Nightclawers: Cena de 'O abutre'.
'O abutre' e a regulação da mídia: onde travar o debate?
Por Alberto Dines
O novo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, não perdeu tempo: tomou posse e começou a operar ao mesmo tempo. A regulação da mídia será uma das prioridades: falou em desconcentrar o setor, mas enfatizou que não tem projeto ou meta específica – antes quer fomentar um debate nacional, de modo a que o teor e o escopo da regulação sejam sugeridos por uma discussão ampla, democrática. O ministro deixou claro que a regulação abrangerá o negócio da mídia eletrônica que vive no regime de concessão pública. Se cumprimos o previsto na Constituição não haverá o menor risco de atentar contra a liberdade de expressão.
Bem-vindo ao clube, ministro! Outros já o tentaram – sem qualquer resultado.
Mas se o debate é fundamental e prioritário, onde deverá ser travado? Na própria mídia? Melhor desistir: a mídia não se discute, tem horror ao espelho, mesmo quando jornais são convocados para examinar com rigor o desempenho da TV ou vice-versa.
O Conselho de Comunicação Social, órgão auxiliar do Congresso Nacional, estabelecido pela Constituição de 1988 para funcionar como fórum de discussão, passou grande parte da sua existência (14 anos) engavetado, e depois de um curto intermezzo de atividade, foi desativado. Voltou a operar numa espécie de clandestinidade amiga para poupá-lo de críticas e evitar que a problemática escolha do cardeal do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta, para presidi-lo fosse contestada.
Cúmplices do horror
“O Abutre” é um excelente filme sobre a falta de escrúpulos de cinegrafistas freelancers que trabalham de madrugada na área de Los Angeles. É também uma crítica aos sociopatas que se drogam através de fiapos da informação na internet.
Não é o primeiro filme que faz a crítica do jornalismo. Poderia ser o milionésimo. A imprensa iniciou-se como personagem em 1909, em “The Power of the Press” (O poder da imprensa, de Van Dyke Brook). Em 1993, o maior semanário português, Expresso, em parceria com a Cinemateca Portuguesa, organizou um belíssimo ciclo com 50 clássicos sobre jornalismo, começando com o remake de “The Power of the Press” dirigido em 1920 por Frank Capra.
Editado pelo brilhante jornalista Joaquim Vieira (criador do primeiro Observatório da Imprensa, em Portugal), o catálogo da mostra lista quase quinhentas produções ao longo de 84 anos (1909-1993). De lá para cá (1993-2015) é possível imaginar que outras centenas de produções cinematográficas ou seriados de TV (como “Newsroom”) poderiam ter sido realizadas nos quatro cantos do mundo. Ásia, inclusive.
E por que razão “O Abutre” serve de paradigma para comprovar a inapetência da imprensa nativa para o autoescrutínio?
Simplesmente porque o filme está disponível na íntegra (embora em tela pequena) no YouTube, inteiramente grátis, e até o momento em que este texto está sendo redigido foi visitado apenas por pouco menos de três mil pessoas.
Por que o desinteresse de cinéfilos e “midiéfilos”? O filme é ruim? Ao contrário, excelente.
Explicação: não foi badalado, nem discutido, está escondido, sujeito apenas ao movimento boca a boca. Publicadas algumas resenhas, o assunto foi encerrado. Os códigos corporativos vigentes não permitiriam ir adiante.
Temas para debate não faltam: a começar pelo título em português – “O Abutre”, que em inglês seria “Vulture”. O nome original, “Nightcrawler”, designa um tipo de verme que rasteja durante a noite e é usado como isca para pesca de anzol.
Estes cameramen só trabalham à noite, por conta própria, cobrindo roubos, estupros, assassinatos, acidentes e vendendo imagens cruéis para alavancar as audiências dos telejornais das 6 da manhã.
Não são repórteres, nem jornalistas: a produção da emissora obtém os dados básicos, edita o material e o coloca no ar. Não é coisa de abutres (aves de porte, que rapinam à luz do dia), são rastejadores noturnos que através da faixa de rádio da polícia às vezes até se antecipam a ela. Tão sem escrúpulos quanto os bandidos cujas façanhas cobrem, entregam o produto em mãos (ou via digital), acertam o preço, geralmente não barganham e recebem a grana na hora.
Os (as) infelizes que lidam com os crawlers – plantonistas da madrugada – desempenham funções até piores (como a personagem Nina do filme) porque sabem como tirar partido do horror, mesmo quando o advogado de plantão recomenda prudência e moderação no sensacionalismo.
Fora da pauta
Não há razão para sequestrar este debate. O fenômeno não é brasileiro, mas seria instrutivo examiná-lo preventivamente: os crimes da madrugada ocorrem em comunidades da periferia onde nem a polícia chega com facilidade. Nossos sindicatos não permitem a intrusão desses lúmpen. Os baixos instintos aqui são mostrados em horário nobre, em HD, para milhões de espectadores que precisam sonhar e não para os que precisam de adrenalina para acordar.
Um dia teremos algo assemelhado aos nightcrawlers, na telona ou na telinha de celulares. E lá chegaremos lampeiros justamente porque nossa mídia está inacessível, perto do céu, fora da pauta. Mídia aqui não é assunto da mídia. Tal como os rastejadores, nossa mídia prefere a faina noturna. Parece criança que sonha em ser invisível. (Fonte: aqui).
Assista O Abutre aqui.
sábado, 10 de janeiro de 2015
O HUMOR E SEUS (EVENTUAIS) LIMITES
Deve haver limites para o humor?
Por Gustavo Gindre
Peço um exercício de imaginação para um debate que me parece importante.
Vamos imaginar que essa chacina em Paris não ocorreu. Por um minuto vamos imaginar que os jornalistas continuam vivos.
Então, sem o trauma dessas mortes, que tal refletir sobre os limites do humor?
Vejam que não estou falando de censura (que é sempre a priori). Ninguém está dizendo que não se possa fazer humor com QUALQUER coisa (inclusive racista, sexista, xenófobo, etc). Eu pelo menos defendo que não deva haver censura prévia (inclusive aquela que existe diariamente nos veículos de comunicação privada e que gera tão pouca indignação).
Mas, suponhamos que haja alguma regulação (e não, por exemplo, o bundalele que impera no Brasil). Então, em que momento essa regulação pode ocorrer (sempre a posteriori) para punir eventuais excessos (como o racismo, o sexismo e a xenofobia que citei acima)?
Ou seja, imaginando que está claro que estamos falando de regulação a posteriori e não de censura a priori, deve haver algum limite? Se deve, qual é? Qual o limite que não inviabiliza a crítica, mas não permite o crime de ódio? (Fonte: aqui).
................
O Charlie Hebdo jamais poupou ninguém, desancava a tudo e a todos, era o escracho em si. Católicos, protestantes, budistas, políticos em geral certamente não gostavam, mas silenciavam. Associações muçulmanas, não: ao que consta, ingressaram em juízo contra o jornal, mas a Justiça francesa teria classificado as abordagens do Charlie como contestações ao extremismo, e optou por assegurar o direito de crítica, julgando, em decorrência, improcedentes as alegações de agressão apresentadas.
Conclusão: A questão não é apenas complexa, mas altamente movediça.
Mas, suponhamos que haja alguma regulação (e não, por exemplo, o bundalele que impera no Brasil). Então, em que momento essa regulação pode ocorrer (sempre a posteriori) para punir eventuais excessos (como o racismo, o sexismo e a xenofobia que citei acima)?
Ou seja, imaginando que está claro que estamos falando de regulação a posteriori e não de censura a priori, deve haver algum limite? Se deve, qual é? Qual o limite que não inviabiliza a crítica, mas não permite o crime de ódio? (Fonte: aqui).
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O Charlie Hebdo jamais poupou ninguém, desancava a tudo e a todos, era o escracho em si. Católicos, protestantes, budistas, políticos em geral certamente não gostavam, mas silenciavam. Associações muçulmanas, não: ao que consta, ingressaram em juízo contra o jornal, mas a Justiça francesa teria classificado as abordagens do Charlie como contestações ao extremismo, e optou por assegurar o direito de crítica, julgando, em decorrência, improcedentes as alegações de agressão apresentadas.
Conclusão: A questão não é apenas complexa, mas altamente movediça.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
GRANDE MÍDIA IMPEDE A DIVERSIDADE
"A linguagem jornalística é um campo instigante para a curiosidade dos pesquisadores. Pode-se abrir um leque de incalculáveis possibilidades de interpretação, a começar da própria convenção segundo a qual existe uma linguagem específica do jornalismo. Se a definição do que seja jornalismo ou de quais qualidades caracterizam o jornalista se dilui no ambiente social hipermediado, como delimitar padrões para uma linguagem específica dessa atividade?
Observe-se, por exemplo, que até a primeira metade do século 20, em todas as sociedades onde a imprensa tinha um papel relevante, a chamada linguagem jornalística obedecia à norma culta dos idiomas e as imagens tinham que cumprir certos requisitos de pudor para serem levadas aos meios massivos de publicação. O padrão mudou quando a cultura “pop” se impôs sobre a comunicação social, mas certas restrições permaneceram.
Jornais e revistas não estampariam, por exemplo, o quadro intitulado “A Origem do Mundo”, pintado por Gustave Courbet em 1866. Nesta segunda década do século 21, também não se expõe a pintura, a não ser em publicações especializadas e de pequena circulação. Em fevereiro de 2013, a imprensa aproveitou uma polêmica sobre a identidade da mulher que teria servido de modelo para a obra e publicou a imagem. Meses antes, em outubro de 2012, o jornal Folha da Manhã, de Campos dos Goytacazes (RJ), havia estampado uma foto ainda mais explícita na primeira página de seu caderno de Cultura e Lazer. É curioso observar que o pudor jornalístico se manifesta mais fortemente na imagem do que na palavra.
A internet rompeu paradigmas da mídia impressa e da televisão em todo o mundo. No Brasil, os abusos eram prática limitada a certos programas radiofônicos ou televisivos dedicados ao noticiário policial, até o advento dos cronistas “pitbulls”, que reproduzem em larga escala o estilo que marcou polemistas como Carlos Lacerda e Paulo Francis. Cabe a eles romper, para baixo, os padrões da linguagem jornalística, vocalizando a pornografia política que os editoriais não ousam proferir.
A síntese em uma charge
A questão da linguagem está no centro da polêmica sobre regulamentação da mídia – que costuma ser confundida com liberdade de expressão ou liberdade de imprensa, temas apenas correlatos. A regulamentação dos meios de comunicação não tem necessariamente uma relação direta com as liberdades fundamentais da produção e usufruto de informações ou opiniões. Essa confusão reducionista serve apenas para impedir a evolução do debate.
Os supostos abusos contra o que seria a linguagem jornalística têm sido usados como argumento por aqueles que defendem a regulamentação e, em casos extremos, o controle externo da mídia. No entanto, é preciso dar um passo atrás e convencionar se ainda existe uma linguagem jornalística e, se existe, quais seriam seus padrões.
Desde a origem, trata-se de uma questão complexa, uma vez que a própria escolha dos signos que irão representar os argumentos define o que cada um entende como linguagem mais apropriada para a prática do jornalismo. Supunha-se, portanto, que o tema da regulamentação dos meios aplicados ao jornalismo exigiria um tratado complexo como o que resume, por exemplo, os argumentos sobre a natureza antropogênica das mudanças climáticas.
Laerte.
Até terça-feira (6/1): na página 2 da Folha de S. Paulo, o cartunista Laerte Coutinho resume, numa charge, o núcleo da questão, ao propor em dez pequenos quadros, os “10 motivos para uma regulamentação da mídia”.
A questão aparece retratada em uma manchete de jornal, uma bancada de telejornal, uma página de revista, uma análise de um cientista político, um cartaz de campanha, um debate na televisão, uma pesquisa, um programa de rádio, uma entrevista e um site noticioso. Em todos eles, a mesma resposta: “O governo quer controlar a opinião pública”.
Em seu admirável poder de síntese e carregando uma ironia irresistível, o cartunista demonstra que a homogeneidade do discurso da mídia contra a regulamentação é o maior argumento em favor da regulamentação.
Ele não entra em detalhes, como os que costumam embaralhar os debates: apenas mostra que, sem diversidade, a mídia simplesmente não cumpre seu papel social."
(De Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa, post intitulado "Um motivo para a regulamentação" - aqui.
Um exemplo prático de como estabelecer a confusão no debate, com o propósito de deixar tudo como está, ou seja, com a mídia brasileira sob o domínio de meia dúzia de famílias:
Iniciativa: Comissão Nacional é estabelecida para, como passo inicial, propor modelo de regulamentação do § 5º, do artigo 220 da Constituição Federal: Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.
Leitura midiática: Isso não passa de iniciativa golpista! Governo bolivariano! Assembleia Nacional Constituinte plantou na CF armadilha contra a liberdade de imprensa!
Indagação: Com que, então, os monopólios/oligopólios devem persistir?
Resposta: Como eu disse: Iniciativa golpista! Governo bolivariano! Assembleia Nacional Constituinte plantou na CF armadilha contra a liberdade de imprensa!
Temos, então, que a ladainha acima será repetida ad infinitum pela mídia).
ARNALDO ALBUQUERQUE
Morre Arnaldo Albuquerque, artista pioneiro dos quadrinhos no Piauí
Do Portal Cidade Verde
O Estado do Piauí perde um dos maiores quadrinistas. Arnaldo Albuquerque, 62 anos, morreu na tarde desta quinta-feira vítima de complicações em decorrência de uma cirurgia na perna. Os amigos lamentam a morte do piauiense na rede social. O velório acontece na Pax União, na avenida Miguel Rosa. Arnaldo morre um dia após o maior atentado a cartunistas no mundo onde morreram 12 pessoas em ação terrorista na França.
Arnaldo Albuquerque - era artista plástico, fotógrafo e cineasta – e se rebelava usando sua arte. Foi um nome da contracultura no Estado e transformava seu talento no desenho para falar do cotidiano e criticar as questões sociais e culturais.
Foi pioneiro na arte do quadrinho no Estado. Em 1977, ele lançou a revista “Humor Sangrento” que virou peça de estudos em universidades.
Arnaldo filmou com Torquato Neto o curta “Adão e Eva no paraíso ao consumo”, mas o documentário foi perdido.
O conselheiro do Núcleo de Quadrinhos no Piauí, Bernardo Aurélio, lamentou a morte de Arnaldo. “É um dos nomes mais importantes da contracultura no Piauí e um dos primeiros artistas do desenho no Estado a usar animação. É uma perda muito grande e infelizmente ele não teve o reconhecimento merecido”, disse Bernardo Aurélio.
(Para continuar, clique AQUI).
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Em dezembro de 2012, num encontro de cartunistas piauienses no bar do Clube dos Diários, fomos agradavelmente surpreendidos com a presença de Arnaldo Albuquerque. É que ele há tempos amargava problemas de saúde, e sua ida, vim a saber depois, se deveu ao empenho dos organizadores do evento. Aproveitei a oportunidade para adquirir um exemplar da edição comemorativa dos 30 anos de lançamento de "Humor Sangrento", colhendo, é claro, o autógrafo de nosso amigo. Essa edição, de 66 páginas, eu juntei a exemplares do "Humor Sangrento" de 1977 (42 páginas), que guardo com carinho.
Um registro: "Torquato Neto ou a carne seca é servida", de Kenard Kruel - cuja 3ª edição, com 660 páginas e revisão deste escriba, já está 'no ponto' -, oferece pormenores sobre a feitura do curta "Adão e Eva do paraíso ao consumo", com Torquato Neto, Claudete Dias e Arnaldo Albuquerque, em áreas do Rio Poti, nesta Capital, em 1972.
Descanse em paz, velho amigo.
Marcadores:
Humor. Arnaldo Albuquerque. Humor Sangrento.
CHARLIE HEBDO: RELATO SOBRE A TRAGÉDIA
A redação do Charlie Hebdo após o massacre.
'Durou cinco minutos', relata cartunista sobre massacre
Por Liz Alderman
Stéphane Charbonnier estava empoleirado, como de costume em todas as manhãs de quarta-feira, em uma mesa de madeira em forma de U no segundo andar da Redação parisiense cheia de luz do jornal satírico francês que ele comandava, o "Charlie Hebdo", com uma série de jornais espalhados diante dele.
Era por volta das 11h30 e cerca de uma dúzia de jornalistas, incluindo os principais cartunistas do jornal, se juntou a ele para a reunião semanal regular para discutir os artigos que apareceriam na próxima edição. O dia deles já tinha sido produtivo: menos de duas horas antes, os editores publicaram um tweet de sua mais recente charge provocadora, um desenho de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico, desejando ao seu público um Feliz Ano-Novo e, "acima de tudo, boa saúde!".
Sem que soubessem, uma cena de terror estava transcorrendo à sua porta –uma que chamaria a atenção do mundo e provocaria novos temores por toda a Europa a respeito de um crescente choque de civilizações, entre os radicais islâmicos e o Ocidente.
Corinne Rey, uma cartunista conhecida como Coco, tinha acabado de pegar sua filha pequena na escola e estava digitando um código de segurança para entrar no prédio quando dois homens em trajes pretos, armados com metralhadoras automáticas AK-47, a agarraram e a forçaram brutalmente a abrir a porta.
"Eles queriam entrar e subir", ela disse posteriormente à revista francesa "L'Humanité".
Empurrada para dentro, Coco disse que se refugiou sob uma mesa enquanto os homens entravam no saguão e seguiam para o balcão da recepção, onde um segurança que trabalhava ali havia 15 anos, Frédéric Boisseau, estava sentado.
Segundo uma testemunha citada na imprensa francesa, os assassinos abriram fogo, matando Boisseau e disparando tantas vezes no saguão que algumas pessoas acharam que se tratava da queda de um andaime.
Momentos depois, segundo testemunhas, os homens subiram correndo as escadas, com suas metralhadoras prontas, e seguiram para a sala de reunião.
"Onde está Charb? Onde está Charb?", eles gritavam, usando o apelido amplamente conhecido de Charbonnier. Ao avistarem seu alvo, um homem magro de óculos, os homens miraram e atiraram.
Então, disseram as testemunhas, eles mataram os principais cartunistas do jornal que estavam sentados, paralisados. Depois massacraram quase todas as demais pessoas na sala em uma rajada de fogo.
"Durou cerca de cinco minutos", disse Coco, abalada e com medo. "Eles falavam francês perfeitamente e alegavam ser da Al-Qaeda."
Sigolène Vinson, uma free-lancer que decidiu vir naquela manhã para participar da reunião de pauta, achou que seria morta quando um dos homens a abordou.
Em vez disso, ela contou à imprensa francesa, o homem disse: "Eu não vou matar você, porque você é uma mulher, nós não matamos mulheres, mas você deve se converter ao Islã, ler o Alcorão e se cobrir", ela lembrou.
"Depois", ela acrescentou, ele partiu gritando, "Allahu akbar, Allahu akbar!" [Alá é grande, Alá é grande]. (Fonte: aqui).
................
Definitivamente, o fanatismo - seja religioso ou político ou qualquer outro - deforma.
'Durou cinco minutos', relata cartunista sobre massacre
Por Liz Alderman
Stéphane Charbonnier estava empoleirado, como de costume em todas as manhãs de quarta-feira, em uma mesa de madeira em forma de U no segundo andar da Redação parisiense cheia de luz do jornal satírico francês que ele comandava, o "Charlie Hebdo", com uma série de jornais espalhados diante dele.
Era por volta das 11h30 e cerca de uma dúzia de jornalistas, incluindo os principais cartunistas do jornal, se juntou a ele para a reunião semanal regular para discutir os artigos que apareceriam na próxima edição. O dia deles já tinha sido produtivo: menos de duas horas antes, os editores publicaram um tweet de sua mais recente charge provocadora, um desenho de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico, desejando ao seu público um Feliz Ano-Novo e, "acima de tudo, boa saúde!".
Sem que soubessem, uma cena de terror estava transcorrendo à sua porta –uma que chamaria a atenção do mundo e provocaria novos temores por toda a Europa a respeito de um crescente choque de civilizações, entre os radicais islâmicos e o Ocidente.
Corinne Rey, uma cartunista conhecida como Coco, tinha acabado de pegar sua filha pequena na escola e estava digitando um código de segurança para entrar no prédio quando dois homens em trajes pretos, armados com metralhadoras automáticas AK-47, a agarraram e a forçaram brutalmente a abrir a porta.
"Eles queriam entrar e subir", ela disse posteriormente à revista francesa "L'Humanité".
Empurrada para dentro, Coco disse que se refugiou sob uma mesa enquanto os homens entravam no saguão e seguiam para o balcão da recepção, onde um segurança que trabalhava ali havia 15 anos, Frédéric Boisseau, estava sentado.
Segundo uma testemunha citada na imprensa francesa, os assassinos abriram fogo, matando Boisseau e disparando tantas vezes no saguão que algumas pessoas acharam que se tratava da queda de um andaime.
Momentos depois, segundo testemunhas, os homens subiram correndo as escadas, com suas metralhadoras prontas, e seguiram para a sala de reunião.
"Onde está Charb? Onde está Charb?", eles gritavam, usando o apelido amplamente conhecido de Charbonnier. Ao avistarem seu alvo, um homem magro de óculos, os homens miraram e atiraram.
Então, disseram as testemunhas, eles mataram os principais cartunistas do jornal que estavam sentados, paralisados. Depois massacraram quase todas as demais pessoas na sala em uma rajada de fogo.
"Durou cerca de cinco minutos", disse Coco, abalada e com medo. "Eles falavam francês perfeitamente e alegavam ser da Al-Qaeda."
Sigolène Vinson, uma free-lancer que decidiu vir naquela manhã para participar da reunião de pauta, achou que seria morta quando um dos homens a abordou.
Em vez disso, ela contou à imprensa francesa, o homem disse: "Eu não vou matar você, porque você é uma mulher, nós não matamos mulheres, mas você deve se converter ao Islã, ler o Alcorão e se cobrir", ela lembrou.
"Depois", ela acrescentou, ele partiu gritando, "Allahu akbar, Allahu akbar!" [Alá é grande, Alá é grande]. (Fonte: aqui).
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Definitivamente, o fanatismo - seja religioso ou político ou qualquer outro - deforma.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
A CHARGE DE WOLINSKI NO BRASIL
Georges Wolinski, 80, cartunista.
Cartunista morto em Paris retratou violência do Rio em charge
O desenho, no formato de uma longa tira, foi dado ao guia de turismo carioca Marcelo Armstrong, que criou o ‘Favela Tour’, um passeio que leva turistas a comunidades como a Rocinha, que fez parte do roteiro do cartunista. Ele era parte de um grupo de profissionais no País para a Bienal Internacional de Quadrinhos.
‘A charge retratava impressões sobre sua estada no Rio de Janeiro, que tive o prazer de ajudá-lo a conhecer. Estava ali registrada sua critica à nossa persistente violência urbana. Ontem, a violência de um terrorismo covarde e insano, nunca imaginada naqueles (recentes) tempos de 1993, iria tirar-lhe a vida, na segura e civilizada Paris’, disse Marcelo Armstrong.
No desenho, Wolinski fez observações sobre o poder do tráfico nos morros cariocas, referências a organizações criminosas e à cumplicidade da polícia no comércio da droga.
"Ele se impressionou com nossas discrepâncias", acrescentou Armstrong. Wolinski chamou as praias do Rio de ‘paraíso californiano’ com seus surfistas e adeptos da corrida.
Ele elogiou a beleza e alegria dos cariocas e, com a ilustração de mulheres de biquini, comentou o que chamou de ‘indecência pudica’ e ‘inocência sem perversão’ vista nas areias.
Wolinski foi assassinado na quarta-feira durante a ação de dois atiradores armados com Kalashnikovs na sede da revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, junto com outras 11 pessoas.
Wolin, como era conhecido pelos amigos, era filho de judeus e nasceu na Tunísia. Seu pai foi assassinado em 1936, uma tragédia que, segundo ele, assombrou sua vida como um fantasma.
Ele se mudou para a França em 1940 para estudar Arquitetura, mas acabou se dedicando à atividade de cartunista.
Após receber a notícia da morte do pai, a filha de Wolinski, Elsa, escreveu nas mídias sociais: "Papai se foi. Wolinski não".
Sobre religiões, certa vez, Wolinski escreveu que o 'paraíso é cheio de idiotas que acreditam que ele existe'. (Fonte: aqui).
Cartunista morto em Paris retratou violência do Rio em charge
Da BBC Brasil
Uma das vítimas do atentado contra a revista Charlie Hebdo em Paris, o cartunista francês Georges Wolinski, de 80 anos, retratou a violência urbana e particularidades da vida no Rio de Janeiro em uma charge de 1993.
‘A charge retratava impressões sobre sua estada no Rio de Janeiro, que tive o prazer de ajudá-lo a conhecer. Estava ali registrada sua critica à nossa persistente violência urbana. Ontem, a violência de um terrorismo covarde e insano, nunca imaginada naqueles (recentes) tempos de 1993, iria tirar-lhe a vida, na segura e civilizada Paris’, disse Marcelo Armstrong.
No desenho, Wolinski fez observações sobre o poder do tráfico nos morros cariocas, referências a organizações criminosas e à cumplicidade da polícia no comércio da droga.
"Ele se impressionou com nossas discrepâncias", acrescentou Armstrong. Wolinski chamou as praias do Rio de ‘paraíso californiano’ com seus surfistas e adeptos da corrida.
Ele elogiou a beleza e alegria dos cariocas e, com a ilustração de mulheres de biquini, comentou o que chamou de ‘indecência pudica’ e ‘inocência sem perversão’ vista nas areias.
Wolinski foi assassinado na quarta-feira durante a ação de dois atiradores armados com Kalashnikovs na sede da revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, junto com outras 11 pessoas.
Wolin, como era conhecido pelos amigos, era filho de judeus e nasceu na Tunísia. Seu pai foi assassinado em 1936, uma tragédia que, segundo ele, assombrou sua vida como um fantasma.
Ele se mudou para a França em 1940 para estudar Arquitetura, mas acabou se dedicando à atividade de cartunista.
Após receber a notícia da morte do pai, a filha de Wolinski, Elsa, escreveu nas mídias sociais: "Papai se foi. Wolinski não".
Sobre religiões, certa vez, Wolinski escreveu que o 'paraíso é cheio de idiotas que acreditam que ele existe'. (Fonte: aqui).
CHARLIE HEBDO: REPERCUSSÃO
"(...). Na hipótese de - repito: na hipótese - de se confirmarem indícios de que os assassinos sejam terroristas muçulmanos, estará aberta a maior ofensiva racista na Europa em muitas décadas.
O morticínio cruel e covarde ajudaria os que hoje, beneficiados pelo caldo de cultura da crise econômica, querem expulsar imigrantes da Europa.
Todo o movimento neonazista e ultradireitista a que se assistiu nos últimos anos em países como Alemanha, Ucrânia e França será fichinha perto do que vem aí.
Nos anos 1930, os bodes expiatórios foram os judeus.
Agora, chegou a vez da comunidade islâmica.
Que triste começo de 2015."
(De Mário Magalhães, post intitulado "Atentado na França anuncia e favorece ofensiva racista na Europa" - aqui. A polícia francesa anunciou que o atentado foi praticado por 3 homens, de origem franco-argelina, dois dos quais irmãos; o outro, mais jovem, já se entregou às autoridades.
Ao que se observa nos comentários suscitados, a impressão manifestada por Magalhães causou desconforto a alguns leitores, mas o fato é que o movimento neonazista e ultradireitista certamente potencializará sua mobilização radical na Europa).
....
EM TEMPO:
"O terrível, injustificável e indefensável atentado contra a redação do Charlie Hebdo não pode ser visto apenas como a ação de muçulmanos alucinados que, contrariados com alguns cartuns, resolveram mostrar suas insatisfações através de rajadas de AKs-47.
A teia de processos e acontecimentos que desembocou no sangrento episódio possui profundas raízes na cena política francesa.
A direita propaga, há décadas, a existência de uma suposta “questão muçulmana” a ser resolvida com a proibição da difusão de usos e costumes religiosos em território francês. O combustível essencial é a repulsa aos povos árabes e estrangeiros pobres, potencializado por um nacionalismo conservador. Estariam em perigo a cultura e o modo de vida de uma hipotética “França profunda”. Tais tendências tendem a se acentuar em contextos de crise econômica.
NACIONALISMO CONSERVADOR
Nacionalismo no contexto europeu – que já viveu os traumas do nazismo e do fascismo – não tem o mesmo significado que em países da periferia. Nesses últimos, o termo muitas vezes pode envolver oposição à dominação externa. Na França, o incentivo ao preconceito vem colecionando não apenas agressivos debates públicos, mas pilhas de processos na Justiça.
Os feios, sujos e malvados a serem combatidos não são mais os judeus, os comunistas ou o que vagamente se conhecia por “orientais”. O alvo desses tempos são genericamente árabes e muçulmanos de todos os matizes, os novos bárbaros. A propaganda antimuçulmana na França é uma forma de racismo.
Num país de pouco mais de 60 milhões de habitantes – em sua maioria católicos –, a comunidade muçulmana alcança 10% da população. É a segunda religião em número de fiéis. Não se trata de algo abstrato, mas o resultado de uma imigração potencializada pela vinda de enorme contingente das ex-colônias em busca de vida melhor. São os casos de Argélia, Marrocos, Tunísia e Djibouti, entre outros.
Nessas antigas possessões, os muçulmanos representam mais de 95% da população total. Tais países foram invadidos e explorados ao longo de séculos pela metrópole. Seus processos de independência, na onda de descolonização do segundo pós-Guerra, foram dramáticos e sangrentos.
DISPUTA MAIOR
Embora seja inaceitável qualquer restrição à liberdade de expressão e opinião, é forçoso reconhecer que os cartuns e textos do Charlie Hebdo, com seus ataques a Maomé, estavam inseridos em uma disputa maior. Embutiam também boa dose de intolerância, mesmo que não tenha sido essa a intenção de seus autores.
Mesmo assim, o atentado deve ser condenado sem mediações. Há outras formas de se externar discordâncias.
Foram assassinados, entre outros, Wolinski, Charb e Tignous, ex-chargistas do l’Humanité, jornal do Partido Comunista Francês. Wolinski – nascido na Tunísia – influenciou gerações de cartunistas pelo mundo, com um traço quase caligráfico e desbocadas sátiras de política, sexo e comportamento.
A estupidez dos assassinos municiará de argumentos os apóstolos do preconceito e da xenofobia, aqueles que veem no estrangeiro a matriz dos males da França.
O atentado não foi apenas contra o Charlie Hebdo.
Foi também foi contra toda a população muçulmana do planeta."
(De Gilberto Maringoni - AQUI).
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
O ATENTADO CONTRA O CHARLIE HEBDO
Charb, cartunista, editor do Charlie Hebdo.
Charlie Hebdo: 8 anos sob ameaças
Da Folha
A revista satírica francesa de esquerda Charlie Hebdo, alvo nesta quarta-feira (7) de um atentado devastador com armas automáticas, reivindicava seu lado provocante e era alvo constante de ameaças desde que publicou em 2006 uma série de charges de Maomé que indignaram o mundo islâmico.
Após a publicação das controversas caricaturas do profeta, inicialmente divulgadas pela revista dinamarquesa Jyllands-Posten, a redação da Charlie Hebdo vivia em estado de alerta.
"Havia ameaças permanentes desde a publicação das caricaturas de Maomé", declarou o advogado da revista, Richard Malka, após o ataque desta quarta-feira por desconhecidos que abriram fogo com armas automáticas e que custou a vida de várias das figuras mais famosas da redação, incluindo Cabu, Charb, Wolinski e Tignous.
"Vivíamos há oito anos sob ameaças, estávamos protegidos, mas não há nada que possa ser feito contra bárbaros que invadem com kalachnikovs", acrescentou o advogado. "É uma revista que apenas defendeu a liberdade de expressão, ou simplesmente a liberdade", disse.
A última edição da revista, lançada nesta quarta-feira, inclui na capa uma caricatura do escritor Michel Houllebecq, autor do polêmico livro "Submissão" publicado neste mesmo dia e que imagina uma França islamizada.
"Em 2015 perco meus dentes, em 2023 faço o Ramadã", afirma a caricatura do escritor na capa da Charlie Hebdo, cujos números se esgotaram nas bancas logo depois do atentado que deixou a França em estado de comoção. Outro desenho mostra o cartunista dizendo: "Em 2036, o Estado Islâmico entrará na Europa".
Após a divulgação em 2011 de uma edição que fazia piada com a sharia, ou lei islâmica, um atentado com coquetéis molotov incendiou parte da sede da revista no distrito 11 do leste de Paris.
Após o primeiro atentado de 2011, Charb e outros membros da redação viviam sob proteção policial e sua sede era alvo de custódia pela polícia francesa.
"Prevíamos o pior, e o ministério do Interior havia avaliado as ameaças a tal nível que vivíamos sob proteção permanente, mas não foi suficiente", disse o advogado Richard Malka.
O equivalente na França à revista argentina "Humor" ou à espanhola "El Jueves", a Charlie Hebdo foi fundada em 1970, quando substituiu "Hara Kiri", semanário que reivindicava seu tom "estúpido e malvado", fundado por Cavanna - falecido no ano passado - e Georges Bernier.
A linha inicial era anticlerical e denunciava a ordem burguesa, mas buscava, principalmente, fazer seus leitores rirem com um humor corrosivo implacável.
Em 1970, misturando o drama de uma discoteca no qual 146 pessoas morreram com o falecimento de Charles De Gaulle, a revista intitulou "Baile trágico em Colombey (a localidade onde o general morreu): um morto". O governo proibiu imediatamente a difusão da Hara Kiri.
A redação optou, então, por uma nova fórmula editorial que combinava quadrinhos com posições parecidas com as da Hara Kiri, mas sob um novo título, Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, o Charlie dos Peanuts, as famosas tirinhas americanas de Charles Schulz.
A partir de então, cultivou uma linha editorial irreverente com uma ótica de esquerda radical forjada durante a presidência de Valéry Giscard d'Estaing (centro-direita, 1974-81).
Em sua longa história choveram julgamentos por difamação. Os processos da Igreja, de empresários, ministros ou famosos que eram alvo permanente de suas sátiras acabaram derrubando uma revista que em 1981, ano da eleição do socialista François Mitterrand, havia perdido muitos leitores.
Passaram-se 11 anos antes que Charlie Hebdo voltasse a ser publicada, em 1992. Desde então, a revista abriu suas colunas aos melhores cartunistas irreverentes da França, de Wolinski a Cabu, ambos mortos no atentado.
O número de 2006 que havia reproduzido as caricaturas da imprensa dinamarquesa alcançou um recorde de vendas de 400.000 exemplares. Até o dia do atentado, a revista, que passava por dificuldades financeiras, publicava semanalmente cerca de 30.000 exemplares. (Fonte: aqui).
................
Deplorável.
Georges Wolinski, o irreverente cartunista Wolinski, é nosso velho conhecido desde 1969, quando nasceu O Pasquim, do qual eu e Albert Piauí, nesta Cidade Verde, fomos leitores a partir do número 1. Wolinski integrava o time de monstros sagrados do cartum, com que o semanário nos brindava de quando em quando: Steinberg, Chaval, Bosc etc.
Com esse atentado tresloucado, perdem a imprensa, a liberdade de expressão, o humor (o humor indignado, como diz o Ziraldo), a sensatez.
Não obstante, convém registrar o que este blog publicou:
Em 21 de setembro de 2012: Post de Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo:
"Quantos crimes são cometidos em nome da liberdade de expressão, reflito comigo mesmo.
Ainda agora: um jornal semanal satírico francês, Charlie Hebdo, decide publicar caricaturas de Maomé, o profeta dos muçulmanos.
Não é coragem. É irresponsabilidade em seu grau mais extremo. Os ânimos estão absurdamente exacerbados depois do infame filme “A Inocência dos Muçulmanos”, do igualmente infame fanático cristão Nakoula Bassiley Nakoula.
Os protestos no mundo muçulmano – previsíveis, aliás – custaram, até aqui, 30 vidas. Um embaixador americano teve uma morte tenebrosa em Bangasi, na Líbia, no curso das manifestações.
Por que, então, publicar caricaturas de Maomé? Para que haja mais mortes, mais desassossego, mais terror? Em nome da liberdade de expressão?
Francamente.
Liberdade de expressão é um conceito sagrado demais para ser tão mal usado. No caso do jornal francês estamos falando, na verdade, é de incitamento à violência, ao ódio – e de oportunismo cínico para vender mais exemplares e ganhar notoriedade." (Para continuar, clique aqui).
....
EM 24 de setembro de 2012: "Imprensa da liberdade", por Jânio de Freitas:
"(...) O tema é dificílimo em dois sentidos. Por si mesmo, é claro, e pela resistência ainda intransponível à busca de sua conceituação sem interesses e sem hipocrisias.
Não sou adepto da ideia de liberdade de imprensa plena: tenho convicção de que a imprensa não possui a liberdade de difundir o que ponha em risco pessoas inocentes. A decisão do semanário francês "Charlie Hebdo", de redobrar o ataque à intolerância do extremismo islamista, não foi defesa e afirmação do princípio da liberdade de imprensa. (...)". (Clique aqui, para continuar).
....
O que, evidentemente, não justificaria a selvageria dos atos praticados contra o jornal.
Charlie Hebdo: 8 anos sob ameaças
Da Folha
A revista satírica francesa de esquerda Charlie Hebdo, alvo nesta quarta-feira (7) de um atentado devastador com armas automáticas, reivindicava seu lado provocante e era alvo constante de ameaças desde que publicou em 2006 uma série de charges de Maomé que indignaram o mundo islâmico.
Após a publicação das controversas caricaturas do profeta, inicialmente divulgadas pela revista dinamarquesa Jyllands-Posten, a redação da Charlie Hebdo vivia em estado de alerta.
"Havia ameaças permanentes desde a publicação das caricaturas de Maomé", declarou o advogado da revista, Richard Malka, após o ataque desta quarta-feira por desconhecidos que abriram fogo com armas automáticas e que custou a vida de várias das figuras mais famosas da redação, incluindo Cabu, Charb, Wolinski e Tignous.
"Vivíamos há oito anos sob ameaças, estávamos protegidos, mas não há nada que possa ser feito contra bárbaros que invadem com kalachnikovs", acrescentou o advogado. "É uma revista que apenas defendeu a liberdade de expressão, ou simplesmente a liberdade", disse.
A última edição da revista, lançada nesta quarta-feira, inclui na capa uma caricatura do escritor Michel Houllebecq, autor do polêmico livro "Submissão" publicado neste mesmo dia e que imagina uma França islamizada.
"Em 2015 perco meus dentes, em 2023 faço o Ramadã", afirma a caricatura do escritor na capa da Charlie Hebdo, cujos números se esgotaram nas bancas logo depois do atentado que deixou a França em estado de comoção. Outro desenho mostra o cartunista dizendo: "Em 2036, o Estado Islâmico entrará na Europa".
Após a divulgação em 2011 de uma edição que fazia piada com a sharia, ou lei islâmica, um atentado com coquetéis molotov incendiou parte da sede da revista no distrito 11 do leste de Paris.
Ameaça permanente
Apesar disso, a Charlie Hebdo permaneceu fiel a sua linha de conduta e dizia não ser inimiga do Islã. "Há provocação, como fazemos todas as semanas, mas não mais contra o Islã que com outros temas", afirmou em 2012, após o atentado incendiário, seu diretor de publicação Charb, que morreu no ataque desta quarta-feira.Após o primeiro atentado de 2011, Charb e outros membros da redação viviam sob proteção policial e sua sede era alvo de custódia pela polícia francesa.
"Prevíamos o pior, e o ministério do Interior havia avaliado as ameaças a tal nível que vivíamos sob proteção permanente, mas não foi suficiente", disse o advogado Richard Malka.
O equivalente na França à revista argentina "Humor" ou à espanhola "El Jueves", a Charlie Hebdo foi fundada em 1970, quando substituiu "Hara Kiri", semanário que reivindicava seu tom "estúpido e malvado", fundado por Cavanna - falecido no ano passado - e Georges Bernier.
A linha inicial era anticlerical e denunciava a ordem burguesa, mas buscava, principalmente, fazer seus leitores rirem com um humor corrosivo implacável.
Em 1970, misturando o drama de uma discoteca no qual 146 pessoas morreram com o falecimento de Charles De Gaulle, a revista intitulou "Baile trágico em Colombey (a localidade onde o general morreu): um morto". O governo proibiu imediatamente a difusão da Hara Kiri.
A redação optou, então, por uma nova fórmula editorial que combinava quadrinhos com posições parecidas com as da Hara Kiri, mas sob um novo título, Charlie Hebdo, em referência a Charlie Brown, o Charlie dos Peanuts, as famosas tirinhas americanas de Charles Schulz.
A partir de então, cultivou uma linha editorial irreverente com uma ótica de esquerda radical forjada durante a presidência de Valéry Giscard d'Estaing (centro-direita, 1974-81).
Em sua longa história choveram julgamentos por difamação. Os processos da Igreja, de empresários, ministros ou famosos que eram alvo permanente de suas sátiras acabaram derrubando uma revista que em 1981, ano da eleição do socialista François Mitterrand, havia perdido muitos leitores.
Passaram-se 11 anos antes que Charlie Hebdo voltasse a ser publicada, em 1992. Desde então, a revista abriu suas colunas aos melhores cartunistas irreverentes da França, de Wolinski a Cabu, ambos mortos no atentado.
O número de 2006 que havia reproduzido as caricaturas da imprensa dinamarquesa alcançou um recorde de vendas de 400.000 exemplares. Até o dia do atentado, a revista, que passava por dificuldades financeiras, publicava semanalmente cerca de 30.000 exemplares. (Fonte: aqui).
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Deplorável.
Georges Wolinski, o irreverente cartunista Wolinski, é nosso velho conhecido desde 1969, quando nasceu O Pasquim, do qual eu e Albert Piauí, nesta Cidade Verde, fomos leitores a partir do número 1. Wolinski integrava o time de monstros sagrados do cartum, com que o semanário nos brindava de quando em quando: Steinberg, Chaval, Bosc etc.
Com esse atentado tresloucado, perdem a imprensa, a liberdade de expressão, o humor (o humor indignado, como diz o Ziraldo), a sensatez.
Não obstante, convém registrar o que este blog publicou:
Em 21 de setembro de 2012: Post de Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo:
"Quantos crimes são cometidos em nome da liberdade de expressão, reflito comigo mesmo.
Ainda agora: um jornal semanal satírico francês, Charlie Hebdo, decide publicar caricaturas de Maomé, o profeta dos muçulmanos.
Não é coragem. É irresponsabilidade em seu grau mais extremo. Os ânimos estão absurdamente exacerbados depois do infame filme “A Inocência dos Muçulmanos”, do igualmente infame fanático cristão Nakoula Bassiley Nakoula.
Os protestos no mundo muçulmano – previsíveis, aliás – custaram, até aqui, 30 vidas. Um embaixador americano teve uma morte tenebrosa em Bangasi, na Líbia, no curso das manifestações.
Por que, então, publicar caricaturas de Maomé? Para que haja mais mortes, mais desassossego, mais terror? Em nome da liberdade de expressão?
Francamente.
Liberdade de expressão é um conceito sagrado demais para ser tão mal usado. No caso do jornal francês estamos falando, na verdade, é de incitamento à violência, ao ódio – e de oportunismo cínico para vender mais exemplares e ganhar notoriedade." (Para continuar, clique aqui).
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EM 24 de setembro de 2012: "Imprensa da liberdade", por Jânio de Freitas:
"(...) O tema é dificílimo em dois sentidos. Por si mesmo, é claro, e pela resistência ainda intransponível à busca de sua conceituação sem interesses e sem hipocrisias.
Não sou adepto da ideia de liberdade de imprensa plena: tenho convicção de que a imprensa não possui a liberdade de difundir o que ponha em risco pessoas inocentes. A decisão do semanário francês "Charlie Hebdo", de redobrar o ataque à intolerância do extremismo islamista, não foi defesa e afirmação do princípio da liberdade de imprensa. (...)". (Clique aqui, para continuar).
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O que, evidentemente, não justificaria a selvageria dos atos praticados contra o jornal.
O FUTURO DAS RELIGIÕES
As religiões vão desaparecer no futuro?
Por Rachel Nuwer
"Há muito mais ateus no mundo hoje do que jamais houve, tanto em números absolutos quanto em porcentagem da humanidade", diz Phil Zuckerman, professor de sociologia e estudos seculares no Pitzer College, na Califórnia, e autor de Living the Secular Life ("Vivendo uma vida secular", em tradução livre).
Segundo uma pesquisa do instituto Gallup International, que entrevistou mais de 50 mil pessoas em 57 países, o número de indivíduos que se dizem religiosos caiu de 77% para 68% entre 2005 e 2011, enquanto aqueles que se identificaram como ateus subiram 3%, elevando a 13% a proporção dessa parcela.
Acadêmicos ainda estão tentando destrinchar os fatores complexos que levam um indivíduo ou uma nação ao ateísmo, mas existem alguns pontos em comum. Parte do apelo das religiões está na segurança que ela oferece em um mundo de incertezas.
Por isso, não por acaso, nações que registram maiores taxas de ateísmo tendem a ser aquelas que oferecem a seus cidadãos uma estabilidade econômica, política e existencial relativamente alta. Para Zuckerman, o capitalismo e o acesso à tecnologia e à educação também parecem ter relação com o declínio da religiosidade em algumas populações.
Sentido ao sofrimento
Japão, Grã-Bretanha, Canadá, Coreia do Sul, Holanda, República Tcheca, Estônia, Alemanha, França e Uruguai (onde a maioria dos cidadãos tem raízes europeias) são países onde a religião era importante há apenas um século, mas que agora mostram os menores índices de crença religiosa no mundo.
Mesmo assim, o declínio da fé parece ser global, inclusive em países que ainda são fortemente religiosos, como o Brasil, a Jamaica e a Irlanda.
Já os Estados Unidos estão entre os países mais ricos do mundo, mas também apresentam altas taxas de religiosidade. (Ainda assim, uma pesquisa recente da Pew revelou que, entre 2007 e 2012, o número de americanos que se declararam ateus subiu de 1,6% para 2,4%.)
"Declínio, no entanto, não quer dizer desaparecimento", argumenta Ara Norenzayan, psicólogo social da Universidade da Columbia Britânica em Vancouver, no Canadá, e autor de Big Gods ("Grandes Deuses", em tradução livre).
Para ele, a segurança existencial é mais vulnerável do que parece. E conforme as mudanças climáticas trouxerem destruição e os recursos naturais forem escasseando, o sofrimento e as dificuldades podem inflamar a religiosidade. "Por alguma razão, a religião parece dar um sentido ao sofrimento, muito mais do que qualquer ideal secular", diz o especialista.
Instinto religioso
Mas mesmo se os problemas do mundo fossem milagrosamente resolvidos e todos nós vivêssemos em paz e igualdade, as religiões ainda estariam entre nós. Isso porque um "buraco na forma de Deus" parece existir na neuropsicologia da nossa espécie, graças a uma falha na nossa evolução.
Para entender isso, é preciso investigar a teoria que estabelece que o homem tem duas formas de pensamento básicas: o Sistema 1 e o Sistema 2. O Sistema 2 evoluiu recentemente. É a voz na nossa cabeça que nos permite planejar e pensar logicamente.
O Sistema 1, por outro lado, é intuitivo, instintivo e automático. Essas capacidades se desenvolvem regularmente nos seres humanos, independentemente de onde nascerem. São mecanismos de sobrevivência.
O Sistema 1 nos faz buscar padrões para entender melhor o mundo e procurar o sentido de eventos aparentemente aleatórios, como desastres naturais ou a morte de um ente querido.
Além de nos ajudar a evitar os perigos e a encontrar um parceiro, alguns acadêmicos acreditam que o Sistema 1 também permitiu que as religiões surgissem e se perpetuassem.
Ele nos prepara para instintivamente notar forças naturais, mesmo quando elas não estão ali.
Milênios atrás, isso provavelmente ajudou o homem a evitar alguns perigos, como um leão escondido atrás de um arbusto. Mas isso nos tornou vulneráveis a supor a existência de agentes invisíveis – como um Deus benevolente olhando por nós.
Superstições e derivados
Ateus têm que lutar contra toda essa bagagem cultural e evolucionária. Seres humanos querem naturalmente acreditar que fazem parte de algo maior, que a vida não é completamente inútil. Nossas mentes têm fome de propósito e de justificativas.
Da mesma maneira, em todo o mundo, muitas das pessoas que dizem não acreditar em Deus ainda têm algum tipo de crença supersticiosa, como fantasmas, astrologia, karma, reencarnação ou telepatia.
Outros, para guiar seus valores, tendem a se apoiar no que pode ser interpretado como "representações religiosas", como a ioga, os esportes de equipe, a natureza e outros elementos. Um exemplo disso é o fato de a bruxaria estar ganhando popularidade nos Estados Unidos, enquanto o paganismo ser a religião que mais cresce na Grã-Bretanha.
As experiências religiosas também têm se manifestado das maneiras mais estranhas.
O antropólogo Ryan Honrbeck, do Fuller Theological Seminary, em Pasadena, na Califórnia, descobriu indícios de que o videogame online World of Warcraft está assumindo uma importância espiritual para alguns jogadores na China. "O game parece oferecer oportunidades de desenvolver alguns traços morais que a vida comum na sociedade contemporânea não consegue", afirma.
Medo ou adoração
Além disso, a religião promove coesão e cooperação em grupo.
A ameaça de um Deus todo-poderoso observando qualquer pessoa que sair da linha ajudou a manter a ordem em sociedades antigas. E, novamente, insegurança e sofrimento podem ter ajudado a incentivar a consolidação de religiões com códigos morais mais rígidos.
Há ainda uma explicação puramente matemática por trás da aptidão das religiões para prevalecerem.
Em várias culturas, as pessoas que são mais religiosas tendem a ter mais filhos. Acrescente a isso o fato de que, normalmente, as crianças seguem o exemplo dos pais em sua decisão sobre a religião, e um mundo completamente secular parece cada vez mais impossível.
Por todos esses motivos – psicológicos, neurológicos, históricos, culturais e logísticos -, especialistas acreditam que as religiões provavelmente nunca desaparecerão.
Sejam elas mantidas pelo medo ou pela adoração, as religiões conseguem muito bem se perpetuar. Senão, não estariam mais entre nós. (Fonte: aqui).
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Para ler mais comentários: aqui.
SOBRE O PERFIL DE PROVENTOS
Considerações sobre o poder de compra das aposentadorias e pensões
Por Diogo Costa
AS APOSENTADORIAS E PENSÕES PERDERAM VALOR COM O PASSAR DO TEMPO? - Um hipotético cidadão conseguiu o benefício da aposentadoria em 1º de julho de 1994.
O benefício a que ele fez jus na época equivalia a 25 salários mínimos.
O salário mínimo era de R$ 64,79 naquele período¹. O cidadão então se aposentou com um benefício de R$ 1.619,75.
Passados 20 anos e 04 meses (entre julho de 1994 e novembro de 2014), o valor do benefício aumentou de R$ 1.619,75 para R$ 7.805,57 (aumento obtido através de reajustes que tem como base legal o INPC).
Proporção entre a aposentadoria e o salário mínimo:
-Em julho de 1994 o benefício equivalia a 25 salários mínimos;
-Em novembro de 2014 o benefício equivalia a 10,78 salários mínimos.
O índice que é utilizado para corrigir as aposentadorias é o INPC. O índice da inflação oficial no Brasil é o IPCA.
Variação acumulada INPC/IPCA (julho de 1994 - novembro de 2014)²:
-INPC: 381,90%;
-IPCA: 369,90%.
Cumpre lembrar que a partir de julho de 1991 houve a desvinculação dos reajustes das aposentadorias e pensões, que não acompanharam mais a variação dos reajustes do salário mínimo.
O valor do salário mínimo passou de R$ 64,79 em julho de 1994, como já foi visto, para R$ 724,00 em 2014 (atualmente o valor é de R$ 788,00).
Ou seja, no período de julho de 94 a novembro de 2014 o salário mínimo recebeu reajustes acumulados equivalentes a 1.017,45%.
Há uma sensação, um tanto quanto ilusória, de que os benefícios de aposentadoria e pensão sofreram redução com o passar do tempo.
O caso hipotético que citei é um desses exemplos onde se tem a percepção, errônea, de que o valor da aposentadoria perdeu seu poder de compra.
O cidadão citado se aposentou em 1994 com um valor de 25 salários mínimos e em novembro de 2014 a proporção da aposentadoria havia caído para 10,78 salários mínimos.
Esse fenômeno (redução da aposentadoria como proporção do salário mínimo) ocorre, como foi demonstrado, porque em julho de 1991, no governo Collor, houve a desvinculação do salário mínimo como indexador para reajustes previdenciários.
Como vimos também, o salário mínimo cresceu 1.017,45% no período analisado enquanto a inflação oficial acumulada ficou em 369,90% e o reajuste dos aposentados e pensionistas, que recebem acima do piso, ficou em 381,90%.
Conclui-se, portanto, que não houve perda de poder aquisitivo das aposentadorias e pensões desde a implantação do Plano Real no governo de Itamar Franco.
O que houve foi um substancial aumento no valor do salário mínimo, que desde 1991 deixou de ser o parâmetro para o reajuste dos benefícios.
As aposentadorias e pensões tem mantido o seu poder aquisitivo, em que pese estarem diminuindo como proporção do valor do salário mínimo com o passar do tempo.
Quem recebe 01 salário mínimo de aposentadoria ou pensão (ou os dois benefícios somados), que é o piso que legalmente se pode pagar a título de benefício previdenciário, como se vê, não tem do que reclamar.
Aquela pessoa que com muito custo se aposentou com apenas 01 salário mínimo, em julho de 1994, teve até novembro de 2014 um reajuste acumulado de mais de 1.000%. Bem acima, portanto, da inflação verificada no mesmo período.
O que está acontecendo é que a base dos beneficiários da previdência social, que recebe 01 salário mínimo de benefício (69,7% do total de beneficiários), está conseguindo reajustes significativos nos últimos tempos, graças a valorização do salário mínimo.
Na parte de cima da pirâmide de benefícios, como não há vinculação com o salário mínimo desde 1991, o poder aquisitivo não se deteriora mas não acompanha o aumento do poder aquisitivo de quem recebe apenas o piso exigido pela lei.
¹ http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html#1994
² http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/ipca-inpc_201411_3.shtm
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Que o salário mínimo recebeu elevações superiores à inflação, não se pode questionar: houve, efetivamente, elevação do valor real dos proventos dos integrantes da base da pirâmide. Quanto à afirmação de que o poder aquisitivo dos demais componentes da pirâmide foi preservado, trata-se de tema que suscitou um bom debate, conforme se vê nos comentários da fonte do post - AQUI.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
MAIS SINAIS EM MARTE
(Área estudada de Marte) (Área similar na Terra)
Encontramos fósseis em Marte?
Por Salvador Nogueira
Analisando imagens de arquivo obtidas pelo jipe robótico Curiosity, da Nasa, uma pesquisadora nos Estados Unidos diz ter encontrado possíveis sinais de fósseis marcianos.
É isso mesmo que você leu. Nora Noffke, geobióloga da Old Dominion University, em Norfolk (EUA), apresentou a arrojada hipótese num artigo publicado on-line pelo periódico “Astrobiology”. Segundo ela, algumas das rochas fotografadas pelo rover parecem ter marcas similares às deixadas por colônias de bactérias na Terra, conhecidas genericamente pela sigla inglesa Miss (estruturas sedimentares induzidas por micróbios). São como “tapetes” macroscópicos criados pelas minúsculas criaturas ao ocupar uma determinada rocha.
Noffke é especialista nesse tipo de fóssil. Foi ela a principal autora do trabalho que identificou os mais antigos traços inquestionáveis de vida em nosso planeta, encontrados na Austrália. Eles têm 3,48 bilhões de anos de idade. Já as rochas marcianas que ela analisou agora foram avistadas pelo Curiosity em dezembro de 2012, quando ele chegou à formação geológica batizada de Baía Yellowknife, no interior da cratera Gale. Análises feitas pelo jipe mostram que ali houve um lago marciano que durou pelo menos até 3,7 bilhões de anos atrás, quando se formaram os sedimentos da rocha conhecida como Lago Gillespie, inspecionada visualmente pela cientista. Ou seja, estamos falando de estruturas que parecem ter sido formadas por bactérias num local em que essas criaturas de fato podem ter proliferado. Convenhamos, não parece nada absurdo.
Veja o que diz Noffke: “Na Terra, se essas Miss ocorressem com esse tipo de associação espacial e sucessão temporal, elas seriam interpretadas como o registro de crescimento de um ecossistema dominado por micróbios que viveu em corpos d’água que mais tarde secaram completamente.”
Apesar da premissa convincente e das exaustivas comparações entre formações similares em Marte e na Terra, Noffke alerta: por ora, trata-se apenas de uma hipótese, que ainda precisa ser posta à prova e com isso ser confirmada ou refutada.
A Face em fotos: Viking (1976)....Mars Global Surveyor (2001)
(Essa, aliás, é a principal razão para que você não acredite cegamente em histórias de gente que vê pirâmides, animais e até seres humanos em fotos marcianas. É muito fácil “enxergar” padrões em cenários naturais — nosso cérebro é programado para identificar tudo o que passa pelos olhos com formas familiares. Por isso também vemos coisas em nuvens. Mas, para confirmar qualquer percepção subjetiva, é preciso realizar novas observações, com métodos diferentes. Um exemplo bom é a famosa “Face de Marte”, em Cydonia. Uma imagem obtida pela sonda Viking em 1976 parecia revelar um rosto esculpido no planeta vermelho. Mas só parecia. Posteriormente, outra imagem da Viking e uma obtida pela orbitadora Mars Global Surveyor em 2001 sob outro ângulo de iluminação do Sol fizeram a “face” sumir. Era só uma montanha comum mesmo. Quer outro exemplo? Aposto que você enxergou dois olhos de um crânio na primeira imagem que ilustra essa matéria… Como dizia Carl Sagan, “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. Não acredite nas aparências e nas explicações fáceis. Sempre verifique os fatos e submeta-os a testes alternativos. Esse não é um bom conselho só para a ciência. É excelente para a vida cotidiana também.)
Infelizmente, o Curiosity já está muito longe da Baía Yellownkife e não terá como fazer análises adicionais para confirmar as observações superficiais feitas por Noffke. E a pesquisadora é a primeira a admitir que os traços poderiam ter sido produzidos por processos abióticos (ou seja, que não envolvem organismos vivos). Mas ela em particular não parece convencida de que seja o caso, dadas as semelhanças com formações estudadas na Terra. “Essa similaridade de associações marcianas e terrestres e sua mudança ao longo do tempo seriam outra extraordinária coincidência, se seus processos de formação forem diferentes.”
E agora, vamos ficar sem saber? Nem tudo está perdido. O Curiosity está explorando as imediações do monte Sharp, muito rico em rochas sedimentares, em tese também propícias à preservação de registros fósseis. Tendo isso em vista, Noffke termina seu artigo apresentando o “passo a passo” para que os pesquisadores da Nasa possam procurar novos traços de Miss e desta vez se detenham mais diante deles, realizando análises químicas que possam confirmar sua origem biológica. De acordo com a pesquisadora, os minerais presentes podem dar pistas importantes. “Em Marte, poderia haver, em estruturas candidatas, uma combinação muito diferente de minerais que é claramente divergente da mineralogia das rochas circundantes e poderia indicar biogenicidade.”
Diversos instrumentos do Curiosity poderiam procurar esses sinais. Mas talvez uma conclusão definitiva só possa ser obtida quando rochas como essas forem trazidas de Marte para a Terra. Uma missão robótica de retorno de amostras é basicamente o clamor de todos os astrobiólogos, mas ainda não está no cronograma de nenhuma agência espacial.
Apesar disso, a descoberta de sinais de vida, ainda que extinta, em Marte parece cada vez mais próxima. No fim do ano passado, o Curiosity detectou pela primeira vez plumas de metano — um gás que pode ou não estar associado a atividade biológica — emanando do solo do planeta vermelho. Sua posterior investigação é um possível caminho para a busca pelos marcianos. Noffke, agora, abre uma segunda rota. Quanto mais trilhas a seguir, maior a chance de sucesso.
Talvez você não se anime muito com o que seriam apenas criaturas unicelulares. Quem se importa com bactérias? Bem, note que a descoberta de vida extraterrestre, de qualquer tipo, já trará consigo uma revolução. Ela confirmará a desconfiança dos cientistas de que a biologia emerge sempre que as condições são favoráveis. Se aconteceu até em Marte, um planeta apenas marginalmente habitável, que não diremos de outros mundos fora do Sistema Solar que sejam similares à Terra? (Fonte: AQUI).
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O tema é fascinante e suscita opiniões as mais diversas. A discussão é contínua: Há, ou não, vida lá fora? Houve vida lá fora? Façam suas apostas.
A sensatez vem do próprio autor do post, Salvador Nogueira: "Melhor continuar procurando do que viver com a ilusão de que já achou (ou de que nunca vai achar), não?"
Encontramos fósseis em Marte?
Por Salvador Nogueira
Analisando imagens de arquivo obtidas pelo jipe robótico Curiosity, da Nasa, uma pesquisadora nos Estados Unidos diz ter encontrado possíveis sinais de fósseis marcianos.
É isso mesmo que você leu. Nora Noffke, geobióloga da Old Dominion University, em Norfolk (EUA), apresentou a arrojada hipótese num artigo publicado on-line pelo periódico “Astrobiology”. Segundo ela, algumas das rochas fotografadas pelo rover parecem ter marcas similares às deixadas por colônias de bactérias na Terra, conhecidas genericamente pela sigla inglesa Miss (estruturas sedimentares induzidas por micróbios). São como “tapetes” macroscópicos criados pelas minúsculas criaturas ao ocupar uma determinada rocha.
Noffke é especialista nesse tipo de fóssil. Foi ela a principal autora do trabalho que identificou os mais antigos traços inquestionáveis de vida em nosso planeta, encontrados na Austrália. Eles têm 3,48 bilhões de anos de idade. Já as rochas marcianas que ela analisou agora foram avistadas pelo Curiosity em dezembro de 2012, quando ele chegou à formação geológica batizada de Baía Yellowknife, no interior da cratera Gale. Análises feitas pelo jipe mostram que ali houve um lago marciano que durou pelo menos até 3,7 bilhões de anos atrás, quando se formaram os sedimentos da rocha conhecida como Lago Gillespie, inspecionada visualmente pela cientista. Ou seja, estamos falando de estruturas que parecem ter sido formadas por bactérias num local em que essas criaturas de fato podem ter proliferado. Convenhamos, não parece nada absurdo.
Veja o que diz Noffke: “Na Terra, se essas Miss ocorressem com esse tipo de associação espacial e sucessão temporal, elas seriam interpretadas como o registro de crescimento de um ecossistema dominado por micróbios que viveu em corpos d’água que mais tarde secaram completamente.”
Apesar da premissa convincente e das exaustivas comparações entre formações similares em Marte e na Terra, Noffke alerta: por ora, trata-se apenas de uma hipótese, que ainda precisa ser posta à prova e com isso ser confirmada ou refutada.
A Face em fotos: Viking (1976)....Mars Global Surveyor (2001)
(Essa, aliás, é a principal razão para que você não acredite cegamente em histórias de gente que vê pirâmides, animais e até seres humanos em fotos marcianas. É muito fácil “enxergar” padrões em cenários naturais — nosso cérebro é programado para identificar tudo o que passa pelos olhos com formas familiares. Por isso também vemos coisas em nuvens. Mas, para confirmar qualquer percepção subjetiva, é preciso realizar novas observações, com métodos diferentes. Um exemplo bom é a famosa “Face de Marte”, em Cydonia. Uma imagem obtida pela sonda Viking em 1976 parecia revelar um rosto esculpido no planeta vermelho. Mas só parecia. Posteriormente, outra imagem da Viking e uma obtida pela orbitadora Mars Global Surveyor em 2001 sob outro ângulo de iluminação do Sol fizeram a “face” sumir. Era só uma montanha comum mesmo. Quer outro exemplo? Aposto que você enxergou dois olhos de um crânio na primeira imagem que ilustra essa matéria… Como dizia Carl Sagan, “afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. Não acredite nas aparências e nas explicações fáceis. Sempre verifique os fatos e submeta-os a testes alternativos. Esse não é um bom conselho só para a ciência. É excelente para a vida cotidiana também.)
Infelizmente, o Curiosity já está muito longe da Baía Yellownkife e não terá como fazer análises adicionais para confirmar as observações superficiais feitas por Noffke. E a pesquisadora é a primeira a admitir que os traços poderiam ter sido produzidos por processos abióticos (ou seja, que não envolvem organismos vivos). Mas ela em particular não parece convencida de que seja o caso, dadas as semelhanças com formações estudadas na Terra. “Essa similaridade de associações marcianas e terrestres e sua mudança ao longo do tempo seriam outra extraordinária coincidência, se seus processos de formação forem diferentes.”
E agora, vamos ficar sem saber? Nem tudo está perdido. O Curiosity está explorando as imediações do monte Sharp, muito rico em rochas sedimentares, em tese também propícias à preservação de registros fósseis. Tendo isso em vista, Noffke termina seu artigo apresentando o “passo a passo” para que os pesquisadores da Nasa possam procurar novos traços de Miss e desta vez se detenham mais diante deles, realizando análises químicas que possam confirmar sua origem biológica. De acordo com a pesquisadora, os minerais presentes podem dar pistas importantes. “Em Marte, poderia haver, em estruturas candidatas, uma combinação muito diferente de minerais que é claramente divergente da mineralogia das rochas circundantes e poderia indicar biogenicidade.”
Diversos instrumentos do Curiosity poderiam procurar esses sinais. Mas talvez uma conclusão definitiva só possa ser obtida quando rochas como essas forem trazidas de Marte para a Terra. Uma missão robótica de retorno de amostras é basicamente o clamor de todos os astrobiólogos, mas ainda não está no cronograma de nenhuma agência espacial.
Apesar disso, a descoberta de sinais de vida, ainda que extinta, em Marte parece cada vez mais próxima. No fim do ano passado, o Curiosity detectou pela primeira vez plumas de metano — um gás que pode ou não estar associado a atividade biológica — emanando do solo do planeta vermelho. Sua posterior investigação é um possível caminho para a busca pelos marcianos. Noffke, agora, abre uma segunda rota. Quanto mais trilhas a seguir, maior a chance de sucesso.
Talvez você não se anime muito com o que seriam apenas criaturas unicelulares. Quem se importa com bactérias? Bem, note que a descoberta de vida extraterrestre, de qualquer tipo, já trará consigo uma revolução. Ela confirmará a desconfiança dos cientistas de que a biologia emerge sempre que as condições são favoráveis. Se aconteceu até em Marte, um planeta apenas marginalmente habitável, que não diremos de outros mundos fora do Sistema Solar que sejam similares à Terra? (Fonte: AQUI).
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O tema é fascinante e suscita opiniões as mais diversas. A discussão é contínua: Há, ou não, vida lá fora? Houve vida lá fora? Façam suas apostas.
A sensatez vem do próprio autor do post, Salvador Nogueira: "Melhor continuar procurando do que viver com a ilusão de que já achou (ou de que nunca vai achar), não?"
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