segunda-feira, 11 de agosto de 2014
SOBRE A VULNERÁVEL WIKIPÉDIA
Dados sobre a Wikipédia, disponibilizados pela Wikipédia:
.Trata-se de enciclopédia multilíngue (277 idiomas, até outubro de 2013) lançada em janeiro de 2001 pelos norte-americanos Jimmy Wales e Larry Sanger.
.O termo Wikipedia foi criado por Larry Sanger e é uma combinação de wiki (uma tecnologia para criar sites colaborativos, a partir da palavra havaiana wiki, que significa "rápido") e enciclopédia.
.É escrita de maneira colaborativa: muitos dos mais de 30 milhões de artigos (835 090 em português em 10 de agosto de 2014) foram escritos de forma conjunta por diversos voluntários ao redor do mundo.
.Quase todos os verbetes presentes no site podem ser editados por qualquer pessoa com acesso à internet.
.(Certamente em face de "qualquer pessoa com acesso à internet" poder editar "quase todos os verbetes"...) A confiabilidade e precisão da Wikipédia são alvo de críticas. Não obstante, "trabalhos acadêmicos sugerem que os vandalismos são geralmente de curta duração" - grifo nosso).
Pois bem. Informações sobre dois jornalistas globais foram alteradas em maio de 2013 (quinze meses atrás!), a partir das dependências do Palácio do Planalto, mediante wi-fi, sistema que oferece acesso à internet a qualquer pessoa/equipamento que se encontre no ambiente, sendo, porém, tal como acontece com o sistema tradicional, facilmente detectável (ou seja, a partir do IP, "Internet Protocol", espécie de identidade de cada equipamento, é possível localizar a origem/autor do malfeito).
Isto significa que qualquer pessoa (um servidor público, um visitante qualquer, um jornalista, um marqueteiro...) poderia, naquele distante maio de 2013, ter praticado a fraude.
Diante de tais particularidades, é lícito indagar: a quem aproveitaria a manobra, sintomaticamente detectada agora, em plena campanha eleitoral?
Cartas para a Redação.
domingo, 10 de agosto de 2014
SOBRE O FACTOIDE DA HORA
"O mundo midiático do factoide no Brasil é algo mais fantástico do que o gênero literário. Cortázar, Borges e García Marquez ficariam de queixo caído se aportassem por aqui e abrissem os jornais e revistas. Ou se tivessem contato com o noticiário de TVs e rádios.
A wikipédia é uma enciclopédia colaborativa. Uma das criações mais interessantes da era da internet, principalmente porque não é uma corporação que busca vampirizar o meio. Não é um Facebook e nem um Google. Não é uma Microsoft e nem uma Apple. É uma Fundação que organiza um projeto colaborativo e que precisa que as pessoas participem para existir.
Recordo-me do dia em Jimmy Wales, o criador do Wikipedia, veio ao Brasil para lançar o Wikimedia. Fui um dos convidados para bater um papo com ele no evento de lançamento, realizado no Centro Cultural. Antes ele havia ido ao Roda Viva e lá tinha sido questionado por um dos entrevistadores sobre um erro no seu perfil em língua portuguesa.
O atento entrevistador achou que tinha armado uma cilada para Wales. Se até o perfil do criador da enciclopédia tinha um erro era porque ela não valia de nada. Certo? Não, errado. Wales só disse o seguinte ao intrépido repórter. Se estava errado, não estará mais depois de você ter alertado para isso. Neste momento alguém já deve estar corrigindo-o.
Na Wikipédia é assim. Se alguém escreve uma baboseira, alguém está sempre a postos para buscar corrigir o erro. Ele não fica esperando o próximo ano ou a próxima edição do produto.
Nestes dias de “escândalos” sobre perfis na Wikipédia, tem gente que que ataca o governo dizendo é um crime alguém a partir do Palácio do Planalto mexer num perfil de jornalista. Coisa mais boba impossível. Jornalistas podem ser queridos ou não, como todos os seres humanos. Se um direitopata fosse escrever o verbete da Fórum, provavelmente ele seria muito pior do que é. Mas certamente apareceria alguém para melhorá-lo.
E foi deste jeito, sendo atualizada por milhões de pessoas pelo mundo, utilizando-se da inteligência colaborativa, distribuída e conectada digitalmente que a Wikipédia derrotou, por exemplo, a Enciclopédia Britânica.
Por isso é também bastante incômodo ver gente no afã de defender o governo dizendo que a wikipédia é uma porcaria e que não deveria ser levada em consideração. Ou que é “fonte não relevante”. Fonte não relevante são os jornais brasileiros. Fonte não relevante é a Veja e a TV Globo. E não é incomum ver pessoas da academia usando esses veículos como fontes em artigos. E não é incomum ver políticos e jornalistas citando esses veículos como se fossem de fato sérios.
Bobagem pura
A wikipédia tem um papel muito relevante e democratizante. Ela permite que muitos que não teriam acesso a certas informações cheguem a ela, como também populariza a verbetização. Ou alguém acha que Miriam Leitão e Sardenberg seriam verbetes da Barsa ou da Enciclopédia Britânica?
Isso tudo não significa que seja moralmente defensável que alguém usando computador de governos, seja ele qual for, fique mexendo em perfil de adversários ou aliados. Mas certamente não é só gente do Palácio do Planalto que faz este tipo de coisa. Em muitos outros governos e de outras esferas certamente sempre haverá um bobão pra querer ser mais realista que o rei. Pra fazer papel de estafeta do chefe e ficar misturando seu posicionamento como servidor público e cidadão.
Mas isso deveria fazer a apresentadora do Jornal Nacional ficar com cara de velório e o apresentador realizar a locução como se tivesse narrando a tragédia do World Trade Center? Óbvio que não. Aí que entra o show de factoides. Veja, por exemplo, fez recentemente quatro páginas falando de quadrilha digital e colocou duas imagens do site da Fórum para ilustrar o caso. É um absurdo evidente, mas esse editor não fez cara de choro e nem saiu por aí se dizendo vítima de um conluio. Há Justiça pra resolver o caso. E acho que Miriam Leitão e Sardenberg deveriam ir pelo mesmo caminho. E parar com o chororô.
Mas eles têm outros objetivos. Querem misturar isso com regulamentação da comunicação no Brasil para fazer agrado ao patrão. Como se não houvesse nada mais ditatorial do que o poder das Organizações Globo no Brasil. E mesmo assim há quem chame aquilo de jornalismo independente.
Que jornalismo independente é esse que se tornou o que é na ditadura militar escondendo torturas e assassinatos? Que jornalismo independente é esse que manipulou debates em eleições presidenciais? Que jornalismo independente é esse que não deu um pio nem para abrir o debate sobre as privatizações no país? Que jornalismo independente é esse que não abre espaço para o contraditório em uma série de questões de interesse público?
Enfim, não temos que nos preocupar com o helicóptero com quase 500 quilos de cocaína da família Perrella, não temos que nos preocupar com os aeroportos do Aécio, não temos que nos preocupar com a falta de água em São Paulo e nem com a corrupção no metrô, que levou um grão-tucano a ser afastado do Tribunal de Contas. Nada disso merece destaque no noticiário. O que importa é falar de dois verbetes na Wikipédia. Então tá."
(De Renato Rovai, no Portal Fórum, post intitulado "O escândalo da Wikipédia parece uma piada mal contada" - aqui).
DA SÉRIE ESTRAGOS DA POLUIÇÃO
Mário.
Em 16 anos, poluição do ar pode matar até 256 mil em SP, aponta estudo da USP
A poluição atmosférica pode matar até 256 mil pessoas nos próximos 16 anos no Estado. Nesse período, a concentração de material particulado no ar ainda provocará a internação de 1 milhão de pessoas, e um gasto público estimado em mais de R$ 1,5 bilhão, de acordo com projeção inédita do Instituto Saúde e Sustentabilidade, realizada por pesquisadores da USP. A estimativa prevê que ao menos 25% das mortes, ou 59 mil, ocorram na capital paulista.
Os resultados indicam que, no atual cenário, a poluição pode matar até seis vezes mais do que a Aids ou três vezes mais do que acidentes de trânsito e câncer de mama. A população de risco, ou seja, as pessoas que já sofrem com doenças circulatórias, respiratórias e do coração, serão as mais afetadas, assim como crianças com menos de 5 anos que têm infecção nas vias aéreas ou pneumonia.
Entre as causas mais prováveis de mortes provocadas pela poluição, o câncer poderá ser o responsável por quase 30 mil casos até 2030 em todos os municípios de São Paulo. Asma, bronquite e outras doenças respiratórias extremamente agravadas pela poluição podem representar outros 93 mil óbitos, já contando a estimativa de crianças atingidas no período.
Doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP e uma das autoras da pesquisa, Evangelina Vormittag afirma que a magnitude dos resultados obtidos pela projeção, que tem como base dados de 2011, comprova a necessidade de o poder público implementar medidas mais rigorosas para o controle da poluição do ar.
Nessa lista estão formas alternativas de energia, incentivo ao transporte não poluente, como bicicleta e ônibus elétrico, redução do número de carros em circulação e obrigatoriedade de veículos a diesel utilizarem filtros em seus escapamentos. O programa de instalação de faixas exclusivas de ônibus e de ciclovias na capital, desenvolvido pelo prefeito Fernando Haddad (PT), é indicado como bom exemplo, ainda que os resultados para a saúde pública não estejam mensurados. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo". (Fonte: aqui).
A poluição atmosférica pode matar até 256 mil pessoas nos próximos 16 anos no Estado. Nesse período, a concentração de material particulado no ar ainda provocará a internação de 1 milhão de pessoas, e um gasto público estimado em mais de R$ 1,5 bilhão, de acordo com projeção inédita do Instituto Saúde e Sustentabilidade, realizada por pesquisadores da USP. A estimativa prevê que ao menos 25% das mortes, ou 59 mil, ocorram na capital paulista.
Os resultados indicam que, no atual cenário, a poluição pode matar até seis vezes mais do que a Aids ou três vezes mais do que acidentes de trânsito e câncer de mama. A população de risco, ou seja, as pessoas que já sofrem com doenças circulatórias, respiratórias e do coração, serão as mais afetadas, assim como crianças com menos de 5 anos que têm infecção nas vias aéreas ou pneumonia.
Entre as causas mais prováveis de mortes provocadas pela poluição, o câncer poderá ser o responsável por quase 30 mil casos até 2030 em todos os municípios de São Paulo. Asma, bronquite e outras doenças respiratórias extremamente agravadas pela poluição podem representar outros 93 mil óbitos, já contando a estimativa de crianças atingidas no período.
Doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP e uma das autoras da pesquisa, Evangelina Vormittag afirma que a magnitude dos resultados obtidos pela projeção, que tem como base dados de 2011, comprova a necessidade de o poder público implementar medidas mais rigorosas para o controle da poluição do ar.
Nessa lista estão formas alternativas de energia, incentivo ao transporte não poluente, como bicicleta e ônibus elétrico, redução do número de carros em circulação e obrigatoriedade de veículos a diesel utilizarem filtros em seus escapamentos. O programa de instalação de faixas exclusivas de ônibus e de ciclovias na capital, desenvolvido pelo prefeito Fernando Haddad (PT), é indicado como bom exemplo, ainda que os resultados para a saúde pública não estejam mensurados. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo". (Fonte: aqui).
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Ciência. Poluição. São Paulo. Cartum. Mário.
PINGOS NOS IS
"O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Claudio Lottenberg, publicou nesta Folha um artigo instigante. O título embute uma premissa fundamental: "Antissionismo é antissemitismo". Trata-se de conveniente cláusula para interdição do debate: não seria possível confrontar as ideias de Theodore Herzl sem se confundir com os que levaram seis milhões de judeus ao extermínio.
Tal escudo moral, amparado na vitimização, resvala para o cinismo. Sucessivos governos sionistas, afinal, transformaram Israel em país ocupante de territórios alheios, impedindo a soberania de outro povo, o palestino. Os requintes de brutalidade para manter essa dominação colonial, nos últimos anos, ofendem a comunidade internacional. O álibi do Holocausto, nessas circunstâncias, constitui insulto à humanidade e à memória judaica.
Lottenberg nem sequer se refere ao massacre de Gaza, mesmo diante dos corpos de mulheres e crianças. Prefere apresentar versão edulcorada do sionismo, que seria "a expressão moderna da autodeterminação nacional judaica". Não faz qualquer questão de se diferenciar dos bandos mais reacionários, como o Likud de Benjamin Netanyahu.
O autor vai ainda mais longe. Para ele, os judeus "definem-se por uma religião (o judaísmo), uma língua (o hebraico) e uma terra (Israel)". De uma penada, expurgou, por exemplo, os judeus que são ateus, aqueles cuja língua é a do país no qual vivem e os que não consideram primordial a existência de Israel.
Atualmente hegemônico entre os judeus, o sionismo é apenas uma corrente de opinião, que se caracteriza por abordagem nacionalista. Não equivale a eventual código histórico-cultural dos povos judeus. Trata-se tão somente de uma orientação político-ideológica fundida à religião e ao Estado.
O epicentro de seu discurso sempre foi a criação de uma "pátria judaica". Vários dos fundadores do sionismo eram agnósticos, mas selaram aliança com chefes religiosos para reforçar seu poderio, ainda que às custas de construir o Estado de Israel como entidade confessional.
Ao contrário da autodeterminação dos negros na África do Sul pós-Mandela, forjando uma república laica e não racial, o nacionalismo sionista pressupõe supremacia judaica e religião estatal. Essa concepção levou a uma nação com tripla personalidade: democracia para judeus, cidadania de segunda classe para árabes-israelenses e regime de apartheid para palestinos dos territórios ocupados.
Nem todos os sionistas, é verdade, são defensores do colonialismo. Muitos, como o próprio Lottenberg, são partidários da solução dos dois Estados e da retirada para as fronteiras anteriores a 1967. Constitui manobra repulsiva, porém, afirmar que seja antissemitismo a contraposição ao sionismo. Essa é a lógica que dirigentes sionistas sempre quiseram impor aos críticos da política belicista e expansionista de Israel.
Não é ser antissemita negar aos grupos dominantes do sionismo o direito de cometer crimes de limpeza étnica, discriminação e agressão armada contra o povo palestino.
Não são definitivamente antissemitas os judeus que, honrando longa história de participação nas lutas pela emancipação dos povos e pela paz, se apresentam para combater a doutrina supremacista que rege o Estado de Israel."
(De Breno Altman, jornalista e diretor do site Opera Mundi. Artigo intitulado "Judaísmo não é sionismo", publicado originalmente na Folha de S.Paulo. Fonte: aqui).
sábado, 9 de agosto de 2014
SEMIÓTICA GLOBAL
"O “escândalo da fraude da Wikipédia” é a confirmação de que nada mais resta para a grande mídia do que a bomba semiótica da não-noticia."
(De Wilson Ferreira, na abertura do post "O 'escândalo da Wikipédia' e a autofagia da TV Globo" - AQUI -, em que aborda a não-notícia sobre alterações - realizadas em maio de 2013! - nos perfis de dois profissionais das Organizações Globo na notoriamente alterável Wikipédia.
Persiste o debate sobre a distinção entre não-notícia e factoide: seriam a mesma coisa, ou haveria sutis diferenças? Como se dizia antes do e-mail: cartas para a redação).
QUANDO OS POBRES ATRAPALHAM
"Para dizer de maneira bem clara, para que a crueldade seja percebida, a matéria que a Folha publica hoje sobre a distribuição de renda em São Paulo pode ser explicada assim, à maneira de Malba Tahan.
Pegue uma nota de cem reais e troque em notas de R$ 10 e entre numa sala com cem pessoas.
Pegue duas e entregue a um só indivíduo. Ele terá, portanto, R$ 20.
Pegue mais três e entregue a outras nove pessoas, para dividirem. Cada uma terá, então, R$ 3,33
Depois, das cinco notas que sobraram, pegue quatro e entregue a 40 cidadãos. Um real para cada, portanto.
A última nota de dez, você pega e atira para os 50 infelizes se engalfinharem por ela, ou troca em moedinhas e dá 20 centavos para cada um.
E mande embora.
Este é o retrato da justiça social na maior cidade deste país.
Ocorre que, nos últimos dez anos, embora a divisão tenha se tornado mais injusta, aqueles 50 miseráveis que viviam com o salário mínimo, tiveram um ganho real.
É por isso que o senhor Armínio Fraga, protoministro da Fazenda de Aécio Neves, diz que “os salários subiram demais”.
Mesmo que o dinheiro dos ricos tenha crescido, não importa.
É por isso que o banqueiro do ágape aecista está preocupado com “o pessoal que vota com o estômago” em outubro.
Que a elite paulistana abocanhe tudo e ainda reclame de fome, é algo que só prova sua mesquinhez e, pior, sua vocação suicida.
O grave é que já não exista quem grite que isso é imoral, desumano, absurdo, cruel, maldito.
O grave é que a classe média paulistana ainda ache absurdo que os pobres pelo menos tenham favorecimento numa faixa seletiva para os ônibus em que andam.
O grave é que achem isso civilizado e “culto”.
O grave é que nem George Orwell eles leram.
Emile Zola, então, nem se fala."
(De Fernando Brito, no "Tijolaço", post intitulado "A elite paulistana chora de barriga cheia" - aqui).
SNOWDEN II
Governo americano acredita na existência de um novo delator
O governo dos EUA acredita existir outro delator como o antigo analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden, segundo declarações de funcionários do governo à emissora CNN.
Segundo a CNN, a prova seria um artigo publicado nesta terça-feira (05/08) pelo site The Intercept, um portal de notícias lançado pelo jornalista Glenn Greenwald, que também publicou revelações de Snowden.
O artigo aborda o aumento do número de terroristas – conhecidos ou supostos – nas bases de dados do governo americano durante a administração do presidente Barack Obama e questiona os critérios para defini-los. Segundo o texto, são 680 mil pessoas. Em ao menos 280 mil desses casos, não haveria nenhuma relação conhecida com redes terroristas, como a Al Qaeda.
Para embasar suas afirmações, o texto cita um documento secreto de 12 páginas, datado de agosto de 2013, quando Snowden já havia deixado os Estados Unidos para evitar enfrentar a Justiça. Assim, o documento não poderia ter sido "vazado" pelo antigo analista.
Além disso, Greenwald não cita Snowden como a fonte de suas informações, o que ele normalmente faz, e afirma que a fonte é alguém ligado aos serviços secretos.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
PICLES ELEITORAIS
O MAL DE CERTAS CAMPANHAS ELEITORAIS É QUE A COMPOSTURA NÃO TEM DIREITO DE RESPOSTA.
Na guerra eleitoral, Deus e as crianças bem que mereciam uma trégua!
ADMINISTRADOR PROBO SÓ ADMITE CRÍTICA CONSTRUTIVA SE PRECEDIDA DE LICITAÇÃO.
No auge dos debates, chutou o balde. Ao final, chorou copiosamente o leite derramado.
Como dizia o veterano chefe político: "A palavra 'ética', para mim, sempre foi enigmática; já o termo 'oligarquia' me soa bastante familiar."
ELITISTA REFINADO PODE ATÉ FAZER PROPOSTAS INDECOROSAS, MAS É IMBATÍVEL EM MATÉRIA DE APONTAR DEFEITOS NAS DOS OUTROS.
ELITISTA REFINADO PODE ATÉ FAZER PROPOSTAS INDECOROSAS, MAS É IMBATÍVEL EM MATÉRIA DE APONTAR DEFEITOS NAS DOS OUTROS.
BRASIL E RÚSSIA: O BOOM DA CARNE
A Rússia levantou as barreiras às carnes brasileiras após anunciar embargo a produtos americanos e europeus (em razão das sanções sobre ela incidentes face ao conflito na Ucrânia). Por conta disso, a parceria comercial com o Brasil vai ganhar mais importância. Há duas semanas, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, esteve em Brasília com a presidente Dilma Rousseff para reuniões de trabalho. Os resultados dos encontros mostram a superação de antigos problemas nas relações comerciais entre os dois países.
No inicio da semana, o diretor do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor), Serguei Dankvert, anunciou que o governo russo estava ampliando “consideravelmente” o fornecimento de produtos pecuários do Brasil. Na avaliação do governo brasileiro, o mercado russo pode vir a representar uma revolução para a indústria brasileira comparável à que a China provocou nas exportações de soja do Brasil na última década.
Impacto
Atualmente, 41% das exportações brasileiras advêm do agronegócio. Nos últimos anos, o equilíbrio da balança comercial brasileira tem sido alcançado graças aos superávits obtidos das exportações do agronegócio.
A Rússia já é o principal destino das exportações brasileiras de carnes suína e bovina. Apenas de carne bovina in natura o Brasil vendeu para a Rússia, em 2013, 304 mil toneladas, gerando US$ 1,2 bilhão em receitas. De carne suína, foram exportados 134 mil toneladas, com receita de US$ 411 milhões. Os produtos agropecuários exportados à Rússia no ano passado garantiram o ingresso de US$ 2,72 bilhões. As carnes estão entre os principais itens da pauta de exportações com os russos, que inclui outros produtos como açúcar, fumo e café. (Fonte: aqui).
................
A China é o principal parceiro comercial do Brasil, mas as transações de nosso país com os Estados Unidos, segundo maior parceiro, continuam firmes. O fato de o Brasil integrar o BRICS, como se vê, não isolou ou restringiu o comércio exterior brasileiro. (Ao contrário do México, amarrado ao NAFTA...).
Exercitar parcerias comerciais é essencial. (Pra não dizer parcerias em geral).
Sobre o assunto em foco, Mauro Santayana produziu o post "O campo e os BRICS" - aqui.
LEI MARIA DA PENHA: 8 ANOS
Latuff.
Cerca de 100 mil mandados de prisão expedidos, mais de 300 mil mulheres salvas. (Muito há, ainda, a ser aprimorado). Fonte: aqui.
A AMEAÇA EBOLA
Ebola e a indústria farmacêutica
Por Jane Merrick
O principal médico de saúde pública do Reino Unido culpa o fracasso em
encontrar uma vacina contra o vírus do Ebola na “falência moral” da indústria
farmacêutica em investir em uma doença porque ela, até agora, só afetou pessoas
na África — apesar das centenas de mortes.
O professor John Ashton, presidente do Instituto de Saúde Pública do Reino Unido, disse que o Ocidente precisa tratar o vírus mortal como se este estivesse dominando as partes mais ricas de Londres, e não “apenas” a Serra Leoa, Guiné e Libéria. Ao escrever no jornal The Independent, no domingo, o prof. Ashton compara a resposta internacional ao Ebola àquela que foi dada à Aids. Esta matou pessoas na África durante anos e os tratamentos só foram desenvolvidos quando a doença espalhou-se pelos EUA e Inglaterra, nos anos 1980.
Ashton escreve: “Em ambos os casos [Aids e Ebola], parece que o envolvimento de grupos minoritários menos poderosos contribuiu para a resposta tardia e o fracasso em mobilizar recursos médicos internacionais adequados (…). No caso da Aids, levou anos para que o financiamento de pesquisa adequada fosse posto em prática, e apenas quando os chamados grupos ‘inocentes’ se envolveram (mulheres e crianças, pacientes hemofílicos e homens heterossexuais) a mídia, os políticos, a comunidade científica e as instituições financiadoras levantaram-se e tomaram conhecimento.”
O surto de Ebola já custou a vida de pelo menos 729 pessoas (já são 900, aproximadamente) na Libéria, Guiné, Serra Leoa e Nigéria, de acordo com os números mais recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS). O número real é provavelmente muito maior.
O professor John Ashton, presidente do Instituto de Saúde Pública do Reino Unido, disse que o Ocidente precisa tratar o vírus mortal como se este estivesse dominando as partes mais ricas de Londres, e não “apenas” a Serra Leoa, Guiné e Libéria. Ao escrever no jornal The Independent, no domingo, o prof. Ashton compara a resposta internacional ao Ebola àquela que foi dada à Aids. Esta matou pessoas na África durante anos e os tratamentos só foram desenvolvidos quando a doença espalhou-se pelos EUA e Inglaterra, nos anos 1980.
Ashton escreve: “Em ambos os casos [Aids e Ebola], parece que o envolvimento de grupos minoritários menos poderosos contribuiu para a resposta tardia e o fracasso em mobilizar recursos médicos internacionais adequados (…). No caso da Aids, levou anos para que o financiamento de pesquisa adequada fosse posto em prática, e apenas quando os chamados grupos ‘inocentes’ se envolveram (mulheres e crianças, pacientes hemofílicos e homens heterossexuais) a mídia, os políticos, a comunidade científica e as instituições financiadoras levantaram-se e tomaram conhecimento.”
O surto de Ebola já custou a vida de pelo menos 729 pessoas (já são 900, aproximadamente) na Libéria, Guiné, Serra Leoa e Nigéria, de acordo com os números mais recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS). O número real é provavelmente muito maior.
(...) uma organização de ajuda norte-americana confirmou que dois agentes humanitários norte-americanos, que contraíram a doença na Libéria, deixaram o país. O dr. Kent Brantly passou a ser tratado em uma unidade de hospital especializado em Atlanta, no estado da Georgia, depois de se tornar a primeira pessoa com a doença a aterrissar em solo norte-americano (...). A segunda trabalhadora, Nancy Writebol, precisou pousar em um voo privado separado.
Na sexta-feira, a Organização Mundial de Saúde alertou que o surto no oeste africano está “movendo-se mais rápido que nossos esforços para controlá-lo”. A diretora geral da organização, Margaret Chan, alertou que se a situação continuar a se deteriorar, as consequências serão “catastróficas” para a vida humana. O professor Ashton acredita que mais dinheiro deveria ser revertido para pesquisa por tratamento.
“Devemos responder a essa emergência como se estivesse acontecendo em Kensington, Chelsea e Westminster. Nós devemos também enfrentar o escândalo da falta de vontade da indústria farmacêutica em investir em pesquisa para tratamentos e vacinas, algo que se recusam a fazer porque o número de envolvidos é, em suas palavras, muito pequeno e não justifica o investimento. Essa é a falência moral do capitalismo, manifestando-se na ausência de um quadro moral e social.”
Os países do Ocidente estão em grande alerta após Patrick Sawyer, um funcionário do governo liberiano, morrer na última semana após chegar no aeroporto de Lagos — o primeiro caso conhecido na Nigéria. Hubs aéreos internacionais são foco de atenção por causa do alto volume de passageiros voando a partir do oeste da África ou para lá, todos os dias. A empresa aérea Emirataes, de Dubai, suspendeu, por tempo indeterminado, seus voos de Guiné, por conta da crise.
O professor John Ashton saudou decisão do Ministro de Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Philip Hammond, em convocar, na semana passada, uma reunião do comitê de crises do governo — o Cobra – para discutir a prevenção, no Reino Unido, contra casos de Ebola.
O desenvolvimento de uma vacina está nos primeiros estágios nos EUA, mas em pequena escala, e há pouca esperança de que alguma fique pronta para tratar o atual surto no oeste africano. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Saúde, uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, disse que há planos de começar a testar uma vacina experimental conra o Ebola, possivelmente no meio de setembro. O ensaio vem obtendo resultados encorajadores nos testes pré-clínicos em macacos. No começo do mês passado, a Agência para Alimentação e Medicamentos norte-americana [FDA, Food and Drug Administration] convocou voluntários saudáveis para um teste realizado pela Corporação Farmacêutica Takmira, para certificar se o tratamento potencial de Ebola não traz efeitos colaterais. Está em busca de informações para garantir a segurança de voluntários.
O professor Ashton disse: “O foco real precisa ser posto na pobreza e na devastação ambiental em que as epidemias prosperam, e no fracasso da liderança política e sistemas de saúde pública em responder efetivamente. A comunidade internacional deve envergonhar-se e procurar comprometimento real… se se deseja enfrentar as causas essenciais de doenças como Ebola.”
* Publicado no jornal The
Independent. Tradução de Gabriela Leite. (Fonte: aqui).
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Alarmismos à parte, há, sim, a ameaça. Quanto à indústria farmacêutica, é notório que as decisões sobre pesquisa/investimento em medicamentos são inapelavelmente regidas por critérios mercadológicos. Se se pretende combater a ameaça, é imperiosa a iniciativa estatal...
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Alarmismos à parte, há, sim, a ameaça. Quanto à indústria farmacêutica, é notório que as decisões sobre pesquisa/investimento em medicamentos são inapelavelmente regidas por critérios mercadológicos. Se se pretende combater a ameaça, é imperiosa a iniciativa estatal...
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
CPI: O SCRIPT DE SEMPRE
"Farsa, como sabe a imprensa, é fingir que as CPIs não são assim."
(Janio de Freitas, em sua coluna de hoje no jornal Folha de São Paulo, intitulada "Se é crime, são dois" - aqui -, revelando que, 62 dias atrás, a Folha divulgou notícia de molde idêntico ao alardeado como "farsa" pela revista Veja em sua última edição, só que daquela feita sobre o treinamento ministrado pelo governo de São Paulo aos parlamentares do PSDB escalados para defendê-lo na CPI aprovada pelo Congresso Nacional para investigar o cartel do metrô.
Pano rápido).
OLD PHOTO
O escritor Wander Piroli. Belo Horizonte, 1988.
De Fernando Rabelo:
No final da década de 1980, eu passava pela esquina da Rua Espírito Santo com Rua Tupis quando encontrei o escritor, jornalista e contista mineiro Wander Piroli (1931-2006), engraxando os sapatos no meio da calçada. Não hesitei e fiz o registro desse personagem, que era adorado pelos amigos.
Dois contos de Piroli estão na antologia “Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal”, e outro na antologia “Os 100 melhores contos do século”. (Fonte: aqui).
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Wander Piroli visitou o Piauí nos anos 80. Grande figura, bom de papo, refinado contista. Autor do clássico 'A mãe e o filho da mãe'.
De Fernando Rabelo:
No final da década de 1980, eu passava pela esquina da Rua Espírito Santo com Rua Tupis quando encontrei o escritor, jornalista e contista mineiro Wander Piroli (1931-2006), engraxando os sapatos no meio da calçada. Não hesitei e fiz o registro desse personagem, que era adorado pelos amigos.
Dois contos de Piroli estão na antologia “Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal”, e outro na antologia “Os 100 melhores contos do século”. (Fonte: aqui).
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Wander Piroli visitou o Piauí nos anos 80. Grande figura, bom de papo, refinado contista. Autor do clássico 'A mãe e o filho da mãe'.
PROMESSAS, PROMESSAS
Os super-poderes de Eduardo Campos
Por Igor Felippe
O sistema de tributação é um dos grandes problemas nacionais.
Não existe uma alma viva que acredite que o complexo de dezenas de impostos seja bom para o Brasil.
Assim, a questão é outra. Não é suficiente fazer o diagnóstico correto do problema, mas apontar como fazer a tal reforma tributária.
Objetivamente, mudar pra valer o modelo de tributação implica tirar de uns e dar para outros.
Fazer a reforma tributária mexe diretamente com estados e municípios, capital industrial, comercial e bancário, setores exportadores e importadores, ricos e pobres, empresários e trabalhadores.
No entanto, ninguém aceita perder.
Aí que a porca torce o rabo.
Qualquer candidato pode prometer fazer a reforma tributária – assim como pode prometer o céu na terra.
Sem responder como conseguir um nível de unidade política que viabilize a aprovação de uma proposta no Congresso, o mantra “reforma tributária” não passa de uma profissão de fé.
Nesta terça-feira, o candidato à presidência da República, Eduardo Campos, prometeu fazer a reforma tributária.
E foi além: vai modificar o sistema de tributação sem aumentar impostos para ninguém.
Ou seja, o candidato acredita que é possível fazer uma mudança no sistema tributário sem ganhadores e perdedores.
A conclusão é a seguinte: Eduardo Campos colocará de forma abnegada à disposição da Nação os seus super-poderes para fazer milagres…
Abaixo, leia reportagem da Agência Brasil.
*****
Campos diz que fará reforma tributária sem aumento de
imposto
Por Isabela Vieira
O candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) se comprometeu hoje (5) a fazer uma reforma tributária, se eleito, sem aumento de impostos. Durante encontro com entidades representativas dos fiscos municipais, estaduais e federal, no Rio de Janeiro, ele recebeu documento que propõe reduzir a tributação sobre as classes de menor renda. O texto defende uma arrecadação progressiva e com menor carga sobre o consumo. (Clique aqui para continuar).
Por Isabela Vieira
O candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) se comprometeu hoje (5) a fazer uma reforma tributária, se eleito, sem aumento de impostos. Durante encontro com entidades representativas dos fiscos municipais, estaduais e federal, no Rio de Janeiro, ele recebeu documento que propõe reduzir a tributação sobre as classes de menor renda. O texto defende uma arrecadação progressiva e com menor carga sobre o consumo. (Clique aqui para continuar).
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As promessas vão se sucedendo; localizar uma razoável é que são elas. O comportamento é recorrente: investem numa pretensa ingenuidade do eleitorado.
Uma do Aécio, na CNA: insinuou esvaziar o papel do Banco do Brasil no agronegócio, ignorando a expertise do BB e sua capilaridade, sem contar o montante de recursos despendidos a cada ciclo e o volume de operações. Pegou mal, mas, providencialmente, em sua cobertura diária o solícito Jornal Nacional tratou de suprimir esse tópico da fala do candidato...
JUDEUS BRASILEIROS PELA PAZ
Faixa 'paz agora', em hebraico, do grupo Habonim Dror: solução pelo diálogo
Intelectuais judeus brasileiros colocam em xeque conflito na Faixa de Gaza
Por Patrícia Dichtchekenian
A operação “Margem Protetora” dividiu a comunidade internacional entre o direito de defesa do Estado de Israel contra o Hamas e a crítica em relação às mortes “desproporcionais” de civis palestinos. Entre denúncias de antissemitismo de um lado e de limpeza étnica de outro, intelectuais judeus brasileiros colocam em xeque decisões tomadas pelo governo de Netanyahu e debatem perspectivas diferentes às da comunidade judaica tradicional.
“Não acredito que a existência de nós, judeus, no presente e no futuro, dependa da existência de um Estado judeu - argumento utilizado por aqueles que sustentam a defesa militar israelense por quaisquer meios que justificam o fim”, afirma o antropólogo Marcelo Gruman a Opera Mundi. “Recuso-me a acumpliciar-me com esta agressão. O Exército israelense e o governo ultranacionalista não me representam”, completa.
Para Gruman, a “sacralização do holocausto” serviu como justificativa do governo israelense para permitir ações como a operação “Margem Protetora”, em funcionamento na Faixa de Gaza há pelo menos quatro semanas. “Não aceito a justificativa de que o holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial seja o exemplo claro de que apenas um lar nacional único e exclusivamente judaico seja capaz de proteger a etnia da extinção”, diz.
São Paulo: leitura do jornal 'Nossa Voz', na Casa do Povo
No curto prazo, o antropólogo não vê paz. Para ele, tanto o Hamas quanto os religiosos e nacionalistas israelenses “demonizam o outro e estão contaminados pela intolerância do discurso religioso, pela convicção de que o ‘outro negativo’ deve ser eliminado, porque é inferior”, diz. “Espero, apenas, que o discurso do ódio não se espalhe e que as novas gerações de palestinos e israelenses aprendam a conviver em paz e harmonia, num mesmo espaço geográfico”, pondera.
O sionismo também é um humanismo
Para Sérgio Storch, professor de gestão organizacional e militante sindical, um dos pontos que atrapalha o debate acerca do conflito é um grande preconceito e desinformação da sociedade em relação ao sionismo – muitas vezes vinculado como um extremismo judeu e até como uma espécie de imperialismo. Segundo Storch, há muitos tipos de sionismo, inclusive o sionismo humanista.
“O sionismo é uma identificação afetiva com Israel, independentemente de quem está à frente da chefia do Estado. Não se trata de uma questão religiosa, mas é um idealismo que se cultiva. Nesse sentido, o sionismo é amplo e sempre teve uma vertente de tudo; da direita à esquerda, do conservadorismo ao progressismo”, diz.
Fundador de grupos como o Shalom Salaam Paz e a rede JuProg (Rede Brasileira de Judeus Progressistas), Storch se caracteriza como um crítico ao governo de Netanyahu, mas jamais contra o princípio do Estado de Israel.
“Infelizmente, a hegemonia do governo é uma coalizão de direita, com colonos dos assentamentos, religiosos fanáticos e fascistas. Jamais serei contra Israel, mas sou engajado em ver esse governo cair”, explica.
Casa do Povo: centro cultural valoriza o debate e as artes
Na última semana, Storch ajudou a organizar uma dinâmica com movimentos juvenis judaicos progressistas em São Paulo. Grupos como Habonin Dror, Hashomer Hatzair, Chazit Hanoar e Fórum 18 se encontraram pela primeira vez para debater o atual conflito. “A principal marca da reunião foi um despertar da consciência dos jovens, que não encontram em seus pais fontes de esclarecimento para o conflito, pois a comunidade judaica brasileira é muito desinformada”, afirma.
“Toda essa garotada é crítica ao governo israelense. Estão muito perplexos com o que está acontecendo e agora correm atrás de informações. Estou articulando com pessoas de gerações mais maduras pra ajudarmos os jovens a avançarmos a um sionismo progressista e crítico”, conta.
“Eu acredito que esse conservadorismo vai mudar, não pelas forças internas israelenses, mas pela pressão internacional e principalmente pelas forças que estão despertando nas comunidades judaicas internacionais. Eu vejo um futuro positivo, mas que depende do amadurecimento da esquerda israelense”, completa Storch.
Feminismo pela paz
Na luta pela resolução do conflito, há uma série de grupos em Israel a favor da paz e que têm um posicionamento diferente do governo de Israel, aponta a psicóloga Rachel Moreno, judia sefardita nascida no Egito. E alguns dos que se destacam são feministas, conta.
Um deles é o “Bat Shalom”, organização feminista formada por mulheres judias e árabes israelenses que trabalham juntas por direitos humanos e por uma resolução pacífica para o conflito entre Israel e Palestina. Outro é o “Women in Black”, movimento contra guerra fundado por mulheres israelenses em Jerusalém em 1988 após a Primeira Intifada.
“Via de regra, as mulheres são as principais vitimas de um conflito armado, embora haja, nesse caso específico, diferentes posturas”, analisa Moreno. “Por exemplo, as mulheres de Israel servem ao Exército e participam do serviço militar. Apesar disso, elas também sofrem e lidam com as sirenes, com o medo de perderem seus filhos”, diz.
“Na mesma linha, entre as palestinas, há aquelas que topam e aderem se sacrificar pela pátria e permitem que suas crianças usem uma cinta de explosivos, assim como há aquelas que sofrem e choram pela escolha de seus filhos em se arriscar pela causa”, completa Moreno.
Ode ao debate inteligente
“É muito complicado discutir esse tema. Somos moderados, mas ainda dissonantes em relação à comunidade judaica, marcada por um sionismo de direita que não conversa com outras vozes”, afirma Jairo Degenszajn, presidente do centro cultural israelita Casa do Povo. “Acredito que as federações que estão na liderança não representam todas as opiniões da comunidade”, completa.
Com mais de 60 anos de tradição, a Casa do Povo retomou suas atividades culturais - que incluem exposições, espaço de debates e temporadas teatrais - no ano passado. “Nós assinamos um manifesto proposto por instituições judaicas progressistas bastante crítico em relação à situação que acontece em Gaza. Nós sempre tivemos uma visão universalista mais cultural, não territorial ou religiosa”, explica.
Aos olhos de Degenszajn, este conflito não pode ser analisado isoladamente, mas deve ser entendido a partir de um contexto histórico. “Para ter um mínimo de conversa, temos que partir da premissa de que para discutir paz na região é preciso o reconhecimento de dois Estados para dois povos, não a extinção de um deles. Além disso, acredito que os argumentos de autodefesa são insuficientes pra justificar a questão de paz”, diz.
Segundo Degenszajn, a tarefa de dialogar com todas as partes torna-se mais complexa, tendo em vista fenômenos como o ‘self-hating’, isto é, quando os próprios judeus sofrem hostilidades dentro da comunidade judaica – como foi o caso da pensadora Hannah Arendt. “Nossa proposta é gerar discussões minimamente inteligentes, sem que se caia em ‘brigas de torcida’. Se queremos esse tipo de debate, um lugar para isso é a Casa do Povo”, conclui. (Fonte: aqui).
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O artigo acima foi redigido antes da trégua em curso, mas o propósito deste blog é ressaltar a seguinte contradição: enquanto integrantes da própria comunidade judaica protestam contra a desproporcionalidade e selvageria dos atos praticados por Israel e pedem a paz imediata, lideranças evangélicas brasileiras oferecem apoio integral a Netanyahu e, Malafaia à frente, condenam o Brasil por haver emitido nota deplorando o massacre infligido por Israel aos palestinos.
Fanatismo é por aí.
Intelectuais judeus brasileiros colocam em xeque conflito na Faixa de Gaza
Por Patrícia Dichtchekenian
A operação “Margem Protetora” dividiu a comunidade internacional entre o direito de defesa do Estado de Israel contra o Hamas e a crítica em relação às mortes “desproporcionais” de civis palestinos. Entre denúncias de antissemitismo de um lado e de limpeza étnica de outro, intelectuais judeus brasileiros colocam em xeque decisões tomadas pelo governo de Netanyahu e debatem perspectivas diferentes às da comunidade judaica tradicional.
“Não acredito que a existência de nós, judeus, no presente e no futuro, dependa da existência de um Estado judeu - argumento utilizado por aqueles que sustentam a defesa militar israelense por quaisquer meios que justificam o fim”, afirma o antropólogo Marcelo Gruman a Opera Mundi. “Recuso-me a acumpliciar-me com esta agressão. O Exército israelense e o governo ultranacionalista não me representam”, completa.
Para Gruman, a “sacralização do holocausto” serviu como justificativa do governo israelense para permitir ações como a operação “Margem Protetora”, em funcionamento na Faixa de Gaza há pelo menos quatro semanas. “Não aceito a justificativa de que o holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial seja o exemplo claro de que apenas um lar nacional único e exclusivamente judaico seja capaz de proteger a etnia da extinção”, diz.
Além disso, o antropólogo critica certa “visão etnocêntrica”, reproduzida pelas gerações pós-Guerra, que reforça que a dor vivida pelos judeus seja superior a qualquer dor sofrida por outros grupos étnicos. “Certa vez, ouvi de um sobrevivente de campo de concentração que não há comparação entre o genocídio judaico e os genocídios praticados atualmente nos países africanos, por exemplo, em Ruanda. Como este senhor ousa qualificar o sofrimento alheio? O sangue de uns vale mais que o sangue de outros?”, questiona.
São Paulo: leitura do jornal 'Nossa Voz', na Casa do Povo
No curto prazo, o antropólogo não vê paz. Para ele, tanto o Hamas quanto os religiosos e nacionalistas israelenses “demonizam o outro e estão contaminados pela intolerância do discurso religioso, pela convicção de que o ‘outro negativo’ deve ser eliminado, porque é inferior”, diz. “Espero, apenas, que o discurso do ódio não se espalhe e que as novas gerações de palestinos e israelenses aprendam a conviver em paz e harmonia, num mesmo espaço geográfico”, pondera.
O sionismo também é um humanismo
Para Sérgio Storch, professor de gestão organizacional e militante sindical, um dos pontos que atrapalha o debate acerca do conflito é um grande preconceito e desinformação da sociedade em relação ao sionismo – muitas vezes vinculado como um extremismo judeu e até como uma espécie de imperialismo. Segundo Storch, há muitos tipos de sionismo, inclusive o sionismo humanista.
“O sionismo é uma identificação afetiva com Israel, independentemente de quem está à frente da chefia do Estado. Não se trata de uma questão religiosa, mas é um idealismo que se cultiva. Nesse sentido, o sionismo é amplo e sempre teve uma vertente de tudo; da direita à esquerda, do conservadorismo ao progressismo”, diz.
Fundador de grupos como o Shalom Salaam Paz e a rede JuProg (Rede Brasileira de Judeus Progressistas), Storch se caracteriza como um crítico ao governo de Netanyahu, mas jamais contra o princípio do Estado de Israel.
“Infelizmente, a hegemonia do governo é uma coalizão de direita, com colonos dos assentamentos, religiosos fanáticos e fascistas. Jamais serei contra Israel, mas sou engajado em ver esse governo cair”, explica.
Casa do Povo: centro cultural valoriza o debate e as artes
Na última semana, Storch ajudou a organizar uma dinâmica com movimentos juvenis judaicos progressistas em São Paulo. Grupos como Habonin Dror, Hashomer Hatzair, Chazit Hanoar e Fórum 18 se encontraram pela primeira vez para debater o atual conflito. “A principal marca da reunião foi um despertar da consciência dos jovens, que não encontram em seus pais fontes de esclarecimento para o conflito, pois a comunidade judaica brasileira é muito desinformada”, afirma.
“Toda essa garotada é crítica ao governo israelense. Estão muito perplexos com o que está acontecendo e agora correm atrás de informações. Estou articulando com pessoas de gerações mais maduras pra ajudarmos os jovens a avançarmos a um sionismo progressista e crítico”, conta.
“Eu acredito que esse conservadorismo vai mudar, não pelas forças internas israelenses, mas pela pressão internacional e principalmente pelas forças que estão despertando nas comunidades judaicas internacionais. Eu vejo um futuro positivo, mas que depende do amadurecimento da esquerda israelense”, completa Storch.
Feminismo pela paz
Na luta pela resolução do conflito, há uma série de grupos em Israel a favor da paz e que têm um posicionamento diferente do governo de Israel, aponta a psicóloga Rachel Moreno, judia sefardita nascida no Egito. E alguns dos que se destacam são feministas, conta.
Um deles é o “Bat Shalom”, organização feminista formada por mulheres judias e árabes israelenses que trabalham juntas por direitos humanos e por uma resolução pacífica para o conflito entre Israel e Palestina. Outro é o “Women in Black”, movimento contra guerra fundado por mulheres israelenses em Jerusalém em 1988 após a Primeira Intifada.
“Via de regra, as mulheres são as principais vitimas de um conflito armado, embora haja, nesse caso específico, diferentes posturas”, analisa Moreno. “Por exemplo, as mulheres de Israel servem ao Exército e participam do serviço militar. Apesar disso, elas também sofrem e lidam com as sirenes, com o medo de perderem seus filhos”, diz.
“Na mesma linha, entre as palestinas, há aquelas que topam e aderem se sacrificar pela pátria e permitem que suas crianças usem uma cinta de explosivos, assim como há aquelas que sofrem e choram pela escolha de seus filhos em se arriscar pela causa”, completa Moreno.
Ode ao debate inteligente
“É muito complicado discutir esse tema. Somos moderados, mas ainda dissonantes em relação à comunidade judaica, marcada por um sionismo de direita que não conversa com outras vozes”, afirma Jairo Degenszajn, presidente do centro cultural israelita Casa do Povo. “Acredito que as federações que estão na liderança não representam todas as opiniões da comunidade”, completa.
Com mais de 60 anos de tradição, a Casa do Povo retomou suas atividades culturais - que incluem exposições, espaço de debates e temporadas teatrais - no ano passado. “Nós assinamos um manifesto proposto por instituições judaicas progressistas bastante crítico em relação à situação que acontece em Gaza. Nós sempre tivemos uma visão universalista mais cultural, não territorial ou religiosa”, explica.
Aos olhos de Degenszajn, este conflito não pode ser analisado isoladamente, mas deve ser entendido a partir de um contexto histórico. “Para ter um mínimo de conversa, temos que partir da premissa de que para discutir paz na região é preciso o reconhecimento de dois Estados para dois povos, não a extinção de um deles. Além disso, acredito que os argumentos de autodefesa são insuficientes pra justificar a questão de paz”, diz.
Segundo Degenszajn, a tarefa de dialogar com todas as partes torna-se mais complexa, tendo em vista fenômenos como o ‘self-hating’, isto é, quando os próprios judeus sofrem hostilidades dentro da comunidade judaica – como foi o caso da pensadora Hannah Arendt. “Nossa proposta é gerar discussões minimamente inteligentes, sem que se caia em ‘brigas de torcida’. Se queremos esse tipo de debate, um lugar para isso é a Casa do Povo”, conclui. (Fonte: aqui).
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O artigo acima foi redigido antes da trégua em curso, mas o propósito deste blog é ressaltar a seguinte contradição: enquanto integrantes da própria comunidade judaica protestam contra a desproporcionalidade e selvageria dos atos praticados por Israel e pedem a paz imediata, lideranças evangélicas brasileiras oferecem apoio integral a Netanyahu e, Malafaia à frente, condenam o Brasil por haver emitido nota deplorando o massacre infligido por Israel aos palestinos.
Fanatismo é por aí.
RAUL SEIXAS, 25 ANOS
25 anos da morte de Raul Seixas: um artista reduzido a um bordão
Por Marcelo Moreira
A essência do rock nacional pode ser resumida apenas a um bordão. Ou melhor, o artista que simboliza o rock brasileiro ficou reduzido a um bordão. Por uma dessas injustiças históricas que às vezes abalroam um mito, o famigerado e inacreditável “Toca Rauuuuullll'' que se ouve em bares e em shows, em tom de chacota, a cada dia se torna mais forte, a ponto de, em alguns momentos, suplantar a importância de Raul Seixas, que morreu há 25 anos em São Paulo. Não há como negar: a chatice do bordão, tornando-o insuportável e pejorativo, colou no artista de uma forma desagradável. Raul Seixas não merecia isso.
Por Marcelo Moreira
A essência do rock nacional pode ser resumida apenas a um bordão. Ou melhor, o artista que simboliza o rock brasileiro ficou reduzido a um bordão. Por uma dessas injustiças históricas que às vezes abalroam um mito, o famigerado e inacreditável “Toca Rauuuuullll'' que se ouve em bares e em shows, em tom de chacota, a cada dia se torna mais forte, a ponto de, em alguns momentos, suplantar a importância de Raul Seixas, que morreu há 25 anos em São Paulo. Não há como negar: a chatice do bordão, tornando-o insuportável e pejorativo, colou no artista de uma forma desagradável. Raul Seixas não merecia isso.
A coisa é tão complicada que, dependendo da situação, o pedido de “Toca Raul'' provoca brigas e confusões, como narrei anos atrás o que ocorreu em um bar na região de Campinas, quando um bêbado encheu tanto a paciência da banda que estava no palco que provocou uma briga generalizada.
O mito superou a realidade? O bordão faz justiça à carreira do cantor baiano? Na verdade, isso tudo faz alguma diferença? Amado a ponto de ser considerado messias por uns, e contestado por outros, considerado um artista superestimado e superdimensionado por outros, Raul Seixas conseguiu o que só roqueiros ingleses e americanos obtiveram: tornou-se um símbolo de um gênero musical no Brasil.
Não é possível falar de rock por aqui sem lembrar de Raul, tamanha a a sua onipresença – para o bem e para o mal. Diante da fragilidade do gênero musical no Brasil, em especial nos anos 60 e 70, e da falta de verdadeiros concorrentes à altura, ficou fácil para o cantor baiano tomar conta de tudo – só Rita Lee era capaz de rivalizar com ele.
Mutantes e Secos & Molhados? Não tiveram metade do carisma e da presença artística do cantor baiano. Falta de competência da concorrência? Pode ser, mas isso não era problema de Raul, que teve os seus méritos para aglutinar a cativar a aura mítica de messias e de gênio, ainda que não o fosse.
Em terra arrasada, qualquer vestígio de competência é um grande impulso para o estrelato eterno.
Em terra arrasada, qualquer vestígio de competência é um grande impulso para o estrelato eterno.
Culpa de Raul? Sim, por ter demonstrado competência e e inteligência em um mercado que quase nunca soube entender o que era rock, o seu poder e o seu significado. Mesmo a aproximação frequente com artistas da MPB não foi suficiente para nublar a postura e a imagem que ele assumiu para si: a do roqueiro esperto, malandro, inteligente, astuto e ousado, com pitadas de maluquice beleza.
Sua relevância pode ser medida pela escolha de Bruce Springsteen quando tocou no Brasil n ano passado: o cantor e guitarrista norte-americano, em cada país onde tocou em sua turnê mundial, abria os shows com uma música importante de um artista importante do país local. Nos shows de São Paulo e no Rock in Rio 2013, abriu suas apresentações com “Sociedade Alternativa'', um hit de Raul Seixas.
Ninguém melhor do que ele fez isso no Brasil, e nada mais justo do que Raulzito se tornar sinônimo de rock nacional no Brasil – para o bem e para o mal, seja pelo pioneirismo , seja pela esperteza ou mesmo inteligência mercadológica. Esses méritos são indiscutíveis, mesmo que tenha dado origem a um messianismo insuportável e a uma deificação injustificável.
Legado incontestável, obra nem tanto
Músico razoável e cantor nem tanto, Raul Seixas teve o grande mérito de cair de cabeça no rock and roll primeiro do que todo mundo neste país tropical e de avançar até onde nenhum artista brasileiro na época ousou.
Seixas era radical e culto, tinha estofo para se mostrar contestador sem ser revolucionário. Tinha jeito e coragem (ou inconsequência) para ser provocador como Chico Buarque foi em algumas de suas letras.
Se os Secos & Molhados chocavam e posavam de transgressores por conta das maquiagens e posturas de palco, Seixas e seu jeitão de hippie deslocado mostrava que ia muito mais além na transgressão com o mergulho fundo no rock e nos aditivos ilícitos – em vários momentos ao lado do amigo doidão e letrista ocasional Paulo Coelho.
O problema é que Raul Seixas foi o único a fazer isso, a fazer rock realmente em uma era dominada por uma música popular supostamente de protesto mas que pouco ou nada serviu de alento, ao menos culturalmente.
Era a mesma MPB engessada de sempre, calcada na canção e no samba, com ecos da bossa nova encardida e plagiada do jazz norte-americano e na farsa do Tropicalismo, envolto em pseudo-intelectualismo barato.
Raul foi muito mais além do que qualquer um em sua época, e tem méritos por isso. Se é que existiu alguma forma de transgressão nos anos 70, época de chumbo do regime militar, essa transgressão era Raul Seixas.
E o músico baiano teve a sorte grande de ter sido o único a fazer isso de forma tão intensa, e usou o rock, o melhor instrumento para esse tipo de transgressão (ou suposta transgressão). E grande parte de sua fama decorre justamente disso, da falta de concorrentes à altura.
Por conta disso, o mito Raul Seixas – artista radical, maldito, marginal – se sobrepõe à real qualidade de sua obra musical, que nunca passou de mediada. Sua melhor música é no máximo razoável. Ok, nunca foi a ambição dele, em termos musicais, de ser inovador, ambicioso ou ousado em demasia. Inovação não era com ele, e isso fica claro em sua obra.
O trabalho do cantor baiano, que foi executivo de gravadora no começo dos aos 70, é milhões de vezes superior ao de qualquer artista que achava que fazia rock na época, como Secos & Molhados e os Mutantes, mas ainda assim não passava de razoável.
Suas músicas se tornaram trilha sonora da contracultura e de certa pseudointelectualidade de esquerda por ser palatável e adaptável aos lugares comuns dos discursinhos chatos e vazios de estudantes equivocados.
Também era a trilha sonora perfeita para ambientes pseudopolíticos infectos, como centros acadêmicos de faculdades – a maioria de quinta de categoria – e botecos de pinga nas proximidades das mesmas faculdades. E, com certeza, 85% dessa gente que se apropriou da obra de Raulzito ignorava por completo o significado das letras – e, dependendo da música, acho que até o próprio autor desconhecia.
Ainda que a importância da obra de Raul Seixas seja incontestável, assim como sua figura como símbolo máximo/sinônimo do rock brasileiro, em termos musicais não para constatar: é artista superestimado e cujo mito é muito maior do que a qualidade de sua obra. E o mito ainda tem mais força do que se imagina, pois ainda é capaz de impregnar duas gerações após a sua morte com “sua mensagem”.
Não creio que era esse o destino que o músico baiano imaginava para o seu legado: quase ser suplantado por um bordão e virar trilha sonora de gente equivocada e com pouca bagagem intelectual de um lado; de outro, de se tornar sinônimo de chatice e inconveniência com o bordão “Toca Raul!”.
Ele merecia isso? Eu achava que sim, por conta da chatice de muitas de suas músicas. Mudei de ideia: reavaliando, ele não merecia passar por isso, justamente porque, goste-se ou não (e eu não gosto que seja assim, a a vida é assim), ele se tornou sinônimo de rock brasileiro. Jamais poderia ter sido reduzido a um bordão. Quem sabe não seja por isso, entre tantas outras coisas, que o rock nacional tenha mergulhado em tamanho ostracismo?
(Clique AQUI para ir à fonte e ouvir, no rodapé da matéria, 'player' com o programa Combate Rock sobre Raul Seixas - clássicos e crítica).
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Raulzito era simplesmente filho do rockabilly, rock and roll ingênuo dos garotões dos anos 50, originário de cantores negros de Blues, gênero que deu origem a inúmeras bandas e astros norte-americanos (Elvis...) e a grupos ingleses (The Beatles, The Rolling Stones...), que sacudiram (também) a juventude brasileira, culminando com a Jovem Guarda. O baiano Raulzito integrou a banda 'Os Relâmpagos do Rock' (depois 'The Panthers', depois 'Raulzito e Os Panteras'), para em seguida passar a produtor da CBS, após o que retornou ao palco; amante da contracultura, firmou parcerias e expandiu suas próprias composições (com Paulo Coelho; no final, Marcelo Nova), e, de fato, não merecia ser reduzido a um bordão...
(Clique AQUI para ir à fonte e ouvir, no rodapé da matéria, 'player' com o programa Combate Rock sobre Raul Seixas - clássicos e crítica).
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Raulzito era simplesmente filho do rockabilly, rock and roll ingênuo dos garotões dos anos 50, originário de cantores negros de Blues, gênero que deu origem a inúmeras bandas e astros norte-americanos (Elvis...) e a grupos ingleses (The Beatles, The Rolling Stones...), que sacudiram (também) a juventude brasileira, culminando com a Jovem Guarda. O baiano Raulzito integrou a banda 'Os Relâmpagos do Rock' (depois 'The Panthers', depois 'Raulzito e Os Panteras'), para em seguida passar a produtor da CBS, após o que retornou ao palco; amante da contracultura, firmou parcerias e expandiu suas próprias composições (com Paulo Coelho; no final, Marcelo Nova), e, de fato, não merecia ser reduzido a um bordão...
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
GANGORRA DOS MUNDOS
1º Mundo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .3º Mundo
David Fitzsimmons. (EUA)
David Fitzsimmons. (EUA)
OS EUA E A PRIMAVERA ÁRABE (E ARREDORES)
A Líbia, no espelho do Afeganistão e do Iraque
Por Emir Sader
O que tem em comum o Afeganistão, o Iraque e a Líbia? Todos foram vitimas de brutais intervenções militares, que derrubaram seus governos e agora estão em franco processo de desagregação como países.
Com o fim da guerra fria, os EUA se tornaram a única superpotência e puderam impor a Pax Americana sem fronteiras. Avançaram tudo o que puderam no leste europeu e, sobretudo, no Oriente Médio. Não por acaso, os países que sofreram ocupações militares têm a ver com recursos energéticos, petróleo e/ou gás.
Os EUA passaram a valer-se da sua inquestionável superioridade militar para militarizar os conflitos. Foi assim na ocupação do Afeganistão, do Iraque. Mais de 10 anos depois, os EUA não se mostram capazes de resolver dois conflitos militares ao mesmo tempo, sua retirada militar se mostra uma farsa, enquanto ambos os países se encontram em processo de decomposição interna, com esfacelamento dos seus Estados, com a proliferação de grupos armados que disputam o poder.
Na Líbia, deturpando uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que havia decidido por uma proteção à população civil, a OTAN montou uma gigantesca operação militar, que bombardeou a Líbia durante seis meses, ao mesmo tempo que armava grupos opositores internos. Não havia nessa ação nada que se parecesse a proteção da população civil. Uma operação que desembocou na queda do regime de Kadafi e na sua morte, de maneira muito similar ao que havia acontecido no Iraque.
A primavera árabe se havia iniciado com grandes movimentos populares no Egito e na Tunísia, que derrubaram ditaduras no poder há décadas, apoiadas pelas potências ocidentais. Tentou-se estender à Líbia essa onda, algumas pessoas de esquerda, na Europa, chegaram a enganar-se com isso, mas logo ficou claro que não havia nada similar à primavera árabe na Líbia, não se tratava de movimentos populares contra o regime, mas de uma operação militar da OTAN.
A ocupação do Afeganistão e do Iraque, há já mais de uma década, apresenta países desfeitos. Mesmo eleições fantasmas realizadas recentemente e legitimadas pelos EUA não conseguiram trazer legitimidade mínima aos governos eleitos com mínima participação popular. No Afeganistão dois candidatos reivindicam a vitória e não reconhecem o triunfo do outro. No Iraque, os próprios EUA consideram que o presidente reeleito do pais é um obstáculo para a tentativa de construção de um governo minimamente abrangente no pais, enquanto os curdos ocupam mais territórios no norte, e os islâmicos radicais ocuparam a segunda cidade da Líbia, incluídos importantes poços de petróleo, e ameaçam avançar sobre Bagdá.
A Líbia também teve eleições há pouco tempo, no começo de agosto deveria tomar posse o novo Parlamento, em meio a lutas já não apenas políticas, mas abertamente militares entre facções armadas. Em Bengházi, cidade em que mais se concentrou a repartição de armamentos aos grupos internos opostos ao regime de Kadafi, há enfrentamentos militares abertos, ao mesmo tempo que o aeroporto da capital está praticamente destruído pela disputa entre dois grupos militares. Um incêndio em poços de petróleo ameaça provocar um desastre de proporções incontroláveis no pais.
Afeganistão, Iraque e Líbia tem em comum serem vitimas de ocupações militares das potências ocidentais que, nos dois primeiros casos, destruíram algumas das mais antigas e avançadas civilizações do mundo. A Líbia apresenta, por sua vez, penosas imagens de uma sociedade destruída, abandonada agora por todas as mais importantes representações diplomáticas, entregue a seu destino. (Fonte: aqui).
A FOTO
(Concurso National Geographic 2014. Batida no estado do Colorado, EUA, pelo esloveno Marko Korosev).
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Foto. Nuvem. Marko Korosev. National Geographic.
O BAÚ DO RAUL
Gravação de outra edição d'O Baú do Raul' lembra os 25 anos sem Seixas
A morte de Raul Seixas (28 de junho de 1945 - 21 de agosto de 1989) completa 25 anos neste mês de agosto de 2014. A data vai ser lembrada com a gravação ao vivo de outra edição do projeto O Baú do Raul. Agendada para 19 de agosto em show na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro (RJ), a gravação ao vivo vai dar origem a CD e a DVD editados ainda neste ano de 2014 pela gravadora Som Livre - nos mesmos moldes do CD e DVD O baú do Raul - Uma homenagem a Raul Seixas (2004), lançados pela mesma Som Livre há dez anos. O elenco da edição de 2014 d'O baú do Raul inclui Ana Cañas, BNegão, Baia, Cachorro Grande, Edy Star, Forfun, Jerry Adriani, Gabriel Moura, Marcelo Jeneci, Marcelo Nova, Maria Gadú, Nasi (com Edgard Scandurra), Os Panteras, Plebe Rude, Rick Ferreira, Tico Santa Cruz, Zeca Baleiro e cia. (Fonte: aqui).
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Raul Seixas, o Raulzito, iniciou sua saga na MPB criando um grupo de rock, foi produtor da CBS, fez versões de 'rockabillies' no período da Jovem Guarda e voltou 'solo' ao palco para projetar-se como cantor e compositor de rocks baladas. 25 anos depois de sair de cena, continua na memória dos amantes da música - apesar de contratempos, como veremos em post a seguir.
EUA: COMO ESTÚDIOS DE CINEMA APOIARAM O NAZISMO
Hollywood nazista
Por Ana Weiss (revista IstoÉ)
Pesquisador mostra como MGM, Paramount, Warner Brothers e Fox apoiaram a ascensão de Hitler adequando seus filmes à propaganda nazista e financiando a produção alemã de armamentos
Adolf Hitler disse em “Minha Luta” que os livros não serviam para nada. Que um escritor jamais poderia mudar a opinião do homem comum. Para o líder, o filme demandava menos do cérebro, exigindo a leitura de no máximo textos curtos: as legendas. Ele mesmo, conta o pesquisador Bem Urwand em “A colaboração”, só parava de falar na frente de um filme, qualquer que fosse o filme. A sétima arte foi eleita por Hitler como a mais importante arma de propaganda nazista. O que o livro do pesquisador australiano, da Universidade Harvard, revela agora é como Hollywood serviu aos interesses do Reich – algo que os grandes estúdios, indústrias altamente lucrativas até hoje, tentaram deletar de sua história.
Jack Warner, da Warner Brothers, por exemplo, tomou a iniciativa de convidar o ascendente partido nazista a participar das decisões das suas produções, antes que elas fossem finalizadas e distribuídas pelo mundo. Ninguém tinha pedido. “Existe um mito que diz que os irmãos Warner lutavam avidamente contra o fascismo, mas eles foram os primeiros a tentar agradar aos nazistas”, descreve o autor, municiado de documentos como cartas, relatórios timbrados e assinados e fotografias dos governos alemão e americano esparsos em arquivos diferentes pelo mundo, que cotejou com algumas dezenas de reportagens de veículos como o “Washington Post”, a “Variety” e a “Hollywood Reporter”. Nas gavetas hollywoodianas, porém, não encontrou mais nada que confirmasse a colaboração de empresas como a Paramount, a Warner e a MGM durante toda a década de 1930 com a propaganda nazista.
Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o mercado alemão representava uma fatia gorda do faturamento da indústria cinematográfica americana. Para garantir a distribuição alemã, os estúdios alteraram o conteúdo de filmes a favor da supremacia da raça ariana e cortaram das narrativas personagens de origens judaica, indígena, negra ou ainda mulheres que não dependessem de homens. Jack Warner, que ordenou que a palavra “judeu” fosse retirada de todos os diálogos do filme “A Vida de Émile Zola”, de 1937, entrou para a história como um dos poucos magnatas do cinema americano a resistir ao fascismo, por ter feito “Confissões de um Espião Nazista”. O que o historiador mostra é que mesmo esse longa passou pelo crivo dos auxiliares do Führer – ou seja, o único filme declaradamente antinazista da época mostrava o que os alemães queriam que o mundo entendesse por seus pontos negativos.
Urwand esclarece que o argumento de que as atrocidades cometidas pela Alemanha não eram inteiramente reportadas pela imprensa não procede. Os noticiários transmitiam, sim, a existência de extermínios civis e muitas formas de violência, além dos assassinatos e outros crimes cometidos dentro dos campos de concentração. Ainda assim, a cúpula hollywoodiana – quase toda formada por descendentes de judeus – fez quase tudo o que a Alemanha nazista quis para manter a distribuição de seus produtos e ficar bem com o Reich. Depois da rendição, o governo americano promoveu uma excursão em território alemão com quase todos os grandes de Los Angeles. Os donos de estúdio não se sensibilizaram com o desejo dos vencedores da guerra em pintar a verdade sobre os seus inimigos. Eles tinham na gaveta dezenas de filmes que não haviam estreado. Não tinham por que investir em novos roteiros e produções e por muitos anos abasteceram as salas da Alemanha com os filmes até então banidos com adjetivos como “nocivos” ou “enervantes”. (Fonte: aqui).
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O texto acima foi publicado em IstoÉ, mas optei por colocar como fonte (clique no 'aqui', acima) o jornal GGN, em razão dos vários comentários lá expostos, em especial os que alertam para o fato de que a postura de Hollywood se revestiu de caráter 'pragmático', e não necessariamente ideológico. Em outras palavras, teria pesado o interesse financeiro. Mas outras particularidades merecem alusão, como a 'simpatia' que o nazismo mereceu de fatia ponderável da sociedade americana, até a entrada dos EUA na Grande Guerra. Consta que Roosevelt 'suou' para obter a adesão da massa ao combate a Hitler... (E depois, para fazer com que Getúlio concordasse em declarar guerra ao Reich).
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O texto acima foi publicado em IstoÉ, mas optei por colocar como fonte (clique no 'aqui', acima) o jornal GGN, em razão dos vários comentários lá expostos, em especial os que alertam para o fato de que a postura de Hollywood se revestiu de caráter 'pragmático', e não necessariamente ideológico. Em outras palavras, teria pesado o interesse financeiro. Mas outras particularidades merecem alusão, como a 'simpatia' que o nazismo mereceu de fatia ponderável da sociedade americana, até a entrada dos EUA na Grande Guerra. Consta que Roosevelt 'suou' para obter a adesão da massa ao combate a Hitler... (E depois, para fazer com que Getúlio concordasse em declarar guerra ao Reich).
terça-feira, 5 de agosto de 2014
O PROVIDENCIAL ESCÂNDALO ENTRE ASPAS
"Perguntas de aliados do depoente, em CPI, jamais, em qualquer tempo e em qualquer país, fugiram a este princípio: destinam-se a ajudar o depoente. Nem teria sentido que fosse o contrário entre aliados. Tal princípio explica, por exemplo, o motivo das lutas pela composição das CPIs sérias, o que não é o caso das duas simultâneas a pretexto da Petrobras --dose dupla cujo despropósito denuncia a sua finalidade de apenas ajudar eleitoralmente a oposição.
De aliado para aliado, nem o improviso em indagações surpreende o indagado. Mesmo que sugerido por uma situação de momento, segue as instruções já dadas pela liderança ou as combinações na bancada. Mais ainda, as perguntas e respostas previamente ajustadas, entre inquiridor e depoente, sempre foram e serão condutas lógicas e, pode-se supor, as mais frequentes entre correligionários nas CPIs. Assim como fazem todos os advogados ao preparar seus clientes para depoimentos policiais e judiciais.
O escarcéu em torno do jogo de parceiros, entre inquiridores governistas e depoentes da Petrobras, é o escândalo da banalidade. Bem conhecida de jornalistas, que provavelmente vão explicar qual é a fraude existente, e a que tanto se referem, na colaboração de condutas sempre vista por eles nas CPIs. A explicação é conveniente por ser bem possível que a fraude não esteja na conduta de integrantes da CPI, mas em outras.
Este e os demais capítulos do caso Petrobras, à margem da importância que possam ter ou não, ficam na mastigação de chicletes por estarem nas mãos da oposição mais preguiçosa de quantas se viu por aqui. As lideranças do PSDB e do DEM ficam à espera do que a imprensa publique, para então quatro ou cinco oposicionistas palavrosos saírem com suas declarações de sempre e com os processos judiciais imaginados pelo deputado-promotor Carlos Sampaio. Não pesquisam nada, não estudam nada, apenas ciscam pedaços de publicações para fazer escândalo. Com tantos meses de falatório sobre Petrobras e seus dirigentes, o que saiu de seguro (e não é muito) a respeito foi só por denúncias à imprensa. Mas a Petrobras sangra, enquanto serve de pasto eleitoral. (...)."
(De Jânio de Freitas, jornalista, na Folha de São Paulo, artigo intitulado "O banal faz escândalo" - aqui).
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