terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

ANALISANDO O FILME "A SERIAL KILLER'S GUIDE TO LIFE"

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"É interessante que a crítica aponte A Serial Killer’s Guide To Life como a Thelma e Louise do século XXI. No clássico de 1991 do diretor Ridley Scott víamos a emancipação feminina com forte conotação política, feminista, principalmente pela aliança masculina com o poder policial que estava nos calcanhares das heroínas. Aqui no filme de Staten Cousins Roe, o feminismo é substituído pela fria sociopatia – emancipação é o resultado da manipulação na busca de supremacia e poder."


Autoajuda e sociopatia em "A Serial Killer's Guide to Life" 

Por Wilson Ferreira

“A Serial Killer’s Guide to Life” (2019) é um filme para quem gosta de humor negro – uma arrasadora crítica à indústria da Autoajuda através de alusões a “Laranja Mecânica”, “Thelma e Louise” e, na sequência final, “Clube da Luta”. Uma jovem viciada em literatura de autoajuda involuntariamente se vê em uma onda de assassinatos com uma coach desequilibrada, que aspira se tornar uma autora comercialmente bem-sucedida na área. Como? Assassinando a concorrência! Organizada como um guia para o sucesso, a narrativa é dividida em sete passos com lições que revelam uma contradição fundamental na autoajuda: o primeiro passo para o crescimento é ser você mesmo, espontâneo, para libertar sua força interior. A ironia é que quanto mais você admite isso, mais precisará seguir as regras da autoajuda ditadas com um guru. E o resultado pode ser um comportamento sociopata.

Autoajuda é uma indústria milionária que enche livrarias e salas de conferências. Supõe-se que tenha mudado a vida para melhor de muitos consumidores de seus livros, DVDs, webnaries (Nota deste Blog: webnaries = vídeo/conferência + comentários instantâneos por escrito) etc. Mas ainda falta credibilidade para muitos autores que viraram celebridades midiáticas.
A psicologia clínica também tem um histórico de transformações pessoais, mas pelo menos você se deita no divã e sabe que está lidando com um especialista qualificado que tem atrás de si mais de 100 anos de pesquisa empírica e científica.
O fato é que enquanto a psicologia clínica é revisada pelos seus pares, a indústria de autoajuda é orientada para o mercado. 
Desde o clássico de 1936 “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, de Dale Carnegie, ou “O Poder do pensamento Positivo”, de Vincent Peale, de 1952, a Autoajuda conseguiu transformar um importante preceito espiritual gnóstico (conhece a ti mesmo) em cinco problemas que na verdade se transformaram no leitmotiv (Nota deste Blog: leitmotiv = manifestação que se repete em circunstância específica, 'incorporando-se' a determinado objeto ou ideia) dessa indústria: 
(a) A Autoajuda reforça as percepções de inferioridade e vergonha de si mesmo; 
(b) Essa percepção de vergonha ou indignidade cria uma forma profunda de ansiedade que substitui uma neurose por outra – pense em alguém que vem de uma condição de alcoolismo e que não consegue manter um emprego e que depois passou a meditar e fazer ioga cinco horas por dia e... continua não mantendo um emprego.

(c) O marketing da autoajuda cria expectativas irreais – não cria mudanças reais, mas a percepção de mudanças reais;

(d) A Autoajuda continua não tendo validade científica, criando uma colcha de retalhos de ciência (Programação Neurolinguística, neurociência etc.) misturado com cacos de esotéricos como “leis de atração”, “cristais”, “tarô” etc.

(e) E por último, e não menos importante... Há uma contradição fundamental na Autoajuda: o primeiro passo para o crescimento é admitir que você está bem e que não precisa necessariamente da ajuda de outra pessoa... A ironia é que quanto mais você admite isso, mais precisará dos conselhos de alguém.
O filme A Serial Killer’s Guide To Life (2019) é uma bem-humorada (para quem gosta de humor negro) e arrasadora crítica à indústria da Autoajuda através de um alucinado mix de Laranja Mecânica, Thelma e Louise e Clube da Luta – quem prestar atenção à sequência final, descobrirá a alusão ao filme de David Fincher.
Cinicamente, a narrativa assume a forma de um guia dividido em sete passos para você supostamente ou se tornar um autor de autoajuda de sucesso ou alcançar o próprio sucesso em qualquer coisa que faça. Estão lá, nesses sete passos, os cinco problemas apontados acima sobre o conceito de Autoajuda.


Por si só, a sinopse do filme já é insana: uma viciada em autoajuda involuntariamente se vê em uma onda de assassinatos com uma coach desequilibrada, que aspira se tornar uma autora comercialmente bem-sucedida na área. Como? Assassinando a concorrência! 

O Filme

Dirigido e escrito pelo estreante em longas-metragens Staten Cousins Roe, o filme é a expansão do argumento de um curta criado por ele em 2013 chamado This Way Out.
A Serial Killer’s Guide To Life acompanha Lou (Katie Brayben), nos seus 30 e poucos anos, ainda vivendo na casa de uma mãe possessiva, arrogante e trabalhando como assistente de uma pequena loja da família em sua pequena cidade natal na Inglaterra. Sua mãe constantemente joga na cara da filha sua vida fracassada, comparando-a com sua amiga, advogada bem-sucedida.
Lou é viciada em autoajuda, consumindo vorazmente livros, CDs e fitas de áudio de uma celebridade de fala mansa chamado Chuck Knoah (Ben Lloyd-Hughes). Nada é bem-sucedido, mas pelo menos, enquanto lê e ouve os mantras de autoajuda, consegue uma breve fuga do cotidiano medíocre e da sua mãe dominadora.
Até que um dia, enquanto participa de um encontro local de terapia de autoajuda, conhece a misteriosa Val (Poppy Roe) que ridiculariza todos os gurus ali reunidos e promete para Lou a verdadeira viagem de auto-aperfeiçoamento da sua vida. Esse é o momento “Thelma e Louise” do filme: Val propõe uma viagem de carro através do Reino Unido, visitando guias conceituados e especializados em diversas áreas – uma sucessão engraçada de gente abraçando árvores para captar energias da natureza, terapias por vibrações sonoras, posições de ioga para simular a viagem pelo canal do parto...


Lou cria coragem e deixa sua mãe para trás, partindo para um road movie de libertação. Mas aos poucos começa a perceber que as coisas não são como parecem. E que no fundo, quem está precisando de ajuda é Val.
Quem diria que a jornada de autoconhecimento de Lou fosse tão violenta! O objetivo de Val é simplesmente se tornar a especialista de autoajuda mais conhecida do mundo e, para isso, planeja matar todos os outros gurus que encontrar pelo caminho.
Esse é o momento Laranja Mecânica do filme. A violência é menos graficamente sangrenta e muito mais coreografada e acompanhada por música clássica, ao melhor estilo de Kubrick – punhaladas, rolos de macarrão e martelos conferem sequências de humor negro, mostrando que para Val a questão não é a violência – ela quer supremacia e poder.
A dupla Lou e Val tem a química perfeita pelo contraste: Lou tenta tão desesperadamente acreditar nas lições da coach Val que impossível não sentirmos empatia por ela; enquanto Val vai para o extremo oposto do espectro: possui um equilíbrio sobrenatural entre a frieza e a sociopatia.  


Sociopatia

Durante a jornada, os gurus se apresentam nas situações mais ridículas, em rituais e terapias constrangedoras e non sense. À primeira vista, a serial killer Val pode ser interpretada como a revanche dos discípulos que sempre foram ludibriados pelas promessas impossíveis da autoajuda.
Mas há algo de mais sombrio: a sociopatia como resultado dessa espécie de “double bind” (conceito do antropólogo Gregory Bateson – 1904-1980) esquizofrênico – o kit da autoajuda diz para sermos “espontâneos” e “sermos nós mesmos”, porém desde que sigamos um guia determinado por um coach. O resultado é a sociopatia – um comportamento frio e manipulativo nas relações cotidianas, buscando domínio e poder.
Filmado em locações no sul do Reino Unido, fazemos um tour pelas belas paisagens inglesas quando Lou e Val pegam a estrada para a próxima matança. À medida que a história se desenvolve, vemos Lou se transformar em um personagem mais confiante e seguro de si, auxiliado pelos incentivos e "sabedoria" de Val. Apesar da violência, estamos felizes por elas se conhecerem e queremos que elas tenham “sucesso” – seja o que isso possa significar para um serial killer...
É interessante que a crítica aponte A Serial Killer’s Guide To Life como a Thelma e Louise do século XXI. No clássico de 1991 do diretor Ridley Scott víamos a emancipação feminina com forte conotação política, feminista, principalmente pela aliança masculina com o poder policial que estava nos calcanhares das heroínas.
Aqui no filme de Staten Cousins Roe, o feminismo é substituído pela fria sociopatia – emancipação é o resultado da manipulação na busca de supremacia e poder.
Em outras palavras, o feminismo abandona o campo político para ser cooptado pela indústria da autoajuda.  -  (Fonte: Cinegnose - Aqui).

Ficha Técnica 

Título: A Serial Killer’s Guide To Life
Diretor: Staten Cousins Roe
Roteiro: Staten Cousins Roe
Elenco: Katie Brayben, Poppy Roe, Ben Lloyd-Hughes 
Produção: Forward Motion Pictures
Distribuição: Arrow Films
Ano: 2019
País: Reino Unido

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