sexta-feira, 25 de abril de 2014

TEATRO DO ABSURDO


Casso.

DEMOCRACIA VERSUS MONOPÓLIO MIDIÁTICO


Liberdade, enjoy it!

Por Rogério Faria

A imprensa, ao invés de ser apenas um dos instrumentos para o exercício democrático, tornou-se a maior inimiga da democracia. Ela tem na desvalorização da política a sua estratégia de poder, colocando-se como a panaceia para os males sociais. A solução passa por aceitar essa como mais uma atividade comercial, sujeita a regras e limites, como qualquer cidadão, empresa e relação entre ambos.

A Coca-Cola, quando identificou no estilo de vida saudável seu inimigo, associou sua imagem a ele, pondo-se como aliada intrínseca, até crucial. Da mesma forma as famílias empresárias donas dos meios de comunicação fizeram ao vincular sua imagem à democracia, a maior adversária ao seu poder.

Para vender sua imagem de paladina democrática, ela apregoa a desordem, o descalabro, e se arvora como único antídoto. Ela cria inimigos que supostamente só ela pode combater. Daí o papel despolitizador da imprensa. A censura imposta pelos donos dos meios de comunicações retira das manchetes qualquer avanço democrático, qualquer aspecto positivo do debate político, qualquer valorização da participação democrática. Assim, deixamos de confiar em nós mesmos como agentes de mudança, delegando esse poder ao Jornal Nacional.

Como qualquer atividade humana, ela deve ser regrada, obedecer às leis e servir à democracia. Tratemos ela como atividade comercial dentro de uma sociedade capitalista. É essa a visão dos donos, disputando mercado com a política, instrumento social de transformação. Leis devem surgir que permitam ao povo conduzir a imprensa, que os múltiplos pontos de vista tenham o mesmo peso nos jornais. Deve-se por fim aos monopólios midiáticos, à concentração ideológica. A tarefa não é fácil, pois a imprensa, com seu poder de fogo, vai gritar, espernear e morder, mas nossa democracia precisa avançar.

“Tem que ser possível equilibrar liberdade de expressão com responsabilidade social e moral.” David Puttnam. (Fonte: aqui).

MARCO CIVIL DA INTERNET

Bira. 

................
Onde vi: A vitória histórica do Marco Civil.... aqui.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

PETROBRAS: PARA ENTENDER PASADENA


Do site Fatos e Dados, da Petrobras:

1 – Qual foi o objetivo da compra da refinaria de Pasadena?
O propósito da Petrobras era capturar as altas margens do petróleo processado nos Estados Unidos na época. Como o petróleo proveniente do campo de Marlim era pesado e valia menos, era necessário processá-lo em uma refinaria mais complexa. Assim, após o refino tradicional, seria possível transformar os derivados pesados em produtos mais leves e mais valorizados.

Foi realizado um mapeamento de oportunidades nos Estados Unidos e duas consultorias de renome apontaram efetivas oportunidades de operação no Golfo do México. Essas informações indicavam a viabilidade da compra da refinaria de Pasadena. Logo em seguida, a planta deveria ser modernizada e ampliada para processar o petróleo de Marlim.

2 – Quanto a Petrobras pagou pela refinaria?
Foram desembolsados US$ 554 milhões com a compra de 100% das ações da PRSI-Refinaria e US$ 341 milhões por 100% das quotas da companhia de trading (comercializadora de petróleo e derivados), totalizando US$ 895 milhões.

Adicionalmente, houve o gasto de US$ 354 milhões com juros, empréstimos e garantias, despesas legais e complemento do acordo com a Astra. Desta forma, o total desembolsado com o negócio Pasadena foi de US$ 1,249 bilhão.

3 – Qual foi o preço pago pela Astra pela refinaria?
A Comissão de Apuração Interna, instaurada em março pela companhia, apurou que a Astra não desembolsou apenas US$ 42,5 milhões pela compra da refinaria. Este suposto valor, a propósito, nunca foi apresentado pela Petrobras.

Até o momento, análises da Petrobras indicam que a Astra desembolsou pelo conjunto de Pasadena aproximadamente US$ 360 milhões. Deste valor, US$ 248 milhões foram pagos à proprietária anterior (Crown) e US$ 112 milhões correspondem a investimentos realizados antes da venda à Petrobras.

Cabe destacar que a operação não envolvia apenas a compra da refinaria, mas sim um negócio bem mais amplo e diversificado. A unidade industrial de refino era parte menor de um complexo empreendimento que envolvia, também, um grande parque de armazenamento, estoques nos tanques, contratos de comercialização com clientes e contratos com a infraestrutura de acessos e escoamento. Envolvia, ainda, conhecimentos sobre o mercado e demais competências para operar no mercado norte-americano, em uma das zonas mais atrativas dos Estados Unidos.

4 - Afinal, a compra foi um bom ou um mau negócio?
Na época da compra, o negócio era muito vantajoso para a Petrobras, considerando as altas margens de refino vigentes e a oportunidade de processar o petróleo pesado do campo de Marlim no exterior e transformá-lo em derivados (produtos de maior valor agregado) para venda no mercado americano.

Posteriormente, houve diversas alterações no cenário econômico e do mercado de petróleo, tanto brasileiro quanto mundial. A crise econômica de 2008 levou à redução do consumo de derivados e, consequentemente, à queda das margens de refino. Além disso, houve a descoberta do pré-sal, anunciada em 2007. Assim, o negócio originalmente concebido transformou-se em um empreendimento de baixo retorno sobre o capital investido. (Para continuar, clique AQUI).

................
Os esclarecimentos surgem após semanas de atraso, quando a versão anunciada à exaustão pela mídia em geral está como que consolidada na percepção do público. Quem não guardou a informação de que Pasadena foi adquirida por 42 milhões de dólares e comprada pela Petrobras por mais de 1 bilhão?
Quantos jornais nacionais das emissoras de TV se disporão a informar sobre essa iniciativa da Petrobras? Talvez a divulgação dos esclarecimentos venha a requerer o recurso a anúncios diversos, regiamente pagos, é claro!

NO CLIMA DA COPA


Pelicano.

NO CLIMA DA COPA


Ilustração: Tonho.

................
A propósito, convém registrar:

O site oficial da Copa 

A contagem regressiva para o início da Copa do Mundo ganhou um portal específico na internet. Desde o último dia 11, está disponível na rede o "Portal da Copa" - clique AQUI -, com as últimas informações sobre o estágio de finalização das obras de infraestrutura e das arenas esportivas construídas para o evento – além de uma extensa gama de serviços de orientação para torcedores e municípios que sediarão os jogos.

................

Clique AQUI para ler "50 DIAS PARA A COPA, 50 BENEFÍCIOS".

PETROBRAS: A ANATOMIA DA MATÉRIA DE CAPA DA ÉPOCA (E A CPI)


O caso Época

"Luis Nassif
(...)
Em publicações respeitadas, separa-se a pauta do conteúdo publicado. A redação recebe dicas, denúncias, indícios. Aí prepara a pauta, que é o roteiro de investigações. O repórter sai a campo e procura fatos e testemunhas que comprovem ou desmintam as informações recebidas. E só publica o que é comprovável.

O jornalismo brasileiro contemporâneo desenvolveu um estilo preguiçoso. O repórter recebe as denúncias. Em vez de sair a campo e apurar, limita-se a publicar a pauta com o desmentido do acusado, sem apresentar nenhuma conclusão sobre se o fato relatado é verídico ou não.


A reportagem da Época tem 31.354 caracteres e segue esse procedimento. É bombástica. Na capa, vale-se da linguagem publicitária para vender um peixe graúdo. O leitor abre a revista e, de cara, depara-se com páginas e páginas recheada de fotos.

Quando vai a fundo na reportagem, encontra uma única informação relevante: o parecer do terceiro escalão do jurídico da Petrobras, recomendando não questionar na Justiça o resultado da câmara de arbitragem – que fixou o valor a ser pago pela Petrobras pelos 50% da Astra. Apenas isso.

É muito menos do que outras publicações vêm levantando no decorrer da semana. Uma informação que cabe em um parágrafo foi transformada em reportagem de várias páginas através dos seguintes recursos:

1.     8% do material descreve o uniforme da Petrobrás usado por Dilma Rousseff no lançamento do navio Dragão do Mar. Sobram 92%.

2.     21% é sobre a tentativa da Brasilinvest de se associar a Paulo Roberto Costa. No final do enorme calhau, fica-se sabendo que não houve associação nenhuma. Então para quê falar de algo que não aconteceu? Fica a informação falsa de que o Brasilinvest - que não tem nenhuma expressão no mercado -, é um dos maiores bancos de investimento brasileiro e que tentou fazer negócios em Cuba. Sobram 71%.

3.     5% é sobre um advogado que teria feito lobby para a Petrosul junto à Transpetro. No final do calhau tem a palavra dele, negando qualquer trabalho, e da Transpetro, negando qualquer medida. E nenhuma conclusão do repórter. Sobram 66%.

4.     11% do texto é sobre a compra da refinaria na Argentina. Joga-se no papel um amontoado de informações passadas pela Polícia Federal e recolhidas no São Google, sem uma análise, sem uma apuração adicional, sem uma conclusão sequer. Sobram 56%.

5.     6% do texto explica em linhas gerais o suposto escândalo Pasadena. É importante para contextualizar a questão, mas inteiramente feito em cima de informações públicas. Sobram 49%.

6.     15% para descrever uma lista encontrada com o doleiro Alberto Yousseff sem pescar uma informação relevante sequer. Sobram 35%.

7.     4% descreve a pendência judicial da Petrobras com a Astra, já divulgada pela mídia,  sem nenhuma informação adicional. Sobram 31%.

8.     7% é dedicado para o parecer de técnicos do jurídico recomendando não questionar a decisão da câmara de arbitragem na Justiça. É a única informação nova da matéria. O “furo” poderia ser dada usando 1% do espaço. Sobram 23%.

9.     23% para informar (com base em fontes em off) que a Astra queria a todo custo um acordo com a Petrobras. E atribui a decisão de ir para o pau ao então presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli. Mas qual o motivo? Como advogados ganharam honorários com a ação, logo o motivo foi montar uma jogada com os advogados.  Simples, não? Todas essas afirmações baseadas em suposições, ilações sem um reforço sequer em fatos ou em fontes em on. Em entrevista a veículos da Globo, o ex-Diretor de Gás Ildo Sauer – presente nas reuniões – afirmou que a diretoria executiva queria o acordo mas o Conselho recusou devido ao que se considerou arrogância dos executivos da Astra. As informações são desconsideradas, membros do CA não são ouvidos. Limitam-se (os que fazem a revista Época) a mencionar fontes em off para falar da simpatia e boa vontade dos executivos da Astra.

O leitor mais atilado fica com a sensação de ter comprado gato por lebre." (Para ler a matéria completa, clique AQUI).

................
O comportamento da publicação foi, de fato, deplorável. Mas, 'preguiçoso' ou não o estilo, a revista 'vendeu' o peixe dela, a exemplo do que fizeram vários outros veículos de comunicação, à frente a TV Globo. Afinal, quem, de tanto ouvir dia após dia, não lembra de que dita TV informou que a refinaria foi comprada por 42 (quarenta e dois) milhões de dólares e vendida por mais de um bilhão de dólares? Todo dia estava lá no Jornal Nacional: 42 milhões de dólares contra mais de um bilhão!

Com um atraso revelador de baita preguiça (onde está aquela ágil Petrobras do site Fatos e Dados?), semanas depois da primeira e reprisada notícia sobre os tais 42 milhões de dólares a Petrobras se dispôs a dar conta de que o valor despendido pela empresa vendedora (Astra) na compra da refinaria Pasadena foi na verdade de 360 (trezentos e sessenta) milhões de dólares!

Qual o destaque dado pela mídia à informação correta? Que percentual da população que fixara na mente os tais 42 milhões de dólares tem ciência de que o valor a considerar é o de 360 milhões de dólares?

A Petrobras por acaso pleiteou (judicialmente ou não) direito de resposta, com o mesmo destaque dado às notícias equivocadas?

O fato novo é o seguinte: ministra Rosa Weber, do STF, acaba de determinar que a CPI a ser instalada pelo Congresso deve ser a exclusiva. Interesses eleitoreiros à parte, eis, no mínimo, a oportunidade de os valores corretos merecerem a divulgação esperada; afinal, é mais que quilométrica a distância entre 42 mi e 360 mi, e tal esclarecimento certamente será positivo para a empresa, seus dirigentes e defensores - e para a prevalência da verdade, é óbvio.

A LUZ NO PAREDÃO


Muhittin Koroglu. (Turquia).

SOBRE COTAS RACIAIS


"(...). Por 6 votos a 2, a Suprema Corte decidiu que não violam a Constituição as decisões legislativas ou plebiscitos estaduais que proíbam o uso de critérios baseados na raça para o ingresso em universidades públicas mantidas pelos estados.

Antes que ocorra uma profusão de notícias e interpretações equivocadas dos doutos jornalistas e comentadores da mídia, NOTEM QUE A SUPREMA CORTE NÃO DECLAROU INCONSTITUCIONAL A ADOÇÃO DE POLÍTICAS DE AÇÃO AFIRMATIVA BASEADA NA RAÇA, mas apenas declarou que NÃO É INCONSTITUCIONAL A DECISÃO DOS ESTADOS DE PROIBIR A ADOÇÃO OU A CONTINUIDADE DESSAS POLÍTICAS.

Em resumo, os estados estão autorizados, mas não obrigados, a manter políticas de ação afirmativa baseadas na raça dos estudantes. (...)."




(Comentário de José Jardim, no jornal GGN, aqui, ao que um outro leitor, Gilson AS, arremata: "Nos Estados Unidos já existe uma sociedade negra formada em todos os níveis de representação, apesar dos afroamericanos representarem apenas 13% da população. Portanto, as cotas já cumpriram o seu papel. Por aqui temos apenas 14 anos de cotas sociais, ainda falta muita coisa para ser feita. Apesar de muitos serem contra, considero que esse grupo ainda precise da tutela do estado. (...).". É isso).

INTERNET: ENFIM, UM MARCO CIVIL CONTRA A BARBÁRIE

.
Cena com os dias contados. 
(É o que se espera com o Marco Civil da Internet):

Dario Castillejos.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A ALMA DO NEGÓCIO


Bira.

................
Bira desvenda a alma do negócio: a estratégia dos neoliberais é criar a versão que lhes interessa, distorcendo os fatos deliberadamente.
Como dizia a turma do O Pasquim: a charge acima é a primeira que mostra o espírito da coisa. Os demais cartunistas embarcaram em outra. O que não causa estranheza.

SALVE O DIA NACIONAL DO CHORO


Mário.

CURIOSAS EMISSÕES DO ESPAÇO EXTERIOR


Emissões de rádio "inexplicáveis" são confirmadas por astrônomos

Entre 2011 e 2012, astrônomos que trabalhavam em um observatório australiano captaram uma série de instáveis porém poderosos sinais de rádio. Tais sinais nunca foram detectados em outros observatórios do mundo, lançando dúvidas sobre sua origem. Mas agora, novas observações feitas em Arecibo, Porto Rico, sugerem que eles são reais.

Até então, o único observatório a detectar os sinais foi o radiotelescópio Parkes, em New South Wales, na Austrália. As rajadas de sinais apareceram entre 2011 e 2012, provavelmente originados de fora da nossa galáxia, segundo os cientistas. Em apenas alguns milésimos de segundo, cada uma das rajadas de rádio tinha tanta energia quanto o Sol emite em 300 mil anos.

Os astrônomos têm todos os tipos de teorias sobre o que pode estar desencadeando as rajadas, incluindo blitzars – estrelas de nêutrons com excesso de peso que estão resistindo à tentação de se transformar em um buraco negro por conta de sua rápida rotação. Outras teorias incluem magnetars – estrelas de nêutrons com intensos campos magnéticos –, a “evaporação” de buracos negros e explosões de raios gama que envolvem uma supernova.

As mais recentes observações foram feitas em Arecibo, em 2 novembro de 2012, mas divulgadas só agora. O observatório abriga a maior antena de rádio do mundo, em forma de prato (ele chegou a ser usado nas cenas do filme “Contato”, baseado no livro homônimo de Carl Sagan). Os dados mostraram um enorme pico de três milissegundos, mas, ao contrário de explosões de rádio produzidas por alguns pulsares, a explosão não se repetiu.

Em reportagem, a National Geographic chama atenção pela instabilidade das rajadas de rádio. De acordo com a reportagem, normalmente os sinais de rádio viajam à velocidade da luz, o que significa que todos os diferentes comprimentos de onda e frequências de ondas de rádio emitidas por um mesmo objeto – como, por exemplo, uma pulsar – deve chegar na Terra em um grande lote.

Mas os sinais captados entre 2011 e 2012 são instáveis – o que leva os astrônomos a teorizar que as ondas estão vindo de muito, muito longe, talvez até bilhões e bilhões de anos-luz de distância da Terra. Apenas assim para explicar as instabilidades, que poderiam acontecer em função da interferência da viagem. Até agora, portanto, as novas descobertas ajudam a deixar o evento ainda mais misterioso. (Fonte: aqui).

................
Há mais coisas entre o céu e a Terra...

O BRASIL E O MARCO CIVIL DA INTERNET


A sanção do Marco Civil da Internet por Dilma Rousseff configura a primeira reação institucional ao desgoverno reinante na Web. Doravante, ter-se-á como que uma espinha dorsal de disciplinamento dos atos praticados nesse universo. Necessária e valiosa iniciativa - e mais: sem essa de representar confronto com o império norte-americano, como jornalões andam propalando, a exemplo do francês Le Monde. O Brasil age assim porque a realidade aqui vigente está a exigir. Não será surpresa se os demais países se inspirarem na medida.

Agora, com propriedade, o governo brasileiro poderá chegar à Conferência NetMundial - AQUI -, a iniciar-se nesta data em São Paulo, e dizer a que veio.

................
Nota: Presente na NetMundial, Tim Berners-Lee, criador da web, defendeu o advento de uma carta magna mundial para resguardar os direitos básicos dos usuários, citando como exemplo o Marco Civil brasileiro. 

OLD CARTUM


Ral.  (Década de 1980).

terça-feira, 22 de abril de 2014

UM NEGÓCIO LUCRATIVO

Fernando Vicente.

Indústria da difamação

Por Paulo Metri

Em um salão amplo, em torno de uma grande mesa de reunião, será tomada a decisão da pauta do próximo número de um dos maiores periódicos do país. O editor chefe, os chefes de editorias setoriais e, o que é incomum para este tipo de reunião, o próprio dono da editora estão presentes. Em geral, ele recebe a pauta gerada nestas reuniões e ainda interfere nas decisões. Mas, desta vez, ele está interessado em mostrar ao seu filho, um dos mais recentes diplomados em jornalismo, como funciona o negócio da família. Por isso, trouxe o rebento para a reunião. O editor chefe está com a tarefa, determinada pelo dono, de presidir a reunião e com a recomendação de esquecer a sua presença.
Assim, falando mais alto, ele abafa o bate papo do grupo e inicia a reunião.

Editor chefe – Quero sugestões para a matéria principal e para as demais matérias. Vamos começar com a matéria principal, com direito à chamada da capa.

Jornalista 1 – Pasadena, depoimentos, Petrobras, Paulo Roberto Costa...

Editor chefe – Para matéria principal, não. Precisamos de um furo, algo novo ou de uma nova declaração sobre um tema antigo.

Todo mundo fica em silêncio, até que uma jornalista, que só tem dois meses na editora, pede para falar.

Jornalista 2 – Eu tenho a informação de uma fonte que outro diretor da Petrobras também está envolvido em superfaturamentos, negócios não bem explicados etc.

Editor chefe – É algum dos que nós já fizemos matérias?

Jornalista 2 – Não. É outro.

Editor chefe – É coisa séria?

Jornalista 2 – Minha fonte foi apresentada por um amigo, que diz que ela é séria. Mas, até agora, não tive nenhuma confirmação.

Editor chefe – Então, vá à luta e descubra o máximo que puder. Antes da edição do novo número, vamos ter mais uma reunião e, sempre que precisar, fale comigo.

Jornalista 2 – Só tenho medo de não conseguir comprovar as denúncias. Aliás, têm muitas pessoas que dizem exatamente o contrário. Dizem que quem conhece o tal diretor não pode acreditar que as acusações sejam verdadeiras.

A jornalista 2 não sabe ainda como as coisas funcionam nesta editora. Por isso, o editor chefe olha para o dono, esboça um ligeiro sorriso e responde para a jornalista.

Editor chefe – Busque a história e as comprovações. Mas, mesmo que você não consiga comprovar, fale comigo, porque há chance de se utilizar o material.

Jornalista 2 – Como assim?

Editor chefe – Se só faltar um link óbvio, você não precisa de comprovação. A própria obviedade é a validação da informação. Além disso, muitas vezes, o leitor quer ouvir mais versões do que realidades. E temos, também, que satisfazer o leitor!

Jornalista 2 – Mas, tem a chance de grupos com interesses na empresa estarem querendo “queimar” este diretor e, por isso, estariam “plantando” estas notícias falsas na nossa publicação.

Editor chefe – Colha todo o material e, depois, venha na minha sala com ele.

Neste ponto, o filho do dono se dirige ao pai, falando baixinho.

Filho – Agir como ele propõe não pode resultar em um processo futuro de difamação, que poderá trazer prejuízos?

Em ato incontinente, o dono se levanta e diz para o grupo continuar com a reunião, mas ele terá que se ausentar, devido a tarefas inadiáveis. A seguir, sai da sala, acompanhado do filho. Chegando a sua sala, dirige a palavra para o filho.

Dono – Você sabe qual o negócio mais rentável nesta empresa?

Filho – Edição das nossas publicações, incluindo o carro-chefe, em cuja reunião de pauta, nós estávamos?

Dono – Não!

Filho – A publicação de livros?

Dono – Também não. Você não vai descobrir. É o lançamento de acusações, verdadeiras ou não. Através delas, há a possibilidade de se ganhar dinheiro de várias formas. Em primeiro lugar, porque a venda da publicação com denúncias é sempre alta. Depois, os grupos econômicos por trás do corrupto, beneficiários das suas falcatruas, ou seja, os corruptores, ficam propensos a abrir os cofres para que paremos a linha de investigação. Muitas vezes, estes grupos ficam sabendo, antecipadamente, as nossas investigações e...

Filho – Como podem?

Dono – Eles têm espiões na nossa redação. E, aí, eles oferecem valores consideráveis para as investigações serem paralisadas.

Filho – E nós aceitamos?

Dono – Se o valor oferecido garantir uma boa lucratividade e dependendo, também, da inconsistência das acusações que temos, sim!

O filho fica pensativo. O pai continua com a sua explicação.

Dono – Têm as encomendas de calúnia para “queimar” adversários políticos. Por fim, os governos, às vezes, ficam sabendo antecipadamente também, e oferecem, por exemplo, a compra de publicidade para não publicarmos determinadas denúncias.

Filho – Isto não seria proibido?

Dono – É. Mas, é muito difícil de ser detectado.

Filho – E o caso que lhe perguntei na reunião? São publicadas acusações não comprovadas e o cidadão, que se julga difamado, vai à Justiça. Se esta der ganho de causa ao reclamante, não vai nos dar prejuízo?

Dono – Têm dois fatores a se levar em consideração. O primeiro é que ganhar uma causa na Justiça não depende, necessariamente, de se estar fazendo justiça. Se você está sendo representado por bons advogados, suas chances de ganhar aumentam muito. Por isso, nós trabalhamos com um dos melhores escritórios existentes. O outro ponto a considerar é que, mesmo que percamos a causa, o total das penalidades ainda pode ser menor que o lucro gerado pela edição caluniosa. E o pagamento das penalidades só acontece anos depois da receita do fato calunioso ter entrado no nosso caixa.

O filho continua pensativo e o pai complementa da seguinte forma.

Dono – Eu prefiro trabalhar com fatos verdadeiros, até porque com eles você não é desmascarado e não tem a chance de perder a credibilidade. Mas, o nosso negócio é o escândalo. E, às vezes, os escândalos reais ficam escassos.

Filho – E os difamados injustamente? Como ficam?

Dono – São acidentes de percurso. Não há nada pessoal contra eles. (Fonte: aqui).

................
Faltou mencionar:  a) o fato de o dono da empresa e seu grupo, ao distorcer notícias sobre pessoas - físicas e/ou jurídicas -, estarem a defender (também) seus próprios interesses político-partidários;  b) a receita adicional proveniente  das alentados "esclarecimentos ao público" mandados publicar pelas vítimas de distorção (estatais de grande porte, por exemplo) em publicações em geral e na própria empresa jornalística responsável pela "notícia", sendo comuns anúncios de página inteira (matéria paga pela vítima, vale frisar). 
Ou seja, deformar notícias, em qualquer circunstância, é um negócio extremamente lucrativo.

DIA DA TERRA (E DO BRASIL)


"Hoje é dia 22 de abril de 2014, é Dia da Terra, e que maneira melhor de celebrá-lo do que olhar nosso planeta do espaço"(?), diz a Nasa (Agência Espacial Norte-Americana). Esta imagem mostra as Américas vistas pelo satélite NOAA's GOES-East.

PORTUGAL SOB O OLHAR DE ÂNGELA MERKEL (NO PORTUGUÊS DE PORTUGAL)

S. Santos.

Felizmente temos o bom olho de Angela

Por Ferreira Fernandes, do Diário de Notícias de Lisboa

Nunca agradeceremos bastante por na antimetropia dos chanceleres alemães termos ficado com o mais conveniente olho virado para nós! Como sabemos, na antimetropia um olho é míope e o outro é hipermetrope. Grosso modo, o primeiro vê mal ao perto e o segundo vê demasiado bem ao longe. Felizmente, repito, calhou-nos o olho míope de Angela Merkel que nos vê de forma difusa e relativamente desinteressada. Por isso só temos de comprar uns Audi para dar prémios e mais carruagens Siemens do que precisamos, temos juros indecentes, obrigação de exportar de borla engenheiros que formámos e uma economia arrasada, só. Poderia ter sido bem pior. O outro olho de Angela, como o dos seus antecessores, está virado para Leste e não para nós. A hipermetropia que olhou e olha para a ex-Jugoslávia e, agora, para a já quase ex-Ucrânia, apesar de parecer trazer um benefício, ver bem, é uma doença. O esforço para focar leva a dores de cabeça, ardor e lágrimas. Mas graças à sua tão celebrada indústria de lentes (quem não conhece as Zeiss?), esses malefícios, em vez de atingirem os alemães do olho hipermetrope, dão cabo daquilo para onde ele olha. Não arrasam só a economia, estilhaçam os países. Graças a Odin e outros deuses germânicos, calhou-nos o olho míope. Danke schön! Fosse o outro olho, já teria havido umas milícias lusas a atacar Olivença, o Porto a cortar com Lisboa e a unir-se a Santiago de Compostela, e a Península Ibérica a ferro e fogo. (Fonte: aqui).

KEPLER REPLAY


Elvis.

CERTAS EXPRESSÕES


A expressão popular "colocar as barbas de molho"

Barbas de molho é uma expressão popular da língua portuguesa. A expressão completa é "deixar as barbas de molho" ou "colocar as barbas de molho" e significa que a pessoa em questão deve ter paciência, ficar alerta, prudente.

A expressão pode também servir para qualificar alguém que se encontra parado, sossegado, num estado de tranquilidade: "Tire as barbas de molho e vamos trabalhar!"

Origem da expressão
Na Antiguidade e na Idade Média, a barba era um símbolo de honra e poder. Quando a barba de um indivíduo era cortada por outro, isso representava uma grande humilhação. Essa ideia chegou aos dias de hoje na expressão "deixar as barbas de molho", que significa ficar de sobreaviso, prevenir-se. (...).
Existe um provérbio espanhol que diz "quando você vir as barbas de seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho", indicando que todos devemos aprender com as experiências dos outros.

Uma segunda teoria 
De acordo com alguns estudiosos, esta expressão derivou da (acentuada) pobreza do Brasil antigo, em que as casas rurais eram juntas e cobertas com um tipo de capim chamado "bargas", muito parecido com o sapê. Dentro dessas casas havia fogões de lenha e deles muitas vezes saltavam fagulhas pelas chaminés. Por vezes essas fagulhas incendiavam o telhado da casa. Devido a esse fato, surgiu o hábito do vizinho da casa que estava em chamas molhar o seu próprio telhado, evitando assim que as chamas passassem para a sua casa. Então surgiu a expressão: "Coloque as bargas de molho que a casa do vizinho está ardendo!" Com o passar do tempo a expressão se modificou e virou: "Coloque as barbas de molho porque as do vizinho estão ardendo". (Fonte: aqui).

................
Promovi pequenas alterações no texto acima.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

CENÁRIO GLOBAL


Sergey Elkin. (Rússia).

LUCIANO DO VALLE


Casso.

PIB A QUALQUER CUSTO


Zop.

O ÍNDICE DE PROGRESSO SOCIAL


Medir o êxito de um país pelo PIB ainda faz sentido?

Da BBC Brasil

Principal indicador econômico há quase um século, seria o PIB (Produto Interno Bruto) a melhor forma de medir o êxito de um país?

Uma conhecida crítica ao PIB diz que ele "mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena". A frase ficou famosa com a declaração de um integrante de um dos principais clãs políticos americanos, o ex-senador Bobby Kennedy, em 1968.

A ONG Social Progress Imperative, liderada pelo economista Michael Porter, da Universidade de Harvard, sugere uma revisão do índice. Não se trata de enterrar de vez o PIB, mas de complementá-lo com um índice que mede tudo, menos o rendimento econômico.Em outras palavras, o PIB - que nasceu nos anos da Grande Depressão (anos 1930) e da Segunda Guerra (1939-1945) para mensurar o tamanho e a riqueza de uma economia - está irremediavelmente viciado como uma medida do bem-estar humano. E cada vez mais ele é questionado.

"Se você eliminar os indicadores econômicos", diz Michael Green, diretor executivo do grupo, é possível "ver a relação entre o progresso econômico e social e entendê-lo muito melhor".

Medindo o progresso social
Green, que por muitos anos estudou o desenvolvimento internacional, propôs no Fórum Econômico Mundial um novo índice, juntamente como o diretor do escritório americano da revista britânica The Economist, Matthew Bishop.

O mecanismo em questão é o Índice de Progresso Social (SPI, na sigla em inglês), que começou colhendo informações de 54 diferentes indicadores de bem-estar, tais como o acesso às escolas, cuidados de saúde, um meio ambiente limpo, saneamento e nutrição.

Em termos gerais, todos giram em torno de três perguntas:

1. O país pode prover as necessidades mais básicas de seus habitantes?

2. Foram dadas as bases de sustentação para que pessoas e comunidades consigam melhorar seu bem-estar de forma sustentável?

3. Existem oportunidades para que todos os indivíduos consigam alcançar seu máximo potencial?

Não há muita surpresa no topo da lista que engloba 132 países. As primeiras dez posições são ocupadas por todos os países nórdicos, além de democracias liberais, como Nova Zelândia, Austrália e Canadá.

Em seguida, no segundo nível da tabela, estão cinco membros do G7: Alemanha, Reino Unido, Japão, Estados Unidos e França.

O ponto forte do Japão, por exemplo, está no fato de o país conseguir prover as necessidades básicas de seus cidadãos. O país, no entanto, fica abaixo da média de bem-estar e oportunidades e tem baixa pontuação no quesito tolerância e inclusão.

Já os Estados Unidos ocupam a posição 23 na categoria de provimento de necessidades básicas, más é o quinto país quando se fala em oferecer oportunidades. Apesar de ser o país que mais gasta com atenção médica no mundo, os Estados Unidos também não se saíram bem na categoria esperança de vida.

O Brasil, por sua vez, está na posição 46 entre os 132 países. Quando comparado a outros países de renda per capita semelhante (como Irã, África do Sul, Sérvia, Venezuela, Argentina, Tailândia, entre outros), o país se sai melhor em quesitos como liberdade de expressão, tolerância e acesso à saúde básica, mas vai pior nos rankings de violência, saneamento e acesso ao ensino universitário. (Para continuar, clique aqui).

................
O texto acima se soma ao post "O BRASIL E O ÍNDICE DE PROGRESSO SOCIAL", aqui, publicado em 17 de abril.

GARCÍA MÁRQUEZ, CAPÍTULO FINAL


Angel Boligan.

BRASIL DISTORCIDO


O Brasil e a distorção econômica

Por Mauro Santayana

Crescem, a cada dia, as evidências de que o Brasil está sofrendo solerte campanha de descrédito econômico, movida por interesses que envolvem de países estrangeiros a especuladores que vivem da manipulação da bolsa e da exploração predatória de juros no mercado nacional.

Uma coisa é a “expectativa” dos “analistas” e “agentes econômicos”, os editoriais da The Economist, as matérias do El País, e os textos engendrados, pela imprensa mexicana, contra o Brasil, e dirigidas a outros países da América Latina, no contexto da defesa de um factoide, o da Aliança do Pacífico, que está fazendo água a olhos vistos. Outra é a realidade dos números, que desmente, a cada dia, o canto das cassandras que proclamavam a iminência de uma “tempestade perfeita”, que nos levaria, irremediavelmente, para o fundo do abismo em 2014.

Recebemos, no ano passado, US$ 63 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto. A economia cresceu “surpreendentemente” 2,3%, enquanto alguns vaticinavam que ficaria em cerca de 1%. A produção industrial aumentou 2,9% em janeiro, e foram criados mais de 260 mil empregos formais líquidos em fevereiro. As vendas no varejo continuam se expandindo, e a inadimplência está em retração.

Segundo estudo publicado pelo Valor Econômico, na terceira semana de março, baseado em balanços de companhias de capital aberto, a maioria das empresas planeja manter ou aumentar seus investimentos este ano. Dos 15 grandes grupos analisados, nove, entre eles Pão de Açúcar, Ambev, Natura, Alpargatas e Magazine Luiza, pretendem investir o mesmo montante de 2013, e três vão aumentá-los. O conjunto das empresas de varejo e de consumo investiu quase R$ 13 bilhões no ano passado.

É claro que não estamos isentos de problemas. O incentivo dado à fabricação e venda de automóveis, nos últimos anos, sem que se assegurassem fontes nacionais de energia – por meio de maior oferta de gás, liberação total da produção de etanol e biodiesel para autoconsumo, estímulo ao uso de modelos híbridos e elétricos –, acoplado à diminuição da produção de petróleo devido à interrupção para a modernização e troca de plataformas, fez explodir a importação de combustíveis, afetando a balança comercial.

A intensificação do processo de desnacionalização da economia, com a entrada de capital estrangeiro para a compra de empresas brasileiras – e nem sempre a construção de novas fábricas – tem nos levado, também, a aumentar, na mesma proporção, o envio de remessas de lucro para outros países da ordem de dezenas de bilhões de dólares, impactando fortemente o resultado de nossas transações correntes com o exterior.

O consumo cresceu, nos últimos anos, com a entrada de milhões de pessoas para a nova classe média. Mas foi atendido, em parte, com o brutal avanço das importações de eletrônicos e eletrodomésticos, sem que se tenha negociado, nesse processo, com os fornecedores estrangeiros, o aumento do nível de conteúdo local. Alguns problemas, como a importação de combustíveis, tendem a ser solucionados, com a entrada em operação das novas refinarias e plataformas de petróleo que estão em construção e que deverão ficar prontas em 2015. As outras questões, de caráter estrutural e estratégico, têm de ser decididamente enfrentadas, sob a pena de se transformar em uma bola de neve nos próximos anos.

O que não podemos é permitir que certas mentiras, à base de serem permanentemente repetidas, sem resposta eficaz por parte do país, acabem se transformando em incontestáveis verdades, para ponderáveis parcelas da sociedade brasileira e da opinião pública internacional. Estudo publicado pela Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que, no México, apontado como a quintessência da Aliança do Pacífico, a renda está em queda acelerada e quatro em cada dez cidadãos estão passando fome.

Encaminhar-nos para esse modelo, de espoliação econômica e total subordinação aos interesses de outras nações, é a meta – e o verdadeiro objetivo – de quem está por trás dessa campanha de contrainformação. (Fonte: aqui).

OLD CARTUM


Quino. (Argentina - década de 1970).

CONVERSA COM GALEANO

                  "Eu não seria capaz de ler de novo 'As Veias Abertas...', cairia desmaiado".

Galeano e "As Veias Abertas..."

Por Cynara Menezes

Em 1998, entrevistei a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) e ela me confessou sentir “antipatia mortal” por O Quinze, o clássico da literatura brasileira que publicou aos 20 anos, em 1930, e que, desde então, seria sua “obra mais importante e mais popular” (tudo quanto é enciclopédia se refere assim ao livro). O mesmo acontece com As Veias Abertas da América Latina e o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Publicado em 1971, quando Galeano tinha 30 anos, a obra até hoje o persegue. É sempre nomeado como “o autor de As Veias Abertas…“, o que, pelo visto, o incomoda –mesmo porque tem mais de 30 livros além dele.

Na entrevista coletiva que deu na sexta-feira 11 em Brasília, onde veio para ser o escritor homenageado da 2ª Bienal do Livro e da Leitura, Galeano ouviu provavelmente a milionésima pergunta sobre Veias Abertas. “Faz 40 anos que você escreveu As Veias Abertas da América Latina. Quais são as veias abertas hoje em dia?” E ele, em um português bastante razoável: “Seria para mim impossível responder a uma pergunta assim, especialmente porque, depois de tantos anos, não me sinto tão ligado a esse livro como quando o escrevi. O tempo passou, comecei a tentar outras coisas, a me aproximar mais à realidade humana em geral e em especial à economia política –porque As Veias Abertas tentou ser um livro de economia política, só que eu ainda não tinha a formação necessária. Não estou arrependido de tê-lo escrito, mas é uma etapa superada. Eu não seria capaz de ler de novo esse livro, cairia desmaiado. Para mim essa prosa de esquerda tradicional é chatíssima. O meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro… ‘Tem alguma cama livre?’, perguntaria.” Risadas.

Aproveito e emendo: mas o que você achou de Chávez dar o livro para o Obama? Obama entenderia As Veias Abertas…? “Nem Obama nem Chávez”, responde Galeano para gargalhada geral. “Claro, porque ele entregou a Obama com a melhor intenção do mundo –Chávez era um santo, cara mais bondoso que esse eu não conheci–, mas deu de presente a Obama um livro em uma língua que ele não conhece. Então, foi um gesto generoso, mas um pouco cruel.”

Eu nunca tinha visto o grande escritor uruguaio de perto. É mais baixo do que imaginava, cerca de 1m70. Bastante frágil, aparenta ter mais do que seus 73 anos. Ele mesmo comenta que a maioria dos escritores é de esquerda e, como tal, chegados a uma boemia e isso não faz bem à saúde… Uma menina pergunta: “A idade não é boa para os jogadores de futebol. E para os escritores?” Galeano discorda. “Depende. Tem velhos muito mais jovens que os velhos velhíssimos e tem velhos que você acha que estão esperando a morte e surpreendentemente acabam ganhando uma partida por 8 a zero. Não depende da biologia nem do prognóstico dos profetas. Não depende de ninguém. O melhor que o futebol tem como esporte –a festa que o futebol é, a festa das pernas que jogam, a festa dos olhos– é a capacidade de surpresa, de assombro. Na verdade ninguém sabe o que vai acontecer. E menos ainda os especialistas. Aqueles doutores do futebol são seres temíveis, perigosíssimos para a sociedade e o mundo em geral.”

Outro jornalista espeta: “Por que a esquerda não deu certo na América Latina?” Galeano não se faz de rogado: “Algumas vezes deu certo, algumas vezes, não. A realidade é mutável, a realidade política e todas as outras –por sorte. Senão seríamos estátuas, estaríamos congelados no tempo. Não é verdade que a esquerda não deu certo. Deu certo e muitas vezes foi demolida por ter dado certo, por ter tido razão, porque o que a esquerda predicou, em certo momento na América Latina, resultou ser a verdade, então foi punida. Punida pelos golpes de Estado, ditaduras militares, períodos prolongadíssimos de terror de Estado, crimes horrorosos cometidos em nome da paz social, do progresso. Da convivência democrática, imaginem! Que democracia e que convivência são essas? Tinham que perguntar: ‘do que está falando, senhor?’ As coisas são muito mais complexas do que parecem. Em alguns períodos, também, a esquerda comete erros gravíssimos e em outros, não, faz o que deve ser feito da melhor maneira, até além do que o próprio movimento de massas estava esperando. A realidade sempre tem esse poder de surpresa. Te surpreende com a resposta que dá a perguntas nunca formuladas. E que são as mais tentadoras. O grande estímulo para a vida está aí, na capacidade de adivinhar possíveis perguntas não formuladas.”

Galeano está cansado, foram muitas horas de viagem para chegar à capital federal, e quer encerrar a entrevista. Eu protesto: “Mas e Mujica? Você não vai falar de Mujica?” Ele não resiste e se senta de novo. “Estou meio cansado, estou fatigado de falar de Mujica, porque todo mundo fala dele! Até em outros planetas se fala de Mujica. Em Marte, Júpiter… É incrível a capacidade de ressonância que Mujica tem. E ele é muito meu amigo, já faz muitos anos. A única coisa que posso fazer para incorporar um grão de areia a esta praia imensa de Mujica caminhando pelo mundo seria contar uma piccola história que dá ideia da qualidade humana do personagem.”

E começou a narrar, saborosamente, como é de seu feitio:

“Faz uns quatro anos –não tenho interesse em lembrar direito a data– fui operado de câncer. Foi um câncer sério, agudo. Tomei uma anestesia muito forte, dessas que não desaparecem rápido. E estava sozinho na cama do hospital, esperando que passasse o efeito da anestesia. Ou seja, mais dormido do que acordado. Sem saber muito o que acontecia, onde estava, delirando. E neste período, estando sozinho em uma cama –sozinho, não, acompanhado pelo câncer, mas o câncer não é um amigo confiável. Não te recomendo. Bem, estava eu ali e volta e meia delirava. Como sou muito futeboleiro, um religioso da bola, tinha delírios futebolistas que me levaram aos anos de infância, quando jogava na rua, com bolas improvisadas, feitas com trapos velhos. E em uma dessas fugas, comecei a bater bola. Como se fosse uma múmia egípcia que tinha errado de domicílio, jogando futebol contra ninguém e sem bola nenhuma, só na imaginação. Chutava a bola e ela voltava, chutava e ela voltava. Tudo debaixo do lençol. E nada, a bola continuava, como se estivesse morta de riso da minha estupidez de achar que podia com ela. ‘Não, você não pode comigo’. Numa dessas, senti um peso em cima dos meus joelhos. Aí começo a recobrar a realidade e vejo alguém que conheço, uma voz que reconheço, de um amigo. E pergunto:

–O que você está fazendo aqui?

E ele:

–Isso é maneira de receber um amigo?

–Não importa, quero saber o que você faz aqui. Está doente também?

–Que é isso, estou saudabilíssimo. O enfermo é você.

–Estou sabendo. Obrigado pela notícia, mas já estou sabendo.

–O doente é você, está fodido, irmão. Eu vim te visitar. Agora, não sabia que se recebia um amigo assim, chutando-o, chutando-o e chutando-o. Não é muito educado.

Continuamos nessa até que eu falei:

–Olhe, chega. Sua função não é estar aqui brincando comigo. Você é o presidente da República e sua função é governar. Mujica, você é o presidente! Vai governar este país já! Estamos precisando de sua participação ativa, desinteressada, importantíssima para o nosso povo. Não perca mais tempo comigo.

–Ah, bela maneira de ser amigo, hein?

–Será bela ou será feia, mas é a única maneira para você. Você é o presidente! Além disso, para piorar, todo mundo gosta de você e quer que continue sendo presidente por uns 300 anos mais. Se você não gosta, foda-se.

E aí acabou.”


Na saída, consigo falar a Eduardo Galeano do enorme prazer que sinto em conhecê-lo pessoalmente e lhe conto que adoro O Livro dos Abraços. Ele olha para mim e diz: “Eu também”.

Ufa.

................
(Fonte: aqui).

domingo, 20 de abril de 2014

OVO BEM BOLADO


Waldez.

THE BEATLES FOREVER


"...Os Beatles vão passar depressa. Dentro de seis meses, eles estarão mais superados que o cha-cha-cha e o bambolê...". - Sylvio Tullio Cardoso, crítico musical, jornal O Globo, 1963.

(Vejamos, não obstante, este comentário de Marco St.: "Curiosamente,  o crítico Sylvio Tullio Cardoso morreria precocemente pouco tempo após essa crítica.

Ele se foi. Os Beatles se eternizaram.

Mas antes de criticar o crítico, recomendo que se procure informações sobre ele. Numa googlada rápida descobri que ele teve importante papel no desenvolvimento da música popular brasileira, jazz e etc. - Veja aqui.

Ele não teve tempo de entender o que significavam aqueles 4 garotos de Liverpool. Apenas isso.

Não vamos esquecer que a Decca recusou gravar os Beatles quando eles ainda eram desconhecidos...". - Aqui).

PRECONCEITO CÓSMICO


Duke.

AP 470: A REALIDADE COMO ELA É


Quanto valem cinco meses na vida de uma pessoa?

Por Paulo Nogueira

Quanto valem cinco meses na vida de uma pessoa?

A pergunta me ocorre quando penso em Zé Dirceu, preso exatamente há cinco meses na Papuda.

Alguém já fez essa conta para si mesmo?

Em dinheiro, é difícil calcular. Digamos que dessem a você, diante de uma sentença de cinco meses na cadeia, a opção de pagar para não ir.

Quanto você daria para ficar em casa? Para conviver com seus amigos, seus irmãos, seus pais, seus filhos? Para poder ir à padaria pela manhã tomar uma média com pão e manteiga? Para comer uma pizza domingo?

Eis um caso de complicada precificação.

Do ponto de vista de tempo em si, nada paga, evidentemente, a temporada na cadeia. Nossos dias são limitados e escassos. Os cinco meses na cadeia – ou o que for – não são acrescentados em sua vida a título de compensação.

E se a sentença é injusta, ou absolutamente controversa? E se você acha que de um lado enfrenta algozes para os quais só importa punir e de outro amigos cuja solidariedade e apoio não se manifestam numa hora tão complicada?

Aí entram outras coisas humanas: raiva, sentimento de impotência, revolta.

A conta cresce expressivamente.

Onde, nisso, fica o caso de Dirceu?

Numa recomposição rápida, temos um julgamento que o tempo mostrou ser um circo abjeto, animado e manipulado por uma mídia que repetiu o comportamento de 1954 e 1964.

Depois, temos uma juíza que diz que, embora não existam provas contra Dirceu, se julga no direito de condená-lo.

Juízes de nível baixo, como se veria depois ao conhecê-los em sua pompa vazia, sacramentariam a punição sem provas com uma figura chamada Teoria do Domínio dos Fatos. (Nem o autor alemão da teoria achou que a adaptação dela para o Mensalão fazia sentido.)

Numa canhestra matemática que levou um réu a ter uma pena maior do que a que os noruegueses aplicaram ao assassino de dezenas de jovens reunidos numa convenção, foram fixadas sentenças estapafúrdias como se se tratasse de ciência exata.

Os réus, no percurso, foram logo para o STF, o que significou a perda de pelo menos uma segunda instância para a revisão dos vereditos.

Depois, num arroubo teatral, em 15 de novembro Joaquim Barbosa, sob os holofotes da mídia que o incensou quando lhe conveio e agora o abandona como se esperava, manda prender alguns, Dirceu entre eles.

E na cadeia a perseguição como (que) se amplia.

Uma proposta de emprego de um hotel vira um escândalo nacional artificialmente.

Aparece na mídia com alarde uma conexão no Panamá para o candidato a empregador de Dirceu e depois ela desaparece quando se vê que não era nada – mas sem que os leitores fiquem sabendo do complemento da história.

Aparece outro emprego, mas um jornal diz que Dirceu conversou com alguém pelo celular, e uma nota jamais provada faz que Dirceu continue na prisão em regime integral.

Esta é a vida brasileira: uma nota basta para deixar alguém na cadeia, ainda que ela não se sustente. Basta que esse alguém seja Dirceu.

Uma revista – a mesma que impunemente tentou invadir criminosamente o quarto de Dirceu num hotel de Brasília – continua em sua caçada insana e publica fotos que mostrariam os “privilégios” de Dirceu na cadeia.

Há, aí, uma dissonância cognitiva. As fotos apresentam um Dirceu abatido, visivelmente mais magro. Não é nada compatível com regalias ou privilégios.

Num dos últimos capítulos da farsa, Barbosa – sem que a mídia lhe cobre nada por isso – diz que as penas dos réus do Mensalão foram artificialmente infladas para que não prescrevessem.

Não é crime isso? Ou é uma inovação da justiça brasileira, algo que poderia fascinar justiças menos sofisticadas como – já que falamos nela – a norueguesa?

Quanto, repito, valem cinco meses na vida de uma pessoa?

Na semana que vem, noticia-se hoje, Barbosa vai se pronunciar sobre o caso Dirceu.

Ainda que ele contrarie os prognósticos e libere Dirceu, quem vai pagar a conta pelo tempo perdido e sofrido na prisão?

Dirceu deveria processar o Estado, até para que coisas assim tenham consequências.

Não sei qual seria a quantia arbitrada, mas não seria pouca.

Ironia suprema, a conta seria paga por um Estado comandado por Dilma Rousseff e pelo partido que Dirceu ajudou a construir, o PT.

Parece o realismo fantástico de García Márquez numa versão de pesadelo, mas para Dirceu é a realidade como ela é. (Fonte: aqui).

sábado, 19 de abril de 2014

A VOZ DO BRASIL NA TV


Pela Voz do Brasil na televisão

Por Zegomes, no jornal GGN

Estava eu repousando, debaixo do limoeiro, quando me caiu um limão na cabeça e eu fiquei meio zonzo e pensei – Na na ni na não, não pensei como a galinha que pensou que  o mundo ia se acabar.

Pensei:  Poderia haver dez minutos todos os dias na televisão, em horário nobre, reservados para o Poder Executivo e o Poder Legislativo se manifestarem ao Brasil.  As ondas de TV são concessões públicas, os concessionários, bilionários, têm obrigação de ceder alguma coisa em benefício do poder público.

Nesses dez minutos os Poderes podem se manifestar como for necessário, inclusive se defendendo das campanhas de difamações e extermínio de reputações organizadas pelas corporações midiáticas com o apoio de outras corporações.

Os filósofos estão ai dizendo que as corporações querem escravizar todos nós e usurpar o Estado.

Os Poderes Públicos, nossos representantes eleitos, devem ter meios de se/nos defenderem, com voz na comunicação de massa que é concessão pública.

O Poder Judiciário não entraria nessa, porque esse poder deve se manifestar apenas nos autos dos processos.

Opa, caiu, de novo, limão na minha cabeça! Acho que vou pensar... (Fonte: aqui).

................
Há algum tempo, os donos da mídia vêm investindo contra A Voz do Brasil no rádio, e o programa só se segurou porque o STF acatou a defesa apresentada pelo Estado brasileiro. A ideia de estender A Voz do Brasil para a TV é excelente, mas a pressão dos donos da mídia e seus solícitos parceiros seria dezenas de vezes maior do que a observada até então.

A propósito, transcrevo post de 17 de setembro de 2012, de nossa autoria, sobre A Voz do Brasil:

Com uma hora de duração, o programa radiofônico A Voz do Brasil está no ar há mais de 70 anos, levando aos cidadãos, das 19h às 20h, de segunda a sexta-feira, notícias sobre os Poderes Executivo,  Judiciário e Legislativo. Todas as empresas de radiodifusão estão obrigadas a retransmiti-lo.

Ocorre que os conglomerados de comunicação não se conformam com tal exigência, invocando até o artigo 220 da Constituição Federal (veda qualquer restrição ao direito à informação, entre outros) para tentar calar definitivamente A Voz do Brasil, ou conseguir sua transmissão em horário alternativo.

E tudo isso mesmo após o Supremo Tribunal Federal haver firmado o entendimento de que a exigência, como está, é constitucional (Adin 561).

Mas a atitude dos inconformados não deve causar espécie: a própria Justiça (Tribunal Federal da 4ª Região) autorizou uma rádio FM a transmitir o programa em horário alternativo - o que exigiu da União a interposição de recurso, o qual acaba de ser acatado pelo STF.

A propósito, li hoje um artigo - "Veja e o pecado capital do PT" (clique aqui para lê-lo) - que alude à Voz do Brasil, oferecendo concisa abordagem sobre o mérito do programa:

"São exatamente estes conglomerados, representantes do capitalismo informativo/desinformativo, que querem golpear a Voz do Brasil, programa que (alcança)  enorme audiência, talvez o único a fornecer informações sem o crivo deformado do mercado para uma grande massa de brasileiros, em todos os grotões deste país, massa que é praticamente proibida da leitura de revistas e jornais." (Aqui).

PÁSCOA LOOK


Passofundo.

PÁSCOA AUSTERA


Amorim.