segunda-feira, 1 de maio de 2017

XADREZ DO DIA SEGUINTE, POR LUIS NASSIF


"Peça 1 - a fluidez dos movimentos políticos

O quadro politico evoluiu substancialmente nos últimos dias. De um lado, a greve geral, com a maior abrangência em décadas. De outro, os últimos movimentos em torno da Lava Jato, com o STF (Supremo Tribunal Federal) finalmente deliberando sobre a libertação de pessoas detidas com o objetivo de serem pressionadas a delatar. Finalmente, a Lava Jato entrando nas horas decisivas sem conseguir cumprir com seu objetivo maior, de levantar provas para sustentar as delações contra Lula.
Leve em conta que os movimentos políticos são fundamentalmente fluidos.
Em momentos de catarse, há um curto-circuito geral não apenas nas informações, mas no rumo dos ventos políticos.
Em relação a esses movimentos tectônicos, há duas espécies de personagens públicos: os radares e as birutas.
Radares são que se movem em torno de valores e, por isso mesmo, são as figuras referenciais que orientam o país, percebem os movimentos das ondas e permitem ao barco não perder o rumo, mesmo em meio à tempestade.
Birutas (de birutas de aeroporto) são os que seguem as ondas. Em momentos de vento brando, assumem uma determinada personalidade pública; em momentos de catarse, outra totalmente distinta, seguindo o que consideram os movimentos pontuais das marés.
Na história do país, mesmo no campo conservador estão consolidadas personalidades-radares como Sobral Pinto, Ulisses Guimarães, Paulo Brossard e o saudoso Mário Covas.
No grupo dos birutas de aeroportos, caminham para se transformar em personagens simbólicos os Ministros Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), e grupos de deputados e senadores.
Não se deve buscar previsibilidade em suas atuações, isto é, avaliar o que serão com base no que já foram. A análise deverá levar em conta a maneira como julgam que a situação política será, para, só aí, então, definirem o que serão.
Tudo isso torna extremamente complexo o desenho de cenários futuros.
Não é mais A + B + C = X, porque a mudança de A irá provocar alterações em B afetando o resultado em X.
Mas permite, por outro lado, conferir a devida relevância aos movimentos maiores de opinião pública, dos quais a greve geral da última sexta-feira foi um ponto de corte, atrapalhando o controle total do processo pelos donos do poder.
Antes, um pequeno diagnóstico do momento atual, à luz dos ensinamentos de Raymundo Faoro, o notável autor de “Os Donos do Poder”.
Peça 2 - o patrimonialismo, de Collor a Barroso
Desde que apresentou seu trabalho no evento da Universidade de Harvard – qualificando como ensaio uma leitura tosca de Raymundo Faoro – o Ministro Barroso tornou-se um bom exemplo de como a superficialidade analítica impede o autor de se enxergar no próprio desenho que ele está delineando em seu trabalho.
O trabalho de Barroso mencionou o “patrimonialismo”, de acordo com as definições de Raymundo Faoro.
É o mesmo Barroso que se tornou um defensor intransigente da nova ordem, da restauração que será comandada pelo Poder Judiciário, um modelo claramente englobado por Faoro no conceito de patrimonialismo.
Diz o inacreditável Barroso, o advogado das Organizações Globo, com seu peculiar entendimento do conceito de corrupção, e sua invejável capacidade de relacionar temas históricos:
Acho que estamos refundando o País. Assim como em 1808 [quando a família real portuguesa se mudou para o Rio de Janeiro] o Brasil começou, acho que estamos tentando refundar um País, ensinando as novas gerações que ser honesto é melhor do que ser desonesto. E que, se for desonesto, vai ter consequências negativas.
Barroso não tem a menor noção sobre os pontos em comum entre a vinda da família real portuguesa e o momento atual. O principal ponto em comum é a criação/fortalecimento de um estamento público que desenvolve e passa a controlar o Estado,  implantando definitivamente o predomínio da plutocracia sobre a Nação. Da mesma maneira que o Congresso definindo o desenho dos gastos públicos para os próximos 20 anos, independentemente do que decidirem as eleições.
O que diz Barroso, o patrimonialista, sobre a PEC 35, enfiada goela abaixo da sociedade por um governo provisório, empossado no bojo de um golpe parlamentar.
Desrespeitá-la significa predeterminar o futuro com déficits, inflação, juros altos, desemprego e todas as consequências negativas que dessas disfunções advêm. A democracia, a separação de Poderes e a proteção dos direitos fundamentais decorrem de escolhas orçamentárias transparentes e adequadamente justificadas, e não da realização de gastos superiores às possibilidades do Erário, que comprometem o futuro e cujos ônus recaem sobre as novas gerações
Vamos ver como Faoro analisaria o momento, baseado no trabalho “As reflexões de Raymundo Faoro sobre a transição política brasileira nos anos 1989 e 1990”, de Maria José de Rezende.
Não há definição melhor desse tipo de comportamento, do que a de Faoro sobre o início do governo Collor:
 “[...] a eternidade tem muitas encarnações, a do século passado e a de hoje” (FAORO, 1989f, p. 23). A do presente, ou seja, a da Nova República, reproduzia o estilo burocrático emoldurado na “[...] insensibilidade, dissimulada em termos técnicos, incompreensíveis [...]. O jogo não é inocente. Os interesses favorecidos [...] nada perdem e alguma coisa ganham.
Essa idéia de que podem tudo já expressa, certamente, uma mentalidade patrimonialista, para a qual não há limites políticos, éticos ou jurídicos para as suas ações. O despotismo impera. “E se a Constituição não permitir? Lixe-se a Constituição [...]
É o mesmo modelo de hoje:
Todas as ações daqueles agentes que se empenhavam em destruir o jogo democrático se mostravam completamente voltadas a esvaziar qualquer potencialidade da sociedade civil ao exaltarem medidas irracionais, magias e milagres. (...)
As mudanças políticas controladas pelos setores preponderantes, as quais se iam processando na denominada transição democrática, eram sempre de cima para baixo, reafirmando o seu caráter estamental; estavam sempre postas a serviço dos mesmos interesses.
Políticos e países subdesenvolvidos são faces de uma mesma moeda, já que se reafirmavam através de mudanças negociadas e conciliadas. A chamada Nova República (1985–1990) era o exemplo mais acabado disso.
Barroso não aprendeu uma lição magistral, que Faoro recebeu de Neemias Gueiros:
 Então, apareceu um velho advogado, um homem curtido em lutas políticas, que era o Neemias Gueiros, a quem transmiti minha insegurança. Ele me respondeu que haveria uma coisa em que eu sempre haveria de ganhar dos políticos: se eu me mantivesse sincero sempre.
Falou a Barroso a coerência para se firmar como referência. Como declarou o advogado e cientista político Victor Pimenta, “a decisão de Barroso em PEC 241 nos faz sentir saudades dos tempos em que ele era constitucionalista, ante a diferença abissal entre o “Barroso Professor de Direito Constitucional” e o “Barroso Ministro”.
Collor e o momento atual
O que está em andamento, hoje em dia, é um processo em tudo similar à aliança que gerou Fernando Collor. A descrição de Faoro sobre o governo Collor se aplica integralmente ao momento atual, mas passou desapercebido do nosso brasilianista de boutique.
Primeiro, a falsa visão de conferir desimportância ao Estado, ao mesmo tempo em que se apropriava dele:
Ações como as de Fernando Collor de Mello não sufocavam o patrimonialismo ao tentar agir como se o Estado não tivesse qualquer importância. O governo daquele último, num processo de rechaçamento do Estado, acabou por potencializar as ilusões de que um ente iluminado poderia tudo resolver mesmo passando por cima de qualquer compromisso com os ideais republicanos e democráticos. De fato, a exclusão social e política, a qual é a seiva que nutre a política patrimonial, continuava a correr nas veias da sociedade.
As apostas sucessivas do Poder em Marina, Dória, Bolsonaro repete, à perfeição, as apostas sucessivas em Quércia, Covas até bater em Collor, e as tentativas atuais de Aécio e Alckmin, até bater em Dória:
A transição procurou, (...) um caminho que convencesse mais em termos de centro. Abriu todas as oportunidades para Orestes Quércia, pois era ele o homem. De certa maneira, acenou também para que o nome fosse o de Mário Covas, mas não se chegou nem a um e nem a outro. Chegou-se a um que é inesperado, porém não indesejado dentro do projeto.
Assim como as semelhanças entre 1964, e o 1964 modernizado que se tenta hoje em dia:
Politicamente, 89 moderniza 64, com um instrumento tirado dentro do sistema, disciplinado pelo sistema, apoiado pelos financiadores que se fizeram dentro do sistema e apoiado pelos agentes que manipulam a opinião.
Em ambos os casos, há a necessidade da criação de um populista de direita:
E por que um sistema que se encontrava esgotado continuava ainda fazendo valer suas estratégias? O extenuamento do sistema podia ser detectado na necessidade de um candidato de direita, como Fernando Collor de Mello, apresentar-se como que ligado diretamente às massas. (...)  O sistema se renovava tanto com aquele que foi eleito diretamente em 1989 quanto com aquele que foi indiretamente eleito em 1984. O sistema se inovavao que não significava que ele havia entrado em colapso.
Faoro tirava lições definitivas sobre as instituições brasileiras, sob a pressão dos fatos:
A lição que o momento ensina tem o mérito de desvendar o miolo das instituições brasileiras, antes e depois da Carta de 1988. Elas podem ser resumidas em duas palavras: constitucionalismo de fachada e democracia falsificada e falsificadora.
A defesa do Estado de Exceção em nome do combate à corrupção, por Barroso, também foi claramente explicada por Faoro:
Estabelecia-se, no início de 1990, uma espécie de ditadura hipócrita. A hipocrisia estava no fato de ela negar a sua própria identidade, tentando mascarar um exercício obstinadamente abusivo da autoridade.
Faoro fez essa discussão em vista da prisão da família Temporal (empresários) por dívidas com o Fisco. Naquela ocasião, o governo Collor apresentava-se como aquele que jogaria duro com o empresariado. Restaurava-se, assim, a inconstitucional prisão administrativa.
Também se deu conta – ao contrário de seu débil intérprete – a sucessão de ilegalidades, que se segue à ilegalidade maior:
Desarticulou-se, de um golpe, toda a estrutura jurídica, para que medrasse, à sua ilharga, uma economia com regras próprias. A ilegalidade maior gerou, como necessariamente acontece, as ilegalidades menores, decorrentes daquela, existentes porque aquela existe.
A criação de figuras midiáticas para o jogo político é nítida no modelo Collor e no atual. Sempre se sonhou com os Collors, Dorias, Hulks e similares fabricados pela mídia:
Entre as diversas formas de precarização cotidiana da democracia e da cidadania, estava, por exemplo, o veto à “[...] Lei das Inelegibilidades que prolongou a desincompatibilização do pessoal da mídia. E por que era esse um ato que tinha um significado importante? Bastava ater-se ao fato de que o presidente Collor estava agindo para garantir que um número significativo de indivíduos chegasse ao Congresso Nacional em razão de suas imagens mediáticas. Em relação a ele próprio, a mídia havia tido um papel central na construção de uma imagem de vitorioso, de vencedor, de arrojado e de decididamente capaz de mudar o Brasil em favor dos “descamisados”, isto é, dos mais pobres.
Finalmente, aborda a importância do nascimento de uma nova direita, como condição fundamental para uma esquerda renovada:
O florescimento de uma nova direita era condição fundamental para que ocorresse, no Brasil, a constituição de uma esquerda que deveria renovar continuamente os procedimentos na vida pública brasileira. Se esta última continuasse tendo como adversária a velha direita, haveria uma tendência de petrificação de ações políticas que ficariam essencialmente no registro do modo de agir que se havia processado ao longo da história do país.
A contínua e íntima relação – através de alianças e de conciliações – da esquerda com a velha direita se constituía num fator de emperramento da democracia no Brasil. Reafirmavam-se, assim, de diversas maneiras, práticas e hábitos fundados na não transparência de atitudes e de ações. Uma vez no poder, através dessas alianças, se teria a continuidade e a manutenção do mesmo padrão de domínio baseado em privilégios estamentais.
Peça 3 - os efeitos políticos da greve
A extensão da greve joga novos fatos no jogo político. E explicita de vez o jogo entre a nova direita – um arco em que entra o BMF, a Procuradoria Geral da República, a camarilha de Temer e o PSDB – e a nova esquerda, que ainda não nasceu.
Uma greve ampla fez a reação contra Michel Temer e o Congresso transbordar dos movimentos sociais e sindicatos para outros setores, com adesão de 83 bispos da Igreja Católica, dezenas de colégios particulares de São Paulo, inúmeras igrejas evangélicas, artistas, intelectuais, praticamente toda a Justiça do Trabalho, funcionários e parte dos procuradores do Ministério Público e funcionários da Polícia Federal.
A greve expôs o racha nacional se alastrando por setores até agora à margem da disputa, e cravou na testa das reformas o estigma de antissocial. Coloca em curto-circuito todo o jogo de contrainformação da mídia. Somem-se as pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias, dando um placar massacrante contra as reformas, contra Michel Temer e a favor das eleições diretas, para se perceber o fracasso do golpe: a política se despiu do manto diáfano da fantasia.
No curto prazo, haverá uma ampliação das pressões sobre os políticos, judiciário e mídia, às vésperas de um ano eleitoral.
No médio prazo, a consolidação de uma frente ampla contra o modelo de país que o golpe tenta enfiar goela abaixo dos cidadãos e que agora está desnudado.
O castelo retórico criado pela mídia se esboroou, incluindo as ameaças terroristas, do suposto fim do país sem as reformas.
Peça 4 - o novo posicionamento do Supremo
Durante o processo do impeachment, o Supremo jamais foi desafiado a analisar o mérito, graças à não-estratégia jurídica do advogado José Eduardo Cardozo. Só recentemente, após o fato novo – da entrevista de Temer à Band admitindo o jogo político de Eduardo Cunha - resolveu representar junto ao Supremo com uma solicitação de liminar de mais de 400 páginas.
Na semana passada, no entanto, a 2ª Turma do STF ordenou o fim da prisão provisória de João Carlos Genu (ex-tesoureiro do PP) e de Eike Baptista. Votaram a favor da libertação os Ministro Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski; contra, Celso de Mello e Luiz Edson Fachin.
Antes disso, por razões humanitárias a 2a Turma ordenou a libertação do pecuarista José Carlos Bumlai. Votaram a favor Celso de Mello, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Edson Fachin e Ricardo Lewandowski votaram a favor da manutenção da prisão domiciliar –uma condição mais humana do que as prisões temporárias perenes.
Na 4feira será o julgamento do habeas corpus de José Dirceu, preso há meses sem julgamento de 2a instância. Quase certamente será ordenada a sua libertação, embora Dirceu continue respondendo à condenação da AP 470.
O que importa é que, finalmente, o STF ganhará coragem para revogar o mais absurdo instrumento de arbítrio desses tempos nebulosos: o uso da prisão preventiva como forma de pressão para obter a delação nos termos que o juiz e os procuradores querem.
De fato, há uma maioria sólida e não circunstancial na 2a Turma contra esse instrumento de arbítrio: Gilmar, por agora estar atingindo os seus; Toffolli por seguir Gilmar e Lewandowski por convicção garantista. Celso de Mello é um garantista com uma excepcionalidade: o PT. E Fachin é um neo-linha dura.
Agora, toda a pressão da Lava Jato sobre os delatores se concentrará no fator Lula.
Peça 5 - o adiamento do depoimento de Lula
Para adiar o depoimento de Lula do dia 3 para 10 de maio, o juiz Sérgio Moro alegou pedidos da Polícia Federal e da Secretaria de Segurança do Paraná. Mas o motivo central foi a falta de provas contra Lula.
Tanto assim, que a Lava Jato convocou reunião dos advogados da OAS para os dias 2 e 3 de maio, para discutir as delações da empresa. No dia 4, mais dois executivos, Roberto Moreira e Agenor Medeiros, ainda vão depor na ação que apura o tal "Tríplex do Guarujá".
Também se reuniu com advogados especializados em delação, como Antônio Figueiredo Basto, advogado de Alberto Youssef e Adriano Bretas. Os rumores é que estaria propenso a aceitar a delação de Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, que há mais de um ano tenta a delação. E também a de Antônio Palocci. Desde que versassem sobre Lula.
A última encenação, com o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, foi um tiro pela culatra. Léo entregou a encomenda pedida – a afirmação de que Lula seria o dono do tríplex, mas sem apresentar provas. A Força Tarefa reforçou com provas ridículas, comprovantes de que, durante um ano, um carro do Instituto Lula passou por duas vezes no pedágio de Guarujá. O que motivou gozações nas redes sociais: passe pelo pedágio e ganhe um apartamento.
Ocorre que o ciclo de acusações a Lula já entrou na fase correspondente à curva de Lafer na economia – conforme boa imagem da senadora Gleise Hofmann. A curva de Lafer mostra que, a partir de determinado nível de tributação, o efeito é negativo.
A Lava Jato entrou em uma enrascada onde, cada tentativa adicional de criminalizar Lula sem provas concretas, provoca um efeito inverso na sua popularidade.
Peça 6 - o imprevisível cenário futuro
Há nítidos sinais de que o monstro saiu do controle dos donos do poder.
A tentativa de fabricar um novo Collor, com João Dória, esbarra no amplo amadorismo do candidato. Na ânsia de explorar a radicalização contra Lula, vai gerando um personagem complicado, dono de uma retórica pobre, repetitiva e agressiva. É corredor de 50 metros.
Para falar para os MBLs da vida, assume uma retórica vagabunda (termo que faz parte do repertório dessa direita pedestre), incompatível com um homem de estado. A sucessão de grosserias, vai moldando – por baixo do macho alfa grosseiro – uma personalidade antipática, uma espécie de Aécio Neves com uma jovialidade de plástico – Dorian Gray? -, playboy mal-educado que choca a elite pela falta de modos e os populares, pelo excesso de arrogância.
No período Collor, o tempo político corria mais devagar e permitia uma construção lenta – e sob controle – da Globo. Nesses tempos de redes sociais, não existe mais esse controle.
Além disso, a mídia já havia sentido o desgaste de anos de jornalismo militante, de pós-verdade, de manipulação das informações. Nos últimos tempos, com dez anos de atraso, caiu a ficha que a única maneira de se diferenciar da miscelânea das redes sociais seria voltar a praticar um simulacro de jornalismo.
A recaída com a greve, porém, mostra que a síndrome do escorpião é invencível.
Entram em uma cilada complicada.
Se continuam a apostar no jogo da desinformação, aprofundarão o buraco em que se meteram. Se vacilam, há o fator Lula. E foi tão forte a radicalização política da mídia na última década, que a bandeira central da campanha de Lula certamente será o da regulação da mídia e do combate implacável à rede Globo.
Manter o jogo atual, portanto, é questão de sobrevivência para a Globo. O que significa que apostará todas suas fichas em Dória, ou em um pacto de ditadura com Bolsonaro ou abolindo as diretas. De qualquer modo, jogará todas suas fichas na condenação de Lula e sua inabilitação para 2018."



(De Luis Nassif, jornalista e analista político, post intitulado "Xadrez do dia seguinte da greve geral", publicado no Jornal GGN, de que é titular - AQUI.
De fato, a imprevisibilidade do cenário futuro é patente. Evoca a cena há 'n' anos descrita pela raposa mineira e banqueiro Magalhães Pinto: "...em determinado momento, as nuvens do céu formam uma paisagem; no momento seguinte, muda tudo!").

DIA MUNDIAL DO TRABALHO 2017


Mariano.

DIA MUNDIAL DO TRABALHO 2017


Jarbas.

DIA MUNDIAL DO TRABALHO 2017


Elvis.

A MARCA DE BELCHIOR


Duke.

A SEGUNDA MORTE DE MÁRIO DE ANDRADE


A segunda morte de Mário de Andrade

Por Lira Neto

Muita gente fez cara de nojo. Como as autoridades permitiriam tamanho disparate? De quem teria partido a ideia de profanar o palco do Theatro Municipal de São Paulo -templo sagrado da cultura erudita, símbolo dos anseios cosmopolitas da mais alta sociedade paulistana-, permitindo a apresentação de um reles sambista, animador de gafieiras e cabarés do Rio de Janeiro?

Choveram protestos contra a presumida infâmia. José Barbosa da Silva, o Sinhô, coroado Rei do Samba pela imprensa carioca, iria protagonizar, de violão em punho, noitada musical em uma das principais casas de espetáculos do país, construção luxuosíssima, inspirada na Ópera de Paris e erigida com recursos provenientes das algibeiras dos barões do café.

Era maio de 1929. Enquanto a aristocracia e setores da intelectualidade conservadora esbravejavam, o escritor modernista Mário de Andrade, na coluna "Táxi", no "Diário Nacional", sentenciava, com a autoridade de agudo estudioso dos saberes populares: "Sinhô é poeta e músico".

Para o autor de "Pauliceia Desvairada", Sinhô detinha "aquele riso de experiência divertida, aquela leveza de borboleta, ingenuidade originalíssima, esperteza defensiva que só mesmo os índios, as crianças e os cariocas possuem".

Para os que julgavam o samba e a arte de Sinhô elementos de um vulgarismo e banalidade sem par, Mário contrapunha: "Vulgaridades e banalidades apenas para os indivíduos que não sabem reaprender, todos os dias, certos fenômenos, certas reações essenciais diante do amor, da pândega e da sociedade". E arrematava: "Mas nisso quem tem culpa não é Sinhô, não é o índio, não é a criança, não é o carioca. É o que se supõe culto".

Impossível não lembrar de Mário quando se lê a entrevista concedida, há poucos dias, por Charles Cosac a esta Folha. Empossado como novo diretor da maior biblioteca pública de São Paulo -batizada justamente com o nome do autor de "Macunaíma"-, Cosac anunciou que irá extinguir o projeto Samba na Varanda, cuja programação ocorria no terraço da Biblioteca Mário de Andrade, sempre com rodas temáticas: samba e religiosidades da diáspora africana, samba e consciência negra, samba e resistência simbólica. "Cortei", afirmou o diretor. "Já basta o samba do boteco ao lado."

Para o homem que está no comando da biblioteca fundada em 1925 e que desde 1960 passou a se chamar Mário de Andrade, lugar de samba -e de sambista- é no boteco.
Jamais no recinto de uma instituição cultural. "Não aguento duas rodas de samba", explica-se Cosac. A justificativa denota não apenas um elitismo que recende ao bolor beletrista anterior à Semana de Arte Moderna de 1922 mas também o desconhecimento do que seja a função de um gestor público na área da cultura. O samba nos botecos do centro de São Paulo, espaço de sociabilidade que já faz parte indissolúvel do cotidiano dos paulistanos, não "compete" com o trabalho pedagógico e reflexivo que vinha sendo desenvolvido pela biblioteca com base nas sonoridades das culturas populares.

O que mais espanta é tais declarações terem partido de um ex-editor que, à frente da Cosac Naify, publicava extraordinária série de livros de antropologia que desafiavam o etnocentrismo da razão ocidental. Nela, figuravam autores como Lévi-Strauss, Eduardo Viveiros de Castro, Pierre Clastres, Marcel Mauss e Roy Wagner, entre outros. "É claro que tenho minhas preferências musicais, mas elas não estão sendo impostas", emenda Cosac, piorando o soneto. "Senão eu não botava chorinho, eu odeio chorinho."

Quem também parece detestar chorinho é André Sturm, secretário municipal de Cultura. Ele acaba de despejar o Clube do Choro de sua sede, o teatro Arthur de Azevedo, na Mooca. O secretário, em entrevista ao "Estado de S. Paulo", afirmou que "chorinho não é meta" e o Clube do Choro "não tem história".

Talvez não saiba que os chorões paulistas, reunidos em torno da associação que agora foi parar no olho da rua, faziam precioso trabalho de formação de plateia e de descoberta de jovens talentos musicais da periferia, dando prosseguimento a uma dinastia de grandes virtuoses que remontam ao pioneirismo dos geniais Aimoré, Armandinho, Canhoto e Garoto.

Resta-nos, quando menos, evocar Mário de Andrade e os versos de "Paisagem Nº 1", um dos poemas de "Pauliceia Desvairada": "Meu coração sente-se muito triste/ Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas/ Dialoga um lamento com o vento". 

(Fonte: Folha de São Paulo; reproduzido no Jornal GGN - AQUI).

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(João de Lira Cavalcante Neto - Fortaleza, 1963 - é jornalista e escritor especializado em biografias. Ganhador do prêmio Jabuti em 2007, é autor da trilogia 'Getúlio' e 'Uma História do Samba', entre outros).

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Atribuem a Vinícius de Moraes o desabafo "São Paulo é o túmulo do Samba". Ao que consta, o Samba passaria a contar com a companhia do Choro. Mas algo nos diz que, a despeito da tacanhice oficial, o Samba e o Choro continuam cativando corações em Sampa.

D, DE DEPRESSÃO


Duke.

CURSINHOS JURÍDICOS: RESUMOS, TEORIA DA GRAXA E OUTROS PARANGOLÊS


A concursocracia, a Teoria da Graxa e os testículos despedaçados

Por Lenio Luiz Streck

Estava escrevendo uma coluna sobre o professor de cursinho autodenominado “O mascarado do direito maceteado” (ver aqui esse vídeo do fim do mundo), quando me deparei com o episódio do concurso do Ministério Público de Minas Gerais que indagou acerca da teoria da graxa. Resolvi parar as máquinas para escrever sobre isso.

Tenho denunciado esse estado de coisas há mais de 25 anos. Quando a maioria dos concurseiros nasceu, eu já escrevia sobre esse assunto. Os leitores sabem de minhas denúncias sobre questões de concurso tipo Caio quer matar Tício com veneno; só usa meia dose; Mévio, sem Caio saber, também quer matar Tício; incompetente, também só usa meia dose. Duas meias doses dão uma inteira. Caio morre. Qual é a solução? Ou Caio está pendurado à beira do precipício. Vai cair. Ticio pisa nos seus dedos... Uau. Ou Caio vai para o meio do mato e se fantasia de veado (cervo). Ticio, indo caçar, vê a galhada e atira. Bingo.
Eis a explicação “jenial” sobre erro de tipo. Sem contar a pergunta sobre os gêmeos xifópagos; um dá uma facada no outro... Eu dizia, então: na minha rua tem vários xifópagos. Eles andam armados. Perigosos... Ah: lembram-se da ladra Jane, que furtou um carro em Cuiabá? (ler aqui)

E assim foi se forjando um imaginário de ficções. Decorebas, pegadinhas, quiz shows. Locus para o surgimento de professores que querem facilitar tudo. Cantam. Choram. Vestem-se de mulher. Põem máscaras. E escrevem plastificações. Direitos mastigados. Forma-se, como no medievo, uma enorme indústria em torno dos castelos. Bem lucrativo. Vejam a indústria de apostilas, por exemplo (aqui).

Pois o concurso do MP-MG indagou, agora, sobre a “teoria” da graxa. Claro, tratava da corrupção. Mesmo que em outros campos haja menções a esse tipo de fenômeno de “vícios privados, benefícios públicos” (essa é a tese liberal do Barão de Mandeville que está ou deveria estar por trás da tal teoria — sic — da graxa — e olha que já escrevi muitíssimo sobre a tese do Barão), não me parece que a importação jabuticaba para um concurso tenha alguma sustentabilidade, a não ser como pegadinha. Alguém dirá: mas é só esta pergunta entre tantas e o professor Lenio pegou esta. Respondo: primeiro, não vi as outras (vejam o Post scriptum); segundo, esta já é suficiente para, simbolicamente, mostrar o estado da arte.

Consta que a teoria da graxa é o contraponto da “bola de neve” e o estado Vampiro (sic). Ok. E daí? Mas isso é no campo da economia. Como trazer isso para o Direito e que importância teria? Dá uma monografia ou TCC? Quem sabe. Mas uma questão de concurso? Como adequar isso ao edital? Wagner Frascesco fez um belo texto sobre o assunto. No Facebook, Aury Lopes também fez belas críticas, inclusive falando de uma “teoria” que eu não conhecia: a teoria dos testículos despedaçados (balls brocken). Não resisto em dizer: isso é um pé no saco.

Sigo. As redes sociais espinafraram a prova e a pergunta. Por todos, cito Rogerio Sanches, Guilherme Madeira e Aury (os três aqui). E uma estudante levantou a lebre. Consta que a questão somente foi feita porque ela só foi abordada no curso do Damásio Niterói. Logo, quem não frequentou o curso, danou-se. A banca vai ter de se explicar. Ou não... Seria um estamentalismo concurseiro? O concurso também cobra sobre o “Estado Vampiro”. Sem comentários. Cá para nós: um agente político do Estado (no caso membro do ministério público), que receberá salário de mais de 25 mil, estudar por apostilas e resumões (para dizer o menos) e ser inquirido acerca de “teorias” como da graxa, etc? O Brasil não pode mais do que isso? Bom, as perguntas acabam atendendo a esse tipo de mercado. É o que parece, pois não? Depois nos queixamos...!

Dias desses o advogado e mestrando Jeferson Gomes ouviu, no aeroporto de Curitiba, um grupo de concursandos para juiz federal falando que os cursos preparatórios — que eles frequenta(ra)m — ensinam que acordo de "doçura" ou "brandura" nada mais é que o acordo de leniência (mas por que então essa nomenclatura ridícula !?). Daí até a teoria da graxa e outros parangolês é só um pulo.

Até que ponto chegamos? Mas já não bastam resumos; eles já são considerados longos; houve uma adaptação darwiniana e alguém teve a ideia de fazer o resumo do resumo ou o “resumão” jurídico plastificado. Ou “focanoresumo”, como fez uma moça (não sei se foca é verbo ou animal). Daí a explosão do mercado para livros facilitados, plastificados, mastigados, tuitados, esquadrinhados e outras coisas desse jaez. Publica-se tudo às pressas: um livro esquematizado de processo datado de 2017 falando do novo Código de Processo Civil ainda fala em processo cautelar... (deveria falar em tutela cautelar). Há livros que comentam o CPC com base no de 1973. No caso, a pressa é amiga das vendas. E dá muitos likes no Face. “Monstro”, alguns postam. Bom para concurso.

Pensando bem, no fundo esse tipo de literatura jurídica e perguntas em concursos públicos (lato sensu) colabora para a transformação do Direito em pegadinhas e outros quejandos. Algo como “você pode aprender a ser tolo”. Há um trabalho feito por professores norte-americanos e alemães (Shimer University e Scheißwald Universität) intitulado Ignorance can be science: you can learn to be dumb. Algo como Ignorância pode ser ciência — você pode aprender a ser burro. Vai virar best seller.

Hoje existe até fitness jurídico (ver aqui). Coaching também está na moda (ver aqui). Há professores que põem mascara tipo 50 tons de cinza para vender seu peixe (ver aqui de novo). Tem até sushi-aula de direito administrativo e gramática — com dois teachers sushi mans (aqui). E simplificações como esta. E mais esta, a do Imperador (veja aqui). Impressionante.

Fui aluno de Warat já em 1983. Ele já denunciava tudo isso. Falava da praga dos discursos prêt-à-porters (e eu acrescentei: prêt-à-penser e prêt-à-parler). No que transformamos o ensino jurídico? E os cursinhos? E os protocursinhos? E a produção da concursaria? A resumocracia venceu. Ou enfrentamos isso de frente ou devemos desistir e nos conformarmos com o império do standard.

Não tenho muito a dizer, depois do que já escrevi e falei nestas décadas recentes. Apenas para dizer que, enquanto o Brasil está ardendo, concursos para ingresso em carreira jurídica do quilate da magistratura e do Ministério Público perguntam coisas como se leniência é doçura e sobre a teoria da graxa.

Bom, de todo modo, parece que o sinal foi dado. O apocalipse chegou. Só não sei onde será travado o Armagedom. Meu bunker está pronto.

Post scriptum: A propósito, o gabarito está errado na questão 2. A alternativa “b” está errada, mas a “d” também. Por qual razão a teoria estruturante permite a diferenciação entre neoconstitucionalismo e pós-positivismo? Poxa, existem vários neoconstitucionalismos. A maioria se diz pós-positivista. Ou todos. O principal livro que lançou essa ideia por aqui tem um “esse” entre parênteses no final da palavra “neoconstitucionalismo(s)”. Mas como é possível afirmar isso deste modo em uma prova objetiva? Pergunto: O que a questão quer dizer — se entendi — é que, lendo Müller, saberei distinguir neoconstitucionalismo de pós-positivismo? Aliás, é duvidoso dizer que neoconstitucionalismo é, efetivamente, uma postura pós-positivista. E qual pós-positivismo? E qual o positivismo que o neoconstitucionalismo superaria? Existem no mínimo dez tipos ou correntes positivistas. A alternativa é nula. Só se salva com muito esforço, dizendo que a “b” é mais incorreta que a “d”.

Ainda: a alternativa “c” também é errada: “âmbito normativo” não é o próprio objeto, envolvendo exatamente elementos concretos? Âmbito normativo não seria a Normbereich? De onde saiu o “dados não linguísticos”? Existiriam coisas sem nome? Coisas sem “sentido” (que sempre são linguísticos)? Os fatos seriam elementos “não linguísticos”? Sim, sei que a norma não se reduz aos dados linguísticos (esse é o busílis da tese de Müller), porque também contém os dados da realidade. Mas como essa realidade ou dados reais são expressos? Ao que sei, Normbereich é o resultado da aplicação da Normprogram ao conjunto de fatos (Sachverhalt). Mas, sabe-se lá o que o arguidor pretendeu. Poderia falar, ainda, da questão da “problematização” de que fala a alternativa “c”. Mas, deixemos assim. O mundo dos concursos cria uma linguagem própria.

Ainda: na questão 8, a alternativa “c” é incorreta... OK. Mas a “d” também. De qual proporcionalidade o concurso fala? Se é a de Alexy, parece que não tem muito a ver. Proporcionalidade em Alexy não é um princípio, mas uma máxima — a máxima da proporcionalidade (Verhältnismäßigkeitsgrundsatz), que é o critério para avaliar a colisão entre princípios, subdividido em três submáximas. Além disso, em sua Teoria dos Princípios, não há qualquer referência à “finalidade legítima” como preceito relacionado à noção de proporcionalidade. Se não se trata da “proporcionalidade” no sentido utilizado por Alexy, a questão deveria ter assim explicitado. Não existe um conceito “fundamental” ou “universal” de “proporcionalidade”. Proporcionalidade se transformou em um enunciado performativo. A questão é objetiva e não pode deixar esse tipo de dúvida. Tem-se a impressão que o enunciado constante na alternativa “d” foi produto de um recorta e cola de algum julgado STF. Se sim, deveria estar contextualizado. Proporcionalidade é algo complexo e demanda definições prévias. Mas, de novo, o mundo dos concursos cria linguagens próprias...
Há muito mais. Mas a coluna não cuida de revisar provas de concursos. Mas uma boa filtragem daria outra cara à prova. 
(Fonte: Consultor Jurídico - AQUI -, com reprodução no Jornal GGN - aqui).

ILUSTRAÇÕES DE BELCHIOR E MINO




Belchior e Mino, do Ceará.
Revista Homem, anos 70.