quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
A PESSOA DO ANO
Revista Time escolhe mulheres que denunciaram abusos como 'pessoa do ano'
Do Brasil 24/7
A revista Time nomeou o movimento social focado em aumentar a conscientização sobre assédio e abuso sexual, que ficou conhecido pela hashtag #MeToo (Eu também, em inglês), como a “pessoa” mais influente de 2017, anunciou a publicação nesta quarta-feira.
“Essa é a mudança social mais rápida que nós vimos em décadas, e começou com atos de coragem individuais de centenas de mulheres --e alguns homens também-- que contaram suas próprias histórias”, disse o editor-chefe da revista, Edward Felsenthal, durante entrevista ao programa Today da NBC, referindo-se a esses homens e mulheres como “quebradores do silêncio”. - AQUI.
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"...referindo-se a esses homens e mulheres como 'quebradores do silêncio'".
No Brasil, nenhum órgão da grande imprensa ousou, até agora, quebrar o silêncio relativamente à CPMI da JBS e às graves revelações emanadas do depoimento prestado pelo senhor Tacla Durán - (aqui).
A INVASÃO DA UFMG
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"Invasão da UFMG foi retaliação a evento da morte do reitor da UFSC". De fato, é por aí. O suplício e morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, tragédia que já ocupa lugar na História do Brasil (como este blog sustenta desde meados de outubro), decorreu de atos truculentos por parte da autoridade policial. Enquanto tudo estava restrito à blogosfera, a impassividade imperou; o problema parece ter surgido com a chegada do assunto aos jornalões Folha e Estadão. A propósito, transcrevemos trecho de nosso 'lead' mais recente sobre a morte do reitor Cancellier:
"...o jornal O Estado de São Paulo publicou matéria (reproduzida no UOL) sob o título 'Suicídio de reitor da Universidade Federal de Santa Catarina põe PF sob suspeita' - AQUI.
Como disse o desembargador Lédio Andrade, também professor da UFSC: 'Nem Kafka pensou que uma sucessão de arbitrariedades pudesse levar a algo tão brutal'."
"Invasão da UFMG foi retaliação a evento da morte do reitor da UFSC". De fato, é por aí. O suplício e morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, tragédia que já ocupa lugar na História do Brasil (como este blog sustenta desde meados de outubro), decorreu de atos truculentos por parte da autoridade policial. Enquanto tudo estava restrito à blogosfera, a impassividade imperou; o problema parece ter surgido com a chegada do assunto aos jornalões Folha e Estadão. A propósito, transcrevemos trecho de nosso 'lead' mais recente sobre a morte do reitor Cancellier:
"...o jornal O Estado de São Paulo publicou matéria (reproduzida no UOL) sob o título 'Suicídio de reitor da Universidade Federal de Santa Catarina põe PF sob suspeita' - AQUI.
Como disse o desembargador Lédio Andrade, também professor da UFSC: 'Nem Kafka pensou que uma sucessão de arbitrariedades pudesse levar a algo tão brutal'."
(Para ler os posts da série "A morte do reitor Cancellier: esquecimento, não", clique AQUI).
NOTA: Em vídeo - AQUI - Luis Nassif discorre sobre o estado de exceção que a cada dia se vai ampliando em nosso País. Vale a pena conferir.
Ao post.
Invasão da UFMG foi retaliação a evento da morte do reitor da UFSC
Por Luis Nassif
NOTA: Em vídeo - AQUI - Luis Nassif discorre sobre o estado de exceção que a cada dia se vai ampliando em nosso País. Vale a pena conferir.
Ao post.
Invasão da UFMG foi retaliação a evento da morte do reitor da UFSC
Por Luis Nassif
A cerimônia fúnebre e de protesto pela morte do reitor Luiz Carlos Cancelier, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tinha uma foto emblemática com um cartaz afixado: “Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente”.
Hoje, a operação de invasão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) teve o nome significativo de “A Esperança Equilibrista”, que vem a ser a continuação da música símbolo da resistência à ditadura militar. E também do livro do professor Juarez Guimarães, da própria UFMG, sobre o governo Lula.
O Memorial da Anistia é uma obra complicada. Teve início em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça sugeriu um lugar para depositar os documentos da repressão, a exemplo do que foi feito em diversos países que saíram do período ditatorial.
Decidiu-se pelo Coleginho, em Belo Horizonte. Depois, se constatou que seu telhado não comportaria peso em cima. Decidiu-se, então, construir um prédio ao lado, que está praticamente pronto, faltando apenas o acabamento.
Após o impeachment, o novo Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, praticamente extinguiu a Comissão de Anistia. Substituiu 18 dos membros originais, indicou para presidi-la o ex-deputado Almino Afonso, que logo depois pediu demissão por não ter nenhum acolhimento do lado do Ministério.
Ficou um jogo de empurra, com a Justiça achando que a Comissão deveria se subordinar ao Ministério dos Direitos Humanos. Com isso, o Memorial foi ficando para segundo plano, sem verbas para terminar.
Ao mesmo tempo, na Comissão de Anistia instaurou-se uma caça às bruxas, com um pente fino em todos os atos do ex-Secretário de Direitos Humanos Paulo Abrahão. Vieram da Comissão de Anistia as denúncias que foram bater na Polícia Federal.
Segundo a denúncia, os desvios seriam da ordem de R$ 4 milhões e teriam ocorrido no fundo universitário da UFMG.
O diretor geral da PF, Fernando Segóvia, me disse há pouco que foi informado da operação pela superintendência da PF de Belo Horizonte. As explicações seriam dadas na coletiva do superintendente em Belo Horizonte.
Assim, ele não saberia dizer se as 8 conduções foram necessárias ou não, já que não cabe ao delegado geral intervir nas operações na ponta.
Mas garantiu que analisará a operação e, constatados abusos, assim como ocorreu no caso UFSC, será aberta uma sindicância para apurar o ocorrido.
Com a operação, além de retaliar a comunidade acadêmica, a PF e o Ministério da Justiça conseguirão comprometer uma obra importante, o Memorial da Anistia. Mas certamente escreverão um episódio relevante quando voltar a democracia e outros memoriais forem planejados, para se referir à ditadura disfarçada atual. - (AQUI).
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Dica de leitura: "A ditadura ataca agora a UFMG", por Luis Nassif - AQUI.
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Dois comentários entre os muitos suscitados:
1. "É possível que tenham tomado carona no evento em homenagem ao reitor da UFSC assassinado pelas forças de Estado brasileiro, mas o mais provável é que o crime hediondo que a PF cometeu hoje, sob o silêncio conveniente e covarde dos ministros do STF, tenha a ver com o lançamento do relatório final da Comissão da Verdade, previsto para a semana que vem.
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Dica de leitura: "A ditadura ataca agora a UFMG", por Luis Nassif - AQUI.
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Dois comentários entre os muitos suscitados:
1. "É possível que tenham tomado carona no evento em homenagem ao reitor da UFSC assassinado pelas forças de Estado brasileiro, mas o mais provável é que o crime hediondo que a PF cometeu hoje, sob o silêncio conveniente e covarde dos ministros do STF, tenha a ver com o lançamento do relatório final da Comissão da Verdade, previsto para a semana que vem.
O relatório contém milhares de informações sobre os crimes hediondos cometidos por militares fascistas que ascenderam ao poder na ditadura militar e que nunca responderam pelas consequências de seus atos perante a sociedade brasileira. Tal como no passado, por horror à luz, os atuais setores fascistas, retrógrados e ditatoriais do Poder Judiciário violentam os espaços, as mulheres e os homens que pensam e fazem a educação brasileira."
2. "...o fato acontece nos dias em que está sendo votada a base nacional comum curricular, completamente desfigurada em relação ao que previa o Plano Nacional de Educação criado pela Lei nº 13.005/2014.
Isso indica que os golpistas trabalham com um timing cuidadosamente planejado no que diz respeito a essas ações midiáticas espetaculares, fazendo cortina de fumaça sobre outros assuntos igualmente importantes.
A quem interessar, vejam o que diz o ex ministro da Educação Renato Janine Ribeiro sobre a BNCC em entrevista concedida dois dias atrás.
A quem interessar, vejam o que diz o ex ministro da Educação Renato Janine Ribeiro sobre a BNCC em entrevista concedida dois dias atrás.
E ainda outros importantes links atualíssimos relacionados ao tema e aos ataques à universidade pública:
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Direito. Invasão da UFMG. PF. Luis Nassif.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
ENQUANTO ISSO, NO CENÁRIO POLÍTICO...
Em evento ontem em São Paulo no qual era um dos homenageados, Moro solicitou a Temer que usasse sua influência para evitar que o Supremo Tribunal Federal mude o entendimento a respeito da prisão de condenados na segunda instância da Justiça. Só faltou dizer: “Fale com Gilmar Mendes e Dias Toffoli a respeito disso”.
Não faz sentido um juiz de primeira instância se comportar como ombudsman do STF. É o Supremo Tribunal Federal que toma decisões que guiam os julgamentos de outros magistrados.
O juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba também pediu ao ministro da Fazenda que fosse mais generoso ao tratar do orçamento da Polícia Federal. Moro ainda criticou o loteamento de cargos na administração pública e recomendou o fim do foro privilegiado, inclusive para ele.
Ora, faltou opinar sobre os supersalários da cúpula dos servidores, o desrespeito ao teto constitucional, a farra do auxílio-moradia para magistrados e integrantes do Ministério Público e o regime de Previdência camarada das altas castas do funcionalismo.
Se quer agir assim, melhor entrar para a política ou virar comentarista em veículo de comunicação. É um erro um magistrado ter esse tipo de atuação. Trata-se de uma ação indevida para quem ocupa a posição de Moro."
(De Kennedy Alencar, post intitulado "Moro erra ao fazer 'pedidos' a Temer e Meirelles", publicado em seu blog - aqui.
"Se quer agir assim, melhor entrar para a política"... De fato, fazer política é o que o senhor magistrado tem feito. Certamente a AMB, comovida, aplaude. It's Brazil!).
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Eles disseram. Kennedy Alencar. Sérgio Moro.
CAFÉ EXPRESSO: A ANÁLISE GEOPOLÍTICA NESTE MUNDO PEQUENO
Os brasileiros Wellington Calasans, direto de Estocolmo, e Romulus Maya, da Suíça, estão nos servindo o Expresso da Manhã, em que, na companhia (via internet, claro) de convidados (um de cada vez), analisam aspectos cruciais da economia, do direito e da política tupiniquim.
O blog O Cafezinho integra o time dos 'veículos' do Expresso da Manhã, que, nas palavras de seus condutores, assim se definem: (além das oitivas dos convidados, oferecem...) "Música, alegria e outros assuntos que pintam na hora a partir do público ou da cabeça do apresentador Wellington Calasans. Além disso, Romulus Maya sempre reforça a crítica.
O programa começa sempre às 6 da manhã, nas fanpages do Expresso da Manhã, Wellington Calasans, Duplo Expresso, O Cafezinho, Falando Verdades, Dilma Resistente e também do Botando Pilha. A política sem enrolação, sem “embromation”.
#ReferendoRevogatorio
#ReconstruçãoNacional
#LeiCancellier
#SoberaniaNacional
#ReferendoRevogatorio
#ReconstruçãoNacional
#LeiCancellier
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Perdeu algum de nossos programas?
Assista em nosso canal no YouTube: http://bit.ly/expressodamanha
Acesse nosso canal no Telegram e receba drops diários com o resumo do programa: https://t.me/expressodamanha "
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Clique AQUI para ir ao blog O Cafezinho e deleitar-se com o Expresso da Manhã.
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Blogosfera. O Cafezinho. Expresso da Manhã.
DA SÉRIE AS RESPOSTAS MAIS HIPÓCRITAS DO ANO
Simanca.
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- As famílias estão sendo asfixiadas pelos escorchantes aumentos do preço do botijão de gás. Como o senhor explica uma elevação total de 70%, até agora?
- São as cotações internacionais!
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- As famílias estão sendo asfixiadas pelos escorchantes aumentos do preço do botijão de gás. Como o senhor explica uma elevação total de 70%, até agora?
- São as cotações internacionais!
SOBRE VANTAGENS E TRANSPARÊNCIA DO JUDICIÁRIO
"...Desde a semana passada, o CNJ passou a disponibilizar, na área de Transparência do portal do conselho, os dados relativos aos salários e benefícios dos magistrados de dezessete tribunais, envolvendo as seguintes esferas do Judiciário: Estadual, Federal, Eleitoral, Trabalhista e Militar.
Na Justiça Estadual, dos 27 TJs apenas sete encaminharam, até as 18 horas desta segunda-feira, 4, os dados ao CNJ – Amazonas, Espírito Santo, Minas Gerais, Roraima, Pará, Paraná e Pernambuco.
Na Justiça Federal, apenas o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (São Paulo e Mato Grosso do Sul) mandou informações.
Na Justiça Eleitoral, foram encaminhadas ao CNJ as informações de cinco Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) – Alagoas, Piauí, Amapá, Santa Catarina e São Paulo.
Em relação à Justiça do Trabalho, apenas os Tribunais Regionais do Trabalho da 11.ª Região (Amazonas e Roraima) e da 13.ª (Paraíba) encaminharam os dados solicitados.
O Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo foi o primeiro, do segmento militar, a enviar suas informações. À medida que os demais tribunais enviarem seus dados, de acordo com o modelo unificado e padronizado pelo CNJ, as informações serão também publicadas.
As informações solicitadas pelo CNJ estão de acordo com a Lei 12.527, de 18 de novembro de 2011 – Lei de Acesso à Informação – e da Resolução n. 215, de 16 de dezembro de 2015."
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Acima, a parte final de matéria publicada ontem, 5, no Estadão, com reprodução pela Folha de São Paulo ("Cármen Lúcia dá 48 horas para tribunais informarem holerites de todos os juízes" - AQUI), sobre determinação do Conselho Nacional de Justiça consistente na informação, pelos diversos tribunais, de todas as vantagens (subsídios e verbas especiais de qualquer natureza) auferidas por operadores do direito nas várias unidades da Federação, para disponibilização dos dados à sociedade.
Observações da ministra Cármen Lúcia, presidente do CNJ e do STF, que em 20 de outubro entregou a cada presidente de órgão planilha a ser seguida:
"Quero terminar o ano mostrando para a sociedade que não temos nada para esconder."
"Tem tribunal dificultado e isso não pode acontecer". (Segundo o jornal, a ministra ficou 'horrorizada' quando, ao testar pessoalmente o nível de transparência de páginas eletrônicas dos tribunais, teve que passar por 18 cliques em um dos sites).
"Eu preciso desses dados para mostrar que nem todo 'extrateto' é uma ilegalidade. Não compactuamos com ilegalidades. Sem isso, fica difícil defender".
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A ministra explicou que alguns 'extratetos' - como uma ajuda de custo, uma diária... - são permitidos. Mas... que 'extratetos' estariam sendo ilegalmente pagos? Que vantagens estariam sendo concedidas em afronta ao direito e ao teto constitucional? É isso o que o CNJ e o público querem saber.
... E pensar que um ministro do STF, com uma singela canetada, autorizou, no longínquo 2014, a concessão de auxílio-moradia a milhares de juízes e integrantes do Ministério Público Brasil afora, e até hoje o despacho desse douto ministro pende de homologação por parte da Suprema Corte, enquanto a benesse é religiosamente paga mês a mês, convindo frisar que ela é infensa a imposto de renda e ao 'tal' teto constitucional a que alude a Constituição Federal em seu artigo 37, XI...
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
DE COMO PHILIP MARLOWE VOLTOU À AÇÃO
O país dos canalhas - Capítulo 1 - Visita do alto clero
Por Sebastião Nunes
Eu batia o cachimbo na lixeira para limpá-lo e tentava acalmar meu estômago irritado quando o telefone tocou. Eram dez da manhã e eu acabara de chegar.
– Pois não – atendi com voz de sono. Tinha dormido pouco, me equilibrando como um barco bêbado entre uma loura falsa e uma garrafa de uísque legítimo.
– Philip Marlowe, o detetive particular de Los Angeles?
– Sim, eu mesmo – respondi. – Infelizmente Raymond Chandler não encontrou nome melhor quando me criou como um detetive particular fodão.
– Meu nome é Ednardo Cunha e gostaria de consultá-lo – disse a voz, ignorando minha tentativa de humor, se é que ele entendia alguma coisa de literatura.
Refleti. O único Ednardo Cunha que me ocorria era um ex-deputado, preso por trambiques variados e condenado a uma pena que – eu não tinha certeza – variava, em anos, de um a dois cachos de banana nanica madura. E, pelo que eu sabia, devia estar mais enjaulado do que sagui em zoológico municipal. A menos que...
– Estarei aí dentro de meia hora – disse a voz do suposto Cunha, interrompendo meus devaneios. – E levarei alguns amigos.
CUNHA NA REDE
Desci e engoli um hambúrguer frio com suco de laranja enlatado na lanchonete do térreo. Bom para evitar diarreia. Empurrei a gororoba com duas xícaras de café sem açúcar e voltei. Enchi o cachimbo. Acendi. Tinha gosto de noite mal dormida.
Quando bateram na porta mandei entrar.
Entraram.
O primeiro era de fato Ednardo Cunha, se não mentiam suas fotos dos bons tempos. Atrás vinham Eduardo Praes, Joseph Serrote e Amnércio Naves. Não entendi a presença de Naves e Serrote que, imagino, ainda não estavam presos. Mandei sentar.
Sentaram.
– Antes de mais nada, gostaria de saber seus honorários – disse Cunha, com um sorriso de Mona Lisa e afrouxando a gravata italiana de listras vermelhas.
– Em 1940 eu cobrava 25 dólares por dia mais despesas. Convertendo para os dias de hoje e ao câmbio atual, cobro R$ 1.000,00 por dia, mais despesas. Para clientes e casos especiais, como trabalhar para brasileiros, no Brasil ou fora dele, os honorários sobem para R$ 10.000,00 por dia. Claro que sempre cobro um adiantamento e, no caso de políticos, o adiantamento significa 100% dos honorários. Mais despesas.
– Não é muito – disse Serrote olhando para Amnércio, que roía as unhas.
– Também acho que não – concordou Praes. – São honorários razoáveis para um detetive particular com a fama do senhor Marlowe.
– De acordo – disse Cunha. – Podemos conversar aqui mesmo? Você não tem microfones, filmadoras ou gravadores ocultos? Sabe como é: gato escaldado...
– Nunca gravo nada na primeira entrevista – acalmei os clientes. – Além disso, o escritório é mais à prova de som do que barriga de sapo morto.
VÍSCERAS EXPOSTAS
– Perfeito. Pretendemos assaltar a Casa da Moeda dentro de 10 dias – informou Cunha de supetão, como se estivesse sugerindo um piquenique.
– Entendi – disse eu, sem me espantar. Tratando-se daquela quadrilha nada seria espantoso. – E por que pretendem assaltá-la?
Os quatro se entreolharam. Imaginei se estariam pensando que eu não passava de um idiota completo. Talvez tivessem razão.
– Para levar o dinheiro, é claro.
– Por que não escolhem uma grande agência bancária? Costumam ter mais grana do que a Casa da Moeda. E a vigilância é mais frouxa do que discurso de deputado.
– Preferimos dinheiro novo, estalando de novo. Temos um pouco o espírito de seu conterrâneo, o Tio Patinhas. Além disso, e como ele, temos paixão por cofres-fortes. E dinheiro novo já vem embalado, é mais fácil de transportar e tem melhor aceitação nas lavanderias com as quais trabalhamos no Exterior.
Reacendi o cachimbo e fiquei olhando para o quarteto.
Até onde eu sabia, Cunha era um bandido graúdo, especializado em receber e pagar propinas. Desde que galinha tinha dente. Amnércio, Serrote e Praes, ao contrário, especializaram-se em depenar governos estaduais. O que não se podia negar era a competência do quarteto: tinham mais anos de trambicagem do que Messi de gols no Barcelona. E quase o mesmo talento. Em suas especialidades, é lógico.
– E qual será o meu trabalho, se chegarmos a um acordo?
CONFIAR É PRECISO
– Em primeiro lugar, preciso esclarecer alguns detalhes – disse Cunha, sempre à frente dos comparsas. – O principal ponto a seu favor é ser estrangeiro. No Brasil não temos detetives particulares e, caso tivéssemos, eles não seriam confiáveis.
– São todos uns ladrões – disse Serrote se intrometendo.
– Como assim? – fingi espanto. – Se não existem, não podem ser ladrões.
– Ele não se refere a detetives particulares – interveio Praes. – Está dizendo que no Brasil ninguém é confiável.
A julgar por eles, pensei, estava coberto de razão. Amnércio continuava calado, e então entendi o sentido da expressão “mineiro trabalha em silêncio”. De fato.
– E o que mais? – perguntei.
Em segundo lugar, precisamos de um álibi indestrutível e, pelo que conhecemos de seu trabalho, é perfeitamente capaz de nos conseguir um.
– Um ou quatro? – busquei me certificar.
– Um para os quatro – afirmou Cunha. – Ou um para cada um de nós.
– Ok – concordei. – Mas preciso de mais informações.
Os quatro se entreolharam. Pareciam ter tudo esmiuçado. O que eu não entendia era ter sido procurado quase na véspera do assalto. Precaução?
(Continua na próxima semana) - [Fonte: Aqui].
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(Sebastião Nunes, natural de Bocaiuva, MG, escritor, editor, artista gráfico e poeta, é titular de um blog no Portal Luis Nassif OnLine).
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(Sebastião Nunes, natural de Bocaiuva, MG, escritor, editor, artista gráfico e poeta, é titular de um blog no Portal Luis Nassif OnLine).
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Crônica. O país dos canalhas. Sebastião Nunes.
ECOS DO DEPOIMENTO DE TACLA DURÁN
"'Se um cachorro morde o homem isso não é notícia. Notícia é quando o homem morde o cachorro'. Entre formas mais elaboradas e outras nem tanto, aprendi na escola de Jornalismo (USP) o que é ou não deve ser visto como notícia. E aqui estou, em princípio, a propósito do silêncio da TV Globo sobre as acusações de Tacla Duran sobre os vícios que rondam a Farsa Jato.
Até então, o lado mais visível da ópera bufa de Curitiba era o discurso moralista, por meio do qual se promoveria a redenção do país. O lado comercial mais visível não passava de adesivos para automóveis e camisetas postas à venda por entidades de classe da Polícia Federal e congêneres. Depois, mais suspeitas no ar, quando parece que a Justiça não foi muito prudente ou rígida com a transmissão de audiência sigilosa, por celular, para um blogueiro da revista Veja. Sem rigor cronológico, surgiram via Nestor Cerveró notícias da “venda de informações para revistas”.
O mercantilismo foi amadurecendo e evoluiu para o comércio de palestras – proferidas por oficiantes da Farsa Jato ou não, até desaguar na realização de eventos voltados para o combate à corrupção, leis sobre lavagem de dinheiro, compliance. Entretanto o lado mais comercial estaria por aparecer e eclodiu com entrada em cena de Marcelo Miller, ex-assessor do trapalhão Rodrigo Janot. Eis que o caso JBS dá origem à Operação Tendão de Aquiles (PF), para apurar transações que teriam garantido à empresa ganhos milionários no mercado financeiro. Tudo isso sem contar que graças Farsa Jato o Brasil está sendo vendido a preço de banana.
Como se não bastasse, estão em pauta as denúncias do advogado Tacla Durán. Segundo ele, o advogado Carlos Zuccolotto Júnior negociava abrandamento de pena e permissão para usufruir de benefícios do crime em troca de “delação direcionada”. Zuccolotto é amigo pessoal e padrinho de casamento de Sérgio Moro. É também sócio do escritório de advocacia de Rosângela Wolff, esposa de Moro. Zuccolotto pedia 1/3 dos honorários por fora. A série de reportagens sobre a indústria da delação premiada, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, ilustra com primor a parte necrosada do enredo golpista. São fortes as suspeitas de negociatas envolvendo as delações.
Seria imprudente e contraditório de nossa parte tornar absoluta a essência das matérias produzidas pelo GGN/DCM. Afinal, a sociedade ainda espera ansiosa que a Farsa Jato apresente as provas concretas contra Lula. Seguindo o mesmo caminho, deve prevalecer o raciocínio inverso de que mais provas possam surgir contra os oficiantes da Farsa Jato. Mas, como macaco não olha pro seu rabo, Sérgio Moro disse que não se pode dar credibilidade a certas pessoas, ainda que ele, quando lhe convém, trace o caminho inverso dessa assertiva. De qualquer forma, as denúncias precisam ser contextualizadas sob outras perspectivas. Senão, vejamos.
Está escrito no Art. 4º da Lei 12.850/2013 que o juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial, reduzir em até 2/3 (dois terços) a pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação. A mesma lei prioriza a personalidade do acusado e efetivos resultados da colaboração (delação), destacando também que nenhuma sentença condenatória será proferida com fundamento apenas nas declarações de agente colaborador. O que mais chama a atenção na lei é que a colaboração (delação) deve ser voluntária. Noutras palavras, deve ser iniciativa do próprio acusado.
Com propriedade, o jurista Luís Flávio D’Urso em artigo na revista eletrônica Conjur destaca que “uma das principais regras a ser observada é a da voluntariedade, pois a delação premiada não pode ser compelida ao delator, que jamais poderá ser forçado a delatar. A voluntariedade está intimamente ligada à origem da delação premiada, pois o delator deve agir movido pelo sentimento de arrependimento ou de colaboração com a Justiça, afastando-se da prática criminosa”.
É justamente sob essa perspectiva da voluntariedade, espontaneidade que as delações precisam ser examinadas. Na prática, as prisões têm servido como instrumento de tortura para que haja a colaboração (delação). Se isso por si só tem desmoralizado processos e sentenças conduzidos dessa forma, novos horizontes se abrem com a denominada indústria das delações. Os diálogos, se procedentes, revelam não apenas a inexistência de espontaneidade e, pelo contrário, demonstram uma nova face mercantil da Farsa Jato.
Nesse sentido, três aspectos importantes chamam a atenção. Primeiro, ter sido surpreendente que Sérgio Moro, de pronto, tenha saído em defesa de um dos envolvidos. O segundo é a omissão de Raquel Dodge, procuradora-geral da República do Brasil, de quem não se esperaria que fosse investigar aquele magistrado ou seus messiânicos colegas da Farsa Jato. Mas que pelo menos determinasse que fosse apurada a procedência das suspeitas levantadas, sobretudo diante das notícias de fraude processual, extratos fajutos, contas inativas, diálogos suspeitos, além de francos indicadores de mercantilismo nas tratativas. O terceiro é a indiferença diante do cachorro mordido pelo homem, promovida pela TV Globo et caterva. Tacla Duran não é notícia.
Parto do princípio de que Sérgio Moro e sua trupe sejam pessoas honradas. Mas, é inegável que uma série de ilegalidades, muito além das apontadas neste texto, estão presentes na Farsa Jato. Diante das ilegalidades conhecidas, posso supor que os oficiantes do engodo golpista nacional acham que os fins justificam os meios. Desse modo, para salvar o Brasil do pecado, do comunismo e promover a redenção do povo e do PIB, estão aceitando ilegalidades, posturas erráticas para defender bens e valores maiores - ambos dignificantes. Leia-se, cometem crimes.
É fácil perceber que o modelo social, político e econômico defendido por Moros, Marinhos, Maçons e Malafaias tem vícios que corromperiam até o papa Francisco se assumisse a Presidência da República. Talvez isso explique a liderança de Lula nas pesquisas. É como se o povo, além de ter Lula na memória como o melhor presidente do Brasil, também ache, assim como Moro, que os fins justificam os meios. Se algum crime Lula cometeu, o povo já o perdoou. E a isso chamo de uma recíproca quase verdadeira."
(De Armando Rodrigues Coelho Neto, post intitulado "Lula líder x Moro x Tacla Durán. Uma recíproca quase verdadeira", publicada no Jornal GGN - AQUI.
Armando é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo).
LAMPIÃO, O RETORNO
Lampião, o bandido de volta
Por Urariano Mota
O (recente) artigo de Elise Jasmin na Folha de São Paulo resgata preconceitos que julgávamos mortos no século passado. No texto “Fotos da guerra do cangaço revelam lado desconhecido de Lampião”, podemos ler:
“Guerreiros valentes para uns, brutos sanguinários para outros, os cangaceiros sob o comando de Lampião atuaram de 1922 a 1938, data em que as forças da ordem puseram fim a seu reinado de terror”.
Primeiro, terror para quem? Para os agricultores miseráveis? Certamente, não. Segundo, em várias frases a historiadora se mostra como uma pesquisadora que não foi além dos jornais da época. Se ela houvesse pesquisado fora dos registros comuns, se houvesse procurado velhos cangaceiros, veria que os relatos dos sobreviventes se opõem às versões publicadas pelos jornais da época, que geralmente tinham a polícia como principal fonte. O que, pensando bem, não mudou muito. Mas olhem:
“Perseguidos sem trégua durante aproximadamente 20 anos pelas forças da ordem, Lampião e seu bando de cangaceiros atravessaram, devastaram e saquearam o sertão do Nordeste”
O artigo chega a cometer inverdades maiores como esta:
“Lampião, a princípio, é fruto de uma sociedade marcada pela violência, na qual é forte a tradição do banditismo de honra”
Amigos leitores, prestem muita atenção: Serra Talhada, a cidade onde nasceu Lampião, não é o lugar da tradição do banditismo de honra, nem muito menos lugar natural de bandidos. Poderia ser dito que ali, como em todo interior nordestino, era marcante o valor de honra como um patrimônio natural das pessoas. Um valor atrasado em muitos aspectos brutais, era certo, mas que nada tinha a ver com a terra da seca de honestidade, que gerasse bandidos saqueadores.
No entanto, o artigo continua mais aqui:
“Enquanto as forças da ordem não conseguiam agarrar o Rei do Cangaço em seu antro, este último teve o topete de aceitar a oferta do fotógrafo e cameraman Benjamin Abrahão para fazer um filme sobre a atividade de seu bando”
(Negrito deste autor)
Ora, já antes, quando escrevi o artigo “Lampião, bandido de marketing”, em setembro de 2006, pude observar esse engano da historiadora. Ela falava então sobre as imagens de Benjamin Abrahão:
"Estas imagens dos bandidos no auge de sua glória e poder, ao lado das fotos com o jogo cênico de suas mortes, fazem parte desta espetacularização da violência que encontramos nas sociedades modernas. É um fenômeno que vemos se desenvolver especialmente nas grandes cidades atingidas pelo crime organizado. Lampião e seu grupo foram os primeiros a se apropriar deste modo de comunicação, a instrumentalizá-lo, para desafiar seus adversários, impor seu poder e mostrar que seu sistema de valores, a vida que levavam, tinha um sentido para eles."
Para responder a tamanha viagem, pude escrever que a chamada espetacularização, neologismo em português, mas que bem entendemos como uma mistura de especulação com espetacular, esse fazer da violência um espetáculo não foi uma criação dos bandidos sertanejos em 1936. Eles não são os agentes do espetáculo. As lentes de Benjamin Abrahão, que os filmou, é que fazem o espetacular. Em um filme, isto é básico, o ator não é bem o agente. Quem dirige é quem age. Nas imagens os cangaceiros se mostram, se exibem, mas a direção, o agente, está por trás do que eles fazem e encenam. A pedido, deve-se dizer. Diríamos até, a existência do espetáculo havia sido feita antes por toda a imprensa brasileira. Lampião jamais se declarou ou se julgou o rei do cangaço, por exemplo. Isto foi uma criação da imprensa e do cinema, nos estúdios Vera Cruz. Quem utilizava quem? Quem fazia espetáculo de quem?
Mas agora o bandido voltou:
“À frente de seu bando de cangaceiros, Lampião atacava e arrasava propriedades e vilarejos, extorquia parte da população, introduzindo o rapto em seus métodos crapulosos e jogando sutilmente com os antagonismos de clã entre os potentados locais.
O recurso a uma violência sem limites, à castração, às mutilações, à marcação com ferro em brasa permitiu a Lampião aterrorizar os sertanejos que não o apoiavam e consolidar sua reputação de crueldade”
O vilão sertanejo retorna, cumpre o seu “I’ll be back”
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(Fonte: Jornal GGN - aqui).
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Lampião. Artigo de Elise Jasmin. Urariano Mota.
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