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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

O DILEMA DO DILEMA DAS REDES: A INTERNET É O ÓPIO DO POVO

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Por Mauro Iasi

O dilema do documentário O dilema das redes (2020) é muito comum em documentários deste tipo. Nos apresentam uma série de dados, fatos e denúncias – todos muito preocupantes – mas lhes faltam categorias de análise para compreender a questão que denunciam. Podemos ver tal problema em bons documentários, como Uma verdade inconveniente (dirigido por Davis Guggenheim e apresentado por Al Gore, 2006) ou mesmo no brasileiro Democracia em vertigem (dir. Petra Costa, 2019). 

Antes de tudo é preciso dizer que um bom documentário pode contribuir com uma denúncia ou registro histórico – e isso já é bastante importante. Portanto, não se trata de desmerecer a função ou a qualidade do filme. Nosso ponto é que ficamos com uma inevitável certa sensação de espanto: “nossa vejam só o que tem por trás de nosso simples lanche nesta rede de fastfood”, “nossa, estamos destruindo a natureza”, ou, “quem diria, não sabia que na Segunda Guerra Mundial os comunistas foram decisivos para derrotar o nazismo”, ou ainda, “puxa vida, comprei um conjunto completo de pesca e odeio pescar!” Um bom exemplo disso é o documentário Sicko: SOS Saúde (2008), do excelente Michael Moore, que depois de expor um grande e preciso painel sobre diferentes tipos de sistemas públicos de saúde comparados à tragédia estadunidense, termina concluindo que os EUA são um exemplo de princípios para o mundo.

No caso particular de O dilema das redes ocorre o mesmo. É, sem dúvida, muito importante a denúncia vinda de empresários do setor, que lucraram muito criando as empresas digitais que monopolizam as redes, a revelação de seu funcionamento e a denúncia sobre os preocupantes efeitos sobre as pessoas e sua perniciosa influência em processos políticos. Uma espécie de crise de consciência bem-vinda e algumas informações muito relevantes. Mas o que nos chama a atenção é que os envolvidos, via de regra, parecem não entender exatamente no que estão envolvidos como protagonistas. E isso acaba desaguando na aparente ingenuidade das propostas para enfrentar o problema.

Podemos resumir esse horizonte das propostas em duas direções, que ao meu ver se aproximam na mesma incompreensão. A saber: submeter as grandes corporações digitais à algum tipo de controle, ou boicotá-las e se retirar das redes.

Então, vamos lá. O primeiro aspecto a ressaltar é que a crise ética dos protagonistas é fundada na premissa que acreditavam estar fazendo algo inovador e profundamente positivo, quando se viram envolvidos em interesses e direções profundamente manipulatórios. Aqui se reapresenta uma conhecida dimensão sobre o uso da tecnologia, que em si mesma seria neutra, podendo portanto ser usada igualmente para o bem ou para o mal. A operação desloca, assim, o problema para a dimensão ética. Todos estavam empenhados em desenvolver uma “ferramenta” (o termo é importante, como veremos) que seria capaz de integrar as pessoas – encontrar parentes e amigos distantes, transpor barreiras permitindo a manifestação de emoções ou preocupações por meio de mensagens, vídeos e outros meios etc. – mas se viram enredados numa rede cuja finalidade era prender a atenção e servir de plataforma de marketing.

Uma das entrevistadas, Cath O’neil (PhD em ciências da informação), resume os interesses da seguinte maneira: “algoritmos são opiniões embutidas em códigos” que buscam certo objetivo “por interesse comercial, normalmente é por lucro”. Essa porém não é propriamente a surpresa dos envolvidos, uma vez que todos sabiam que se tratavam de empresas que visavam lucro – sua consciência imediata simplesmente racionalizava de uma forma muito conhecida, a saber: “tudo bem que eles queiram lucros desde que alcancem fazendo algo bom para todos”. É evidente que são empresas – portanto, não são exatamente “ferramentas” –, empresas que querem lucros e que os conseguem numa dimensão assombrosa. E é aqui que a discussão fica interessante: o que vendem, qual é o produto?

A resposta do documentário é simples: nós. De forma correta o documentário afasta a resposta simples que o produto seja a venda dos dados capturados pelas plataformas digitais, ainda que este seja um subproduto possível. Ao que parece, contudo, as empresas funcionam, trocando em miúdos, prendendo a atenção do usuário para que assim, através de algoritmos, possa mapear comportamentos e padrões que sirvam para dirigir a oferta de produtos com um grau alto de certeza de consumo. Um dos entrevistados resume exatamente assim: o produto vendido é “certeza”.

Aqui, também, não chegamos ainda no cerne da surpresa, nem no âmago do dilema ético. Todos ali eram protagonistas de empresas que, segundo imaginavam, prestava um serviço relevante e inovador e que precisavam se financiar, ou nos termos de Tim Kendall (ex-executivo do Facebook), “monetizar” as atividades, como vimos, para ter lucros. O problema parece ser que ao buscar esses objetivos, as redes passaram a fazer algo além do que simplesmente mapear comportamentos e perfis: passaram a ativamente interferir e induzir comportamentos numa determinada direção – daí a dimensão de manipulação e o dilema ético envolvido.

A primeira questão (que como veremos fica em grande medida sem resposta terminado o filme) é a seguinte: por que prevaleceu a intenção da manipulação sobre as boas intenções de seus criadores? Digo em grande medida pois no fundo há uma resposta. Para os criadores do documentário, os algoritmos uma vez criados passam a funcionar sem a interferência direta de seus criadores e executores, algo próximo da chamada inteligência artificial ou educação de máquina. Os entrevistados chegam a firmar que a grande maioria dos envolvidos não têm ideia de como realmente funcionam os programas que eles instalam e desenvolvem.

Veja, para nós que nos servimos de categorias da crítica da economia política, não podemos deixar de olhar com certa condescendência para pessoas extremamente inteligentes e competentes em suas áreas que desconhecem por completo alguns elementos fundantes do mundo em que vivem. Precisaríamos começar pela afirmação que estamos todos inseridos numa divisão sociotécnica do trabalho, uma divisão na qual prevalece a fragmentação de funções especializadas e a cooperação do trabalho, de forma que o produto total resulta da incidência de vários trabalhos particulares e que foge a compreensão dos sujeitos envolvidos. Isso para não falar em algo constitutivo do mundo das mercadorias, levados ao máximo sobre o capital, que é o fetichismo da mercadoria e sua inevitável correspondente na reificação.

O documentário assim nos comunica, em tons alarmantes de denúncia, que os seres humanos assumiram a forma de mercadorias, se coisificaram! Neste momento, um alemão barbudo, com cabelos desengrenados, levanta os olhos em meados do século XIX de um manuscrito escrito com pena e tinta e diz: “Du weißt nichts, unschuldig” (mais ou menos: “sabe nada inocente”).

Voltemos à constatação central: somos o produto, aprisionada nossa atenção através de métodos neurolinguísticos mais avançados, computados os dados por poderosos computadores e algoritmos sofisticados que resultam no mapeamento e indução de perfis e comportamentos para dirigir com alto grau de certeza os produtos a serem anunciados.

O grau de tecnologia envolvido é assustador. Um dos dados apresentados pelo product manager da poderosa NVIDIA é que de 1960 pra cá o poder de processamento aumentou em um trilhão de vezes. Podemos imaginar os custos envolvidos. Daí a questão central: quem paga? Nós, os produtos, não pagamos pelo suposto serviço de aprisionar nossa atenção. As empresas ganham muito dinheiro, a Google teve um faturamento de 29,3 bilhões de dólares em 2010 e o Facebook cerca de 11,4 bilhões em 2018. Portanto, alguém pagou.

Há um sujeito oculto nessa trama. Mas, para trazê-lo à luz temos que afastar inicialmente um ruído. Essas montanhas de lucro acumulados por estas empresas (Google, Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Tik Tok, Pinterest, LinkedIn, etc.) não são gerados por elas. Aqui a categoria da crítica da economia política central é a de valor. Qualquer um que queira entender nosso mundo sem a categoria de valor se assemelha a um navegador que se aventurou em mares tenebrosos desprovido de um bússola.

Por mais sofisticados que sejam os empreendimentos, por mais que os seus protagonistas, jovens que acumularam fortunas em tenra idade que somados todos nós juntos não acumularíamos no espaço de uma vida (notem um certo ressentimento de um funcionário público prestes a se aposentar), se mostrem espantados e desconcertados eticamente, as empresas citadas são uma manifestação moderna e inovadora de uma empresa publicitária – mas precisamente, uma empresa utilizada por empresas publicitárias para veicular anúncios. As empresas publicitarias costumavam ter departamentos inteiros de pesquisa que procuravam os famosos “nichos de mercado” e depois pensavam em veículos nos quais comunicar a mensagem do produto (jornal impresso, revista, rádio, outdoor, televisão, etc.). Qualquer um do mundo da propaganda sabe que não adianta anunciar remédios contra a impotência no horário em que criancinhas estão assistindo desenho animado ou brinquedinhos de encaixar para velhinhos assistindo telenovela. O princípio é o mesmo: prender nossa atenção com desenhos, novelas, noticiários e empurrar mercadorias.

No velho mundo da propaganda também tinha manipulação, indução de comportamento, modelagem de valores, criação de necessidades e tudo o mais. Toda as reflexões sobre indústria cultural da Escola de Frankfurt e a tese lukácsiana sobre a manipulação, são anteriores ao boom dos computadores e das redes. Evidente que alcançamos uma dimensão maior, mas o princípio envolvido parece-me o mesmo.

Considerada por este ângulo, estamos falando da esfera da circulação, mais precisamente do problema da realização do valor. O capital é em sua totalidade “unidade do processo de produção e do processo de circulação; o processo de produção torna-se mediador do processo de circulação e vice-versa” (O capital, Livro II, p. 179). O capitalista começa comprando determinadas mercadorias (um ato de compra, circulação), organiza um processo de produção e termina vendendo uma nova mercadoria (novamente a circulação). O processo de valorização se dá no consumo da força de trabalho, que é a única mercadoria capaz de gerar mais valor que seu próprio valor, um valor a mais, mais-valor ou mais-valia. Todavia esse mais-valor está preso inevitavelmente no corpo de uma mercadoria e precisa se reconverter à forma dinheiro, ou seja, realizar-se. É somente na circulação, na venda da mercadoria que o mais-valor se realiza, ainda que só possa surgir com valor a mais no processo de produção. Quem vê as fortunas no setor se espanta, mas elas não surgiram ali, assim como as crianças aparecem no mundo nas maternidades, mas não foram geradas nelas.

Compreendendo desta maneira, a circulação não gera valor novo, ajuda a realizar a mais valia gerada na esfera da produção e se apropria de parte dela. Os bilhões que aparecem na conta das empresas digitais deriva de um lucro comercial, mas não da produção de novo valor, são parte, portanto, do caráter parasitário do capitalismo plenamente desenvolvido. Isto não quer dizer, de forma nenhuma, que estas empresas não sejam necessárias à dinâmica do capital monopolista, pelo contrário.

Outro ponto essencial que escapa à compreensão dos jovens gênios da internet é o motivo de grandes monopólios industriais desviarem fortunas para estas empresas. Muito preocupados em definir um certo “capitalismo de vigilância”, as pessoas talvez deviam se preocupar em entender primeiro o que é “capitalismo”. Então vamos lá.

O capitalismo altamente desenvolvido, portanto, concentrado e centralizado em grandes empresas monopólicas, tende a desenvolver cada vez mais a produtividade do trabalho e, portanto, alterar a proporção entre os fatores que compõe o capital, a chamada composição orgânica. Cada vez mais há um investimento em meios de produção, tecnologia e outros elementos do capital constante, proporcionalmente ao que é investido em capital variável, isto é, força de trabalho. Daí deriva uma tendência à queda nas taxas de lucro e que está na raiz das crises do capital.

Os capitalistas precisam realizar cada vez mais uma massa maior de lucro, com taxas de lucro cada vez menores. Daí que uma das contradições mais preocupantes do capital em seu processo de valorização é o tempo entre a produção e a realização do valor, o momento em que o capital se encontra na crisálida antes de voar novamente como capital dinheiro em busca de novo ciclo de valorização.

Neste momento delicado do processo, diz Marx: “os artistas da circulação, que se imaginam capazes de fazer, por meio da velocidade da circulação, algo mais que reduzir os impedimentos postos pelo próprio capital à sua reprodução, estão num beco sem saída” (Grundisse, p. 450).

O ritmo e o volume da produção dependem do desenvolvimento tecnológico e da potencialização do trabalho, mas o tempo da realização depende de outros fatores, como a capacidade de consumo da sociedade, fatores como renda, logística de distribuição, concorrência, hábitos, quem o imbecil que se encontra na presidência, etc. Desde sempre o capital buscou controlar a esfera da realização, daí o desenvolvimento do segmento publicitário entre outros. A primeira empresa publicitária surgiu em 1841, em Boston, criadas por Volney Palmer que cobrava módicos 25% para anunciar os produtos (informação que encontrei graças ao Google).

Ocorre que o capitalismo plenamente desenvolvido tornou esta batalha pela realização algo mais complexo e gigantesco. Os monopólios estão dispostos a desembolsar fortunas, contratos que chegam a cifras de bilhões de dólares, para manter a massa de lucro em níveis aceitáveis.

A verdadeira dimensão ética do processo, um pouco distinta da crise de consciência de empresários nerds, é que o capitalismo subordinou toda a humanidade e o planeta ao processo de valorização e para mantê-lo está disposto a manipular comportamentos e hábitos, explorar brutalmente populações inteiras, principalmente crianças e mulheres, dilapidar os recursos naturais colocando em risco o planeta e a vida humana, impondo milhares de quinquilharias que satisfazem duvidosamente certas necessidades em grande parte criadas, além de continuar derrubando governos e fraudando eleições. O dilema particular das redes é apenas, neste cenário maior, um coadjuvante importante, mas está longe de ser o personagem principal da trama.

Daí a aparente ingenuidade das soluções propostas. A tentativa de controle, via regulamentações e marcos jurídicos é a vã ilusão de regularizar o processo de valorização por parâmetros éticos. Lembremos aqui a perfeita formulação de Mészáros que define tais ilusões como a tentativa de controle de um socio metabolismo incontrolável. O capital sobreacumulado, do alto de uma capacidade monumental de produção em massa, exige meios de realização à altura desta dimensão. Se isso envolver manipulação em massa, não há problema. O capitalismo é muito bom, mas podíamos ter evitado a escravidão, sei lá, talvez com regulamentações mais severas. Já antecipo o debate sobre o limite da manipulação, como induzir as compras de novo modelo de smartphone sem ferir a liberdade de escolha de quem prefere pombos-correio, além do sagrado direito de ir e vir do shopping center ou do pet shop.

O grande incômodo dos protagonistas entrevistados é a manipulação. Então, imaginam salvar a parte do negócio e dos “benefícios” para os usuários e regular o risco da manipulação que pode ameaçar a sociedade democrática e o mundo livre. Tanto o negócio, como os usuários precisam de um mundo fundado em indivíduos livres. O capital também. A ideologia é tão descarada que os realizadores não podem se quer atribuir a manipulação a uma evidente adesão no espectro político. A manipulação, as fake news, o desvirtuamento de comportamentos políticos, a radicalização, não são ligados à extrema direita, mas ao “extremo centro”. Seria cômico se não fosse trágico. O documentário, do ponto de vista político, é o real “extremismo de centro”.

Como alternativa resta o boicote, sair das redes, como professa o simpático nerd rastafári, Jaron Lanier. Esta é uma ilusão recorrente e típica de segmentos médios. Apesar de aparentemente radical ela é a aceitação de uma premissa falsa, qual seja, que o consumidor é o centro e o principal sujeito do ato econômico. Se entendemos que o problema reside na forma capitalista da mercadoria, consequentemente da alienação do trabalho elevado ao máximo, da subsunção da vida ao processo de valorização do valor, teríamos que boicotar não apenas as redes, mas os supermercados, a televisão, nossas roupas, alimentos, porque tudo, absolutamente tudo foi capturado pela mercadoria e pela lógica do capital. O capital e suas mercadorias precisam das necessidades humanas para parasitar em seus constantes ciclos de valorização. Marx constatou isso de forma peremptória ao afirmar que não há valor de troca sem valor de uso.

O que escapa a esses senhores e senhoras e sua saudável crise ética, é que podemos – e devemos – eliminar o valor de troca como forma de expressão do valor, sem com isso precisar abandonar o valor de uso. Deixemos as redes sociais por um momento. Posso gostar de tomar uma taça de vinho e quando ela se apresenta como mercadoria, preciso pagar o equivalente monetário de seu valor de troca para ter acesso a seu valor de uso. Mas como sou um comunista – consciente do fato de que as viniculturas são empresas que só objetivam o lucro e não minha felicidade – resolvo então me tornar abstêmio!

Resta saber se as redes têm outro valor de uso além do expresso como meio de captura de atenção e plataforma de publicidade dirigida. Me parece que sim.

Uma outra solução seria transformar os produtos do trabalho humano em objetos que satisfação necessidades humanas, produzidos na superação da escravizante subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho, inclusive e principalmente a divisão entre trabalho intelectual e manual, de maneira que os indivíduos se desenvolvam em todos os sentidos, trabalhando de acordo com sua capacidade e recebendo de acordo com sua necessidade. Se você não sabe do que isso se trata, dê uma procurada no Google sobre o que é o comunismo. Como suspeito que você não vá encontrar lá a resposta, sugiro que você comece a comprar livros sobre o assunto. A leitura atenta destes teria, por exemplo, ajudado muito os entrevistados no documentário a entender o dilema em que se encontram.  -  (Fonte: Carta Maior - Aqui).

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(Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. 
*Publicado originalmente no Blog da Boitempo).

segunda-feira, 29 de junho de 2020

'DEMOCRACIA EM VERTIGEM', DE PETRA COSTA, VENCE OS PRÊMIOS PLATINO 2020


O magnífico Democracia em Vertigem, de Petra Costa, ganhou nesta segunda-feira 29/VI o troféu de melhor documentário nos Prêmios Platino Xcaret de Cinema Ibero-Americano.
O filme, que narra os bastidores do golpe de Estado que depôs a presidenta Dilma Rousseff, foi lançado pelo Netflix em junho de 2019.
A premiação está em sua sétima edição e destaca a produção ibero-americana. A cerimônia seria realizada em Riviera Maya, no México, mas foi transmitida via internet devido à pandemia do novo coronavírus.
A obra de Petra Costa, que também dirigiu os premiados Elena (2012) e Olmo e a Gaivota (2014), já havia sido indicada ao Oscar 2020 na categoria de melhor documentário.  -  (Aqui).

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Nota deste Blog:
No ano passado, além do Oscar, o documentário fez bonito no  prêmio Cinema Mundial, do Festival de Sundance (fevereiro), CPH:DOX (abril) e Tim Hetherington, no Sheffield International Documentary Festival (junho).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

DA SÉRIE ESSES NOTÁVEIS CARTUNISTAS

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O cartunista Sponholz segue firme em sua meta: espezinhar a esquerda. Até se antecipa aos fatos: produz previamente cartuns contemplando situações nas quais a esquerda tenha algum destaque. Com relação ao Oscar 2020, não poderia ser diferente. A disputa pelo Oscar de melhor documentário incluía Democracia em Vertigem, e Sponholz montou sua estratégia:

1. Caso ganhasse, a conquista mereceria um cartum como o abaixo (publicado ontem, 9):

Sponholz.

2. Mas quem levou o Oscar foi American Factory (produzido por Barack e Michelle Obama). Tudo bem, o cartum - publicado hoje - já estava engatilhado:

Sponholz. 
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Notas
(a) A talentosa cineasta Petra Costa estaria sendo sondada por celebridades (como Leonardo Dicaprio) para a produção de novos documentários. A Amazônia, por exemplo, seria um dos focos;
(b) A ex-presidente Dilma Rousseff ingressou no Supremo, em dezembro de 2017, com um pedido de Habeas Corpus em que questiona o impeachment. Até o momento, ao que nos é dado ver, o caso pende de julgamento.

OSCAR 2020... AMERICAN FACTORY E CORONAVÍRUS: GUERRA SEMIÓTICA OU ARMAS BIOLÓGICAS?

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"American Factory", documentário vencedor do Oscar 2020 (produzido por Barack e Michelle Obama), já era pedra cantada bem antes da cerimônia, ignorando "Democracia em Vertigem", da diretora mineira Petra Costa. Mas o articulista sugere que o documentário vencedor se insere no rol de iniciativas semióticas acionadas na guerra comercial China vs. EUA. Teoria conspiratória? À matéria.


"Contágio", "American Factory" e coronavírus: guerra semiótica ou armas biológicas? 

Por Wilson Ferreira

Milhões de pessoas em quarentena por ordem do Governo chinês. Uma misteriosa mutação de um coronavírus surge numa província da China, ameaçando dar início a uma pandemia, provocando alerta global da OMS. Esse é um breve resumo das notícias de uma crise que apavora o mundo, com expectativas de consequências econômicas imprevisíveis. Mas também é o plot do filme de 2011 “Contágio” de Steve Soderbergh. Muitos cinéfilos estão apontando as incríveis coincidências entre ficção e realidade. Ao mesmo tempo, o documentário “American Factory” é o favorito ao Oscar, no qual os chineses figuram como exploradores capitalistas que compram uma fábrica falida da GM para destruir sindicatos e oprimir americanos.  Estamos em meio a uma guerra semiótica como arma híbrida dentro da batalha comercial e geopolítica EUA vs. China? Coronavírus é uma arma na guerra da informação ou uma arma biológica? Será que mais uma vez a ficção hollywoodiana (e dessa vez também um game chamado “Plague Inc.”) é usada como arma semiótica para tornar verossímil eventos arbitrários? No mínimo, os fatos apontam para uma dúvida plausível – como sempre, encontramos sincronismos, conveniências, timing com a velha pergunta em mente: quem ganha com o medo da pandemia?

O ator Jack Nicholson surpreso olha para trás onde está suspenso um enorme telão, no fundo do palco da 85o cerimônia do Oscar 2013 em Hollywood. Nele aparece a imagem de Michelle Obama em um link ao vivo direto da Casa Branca. Ela tem em suas mãos o envelope com o vencedor da categoria Melhor Filme, abre o envelope e anuncia: “E agora o momento que todos aguardavam... e o Oscar vai para ‘Argo’”. "
A presença da imagem da primeira dama da maior potência bélico-militar do planeta no principal evento da indústria cinematográfica transmitido ao vivo para todo o mundo foi um acontecimento rico em significados – ainda mais quando Michelle Obama anunciou como vencedor o filme cujo tema foi uma bem-sucedida ação da inteligência dos EUA durante a crise diplomática dos reféns norte-americanos no Irã em 1979, em uma operação de resgate que envolvia a criação de uma falsa produção cinematográfica que supostamente seria rodado naquele país.
Esse foi mais um exemplo das conexões entre o sistema audiovisual hollywoodiano com o complexo militar-diplomático norte-americano. Desde os filmes patrióticos como aqueles que promoviam dos novos heróis pós-depressão econômica de um país revitalizado pela vitória na Segunda Guerra Mundial passando pela chamada “política de Boa Vizinhança” com personagens fílmicos como Carmem Miranda e Zé Carioca para agradar e cooptar os países da América do Sul na época da Guerra Fria e a ameaça comunista.

Até chegar aos filmes e minisséries dos anos 1960-70 que tornaram o american way of life desejável para todo planeta e os filmes de ação com personagens como Rambo ou Braddock, na era do governo Ronald Reagan, produzidos para promover a autoimagem militar de um país derrotado no Vietnã.


Pacientes assustados e doentes sobrecarregam os hospitais, onde o pessoal médico em roupas de proteção apressa-se para tratá-los. Enquanto isso, aeroportos fecham, centros urbanos esvaziam, quarentenas e bloqueios atingem milhões de viajantes.
Essas cenas foram exibidas no centro da China, após o surgimento de um misterioso coronavírus que matou 26 e infectou mais de 900 naquele país. O vírus também infectou um pequeno número de pessoas em Hong Kong e em outros países, incluindo Tailândia, Japão, Taiwan e Coréia do Sul. Também existem dois casos confirmados na França e dois nos Estados Unidos, especificamente no Estado de Washington e em Chicago.


Contágio da realidade pela ficção?

Mas essas cenas também foram exibidas no thriller de 2011 chamado Contágio (Contagion). Dirigido por Steve Soderbergh, o filme contou com um elenco estelar: Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Kete Winslet, Jude Law, Laurence Fishburn, Elliot Gould, Marion Cotillard, Bryan Craston entre outros. vivendo um cenário da vida real em que uma mutação do vírus influenza letal e veloz chamado MEV-1 está se espalhando pelo mundo.
Contágio talvez tenha mostrado o vírus mais verossímil da história do cinema, elogiado por epidemiologistas e virologistas pela precisão científica - foi criado pelo roteirista Scott Burns em parceria com a escritora Laurie Garrett, autora do livro A Próxima Peste. O modo de transmissão, os sintomas e a mortalidade foram inspirados no misterioso vírus Nipah da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa), e na gripe espanhola.
Em todo mundo, pelas redes sociais, muitos estão apontando a espantosa semelhança entre o roteiro do thriller de 2011 com o atual surto cuja origem (assim como no filme) está numa província no interior da China – porém, pelo menos ainda, nada como o cenário do juízo final de uma pandemia que se desenrola em Contágio.
Será que é a vida imitando a arte? - poderíamos meditar com os nossos botões... 
Essa diluição entre as fronteiras entre ficção e realidade fica ainda mais surpreendente com o mix de entretenimento, cultura pop, com a ameaça de uma pandemia. Em meio ao surto de novo coronavírus, chineses procuram uma saída improvável através de um aplicativo de jogo, o Plague Inc., cujo objetivo é bastante niilista: “trazer o fim da história humana”.  Criado pela Ndemic Creations há oito anos, sediada no Reino Unido, tornou-se o aplicativo mais vendido na China nos últimos dias – clique aqui.
O jogo permite que os usuários desenvolvam um vírus mortal e o transformem em uma pandemia global antes que a comunidade científica possa encontrar uma cura. Forma de criar algum alívio cômico ou psicológico no meio do pânico e paranoia? Uma maneira de eliminar o medo olhando diretamente para o medo?


Um filme moralista

O filme Contágio é extremamente moralista, dentro dos cânones dos filmes de propaganda política hollywoodiana – o Mal sempre é estrangeiro e furtivamente invade os EUA: de um lado uma pandemia cuja origem está no coração da China; e do outro, um jornalista free-lancer britânico (Jude Law), um blogueiro especializado em teorias da conspiração, negacionista anti-vacina, que tenta lucrar com a tragédia.
Quem inadvertidamente permite a entrada do vírus nos EUA é Gwyneth Paltrow, uma esposa adúltera (sexo) que foi contaminada num cassino (jogo) chinês. E, claro, seu marido (um exemplar pai de família, Mat Dammon) possui uma imunidade inata ao vírus... 

China: do BRICS aos RAVs

Esses sincronismos começam a ficar significativos quando a China entra no roll dos RAVs (Russos, árabes e vilões em geral) dos filmes hollywoodianos a partir do momento em que se torna uma das lideranças dos BRICS, ameaçando o xadrez geopolítico hegemônicos dos EUA a partir de 2006.


Enquanto os blockbusters evitam vilões chineses pela necessidade óbvia de terem bilheteria no maior mercado do planeta, produções visando outros mercados carregam na vilania asiática: Dr. Gao (Lab Rats), Imperador Wan Lo (TaleSpin), General Fang (Around The World in 80 Days), Sun Lok (The Sorcerer’s Apprentice), Madame Gao (Demolidor, Punho de Ferro) entre outros, além de produções sobre uma supostas ameaças ocultas chinesas como plot: Claws of the Red Dragon (drama inspirado na denúncia dos EUA contra a gigante chinesa de telecomunicações Huawei, considerada uma “ameaça à segurança nacional” por Trump), Trump vs China, Triple ThreatThe Great Wall etc. 

American Factory: exploradores capitalistas chineses

E o exemplo mais recente dessa, por assim dizer, guerra fria e comercial com a China não poderia deixar de ser o documentário favorito ao Oscar, American Factory, documentário feito pela produtora de Barack e Michele Obama – por isso, sem chances para o brasileiro Democracia em Vertigem de Petra Costa.
O documentário é sobre uma fábrica em Dayton, Ohio, que foi comprada pela Fuyao, empresa chinesa fabricante de vidros automotivos. O filme faz uma curiosa inversão na qual os chineses são figurados como capitalistas vorazes e os americanos como socialistas, quase comunistas. 
Investindo US$ 500 milhões de dólares, a Fuyao comprou as antigas instalações da GM que empregava dez mil operários e que fechou em 2008. American Factory aborda o choque cultural em torno dos 200 funcionários chineses convivendo com 1.300 operários norte-americanos.
No início, a estratégia é nomear norte-americanos para ocupar gerencia e direção, mas não dá certo: a produção e qualidade são baixas. Para depois, o alto comando da Fuyao impor dirigentes chineses e sua cultura organizacional quase militar, envolvendo doutrinação e telões na fábrica exibindo chineses prósperos e felizes no “chinese way of life”.
O ápice do conflito é o combate da Fuyao contra a sindicalização dos operários. Por medo de perderem o emprego, os próprios operários votam contra a presença do sindicato.
A antiga GM pagava US$ 29,00 por hora, para depois com a Fuyao despencar para US$ 14,00, em condições de trabalho extenuantes e insalubres. 
Em American Factory, os chineses são exploradores capitalistas, enquanto os americanos são nostálgicos de um passado no qual a GM é figurada quase como uma comuna sindicalmente organizada. Mas o documentário esconde uma realidade irônica da globalização: a GM fechou a fábrica nos EUA em busca de oportunidades globais com custos mais baixos e maior lucratividade... assim como a Fuyao nos EUA, atraída pelo desespero do desemprego e o enfraquecimento dos sindicatos. 

Documentário "American Factory": exploração capitalista chinesa

HOW CONVEEEEENIENT!!!!

HOW CONVEEEEEEENIENT! Exclamaria a Church Lady, personagem impagável do humorístico Saturday Night Live, criado por Dana Carvey. 
No auge da guerra comercial EUA vs. China (aliás, uma guerra bem antiga, desde 1885 quando moradores de Rock Springs, Wyoming, atacaram mineradores chineses na região), soa o alarme global da ameaça de uma pandemia descontrolada, cujo epicentro está na cidade de Wuhan, na província de Hubei, cuja enfermidade respiratória teria origem em morcegos – mais uma coincidência com o filme Contágio
O crescimento econômico da China poderá despencar em 5% e o crescimento do PIB cair 1%, prometendo um impacto ainda maior do que ocorreu em 2002 e 2003 com outro coronavirus: o SARS.
Depois da batalha alfandegária iniciada por Trump em 2018, escaramuça do caso Huwaei com a suspensão dos negócios das empresas de tecnologia americanas com a fabricante chinesa de celulares (inclusive com prisão de executiva da Huwaei no Canadá em 2018) e a prolongada guerra geopolítica híbrida alimentando os conflitos em Hong Kong, o atual alerta da OMS no caso do coronavírus chinês ganha um evidente sentido conspiratório ou, no mínimo, dúvida plausível: será o coronavírus é uma arma de guerra de informação no xadrez geopolítico EUA vs. China?
Conhecendo-se que Hollywood é uma histórica arma de propaganda política dos EUA, soa sincrônico que o desenrolar dos eventos da atual crise siga um roteiro quase parecido com o filme Contágio.

Coronavírus e “canastrice”

Este Cinegnose já discutiu diversos casos de como a ficção é utilizada para tornar verossímil não-acontecimentos reais – esse humilde blogueiro chama isso de “canastrice” na política – clique aqui.
Quando eventos reais ou não-acontecimentos (false flags que emulam plots cinematográficos) ocorrem, criam na opinião pública um paradoxal efeito de verossimilhança: “é como visto no cinema... então é verdade!”.
Há muitas evidências de que a suposta ameaça de pandemia do coronavírus é uma guerra de informação e contra-informação.


O primeiro alerta foi dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 31 de dezembro de 2019 sobre casos de pneumonia na China de origem desconhecida. A agência americana para a Vigilância e Prevenção de Doenças (CDC) localizou o “ponto zero” do epicentro num grande mercado de peixes e mariscos de Wuhan – fechada no primeiro dia do ano.
Desde o início a postura do Governo chinês não foi negacionista e reverteu a crise politicamente a seu favor: confinou 60 milhões de pessoas da região da província de Hubei numa demonstração mundial da espantosa força da sua engenharia de controle social. 
E mais: em pouco tempo uma equipe de pesquisadores da Universidade de Hong Kong afirmou ter já conseguido desenvolver uma vacina capaz de impedir a disseminação do coronavírus.
Mais uma vez a realidade parece emular a ficção. Os leitores devem lembrar do filme Mera Coincidência (Wag The Dog, 1997) vária vezes citado nesse blog:  uma guerra fictícia dos EUA contra os terroristas da Albânia é produzida por Hollywood, para desviar a atenção do público de uma crise envolvendo um escândalo sexual presidencial às vésperas das eleições que podem reelege-lo.
A certa altura, a CIA e seu opositor político, o senador John Neal, descobrem a farsa mas não a desmente publicamente: apenas dizem que a guerra acabou e que os soldados estão retornando para casa. Revertendo os planos de Stanley (Dustin Hoffman), produtor de Hollywood, e do marqueteiro Conrad Brean (Robert De Niro).
Seria o coronavírus uma arma dentro da atual guerra fria e comercial entre EUA e China? 


Ou uma verdadeira arma biológica? Em outubro de 2003, Tong Zeng, advogado chinês e voluntário em um programa de cooperação médica sino-americana de 1998, publicou um livro que especulava que a SARS poderia ser uma arma biológica desenvolvida pelos Estados Unidos contra a China – leia ZHANG, Li Privatizing China: Socialism from AfarCornell University Press, 2008.
No livro, Tong divulgou que, na década de 1990, muitos grupos de pesquisa americanos coletaram milhares de amostras de sangue e DNA e espécimes de chineses do continente (incluindo 5.000 amostras de DNA de gêmeos) por meio de vários projetos de pesquisa realizados na China. Essas amostras foram então enviadas de volta aos Estados Unidos para mais pesquisas e poderiam ser usadas no desenvolvimento de armas biológicas contra os chineses.
Essas amostras vieram de 22 províncias da China, todas atingidas pela SARS em 2003. Somente províncias como Yunnan, Guizhou, Hainan, Tibet e Xinjiang foram deixadas de fora, e todas essas províncias sofreram menos severamente durante o surto de SARS. 
De um modo geral, o medo é sempre útil. Se você pode assustar as pessoas, elas fazem o que você diz. Isso é um fato conhecido por líderes e propagandistas há séculos.
Por exemplo, após o atentado a bomba em Boston em 2013, apesar de a caça ser apenas por dois supostos homens-bomba, toda a cidade de Boston foi cercada. A guarda nacional rolou tanques pelas ruas e ninguém disse uma palavra.
No momento, apesar das 170 mortes, milhões de chineses estão sob um "bloqueio". Reuniões públicas estão sendo interrompidas. Essa é uma agenda política excelente para o Governo chinês.
Nunca é demais normalizar a ideia da lei marcial. Afinal, você não sabe quando pode vai precisar efetivamente disso no futuro.
Claro que há uma tentação de ver a China como um mocinho apenas porque se opõe à hegemonia dos EUA, mas ela também possui uma agenda política ditatorial.  Não haveria razão para também a China pensar em tirar uma vantagem de uma crise (ou até criar uma), a fim de azeitar sua engenharia de controle social.  -  (Fonte: Cinegnose - Aqui).

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