sábado, 27 de junho de 2026

EUA X BRASIL: A INTERVENÇÃO SUBTERRÂNEA

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(O que virá até as eleições brasileiras?)


Por Sara Vivacqua

Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, anunciou em 10 de junho, na base naval da Baía de Guantánamo, que Washington está “retomando o controle do nosso hemisfério” e que, para isso, já está implantando na América Latina a mesma inteligência, as mesmas redes e a mesma força militar usadas contra a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio, em coordenação com os países aliados do Escudo das Américas.

“Estamos caçando vocês como caçamos a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio – com as mesmas redes e a mesma inteligência”, disse Hegseth às tropas, em uniforme de treinamento. Invocou a Doutrina Monroe do século XIX e o que ele chamou de novo “Corolário Trump” – uma atualização do Corolário Roosevelt que trata o hemisfério ocidental como “território chave” para a segurança nacional dos EUA. 

No Brasil, maior país e economia da América Latina, essa nova arquitetura deixou de ser uma abstração em 5 de junho. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram designados pelos Estados Unidos como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês) e “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGT, na sigla em inglês) – as mesmas categorias legais aplicadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Mas o Brasil não foi o primeiro. A campanha de designação já durava mais de um ano. Em 20 de fevereiro de 2025, oito cartéis latino-americanos foram designados como FTOs e SDGTs de uma só vez: Tren de Aragua, MS-13, Cartel de Sinaloa, CJNG, Cartel del Noreste, La Nueva Familia Michoacana, Cartel del Golfo e Carteles Unidos. Em outubro de 2025, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA (OFAC) foi ainda mais longe. Incluiu o presidente colombiano Gustavo Petro – um chefe de Estado eleito e em exercício – diretamente à Lista SDN.

Agora, o OFAC, órgão responsável pela aplicação de sanções econômicas e pelo congelamento de ativos de pessoas e entidades sancionadas – atualizou sua lista de sanções (a Lista de Nacionais Especialmente Designados e Pessoas Bloqueadas, ou Lista SDN) para classificar o PCC e o Comando Vermelho como um “Grupo Terrorista Transnacional” e uma “Organização Criminosa”. Embora a designação criminalize a própria entidade como terrorista, a inclusão significa que qualquer indivíduo, banco, empresa ou instituição – dentro ou fora dos Estados Unidos – com qualquer exposição às organizações designadas fica sujeito a sanções secundárias e processo criminal. Este instrumento garante o isolamento financeiro global de qualquer entidade classificada, estendendo o alcance da doutrina muito além das fronteiras norte-americanas.

Como resultado, o Brasil está sendo inserido na mesma estrutura legal antiterrorista aplicada a esses grupos no Oriente Médio, em um contexto de crescente presença militar dos EUA na região, incluindo Paraguai e Argentina. Empresas, instituições e indivíduos brasileiros estão agora potencialmente sujeitos a sanções do OFAC mesmo fora dos Estados Unidos, e passíveis de sanções sob leis arbitrárias de imigração e segurança nacional dentro do país.

Lula, o presidente brasileiro, é alvo do governo Trump.

Não é mera improvisação retórica que a família Bolsonaro tente vincular Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) ao PCC desde 2022 – uma alegação falsa que levou o TSE a ordenar a remoção das publicações relevantes e a multar Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro agora reativa a mesma estratégia em escala internacional, buscando transformar a oposição ideológica em suspeita criminal e pavimentar o caminho para a criminalização internacional de seus adversários – incluindo Lula pessoalmente, em ano eleitoral.

Hegseth não fez sua declaração em Guantánamo como ex-apresentador do programa Fox & Friends Weekend, posto que um dia ocupou, mas como chefe civil do Pentágono — a maior máquina de guerra do mundo — e o oficial responsável por todo o aparato militar dos EUA. Seu cargo é o segundo mais alto na cadeia de comando militar, abaixo apenas do presidente.

O que Hegseth descreve não é uma metáfora. Trata-se da transferência literal da doutrina, dos métodos e da infraestrutura da Guerra ao Terror pós-11 de Setembro para a nova guerra ao terror de Trump contra o “extremismo violento de esquerda” transnacional. A nova arquitetura foi inaugurada pela Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026 , assinada por Trump em 6 de maio.

Esse documento fundiu, pela primeira vez na história dos EUA, três categorias oficiais de ameaça terrorista em uma só: “narcoterroristas e gangues transnacionais”, “terroristas islâmicos tradicionais” e – algo sem precedentes – “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas”.

Hegseth citou a Estratégia como a Carta Magna da ofensiva para “retomar nosso hemisfério”, alegando que os presidentes anteriores “ignoraram a Doutrina Monroe por tempo demais” e “fingiram que nosso próprio quintal não importava”.

Não é coincidência que Hegseth tenha passado 45 minutos na Baía de Guantánamo — um local de tortura e de ocupação ilegal do território cubano pelos EUA — elogiando a operação militar que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro em minutos. Ele saudou essa operação contra a Venezuela como o grande ensaio geral para colocar a doutrina em prática.A nova guerra de Trump contra o terror afasta-se da doutrina do terrorismo “árabe-religioso”, deslocando a guerra contra o jihadismo para o cerne da luta ideológica contemporânea da era pós-7 de outubro dentro da própria sociedade civil – incluindo o combate ao “extremismo de esquerda”.

Diversos documentos e atos oficiais do governo Trump estabelecem uma doutrina clara, bem documentada e oportunista contra uma nova forma de suposto terrorismo ideológico: o “extremismo violento de esquerda”. A estratégia é global. Nos Estados Unidos e na Europa, essa doutrina se traduz em campanhas de securitização e criminalização da sociedade civil – sobretudo dos movimentos de solidariedade à Palestina e de imigração –, enquanto na América Latina assume a forma de uma ruptura muito mais radical. (...).

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Subterrânea?! 

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