Mostrando postagens com marcador Crônica. Óculos. Copa 86. Luis Fernando Veríssimo.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Óculos. Copa 86. Luis Fernando Veríssimo.. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

PRIORIDADE VERÍSSIMA


A serviço da Playboy, no meio de um terremoto

Por Luis Fernando Veríssimo


Engraçado como, de repente, por acidente, descobrimos nossas prioridades.

Eu tinha acabado de chegar à Cidade do México para minha primeira Copa, a de 86 (eu sei, eu sei, estou numa fase de reminiscências, talvez consequência de ter quase morrido recentemente). Estava, dizia eu, no México para cobrir a Copa. Como correspondente da revista “Playboy”.

Meu crachá atraía olhares espantados e sorrisos maliciosos. O que a revista “Playboy” estava fazendo numa Copa do Mundo de futebol? Era a pergunta que eu mesmo me fazia.

A “Playboy” era uma revista mensal. Quando eu mandasse minha matéria a Copa ainda não teria terminado. Eu seria obrigado a comentar o que ainda não tinha acontecido. Ou poderia escrever sobre generalidades, com ênfase no sexo (“O que realmente se passa nos vestiários de uma Copa do Mundo”) ou partir para a solução suicida: adivinhar o resultado e mandar um texto entusiasmado festejando o campeão — o Brasil, obviamente.

Como todos se lembram, em 86 ganhou a Argentina, pela mão do Maradona. Acabei, se me lembro bem, escrevendo sobre a possível origem do futebol entre os astecas. Enfatizando o sexo, claro.

Bom: estava eu recém-chegado na Cidade do México. Como havia algum problema a ser resolvido quanto à minha reserva num hotel na cidade, passei a primeira noite num hotel perto do aeroporto. Recém tinha me deitado quando o quarto começou a tremer. Terremoto!

Depois da dor de barriga, o terremoto era o segundo maior temor de quem chegava ao México. E eu estava no meio de um terremoto na minha primeira noite! Saltei da cama, botei as calças e olhei em volta, me perguntando “O que mais?” Corri para o banheiro e peguei um chumaço de lenços de papel. No meio do cataclismo, tinha instintivamente resolvido que nada era mais importante do que ter com que limpar os óculos.

O quarto parou de tremer antes que eu chegasse à porta. Me dei conta de que não tinha sido terremoto, mas um avião decolando do aeroporto ao lado. O episódio pelo menos valeu para que eu me conhecesse melhor. Ou para que minha autoestranheza aumentasse.

Ah, também tive dor de barriga. Mas isso todo o mundo teve.

................
A dor de barriga a que se refere Veríssimo tem a ver com o excesso de pimenta e outros temperos, presentes em muitas iguarias mexicanas. As delícias provocam verdadeiros terremotos estomacais, intestinais e que tais. Tal flagelo é conhecido como A Vingança de Montezuma, imperador asteca que entregou todos os tesouros mexicanos aos invasores espanhóis - que para os astecas eram nada menos que os deuses ancestrais retornando após séculos e séculos.