terça-feira, 25 de março de 2014

PRÊMIO HANS CHRISTIAN ANDERSEN 2014

                                Ziraldo, o ilustrador Roger Mello e Martha Suplicy.

 Brasileiro conquista Nobel da literatura infantojuvenil

O ilustrador brasileiro Roger Mello conquistou o prêmio Hans Christian Andersen, atribuído pelo Conselho Internacional sobre Literatura para os Jovens (IBBY) a autores de literatura para a infância e juventude. A premiação ocorreu nessa segunda-feira (24), na Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, que completa 50 anos e tem como país homenageado o Brasil. O prêmio Hans Christian Andersen é considerado o Nobel da literatura infantil e juvenil.

Roger é o primeiro brasileiro a receber a honraria na categoria ilustrador. Antes dele, o Brasil foi vitorioso no prêmio na categoria escritor, com Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000).

O ilustrador Ziraldo e a ministra da Cultura, Martha Suplicy, prestigiaram o evento.

Roger Mello já tinha estado entre os finalistas em 2010. Tem 49 anos e 25 anos de carreira na literatura, e já ilustrou cerca de uma centena de obras. Mello alcançou a premiação, segundo o júri internacional da IBBY, porque a ilustração dele explora a história e a cultura do Brasil, demonstra a admiração pelos costumes, é inovadora e inclusiva e dá às crianças a oportunidade de entrar nas histórias pela sua própria imaginação. (Fonte: aqui).

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Ilustração: Roger Mello.

(Pincei do blog Muitos Desenhos - aqui -, de Mariana Massarani - por sinal, talentosíssima ilustradora).

VOO MH370


César.

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Lamentos à parte, convém notar: até o momento, nenhum destroço localizado, nenhuma evidência oferecida, nenhuma explicação convincente...

SOBRE O RISCO BRASIL


A agência de risco Standard & Poor's rebaixou a nota do Brasil de BBB para BBB-, o que a Fazenda rebate - aqui -: a medida é "inconsistente com as condições da economia brasileira" e "contraditória com a solidez e os fundamentos do Brasil".

À vista dos motivos apontados pela agência, a Fazenda contrapõe:

a) no período da crise internacional iniciada em 2008, o Brasil cresceu 17,8%, uma das maiores taxas acumuladas de crescimento entre os países do G20, sendo que no ano passado, o País cresceu 2,3%, desempenho superior ao da maioria dos países desse grupo;

b) com a poupança de 1,9% do PIB em 2013 (a qual se repetirá em 2014) para pagamento dos juros da divida pública, o governo conseguiu reduzir o endividamento público, tanto bruto (de 58,8% do PIB para 57,2% do PIB) como líquido (35,3% do PIB para 33,8% do PIB);

c) Investimento Estrangeiro Direto no País (IED): o Brasil tem estado entre os 5 maiores receptores mundiais de IED; no período de 12 meses - até fev/2014 -, o montante recebido alcançou US$ 65,8 bilhões em tal rubrica;

d) o Brasil possui o quinto maior volume de reservas internacionais do G20, o que corresponde a dez vezes a sua dívida externa de curto prazo.

Seria interessante o debate público entre representante de avaliado X porta-voz de agência de risco (tudo pela democracia e transparência!), o que poderia acontecer por ocasião do anúncio da nota ou após conhecido o novo PIB/demais indicadores.

Fantástica, mesmo, teria sido a interpelação pública das agências de risco (as três mais importantes - ou mesmo uma delas) após o pico da crise financeira internacional de 2008. O que diriam elas para explicar as excelentes notas que até 2007 vinham gentilmente atribuindo aos grandes bancos e financeiras responsáveis pelas hipotecas podres e derivativos tresloucados que deram causa ao desastre mundial?

FUROS À PARTE: AGÊNCIAS DE RISCO SE ACHAM AAA


Frederick Deligne.

O PAPA FRANCISCO E A MÍDIA

"Mas existem também os pecados da mídia! Permito-me falar um pouco sobre isto. Para mim, os pecados da mídia, os maiores, são aqueles que seguem pelo caminho da mentira e são três: a desinformação, a calúnia e a difamação. Estes dois últimos são graves, mas não tão perigosos como o primeiro. Por quê? Vos explico. A calúnia é pecado mortal, mas se pode esclarecer e chegar a conhecer que aquela é uma calúnia. A difamação é um pecado mortal, mas se pode chegar a dizer: ‘esta é uma injustiça, porque esta pessoa fez aquela coisa naquele tempo, depois se arrependeu, mudou de vida’. Mas a desinformação é dizer a metade das coisas, aquilo que para mim é mais conveniente e não dizer a outra metade. E assim, aquilo que vejo na TV ou aquilo que escuto na rádio não posso fazer um juízo perfeito, pois não tenho os elementos e não nos dão estes elementos. Destes três pecados, por favor, fujam! Desinformação, calúnia e difamação."


(Papa Francisco, em discurso na rede de rádio e TV católica italiana Corallo, enaltecendo as virtudes da verdade - e nos fazendo pensar a respeito da grande mídia brasileira. A maneira de fugir de tais pecados é conhecer o máximo de versões possíveis sobre os fatos, não limitar-se a ver ou a dar ouvidos a uma só fonte informativa - ou a fontes cartelizadas, que distorcem a realidade conforme suas conveniências. O discurso está aqui, na rádio Vaticano. E em vídeo - AQUI).

TORTURA: MISSÃO CUMPRIDA

Foca Cruz.

Tortura: missão cumprida

Por Marcelo Rubens Paiva

Muitos artistas quando se mandaram para o exílio deixaram composições atemporais, como Aquele Abraço (Gilberto Gil), London London (Caetano Veloso) e Samba de Orly (Chico Buarque): "Vai, meu irmão, pega esse avião, você tem razão de correr assim...".

Outras relatavam o que acontecia por aqui para os que estavam por lá, como O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco), que homenageava Clarice Herzog e todas as Marias: "Que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu, num rabo de foguete. Chora, a nossa Pátria mãe gentil, choram Marias e Clarices, no solo do Brasil...".

Então veio a Anistia. Veio o hino Tô Voltando (Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós): "Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto, eu tô voltando. Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama, eu tô voltando...".

Muita gente que canta estas músicas desconhece a referência. Quando a música é boa pode ser reinterpretada e referendada por cotidianos variados.

Você já deve ter visto: Tô Voltando virou trilha de comercial de cerveja. Mudaram a letra. "Sou a paixão do planeta, a emoção, sou a bola rolando, eu tô voltando. Pode estender a bandeira, arrumar a TV, as cadeiras, eu tô voltando..." A maioria que vê o comercial não tem ideia do que a original representou. A História é consumida e se integra, como titânio no osso.

As redes sociais possibilitaram uma descoberta: a maioria não tem ideia do que se passou há décadas; a maioria reproduz certezas contadas por alguém, viu num vídeo do YouTube, ouviu falar, leu num site de fulano, que tem a fonte segura e informações dos bastidores das verdades absolutas. A verdade é inviolável?

A Lei da Anistia é das poucas que perduram, apesar da Constituição de 1988. Virar a página, é a sua proposta. No entanto, foi questionada pela OAB através da ADPF 153 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) em 2010, é questionada pela OEA (Organização dos Estados Americanos). O "esquecimento" e o "perdão" são revistos em Comissões da Verdade, uma nacional, algumas estaduais e até setoriais, como a da USP.

O Ministério Público Federal investiga por conta própria e levará para os tribunais alguns casos de antes e depois da Lei, como o atentado ao Riocentro e as torturas cometidas em instalações militares. Levou o coronel reformado Brilhante Ustra, chefe do DOI/Codi-SP, identificado por muitos presos políticos como Dr. Tibiriçá, torturador impiedoso, anistiado.

Mas a Advocacia-Geral da União defende que a Lei da Anistia foi uma conquista democrática. Tese defendida pelo ex-deputado Fernando Gabeira, ele próprio, um anistiado. O STF deu a palavra final e se colocou contra a revisão.

O filósofo Denis Rosenfield, da UFRGS, que escreveu O Que É Democracia?, da mítica coleção Primeiros Passos (Brasiliense), resumiu o pensamento dos contrários: "A Lei da Anistia, negociada entre militares democratas, políticos do establishment e a oposição do MDB, com amplo apoio da sociedade civil, foi assinada por Figueiredo em agosto de 1979, abrindo realmente caminho para a redemocratização do País".

Abriu sim o caminho para a redemocratização. Mas foi promulgada por representantes de um regime que não tinha alternância no Poder, nem controle civil sobre militares, em que o cidadão não tinha direito amplo de votar e ser eleito, controle das decisões governamentais, direito de se associar livremente.

1. As manifestações e passeatas que pediam Anistia eram reprimidas com violência. De um lado, estudantes, religiosos, ABI, OAB. Do outro, Tropa de Choque de Erasmo Dias, Newton Cruz e todo aparelho repressivo disponível.

2. As entidades da sociedade civil eram ameaçadas. Não tiveram sossego nem mesmo depois da promulgação da lei: um bispo foi sequestrado, a OAB e bancas de jornais sofreram atentado, e o Riocentro, atacado.

3. O Congresso que a aprovou vivia sob um regime bipartidário artificial criado durante a ditadura, que cassou partidos. Tinha muita pressão sobre as decisões do plenário; no dia da votação da emenda Dante de Oliveira, anos depois, o Congresso foi cercado por tropas comandadas pelo general Newton Cruz, num cavalo branco, para intimidar os partidários das eleições diretas.

4. Parte do Congresso foi sendo cassada desde o dia 9 de abril de 1964. Foram ao todo 17 Atos Institucionais e 104 Atos Complementares. Deputados, senadores, ex-presidentes, trabalhadores, militares, até professores, foram impedidos de exercer o direito político.

5. Com o avanço da oposição, o Pacote de Abril, baixado por Geisel, fechou temporariamente o Congresso em 1977 e instituiu a figura do Senador Biônico (interventor não eleito) em 1/3 do Senado.

6. As entidades estudantis, fechadas durante a ditadura, estavam se reconstruindo. Assembleias e passeatas estudantis eram sobrevoadas por helicópteros do Exército. A PUC-SP, que abrigava o congresso de refundação da UNE, foi invadida em setembro de 1977: mais de 3 mil estudantes presos. Estudantes que participassem de política eram expulsos das universidades com base no Decreto 477.

7. Sindicatos que sofreram intervenção na ditadura se reconstruíam. Assembleias sindicais eram sobrevoadas por helicópteros do Exército. Líderes foram ameaçados e presos. As confederações de trabalhadores eram ilegais.

Como a Lei da Anistia que perdoou torturadores pode ser considerada democrática, se foi promulgada com parte da oposição no exílio, na prisão, cassada ou silenciada pela tortura?

Se a Lei se mantém firme por 35 anos, com defensores que pertencem aos três Poderes, é sinal de que ao Estado, não apenas às Forças Armadas, não interessa a revisão. A Justiça não é cega coisa nenhuma. A decisão de não revê-la não é técnica, é ideológica e imoral.

Não foi negociada entre militares e democratas, nem teve apoio da totalidade da sociedade civil, que queria outra Anistia. Foi imposta por um ditador. O segundo escalão que torturou foi perdoado pelo Alto Comando. Missão cumprida. (Fonte: aqui).

segunda-feira, 24 de março de 2014

A IMPORTÂNCIA DA PETROBRAS


O jogo pesado: tirar a Petrobras de campo

Por Saul Leblon

O caso Pasadena pode ser tudo menos aquilo que alardeia a sofreguidão conservadora.

Pode ser o resultado de um ardil inserido em um parecer técnico capcioso. Pode ser fruto de um revés de mercado impossível de ser previsto, decorrente da transição desfavorável da economia mundial; pode ser ainda  –tudo indica que seja--  a evidência ostensiva da necessidade de se repensar um critério mais democrático para o preenchimento de cargos nas diferentes instâncias do aparelho de Estado.

Pode ser um mosaico de  todas essas coisas juntas.

Mas não corrobora justamente aquela que é a mensagem implícita na fuzilaria conservadora nos dias que correm.

Qual seja,  a natureza prejudicial da presença do Estado na luta pelo desenvolvimento do país.

Transformar a história de sucesso da  Petrobras em um desastre de proporções ferroviárias é o passaporte para legitimar a agenda conservadora nas eleições de 2014.

Ou não será exatamente o martelete contra  o ‘anacronismo intervencionista do PT’  que interliga as entrevistas e análises de formuladores e bajuladores das candidaturas Aécio & Campos? (Leia neste blog ‘Quem vai mover as turbinas do Brasil?’)

Pelas características de escala e eficiência, ademais da  esmagadora taxa de êxito que lhe é creditada – uma das cinco maiores petroleiras do planeta, responsável pela descoberta das maiores reservas  de petróleo do século XXI--  a Petrobras figura como uma costela de pirarucu engasgada na goela do mercadismo local e internacional.

Ao propiciar ao país não apenas a autossuficiência, mas a escala de descobertas que encerram o potencial de um salto tecnológico, capaz de contribuir para  o impulso industrializante de que carece o parque fabril do país, a Petrobras reafirma a relevância insubstituível da presença estatal na ordenação da economia brasileira.

Estamos falando de uma ferramenta da luta pelo desenvolvimento. Não de um conto de fadas.

Há problemas.

A empresa tem arcado com  sacrifícios equivalentes ao seu peso no país.

Há dois anos a Petrobras vende gasolina e diesel por um  preço 20% inferior ao que paga no mercado mundial.

Tudo indica que a cota de contribuição para mitigar as pressões inflacionárias decorrentes  de choques  externos e  intempéries climáticas tenha chegado ao limite.

Mas  não impediu que a estatal fechasse 2013 como a petroleira que mais investe no mundo: mais de US$ 40 bilhões/ano: o dobro da média mundial do setor.

Ademais, ela é campeã mundial no decisivo quesito da  prospecção de novas reservas.

Os números retrucam o jogral do ‘Brasil que não deu certo’.

O pré-sal já produz  405  mil barris/dia.

 Em quatro anos, a Petrobras estará extraindo 1 milhão de barris/dia da Bacia de Campos.

Até 2017, ela vai investir US$ 237 bilhões; 62% em exploração e produção. Em 2020, serão 2,1 milhões de barris/dia.

Praticamente dobrando  para 4 milhões de barris/dia a produção brasileira atual.

O conjunto explica o interesse dos investidores pela petroleira verde-amarela que está sentada sobre uma poupança  bruta formada de 50 bilhões de barris do pré-sal.

Mas pode ser o dobro disso;  os investidores sabem do que se trata e com quem estão falando.

Há duas semanas, ao captar US$ 8,5 bi no mercado internacional, a Petrobras  obteve oferta de recursos em volume  quase três vezes superior a sua demanda.

O marco regulador do pré-sal --aprovado com a oposição de quem agora agita a bandeira da defesa da estatal–- instituiu o regime de partilha e internalizou o comando de todo o processo tecnológico, logístico, industrial, comercial e financeiro da exploração dessa riqueza.

Todos os contratados assinados nesse âmbito passam a incluir cláusula obrigatória de conteúdo nacional nas compras, da ordem de 50%/60% , pelo menos.

Esse é o ponto de mutação da riqueza do fundo do mar em prosperidade na terra.

Toda uma cadeia de equipamentos, máquinas, logística, tecnologia e serviços diretamente ligados, e também externos, ao ciclo do petróleo será  alavancada nos próximos anos.

O conjunto pode fazer do Brasil um grande exportador industrial inserido em cadeias globais de suprimento e inovação  –justamente o que falta ao fôlego do seu desenvolvimento no século XXI.

É o oposto do projeto subjacente ao torniquete de manipulação e  engessamento que se forma em torno da empresa nesse momento.

Para agenda neoliberal não faz diferença  que o Brasil deixe de contar com uma alavanca industrializante com as características reunidas pela Petrobras.

Pode ser até bom.

O peso de um gigante estatal na economia atrapalha a ‘ordem natural das coisas’ inerente à dinâmica dos livres mercados, desabafa a lógica conservadora.

A verdade é que se fosse depender da ‘ordem natural das coisas’ o Brasil seria até hoje um enorme cafezal, sem problemas de congestionamento ou superlotação nos aeroportos, para felicidade de nove entre dez colunistas isentos.

Toda a industrialização pesada brasileira, por exemplo  –que distingue o país como uma das poucas economias em desenvolvimento dotada de capacidade de se auto-abastecer de máquinas e equipamentos— não teria sido feita.

Ela representou uma típica descontinuidade na ‘ordem natural das coisas’.

A escala e a centralização de capital necessárias a esse salto estrutural da economia não se condensam espontaneamente em um país pobre.

Num  mercado mundial já dominado por grandes corporações monopolistas nessa área e em outras, esse passo, ou melhor, essa ruptura, seria inconcebível sem forte intervenção estatal no processo.

Do mesmo modo, sem um banco de desenvolvimento como o BNDES, demonizado pelo conservadorismo, a indústria e a economia como um todo ficariam comprometidos pela ausência de um sistema financeiro de longo prazo, compatível com projetos de maior fôlego.

Do ponto de vista conservador, o financiamento indutor do Estado, a exemplo do protecionismo tarifário à indústria nascente  –implícito nas exigências de conteúdo nacional no pré-sal--  apenas semeia distorções de preços e ineficiência no conjunto da economia.

É melhor baixar as tarifas drasticamente; deixar aos mercados a decisão sobre  quem subsistirá e quem perecerá para ceder  lugar às importações.

O corolário dessa visão foi o ciclo de governos do PSDB,  quando se privatizou, desregulou e se reduziu barreiras à entrada e saída de capitais.

A Petrobrás resistiu.

Em 1997, até um novo batismo fora providenciado para lubrificar a operação de fatiamento e venda dos seus ativos aos pedaços.

Não seu.

Dez anos depois, em 2007, essa resistência ganharia um fortificante ainda mais indigesto aos estômagos conservadores, com a descoberta e regulação soberana das reservas do pré –sal.

Num certo sentido, a arquitetura de exploração do pré-sal avança um novo degrau na história da industrialização brasileira.

Mais que isso,  esboça um modelo.

Se a empresa privada nacional  não tem escala, nem capacidade tecnológica para suprir as demandas do desenvolvimento, uma estatal pode –como o faz a Petrobras -  instituir prazos e definir garantias de compra que de certa forma  tutelem  a iniciativa privada deficiente.

Dando-lhe encomendas para  se credenciar ao novo ciclo de expansão do país –e até mesmo operar em escala global, inserindo-se nas grandes cadeias da indústria  petroleira.

A outra  alternativa seria bombear  a receita petroleira  diretamente para fora do país, vendendo o óleo bruto.

E renunciar assim aos múltiplos de bilhões de dólares de royalties que vão irrigar o fundo do pré-sal e com ele a educação pública das futuras gerações de crianças e jovens do Brasil.

Ou  então vazar  impulsos industrializantes para encomendas no exterior , sem expandir polos tecnológicos, sem engatar cadeias de equipamentos, nem elevar  índices de nacionalização em benefício de empregos e receitas locais.

A paralisia  atual da industrialização brasileira  é um problema real que afeta todo o tecido econômico.

Asfixiada durante três décadas pelo câmbio valorizado e pela concorrência chinesa, a indústria brasileira de transformação perdeu elos importante, em diferentes cadeias de fornecimento de insumos e implementos.

A atrofia é progressiva.

O PIB cresceu em média 2,8% entre 1980 e 2010; a indústria da transformação cresceu apenas 1,6%, em média. Sua fatia nas exportações recuou de 53%, entre 2001-2005, para 47%, entre 2006-2010 .

O mais preocupante é o recheio disso.

Linhas e fábricas inteiras foram fechadas. Clientes passaram a se abastecer no exterior. Fornecedores se transformaram em importadores.

Empregos industriais foram eliminados; o padrão salarial do país foi afetado, para pior.

É possível interromper essa sangria, com juros subsidiados, incentivos, desonerações, protecionismo e ajuste do câmbio, como está sendo feito pelo governo.

Mas é muito difícil reverter buracos consolidados.

O dinamismo que se perdeu teria que ser substituído por um gigantesco esforço de inovação e redesenho fabril, a um custo que um país em desenvolvimento dificilmente poderia arcar.

Exceto se tivesse em seu horizonte a exploração centralizada e soberana, e o refino correspondente, das maiores jazidas de petróleo descobertas no século 21.

Esse trunfo avaliza a possibilidade de se colocar a  reindustrialização  como uma resposta política  do Estado brasileiro à crise mundial.

Nada disso  pode ser feito sem a  Petrobras.

Tirá-la do campo em que se decide o futuro do Brasil: esse é o jogo pesado que está em curso no país. (Fonte: aqui).

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Um dos comentários suscitados pelo texto acima: 
"'A verdade é que se fosse depender da 'ordem natural das coisas' o Brasil seria até hoje um enorme cafezal, sem problemas de congestionamento ou superlotação nos aeroportos, para felicidade de nove entre dez colunistas isentos.'  Gostei disso!".

LO(WEB) STORY


Dusan Petrinic. (Sérvia).

CLÁUDIA, CIDADÃ BRASILEIRA


Acima, uma das diversas ilustrações feitas pela professora Cristiane Schifelbein e alunos, as quais compõem grande painel elaborado por 'n' pessoas em homenagem a Cláudia Silva Ferreira, cidadã brasileira morta, semana passada, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, e cujo corpo, que caiu do porta-malas da viatura policial, foi arrastado por 350 m em via pública, causando indignação nacional.

(Os 3 policiais implicados foram postos em liberdade pela Justiça no dia 21, e no dia seguinte, entre violentos protestos de rua, surgiu testemunha que declarou em depoimento ao delegado do inquérito haver presenciado o assassinato de Cláudia pelos PMs. Que venham as novas providências.)

Voltando à campanha de homenagens à cidadã Cláudia Ferreira, clique aqui para inteirar-se.

ZONA DO EURO CONTINUA SOB O JUGO DA AUSTERIDADE


A marcha pela dignidade na Espanha - imagens aqui.

Ismail Dogan.

domingo, 23 de março de 2014

DA SÉRIE COMO DISTORCER REALIDADES


A manipulação do escândalo Pasadena

Por Luis Nassif - (aqui)

No post "Cláusula Marlin, o erro central na compra da refinaria"  expliquei em detalhes os problemas do contrato de compra da refinaria.

Havia duas cláusulas colocadas em questão:

1. A "put option", pela qual cada sócio tem o direito de oferecer sua parte para o outro. E o que receber a proposta tem duas alternativas: ou comprar a parte do outro ou vender a sua pelo valor proposto pelo sócio. É cláusula comum em quase todos os contratos onde existem dois acionistas principais.

2. A "cláusula Marlim", pela qual a Petrobras garantia à Astra (sua sócia na Pasadena) rentabilidade mínima de 6,9% ao ano. Este é o ponto central pois, caso a rentabilidade caísse abaixo desse valor, a Petrobras seria prejudicada.

Confiram, agora, como se turbina uma denúncia.

O Estadão solta uma matéria "denunciando" o fato do Conselho da Petrobras ter aprovado a compra de uma refinaria no Japão que continha a cláusula "put option", que é comum a esse tipo de contrato.

Os repórteres fizeram um bom trabalho e separaram bem as duas cláusulas: a put e a Marlim. E citaram declarações do ex-presidente José Gabrielli mostrando que a cláusula "put" não tinha nada de excepcional. Os repórteres informam que a compra da refinaria do Japão continha a cláusula "put", mas não a cláusula de Marlim:

"Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli citou o contrato da refinaria de Okinawa como exemplo de que o Put Option era comum nos contratos da empresa, colocando em dúvida a versão da presidente de que foi surpreendida pela cláusula no caso Pasadena. O contrato do Japão não continha a cláusula de Marlim".

Fica claro na reportagem que a diferença é a cláusula Marlim - que não constava na compra da refinaria japonesa. Repito: o problema é a cláusula Marlim, jamais a put.

A manchete do jornal, no entanto, escandaliza o que não é escândalo, não considerando o conteúdo enviado pelos repórteres.



Aí o G1 repercute a falsa denúncia:



Na sequência, a oposição pega a falsa denúncia é pede CPI - o que é prontamente repercutido pelo jornal.

ZONA DO EURO: AUSTERIDADE FAZ BEM AOS BANCOS


Ismail Dogan.

SAKAMOTO FOI À MARCHA

            Marcha em São Paulo: 400 manifestantes, 100 policiais e muitos jornalistas..

Marcha da Família: o dia em que encontrei os comentaristas deste blog

Por Leonardo Sakamoto

Participei do jubileu de ouro da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, nesta tarde de sábado (22), entre as Praças da República e da Sé, no Centro de São Paulo.

Agradeço, portanto, à organização do ato, pois ele foi histórico. Afinal de contas, nunca imaginei que os brasileiros teriam coragem de fazer isso de novo.

Devo confessar, contudo, que fui guiado não pelo nobre interesse jornalístico, mas sim por uma mórbida curiosidade. Qual seria a outra oportunidade que teria de conhecer a parte barulhenta dos comentaristas deste blog? A parte que acha que sou o demônio e transforma este espaço em algo divertidíssimo. A parte que não acredita em democracia.

Como esse naco social extremamente conservador vai para o céu quando morrer e eu, que não creio, habitarei o limbo pela eternidade, não poderia deixar de ver seus rostos, sentir seu cheiro, ouvir suas ideias, olho no olho, pelo menos uma vez na vida.

Primeiramente, fico feliz que eles – vencendo o preconceito e o medo – tenham saído do armário. Porque, apesar de sempre existirem, suas ideias eram sussurradas no âmbito privado e, portanto, estavam alheias à possibilidade de debate público. Viva, pois, a maldita democracia!

O tamanho da lista de pautas dos manifestantes rivalizava com demandas de sindicatos em greve ou estudantes em paralisação. Pedem ajuda para as FFAA (Forças Armadas) a fim de uma intervenção militar já. Querem Lula e Dilma na cadeia. Suplicam pelo fim da ameaça comunista e /ou socialista no país (antes fosse, gente… se o PT é comunista, eu sou mico de circo). E são contrários ao julgamento de militares por crimes contra os direitos humanos durante a ditadura. Louvaram, ainda, a polícia, criticando as propostas de sua desmilitarização.

Ah, e no carro de som, gritava-se algo como “se o Brasil não é comunista, por que querem a aprovação do Marco Civil da internet?''

Em determinado momento, um grupo que estava à frente da marcha também reivindicou uma parte querida do corpo deste blogueiro, entoando em uníssono: “Ei, Sakamoto, vai tomar no cu!'' Detalhe que havia, entre eles, uma imagem de Nossa Senhora.

Mas não posso me furtar a questionar: com base nas leituras reacionárias do livro sagrado do cristianismo, interpretações usadas para espancar gays, lésbicas, transexuais, pergunto se o pedido que me fizeram não seria – diante dos olhos de Deus que, segundo os organizadores, estava junto com a marcha - uma “abominação''.

Acho que se existe um Deus, ele estava curtindo a marcha antifascista, realizada simultaneamente a esta e que reuniu mais gente, caminhando entre a Praça da Sé e o antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social, local de torturas durante a ditadura, na região da Luz.

Provavelmente pelo fato de estarem pouco acostumados a irem às ruas e conviverem com a diferença, havia um clima de tensão no ar. De desconfiança com o ambiente, sabe? Um skinhead aqui e outro ali olhando torto, uma tentativa de calar alguém que discordava da natureza do ato, pressão para abaixar faixas que não estivessem de acordo com o coletivo e elogios à grande “imprensa comunista mentirosa'' ali presente.

E falando em imprensa, creio que havia em torno de 100 jornalistas trabalhando por lá, para algo em torno de 400 manifestantes (a grande maioria de homens e de uma faixa etária bem superior às das manifestações que se tornaram corriqueiras por aqui), além de uma quantidade enorme de policiais fazendo cordão para acompanhar o povo.

Um colega, jornalista das antigas, já tinha me sugerido que ir de “black bloc'' era mais seguro que ir de “Sakamoto''. E não é que ele estava certo! Fui procurar meus leitores, mas meus leitores me acharam primeiro.

De tempos em tempos, um grupo deles me reconhecia. Começa a gritar, chegava perto, apontava o dedo, gravava em vídeo, xingava, vociferava, me chamando de “comunista''. Será que eles não sabem que tenho um MacBook e gosto de caviar? Um manifestante passou por mim várias vezes, dando leves ombradas, no melhor estilo de provocações escolares, sempre que chegava perto. Logo no braço que a LER/Dort mais ataca. Podia ser no outro, não?

Agradeço aos colegas da imprensa que me tiraram de perto nas vezes em que a chapa esquentou (valeu, galera!).

Não é mérito nenhum meu, é claro. Sobrou para todo mundo. Incluindo um grupo de jovens, vestidos de preto, que estava indo provavelmente para o show do Metallica e foram xingados por manifestantes perto do metrô Anhangabaú.

Enfim, apesar de tudo isso, achei a manifestação pedagógica.

Porque todas as visões de mundo têm direito a se manifestar.

Porque o número de pessoas que bradam por uma intervenção militar é menor ainda do que eu esperava.

Porque muitos dos curiosos que paravam para ver e que tive a oportunidade de conversar, de vendedores ambulantes a engravatados, quando informados do conteúdo das reivindicações, franziam a testa e perguntavam: mas a gente não brigou tanto para não ter exército no poder?

E porque conversas e atitudes de muitos manifestantes mostravam que um desconhecimento grande da história do Brasil justificava uma visão de mundo totalitária. Ou seja, há esperança de que, com educação de qualidade e muito debate político, a gente chega lá. Ô se chega! (Fonte: aqui).

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Os comentários alinhados no blog do Sakamoto continuam imperdíveis.

GOLPE 1964


"O desafio feito à democracia foi respondido vigorosamente. Sua recuperação tornou-se legítima através do movimento realizado pelas Fôrças Armadas, já estando restabelecido o poder de Govêrno pela forma constitucional."



(Ministro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo Tribunal Federal, segundo matéria intitulada "STF vê o Govêrno restaurado", Jornal do Brasil, edição de 4.4.1964.
Convém lembrar que o presidente da República, João Goulart, estava em território nacional quando o Congresso declarou vago o cargo de presidente, em indiscutível afronta à Constituição Federal.
Se o presidente do STF foi, digamos, benevolente, tal comportamento não foi unânime: em 19 de janeiro de 1969, a segunda lista de cassados pelo Ato Institucional nº 5 incluiu três ministros do Supremo: Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva).

UTOPIA


Pavel Constantin.

CONFRONTOS NAS REDES: LUGARES COMUNS


Retórica e ideologia como encobrimento da realidade

Por Juremir Machado da Silva


– A tua argumentação é retórica.

– A tua retórica é que não tem argumentos.

É assim que rola o papo nas redes sociais.

Cada interlocutor quer vencer pela retórica sem ser chamado de retórico. Nos duelos da internet, o que mais se lê é:

– Não generaliza. Toda generalização é um erro.

– Essa tua generalização também?

Outra astúcia da nova retórica é o golpe do equilíbrio. Depois de muita polarizar, um dos debatedores, se for gaúcho, tenta por a bola no meio:

– Não gerenaliza, cara.

É pura astúcia retórica. Se o sujeito é de direita, jamais foge ao já clássico e risível clichê ideológico:

– Não tem mais essa de esquerda e direita.

Quanto mais ideológico é o indivíduo, mais provável que num determinado momento ele infle o peito e afirme:

– As ideologias acabaram. Isso é coisa do passado.

Figura típica das redes sociais é o “trollador”, o mala que se encarna em alguém disparando clichês e tentando desqualificar tudo o que outro diz. Tem o “trollador” que não se vê como tal. “Trolla” todo mundo. Quando “trollado”, finge-se de santo ou de equilibrado.

– Eu só estava tentando mostrar o outro lado.

Divertidos são os antipetistas. Exageram tudo o que possa ser ruim para o PT, omitem tudo o que possa prejudicar a direita, especialmente o PSDB. Aí dizem:

– Não dá para aguentar essa redução de tudo a PT e PSDB.

As estratégias discursivas do momento desconhecem o princípio da não-contradição. O saudoso de Médici e da censura do regime militar brasileiro cobra liberdade de imprensa na Venezuela, que chama de ditadura bolivariana.

– Mas tem eleições lá.

– Fraudadas.

– Com observadores internacionais presentes?

– Encenação. Não tem liberdade de imprensa.

– Mas os jornais impressos são todos de oposição.

– Me engana que eu gosto. Kkkkkkk!

Raras vezes a situação esteve tão polarizada. A internet é um campo de oposição dogmática entre direita e esquerda. Reflete nitidamente o que continua ocorrendo em qualquer esfera da vida. Só que na rede tudo se diz. É o espaço do insulto, do palavrão, da provocação frontal. Um teórico dos anos 1960, no estilo Roland Barthes, talvez cravasse numa fórmula: “O cidadão morreu. A internet é fascista”. Favorece a intolerância. A internet, contudo, pode ser o renascimento do cidadão. O fascismo gostaria de controlá-la. Manter só os seus “trolladores” em ação.

O velho esquerdista deixa escorrer a nostalgia:

– A esquerda de hoje não tem projetos.

O novo esquerdista tira uma onda:

– O projeto da velha esquerda era o totalitarismo.

Políticos “realistas” de hoje, revolucionários ou resistentes de ontem, que a direita chamava de baderneiros, rotulam os jovens manifestantes na bucha:

– Terroristas esses black blocs.

– Fascistas esses defensores do AI-5 da Copa.

O inimigo dos direitos humanos nunca vacila:

– Leva o bandido para casa.

O lacerdinha da direita Miami nunca esquece o:

– Vai para Cuba. (Fonte: aqui).

sábado, 22 de março de 2014

DIA DA ÁGUA (III)


Manny Francisco.

DIA DA ÁGUA (II)


Pelicano.

DIA DA ÁGUA

                      Dia mundial da água e da energia.

Luojie.

CINEMA NORDESTINO NO CINEMARDEN


O cinema que vem do Nordeste

Confira no canal Cinemarden, no Youtube, o vídeo desta semana. O tema é O Cinema Que Vem do Nordeste. Apesar de o eixo Rio-São Paulo continuar como o maior polo brasileiro de produção audiovisual, é no Nordeste, com cineastas como Karim Ainouz, Marcelo Gomes, Sérgio Machado e Kléber Mendonça Filho, que se produz o cinema mais ousado, criativo e instigante feito hoje no país. Acesse, inscreva-se, curta, comente e compartilhe:

 https://www.youtube.com/watch?v=aTa4FaGVf4Y

VIVA A EDUCAÇÃO


Genildo.

OS FATOS E A PRANCHETA

Pierre Berthiaume. (Canadá).

A atenta leitura de matérias diversas sobre o episódio Petrobras/Pasadena - como esta e esta -, além de nota da Veja/Abril, aqui, e mais esta, do jornal Valor, permite concluir que algo estranho está a inspirar jornalões como Folha e Estadão, e o conglomerado Globo. Pensando bem, o algo não é nada estranho.

Informar-se, inteirar-se das versões oferecidas pelos 'lados' é fundamental. É certo que exige tempo e disposição, mas não dá pra ler/ver uma vertente e sair atirando pra todos os lados, por conta da versão noticiada (e a única a ter merecido leitura). A verdade, onde está? Quem está por trás do biombo? Os interesses, até - e por vezes principalmente - eleitorais, de quem são?

É, inteirar-se exige tempo e disposição (para ler/ver de modo abrangente).

Cartunista, por exemplo, nessa vida tão atribulada, tem tido tempo para isso?

SÍNDROME DO MILÊNIO


Nani.

SOBRE A QUESTÃO UCRANIANA

Putin, por Ville Kirkko.

Por que os EUA odeiam mais Putin do que (a)os terroristas islâmicos?

Por William Murray

O senador John McCain fez uma viagem inacreditável  Kiev no começo deste ano, e diante de uma turba que incluía neonazistas, ele pediu a derrubada do governo democraticamente eleito da Ucrânia. Ele não estava só, pois membros do governo de Obama também agiram para substituir o governo eleito daquela nação. Com a ajuda e incentivo das potências ocidentais, o governo eleito da Ucrânia acabou sendo substituído por representantes das turbas.

Quem são os ucranianos que derrubaram seu governo democraticamente eleito? Talvez os conservadores americanos devessem dar uma olhada mais de perto nesses novos líderes antes de darem um tapinha de felicitação nas costas do presidente Obama por “derrotar” Putin e “ganhar” a Ucrânia para os EUA.

A CNN nos EUA ficou totalmente em silêncio, mas uma reportagem da CNN fora dos EUA declarou:

“O líder do partido Svoboda (ou ‘Liberdade’), Oleh Tyahnybok, tem declaração gravada em que ele disse que Kiev é governada por ‘uma máfia de judeus russos’ e que os ucranianos corajosamente lutaram contra russos, alemães, judeus ‘e outras escórias’ na 2ª Guerra Mundial.“Esse eleitorado desagradável, inclusive o movimento Setor Direita (que é ultradireita), ergueu as barricadas nos tumultos de Kiev, fornecendo ‘segurança’ para os principais líderes da oposição política e rivalizando com as forças pró-governo em táticas violentas que levaram a dezenas de mortos em Maidan.“Essas forças nacionalistas direitistas foram em grande parte responsáveis pelo colapso do acordo assinado em fevereiro que pedia eleições parlamentares e presidenciais bem antes do tempo e uma volta à constituição ucraniana de 2004, a qual lembra a ‘Revolução Laranja’ que levou ao poder na Ucrânia um governo pró-Ocidente.”

Neonazista ucraniano Oleh Tiahnybok

O rabino ucraniano Moshe Reuven Azman orientou os judeus de Kiev a partirem. “Orientei minha congregação a deixar o centro da cidade ou a cidade toda e se possível o país também,” o rabino Azman disse ao jornal Maariv. “Não quero tentar a sorte,” acrescentou ele, “mas há avisos constantes com relação às intenções de atacar as instituições judaicas.”

Uma nação democrática livre como os Estados Unidos não deveria se meter a apoiar turbas que querem derrubar líderes eleitos de uma nação, independente se esse governo é desagradável para os americanos. Neste momento, NÃO há nenhuma autoridade eleita em cargos de responsabilidade em nenhum nível na Ucrânia, e tanto os esquerdistas quanto os conservadores dos EUA estão louvando esse fato! O secretário de Estado John Kerry chegou ao ponto de ir a Kiev depositar flores num memorial às turbas que derrubaram o governo. O autodeclarado primeiro-ministro da Ucrânia, o qual foi declarado por Obama como o “legítimo” governante da nação, visitou a Casa Branca nesta semana.

Enquanto isso, Vladimir Putin, o presidente da Rússia, é retratado como um homem maligno, um vilão, um louco sanguinário pela mídia, pelos políticos e pelos conservadores e esquerdistas dos EUA. Muitas vezes, para demonizá-lo eles apontam que no passado ele foi o diretor da KGB (observe que George H.W. Bush, que foi presidente dos EUA, já foi diretor da CIA). Na verdade, Putin realmente presidiu durante o desmantelamento e reforma da velha KGB.

Putin pode não ser o coelhinho da Páscoa, mas ele é um homem muito melhor e é um ser humano muito melhor do que os monarcas fascistas que os Estados Unidos estão apoiando em países islâmicos como Qatar e Saudi Arábia. Recordemos que os EUA estão armando e apoiando nações islâmicas que matam pessoas por apedrejamento, não respeitam os direitos humanos de ninguém e nunca realizam eleições, como a Arábia Saudita.

O rei Abdullah da Arábia Saudita é um insulto a toda a humanidade, mas Barack Obama se prostrou diante dele numa visita a essa nação. Contudo, no caso da Ucrânia, o esquerdista Obama, com o apoio dos políticos conservadores, enviou aviões e navios de guerra, equipados com mísseis, para os países báltico a fim de ameaçar a Rússia cristã. O aviso do esquerdista Obama para Putin basicamente é: “Não ouse interferir nas turbas que derrubaram o governo eleito da Ucrânia.” Já vi muita coisa no governo americano, mas isso é realmente coisa de louco.

Os ataques à Rússia e a Putin começaram antes dos Jogos Olímpicos em Sochi e se agravaram com a questão da Ucrânia. Fiquei realmente com vergonha de mídias conservadoras como a Fox News que babaram de alegria com um problema de vaso sanitário entupido numa foto fornecida por um fotógrafo da Associated Press nos jogos de Sochi. (Ao que parece, nenhum vaso sanitário na Europa Ocidental e nos Estados Unidos nunca ficou entupido.)

Por que o presidente Obama e a mídia ocidental [que é majoritariamente esquerdista] têm tanto ódio da Rússia? O que está por trás de todos esses ataques à Rússia?

Esquerdistas americanos criticam presidente russo

Na Rússia, o clero tem permissão de entrar nas escolas para dar instrução sobre a Bíblia. Além disso, crianças e professores têm permissão de orar nas escolas públicas da Rússia. É contra a lei vender ou dar literatura pornográfica a qualquer pessoa com menos de 18 anos. O casamento na Rússia só é permitido entre um homem e uma mulher.

No ano passado, o presidente Putin assinou uma lei proibindo propaganda de aborto. Em 2011 a Rússia aprovou uma lei que exige avisos de saúde para mulheres antes da realização de um aborto, e agora o Congresso da Rússia está considerando proibir o aborto completamente, a menos que a vida da mãe esteja em perigo iminente. (Na antiga União Soviética, o aborto era o principal meio de controle da natalidade).

A Rússia não tem complicadas leis de impostos. Os russos têm hoje o tipo de imposto único pelo qual os conservadores americanos estão lutando há anos para ter nos EUA. Na Rússia, todo mundo paga 13 por cento de imposto de renda, independente de quanto ganhe. Depois que esse imposto único foi instituído em 2001, a economia da Rússia decolou como um foguete e a arrecadação fiscal também aumentou. A Rússia não mais é um país comunista. A Rússia tem tantos ou talvez até mais milionários do que os Estados Unidos. Há livre empresa; qualquer um pode iniciar um negócio, e muitas pessoas estão fazendo isso.

Nas forças armadas russas os capelães são livres para pregar o Evangelho e orar no nome de Jesus Cristo. A conduta homossexual não é permitida entre os militares russos e é punível com corte marcial. (As forças armadas dos EUA acabaram de realizar seu primeiro concurso de drag queen, oficialmente aprovado, na Base Aérea de Kadena.)

Por que Barack Obama e os meios de comunicação esquerdistas dos EUA odeiam tanto a Rússia, mas amam nações que são anticristãs e reprimem os cristãos, tais como o Qatar e a Arábia Saudita? Moral e espiritualmente, a Rússia de hoje é a nação que os EUA eram na década de 1950.

William J. Murray é presidente da Coalizão de Liberdade Religiosa, com sede em Washington, DC. Ele é autor de sete livros, inclusive “My Life Without God” (Minha Vida Sem Deus), que narra sua vida como filho da líder marxista Madalyn Murray O’Hair, que foi fundadora da organização Ateus Americanos. Madalyn ficou famosa por ter sido responsável pela histórica decisão do Supremo Tribunal dos EUA em 1963 que proibiu a leitura da Bíblia nas escolas americanas. Como filho dela, William conta como é viver num lar onde reina o ateísmo destrutivo e oferece uma perspectiva singular sobre Cristianismo e política. (Fonte: aqui).

sexta-feira, 21 de março de 2014

ULTIMATO


Aroeira.

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O recuo de Obama na Crimeia - aqui.

ECOS DA DITADURA: A CRUEZA DE UM RELATO


Ditadura: militar diz que arrancava dedos, dentes e vísceras de preso morto

Por Mário Magalhães

( O blog está no Facebook e no Twitter )

Em um dos mais importantes e verossímeis depoimentos já prestados por agentes da ditadura (1964-85), o coronel reformado Paulo Malhães afirmou que ele e seus parceiros cortavam os dedos das mãos, arrancavam a arcada dentária e extirpavam as vísceras de presos políticos mortos sob tortura antes de jogar os corpos em rio onde jamais viriam a ser encontrados.

O relato histórico do oficial do Exército foi feito à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e revelado nesta sexta-feira pelo repórter Chico Otávio.

Malhães se referia a presos políticos assassinados na chamada Casa de Petrópolis, um imóvel clandestino na região serrana fluminense onde servidores do Centro de Informações do Exército detinham, torturavam e matavam opositores da ditadura. De acordo com o coronel, os cadáveres eram ensacados junto com pedras. Dedos e dentes eram retirados para impedir a identificação, na eventualidade de os restos mortais serem encontrados. As vísceras, para o corpo não boiar.
Veterano da repressão mais truculenta do passado, Malhães figura em listas de torturadores elaboradas por presos. É ele quem assumiu ter desenterrado em 1973 a ossada do desaparecido político Rubens Paiva (post aqui).

Seu testemunho, sem vestígios de arrependimento, contrasta com o de aparente mitômano surgido em anos recentes. Malhães não é um semi-anônimo,mas personagem marcante para seus pares em orgãos repressivos e para presos políticos.

Dois trechos do seu depoimento à comissão, conforme reprodução de “O Globo'' (a reportagem pode ser lida na íntegra clicando aqui):

1) “Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”

2) “É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro.”

Com a frieza de quem conta ter ido à padaria, Malhães afirmou, referindo-se ao local onde vive, a Baixada Fluminense: “Eu gosto de decapitar, mas é bandido aqui''. (Fonte: aqui).

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Há quem vá às ruas defender tal excrescência.

MH370: À TERRA INTEIRA:

                                            Quosque tandem?

Emad Hajjaj. (Jordânia).

OS ESTRAGOS DA SONEGAÇÃO


Brasil já perdeu mais de R$ 106 bilhões com sonegação de impostos neste ano

Em quase 100 dias, o Brasil já perdeu mais de R$ 106 bilhões com a sonegação de impostos, segundo dados da campanha "Quanto custa o Brasil pra você?", realizada pelo Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz).

Em 2013, o chamado Sonegômetro, um placar que calcula a sonegação de tributos no país, fechou o ano marcando uma perda de R$ 415 bilhões para os cofres públicos.

Nesta quinta-feira (20), o Sonegômetro será instalado na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para mostrar quanto o Brasil deixou de arrecadar desde 1º de janeiro.

Segundo o presidente do Sinprofaz, Heráclio Camargo, as pessoas precisam entender que todo mundo perde com a sonegação fiscal.

"Estamos sempre falando sobre a alta carga tributária, mas também precisamos discutir o efetivo combate à sonegação e um sistema de cobrança mais justo para com os que ganham menos", afirmou.

Ele ressaltou, ainda, que, com esse dinheiro que deixou de ser arrecadado até o momento, seria possível construir 3.563 presídios de segurança máxima, distribuir 1,5 milhão de Bolsas-Família ou equipar três milhões de postos de saúde.

Unificação das contribuições

De acordo com estimativas do Sinprofaz, a carga tributária no país encerrou 2013 representando 36,85% do PIB. Em 2012, esse valor correspondia a 35,85% do PIB.

"O Sonegômetro foi a forma que encontramos para mobilizar e esclarecer a sociedade sobre os impactos da sonegação fiscal no Brasil. O dinheiro que poderia ser investido na saúde ou na educação está indo pelo 'ralo' porque a administração pública faz vista grossa para os grandes devedores e, com isso, sacrifica cada vez mais os pobres e a classe média", ressaltou Camargo.

Dentre as propostas do sindicato para reduzir a evasão fiscal estão: a simplificação do sistema tributário, estabelecendo a criação do Imposto sobre o Valor Adicional Federal (IVA-F) para unificar as contribuições sociais; a incorporação da Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (CSLL) ao Imposto de Renda de Pessoas Jurídicas (IRPJ); criação de um novo ICMS com legislação única; alíquotas uniformes e cobradas no Estado de destino do produto; definição de uma política tributária que estimule a criação de empregos formais; redução da carga tributária sobre o consumo, com alíquotas diferenciadas para produtos essenciais e alíquota zero para produtos da cesta básica. (Fonte: aqui).

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Manchete de  norte a sul do Brasil: "Grande imprensa sonega informações sobre o sonegômetro".
De qualquer modo, extremamente louvável a iniciativa do Sinprofaz.

VOLÚPIUS FISIOLÓGICUS


Aroeira.

O PENSAMENTO DE FAUSTO DE SANCTIS


Fausto de Sanctis, por Orlando.

A trincheira do doutor Fausto

Por Allan de Abreu

Atrás da mesa de uma sala ampla do sexto andar de um edifício de vidros negros da avenida Paulista, entre pilhas de processos judiciais, dr. Fausto arma sua trincheira. Desembargador do Tribunal Regional Federal (TRF), Fausto Martin de Sanctis protagonizou cenas capitais das mazelas recentes do Brasil. Ao determinar a prisão do banqueiro Daniel Dantas, há quase seis anos, ele sentiu na pele o peso de um Judiciário moldado para proteger as elites e perpetrar a impunidade de quem tem poder. Mas não entrega os pontos.

Sanctis foi um juiz de destaque no combate ao crime organizado, titular da 6ª Vara Federal de São Paulo, especializada em lavagem de dinheiro. Na Operação Satiagraha, que investigou os negócios do banqueiro, ele bateu de frente com o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que revogou por duas vezes mandados de prisão de Sanctis contra Dantas. O então juiz sofreu 18 processos disciplinares e foi bombardeado com suspeitas de instalar grampos clandestinos no gabinete de Mendes - o que, constatou-se depois, não era verdade.

Anos depois, Sanctis foi promovido, mas tornou-se desembargador em uma câmara previdenciária, bem longe da sua especialidade, o crime. No fim do ano passado, toda a trama de como Dantas passou de acusado a acusador do juiz e do então delegado responsável pela Satiagraha, Protógenes Queiroz, com o apoio de deputados, desembargadores e ministros do STF, veio à tona com o livro “Operação Banqueiro”, do jornalista Rubens Valente. Um exemplar repousa bem em cima dos processos previdenciários da mesa do dr. Fausto. Uma arma na sua trincheira.

Nessa entrevista, o desembargador faz um acerto de contas com o passado e o presente. Para ele, a Satiagraha foi um marco das deficiências brasileiras. “Eu acho que ela revelou o nosso País, que é desigual. Uma desigualdade sustentada por um corpo de instituições que mantêm o status quo, e pouco faz para romper com essa desigualdade que tem atendido a elite do País, em todos os poderes.”

Sanctis evita críticas a Mendes, mas garante não se arrepender de nenhuma decisão, inclusive a ordem de prisão contra Dantas. “Eu o tratei como trato qualquer réu, com a lei. Ele mereceu, de minha parte, o mesmíssimo tratamento que dou ao João da Silva. (...) Cada vez que alguém desafia o Estado, tem que merecer do Estado as devidas consequências.” Na conversa de mais de uma hora no último dia 25, também sobrou tempo para Sanctis falar dos temas dos quais é especialista: crime organizado, lavagem de dinheiro, narcotráfico e liberalização das drogas.

Diário da Região - Como os Estados Unidos veem a ação do Estado brasileiro no combate ao crime organizado? 
Fausto de Sanctis - Já dei palestra sobre crime organizado nos Estados Unidos. O Abadia foi de interesse imediato deles. Na época, discuti assuntos de cooperação. Aventei a possibilidade de fazer um acordo de cooperação com os americanos, mas naquela ocasião eles me conheciam pouco. Não vingou minha proposta de fazer algo conjunto. Mas eles gostaram muito da decisão de alienar os bens do Abadia antes da decisão final da Justiça, e lá esse processo é muito rápido. Lá as pessoas confessam (seus crimes), se não a lei de (combate ao) crime organizado pode implicar em pena de morte. Então as pessoas admitem os fatos, e preferem negociar suas penas. Esse bazar (dos bens de Abadia) foi inovador. No início, houve muita resistência do Judiciário (no Brasil), diziam que eu estava atentando contra o direito de propriedade. No fim, os bens barrados por mandado de segurança estão parados, apodrecendo. E o CNJ adotou (o mecanismo dos leilões) depois.

Diário - O PCC é uma ameaça ao Estado? 
Sanctis - É uma realidade. Tem que dar força às autoridades que agem contra o crime organizado. Não é possível que um juiz fique anos preso no Mato Grosso do Sul porque o crime organizado tomou conta de tudo (Sanctis se refere ao juiz federal Odilon de Oliveira). Não se deve tratar o crime organizado de maneira romântica, como se o criminoso fosse vítima do Estado. Ao dar auxílio-reclusão à mulher do preso, o Brasil abraça a ilicitude como fonte de entrega do benefício social, quando auxílios desse tipo deveriam ser entregues em decorrência de fato aleatório, como doença. E os familiares da vítimas? É uma opção que o País fez: vamos proteger o criminoso de todas as formas.

Diário - Existe uma leniência do governo em relação aos países vizinhos produtores de droga? 
Sanctis - O governo brasileiro deve reconhecer as coisas como elas são, independente de ideologia. O governo deve agir como Estado, e não por questões ideológicas, deixar de reconhecer fatos que são graves nos países vizinhos, (governados por) amigos do governo. Tem que agir mais tecnicamente, e menos ideologicamente. Deve haver tecnicismo, não ações ideológicas, em detrimento da técnica.

Diário - O senhor é favorável à liberalização das drogas? 
Sanctis - Não. O vício começa pela droga pequena, a maconha. Ela acelera a comunicação entre os neurônios no cérebro, que exige cada vez drogas mais pesadas. A liberalização só é possível se pudermos responder: nosso sistema de saúde vai estar à altura da quantidade de viciados que poderão vir em razão dessa liberalização? Qual a projeção da quantidade de viciados que poderão vir (ao Brasil) em função dessa medida? As pessoas falam do álcool, que é liberado. Mas o percentual de pessoas que se viciam com o álcool é menor do que com as drogas. Não que eu seja a favor do álcool. Até o governo poderia restringir mais a publicidade de bebidas alcoólicas. Nos Estados Unidos, não se pode carregar uma lata de cerveja na rua, só em um saco fechado. Liberação das drogas implica um país com educação e com sistema de saúde que faça face à quantidade de viciados que possam advir dessa decisão.

Diário - Quando o senhor atuou no interior paulista, nos anos 90, notou uma mistura de público e privado no Judiciário. Isso atrapalha o andamento da Justiça nessas cidades menores? 
Sanctis - Totalmente. Isso é muito claro para mim. Acho muito difícil um juiz atuar no Interior. Quando cheguei nessas cidades, percebi que as pessoas não fazem por mal, mas dizem que o juiz é amigo, que (elas) podem frequentar o Fórum. Não, não podem. Há limites éticos, e as pessoas não tinham noção do alcance daquilo. Quando fui para Jales, senti muito isso. O juiz de cidade pequena é convidado para frequentar o clube, usa o mesmo cabeleireiro, e isso cria situações constrangedoras. Eu falava “não, não posso mais estar aqui”. Então toda sexta à noite eu ia para São Paulo e domingo voltava. Não era um ambienta ajustável. E havia ciúmes. Em São Paulo, há impessoalidade. Lá (no Interior), se um falava comigo, o outro tinha ciúme. Para mim, era uma situação nova e surpreendente. É necessário equidistância e respeito à função judicial.

Diário - Hoje o senhor atua em uma câmara previdenciária. Sente saudade da área criminal? 
Sanctis - Muita. Mas não abandonei o crime totalmente. Dou palestras, lancei livro ano passado nos Estados Unidos, agora vou lançar outro sobre lavagem (de dinheiro) no futebol. Escrevo artigos sobre corrupção. Gosto muito da área criminal, e jamais descartei a hipótese de voltar. 
Diário - Qual sua opinião sobre o livro do Rubens Valente (“Operação Banqueiro”)? 
Sanctis - Achei muito bom. Me surpreendeu a quantidade de informações que ele obteve. É um livro de fôlego. Não disse tudo, mas disse muito. Ele mostrou uma equidistância interessante, baseou-se em fontes documentais. Atuou como agente informador, sem tecer conclusões. Essa é a grande sacada do livro. O leitor é que conclui. Ele se lastreou em dados objetivos para dizer: “O fato é esse. Vocês concluam o que realmente aconteceu.” É um trabalho jornalístico de primeira grandeza.

Diário - A Operação Satiagraha foi um marco para o Brasil? 
Sanctis - Sim, foi um antes e um depois. Ela (operação) revelou as instituições do País. Os limites éticos, ou o não-limite, das pessoas envolvidas. A mistura entre público e privado, os interesses das partes, os interesses jornalísticos, o modo como o Judiciário atua - e isso vale para todas as instâncias. As forças envolvidas e o poder dessas forças tocarem as instituições - polícia, Ministério Público e Judiciário.

Diário - A operação validou a máxima de que, perante a Justiça, uns são mais iguais que outros? 
Sanctis - Essa é a sua conclusão. Eu acho que ela revelou o nosso País, que é desigual. Uma desigualdade sustentada por um corpo de instituições que mantêm o status quo, e pouco faz para romper com essa desigualdade que tem atendido a elite do País, em todos os poderes. As desigualdades existem porque as instituições dão respaldo. O fato de que um morador de favela consiga comprar um eletrodoméstico não significa que o Brasil deixou de ser desigual. Isso só vai acontecer quando a favela deixar de existir. Eu queria deixar bem claro que não critico este governo (da presidente Dilma Rousseff). Isso é histórico, achar que o País está bem, quando não está.

Diário - Quando foi o momento mais tenso da Operação Satiagraha? 
Santis - Foi todo tenso (risos). Para mim, foi tenso o equilíbrio entre a preservação do sigilo (da operação) e a necessidade de mostrar à população a verdade do que estava sendo dito e falado em detrimento da imagem das pessoas que agiam de boa fé. Esse era o grande problema. Os fatos eram convenientemente deturpados, e havia necessidade de demonstrar que não era bem assim. Na CPI das Escutas Telefônicas, onde fui ouvido por nove horas, o juiz que representa a legalidade foi chamado de símbolo da clandestinidade. Aquilo foi uma situação exemplar dos absurdos que ocorreram. Também foram tensos os momentos em que as cortes superiores estavam julgando o juiz, e os fatos não tiveram a relevância que mereciam. Mas isso não significou que deixei de decidir de forma ponderada. Tenho a consciência absolutamente tranquila em relação a isso.

Diário - Chegou a perder noites de sono? 
Sanctis - Fiquei bastante tenso. Mas estive tão convicto com tudo, tinha uma certeza tão grande do que estava fazendo... Posso ter errado, mas até hoje não consegui encontrar esse erro. Faria tudo de novo, porque tinha convicção dos fatos, que eu li e ouvi no monitoramento (telefônico) com autorização da Justiça, considerado ilegal porque transcrito por agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), fato que eu desconhecia. Mas a transcrição é o que menos importa, a escuta foi absolutamente legal. E o processo era muito mais do que as escutas. Enfim, cumpri a minha missão como esperava de mim mesmo.

Diário - Quantos processos administrativos o senhor enfrentou? 
Sanctis - Dezoito. Que eu saiba ainda há dois pendentes. De umas bobagens. Como todos os outros, têm que seguir o mesmo destino (ir para o arquivo).

Diário - Por que acredita que criaram a história de que o senhor teria instalado um grampo no gabinete do então presidente do STF, Gilmar Mendes? 
Sanctis - Houve um interesse enorme em denegrir a reputação do juiz. Como não havia nada contra mim, nada melhor do que criar um fato que fosse absolutamente bombástico. Antes da Satiagraha houve uma tentativa de destruir a minha imagem perante o Supremo. Porque já se sabia que essa operação estava para estourar. Apesar de ter 18 anos de magistratura, pensaram: como podemos prejudicar esse juiz que está dando trabalho? Trabalhava 18 horas por dia na 6ª Vara, por idealismo e porque gostava do que fazia. Fiz com que o mecanismo da delação premiada funcionasse. Isso provocou reações do crime, que chegou a evitar São Paulo, porque aqui não havia mais espaço para atuar. Era o Judiciário atuando com contundência, não em conluio (com a polícia e o Ministério Público). Eu não esperava diferente. Sabia que alguma coisa iria acontecer.

Diário - Mas uma reação tão virulenta assim? 
Sanctis - Não (por parte) do Judiciário. Esperava alguma reação por vaidade. Mas como foi, não. Isso me causou surpresa. Espero que esses momentos (como os da Satiagraha) voltem a frutificar, porque houve uma redução sensível em investimentos na segurança pública, em nível federal, e começou-se a trabalhar a legislação para que só os pobres fossem para a prisão. Eu só poderei dizer que o Brasil é desenvolvido quando entrar em uma cadeia e vir não só uma classe econômica e uma etnia.

Diário - Em relação a essas mudanças da legislação, houve aquela apelidada de “súmula Satiagraha”, que proibia o uso de algemas em operações da PF. Qual sua opinião sobre essa alteração? 
Sanctis - Foi consequência do trabalho das varas especializadas, especialmente da 6ª Vara (em São Paulo).

Diário - É um retrocesso para o País? 
Sanctis - Eu não posso julgar que seja um retrocesso, mas quando se decreta a prisão a pessoa fica no ferro, e a algema é questão de segurança pública. O preso algemado, seja de qual classe for... A algema busca, em primeiro lugar, a segurança do preso. Houve vários casos de presos se suicidando, inclusive no Brasil. E (representa a) segurança do policial que está do lado. Além disso, (serve para) fazer uma distinção de quem é quem. Determinou-se a prisão, determinou-se o ferro, que pode ser dentro ou fora da prisão. Algema é prisão móvel. É uma questão de resguardo. Mas o Supremo entendeu diferente, tenho que respeitar.

Diário - Por que o senhor acha que a PF tirou o delegado Protógenes da condução da Satiagraha? 
Sanctis - Não posso comentar isso, é questão interna da instituição. Outros delegados também atuaram na operação com competência. Tanto que o delegado Ricardo Saadi refez todo o trabalho do Protógenes e chegou às mesmíssimas conclusões. Se o Protógenes ficou estigmatizado pelo seu estilo, isso não invalida o trabalho feito. O que ocorreu dentro da Polícia (Federal) talvez tenha sido uma questão de vaidades.

Diário - Quando se tornou desembargador do TRF, o senhor tinha a expectativa de ser nomeado para uma câmara criminal. O fato de acabar em uma câmara previdenciária foi uma retaliação? 
Sanctis - Não posso dizer. O que posso afirmar é que iria fazer sessão na segunda-feira, estava com os votos, minha posse era na 6ª Câmara Criminal, e na posse foi anunciado que eu viria para uma câmara previdenciária, sendo que já havia decorrido 48 horas de todos os desembargadores escolherem (as câmaras), e o único que escolheu (a criminal) fui eu, por isso já estava com os votos. Havia telefonado para a presidência, os funcionários disseram que eu iria para o crime. E aí veio a surpresa. 
Diário - O livro “Xeque-Mate” (ficção sobre a rotina de um juiz escrita por Sanctis) foi um certo desabafo diante dessas situações? 
Sanctis - Eu estava escrevendo um livro jurídico, meu filho chegou e perguntou sobre o que eu estava escrevendo. Ele disse: “Por que você não escreve um livro sobre um juiz?” Aí juntou tudo o que eu estava passando, pensei: “Acho que é bom eu mostrar um juiz humano”. Porque me colocaram em um pedestal de tal forma que me incomodava. Então criei a figura de um juiz humano. Muita gente associa a história comigo. É óbvio que o autor se baseia nos fatos que ele observa, mas que não necessariamente ocorreram com ele. É ficção. Mas tem um pé na minha experiência de bastidor do Judiciário.

Diário - Nesses momentos mais tensos da Satiagraha, o senhor teve o apoio de boa parte da sociedade. Isso compensou, de certo modo, o desgaste? 
Sanctis - Compensou, e foi muito importante. Sem ele... Acho que foi fundamental para eu estar aqui hoje. Eu tenho que dizer uma coisa: (na época da operação) fui recomendado pelo setor de comunicação do Tribunal para que fosse à imprensa, para que a população me ouvisse, porque como a coisa estava caminhando corria sério risco na carreira. Houve uma recomendação expressa: “O senhor precisa falar do seu trabalho”, para que as pessoas soubessem quem eu era. Porque parte da imprensa manipulava os fatos, e assim agia como instrumento para destruir o meu trabalho.

Diário - Em relação à fase de investigação da Satiagraha, houve alguma falha que possa ter dado brecha a todo o imbróglio que se sucedeu, como o vazamento da operação para a Andrea Michael, da “Folha”? 
Sanctis - Foi uma falha. Mas estamos no campo de uma operação altamente explosiva, que envolvia interesses governamentais altíssimos. É inevitável que uma operação dessas mexa com interesses diversos. Então, por mais que se proteja o sigilo, é difícil mantê-lo. Foram vários problemas. Envolve o interesse jornalístico e o interesse público de uma investigação séria. Não é porque houve uma falha anterior que eu acho que o jornalista deve, em nome do furo, dar sequência a essa falha. O abuso da imprensa se combate com mais liberdade de imprensa. Mas o serviço midiático é público, e por isso deve ter seus limites éticos. Depois disso (vazamento), o trabalho ficou muito mais difícil, e a operação correu sério risco de não acontecer.

Diário - Depois da Operação Satiagraha, o senhor se encontrou pessoalmente com o ministro do STF Gilmar Mendes? 
Sanctis - Encontrei uma vez. Eu o respeito como ministro. Ele foi levado a acreditar em fatos que não aconteceram, isso é evidente. Eu lamento que as conclusões de três inquéritos que categoricamente afirmaram que não existiu qualquer grampo (na sala do ministro) não tiveram a mesma repercussão (na mídia).

Diário - Qual seu sentimento hoje sobre o ministro? 
Sanctis - Não tenho sentimento nenhum. Ele é um ministro que tem sua forma de agir, e eu tenho a minha.

Diário - Essa relação que o Rubens Valente aponta entre o ministro e o Daniel Dantas lá atrás... 
Sanctis - (interrompe). Eu não posso falar sobre isso.

Diário - O senhor considera o Daniel Dantas uma persona non grata? 
Sanctis - Não, de forma alguma. Ele é um réu como qualquer outro. Foi tratado sempre com muito respeito. Eu o tratei como trato com qualquer réu, com a lei. Ele mereceu, de minha parte, o mesmíssimo tratamento que dou ao João da Silva. Eu não fiz qualquer distinção. E cada vez que alguém desafia o Estado, tem que merecer do Estado as devidas consequências.

Diário - O que Daniel Dantas representa para o País? 
Sanctis - Eu não posso falar.

Diário - Que lição o senhor tirou da Satiagraha? 
Sanctis - (pausa) A democracia no Brasil é muito frágil, e anda conforme a conveniência dos interesses de certos grupos econômicos. Nos Estados Unidos, a grande instituição é o Judiciário. Ele é que promove a igualdade. Lá, seja quem for, cometeu falha, vai sofrer sérias consequências. Sem um Judiciário forte, não há democracia.

Diário - Se pudesse voltar no tempo, faria algo diferente na Satiagraha? 
Sanctis - Vou falar não só dessa operação, mas do meu trabalho na 6ª Vara Federal. O que eu fiz foi ler a prova, e isso não é tão simples, e nem todo mundo está disposto. Isso vale para todo e qualquer fato. Eu evito ler nomes dos réus. Às vezes, você precisa ler para verificar se há alguma problema de impedimento (do juiz). Mas sou muito distraído. E não me importa quem seja. Importa o fato e a resposta a esse fato. Absolvi muita gente, mas condenei também. Mandei prender gente porque, para mim, certas situações de desafio ao Estado são intoleráveis.

O que foi a Satiagraha:
A Operação Satiagraha (palavra do sânscrito que significa “verdade”) foi desencadeada pela Polícia Federal em 9 de julho de 2008. Foram presos temporariamente, por ordem do então juiz da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Fausto Martin de Sanctis, o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (morto em 2009) e o empresário Naji Nahas. Eles eram acusados de desvio de verbas públicas e crimes financeiros. Na casa de Dantas foram apreendidos documentos que comprovariam suposto pagamento de propinas a políticos, juízes e jornalistas, no valor total de R$ 18 milhões. Mas o banqueiro ficaria apenas um dia preso - em 10 de julho, o então presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, concedeu habeas corpus em favor de Dantas. No dia seguinte, Sanctis decretaria novamente a prisão do banqueiro, desta vez preventiva, mas a decisão seria mais uma vez derrubada por Mendes no Supremo. Em 2011, a ação penal decorrente da operação foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça. Os ministros do STJ entenderam que as provas da Satiagraha foram obtidas ilegalmente pois a PF contou com a participação irregular de agentes da Abin. A extinção da ação dispensou Dantas e mais 13 condenados de responderem pelos crimes de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. O Ministério Público recorreu ao STF, que ainda não julgou o caso.  (Fonte: aqui).