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sexta-feira, 31 de julho de 2026
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
AS LEIS DA ESTUPIDEZ QUE CONFORMAM O IDIOTA 'IDEAL'
Por Lênio José Streck
Nada é por acaso. É preciso refutar, de saída, a ideia de que o momento atual seja fruto de mera contingência. Há nisso uma agnotologia: a construção deliberada da ignorância. Robert Proctor, que cunhou o termo estudando a indústria do tabaco, mostrou que a ignorância não é apenas um vazio a ser preenchido; ela é produzida, financiada, distribuída.
Pois bem. Na era algorítmica, a estupidez deixou de ser condição inata ou deficiência cognitiva passiva. Ela virou “ciência empírica”. Tem método de validação, dinâmica de replicação imediata e até métricas de desempenho (os cliques), tudo otimizado por inteligência artificial e análise de dados comportamentais. O estúpido de antigamente era artesanal. O de hoje é industrial, com escala e engajamento.
O fenômeno pode ser decodificado a partir das célebres cinco leis fundamentais da estupidez humana, de Carlo M. Cipolla — depois retrabalhadas, entre nós, pela psicanálise de Mauro Mendes Dias —, sobre as quais já escrevi nesta ConJur. Transpostas para o ecossistema das redes sociais, com as adaptações que a experiência jurídica brasileira impõe, elas expõem a mecânica exata do declínio:
Lei número 1: sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que circulam pelo mundo jurídico.
Lei número 2: a probabilidade de que uma pessoa enfiada até o pescoço nas redes sociais seja estúpida independe de qualquer outra característica dessa pessoa. Título, cargo, seguidores: nada imuniza.
Lei número 3: estúpida é a pessoa que causa dano a outra sem obter benefício algum para si, podendo até sair no prejuízo. Se tiver formação jurídica, o estrago tende a vir com fundamentação.
Lei número 4: as pessoas não estúpidas sempre subestimam o potencial destrutivo das estúpidas.
Lei número 5: o estúpido é o tipo mais perigoso que existe. Mais que o bandido, dizia Cipolla, porque o bandido ao menos calcula.A aplicação dessas “normativas” denuncia um tipo ideal (Weber me perdoe) de idiotia. As redes sociais abrigam uma verdadeira nesciocracia: o governo dos néscios, com direito a voto, réplica e emoji. E o leitor pode testar a tese empiricamente. Eis dois experimentos que fiz, à moda falsificacionista. Popper ficaria orgulhoso do rigor; do resultado, nem tanto.
Primeiro experimento: publique uma crítica às palhaçadas de certos repórteres de TV durante a Copa do Mundo, essa gritaria performática de quem se julga engraçado ou um(a) Einstein da mídia. Pergunto: será que aprendem isso nas faculdades? Fico imaginando o professor “ensinando” como paga mico na frente das câmaras. Quanto mais palhaço, melhor.
Quando faço críticas a esse ECP (estado de coisas patético), confirma-se a lei número 2 (veja explicação anterior). Os comentários nas redes sociais confirmam também a crise do ensino e a terceirização da cognição. Mostra igualmente que diploma não encurta orelha. O índice de idiotice se mede pelos comentários que chegam em minutos: “muda de canal, chato”; “TV é diversão”; “e o Xandão, hein?”; “não vai falar do STF?”.
E note-se o ponto que o idiota não alcança: sou assinante de TV a cabo. Pago pela transmissão. Tenho o direito de assistir ao jogo sem exercícios ruins de humorismo. Veja-se o que ocorre com a TV Cazé. É espantoso. E os repórteres e comentaristas da Globo? Pensam que a população tem 10 anos de idade. Na verdade, têm certeza disso. (...).
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