sábado, 11 de julho de 2026

FUTEBOL E NIILISMO: PERDERAM O JOGO, PUSERAM BRINCOS E FORAM AO CINEMA

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Por Lenio Streck (No CONJUR)

Há algo de profundamente simbólico no futebol contemporâneo, e não me refiro a esquemas táticos ou a estatísticas. Refiro-me a uma mudança de mentalidade. De imaginário.

Lembro-me de quando a regra que proibia o goleiro de agarrar com as mãos o recuo deliberado do companheiro foi saudada como uma revolução. Seria o fim da cera, da acomodação, do jogo burocrático. Durante algum tempo, pareceu funcionar.

Mas o futebol, como as instituições, também aprende a contornar as regras. O velho recuo transformou-se em outra coisa. Hoje ele não precisa mais ser dado ao goleiro. Basta fazê-lo horizontalmente. O resultado é semelhante: posse de bola estéril, circulação interminável, um “tiki-taka” no meio do campo que confunde movimentação com criatividade e controle com coragem.

O jogador que parte para cima do marcador parece ter sido substituído pelo funcionário que cumpre protocolo. O futebol produziu seus próprios burocratas.

1. Chego, então, ao Brasil: a derrota, a desclassificação.

Não basta dizer que perdemos. É preciso compreender como se perde. Contra a Noruega, assistimos a um espetáculo de resignação.  Os noruegueses trocavam passes lentamente. O Brasil aguardava pacientemente em seu próprio campo. Como se recuperar a bola fosse um detalhe secundário.

Onde estava a pressão imediata? Onde estava aquilo que os alemães chamariam, metaforicamente, de uma blitzkrieg para recuperar a posse?

Nada. Os jogadores apenas cercavam, acompanhavam, observavam. Espirravam em torno da bola.  Pateticamente. O resultado foi quase pedagógico.

Dois gols. Porque quem espera permanentemente acaba premiando o adversário. Mas talvez o problema nem seja exclusivamente tático. O problema é anterior. É cultural. Falta vigor. Falta dedicação. Falta sangue nos olhos.

A seleção brasileira parece ter se transformado em uma atividade paralela. Comercial.

O técnico divide seu tempo entre convocações e campanhas publicitárias de cerveja. Isso que, segundo noticiou a imprensa, recebe 4 milhões por mês. E renovou até 2.030. E precisa do comercial da Brahma. Que coisa, não?

Há jogadores com dezenas de contratos comerciais. Diz-se que um empresário sozinho possui um terço dos jogadores da seleção na sua carteira.

Um anuncia bancos. Outro promove casas de apostas. Outro vende cerveja. Outro se jacta (adoro essa palavra) de ter R$ 200 mil em perfumes e cremes para pele e cabelo. E, pior, diz que a Copa lhe tirou as férias. Sim, foi Raphinha quem disse tal absurdo. E ainda faz propaganda dos produtos usados por sua esposa.

E o que dizer de Neymar, que, conforme se noticiou e mostrou, levou relógios avaliados em 22 milhões. E a malta pintando ruas de verde e amarelo. Pobre povo.

2. Perdeu o jogo, frustrou a torcida, colocou dois brincos de diamante em cada orelha e foi ao cinema

É a paráfrase do clássico Matou a Família e Foi ao Cinema, de 1969, dirigido por Júlio Bressane, obra marco do cinema marginal. Poucos, à época, souberam ler o niilismo ali escancarado, manifestado no grito de revolta e descrença frente às utopias políticas da época e à opressão da ditadura militar.

Niilismo, bem entendido, vai além de agir mal sem demonstrar peso na consciência: é o esvaziamento dos valores que davam sentido à própria coisa. No filme, o protagonista mata a família e vai ao cinema. Lembra Raskolnikov, de Crime e Castigo. Só que, atenção, não o Raskolnikov de depois do crime, devorado pela culpa até a confissão; o de antes, aquele que se convenceu de que cometera um gesto extraordinário e que o homem extraordinário está acima do julgamento comum.

É esse Raskolnikov de antes que vejo nos jogadores da seleção. Perdem o jogo e saem sorrindo. Vini Jr coloca dois brincos em cada orelha (devem valer alguns milhões) e abre o sorriso e vai para o jantar. Ou ao cinema, como no filme. Falo não dos caros brincos em si (belos, por sinal). Falo do simbólico: ninguém se enfeita para ir a um velório. Remorso zero. Culpa nenhuma.  Isso se repete em Ancelotti. Com seu chiclete incansável. Aliás, não entendi por qual razão os fabricantes de goma de mascar não contrataram Ancelotti. (...).

(Para ler a íntegra, clique Aqui)

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