esquerda, combata o atual presidente do Brasil e, via de regra, não seja favorável ao desastrado #FiqueEmCasa”. Quem, afinal é ideológico?   -  (Fonte: Aqui).

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Sobre a Teoria do Desenho Inteligente, que tanto inspira os criacionistas, oferecemos dois trechos da abordagem da Wikipedia sobre o assunto:

"O desenho inteligentedesign inteligente ou projeto inteligente (em inglês Intelligent Design) é uma hipótese pseudocientífica, baseada na assertiva de que certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não-direcionado (e não estocástico) como a seleção natural; e que é possível a inferência inequívoca de projeto sem que se façam necessários conhecimentos sobre o projetista, seus objetivos ou sobre os métodos por esse empregados na execução do projeto."

"...o Desenho Inteligente retém em seus alicerces uma forma moderna do tradicional argumento teleológico para a existência de Deus, modificado para evitar especificações sobre a natureza ou identidade do criador. A ideia foi inicialmente elaborada por um grupo de criacionistas americanos que reformularam o argumento em face à controvérsia da criação versus evolução para contornar a legislação americana que proíbe o ensino do criacionismo nas escolas como se esta hipótese fosse equiparável às teorias científicas; e gradualmente espalhou-se por diversos países e continentes. Seus defensores mais contundentes, todos eles associados ao Discovery Institute, sediado nos Estados Unidosacreditam que o criador é o Deus do cristianismo No Brasil o movimento encontra-se atualmente representado entre outros pela Sociedade Brasileira do Desenho Inteligente, que em seu primeiro manifesto, de forma aparentemente contraditória, reconhece que a teoria que defende não encontra apoio entre a maioria no meio acadêmico e posiciona-se contra o ensino do Desenho Inteligente em escolas públicas e privadas (confessionais ou não) em vista da cenário global atualmente configurado. (...)."  -  (AQUI).

Daí, quem sabe, o entusiasmo do Dr. Marcos Eberlin e outros entusiastas do criacionismo.

Nota: Um certo contraponto à teoria pode ser encontrado em livros do inglês Richard Dawkins (Aqui), biólogo evolutivo e escritor.

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