segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

XADREZ DE LULA E A ESFINGE - OU ME DECIFRA OU TE DEVORO

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O quadro que Lula enfrenta, na sua volta, é um xadrez que desafia qualquer grande mestre


Peça 1 – a volta de Vargas
Getúlio Vargas caiu em 1945. Voltou eleito em 1950. Já não possuía o mesmo tirocínio político da primeira fase. Idade? Novas circunstâncias?
Em 1930 assumiu o país no bojo de uma Revolução. Em 1937 ampliou seu poder com o Estado Novo. Nos dois momentos era Poder, com amplo espaço para montar sua rede de alianças que passava pelo empresariado paulista, os militares de Góes Monteiro, a nova elite nordestina.


Quando retornou em 1950 o quadro era outro. A ascensão de um partido trabalhista, o PTB, do novo sindicalismo, o clima de guerra fria pós-Segunda Guerra, a ampliação extraordinária da influência americana – especialmente nas Forças Armadas e na mídia -, tudo isso criava uma situação totalmente nova, um espaço para a radicalização que foi bem aproveitado pela oposição.
Foi alvo de uma campanha diuturna, que afastou os empresários aliados, abortou a tentativa de montar uma mídia aliada e tornou os aliados alvos da polícia e de procuradores.
A maneira de enfrentar politicamente os adversários foi o suicídio, que garantiu mais alguns anos de governo democrático, com JK e Jango.

Peça 2 – a volta de Lula

De certo modo, Lula vive problema semelhante, um novo momento, diferente daquele em que ele se formou, e a idade, que pode (ou não) afetar seu instinto político.
Lula surge na ditadura e se consolida na democracia. Sempre foi um conciliador e um filho da industrialização paulista. Seu objetivo maior era inserir a classe trabalhadora no jogo político convencional, um modelo espelhado na socialdemocracia europeia, especialmente na alemã.
Dava-se bem com as multinacionais, que sempre foram melhores empregadoras, com as lideranças empresariais paulistas. Sua rede internacional de contatos era com centrais sindicais de países democráticos.
Desde cedo praticou o sindicalismo de resultados, que consistia em jogar dentro das regras do jogo e obter ganhos incrementais para a classe trabalhadora e, no governo, para os mais pobres.
Não ousou nenhuma reforma mais necessária. Não apoiou a justiça de transição, não mexeu nos ganhos de mercado, não tentou uma reforma que inaugurasse a justiça fiscal, não recorreu sequer aos cuidados de qualquer governante democrático, de assegurar aliados na Suprema Corte e no Ministério Público, não afrontou nenhum dos cânones do modelo, respeitando os 3 Ms, a trindade que se consolidou – mercado, mídia e militares. Por outro lado, conseguiu um espaço político que lhe permitiu entregar um país menos desigual e com uma notável inclusão social.
Mesmo assim foi alvo de uma campanha inclemente, que o marcou como aliado de Cuba, da Venezuela, agente da bolivarização. E nem se debite essas maluquices apenas à era Olavo de Carvalho. Essa mistificação foi alimentada dia após dia pelo conjunto da mídia, quando Veja inaugurou a estratégia de fake News, mais tarde assimilada pelas redes sociais.
O modelo Lula de conciliação – mais os erros na sucessão – levou ao quadro atual: ascensão do bolsonarismo, desmonte de todas as conquistas democráticas, derrota política das esquerdas de uma maneira geral. É quase um consenso entre lideranças do PT e o próprio Lula.
Qual o Lula que ressurge dessa hecatombe?

Peça 3 – o novo cenário político

O quadro que Lula enfrenta, na sua volta, é um xadrez que desafia qualquer grande mestre. Tem as seguintes peças no jogo:
Antipetismo – graças ao mensalão e a Lava Jato, consolidou-se em parte considerável da opinião pública a demonização do PT, como partido corrupto, defensor de ditaduras comunistas. Hoje em dia, o antipetismo se tornou sentimento dominante no Judiciário, Ministério Público, meio empresarial, mídia, além das corporações militares, historicamente críticas do sindicalismo. Em Minas Gerais, por exemplo, há uma debandada de prefeitos petistas indo para o PSB, PDT e outros, mantendo os laços com o partido, mas para se desvencilhar da pesada herança antipetista.
Estratificação do PT – o PT é um partido que passou a viver exclusivamente em função de Lula, seu bem, seu mal. Não precisava se preocupar em ouvir as bases, em estender laços para setores empresariais, em entender as novas tecnologias sociais, porque na hora decisiva o carisma de Lula resolvia tudo.
O partido atravessou três crises gravíssimas – a do mensalão, da Lava Jato e do impeachment de Dilma Rousseff – sem dispor sequer de um comitê estratégico, capaz de analisar a conjuntura, formular estratégias, corrigir caminhos errados.
Durante algum tempo, José Dirceu cumpria a função de enxergar o jogo de poder no todo e formular estratégias. Bastou um tiro, do mensalão, para deixar o PT órfão de estratégias.
No episódio do impeachment, ficaram patentes a desorganização, a falta de estratégia, a sequer de autoridade para impor um mínimo de lógica ao governo Dilma ou organizar a resistência. Perdeu a batalha da informação no ENEM, nas Olimpíadas, na Copa do Mundo, nas campanhas de vacinação, nos avanços da gestão Haddad na Prefeitura de São Paulo. Mesmo tendo lançado políticas sociais essenciais, como o Fome Zero, Luz Para Todos, a política das cisternas, Brasil Carinhoso, não conseguiu montar uma estratégia política e de informação para se contrapor aos ataques que sofria da direita.
E nem se debite essas vulnerabilidades apenas à campanha sistemática da mídia. O PT passou ao largo da revolução das mídias sociais. Sem base social, recorrendo a algoritmos, a direita logrou montar uma rede nacional. Com uma base nacional de militantes, contando com a estrutura dos sindicatos, o PT jamais se preocupou em montar sua própria base de dados e em passar e receber informações da sua militância. Os petistas foram derrotados não apenas na periferia, mas nos embates familiares.
Quem inaugurou a militância digital foram os jovens progressistas. No entanto, o PT não montou uma política sequer para a militância jovem, fechou as portas para o MPL (Movimento Passe Livre), assim como para o extraordinário Ocupe as Escolas, dos secundaristas de São Paulo, e manteve movimentos essenciais, como o Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto personagens secundários, e a reboque, da luta política. Na era Dilma, atritou-se com os movimentos LBTGs, movimento negro, movimentos ligados ao meio ambiente.
Nas últimas eleições, a renovação política se deu com Youtubers de direita, não com os jovens progressistas pioneiros. E a força que emergiu da periferia e da classe média foi a dos evangélicos.
No entanto, o PT ainda é o grande partido da esquerda nacional. E, se não fosse o ativismo político do Supremo Tribunal Federal e do TRF-4, Lula teria sido eleito presidente.
O centralismo – todos os grandes movimentos políticos, desde os anos 80, tiveram como mote principal o combate à centralização de Brasília. Foi assim com as diretas, na eleição de Fernando Collor – e, posteriormente, na campanha do impeachment -, na eleição de FHC e do próprio Lula. Navegando no boom das commodities, o governo Dilma Rousseff retomou a centralização de forma exacerbada, acabando com conselhos de participação empresarial e social. Hoje em dia, a pecha da centralização está pespegada no PT, e é a bandeira central de que se vale Paulo Guedes para o desmonte irracional do estado nacional, com apoio do empresariado.
O sindicalismo – também enfrenta seus demônios. Um, a mudança no perfil do trabalho, com a indústria 4:0 e a uberização da economia. Outro, o isolamento cada vez maior e a incapacidade das direções de interagir com outros atores políticos.
A socialdemocracia – todos esses fatores comprometeram enormemente a estratégia firmada por Lula, desde o seu primeiro governo, se tornar o PT um partido socialdemocrata. Foi uma estratégia vitoriosa, uma esfinge que devorou seu principal adversário, o PSDB, que precisou se colocar à direita e a viver exclusivamente do discurso de ódio antipetista da mídia, até ser substituído pelo bolsonarismo. Agora, ficou difícil ao PT retomar a bandeira socialdemocrata, que seria o caminho para montar a aliança de centro, centro-esquerda.

Peça 4 – os dilemas de Lula

Todos esses fatores deixaram Lula em uma sinuca de bico – e explicam sua dificuldade em se colocar no novo jogo político. Qualquer passo errado será fatal. Não dar passo nenhum, mais fatal ainda.
Seu dilema está entre se colocar como uma liderança nacional ou como uma liderança do PT. E há muita diferença da estratégia para cada uma dessas decisões.
A executiva do PT fala para a militância. Há a convicção de que, no momento em que aderiu à política de aliança, com Vargas, o Partido Comunista perdeu definitivamente para o trabalhismo e, depois, para o PT, o protagonismo junto aos movimentos populares. O PT correria o mesmo risco, se repetisse a fórmula.
Há uma linha ideológica – influente – que defende a radicalização. Ou seja, retomar os movimentos de massa dos anos 80 e refundar o partido em cima dos princípios originais que foram deixados de lado no período Lula-Dilma: combate aos juros do sistema financeiro, defesa da reforma fiscal, da reforma política e do Judiciário, regulação (democrática) da mídia etc. Seria uma aposta na volta futura da democracia, abdicando de qualquer pretensão de montar um arco de alianças mais amplo.
Há uma outra linha que defende a política de alianças, uma aproximação com o centro democrático.
Há indicações e contraindicações para qualquer das posições tomadas. E nisso reside o dilema de Lula.

Opção 1 – fortalecimento do PT

Retórica – radicalização do discurso, ampliando a polarização com Bolsonaro. Apoio a temas polêmicos, como a Nicolás Maduro, da Venezuela. Crítica radical a qualquer espécie de reforma.
Ações políticas – dar prioridade a candidaturas petistas nas eleições municipais. Definir políticas de reconquista do público jovem.
Riscos – isolamento político, tornar-se um outsider da política até um ponto qualquer do futuro. Falta de perspectivas em relação do poder tira capacidade de atração do partido sobre eleitores progressistas do centro-esquerda e mesmo sobre uma parte da militância que ainda depende da máquina pública das prefeituras e estados. Além disso, o discurso político colide com a imagem do Lula vítima, preso, maior arma para diluir o antipetismo que o transformara em uma jararaca pronta para dar o bote.

Opção 2 – política de alianças

Retórica – discurso de conciliação, contra o perigo maior do aprofundamento do fascismo. Abrir mão do discurso em defesa das reformas radicais e das críticas à mídia tradicional. E reforçar o discurso em defesa da democracia e do pacto social.
Ações políticas – abrir espaço para aliados políticos em eleições centrais. Esquecer as mágoas com o impeachment e se aproximar de antigos aliados. Montar pactos políticos que descriminalizem e incluam no jogo democrático movimentos sociais relevantes, como o MST e o MTST.
Riscos – perder apoio da militância e se descaracterizar como partido de esquerda, perdendo o protagonismo para novos partidos, como PSOL, principalmente na era pós-Lula (que é um senhor que caminha para os 75 anos). Abrir mão momentaneamente de bandeiras sociais e econômicas.

Peça 5 – o teste de fogo

O teste de fogo será esta semana, na definição dos candidatos à prefeitura de São Paulo. De um lado, há um PT polêmico, de atuação municipal, tendo como líder Jilmar Tato, com possibilidade zero de vitória.
Na outra ponta, há lideranças com mais trânsito junto a outros setores, como Paulo Teixeira, Alexandre Padilha e Carlos Zaratini, mas fortemente identificados com o partido e, portanto, vulneráveis ao antipetismo que domina a cidade.
Finalmente, a possibilidade de uma chapa aliancista com Marta Suplicy, como vice de uma eventual candidatura Fernando Haddad. Seria uma candidatura competitiva, devido à penetração de Marta na periferia e junto a setores das classes altas, diluindo um pouco o antipetismo, mas sem garantia de vitória.
Não é uma parceria fácil. Marta deixou um oceano de mágoas do período em que largou o PT e abraçou a bandeira do impeachment. E Haddad enfrenta dilemas existenciais e políticos de monta.
A tentativa de lançar o advogado Marco Aurélio Carvalho como candidato foi uma maneira do grupo aliancista preservar o espaço, até a decisão final de Haddad.
Há o receio de que uma derrota para prefeito o tiraria do páreo nas eleições presidenciais de 2022. Por outro lado, há as suspeitas que, sem a visibilidade de uma campanha a prefeito, mesmo sendo derrotado, poderá ser engolfado por outras candidaturas.
De qualquer modo, a decisão final será de Lula e definirá definitivamente qual a estratégia política que Lula irá adotar, se do confronto ou da conciliação.

Peça 6 – os espaços ocupados

Na era tecnológica, as novas iniciativas têm vantagens sobre as tradicionais, devido ao legado – ou seja, a quantidade de softwares e sistemas antigos que não podem ser deixados de lado até que o novo esteja operando.
Em política ocorre o mesmo.
O legado do PT impede uma desenvoltura política maior de Lula.
Sem o legado do PT, Flávio Dino e o consórcio do Nordeste estão ocupando espaços, dentro da estratégia da conciliação. Dino é dono de uma biografia irrepreensível. Não tergiversou em momentos essenciais, enfrentou o mais consolidado coronelismo do nordeste, de José Sarney, e não deixou de procura-lo para enfrentar a peste Bolsonaro. Assim como seus colegas de outros estados da região, trabalha um conjunto de princípios relevantes, com políticas públicas tendo como foco o social e a organização produtiva dos pequenos, sem cair em armadilhas ideológicas.
Enquanto Lula tem dificuldades para selecionar seus interlocutores – devido ao “legado” -, Dino tem transitado em todas as frentes. Visitou a Casa das Garças, conversou com Luciano Huck. Tem posições sólidas, mas sabe defende-las sem o estilo de conflito de Ciro Gomes.
Obviamente, não tem a dimensão política de Lula, que continua sendo a grande liderança das esquerdas.
Mas há um tempo político que está se esgotando e, em breve, Lula terá que dizer a que veio. Seu maior adversário foi a imagem de salvador da pátria, com que foi aguardado por todos os órfãos de uma liderança capaz de aglutinar a oposição a Bolsonaro.  -  (Fonte: Jornal GGN - Aqui).

domingo, 26 de janeiro de 2020

TEÓRICOS DA CONSPIRAÇÃO ESPECULAM SOBRE SE TIO SAM PODERIA ESTAR POR TRÁS DO CORONAVÍRUS

                                          (Brincando Com Fogo)
Luo Jie. (China).
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1. "Não é difícil imaginar quem está por trás dessa epidemia na China! Tentaram as tais manifestações em Hong Kong e o governo chinês conseguiu domá-las. Agora partiram para essa epidemia."
2Pior que se você olhar para a localização geográfica de Wuhan... parece que foi a cidade 'escolhida' pelo potencial de causar o maior estrago possível. Ela fica bem no centro das 4 cidades mais importantes da China: Pequim (ao norte), Shanghai (ao leste), Hong Kong (ao sul) e Chongqing (ao Oeste). Chongqing é menos conhecida mas é a cidade mais populosa do mundo e tem importantes bases militares na pesquisa e desenvolvimento de armas chinesas, além de um grande parque de produção de veículos e motos). Wuhan é praticamente equidistante das 4 maiores cidades da China, além de ser populosa. Não há uma cidade melhor para escolher para uma epidemia se você quiser causar o maior estrago que afete o país como um todo."  -  (Aqui).
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(Mas os conspiracionistas esquecem que a epidemia do coronavírus vem de anos anteriores, o que derruba por inteiro a maionese).

CARTUM DO DEGELO INEXORÁVEL


Peter Kuper. (EUA).

OLHO NOS VÍDEOS (26.01.20)


Olho nos Vídeos


.TV Solnik - Alex Solnik:
De 2018 para cá, PT perdeu mais  
do que Bolsonaro ..................................... Aqui

.Paulo A Castro:
Quem vai devorar quem primeiro,
Moro ou Bolsonaro? .................................. Aqui.
Reforma da Previdência ou da indecência? ... Aqui.
Quando esse pesadelo vai acabar? .............. Aqui.

.Boa noite 247:
O desafio da esquerda nas redes sociais ...... Aqui.

.Click Política:
Cai o procurador que denunciou Glenn ........ Aqui.

CORONAVÍRUS: GOVERNO CHINÊS ADMITE QUE SITUAÇÃO É GRAVE

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"'Baseando-se na sequência da posição de genes, o novo coronavírus é diferente dos SARS e MERS [detectados nos anos passados]. Ele já passou da etapa de transmissão de animais para humanos para a etapa de transmissão de humanos para humanos', declarou Ma Xiaowei, ministro da Comissão Nacional de Saúde da China."  -  "Novo coronavírus é mais violento e acelera sua capacidade de propagação". -  Aqui.


Coronavírus: governo chinês admite pela primeira vez que situação é grave

O número oficial de mortos causado pelo surto de coronavírus na China aumentou neste sábado (25) de 26 para 41, e o governo chinês admitiu que a epidemia "está se acelerando" e coloca o país em uma "situação grave". A afirmação é do presidente Xi Jinping, que pediu unidade para enfrentar a epidemia.

Em uma reunião do comitê permanente do Bureau Político do Partido Comunista, a instância de sete membros que administra o país, o presidente afirmou que a China pode "vencer a batalha" contra o novo coronavírus.

"Dada a grave situação de uma epidemia que se acelera, é necessário fortalecer a liderança centralizada e unificada do Comitê Central do Partido", afirmou.
Desde o início da crise, 56 milhões de chineses foram isolados em áreas das quais não podem sair até novo aviso.  -  (Fonte: Aqui).
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Enquanto isso, seguem, incorrigíveis, os eternos adeptos da teoria da conspiração. Dois dos diversos comentários:
1. "Não é difícil imaginar quem está por trás dessa epidemia na China! Tentaram as tais manifestações em Hong Kong e o governo chinês conseguiu domá-las. Agora partiram para essa epidemia."
2Pior que se você olhar para a localização geográfica de Wuhan... parece que foi a cidade 'escolhida' pelo potencial de causar o maior estrago possível. Ela fica bem no centro das 4 cidades mais importantes da China: Pequim (ao norte), Shanghai (ao leste), Hong Kong (ao sul) e Chongqing (ao Oeste). Chongqing é menos conhecida mas é a cidade mais populosa do mundo e tem importantes bases militares na pesquisa e desenvolvimento de armas chinesas, além de um grande parque de produção de veículos e motos). Wuhan é praticamente equidistante das 4 maiores cidades da China, além de ser populosa. Não há uma cidade melhor para escolher para uma epidemia se você quiser causar o maior estrago que afete o país como um todo."

MORAL CARTOON


Céllus.

DA SÉRIE CONTRASTES E SUFOCOS

Iotti.
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"...O que fazer? Sair dessa bolha tautista da guerra cultural com um discurso propositivo. O incipiente apagão do serviço público (represamento dos benefícios do INSS e os graves problemas dos gabaritos do Enem) que promete se agravar ao longo do ano é o desgaste anunciado do governo junto às questões cotidianas dos brasileiros."  -  ('Cresce a aprovação a Bolsonaro: a esquerda à sombra das maiorias silenciosas', por Wilson Ferreira - Aqui).
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.Boa noite 247 (25.01.20) - Conde / Nando Motta:
Um ano do crime da Vale em Brumadinho ........................... Aqui.
.Bom dia 247 (26.01.20) - Attuch / Fontenele:
Lula parte para a guerra contra Bolsonaro .......................... Aqui.

CRESCE A APROVAÇÃO A BOLSONARO: A ESQUERDA À SOMBRA DAS MAIORIAS SILENCIOSAS

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"Mais importante do que isso é a percepção e a confiança da população em relação à grande mídia. Mais da metade confia nos três grandes canais de mídia: Globo, SBT, Record."


Cresce a aprovação a Bolsonaro: a esquerda à sombra das maiorias silenciosas 

Por Wilson Ferreira 

Era uma vez uma Oposição que achava que bastaria deixar Bolsonaro governar, tarefa para a qual é evidentemente desqualificado... e deixar sangrar até se demitir. Um ano depois, as coisas não estão bem assim: os números da pesquisa de opinião CNT-MDA deste mês revelaram um crescimento na aprovação a Bolsonaro. E que mais da metade dos entrevistados confia nas três grandes redes televisivas: Globo, Record e SBT. Bolsonaro continua um desqualificado (o início do apagão do serviço público começou com crises no INSS e Enem), mas a vitória, até aqui, na guerra da comunicação dá a vantagem da prestidigitação: a sua “guerra cultural”, na qual ganha de 7 X 1 de uma esquerda que caiu no alçapão deixado pela extrema-direita – a mídia progressista se esfalfa em denunciar que Bolsonaro é misógino, sexista, miliciano, pró-ditadura...  e daí? Para a maioria silenciosa, sobrevivendo no cotidiano, tudo isso é abstrato, “politicagem”. A grande mídia cria o chamariz com a pauta da guerra cultural (identidade, gênero, raça, etnia, meio ambiente etc.), aprisionando a esquerda em seu tautismo (tautologia + autismo midiático) – abandona a comunicação direta com a maioria silenciosa e se desconecta do deserto do real: a economia.

Bolsonaro é machista, misógino, fascista, miliciano, intolerante, xenófobo, ofende mulheres, índios, é sexista, racista, pró-ditadura militar, negacionista das mudanças climáticas e indiferente às questões ambientais. Não só a esquerda, mas também a grande imprensa nacional e internacional, acusa o ex-capitão da reserva de tudo isso... e daí? 
O que isso significa para o povão, imerso nos problemas do dia-a-dia entre o desemprego e o trabalho uberizado? Nada!
Pelo menos é o que sugere a Pesquisa CNT de Opinião, realizada em parceria com o Instituto MDA, de 15 a 18 de janeiro de 2020, mostrando os índices de popularidade do governo e pessoal do presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a pesquisa encomendada pela Confederação Nacional do Transporte, a aprovação do desempenho pessoal do presidente Jair Bolsonaro registrou um salto significativo, de 41% para 48%; sua rejeição, por sua vez, caiu de 54% para 47%.
E isso num período em que ocorreu o fato político mais significativo: a soltura do ex-presidente Lula, no início de novembro.
Também houve uma melhora expressiva na avaliação do governo: O percentual dos que acham o governo ótimo, passou de 8,0% para 9,5%; e os que acham o governo péssimo caíram de 27% para 21%. Somando as notas ótimo e bom, o governo registrou aprovação positiva de 34,5%, contra aprovação negativa (ruim e péssimo) de 31%. Na pesquisa anterior, de agosto, a aprovação positiva somava 29%, contra 39% de negativa.
Mais importante do que isso é a percepção e a confiança da população em relação à grande mídia. Mais da metade confia nos três grandes canais de mídia: Globo, SBT, Record.

A opinião pública não existe

Os resultados dessa pesquisa foram recebidos pelos blogs e sites progressistas, em sua maioria, entre o lacônico e a indiferença – entre a notícia sem análise ou simplesmente virando as costas e não falando nada sobre o assunto. 
Uma dessas exceções foi “O Cafezinho”, do jornalista Miguel do Rosário, que não só deu a notícia como também analisou os números que, segundo ele, representam um desafio para as estratégias de comunicação da esquerda – clique aqui
É claro que este Cinegnose partilha da tese do sociólogo Pierre Bourdieu: a opinião pública não existe! – nas pesquisas sempre a chamada “opinião” se confunde com “percepção” ou “sensação”. Ainda mais no contexto atual da pós-verdade: um grande arco que vai do menosprezo por fatos objetivos até a ignorância racional e o efeito “Dunnig-Kruger” – indivíduos acreditam saber mais do que especialistas por estarem abastecidos por clichês, sofismas e frases prontas transmitidas pela grande mídia e redes sociais.
Portanto, toda “pesquisa de opinião” deve ser recebida com um pé bem atrás. Porém, se ficarmos no campo das percepções e sensações os números da pesquisa MDA são importantes, principalmente porque a chamada Guerra Híbrida busca exatamente esse resultado – não se trata mais de propaganda política no sentido clássico (como inculcação político-ideológica ou doutrinária), mas de gerar atmosferas, sensações e dissuasão não mais numa opinião pública. Mas agora, num contínuo midiático atmosférico.


A dupla agenda

Nesse momento o contínuo midiático está ocupado por uma dupla agenda: de um lado, a guerra cultural que a grande mídia trava contra Bolsonaro (de ilações sobre as conexões do presidente com milícias e o assassinato de Marielle às pautas identitárias, étnicas, gênero e meio ambiente que ocupam o jornalismo corporativo); e do outro o clima de “agora vai” do crescimento econômico – das histórias motivacionais de desempregados numa enorme fila que acham emprego à maquiagem do desemprego através de contos igualmente motivacionais sobre empreendedores, que na verdade não passam de autônomos ou precarizados.
Essa é a agenda tautista (Tautologia + autismo midiático) que cria um fechamento operacional que isola o sistema midiático da realidade. O problema é que a esquerda é apenas reativa a esse contínuo midiático: vive, respira e reage à pauta definida pelas polêmicas criadas pela grande mídia e repercutida nas redes sociais.
A esquerda tautista é capturada por essa guerra já perdida por antecipação: a chamada “guerra cultural”, locus privilegiado da extrema-direita porque tira o foco da missão para qual ela chegou ao poder – cumprir à risca a agenda econômica neoliberal.
Bolsonaro apoia o feminicida goleiro Bruno? Roberto Alvim fez um vídeo nazi-fascista? Bolsonaro humilha Moro? Bolsonaro quer devastar a Amazônia? Um ministro tem sobre a sua mesa um livro enaltecendo o torturador Brilhante Ustra? A ministra quer abstinência sexual no Carnaval? A esquerda vive esse debate em looping, tautológico, reagindo com o fígado. O Ministro da Educação xinga Paulo Freire?
Vive por procuração o mesmo tautismo midiático. 


Guerra híbrida, guerra criptografada

O que significa tudo isso para a maioria silenciosa? O que significa essa pauta para o brasileiro comum que corre, pedala ou dirige contra o tempo com uma mochila do Uber Eats nas costas? O que representam as denúncias de feminicídio, misoginia, racismo, intolerância para uma desempregada que vive na informalidade vendendo brigadeiros e café numa térmica num ponto de ônibus? Ou então para aquele estudante universitário que luta para pagar a mensalidade vendendo doces veganos para os colegas nos intervalos? 
A resposta a essas perguntas está expressa nos números da pesquisa CNT-MDA. 
A chamada “guerra ciptografada” é uma mutação da guerra híbrida após o impeachment de 2016. A linha de passes combinada entre Governo e jornalismo corporativo cria dissonâncias, ataques, provocações propositais, sempre no âmbito das batalhas “culturais” – finge conflitos e produz conflitos artificiais.
Por exemplo: Bolsonaro cortou verba publicitária da Globo? Ora, a Globo já há algum tempo é rentista – basta ver seu intervalo publicitário ocupado por bancos, empresas de crédito pessoal e corretoras de investimentos, valores e títulos. 
Denunciar Bolsonaro e sua trupe familiar e de ministros de fascistas e ditadores nada quer dizer para as massas. Para o cidadão comum imerso nos problemas cotidianos não passa de “politicagem”, um bate-boca particular entre a esquerda e seu malvado favorito.
O problema mais profundo é que essa guerra criptografada é confortável para a esquerda porque realiza seu pressuposto: o kantismo (relativa ao filósofo Emmanuel Kant) – a crença na boa vontade e no senso de obrigação moral em relação aos direitos universais.


O “nazista” Roberto Alvim: inside job?

A esquerda cai no alçapão da guerra cultural porque as provocações calam fundo e escandalizam – atingem os valores kantianos universais da dignidade, cidadania e liberdade. 
Um vídeo tão canastrão quanto o de Roberto Alvim (emulando Goebbles através da roupa, corte de cabelo, fisionomia e gestual, disposição cenográfica – bandeira, foto e a cruz – e ainda com trilha musical de Wagner ao fundo... bem, Alvim foi diretor de teatro) arranca indignação da esquerda e linhas de postagens e minutos com vídeos de denúncias indignadas.
Tão canastrão, overacting e estereotipado que até parece planejado – um esquete tão hilário quanto aqueles do programa de TV “Monty Python Flying Circus” da trupe inglesa de humor. Teria sido um “inside job” para manter a esquerda ocupada nesse loop interminável?
Para a maioria silenciosa, tudo não passa de politicagem e por isso se apega “no pensamento positivo, a alguma esperança de que as coisas vão melhorar”, como aponta o jornalista Miguel do Rosário. E acrescenta:
Ironia mais cruel é testemunhar o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro inaugurar uma estratégia de comunicação que, com todos os seus imensos defeitos (autoritarismo, falta de educação, etc.), ao menos se esforça para manter uma comunicação direta com o público. Se a então presidenta Dilma tivesse se disposto a fazer 10% do que Bolsonaro faz em termos de comunicação, talvez não tivesse visto seu capital político ruir tão dramaticamente, e poderia ter evitado o impeachment.

O que fazer?

A esquerda ainda não percebeu os sintomas de uma espécie de “refeudalização da esfera pública”, muito próximo daquilo que Habermas (“Mudança Estrutural da Esfera Pública”) e Umberto Eco (“A Nova Idade Média”) antecipavam como movimento histórico regressivo: absorvidas pelos seus problemas cotidianos e amedrontadas, as pessoas escondem-se nas suas vidas privadas, alheias ao que se passa lá fora – na Idade Média, o poder político da Igreja e as Cruzadas. Hoje, escondem-se alheias às ameaças aos direitos e a vida cada vez mais difícil.
O que fazer? Sair dessa bolha tautista da guerra cultural com um discurso propositivo. O incipiente apagão do serviço público (represamento dos benefícios do INSS e os graves problemas dos gabaritos do Enem) que promete se agravar ao longo do ano é o desgaste anunciado do governo junto às questões cotidianas dos brasileiros. 
É um tema que a esquerda até aqui não explorou, enquanto está hipnotizada por coisas como a canastrice do ministro da cultura demitido.
As pitonisas e oráculos midiáticos da pauta econômica falam diariamente que a economia “pegou tração” e que a recuperação é “lenta”, mas “constante” e que até o final de 2020 tudo melhorará.
Então é o caso de cobrar, propositivamente, as melhorias – mostrar para os brasileiros se alguma coisa está mudando no seu cotidiano.
Mais do que falar em “frentes amplas” contra o fascismo e a escalada do autoritarismo (“fascistas não passarão!”), coisa abstratamente incompreensível para a maioria silenciosa imersa nos problemas do dia-a-dia, é necessário mergulhar na economia cotidiana – de forma didática, pedagógica.
Como abordamos em postagem anterior, na verdade há, por assim dizer, uma “sabedoria” nessas maiorias silenciosas – clique aqui
Por exemplo, desde que Lula foi condenado e preso, acreditava-se em lutas monumentais, resistências em trincheiras. Esperava-se um país paralisado e mobilizado, tornando a nação ingovernável para os usurpadores. Mas tudo o que viu foi silêncio das ruas, das favelas e periferias.
E que sabedoria há nesse silêncio? Até aqui, absorvida pelas guerras culturais impulsionadas pelas bravatas, provocações e escatologias de Bolsonaro e seus indefectíveis ministros, a esquerda não teve a menor intenção de conquistar corações e mentes dessa maioria silenciosa.
Em nenhum momento teve a iniciativa de explicar didática e pedagogicamente para o brasileiro comum das ruas no que as reformas e privatizações prejudicam e prejudicarão ainda mais o seu dia-a-dia no presente e no futuro.
 Seja através de formas físicas como folders, cartilhas ou a construção de sites, newsletters ou quaisquer formas de mídias alternativas à superficialidade das redes sociais. Aproveitar a estrutura partidária ou a máquina sindical para produzir veículos de comunicação que não falem somente para os convertidos.
A sabedoria dessa apatia das maiorias silenciosas reflete a própria desistência da esquerda pela conquista dos corações e mentes das massas – a busca de formas didáticas e pedagógicas que ajudem a explicar nexos e relações de causa e efeito para o brasileiro que afunda a cara no aplicativo achando que um dia sua força de trabalho magicamente vai se transformar em capital.  - (Fonte: Blog CinegnoseAqui).

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. Comentário deste Blog:

"Mais importante do que isso é a percepção e a confiança da população em relação à grande mídia. Mais da metade confia nos três grandes canais de mídia: Globo, SBT, Record."
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Justamente as grandes parceiras da Lava Jato, que, como diz o ministro Gilmar Mendes, aparentou, em 'n' situações, combater o crime incorrendo em desrespeitos à Constituição Federal e leis diversas. Excessos e distorções, somados à espetacularização das operações, incutiram na opinião pública a 'convicção' de que, sim, a corrupção correra solta, e mais, com o beneplácito do maior partido de esquerda. Mas, para se ter ideia da complexidade do caso, cumpre lembrar que Nestor Cerveró, Pedro Barusco, Delcídio do Amaral e Paulo Roberto Costa iniciaram suas atividades executivas na Petrobras ainda no governo FHC, e foram mantidos pelo novo governo uma vez que inexistiam registros que os desabonassem e os partidos que apoiariam o novo governo no Parlamento assim o exigiam. Mas a despeito de inexistirem registros desabonadores, é fato que a apuração da maioria dos casos sugeriu a prática de crime continuado, sem que, entretanto, se possa negar, por exemplo, a parcialidade do juiz de base Sergio Moro na condução dos processos. A propósito, clique Aqui para conferir o vídeo (em torno de 15 minutos) "Depoimento de Delcídio do Amaral / Em dia de fúria, Moro destrata advogados, rasga o Código de Processo Penal e samba por cima do STF". O que torna lícito dizer que a colaboração da mídia constituiu peça vital para a formação da imagem das atuais oposições perante a opinião pública - que, como já frisado, ignora os excessos praticados pelos responsáveis ao combate aos malfeitos. Por último, e a título de informação: Nos próximos meses, o STF poderá deliberar acerca de pedido de Habeas Corpus formulado pela defesa do ex-presidente Lula, que pleiteia a decretação da suspeição do referido ex-juiz de base. Ou não, como diria o outro.

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.Comentários selecionados

Do leitor Milton: "... A esquerda espera um nível de inteligência e reflexão que é incompatível com o grande público. É tão impossível quanto querer ensinar filosofia para um buldogue francês."

Do pessimista Hue: "Em resumo: a esquerda perde por ser esquerda. Ou seja, por ser um corpo ideológico. Talvez se ela passar a travar a "batalha" através das coisas cotidianas das massas silenciadas do cotidiano, talvez ela chegue a entender ou se tornar nada mais nada menos do que apenas um aparelho funcional da parafernália política, o que ninguém quer a essa altura do campeonato (nem esquerda e nem direita, talvez um pouco os liberais dependendo do partido). O maior medo é de deixar de ser aquilo que acredita que tenha se tornado. (...).

E me questiono se, ao passar a olhar para a idade média do cotidiano, se esquerda conseguiria articular seus ideais ainda com o mesmo vigor de antes. E, em última instancia, se não correria o risco de descobrir que não é mais útil, pois suas ideias não caberiam mais ao povo." 


Postagens Relacionadas









(Cinegnose).

sábado, 25 de janeiro de 2020

OLHO NOS VÍDEOS (25.01.20)


Olho nos Vídeos


.Jessier Quirino:
O causo do doce de leite de caroço ............. Aqui.

.TV GGN - Luis Nassif:
Xadrez da radicalização política .................. Aqui.

.Portal do José:
Guedes: "Vamos espancar servidores".
Pasto, pastores, Globo e mendigos ............. Aqui.

.Paulo A Castro:
As novas jogadas entre Bolsonaro e Moro .... Aqui.
Em dia de fúria, Moro passou por cima 
do STF, do MPF e das defesas .................... Aqui.
Reinaldo Azevedo: "Não fui censurado" ....... Aqui.

INGENUOUS CARTOON

Quinho.
....
- Ingenuous cartoon?
- Claro, e põe ingenuidade nisso!

ÁLVARO MOREYRA: AS AMARGAS, NÃO... (LEMBRANÇAS)

Por Graciliano Ramos
Conheci Alvaro Moreyra em 1937 e desde então sempre o achei um homem bom, simples e honesto. 
Nesses treze anos muita água correu por baixo das pontes. Invencíveis países se escangalharam, outros se dispõem com galhardia a ter o mesmo fim. No ambiente literário do Brasil numerosas transformações se deram: gente que vivia no leste passou ligeira para oeste, e é comum cidadãos cautelosos acenderem ao mesmo tempo velas a Deus e ao Diabo. Na contradança das opiniões, Alvaro Moreyra permaneceu fiel às suas idéias. Certo, o indivíduo não é obrigado a pensar invariavelmente de um jeito. Posso hoje ser ateu e amanhã resolver-me a adorar Jeová, cobrir de cinza a cabeça nas lamentações, freqüentar a sinagoga. Mas se a mudança rápida me for vantajosa, leva o público a dúvidas. O escritor necessita especial coragem para tal conversão, que inutiliza a obra realizada. Salvo se o sujeito escreve apenas com o intuito de encher papel.
Diferente espécie de coragem possui Alvaro Moreyra. Perfeita coerência, na verdade prejudicial, se virmos as coisas do lado prático. Não é agradável andar uma pessoa a chocar em portas fechadas, esforçar-se por escalar muros altos, enquanto em redor cavalheiros hábeis usam com proveito escadas e gazuas. Homem honesto.
Devo referir-me aos outros dois adjetivos empregados ali no começo destas linhas. Alvaro Moreyra tem uma singeleza quase infantil. Rijos padecimentos não lhe deitaram amargor na alma; conservou neles estranha doçura. Oculta as dores com sorrisos, conta-nos anedotas: parece recear transmitir-nos a sua mágoa. Somos bichos complexos, o ofício nos torna vaidosos. E causa-nos espanto vê-Io tão sincero e modesto. Vamos encontrá-Io à mesa, redigindo; olhamos o trabalho, sugerimos alteração. Acha o conselho razoável e agradece. Expõe minucioso as qualidades de um amigo ausente, ótimo companheiro. Esfrega as mãos a exagerar virtudes que dificilmente percebemos. Dá-nos a impressão de julgar a nossa camaradagem um favor. Homem simples.
E bom. Não consigo furtar-me às comparações. Manejamos folhas - e mordemo-nos. Atacar é fácil, gostamos de atacar. Se temos ensejo de louvar alguém, ficamos atrapalhados. Não sabemos cantar loas. Almas secas, duras. Que diabo vamos elogiar nesta miséria? Somos ásperos. Egoístas, mesquinhos, a naufragar, buscando terra dentro do nevoeiro. A terra está próxima, chegaremos lá. Dificil entender isso. E continuamos a arranhar-nos. Nesta tristeza, Alvaro Moreyra nos dá uma lição. Quer juntar-nos, ignora os nossos defeitos. Impossível notar a fraqueza e a maldade. Homem bom.  -  (Fonte: Aqui).
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(Graciliano Ramos, escritor brasileiro que dispensa comentários, sobre o livro de memórias de Álvaro Moreyra, "As amargas, não... [Lembranças]", 392 páginas, publicado em 1954. 
Álvaro Moreyra - Porto Alegre, 1888 / Rio de Janeiro, 1964 -, poeta e cronista, publicou seu primeiro livro - "Degenerada", poemas - em Porto Alegre, onde já publicava trabalhos em jornais locais. Formado em Direito no Rio de Janeiro - 1912 -, foi colaborador da revista Fon-Fon e diretor das revistas Paratodos, Dom Casmurro, O malho e Ilustração Brasileira. Publicou vários livros de crônicas e poesias. Seu último livro - póstumo - foi publicado em 1994: "Cada um carrega o seu deserto", poemas. 
"Nesta tristeza, Alvaro Moreyra nos dá uma lição. Quer juntar-nos, ignora os nossos defeitos. Impossível notar a fraqueza e a maldade. Homem bom." Assim falou o grande Graciliano Ramos, entre outras, sobre Álvaro Moreyra).