Tonho.
Cem dias para a Copa
Por Aldo Rebelo
Este ano de 2014 é especial para o futebol. Em agosto, a seleção brasileira completa 100 anos. Em fevereiro, o futebol brasileiro fez 120 anos. Em junho/julho, o Brasil sedia a 20ª Copa do Mundo da FIFA. Será a segunda Copa no País, a quinta na América do Sul. Uruguai, Argentina e Chile também já receberam o torneio.
Sabe-se lá quando haverá outra oportunidade de ver todas as seleções campeãs mundiais disputando mais um título no país que jogou todas as copas, sediou uma e ganhou cinco. Para quem gosta de futebol, uma festa ímpar.
Em 1894, o jovem brasileiro Charles Miller – filho de um escocês empregado na São Paulo Railway Company, chamado John D`Silva Miller, e de uma brasileira de origem inglesa, chamada Carlota Fox – retornou ao Brasil depois de 10 anos estudando na Inglaterra. Nas terras da Rainha, praticara rugby, cricket e o football, jogado pelos operários ingleses nas tardes de sábado.
Na volta a São Paulo, Charles trouxe na bagagem duas bolas velhas, uma bomba para enchê-las, um par de chuteiras – naquele tempo, chamadas de botinas -, uniformes usados e um livrinho com as regras do jogo da bola. Quando aquelas bolas velhas rolaram, tocadas pelos pés dos ferroviários paulistanos, o football inventado pelos súditos da Rainha começou a se transformar em futebol e – modéstia a parte – passou a ser aperfeiçoado.
Convocada pela primeira vez em 20 de agosto de 1914, a seleção brasileira conquistou, um mês depois, um título internacional: a Copa Roca, criada para aproximar Brasil e Argentina. Derrotamos os vizinhos por 1 x 0 em Buenos Aires. Uma semana antes, tínhamos perdido um amistoso para a mesma Argentina por 3 x 0.
De lá para cá, ganhamos cinco Copas do Mundo, quatro Copas das Confederações e vencemos oito vezes a Copa América. Vitórias coletivas construídas a partir da arte dos pioneiros Friedenreich (El Tigre) da década de 1920; Fausto, a Maravilha Negra da primeira Copa, em 1930; Leônidas da Silva, o melhor da Copa de 1938, e consolidadas pelas gerações seguintes.
Depois da tragédia de 1950, quando perdemos a final para o Uruguai no Maracanã – então o maior estádio do mundo – tomado por quase 200 mil pessoas, vieram o Rei Pelé, Garrincha, Vavá, Zagallo, Didi, Zito, Rivelino, Zico, Falcão, Sócrates, Ademir da Guia, filho do Divino Domingos da Guia... E o Brasil se transformou no maior vencedor de Copas da FIFA.
Não há espaço, aqui, para relatar as façanhas individuais dos nossos craques. Mas duas delas servem para homenagear todas as outras: são brasileiros o maior jogador de todos os tempos – Pelé – e o maior artilheiro das Copas, Ronaldo, que marcou 15 gols em três torneios.
Não são poucas, portanto, as qualidades que credenciam o Brasil a, daqui a cem dias, abrir a 20ª Copa do Mundo de Futebol e dar início a mais uma grande festa do esporte que emociona bilhões de pessoas em todos os cantos da Terra. Nada mais justo então, que no ano do centenário da seleção, o futebol esteja na “casa” de onde se projetou para ser esse grande espetáculo que emociona e fascina o planeta.
O país-sede pode não vencer, necessariamente, a Copa do Mundo (sofremos desse mal em 1950), mas festeja, sempre, a conquista de um legado incomensurável. O megaevento esportivo mais cobiçado e acompanhado do planeta, disputado com unhas e dentes pelos países mais desenvolvidos, é um motor de progresso e farol de projeção geopolítica.
Como desejo, esperamos que ao soar o apito final no Maracanã, em 13 de julho de 2014, o Brasil seja campeão. Como realidade concreta e irreversível, ficará um resultado extraordinário para benefício do povo brasileiro. Os números são auspiciosos. O último Balanço da Copa, que tem como referência o mês de setembro, mostra que os investimentos públicos e privados já alcançam R$ 25,6 bilhões.
As consultorias Ernst &Young e Fundação Getúlio Vargas calculam que, entre 2010 e 2014, serão movimentados R$ 142,39 bilhões adicionais na economia nacional. Para cada R$ 1 aplicado pelo setor público, R$ 3,4 serão investidos pela iniciativa privada a partir das obras estruturantes.
Devem ser gerados 3,6 milhões de empregos – o equivalente à população do Uruguai. A arrecadação de impostos atingirá R$ 11 bilhões e a população vai auferir renda adicional de R$ 63,48 bilhões apenas nesse quadriênio.
Segundo prospecção da consultoria Value Partners, os investimentos vão agregar R$ 183,2 bilhões ao Produto Interno Bruto até 2019. Os efeitos na economia serão ainda mais fecundos se o Brasil ganhar a Copa. Estudo do pesquisador britânico John S. Irons, do “Center for American Progress”, indica que o torneio da FIFA “faz rolar a bola da economia” do país-anfitrião que levanta a taça. O PIB da Inglaterra, que cresceu 2% na Copa de 1966, aumentou para mais de 3% nos dois anos seguintes. Fenômeno idêntico ocorreu com a Argentina, sede e vencedora do torneio de 1978.
Afora os aspectos econômicos, a Copa do Mundo é, antes de tudo, uma contagiante festa esportiva que, ao realizar-se no País do Futebol, encontra o seu campo perfeito. O retumbante sucesso popular da Copa das Confederações foi uma prévia da jornada de 2014. Compreendendo sua importância social e lúdica, o povo brasileiro é a favor da Copa.
Como visto, a festa do futebol inova ou acelera obras de infraestrutura para usufruto perene do povo, traz turistas, melhorias na segurança, empregos, aumento capilarizado de negócios e consequente incremento do PIB. Quando a bola rolar, no dia 12 de junho, os fãs do futebol verão que o Brasil sabe realizar uma Copa do Mundo tanto quanto ganhá-la. (Fonte: aqui).
quarta-feira, 5 de março de 2014
ESTUPIDAMENTE TRANSGÊNICA
Cerveja: o transgênico que você bebe
Por Flavio Siqueira Junior e Ana Paula Bortoletto
Vamos falar sobre cerveja. Vamos falar sobre o Brasil, que é o 3º maior produtor de cerveja do mundo, com 86,7 bilhões de litros vendidos ao ano e que transformou um simples ato de consumo num ritual presente nos corações e mentes de quem quer deixar os problemas de lado ou, simplesmente, socializar.
Não se sabe muito bem onde a cerveja surgiu, mas sua cultura remete a povos antigos. Até mesmo Platão já criou uma máxima, enquanto degustava uma cerveja nos arredores do Partenon quando disse: “era um homem sábio aquele que inventou a cerveja”.
E o que mudou de lá pra cá? Jesus Cristo, grandes navegações, revolução industrial, segunda guerra mundial, expansão do capitalismo… Muita coisa aconteceu e as mudanças foram vistas em todo lugar, inclusive dentro do copo. Hoje a cerveja é muito diferente daquela imaginada pelo duque Guilherme VI, que em 1516, antecipando uma calamidade pública, decretou na Baviera que cerveja era somente, e tão somente, água, malte e lúpulo.
Acontece que em 2012, pesquisadores brasileiros ganharam o mundo com a publicação de um artigo científico no Journal of Food Composition and Analysis, indicando que as cervejas mais vendidas por aqui, ao invés de malte de cevada, são feitas de milho.
Antarctica, Bohemia, Brahma, Itaipava, Kaiser, Skol e todas aquelas em que consta como ingrediente “cereais não maltados”, não são tão puras como as da Baviera, mas estão de acordo com a legislação brasileira, que permite a substituição de até 45% do malte de cevada por outra fonte de carboidratos mais barata.
Agora pense na quantidade de cerveja que você já tomou e na quantidade de milho que ela continha, principalmente a partir de 16 de maio de 2007.
Foi nessa data que a CNTBio inaugurou a liberação da comercialização do milho transgênico no Brasil. Hoje já temos 18 espécies desses milhos mutantes produzidos por Monsanto, Syngenta, Basf, Bayer, Dow Agrosciences e Dupont, cujo faturamento somado é maior que o PIB de países como Chile, Portugal e Irlanda.
Tudo bem, mas e daí?
E daí que ainda não há estudos que assegurem que esse milho criado em laboratório seja saudável para o consumo humano e para o equilíbrio do meio ambiente. Aliás, no ano passado um grupo de cientistas independentes liderados pelo professor de biologia molecular da Universidade de Caen, Gilles-Éric Séralini, balançou os lobistas dessas multinacionais com o teste do milho transgênico NK603 em ratos: se fossem alimentados com esse milho em um período maior que três meses, tumores cancerígenos horrendos surgiam rapidamente nas pobres cobaias. O pior é que o poder dessas multinacionais é tão grande, que o estudo foi desclassificado pela editora da revista por pressões de um novo diretor editorial, que tinha a Monsanto como seu empregador anterior.
Além disso, há um movimento mundial contra os transgênicos e o Brasil é um de seus maiores alvos. Não é para menos, nós somos o segundo maior produtor de transgênicos do mundo, mais da metade do território brasileiro destinado à agricultura é ocupada por essa controversa tecnologia. Na safra de 2013 do total de milho produzido no país, 89,9% era transgênico. (Todos esses dados são divulgados pelas próprias empresas para mostrar como o seu negócio está crescendo)
Enquanto isso as cervejarias vão “adequando seu produto ao paladar do brasileiro” pedindo para bebermos a cerveja somente quando um desenho impresso na latinha estiver colorido, disfarçando a baixa qualidade que, segundo elas, nós exigimos. O que seria isso se não adaptar o nosso paladar à presença crescente do milho?
Da próxima vez que você tomar uma cervejinha e passar o dia seguinte reinando no banheiro, já tem mais uma justificativa: “foi o milho”.
Dá um frio na barriga, não? Pois então tente questionar a Ambev, quem sabe eles não estão usando os 10,1% de milho não transgênico? O atendimento do SAC pode ser mais atencioso do que a informação do rótulo, que se resume a dizer: “ingredientes: água, cereais não maltados, lúpulo e antioxidante INS 316.”
Vai uma, bem gelada? (Fonte: aqui).
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Em janeiro, ao publicar o post 'Cerveja de milho à solta' - aqui -, comentei ao final: "Certos amantes da cerveja, impassíveis, indagam: 'Esse milho é transgênico?'". Eis aí a triste resposta.
SOBRE O DESEMPREGO NA UNIÃO EUROPEIA
Petar Pismestrovic.
A juventude sem sonhos da Europa
Por Luisa Maria González
Depois de um 2013 marcado por altos níveis de desemprego para os jovens, o novo ano chegou na Europa sem oferecer esperanças de melhora: a Organização Internacional do Trabalho anunciou que os menos experimentados voltarão a ser os mais atingidos pelo desemprego.
Nem sequer a Europa de riquezas centenárias salvar-se-á do caos, acrescentou a entidade, pois as condições do mercado de trabalho não mostram sinal algum de recuperação e tudo parece indicar que 2014 quase não registrará aumentos nos índices de emprego.
Como concordam os especialistas, para os jovens esta situação é duplamente traumática, pois além de serem as primeiras vítimas dos cortes, sua transição do sistema educacional para o mundo do trabalho transforma-se em um processo complexo e até doloroso.
Não por acaso as autoridades advertiram quanto ao incremento dos suicídios em função da crise econômica iniciada formalmente em 2008, pois só um ano depois a quantidade de jovens europeus que se matou aumentou 4,2%.
“Nossos resultados mostram que a crise econômica supõe, sem dúvida, risco de suicídio”, afirmou um coletivo de autores no British Medical Journal, os quais confirmaram que na Europa, o fenômeno afeta particularmente os jovens.
A pesquisa acrescentou que a maioria dos suicídios ocorre entre os rapazes de 15 a 24 anos, os quais, além de serem vítimas do desemprego, são usualmente os menos protegidos pelos sistemas de seguridade social.
Adicionalmente, alertou que os suicídios representam só uma pequena parte do sofrimento pois as cifras refletem unicamente a consumação do ato, não mencionando os que ficam na tentativa, e que poderiam chegar a ser 40 vezes mais numerosos.
Citados por um informe da Confederação Sindical Internacional (CSI), os integrantes de uma rede italiana de trabalhadores precários ressaltaram o que significa viver uma juventude sem sonhos:
“Somos uma geração precária, desempregada, infrarremunerada, que trabalha gratuitamente e de forma invisível, condenada a depender muito tempo dos pais. A precariedade é nosso leitmotiv”, afirmaram.
“Vivemos à margem de todos os direitos: o direito de estudar, de ter uma casa, uma renda digna, saúde, relações sentimentais, o direito de viver livres e felizes”, denunciaram.
Sem estudos, sem futuro
A evolução social na Europa, durante várias décadas do século XX, amparada no chamado Estado de bem estar, propiciou a disseminação de expectativas segundo as quais quanto mais se preparassem as crianças e jovens em seus estudos, melhor desempenho teriam no mercado de trabalho.
No entanto, a crise econômica chegou para mostrar que os mecanismos se oxidaram. Por exemplo, em Portugal há cerca de 63 mil graduados universitários sem trabalho, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas.
De fato, a educação esteve entre as primeiras afetadas pela recessão, devido aos cortes de orçamento decretados pelos governos.
No Reino Unido, um dos 10 países com maior Produto Interno Bruto do planeta, recentemente ocorreram vários protestos convocados pelos principais sindicatos de professores para manifestar sua oposição às reduções dos salários e das pensões, além das más condições de trabalho.
E quem sai mais prejudicado quando a educação está ausente da lista de prioridades do governo? Crianças e jovens.
O impacto, segundo testemunhas, é muito forte no ensino superior, dados os elevados custos das universidades privadas e o encerramento de possibilidades nas públicas.
“Os cortes recentes no setor da educação seguramente dissuadirão muitos jovens de iniciar estudos superiores ou ir para a universidade”, indicou o italiano Salvatore Marra, citado no informe da CSI.
Além disso, as dificuldades econômicas das famílias obrigam muitos rapazes e moças a abandonar seus estudos na esperança de inserir-se no mundo do trabalho e dar sua contribuição, uma opção que, como indicam as cifras, também é problemática.
Geração NN: Nem estuda, nem trabalha
“Durante a crise econômica, os jovens são frequentemente os últimos a entrar e os primeiros a sair; isto é, os últimos a serem contratados e os primeiros a serem despedidos”, alertou o Informe Mundial da Juventude das Nações Unidas.
O desemprego juvenil, embora afete de maneira desigual os diferentes países europeus, em geral alcançou, nestes anos, cifras históricas, pois em mais de 10 países o índice supera 25% e em alguns, como Espanha e Grécia, ultrapassa 50%.
Estas taxas frequentemente duplicam as registradas entre os adultos; por exemplo, na Itália o desemprego geral chega a 12%, enquanto para os jovens é de 41,2%, segundo cifras publicadas no final de 2013.
No Reino Unido, quase um milhão de jovens entre 16 e 24 anos está desempregado, o que representa 40% do total das pessoas desocupadas.
Adicionalmente, quase a metade destes jovens permaneceu sem trabalhar por seis meses ou mais.
“Encontrar um emprego transformou-se em uma tarefa quase impossível… e encontrar um bom emprego é uma sorte”, disse o polonês Tomasz Jasinski, membro da Comissão de jovens da Aliança de Sindicatos da Polônia.
“A qualidade dos contratos oferecidos aos jovens não lhes garante um posto estável nem seguro no mercado de trabalho, o que tem uma enorme influência em sua vida pessoal e familiar”, acrescentou.
Apesar dos numerosos pronunciamentos oficiais na União Europeia (UE) sobre a necessidade de fomentar emprego para os jovens, a situação desta geração é ainda alarmante, com índices de desemprego que alcançam cifras históricas.
Enquanto as medidas concretas não chegam, em mais de 10 países do continente a taxa de desemprego juvenil supera os 25% e, em alguns, como Espanha e Grécia, chega a ultrapassar 50%.
Durante várias cúpulas de alto nível da UE em 2013, os principais dirigentes comunitários manifestaram a necessidade e a disposição de priorizar a inserção no trabalho da juventude, um assunto com o qual concordaram vários mandatários, como o primeiro ministro italiano, Enrico Letta.
Não obstante, a situação está longe de melhorar para os rapazes e moças, vaticinou para 2014 a Organização Internacional do Trabalho, pois este grupo populacional continuará sendo o mais afetado por um mercado de trabalho que não mostra sinais de recuperação.
A pesquisadora do Instituto Sindical Europeu, Margherita Bussi, explicou que mesmo antes da crise o panorama já era inseguro devido à longa transição para o trabalho, à multiplicação dos empregos precários e à baixa remuneração, entre outros fenômenos.
“Mas mesmo se sua situação era em certa medida precária, os jovens esperavam superá-la indo trabalhar no estrangeiro ou ficando mais tempo em casa de seus pais enquanto encontravam o emprego desejado. Agora as possibilidades são muito reduzidas”, acrescentou, citada por um relatório da Confederação Sindical Internacional.
Geração precária e trabalho irregular
A presidenta da Associação de Jovens da Confederação de Sindicatos da Lituânia, Goda Neverauskaite, argumentou que os empregadores querem economizar e conseguir que menos trabalhadores realizem mais trabalho e, para tanto, é mais rentável contratar os de mais experiência.
Enquanto isso, o grego Kostas Petrou considera que os dirigentes e proprietários não oferecem postos de trabalho a recém graduados com o propósito de evitar mais gastos em sua superação.
O que resta então para os jovens? Segundo as tendências, o mais comum é realizar trabalhos irregulares acertados em contratos informais e inseguros, que acabam sendo muito mal remunerados e com condições mínimas.
“Frequentemente, a inserção dos jovens no mercado de trabalho assemelha-se a uma corrida de obstáculos. Os sucessivos contratos de curta duração e mal remunerados são às vezes o único meio para chegar algum dia a um emprego estável”, disse o líder sindicalista francês Thiébaut Weber.
Esta situação leva os menos qualificados a realizar muitas vezes tarefas penosas que podem por em risco sua saúde e provocar lesões musculoesqueléticas, mesmo antes que alcancem a idade madura, acrescentou.
A instabilidade tem consequências graves para o desenvolvimento dos jovens como cidadãos, concordam os especialistas, pois dificulta-se sua socialização e costumam cair em estados de forte depressão e baixa autoestima.
Agora mesmo, por exemplo, na Itália mais de dois milhões de jovens não estão registrados nem como estudantes, nem como trabalhadores, nem como aprendizes em formação.
Sem trabalho não há independência
Uma das maiores contradições da atualidade é que a precarização do trabalho juvenil ocorre depois de décadas em que os níveis de preparação das novas gerações tinham experimentado melhoras.
De acordo com o líder sindical espanhol Ignacio Doreste, “esta geração de jovens alcançou, pela primeira vez, o mais alto nível educativo na história do país. Mas também é a primeira em que tem ou terá piores condições de vida do que seus pais”.
Em consequência, identificaram-se tendências desfavoráveis com o que muitos deles se viram obrigados a permanecer em casa de seus pais e atrasar sua independência e formação de família própria, o que em termos gerais significa postergar a definição de um projeto de vida.
Para o italiano Salvatore Marra, neste sentido há vários fenômenos relacionados com a juventude: escassas possibilidades de viver de forma autônoma e de criar uma vida de família própria, emigração para outros países, exclusão social, problemas devidos à marginalidade, trabalho em negro, pobreza…
No Reino Unido, por exemplo, 26% dos jovens entre 20 e 34 anos ainda vive com seus pais, a cifra mais alta nos últimos anos.
Segundo um relatório do Burô Nacional de Estatísticas, 3,3 milhões permanecia com seus pais em 2013, enquanto uma década atrás o número mal superava os 2,4 milhões.
A tendência tem um impacto em outros indicadores, como a taxa de fecundidade, explicou a pesquisadora Karen Gask, pois as pessoas geralmente esperam tornar-se independentes antes de aventurar-se a ter filhos.
Por sua parte, a jornalista Sejo Vieira alertou sobre a saída massiva deste grupo populacional de Portugal, principalmente os mais qualificados e com nível superior, os quais ante a falta de oportunidades “aventuram-se em uma emigração incerta e perigosa”.
O próprio viceprimeiro ministro britânico Nick Clegg concordou em quão delicado é o panorama atual, para além do terreno econômico, nos âmbitos social e cultural.
Muitos pais temem que apesar de estar melhor formados, quando seus filhos cresçam terão provavelmente níveis de vida mais baixos que os seus, disse em um artigo publicado no diário Telegraph.
“A mobilidade social é também o desejo de cada pai de que seu filho seja melhor do que eles. Certamente, existe medo no país de que a crise tenha marcado o fim de um século de progresso em que cada geração viveu melhor do que a anterior”, afirmou. (Fonte: aqui).
................
Enquanto isso, no Brasil, diante das taxas historicamente baixas de desemprego, o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central no governo FHC e atual economista-chefe do banco Itaú, tenta explicar - aqui - essa amarga (para ele, seus patrões e parceiros) realidade. Segundo ele, é absurda uma taxa tão baixa de desemprego num país com um PIB "ao redor de 2%". Na procura desesperada por uma notícia alentadora, prevê sinais de "esgotamento" do modelo, ignorando o fato de que o PIB de 2,3% do Brasil em 2013 é um dos cinco maiores do mundo entre os países desenvolvidos e pondo pra escanteio o fortalecimento do mercado interno via investimentos, programas sociais e políticas de crédito (notadamente bancos estatais)...
Por Luisa Maria González
Depois de um 2013 marcado por altos níveis de desemprego para os jovens, o novo ano chegou na Europa sem oferecer esperanças de melhora: a Organização Internacional do Trabalho anunciou que os menos experimentados voltarão a ser os mais atingidos pelo desemprego.
Nem sequer a Europa de riquezas centenárias salvar-se-á do caos, acrescentou a entidade, pois as condições do mercado de trabalho não mostram sinal algum de recuperação e tudo parece indicar que 2014 quase não registrará aumentos nos índices de emprego.
Como concordam os especialistas, para os jovens esta situação é duplamente traumática, pois além de serem as primeiras vítimas dos cortes, sua transição do sistema educacional para o mundo do trabalho transforma-se em um processo complexo e até doloroso.
Não por acaso as autoridades advertiram quanto ao incremento dos suicídios em função da crise econômica iniciada formalmente em 2008, pois só um ano depois a quantidade de jovens europeus que se matou aumentou 4,2%.
“Nossos resultados mostram que a crise econômica supõe, sem dúvida, risco de suicídio”, afirmou um coletivo de autores no British Medical Journal, os quais confirmaram que na Europa, o fenômeno afeta particularmente os jovens.
A pesquisa acrescentou que a maioria dos suicídios ocorre entre os rapazes de 15 a 24 anos, os quais, além de serem vítimas do desemprego, são usualmente os menos protegidos pelos sistemas de seguridade social.
Adicionalmente, alertou que os suicídios representam só uma pequena parte do sofrimento pois as cifras refletem unicamente a consumação do ato, não mencionando os que ficam na tentativa, e que poderiam chegar a ser 40 vezes mais numerosos.
Citados por um informe da Confederação Sindical Internacional (CSI), os integrantes de uma rede italiana de trabalhadores precários ressaltaram o que significa viver uma juventude sem sonhos:
“Somos uma geração precária, desempregada, infrarremunerada, que trabalha gratuitamente e de forma invisível, condenada a depender muito tempo dos pais. A precariedade é nosso leitmotiv”, afirmaram.
“Vivemos à margem de todos os direitos: o direito de estudar, de ter uma casa, uma renda digna, saúde, relações sentimentais, o direito de viver livres e felizes”, denunciaram.
Sem estudos, sem futuro
A evolução social na Europa, durante várias décadas do século XX, amparada no chamado Estado de bem estar, propiciou a disseminação de expectativas segundo as quais quanto mais se preparassem as crianças e jovens em seus estudos, melhor desempenho teriam no mercado de trabalho.
No entanto, a crise econômica chegou para mostrar que os mecanismos se oxidaram. Por exemplo, em Portugal há cerca de 63 mil graduados universitários sem trabalho, de acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas.
De fato, a educação esteve entre as primeiras afetadas pela recessão, devido aos cortes de orçamento decretados pelos governos.
No Reino Unido, um dos 10 países com maior Produto Interno Bruto do planeta, recentemente ocorreram vários protestos convocados pelos principais sindicatos de professores para manifestar sua oposição às reduções dos salários e das pensões, além das más condições de trabalho.
E quem sai mais prejudicado quando a educação está ausente da lista de prioridades do governo? Crianças e jovens.
O impacto, segundo testemunhas, é muito forte no ensino superior, dados os elevados custos das universidades privadas e o encerramento de possibilidades nas públicas.
“Os cortes recentes no setor da educação seguramente dissuadirão muitos jovens de iniciar estudos superiores ou ir para a universidade”, indicou o italiano Salvatore Marra, citado no informe da CSI.
Além disso, as dificuldades econômicas das famílias obrigam muitos rapazes e moças a abandonar seus estudos na esperança de inserir-se no mundo do trabalho e dar sua contribuição, uma opção que, como indicam as cifras, também é problemática.
Geração NN: Nem estuda, nem trabalha
“Durante a crise econômica, os jovens são frequentemente os últimos a entrar e os primeiros a sair; isto é, os últimos a serem contratados e os primeiros a serem despedidos”, alertou o Informe Mundial da Juventude das Nações Unidas.
O desemprego juvenil, embora afete de maneira desigual os diferentes países europeus, em geral alcançou, nestes anos, cifras históricas, pois em mais de 10 países o índice supera 25% e em alguns, como Espanha e Grécia, ultrapassa 50%.
Estas taxas frequentemente duplicam as registradas entre os adultos; por exemplo, na Itália o desemprego geral chega a 12%, enquanto para os jovens é de 41,2%, segundo cifras publicadas no final de 2013.
No Reino Unido, quase um milhão de jovens entre 16 e 24 anos está desempregado, o que representa 40% do total das pessoas desocupadas.
Adicionalmente, quase a metade destes jovens permaneceu sem trabalhar por seis meses ou mais.
“Encontrar um emprego transformou-se em uma tarefa quase impossível… e encontrar um bom emprego é uma sorte”, disse o polonês Tomasz Jasinski, membro da Comissão de jovens da Aliança de Sindicatos da Polônia.
“A qualidade dos contratos oferecidos aos jovens não lhes garante um posto estável nem seguro no mercado de trabalho, o que tem uma enorme influência em sua vida pessoal e familiar”, acrescentou.
Apesar dos numerosos pronunciamentos oficiais na União Europeia (UE) sobre a necessidade de fomentar emprego para os jovens, a situação desta geração é ainda alarmante, com índices de desemprego que alcançam cifras históricas.
Enquanto as medidas concretas não chegam, em mais de 10 países do continente a taxa de desemprego juvenil supera os 25% e, em alguns, como Espanha e Grécia, chega a ultrapassar 50%.
Durante várias cúpulas de alto nível da UE em 2013, os principais dirigentes comunitários manifestaram a necessidade e a disposição de priorizar a inserção no trabalho da juventude, um assunto com o qual concordaram vários mandatários, como o primeiro ministro italiano, Enrico Letta.
Não obstante, a situação está longe de melhorar para os rapazes e moças, vaticinou para 2014 a Organização Internacional do Trabalho, pois este grupo populacional continuará sendo o mais afetado por um mercado de trabalho que não mostra sinais de recuperação.
A pesquisadora do Instituto Sindical Europeu, Margherita Bussi, explicou que mesmo antes da crise o panorama já era inseguro devido à longa transição para o trabalho, à multiplicação dos empregos precários e à baixa remuneração, entre outros fenômenos.
“Mas mesmo se sua situação era em certa medida precária, os jovens esperavam superá-la indo trabalhar no estrangeiro ou ficando mais tempo em casa de seus pais enquanto encontravam o emprego desejado. Agora as possibilidades são muito reduzidas”, acrescentou, citada por um relatório da Confederação Sindical Internacional.
Geração precária e trabalho irregular
A presidenta da Associação de Jovens da Confederação de Sindicatos da Lituânia, Goda Neverauskaite, argumentou que os empregadores querem economizar e conseguir que menos trabalhadores realizem mais trabalho e, para tanto, é mais rentável contratar os de mais experiência.
Enquanto isso, o grego Kostas Petrou considera que os dirigentes e proprietários não oferecem postos de trabalho a recém graduados com o propósito de evitar mais gastos em sua superação.
O que resta então para os jovens? Segundo as tendências, o mais comum é realizar trabalhos irregulares acertados em contratos informais e inseguros, que acabam sendo muito mal remunerados e com condições mínimas.
“Frequentemente, a inserção dos jovens no mercado de trabalho assemelha-se a uma corrida de obstáculos. Os sucessivos contratos de curta duração e mal remunerados são às vezes o único meio para chegar algum dia a um emprego estável”, disse o líder sindicalista francês Thiébaut Weber.
Esta situação leva os menos qualificados a realizar muitas vezes tarefas penosas que podem por em risco sua saúde e provocar lesões musculoesqueléticas, mesmo antes que alcancem a idade madura, acrescentou.
A instabilidade tem consequências graves para o desenvolvimento dos jovens como cidadãos, concordam os especialistas, pois dificulta-se sua socialização e costumam cair em estados de forte depressão e baixa autoestima.
Agora mesmo, por exemplo, na Itália mais de dois milhões de jovens não estão registrados nem como estudantes, nem como trabalhadores, nem como aprendizes em formação.
Sem trabalho não há independência
Uma das maiores contradições da atualidade é que a precarização do trabalho juvenil ocorre depois de décadas em que os níveis de preparação das novas gerações tinham experimentado melhoras.
De acordo com o líder sindical espanhol Ignacio Doreste, “esta geração de jovens alcançou, pela primeira vez, o mais alto nível educativo na história do país. Mas também é a primeira em que tem ou terá piores condições de vida do que seus pais”.
Em consequência, identificaram-se tendências desfavoráveis com o que muitos deles se viram obrigados a permanecer em casa de seus pais e atrasar sua independência e formação de família própria, o que em termos gerais significa postergar a definição de um projeto de vida.
Para o italiano Salvatore Marra, neste sentido há vários fenômenos relacionados com a juventude: escassas possibilidades de viver de forma autônoma e de criar uma vida de família própria, emigração para outros países, exclusão social, problemas devidos à marginalidade, trabalho em negro, pobreza…
No Reino Unido, por exemplo, 26% dos jovens entre 20 e 34 anos ainda vive com seus pais, a cifra mais alta nos últimos anos.
Segundo um relatório do Burô Nacional de Estatísticas, 3,3 milhões permanecia com seus pais em 2013, enquanto uma década atrás o número mal superava os 2,4 milhões.
A tendência tem um impacto em outros indicadores, como a taxa de fecundidade, explicou a pesquisadora Karen Gask, pois as pessoas geralmente esperam tornar-se independentes antes de aventurar-se a ter filhos.
Por sua parte, a jornalista Sejo Vieira alertou sobre a saída massiva deste grupo populacional de Portugal, principalmente os mais qualificados e com nível superior, os quais ante a falta de oportunidades “aventuram-se em uma emigração incerta e perigosa”.
O próprio viceprimeiro ministro britânico Nick Clegg concordou em quão delicado é o panorama atual, para além do terreno econômico, nos âmbitos social e cultural.
Muitos pais temem que apesar de estar melhor formados, quando seus filhos cresçam terão provavelmente níveis de vida mais baixos que os seus, disse em um artigo publicado no diário Telegraph.
“A mobilidade social é também o desejo de cada pai de que seu filho seja melhor do que eles. Certamente, existe medo no país de que a crise tenha marcado o fim de um século de progresso em que cada geração viveu melhor do que a anterior”, afirmou. (Fonte: aqui).
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Enquanto isso, no Brasil, diante das taxas historicamente baixas de desemprego, o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central no governo FHC e atual economista-chefe do banco Itaú, tenta explicar - aqui - essa amarga (para ele, seus patrões e parceiros) realidade. Segundo ele, é absurda uma taxa tão baixa de desemprego num país com um PIB "ao redor de 2%". Na procura desesperada por uma notícia alentadora, prevê sinais de "esgotamento" do modelo, ignorando o fato de que o PIB de 2,3% do Brasil em 2013 é um dos cinco maiores do mundo entre os países desenvolvidos e pondo pra escanteio o fortalecimento do mercado interno via investimentos, programas sociais e políticas de crédito (notadamente bancos estatais)...
terça-feira, 4 de março de 2014
AÇÃO PENAL 470: DE VOLTA AO COMEÇO
Começar de novo
Por Ricardo Melo
Se o Supremo Tribunal Federal pretende recuperar sua respeitabilidade, só há uma saída: refazer, do começo ao fim, o julgamento do chamado mensalão petista. A admissão, pelo presidente do STF, de que penas foram aumentadas artificialmente em prejuízo dos réus fez transbordar o copo de irregularidades da Ação Penal 470.
Relembrando algumas: a obrigatoriedade de foro privilegiado para acusados com direito a percorrer várias instâncias da Justiça; a adoção do princípio de que todos são culpados até prova em contrário, cerne da teoria do "domínio do fato"; o fatiamento de sentenças conforme conveniências da relatoria. E, talvez a mais espantosa das ilegalidades, a ocultação deliberada de investigações.
A jabuticaba jurídica tem nome e número: inquérito 2474, conduzido paralelamente à investigação que originou a AP 470.
Não é um documento qualquer. Por intermédio dos 78 volumes do inquérito 2474, repleto de laudos oficiais e baseado em investigações da Polícia Federal, réus poderiam rebater argumentos decisivos para sua condenação.
A negativa do acesso ao inquérito foi justificada da seguinte forma: "razões de ordem prática demonstram que a manutenção, nos presente autos, das diligências relativas à continuidade das investigações [...], em relação aos fatos não constantes da denúncia oferecida, pode gerar confusão e ser prejudicial ao regular desenvolvimento das investigações." O autor do despacho, de outubro de 2006, foi ele mesmo, Joaquim Barbosa.
Imagine a situação: o sujeito é acusado de homicídio, o julgamento do réu começa e, durante os trabalhos da corte, antes mesmo de qualquer decisão do júri, a suposta vítima aparece vivinha da silva. "Ah, mas outra investigação afirma que ele estava morto", argumenta o promotor. "Isto vai criar confusão". O julgamento continua. O vivo respira, mas nos autos está morto. E o réu, que não matou ninguém, é condenado por assassinato.
O paralelo parece absurdo, mas absurdo é o que fez o STF. A existência do inquérito 2474 tornou-se pública em 2012, em reportagem desta Folha sobre o caso de um executivo do Banco do Brasil, Cláudio de Castro Vasconcelos.
A conexão com a AP 470 era evidente, pois focava o mesmo Visanet apontado como irrigador do mensalão. O processo havia sido aberto seis anos antes, em 2006, portanto em tempo mais do que hábil para ser examinado.
Nenhum desses fatos é propriamente novidade. Eles ressurgiram em janeiro deste ano, quando o ministro Ricardo Lewandovski liberou a papelada aos advogados de Henrique Pizzolato.
Estranhamente, ou convenientemente, o assunto passou quase despercebido.
É hora de acender a luz. O comportamento ao mesmo tempo espalhafatoso e indecoroso do presidente do STF tende a concentrar as atenções no desfecho da AP 470. Neste momento, por razões diversas, pode ser confortável jogar nas costas de Joaquim Barbosa o ônus, ou o bônus, do julgamento. É claro que seu papel é inapagável, mas ele tem razão ao lembrar que o fundamental foi decidido em plenário.
No final das contas, há gente condenada e presa num processo que tem tudo para ser contestado. O país continua sem saber realmente se houve e, se houve, o que foi realmente o chamado mensalão.
Conformar-se, ou não, com o veredicto da inexistência de formação de quadrilha é muito pouco diante das excentricidades jurídicas, para dizer o menos, que cercaram o julgamento e têm orientado a execução das penas.
Embora desperte curiosidade justificada, o que menos importa é o futuro de Barbosa. Quem está na berlinda é o STF como um todo: importa saber se o país possui uma instância jurídica com credibilidade para fazer valer suas decisões. (Fonte: aqui).
................
Desde o inicio do julgamento da AP 470, em agosto de 2012, a blogosfera (ou o que um certo iluminado chamou de 'blogs sujos') vem martelando os furos acima apontados, entre outros. É importante dizer que jornalistas como Paulo Moreira Leite (IstoÉ) e Janio de Freitas (Folha) também manifestaram as mesmas impressões. As ponderações não obtiveram eco. Muito pelo contrário. Mas a indiferença da grande mídia não causou estranheza.
Uma certeza: o artigo toca num ponto que deixa em pânico os inconformados país afora: a revisão criminal. É que haveria a possibilidade de o castelo de cartas ruir inapelavelmente.
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Direito. AP 470. Começar de novo. Ricardo Melo.
O CARNAVAL E AS MULHERES COISAS
Arionauro.
"Mas é carnaval, vadia!"
Por Leonardo Sakamoto
Adoro carnaval de rua. E São Paulo está ótima com os blocos que polvilham a cidade.
É claro que, em meio a essa fauna exuberante, há sempre alguns com a velha tática de “conquista'' da idade da pedra lascada, que consiste em “abater a presa e consumi-la ainda viva''.
Juro que não sei onde enfiar a cara de vergonha quando um rapaz agarra o braço de uma moça e insiste que só o largará quando receber um beijinho. Ou quando o piolho dá um “armlove'' e, insano, tenta arrastar a moça até ser contido por outros foliões – ou não. Presenciei uma cena patética e recorrente: depois de receber uma miríade de respostas desabonadoras, e sem soltar o braço de uma mulher bastante educada, um deles pediu “por favor, por favor, me dá um beijo''. Cara, cadê sua dignidade? Isso é o fundo do poço! O amor próprio é o primeiro a morrer quando a alcateia está olhando.
Mas, em comparação a outros carnavais, tenho a grata impressão de que há mais pessoas conscientes e sentindo-se empoderadas para não deixar barato esse tipo de assédio sexual. Fiquei sabendo de casos em que a polícia foi acionada e pôs água no chope dos desmiolados que achavam que a bunda alheia é patrimônio público. Não sei o que aconteceu, mas torço para que o boletim de ocorrência tenha sido devidamente registrado. Vai que o dito resolve prestar um concurso público no futuro…
Em outro momento, depois de dar um tapa na cara de um sujeito que tentara lhe beijar à força, uma colega ouviu em alto e bom tom, quase como uma crítica social: “Mas é carnaval, vadia! Quem está aqui sozinha é porque quer isso''. O sujeito aprendeu com amigos e família, viu na televisão, ouviu no rádio, que este é um momento em que as regras de convivência estão suspensas e todos procuram sexo. Para ele, a rua é um imenso Tinder offline (não que todos usem o app dessa forma, mas o desespero de alguns por lá é deprimente). Daí, quando rejeitados, expressam toda a sua perplexidade em bordões como “vagabundas'', “vadias'' e “piranhas''.
Convivo com cenas patéticas, como essa, com uma infeliz frequência. Afinal de contas, moro em São Paulo e seria impossível não me deparar com esse universo bizarro de jovens mimados que acham que a cidade é uma extensão da tela do seu videogame, as ruas, um anexo do banheiro que usam pela manhã diariamente e o carro, uma continuidade do seu pênis. Ou complemento, o que varia de acordo com a forma com que cada um encara suas frustrações. Tempos atrás postei alguns textos sobre isso, mas tratando da noite paulistana. Que também pode ser uma várzea completa.
E como já escrevi nessas ocasiões, para esses jovens, provavelmente não se enquadram na categoria de “vagabundas'' apenas suas mães e avós, que dormem o sono das santas católicas, enquanto quem é “da vida'' povoa o carnaval. Porque “mulher de bem'' está em casa a essa hora, não aceitaria nunca colocar um vestido acima do joelho e deixar as costas de fora, não bebe, fuma ou tem vícios detestáveis, não ama apenas por uma noite e não ri em público, escancarando os dentes a quem quer que seja. “Mulher de bem'' permanece em casa para servir o “homem de bem'' e estar à sua disposição como empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira ou objeto sexual, a qualquer hora do dia e da noite.
Por quê? Porque, na sua cabeça, elas pertencem a eles. Porque assim sempre foi, é assim que se ensinou e foi aprendido. É a tradição, oras! E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado. Quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns “corretivos sociais''.
Esse tipo de ataque carnavalesco é sim uma forma de violência sexual cometida por ricos e pobres. E das mais perversas porque, como tal, não são encaradas. Ainda mais quando envolvem jovens ricos, bêbados ou não. Pois estes não cometem crimes, apenas fazem “molecagens'' e, portanto, fora de cogitação qualquer punição. Isso se aplica apenas a moços pobres.
E não se engane. Não é só meia dúzia de celerados. Ataques como esse traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em um bloco de carnaval está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem “seus homens'', brincando na rua, está à disposição.
Como já trouxe aqui, o homem precisa começar a mexer na sua programação que, desde pequeno, o ensina a ser agressivo e a tratar mulheres como coisas. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto em público. Bom é xingar, machucar, deixar claro quem manda e quem obedece. O contrário é coisa de mina. Ou, pior, de bicha.
E quando uma mulher não tem a garantia de que não será importunada, ofendida ou violentada, com ações ou palavras, toda a sociedade tem uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer. (Fonte: aqui).
"Mas é carnaval, vadia!"
Por Leonardo Sakamoto
Adoro carnaval de rua. E São Paulo está ótima com os blocos que polvilham a cidade.
É claro que, em meio a essa fauna exuberante, há sempre alguns com a velha tática de “conquista'' da idade da pedra lascada, que consiste em “abater a presa e consumi-la ainda viva''.
Juro que não sei onde enfiar a cara de vergonha quando um rapaz agarra o braço de uma moça e insiste que só o largará quando receber um beijinho. Ou quando o piolho dá um “armlove'' e, insano, tenta arrastar a moça até ser contido por outros foliões – ou não. Presenciei uma cena patética e recorrente: depois de receber uma miríade de respostas desabonadoras, e sem soltar o braço de uma mulher bastante educada, um deles pediu “por favor, por favor, me dá um beijo''. Cara, cadê sua dignidade? Isso é o fundo do poço! O amor próprio é o primeiro a morrer quando a alcateia está olhando.
Mas, em comparação a outros carnavais, tenho a grata impressão de que há mais pessoas conscientes e sentindo-se empoderadas para não deixar barato esse tipo de assédio sexual. Fiquei sabendo de casos em que a polícia foi acionada e pôs água no chope dos desmiolados que achavam que a bunda alheia é patrimônio público. Não sei o que aconteceu, mas torço para que o boletim de ocorrência tenha sido devidamente registrado. Vai que o dito resolve prestar um concurso público no futuro…
Em outro momento, depois de dar um tapa na cara de um sujeito que tentara lhe beijar à força, uma colega ouviu em alto e bom tom, quase como uma crítica social: “Mas é carnaval, vadia! Quem está aqui sozinha é porque quer isso''. O sujeito aprendeu com amigos e família, viu na televisão, ouviu no rádio, que este é um momento em que as regras de convivência estão suspensas e todos procuram sexo. Para ele, a rua é um imenso Tinder offline (não que todos usem o app dessa forma, mas o desespero de alguns por lá é deprimente). Daí, quando rejeitados, expressam toda a sua perplexidade em bordões como “vagabundas'', “vadias'' e “piranhas''.
Convivo com cenas patéticas, como essa, com uma infeliz frequência. Afinal de contas, moro em São Paulo e seria impossível não me deparar com esse universo bizarro de jovens mimados que acham que a cidade é uma extensão da tela do seu videogame, as ruas, um anexo do banheiro que usam pela manhã diariamente e o carro, uma continuidade do seu pênis. Ou complemento, o que varia de acordo com a forma com que cada um encara suas frustrações. Tempos atrás postei alguns textos sobre isso, mas tratando da noite paulistana. Que também pode ser uma várzea completa.
E como já escrevi nessas ocasiões, para esses jovens, provavelmente não se enquadram na categoria de “vagabundas'' apenas suas mães e avós, que dormem o sono das santas católicas, enquanto quem é “da vida'' povoa o carnaval. Porque “mulher de bem'' está em casa a essa hora, não aceitaria nunca colocar um vestido acima do joelho e deixar as costas de fora, não bebe, fuma ou tem vícios detestáveis, não ama apenas por uma noite e não ri em público, escancarando os dentes a quem quer que seja. “Mulher de bem'' permanece em casa para servir o “homem de bem'' e estar à sua disposição como empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira ou objeto sexual, a qualquer hora do dia e da noite.
Por quê? Porque, na sua cabeça, elas pertencem a eles. Porque assim sempre foi, é assim que se ensinou e foi aprendido. É a tradição, oras! E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado. Quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns “corretivos sociais''.
Esse tipo de ataque carnavalesco é sim uma forma de violência sexual cometida por ricos e pobres. E das mais perversas porque, como tal, não são encaradas. Ainda mais quando envolvem jovens ricos, bêbados ou não. Pois estes não cometem crimes, apenas fazem “molecagens'' e, portanto, fora de cogitação qualquer punição. Isso se aplica apenas a moços pobres.
E não se engane. Não é só meia dúzia de celerados. Ataques como esse traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em um bloco de carnaval está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem “seus homens'', brincando na rua, está à disposição.
Como já trouxe aqui, o homem precisa começar a mexer na sua programação que, desde pequeno, o ensina a ser agressivo e a tratar mulheres como coisas. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto em público. Bom é xingar, machucar, deixar claro quem manda e quem obedece. O contrário é coisa de mina. Ou, pior, de bicha.
E quando uma mulher não tem a garantia de que não será importunada, ofendida ou violentada, com ações ou palavras, toda a sociedade tem uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer. (Fonte: aqui).
segunda-feira, 3 de março de 2014
O SONHO DE CADA UM
"NÃO IMPORTA DE ONDE VOCÊ SEJA, SEU SONHO TEM VALOR."
(Lupita Nyong'o, queniana, vencedora do Oscar 2014 de melhor atriz coadjuvante por '12 anos de escravidão', ganhador do Oscar de melhor filme).
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Ditos virtuosos/Lupita Nyong'o. Oscar 2014.
ECOS DE SOCHI
"Os Jogos de Inverno de Sochi reanimaram um fogo que muitos consideram apagado mas de fato está crepitando na fogueira geopolítica do mundo: a guerra fria. Era notório, por exaustivo, o movimento de descrédito à Rússia, com supervalorização de problemas inerentes a um certame que reuniu 2.800 atletas de 88 países. Até os avisos afixados nos banheiros da vila olímpica foram motivo de chacota. Mas, ao final, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, reconheceu: ‘Hoje podemos afirmar que a Rússia entregou tudo o que foi prometido. Fez avanços em sete anos que levariam décadas em outros lugares do mundo.‘
Os russos reconquistaram protagonismo no esporte, depois do boicote de 70 países aos Jogos de Verão de 1980 na antiga União Soviética. Investiram cerca de R$ 120 bilhões (mais do dobro que o previsto para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016), mas ganharam imensuráveis dividendos estratégicos - além de mais medalhas que os Estados Unidos: 33 a 28 no total, 13 a 9 na categoria ouro. Ao contrário que do vaticinaram as cassandras ideológicas, o país realizou jogos impecáveis e deslumbrou o mundo com a formosura acrobática de Adelina Sotnikova, medalha de ouro na patinação artística. Agora, prepara a Copa de 2018.
O Brasil ainda engatinha nos esportes de inverno, incompatíveis com países tropicais. Mas foi comovente ver a pequena delegação brasileira comemorar a mera participação em modalidades praticadas no gelo pelos melhores atletas do mundo. Embora chegando nos últimos lugares, honrou o lema do organizador dos Jogos Olímpicos modernos, o barão Pierre de Coubertin, segundo o qual o importante é competir.
Parafraseando Clausewitz, os megaeventos esportivos são a continuação da política por outros meios. As nações mais desenvolvidas disputam com unhas e dentes sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo como oportunidade de projeção no tabuleiro da competição global. A Rússia, que não desistiu de substituir a União Soviética como potência mundial, soube capitalizar os 22.º Jogos de Inverno num momento em que sua área de influência tem sido ainda mais assediada, a exemplo do que acaba de ocorrer na Ucrânia.
O governo brasileiro tem consciência dessas peculiaridades geopolíticas e trabalha para projetar o País a partir da plataforma da Copa de 2014 e Jogos de 2016."
(Aldo Rebelo, ministro do Esporte; artigo desta data, intitulado 'A vitória da Rússia' - aqui).
FEVEREIROS CÓSMICOS
Fevereiro de 2014
A missão Kepler da Nasa (EUA) anunciou a descoberta de 715 novos planetas que orbitam 305 estrelas. Na concepção artística acima, vemos múltiplos trânsitos de sistemas planetários, com estrelas com mais de um planeta em sua órbita, como é no nosso Sistema Solar. Cerca de 95% destes planetas são menores do que Netuno, que é quase quatro vezes maior do que a Terra. (Fonte: aqui).
Fevereiro de 2044
A missão Giordano Bruno da EUROÁSIABR (EUA, Europa, Ásia e Brasil) acaba de descobrir 38.615,33 bilhões de novos planetas, que orbitam 17.508,62 bilhões de estrelas, todas de nossa Via Láctea (uma das 743,38 trilhões de galáxias até agora detectadas - mas ainda não mapeadas, o que, por sinal, ainda não aconteceu plenamente com a própria Via Láctea).
Não obstante o (diretor do Observatório do) Vaticano tenha admitido, há mais de 30 anos, a existência de vida inteligente em outros pontos do Cosmo, setores religiosos radicais (majoritários no Planeta) se dizem plenamente convictos de que a vida inteligente é particularidade restrita à Terra.
Nota: Instada a manifestar-se sobre rumores dando conta da existência de arquivos cujo conteúdo estaria sendo sonegado ao público, a EUROÁSIABR disse desconhecer o assunto.
EDUARDO COUTINHO, UMA PERDA PARA O CINEMA
Latuff.
O cineasta brasileiro Eduardo Coutinho, morto em fevereiro, foi homenageado na cerimônia de premiação do Oscar 2014 ao ter sua imagem exposta entre as perdas do período. Conforme a Folha de São Paulo - aqui - em meados de 2013 o documentarista havia sido convidado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, para fazer parte da instituição.
Quem estiver a fim de conhecer, por exemplo, as entranhas do povo do Nordeste brasileiro, que veja documentários de Coutinho, como 'O fim e o princípio' (aqui), desenvolvido no tórrido sertão paraibano, região de São João do Rio do Peixe, quase na fronteira com o Ceará. (E olha que nem citei 'Cabra marcado para morrer').
O cineasta brasileiro Eduardo Coutinho, morto em fevereiro, foi homenageado na cerimônia de premiação do Oscar 2014 ao ter sua imagem exposta entre as perdas do período. Conforme a Folha de São Paulo - aqui - em meados de 2013 o documentarista havia sido convidado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, para fazer parte da instituição.
Quem estiver a fim de conhecer, por exemplo, as entranhas do povo do Nordeste brasileiro, que veja documentários de Coutinho, como 'O fim e o princípio' (aqui), desenvolvido no tórrido sertão paraibano, região de São João do Rio do Peixe, quase na fronteira com o Ceará. (E olha que nem citei 'Cabra marcado para morrer').
domingo, 2 de março de 2014
O FOCO DO OSCAR 2014
Oscar 2014: "É a economia, estúpido!"
Por Wilson Ferreira
(...).
Comparado com a premiação do Oscar do ano passado, a presença de filmes indicados com temas mitológicos, religiosos, místicos e esotéricos é sensivelmente menor. Em 2013 tínhamos filmes como Django Livre (o encontro do spaghetti-western de Tarantino com temas bíblicos e vingança), Indomável Sonhadora (a jornada do herói de uma menina lutando contra a ameaça do caos e das águas), O Mestre (a história da espiritualidade contemporânea através da ascensão de uma seita chamada Cientologia) e ainda As Aventuras de Pi (onde os relatos de diversas religiões nada mais são do que signos diante de um cosmos hostil e violento que cria no protagonista uma nova experiência do sagrado).
Ao contrário, nesse Oscar 2014 temos apenas Gravidade, cujo filme possui um poderoso núcleo místico-religioso envolvendo morte e renascimento simbolicamente associado à lei da gravidade (para ler sobre o filme clique aqui) e a animação japonesa The Wind Rises (Vidas ao Vento) do conhecido animador Hayao Miyazaki (A Viagem de Chihiro, Oscar de melhor animação em 2003).
(...).
Ela
Outro filme já “Em Observação” pelo blog é o filme Ela, indicado ao prêmio de Melhor Filme, do diretor Spike Jonze. Nesse filme, o diretor parece retornar ao tema do filme Quero Ser John Malkovich (1999), só que de uma outra forma: se no filme de 1999 o protagonista (um titereiro fracassado) tenta conquistar seu amor e ser alguém na vida através de um avatar representado pela mente do próprio ator John Malkovich, em Her um escritor deprimido acaba equipando seu computador com um sistema operacional que possui uma inteligência artificial que aprende e evolui baseado nas repostas que recebe, entonações de voz etc. Conectado a um fone de ouvido, o sistema chama-se Samantha que será um avatar aperfeiçoado pelas interações com o protagonista.

O filme levanta diversas questões tanto sobre o conceito de inteligência artificial como em relação à febre atual de aplicativos que parecem cada vez mais definir a identidade e os relacionamentos: será que os autores do programa Samantha de fato conseguiram criar realmente algo que associa inteligência e emotividade, ou somos nós que rebaixamos os nossos conceitos de inteligência, amor e emoção para que aceitemos essas máquinas e aplicativos que invadem nosso cotidiano? Ou será que os relacionamentos humanos são assim mesmo, onde idealizamos o outro segundo os nossos desejos e caprichos? No final as máquinas e softwares seriam apenas espelhos da nossa própria infantilidade?
Por isso, o filme Her aproxima-se das discussões sobre o que chamamos de “tecnognocticismo”, motivação mística que estaria por trás do desenvolvimento tecnológico atual marcado pela convergência das ciências computacionais, neurociências, Inteligência Artificial e psicologia cognitiva. Projeto místico-tecnológico de encontrar a transcendência espiritual através de um atalho tecnocientífico, fazendo o ser humano encontrar a imortalidade através da digitalização da consciência e inteligência humanas.

O Lobo de Wall Street
Outro filme que também está “Em Observação” pelo blog é O Lobo de Wall Street do diretor Martin Scorsese, também cotado ao Oscar de Melhor Filme. Por trás de um delírio de três horas em ritmo frenético com drogas, bebidas, mulheres luxo e todo tipo de fantasias (anões, carros e animais), está um tema que vai além da imoralidadeda vocação especulativa de Wall Street: como o poder do dinheiro é capaz de moldar a realidade. De certa forma, Scorsese retorna ao tema do filme Cassino (1995) onde no meio do deserto de Nevada, um gangster constrói em Las Vegas uma realidade de sonhos através de fichas de jogos.

Um ex-corretor da Bolsa faz fortuna nos anos 1990 explorando o fugaz mercado financeiro sem pudor, culpas ou remorso porque, no final, tudo é volátil e imaterial. “A única coisa real é a comissão do corretor”, diz a certa altura Leonardo DiCaprio. Em postagens anteriores o blog já tratou desse tema do fetichismo do dinheiro e a imaterialidade da realidade econômica ao analisar o documentário Trabalho Interno (2010) e o filme Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011).
“É a economia, estúpido!”
Mas por que essa escassez de filmes que tratam de temas místicos e religiosos entre as indicações do Oscar 2014? Conhecendo o modus operandi da indústria hollywoodiana e os critérios político-ideológicos que regem a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas podemos arriscar uma hipótese: como disse certa vez James Carville sobre a campanha bem sucedida de Bill Clinton: “É a economia, estúpido!”.
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(Para ler o post na íntegra, clique AQUI).
OLD CHARGE
Jornal O Globo, edição de 3 de março de 1984. Trinta anos!
O jornal, figadal inimigo de Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, tenta ridicularizar a Passarela do Samba, o popular e consagrado Sambódromo, projeto de Oscar Niemeyer: no desenho, são mostrados/comparados o prefeito Odorico Paraguassu, personagem da série global 'O Bem Amado', que tentava 'há séculos' inaugurar um cemitério (o que não acontecia por falta de defunto), e Brizola, com seu Sambódromo (que, segundo torcia e proclamava O Globo, ficaria às moscas por falta de escola de samba interessada - isso se antes não ruísse ou afundasse).
O Sambódromo foi (é) um sucesso desde o início, sem contar que Brizola e Darcy Ribeiro aproveitaram a estrutura para abrigar escolas (5.000 alunos).
Fernando Brito, que acompanhou a saga, relata aqui sua memória.
Marcadores:
Old charge. Sambódromo. Brizola. O Globo.
SOBRE A AUTONOMIA DA CRIMEIA
Ucrânia... Crimeia... Estão brincando com brasas antigas...
Por Fernando Brito
Não se pode brincar com a situação da Crimeia, na Ucrânia, que está levando a uma escalada de tensão militar preocupante.
Nem, simplesmente, achar que os russos estão querendo “invadir” o território da Ucrânia, do qual a Crimeia seria parte natural.
Não é.
Se situação da Ucrania já é complicada, a da Crimeia é muito mais.
Só quem agir de má-fé a tratará de forma simplista.
A Crimeia sempre foi – e é – uma região autônoma, como eram as que formavam a Iugoslávia, em relação às quais o Ocidente defendeu a autodeterminação.
A Crimeia, originariamente tártara e vinculada ao Império Otomano, passou a ser parte da Rússia no século 18.
Com a ajuda dos turcos, franceses e ingleses tentaram tomá-la, no século seguinte.
Desde 1921 era uma das repúblicas da União Soviética, não integrava a da Ucrânia.
Na II Guerra Mundial, os nazistas a dominaram e sob sua cobertura as minorias ucranianas e tártaras chacinaram os de origem russa e judaica nas praças.
Em quatro linhas é essa a história resumida desta região, que nem mesmo geograficamente se confunde com o território ucraniano, pois é uma península ligada a ele e à Rússia (As Olimpíadas de Inverno de Sochi foram ali pertinho, a menos de 400 km).
Sua população é formada por 60% de pessoas de origem russa.
Ela continuava a ser uma República Autônoma, embora tenha decidido, há quase duas décadas, associar-se à Ucrânia.
Numa votação apertada, em 1991, a Crimeia e Sebastopol, seu principal porto e sede da frota soviética no Mar Negro, a declaração de independência da Ucrânia foi aprovada por margem apertada (54 a 46%) numa eleição que, ao contrário das demais regiões ucranianas, teve comparecimento relativamente baixo, de apenas 2/3 dos eleitores.
E, ainda assim, foi aprovada com a autonomia da região.
É essa autonomia que a comunidade internacional deve proteger.
Senão, o que veremos será a barbárie que aquela terra assistiu nos últimos 350 anos. (Fonte: aqui).
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Se a Crimeia é autônoma, o povo da Crimeia, e só ele, deve decidir sobre seu destino.
sábado, 1 de março de 2014
O MINISTRO QUE DESMANCHOU A TRAMA
Barroso, o senhor juiz, e sua declaração de amor do Direito
Por Luis Nassif
Há dois tempos na vida de um Ministro do STF (Supremo Tribunal Federal): o momento prévio à indicação e o momento depois de indicado.
Antes da indicação, ele necessita da aprovação do presidente da República. Para espíritos menores, é o momento da lisonja, das articulações políticas, das promessas futuras. Para espíritos políticos, a afinidade com o padrinho ou com o projeto político.
Depois da indicação, cessa qualquer subordinação ao Executivo. O Ministro torna-se irremovível e a salvo de qualquer pressão. O único poder capaz de afetá-lo é a mídia, seja expondo-o a críticas, ao deboche, a denúncias consistentes ou a escândalos vazios; ou então o julgamento de seus pares.
Os espíritos maduros mantêm a altivez; os espíritos menores exorbitam ou vacilam.
***
Poucos têm a solidez de um Ricardo Lewandowski para remar contra a maré e não se deslumbrar com as luzes dos holofotes. E nenhum deles foi fruto tão direto da meritocracia quanto Luís Roberto Barroso.
Em que pese seu inegável preparo, Celso de Mello e Sepúlveda Pertence assumiram por favores explícitos prestados ao governo Sarney e ao polêmico Ministro da Justiça Saulo Ramos. Marco Aurélio de Mello deve o cargo ao primo Fernando Collor. Gilmar Mendes foi nomeado por FHC para blindá-lo de qualquer aventura jurídica futura do STF; Lula nomeou Dias Toffoli com a mesma intenção. Joaquim Barbosa entrou na cota racial; Ayres Britto fingindo-se petista; e Luiz Fux, à dupla malandragem, de prometer “quebrar o galho” antes, e de não cumprir com a palavra depois.
***
Há muitos anos Luís Roberto Barroso já era unanimidade no meio jurídico.
Sua indicação não foi um favor da Presidente a ele; foi um favor dele às instituições, especialmente a uma instituição ameaçada, como o STF.
Com vida tranquila, titular de uma banca de alto nível, com reconhecimento geral, sendo aceito pelo meio econômico, social e midiático do Rio, um dos preferidos da Globo, o que teria a ganhar indo para o STF?
Certamente, não o prêmio do reconhecimento, que já tinha; ou da popularidade, que não o cativa. Parece que queria algo mais substantivo.
***
Ao se insurgir contra o julgamento anterior da AP 470, para o crime de formação de quadrilha, aparece o objetivo: desmanchar uma trama que maculou o Supremo e a justiça.
Não é desafio fácil, é apenas para os grandes.
Barroso tem muito a perder – a simpatia da mídia, a tranquilidade da unanimidade, a blindagem contra ataques, a exposição pública (porque televisionada) às baixarias de valentões de bar, como Joaquim Barbosa ou Gilmar Mendes, até os ataques presenciais, como os que sofreu Lewandowski.
E o que teria a ganhar expondo as mazelas de seus pares, indagariam os cidadãos (e Ministros) que enxergam o mundo da planície das vaidades pontuais? Não precisa do Executivo, não se identifica em nada com o PT, não tem as pretensões políticas de Joaquim Barbosa, nem as comerciais de Gilmar Mendes, nem quer entrar no grito na história, como Celso de Mello. Não precisa incorrer no ridículo permanente de um Ayres Britto para ser aceito pelo establishment: já faz parte da elite social e jurídica do país.
Seu único objetivo foi o da restauração da imagem do Supremo – e, a partir dela, do direito -, afetada pelos exageros de um julgamento que tinha de tudo para ser exemplar. Como um pedagogo, pregar a lição de que não há politização que justifique a instrumentalização da justiça, como os atos que cometeram em co-autoria Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Celso de Mello, Marco Aurélio de Mello e Ayres Britto.
Em toda minha carreira jornalística, poucas vezes testemunhei ato tão desprendido e apaixonado de amor à profissão quanto a atitude de Barroso.
Confirma o que ouvi de grandes juristas, antes da sua posse: Barroso é uma instituição maior que o próprio STF de hoje. É um iluminista em uma terra em que a selvageria insistentemente se sobrepõe à civilização.
PS – Na esteira da rebeldia legitimadora de Barroso, outro brado, agora de mais um jornalista em defesa dos fatos: o depoimento do setorista do Estadão no STF, repórter Felipe Recondo, relatando o que viu e ouviu nos bastidores do julgamento da AP 470, e rompendo a cortina de silêncio que foi auto-imposta pelos setoristas menos jornalistas, e impostas aos verdadeiramente jornalistas.
O Estadão sonegou a informação de seus leitores: ela ficou restrita ao blog do repórter.
Em sua matéria, mostra que Joaquim Barbosa não acreditava na peça acusatória do Procurador Geral da República, Roberto Gurgel. Considerava-a inconsistente e sem provas contra seu principal alvo, José Dirceu. E que o aumento da pena, no crime de formação de quadrilha, era essencial para completar o jogo. (Fonte: aqui).
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De fato, foi judiciosa a postura do ministro Barroso relativamente à AP 470, o que não causa surpresa, conforme observado em ocasiões anteriores por este blog - aqui, por exemplo -.
Sobre o desmanche da trama, reproduzo comentário exposto no jornal GGN, aqui:
"(...) Em março de 2011, Joaquim Barbosa já constatava que não seria possível jurídica ou legalmente imputar crime de quadrilha aos acusados. Naquele momento, há três anos, ele tinha, baseado nos autos, a convicção como juiz de que não existiam provas e com isso muito menos a possibilidade de condenar.
À margem da lei e dos princípios que regem uma sociedade civilizada, bem como o papel fundamental de um juiz , ele envergou os fatos, manipulou o quanto pode com o único objetivo de perseguir impiedosamente Zé Dirceu, Delúbio e Genoíno para, além de condená-los, obrigá-los a ficar em regime fechado. Isso fica também corroborado pela atitude de manter Dirceu há mais de três meses em regime fechado, mesmo sendo sua pena de semi aberto.
Joaquim Barbosa já tinha a sentença decretada muito antes do processo ir a julgamento. Este é o grande fato que muitos desconfiavam, que Recondo e Barroso revelaram e o próprio Joaquim Barbosa confirmou.
Diante de tal escandalosa revelação e a confissão pública de Barbosa, ele passa de Juiz a réu, por mais condescendente que se possa ser com ele."
O CARNAVAL NA VISÃO DE UM TEÓLOGO
Carnaval, origem e significado
Por Pr. Anísio Renato de Andrade
Para recebermos alguma coisa, não basta que haja beleza ou sabor. É preciso que saibamos a procedência. Já pensou se você estiver comendo um frango saboroso na casa de alguém e, de repente, souber que o mesmo veio de um despacho na encruzilhada. A procedência é uma informação importante.
A origem do carnaval é um pouco obscura. Há quem afirme que a mesma esteja relacionada às homenagens à deusa Ísis no Egito, por volta do ano 4000 a.C.. Porém, é mais concreta a ligação com as festas gregas ao deus Dionísio em 600 a.C. e às festas romanas ao deus Baco (deus do vinho), chamadas bacanais. Eram festas pagãs, incluindo orgias, que se faziam em homenagem aos deuses como agradecimento pelas colheitas. Eram realizadas procissões que, com o tempo, se transformaram nos desfiles que conhecemos.
FESTA CATÓLICA
No ano 590 d.C., o papa Gregório incorporou o carnaval ao calendário das festas cristãs. Sabendo que a quaresma é um período de quarenta dias de jejum e santificação entre a quarta-feira de cinzas e a páscoa, o carnaval foi oficializado como uma festa que se realiza antes da quaresma. Devido ao fato de que, no período seguinte, o católico não poderia comer carne, tudo seria consumido nos dias antecedentes, mesmo porque não existiam geladeiras para que pudessem guardá-la. Então, era uma espécie de “despedida da carne”. Em latim, a festa era chamada “carne vale”, que significa “adeus à carne”.
As pessoas comiam carne até vomitar e bebiam até cair. Antes da santificação da quaresma, as pessoas se entregavam também à liberação geral dos costumes, cometendo todo tipo de pecados, principalmente sexuais.
Na quarta-feira de cinzas, o fiel ia à igreja católica (e muitos ainda vão) para receberem um pouco de cinza na testa enquanto ouviam o padre dizer em latim: “Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris” (Lembra-te homem, que tu és pó e ao pó voltarás).
MODIFICAÇÕES E DIVERSIDADE
Com o passar do tempo, o carnaval foi modificado e incrementado por contribuições de vários países, principalmente da Itália e da França. Jogos, brincadeiras, músicas, danças, fantasias, uso de máscaras e carros alegóricos foram acrescentados à festa.
Na idade média surgiu o costume da inversão de papéis sociais durante o carnaval. Os nobres se vestiam de pobres e os pobres se vestiam de ricos. Entre os pobres era eleito um rei, que seria morto ao final dos festejos. Assim surgiu o rei momo.
Entre as inversões do período, muitos homens se vestiam de mulheres.
O ESTRUDO
Em portugal, a festa recebeu o nome de estrudo. Essa palavra vem da denominação de bonecos gigantes. Durante o estrudo, as pessoas com boa condição financeira jogavam água com perfume umas nas outras. Os mais pobres jogavam água suja, urina, água com fezes, ovos podres, laranjas podres, restos de comida etc. Com o passar do tempo, tornou-se comum a ocorrência de violência sexual durante aqueles dias.
CARNAVAL NO BRASIL
Os portugueses trouxeram o carnaval para o Brasil no século 16. Aqui, os festejos foram incrementados com o samba, o frevo, o maracatu e, recentemente, com o axé e o funk.
Embora não seja uma festa originalmente brasileira, o Brasil abraçou e adotou essa podridão(!) de tal forma, que hoje é conhecido como “o país do carnaval”. A festa tornou-se uma das principais atrações turísticas da nação, movimentando uma indústria milionária todos os anos.
EMBALAGEM E CONTEÚDO.
Todas as mudanças no carnaval ocorreram apenas em seus aspectos exteriores. A embalagem é cada vez mais bonita, mas o conteúdo continua o mesmo. A aparência do carnaval é interessante, envolvendo diversão, alegria, beleza e arte. São qualidades reais e não vamos negar isso. Existem coisas bonitas e atraentes no carnaval, mas isso não significa que vamos participar dele. Dinheiro roubado também tem valor, mas nem por isso vamos aceitá-lo, caso nos seja oferecido.
Apesar da embalagem maravilhosa, o conteúdo do carnaval é podre e pecaminoso.
O carnaval é a festa do sexo, como sempre foi. Muitos podem negar isso, mas por que será que o governo distribui camisinhas e faz propaganda de sexo seguro nesta época?
Os homens participam do carnaval porque gostam de dançar? Não. O período é semelhante a uma estação de caça. Os homens vão em busca de relacionamentos sexuais sem compromisso, e muitas mulheres (que querem beijar muuuuito) são as principais vítimas.
E qual é o saldo da festa? Depois de tanta bebida, são inúmeros os acidentes de trânsito, com mortos e feridos. Ocorrem também muitos homicídios, mortes por overdose, contração de doenças venéreas e casos de gravidez indesejada. No fim de tudo, a alegria se transforma em tristeza.
CONCLUSÃO
Nossa alegria não depende de festas. Não devemos confundir alegria com felicidade nem sexo com amor. Em Cristo está nosso prazer e a nossa alegria, que não termina na quarta-feira de cinzas, mas continua para sempre. (Fontes: aqui, onde se vê o texto completo, e aqui).
Anísio Renato de Andrade é bacharel em teologia e professor do Steb - Seminário Teológico Evangélico do Brasil e do Sebemge - Seminário Batista do Estado de Minas Gerais.
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Meu juízo sobre o carnaval é diferente do acima exposto. E o seu?
UCRÂNIA: A INFLUÊNCIA DO FASCISMO
Kayser.
Ucrânia: laços indiscretos entre EUA e neo-nazistas
Por Max Blumenthal
Ucrânia: laços indiscretos entre EUA e neo-nazistas
Por Max Blumenthal
Quando os protestos na capital da Ucrânia chegaram a um desfecho, este fim-de-semana, as demonstrações de extremistas fascistas e neo-nazistas assumidos tornaram-se evidentes demais para serem ignoradas. Desde o início dos protestos, quando manifestantes lotaram a praça central para combater a polícia ucraniana e exigir a expulsão do corrupto presidente pró-Rússia Viktor Yanukovich, as ruas estavam cheias de pelotões de extrema-direita, prometendo defender a pureza étnica de seu país.
Bâners dos partidários da “supremacia branca” e bandeiras dos confederados norte-americanos [escravocratas] foram fixadas dentro da prefeitura de Kiev ocupada. Manifestantes içaram bandeiras da SS nazista e símbolos do poder branco sobre a estátua tombada de Lenin. Depois que Yanukovich fugiu do palácio estatal de helicóptero, os manifestantes destruíram a estátua dos ucranianos que morreram lutando contra a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Saudações nazistas e o símbolo do Wolfsangel tornaram-se cada vez mais comuns na praça Maiden. Forças neo-nazi estabeleceram “zonas autônomas” em torno de Kiev.
Um grupo anarquista chamado União Ucraniana Antifascista tentou juntar-se aos manifestantes de Maiden, mas encontrou dificuldades, com ameaças de violência das gangs neo-nazis itinerantes da praça. “Eles disseram que os anarquistas são gente como judeus, pretos e comunistas. E nem havia comunistas entre nós, foi um insulto”, disse um integrante do grupo.
“Está cheio de nacionalistas aqui — incluindo nazistas”, continuou o antifascista. “Eles vieram de toda a Ucrânia, e são cerca de 30% dos manifestantes.”
Um dos “três grandes” partidos políticos por detrás dos protestos é o ultra-nacionalista Svoboda, liderado por Oleh Tyahnybok, que clama pela “libertação” de seu país da “máfia judaico-moscovita”.
Após a condenação, em 2010, de John Demjanjuk, um vigilante dos campos de extermínio que teria participado da morte de 30 mil pessoas no campo de extermínio nazista de Sobibor, Tyahnybok propôs à Alemanha declará-lo um herói que “lutou pela verdade”. No parlamento ucraniano, onde o Svoboda detém inéditos 37 assentos, o vice de Tyahnybok, Yuiy Mykhalchyshyn, cita com frequência Joseph Goebbels. Ele próprio fundou um thinktank originalmente chamado de Centro de Pesquisa Política Goebbels. Segundo Per Anders Rudling, acadêmico especialista em movimentos neofascista na Europa, o auto-intitulado “nacional socialista” Mykhalchyshyn é o principal elo entre a ala oficial do partido Svoboda e as milícias neonazistas, como o Right Sector.
Right Sector é um grupo nebuloso, que se auto-intitula “nacionalista autônomo”. Seus membros são identificados pelo jeito skinhead de trajar, estilo de vida ascético e fascínio pela violência nas ruas. Armado com escudos e porretes, o grupo ocupou as linhas de frente das batalhas nas manifestações deste mês, enchendo o ar com seu tradicional canto: “A Ucrânia, acima de tudo!”. Em um vídeo-propaganda recente, o grupo prometeu lutar “contra a degeneração e o liberalismo totalitário, pela tradição moral nacional e os valores familiares.” Com o Svoboda ligado a uma constelação de partidos neofascistas internacionais por meio da Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus, o Right Sector promete levar seu exército de jovens desiludidos a “uma grande Reconquista Europeia”.
As políticas abertamente pró-nazistas do Svoboda não impediram o senador americano John McCain de falar num comício do partido, ao lado de Tyahnybok; nem evitaram que a secretária-assistente do Estado, Victoria Nuland, desfrutasse de um encontro amigável com o líder do Svoboda, em fevereiro. Ansioso por se defender de acusações de anti-semitismo, o dirigente hospedou recentemente o embaixador israelense da Ucrânia. “Eu gostaria de pedir aos israelenses que respeitassem também nossos sentimentos patriotas”, Tyahnybok observou. “Provavelmente, todos os partidos do Knesset [parlamento de Israel] são nacionalistas. Com a ajuda de Deus, deixe-nos ser assim também.”
Numa conversa telefônica vazada com o embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, Nuland revelou seu desejo de que Tyahnybok permaneça “do lado de fora”, mas que se consulte com Arseniy Yatsenyuk, o preferido dos EUA para substituir Yanukovich, “quatro vezes por semana.” Em 5 de dezembro de 2013, na Conferência da Fundação EUA-Ucrânia, Nuland destacou que Washington havia investido 5 bilhões de dólares para “desenvolver habilidades e instituições democráticas” na Ucrânia, embora não tenha acrescentado nenhum detalhe.
“O movimento da praça Maiden incorporou os princípios e valores que são os pilares de todas as democracias livres”, proclamou Nuland.
Duas semanas depois, 15 mil membros do Svoboda realizaram uma cerimônia com tochas na cidade de Lviv, em homenagem a Stepan Bandera, colaborador nazista da Segunda Guerra Mundial e então líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-B), pró-fascista. Lviv tornou-se o epicentro das atividades neo-fascistas na Ucrânia, com os dirigentes eleitos do Svoboda liderando uma campanha para renomear o aeroporto (em homenagem ao líder fascista) e a antiga Praça da Paz. Isso, eles já conseguiram. Ela honra, agora, o Batalhão Nachtigall, rememorando um grupo, ligado à OUN-B, que participou diretamente do Holocausto. “Paz’ é um resquício dos estereótipos soviéticos”, explicou um deputado do Svoboda.
Reverenciado pelos nacionalistas ucranianos como legendário lutador da liberdade, a verdadeira história de Bandera foi infame, na melhor das hipóteses. Depois de participar da campanha para assassinar ucranianos que defendiam a pacificação com os poloneses, durante a década de 1930, as forças de Bandera determinaram-se a limpar etnicamente a Ucrânia ocidental dos poloneses, entre 1943 e 1944. No processo, mataram mais de 90 mil poloneses e muitos judeus, a quem o seguidor mais destacado de Banderas, o “primeiro ministro” Yaroslav Stetsko, estava determinado a exterminar. Bandera aferrou-se à ideologia fascista mesmo nos anos do pós-guerra, defendendo uma Europa etnicamente pura e totalitária, enquanto o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), ligado a ele, travava uma luta armada sem futuro contra a União Soviética. O banho de sangue só cessou quando agentes da KGB o assassinaram em Munique, em 1959.
As conexões da Direita
Muitos membros sobreviventes da OUN-B fugiram para a Europa Ocidental e para os EUA – por vezes, com ajuda da CIA –, onde forjaram silenciosamente alianças políticas com elementos da direita. “Você tem que entender, nós somos uma organização subterrânea. Nós passamos anos em silêncio, alcançando posições de influência”, disse um membro ao jornalista Russ Bellant, que documentou o ressurgimento do grupo nos Estados Unidos, em seu livro de 1988, Velhos nazistas, Nova Direita, e o Partido Republicano.
Em Washington, a OUN-B reconstitui-se sob a bandeira do Comitê do Congresso Ucraniano para os EUA [Ukrainian Congress Committee of America (UCCA)], uma organização composta por “frentes 100% OUN-B”, segundo Bellant. Em meados da década de 1980, o governo Reagan ligou-se a membros da UCCA. O líder do grupo, Lev Dobriansky, serviu como embaixador nas Bahamas, e sua filha, Paula, teve um posto no Conselho de Segurança Nacional. Reagan recebeu pessoalmente Stetsko, o líder banderista que supervisionou o massacre de 7 mil judeus em Lviv, na Casa Branca, em 1983.
“Seus problemas são nossos problemas”, disse Reagan para o colaborador nazista. “Seu sonho é o nosso sonho.”
Em 1985, quando o Departamento de Justiça lançou a cruzada para capturar e processar os criminosos de guerra nazistas, a UCCA agiu rapidamente, pressionando o Congresso a travar a inciativa. “A UCCA também tem desempenhado um papel de liderança na oposição de investigações federais dos supostos criminosos de guerra nazistas, desde o início da relação entre as entidades, no final dos anos 1970″, escreveu Bellant. “Alguns membros da UCCA têm muitas razões para se preocupar. Elas remontam a 1930.”
Ainda hoje uma força lobista ativa e influente em Washington, a UCCA não parece ter abandonado sua reverência pelo nacionalismo banderista. Em 2009, no 50º aniversário da morte de Bandera, o grupo proclamou-o “um símbolo de força e justiça para seus seguidores”, que “continua inspirando a Ucrânia hoje em dia”. Um ano depois, o grupo homenageou o 60º aniversário da morte de Roman Shukhevych, o comandante do Batalhão Nachtigall da OUN-B, que massacrou judeus em Lviv e Belarus, chamando-o de “herói” que “lutou pela honra e justiça…”
De volta a Kiev em 2010, o então presidente Viktor Yuschenko concedeu a Bandera o título de “Herói Nacional da Ucrânia”, marcando o ponto culminante dos seus esforços para construir uma narrativa nacional anti-russa capaz de “higienizar” o fascismo da OUN-B. (A esposa de Yuschenko, Katherine Chumachenko, atuou no governo Reagan e foi funcionária da Heritage Foundation, claramente identificada com a direita “neoconservadora”). Quando o Parlamento Europeu condenou a proclamação de Yuschenko como uma afronta aos “valores europeus”, a afiliação ucraniana da UCCA no Congresso Mundial reagiu com indignação, acusando a UE de “reescrever a história da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial”. Em seu site, a UCCA tentou rotular os registros históricos da colaboração de Bandera com os nazistas como “propaganda soviética”.
Após a derrubada de Yanukovich neste mês, a UCCA ajudou a organizar comícios em todas as cidades dos EUA, em apoio aos manifestantes. Quando centenas destes marchavam pelo centro de Chicago, alguns agitavam bandeiras da Ucrânia, enquanto outros orgulhosamente carregavam as bandeiras vermelhas e pretas da UPA e OUN-B. “Os EUA apoiam a Ucrânia!” eles gritavam. (Fonte: aqui).
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Ucrânia: ex-presidente corrupto de um lado, nazismo impregnado do outro. Qual será o desfecho?
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