terça-feira, 5 de agosto de 2014
FALIDOS FUTEBOL CLUBE...
Fonte: Estadão.
Rotina consagrada: certas diretorias se locupletam, confiando em benesses governamentais futuras, saem numa boa - para muitas vezes retornarem triunfantes, como, ao que se informa, está prestes a acontecer com o Vasco da Gama. E assim segue o futebol tupiniquim.
Nota: As reticências no título são cabíveis. A íntegra é a seguinte: FALIDOS FUTEBOL CLUBE - O CLUBE, NÃO OS DIRIGENTES.
Adendo: AQUI: Bom Senso vence, e lei para salvar clubes fica para depois da eleição.
Rotina consagrada: certas diretorias se locupletam, confiando em benesses governamentais futuras, saem numa boa - para muitas vezes retornarem triunfantes, como, ao que se informa, está prestes a acontecer com o Vasco da Gama. E assim segue o futebol tupiniquim.
Nota: As reticências no título são cabíveis. A íntegra é a seguinte: FALIDOS FUTEBOL CLUBE - O CLUBE, NÃO OS DIRIGENTES.
Adendo: AQUI: Bom Senso vence, e lei para salvar clubes fica para depois da eleição.
DAS (AUTO)ARMADILHAS MIDIÁTICAS
V. Kazanevsky.
O jornalismo busca-pé
Por Luciano Martins Costa
Se é possível definir as características da mídia tradicional do Brasil neste período pós-Copa do Mundo, pode-se dizer que o jornalismo se tornou errático, como um desses rojões de festa junina chamados de busca-pé.
Se o observador atento empilhar as primeiras páginas dos principais diários de circulação nacional e analisar as manchetes e os títulos das reportagens principais, vai concluir que a nossa imprensa anda desorientada.
Trata-se, porém, de uma interpretação equivocada: os jornais apenas parecem não ter um rumo, mas há por trás de cada decisão editorial uma lógica e um objetivo claro.
Infelizmente, para os editores, os fatos de cada dia não pedem licença para acontecer. A sensação de inconstância que pode ser produzida pela leitura dos jornais nasce da determinação dos editores de buscar uma finalidade específica em todos os tipos de evento.
Sem mais disfarces, a imprensa hegemônica no Brasil tem se dedicado a instrumentalizar os acontecimentos com o objetivo de promover uma visão específica de mundo, que é explicitada constantemente nos editoriais e nos principais artigos das editorias de opinião.
Para o leitor constatar esse fenômeno, basta começar a leitura pelos textos opinativos, em vez de priorizar as manchetes: ali vai encontrar uma espécie de guia para interpretar praticamente tudo o que um jornal considera essencial em cada dia.
Eventualmente, esse modelo de jornalismo pode produzir contradições, mas quem se importa?
Os editores parecem considerar que o mundo é refundado a cada nova edição e, portanto, o que foi dito hoje pode ser reinterpretado de maneira exatamente oposta amanhã, dependendo de quem é beneficiado ou prejudicado pela notícia.
A informação em si deixa de ser importante: o que vale é convencer o leitor de que a interpretação que o jornal dá aos fatos é a única correta.
Obediência aos dogmas
Essa característica é escancarada no noticiário político, onde as preferências dos jornais se manifestam de maneira mais homogênea e mais explícita. Mas também se pode observar como a opinião pré-existente define a visão sobre os fatos da economia, que por sua vez reflete o viés político a priori.
Nesse círculo onde o valor de cada notícia é condicionado por um conjunto de dogmas que não podem ser questionados, não há possibilidade de se produzir uma visão inovadora do contexto social onde os fatos acontecem. Uma interpretação conservadora sempre se impõe sobre qualquer evento.
Mesmo quando os jornais falam, por exemplo, de inovação, o leitor que está familiarizado com esse tema, que acompanha os debates internacionais sobre o assunto, sente imediatamente o cheiro de mofo das coisas velhas.
No noticiário econômico dos jornais chamados genéricos, há um limite claro para a interpretação dos indicadores, de medidas oficiais e decisões de negócios. Os jornais especializados abordam a conjuntura econômica de maneira mais equilibrada e estimulam a reflexão, ao apresentar detalhes dos fatos específicos de cada setor e das empresas mais destacadas.
Os jornais genéricos criam uma conjuntura econômica de conveniência política, a partir de fatos selecionados arbitrariamente, para produzir o cenário que convém ao seu propósito de determinar a opinião dos eleitores.
Esse raciocínio pode ser aplicado, por exemplo, no caso que envolve uma análise divulgada pelo banco Santander, na qual há uma clara interferência no debate eleitoral. Depois da reação do governo federal, o presidente do banco vem repetindo que se tratou de um equívoco, que o banco não pensa daquela maneira e que os responsáveis teriam sido demitidos sumariamente. O presidente do Santander sabe quanto pode perder ao comprometer publicamente a instituição com um dos lados da política, se esse lado for derrotado nas eleições.
Nesta quarta-feira (30/7), os jornais se dão conta da armadilha que criaram para si mesmos. Juntando lé com cré, no ambiente de baixa densidade reflexiva das redações, chega-se à perigosa conclusão de que o episódio pode colocar em dúvida o acerto de futuras análises feitas pelo mercado, que a imprensa costuma acatar como se fossem manifestações dos deuses.
Então, o busca-pé da imprensa ricocheteia e já busca outra direção. (Fonte: aqui).
................
Por volta de 2010, Judith Brito, então presidente da Associação Nacional de Jornais, declarou que, diante da fragilidade da oposição ao governo federal, esse papel deveria ser assumido pela mídia (como, aliás, já se vinha observando). A recomendação de Judith foi seguida à risca. Mas, como todo desvirtuamento tem seu preço, parcela razoável do público pode se dar conta da dessintonia entre avaliações formuladas e realidade.
Dessintonia? Como assim? Isso mesmo. Em 2013, por exemplo, depois de a mídia repercutir contundentes injeções de pessimismo aplicadas por analistas econômicos em geral e de seu staff - as quais certamente desestimularam investimentos privados Brasil afora e inibiram o consumo por parte do público -, martelou-se insistentemente que o PIB 2013 não passaria de 1,9%. Encerrado o ano, anunciou-se o PIB: 2,3%, conforme se vê aqui, percentual que colocou o Brasil entre os melhores desempenhos no mundo. Pergunta-se: a quanto o indicador teria chegado se a onda de pessimismo desenfreado não tivesse acontecido?
Que persistem gargalos no modelo econômico do Brasil é fato - mas isenção ao ponderá-los é essencial.
O jornalismo busca-pé
Por Luciano Martins Costa
Se é possível definir as características da mídia tradicional do Brasil neste período pós-Copa do Mundo, pode-se dizer que o jornalismo se tornou errático, como um desses rojões de festa junina chamados de busca-pé.
Se o observador atento empilhar as primeiras páginas dos principais diários de circulação nacional e analisar as manchetes e os títulos das reportagens principais, vai concluir que a nossa imprensa anda desorientada.
Trata-se, porém, de uma interpretação equivocada: os jornais apenas parecem não ter um rumo, mas há por trás de cada decisão editorial uma lógica e um objetivo claro.
Infelizmente, para os editores, os fatos de cada dia não pedem licença para acontecer. A sensação de inconstância que pode ser produzida pela leitura dos jornais nasce da determinação dos editores de buscar uma finalidade específica em todos os tipos de evento.
Sem mais disfarces, a imprensa hegemônica no Brasil tem se dedicado a instrumentalizar os acontecimentos com o objetivo de promover uma visão específica de mundo, que é explicitada constantemente nos editoriais e nos principais artigos das editorias de opinião.
Para o leitor constatar esse fenômeno, basta começar a leitura pelos textos opinativos, em vez de priorizar as manchetes: ali vai encontrar uma espécie de guia para interpretar praticamente tudo o que um jornal considera essencial em cada dia.
Eventualmente, esse modelo de jornalismo pode produzir contradições, mas quem se importa?
Os editores parecem considerar que o mundo é refundado a cada nova edição e, portanto, o que foi dito hoje pode ser reinterpretado de maneira exatamente oposta amanhã, dependendo de quem é beneficiado ou prejudicado pela notícia.
A informação em si deixa de ser importante: o que vale é convencer o leitor de que a interpretação que o jornal dá aos fatos é a única correta.
Obediência aos dogmas
Essa característica é escancarada no noticiário político, onde as preferências dos jornais se manifestam de maneira mais homogênea e mais explícita. Mas também se pode observar como a opinião pré-existente define a visão sobre os fatos da economia, que por sua vez reflete o viés político a priori.
Nesse círculo onde o valor de cada notícia é condicionado por um conjunto de dogmas que não podem ser questionados, não há possibilidade de se produzir uma visão inovadora do contexto social onde os fatos acontecem. Uma interpretação conservadora sempre se impõe sobre qualquer evento.
Mesmo quando os jornais falam, por exemplo, de inovação, o leitor que está familiarizado com esse tema, que acompanha os debates internacionais sobre o assunto, sente imediatamente o cheiro de mofo das coisas velhas.
No noticiário econômico dos jornais chamados genéricos, há um limite claro para a interpretação dos indicadores, de medidas oficiais e decisões de negócios. Os jornais especializados abordam a conjuntura econômica de maneira mais equilibrada e estimulam a reflexão, ao apresentar detalhes dos fatos específicos de cada setor e das empresas mais destacadas.
Os jornais genéricos criam uma conjuntura econômica de conveniência política, a partir de fatos selecionados arbitrariamente, para produzir o cenário que convém ao seu propósito de determinar a opinião dos eleitores.
Esse raciocínio pode ser aplicado, por exemplo, no caso que envolve uma análise divulgada pelo banco Santander, na qual há uma clara interferência no debate eleitoral. Depois da reação do governo federal, o presidente do banco vem repetindo que se tratou de um equívoco, que o banco não pensa daquela maneira e que os responsáveis teriam sido demitidos sumariamente. O presidente do Santander sabe quanto pode perder ao comprometer publicamente a instituição com um dos lados da política, se esse lado for derrotado nas eleições.
Nesta quarta-feira (30/7), os jornais se dão conta da armadilha que criaram para si mesmos. Juntando lé com cré, no ambiente de baixa densidade reflexiva das redações, chega-se à perigosa conclusão de que o episódio pode colocar em dúvida o acerto de futuras análises feitas pelo mercado, que a imprensa costuma acatar como se fossem manifestações dos deuses.
Então, o busca-pé da imprensa ricocheteia e já busca outra direção. (Fonte: aqui).
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Por volta de 2010, Judith Brito, então presidente da Associação Nacional de Jornais, declarou que, diante da fragilidade da oposição ao governo federal, esse papel deveria ser assumido pela mídia (como, aliás, já se vinha observando). A recomendação de Judith foi seguida à risca. Mas, como todo desvirtuamento tem seu preço, parcela razoável do público pode se dar conta da dessintonia entre avaliações formuladas e realidade.
Dessintonia? Como assim? Isso mesmo. Em 2013, por exemplo, depois de a mídia repercutir contundentes injeções de pessimismo aplicadas por analistas econômicos em geral e de seu staff - as quais certamente desestimularam investimentos privados Brasil afora e inibiram o consumo por parte do público -, martelou-se insistentemente que o PIB 2013 não passaria de 1,9%. Encerrado o ano, anunciou-se o PIB: 2,3%, conforme se vê aqui, percentual que colocou o Brasil entre os melhores desempenhos no mundo. Pergunta-se: a quanto o indicador teria chegado se a onda de pessimismo desenfreado não tivesse acontecido?
Que persistem gargalos no modelo econômico do Brasil é fato - mas isenção ao ponderá-los é essencial.
BASQUIAT
Andy Warhol (David Bowie) e Basquiat (Jeffrey Wright), em filme de 1996.
Basquiat - Traços de uma vida
Por Marden Machado
Antes de dirigir filmes, o americano Julian Schnabel teve uma bem sucedida carreira pintando quadros da corrente neo-expressionista. Curiosamente, seu longa de estreia é uma cinebiografia do talentoso artista Jean-Michel Basquiat, que começou grafitando e depois aderiu ao neo-expressionismo. O próprio Schnabel escreveu o roteiro, com a colaboração de Michael Holman, a partir de histórias de Lech J. Majewski e John Bowe. O filme acompanha o jovem Basquiat (Jeffrey Wright), do tempo em que ele era um imigrante haitiano e mendigava nas ruas, até seu sucesso na alta sociedade nova-iorquina. Apoiado, em grande parte, pelo consagrado Andy Warhol (David Bowie). Basquiat - Traços de Uma Vida procura resgatar a vida e, principalmente, a obra deste artista que veio das ruas e tornou-se depois uma grande referência. Schnabel queria dar o máximo de veracidade ao filme. Apesar do elenco estelar de coadjuvantes, ele insistiu em dar o papel-título a um ator pouco conhecido. Jeffrey Wright, que tinha no currículo poucos trabalhos no cinema e na televisão, além da incrível semelhança física com o retratado, revelou-se um ator de primeira. O que fica no final é o olhar de Schnabel sobre Basquiat. A maneira como ele chegou ao topo e, em especial, a forma como sua arte foi comercializada em um mercado sedento continuamente por novidades. (Continua aqui).
................
Desenhos de Basquiat estão entre os mais presentes neste blog, desde os primórdios. Baita ilustrador.
Basquiat - Traços de uma vida
Por Marden Machado
Antes de dirigir filmes, o americano Julian Schnabel teve uma bem sucedida carreira pintando quadros da corrente neo-expressionista. Curiosamente, seu longa de estreia é uma cinebiografia do talentoso artista Jean-Michel Basquiat, que começou grafitando e depois aderiu ao neo-expressionismo. O próprio Schnabel escreveu o roteiro, com a colaboração de Michael Holman, a partir de histórias de Lech J. Majewski e John Bowe. O filme acompanha o jovem Basquiat (Jeffrey Wright), do tempo em que ele era um imigrante haitiano e mendigava nas ruas, até seu sucesso na alta sociedade nova-iorquina. Apoiado, em grande parte, pelo consagrado Andy Warhol (David Bowie). Basquiat - Traços de Uma Vida procura resgatar a vida e, principalmente, a obra deste artista que veio das ruas e tornou-se depois uma grande referência. Schnabel queria dar o máximo de veracidade ao filme. Apesar do elenco estelar de coadjuvantes, ele insistiu em dar o papel-título a um ator pouco conhecido. Jeffrey Wright, que tinha no currículo poucos trabalhos no cinema e na televisão, além da incrível semelhança física com o retratado, revelou-se um ator de primeira. O que fica no final é o olhar de Schnabel sobre Basquiat. A maneira como ele chegou ao topo e, em especial, a forma como sua arte foi comercializada em um mercado sedento continuamente por novidades. (Continua aqui).
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Desenhos de Basquiat estão entre os mais presentes neste blog, desde os primórdios. Baita ilustrador.
Marcadores:
Cinema. Cinemarden. Basquiat. Marden Machado.
DIREITO DE RESPOSTA
"É um precedente preocupante para o livre exercício do jornalismo, pois pode constranger futuramente a divulgação de novas denúncias, prejudicando o direito das pessoas serem informadas."
(Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), a propósito da decisão do ministro Dias Toffoli de indeferir pedido de liminar interposto pela Folha de São Paulo, cabendo-lhe, em decorrência, publicar retratação solicitada por candidato do PSB-PE - conforme matéria "Entidades temem precedente criado por direito de resposta" - aqui.
Comentário de Luis Nassif, no jornal GGN: "A denúncia é um ângulo da informação que chega ao leitor. O direito de resposta é um segundo ângulo, que apresenta o contraponto. Com o direito de resposta o leitor tem acesso a dois ângulos da informação.
A ANJ quer provar que 1 + 1 é inferior a 1.
O direito de resposta só inibirá as denúncias infundadas, os assassinatos de reputação, a tentativa de jogar todos os abusos embaixo do manto da liberdade de imprensa. Nenhuma reportagem bem fundamentada será destruída pelo direito de resposta".lhar este conteúdo, utilize o link:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,entidades-temem-precedente-criado-por-direito-de-resposta,1537910
Observação irretocável).terial jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,entidades-temem-precedente-criado-por-direito-de-resposta,1537910
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
GAZA E O BLOGUEIRO CELERADO
Você pode continuar lendo o artigo AQUI. (https://archive.today/RPf3M )
O jornal on-line The Times of Israel removeu o artigo, excluiu o blogueiro e qualificou o artigo como condenável, ignorante, flagrantemente contra sua linha editorial. O artigo também apareceu no The 5 Towns Jewish Times, de onde foi igualmente removido com pedido de desculpas dos editores. Esta última publicação foi fundada por Larry Gordon, pai do blogueiro, que publicou em 18 de julho um artigo com idéias semelhantes, no qual defende que civis inocentes em Gaza são um nonsense.
O blogueiro persistiu na defesa de suas ideias pelo tuíter, mas também terminou apresentando desculpas pelo artigo. (Fonte: aqui).
................
A despeito de tantos absurdos (como a morte de quase 300 crianças e o ataque, ontem, a mais uma escola da ONU, classificado de ultrajante) e evidências (como os US$ 225 milhões doados a Israel pelos EUA, para, entre outros fins, suprimento do Domo de Ferro, eficaz sistema antimíssil), há quem gostaria de ver o completo teor do(s) pedido(s) de desculpas. Nonsense à parte.
ESPERNEIO DIVERSIONISTA
"O “novo escândalo” da Veja, sobre suposto vazamento de perguntas — que de qualquer forma seriam tornadas públicas — aos que foram ouvidos na CPI da Petrobras me parece uma manobra diversionista para mudar de assunto. Tirar o noticiário de Cláudio e Montezuma e trazer Dilma Rousseff mais uma vez para o domínio absoluto das manchetes.
Quando eu era repórter da TV Globo, em 2005, antecedendo minha primeira cobertura de eleições presidenciais no Brasil — havia morado quase duas décadas nos Estados Unidos –, uma investigação que fizemos sobre caixa 2 em Goiás acabou em uma das CPIs que trabalhavam simultaneamente em Brasília.
Vi com meus próprios olhos uma importante jornalista da Globo, de alta patente, que me ciceroneava em um ambiente desconhecido, visitando gabinetes de deputados e senadores para troca de informações. No do então deputado ACM Neto, que participaria do depoimento do homem investigado por nós, houve até entrega de documentos e sugestão de perguntas. Eu vi isso acontecer e, francamente, não me espantei.
Se o objetivo de uma CPI é esclarecer os fatos, não há perguntas, nem assuntos secretos. Os depoentes devem trazer todos os esclarecimentos que forem necessários à opinião pública. A existência de parlamentares de diferentes correntes políticas é garantia de que teremos todo tipo de pergunta, das “levantadas de bola” às “pegadinhas”, das críticas às bajulatórias. Bancadas inteiras combinam estratégias. Não há motivo para guardar nenhuma informação em sigilo, se se pretende de fato esclarecer o assunto.
Qual é o problema de perguntas serem organizadas para facilitar os esclarecimentos do depoente? Isso não significa que ele vá responder apenas àquelas perguntas, já que a oposição estará presente. O problema está nas mentiras do depoente, não nas perguntas feitas a ele. Não há nada de errado quando um governo tenta vender à opinião pública sua versão dos fatos, desde que a oposição possa, igualmente, fazê-lo. Vamos combinar que não falta espaço na mídia à oposição brasileira, certo?
Portanto, trata-se de uma denúncia tola, transformada em manchete por uma gravação subterrânea, vendida como “comprometedora”. (...)."
(Jornalista Luiz Carlos Azenha, em seu blog, post intitulado "'Denúncia' de Veja, repercutida em 4 minutos e 42 segundos no Jornal Nacional, faz lembrar ofensiva midiática de 2006".
A matéria objeto da CPI é notoriamente pública. A imprensa já divulgou detalhadas informações sobre o tema, de modo que as perguntas a serem formuladas eram previsíveis, e, detalhe crucial, a oposição também tem/teria o direito de formulá-las na amplitude que entendesse cabível e, evidentemente, sem o prévio conhecimento dos depoentes.
Convém lembrar que o caso Pasadena - com as informações levantadas pela Polícia Federal - já foi objeto de análise pelo Tribunal de Contas da União, que responsabilizou onze diretores da Petrobras, e isentou a Presidente da República.
De qualquer modo, aguardemos os desdobramentos, inclusive quanto ao caso dos aeroportos mineiros).
domingo, 3 de agosto de 2014
IVAN LESSA: LONG PLAYS SÃO PARA SEMPRE
Guazzelli.
Sonho de Ivan Lessa era estacionar no passado
Por Ruy Castro
Quando os CDs surgiram e tomaram a indústria fonográfica, em fins dos anos 80, todos os patetas do mundo nos desfizemos de nossas coleções de LPs. Era como se, de repente, aquele formato de disco que por 40 anos nos servira tão bem - e no qual nos habituáramos a ouvir a perfeição - se tornasse portador de lepra.
Sonho de Ivan Lessa era estacionar no passado
Por Ruy Castro
Quando os CDs surgiram e tomaram a indústria fonográfica, em fins dos anos 80, todos os patetas do mundo nos desfizemos de nossas coleções de LPs. Era como se, de repente, aquele formato de disco que por 40 anos nos servira tão bem - e no qual nos habituáramos a ouvir a perfeição - se tornasse portador de lepra.
Tínhamos de nos livrar deles e trocá-los pelos reluzentes CDs, embora, até então, só uma parcela mínima de títulos já estivesse no novo formato. E, de quebra, precisávamos aposentar também os toca-discos - subitamente arcaicos, mesmo que fossem um Thorens, um Colaro ou um MK II da Technics.
No Natal de 1992, quando fui visitar Ivan Lessa em Londres pela primeira vez, surpreendi-me quando ele tirou um LP de Billy Eckstine de uma estante vergada por milhares de LPs. "Mas você ainda tem esses discos?", perguntei. Ele me encarou como se eu lhe tivesse perguntado por que ainda não cortara um braço. Em resposta, tartamudeou algo parecido com "E por que eu me desfaria deles?".
Ivan estava certo. Conservou sua monumental coleção, iniciada em 1948 (ano de surgimento do LP), e, a partir de 1990, apenas enriqueceu-a com CDs que não tinham um antepassado em vinil. Nunca abandonou suas obras-primas de Eckstine, Dick Haymes, Tony Martin, Herb Jeffries, Al Hibbler, Billy Daniels, George Byron - cantores de graves profundos, seus favoritos - e de outros que descobriu nos anos 50, quando ninguém ainda ouvira falar deles no Rio: Bobby Short, Mabel Mercer, Blossom Dearie, Hugh Shannon, Joe Mooney, Bobby Troup.
Sem prejuízo, claro, dos incontornáveis e eternos, como Sinatra, Crosby, Astaire, Tormé, Nat Cole, Billie, Sarah Vaughan, Peggy Lee, Doris Day e centenas de outros. Ivan podia falar de igual para igual com qualquer conhecedor de música americana - mas engana-se quem o imagina um desenraizado musical.
IMITAÇÕES
Sambas, marchinhas de Carnaval, valsas, sambas-canções - na verdade, toda a pré-bossa nova: era espantosa a quantidade de letras e melodias brasileiras que Ivan trazia na cabeça, e que exibia à menor solicitação. E, de tanto saber cantá-las, dominou também as vozes dos cantores. Sua imitação de Silvio Caldas era hilariante, assim como fazia à perfeição o cantor brasileiro que ele mais admirava - Lucio Alves.
E, certa vez, em Londres, sua imitação de Billy Eckstine assustou o próprio Mr. B., quando Ivan o entrevistou para a BBC. A diferença de timbres entre Silvio, Lucio e Eckstine não diz algo sobre o alcance da voz de Ivan?
Ter conservado sua coleção de discos era apenas normal para ele. Não se joga fora o passado --era o que sempre parecia dizer.
Guardava tudo na memória: o rosto das ex-namoradas, a embalagem de dezenas de marcas de cigarros, a formação da orquestra Sauter-Finegan em 1950, o time de aspirantes do Botafogo em 1954, a sequência de lojas comerciais - uma a uma, no sentido Leme-Posto 6 - da avenida Nossa Senhora de Copacabana, os nomes dos pianistas, porteiros e leões-de-chácara de todas as boates do Rio e as intimidades de figurões da literatura, do jornalismo e do teatro com quem convivera desde criança, amigos de sua mãe, a cronista Elsie Lessa (alguns desses amigos eram Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, Tônia Carrero).
E era uma longa memória, porque ele começou tudo muito cedo - aos 15 anos, em 1950, já tinha trabalhado como ator em dois filmes e fumava quatro maços de cigarros por dia.
Quando o conheci, no Rio, em 1972, Ivan acabara de voltar de Londres, para onde fora, pela primeira vez, em 1968 (e, por isso, não participou da aventura da revista "Diners", dirigida por seu amigo Paulo Francis, nem esteve, ao contrário do que se publicou, entre os fundadores do "Pasquim").
Ao olhar em torno, em seu apartamento de cobertura no Leme, e vendo as paredes abarrotadas de LPs, eu me perguntava como seria transportar aquilo tudo pelo oceano, do Rio a Londres, ida e volta, sem quebrar um disco.
Tempos depois, Ivan se mudou para outro apartamento, na rua Bolívar, sempre na praia, e lá se foram de novo as caixas e caixas de discos, desta vez nos caminhões da Gato Preto. Mas os amigos sabiam que, se um ataque marciano derretesse toda a coleção de Ivan, ele a teria inteira na cabeça --cada orquestração, cada letra, cada interpretação.
Em Londres, para onde voltou (para sempre) em 1978, Ivan foi morar em South Kensington, um bairro de predinhos baixos, cobertos de hera, e românticos pátios e jardins internos. James M. Barrie situou ali a casa de Wendy e seus irmãos em "Peter Pan" (1911), e Walt Disney explorou-o lindamente em seu desenho de 1953, botando todo mundo para voar sobre aqueles tetos.
Uma vizinhança bem de acordo com Ivan, que, a meu ver, sofria do complexo de Peter Pan, o garoto que não quis crescer. Contrariando sua natureza ("Nunca tive jeito para ser jovem", ele disse), Ivan queria ter estacionado em algum lugar do passado --e, com perdão pela psicologia de galinheiro, quem sabe sua impaciência e neurastenia, que às vezes se abatiam sobre afetos e desafetos, não fossem pela constatação daquela impossibilidade.
Nos últimos 20 anos, fomos a Londres várias vezes, e muito por causa de Ivan --numa dessas, em janeiro de 1993, com direito a uma esticada em Paris, Ivan e Elisabeth, eu e Heloisa. Atravessando uma rua perto do Louvre, ele me disse que, quando morresse, morreriam de vez com ele vários personagens importantes de Ipanema, já falecidos, dos quais ele ainda era dos poucos a se lembrar.
Quais? "Liliane Lacerda de Menezes, Zequinha Estelita, Josef Guerreiro, Rony 'Porrada', Carlos Thiré." Perguntei sobre eles. Ele me deu a ficha de cada um, e ali tive a ideia de, um dia, fazer um livro que seria uma "enciclopédia" de Ipanema e se chamaria "Ela é Carioca" (o livro saiu em 1999).
A lembrança de Ivan atravessando ruas e falando depressa, driblando carros, atropelando ideias, como se não pudesse perder tempo para se expressar, contrasta dolorosamente com as de apenas dez anos depois, em Londres, quando subíamos juntos a seu apartamento, no quarto andar do predinho sem elevador, e ele chegava lá em cima sem conseguir respirar.
Ou das últimas vezes em que foi nos encontrar na rua, para irmos às suas queridas lojas de discos --Dress Circle, Ray's Jazz Shop, Mole Jazz, Templar Records. Ivan acreditava que era preciso ir todos os dias às lojas, porque, quem sabe, um único exemplar de determinado disco só apareceria certo dia e, justo neste, outro colecionador iria lá e o compraria. Vindo de qualquer pessoa, essa obsessão seria neurótica. Em Ivan, fazia sentido.
Ivan detestava quando brasileiros o informavam da morte de um de seus velhos amigos no Rio. Ele não queria saber. Mas, nos últimos anos, a morte o cercou - ele perdeu Paulo Francis, José Lewgoy, sua mãe Elsie, o radialista Jader de Oliveira (seu colega de BBC e melhor amigo em Londres), Millôr Fernandes, muitos mais. O mundo estava ficando cada vez mais despovoado e, pelo que ele dizia nos e-mails, só faltava ele.
Finalmente partiu, em junho último, aos 77 anos, como se a carroça-fantasma estivesse atrasada para vir pegá-lo. (Folha de São Paulo, edição de 01.07.2012).
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Mais sobre Ivan Lessa, AQUI.
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Mais sobre Ivan Lessa, AQUI.
DE COMO GAZA VIROU UM RUÍDO DE FUNDO
Joe Sacco: Ocidente se acostumou às imagens de Gaza
Por Rodolfo Bartolini
Um ruído de fundo, com vidas sendo esmagadas, ao qual o Ocidente se acostumou. É assim que o premiado cartunista e jornalista Joe Sacco, autor das reportagens em quadrinhos “Palestina” e “Notas de Gaza”, se refere às imagens do atual conflito entre israelenses e palestinos.
O autor maltês, de 53 anos, tornou-se em 1996 uma lenda no mundo dos quadrinhos – e uma fonte respeitada sobre o conflito no Oriente Médio – ao inaugurar um novo gênero com a publicação de “Palestina”, volume que mescla trabalho de reportagem jornalística com a narrativa típica dos gibis.
Sacco esteve na Cisjordânia e em Gaza entre dezembro de 1991 e 1992, colhendo o material que se transformaria em uma visão contundente da vida nos territórios ocupados por israelenses.
Em uma das passagens mais marcantes da graphic novel, ele observa o confronto de crianças palestinas, munidas de pedras, que atacam soldados israelenses, e fica em pânico com a situação, fugindo trêmulo do local em um táxi.
Treze anos depois, em 2009, Sacco voltaria ao tema do conflito com “Notas em Gaza”, em que investiga o massacre de 275 palestinos por tropas israelenses na cidade de Khan Younis e o assassinato de mais 111 palestinos em Rafah, ambos ocorridos em 1956.
Diante do capítulo atual do sangrento conflito, que desde o dia 8 de julho já deixou mais de 1.600 palestinos mortos, em sua ampla maioria civis, o Portal da Band conversou por e-mail com o quadrinista, que vive nos EUA, sobre o impacto das imagens da guerra no Ocidente.
Joe conta que, quando vê o registro imagético da guerra, “se entristece profundamente, preocupado com as pessoas que conhece e que não conhece” em Gaza. Ele alerta, porém, que o Ocidente se acostumou às cenas de horror que vêm da região.
“Essas imagens continuam chegando de Gaza, e do Oriente Médio em geral, como um relógio. Infelizmente, nós que estamos de fora aprendemos a viver com essas fotos e filmagens. É só um ruído de fundo, mas, claro, as vidas das pessoas estão sendo esmagadas”, lamenta.
Sacco não vê nenhuma conclusão positiva em um futuro próximo. “Ambos os lados querem paz, mas o que isso significa exatamente?”, questiona. “No caso israelense, isso parece significar tranquilidade. Eles querem continuar suas vidas e não os culpo por isso – é o que todo ser humano quer. Mas enquanto ocuparem a terra de outros e a mantiverem, e enquanto, junto com o Egito, bloquearem Gaza, não haverá tranquilidade”, analisa.
“A respeito do futuro, não sei responder se os Israelenses vão devolver a terra que tomaram na Cisjordânia ou se os palestinos irão perdoá-los. Quanto mais tempo durar a situação, mais difícil será resolvê-la”, acrescenta.
As dúvidas de Joe Sacco sobre o resultado do conflito também se refletem na possibilidade de uma nova incursão ao tema, com a criação de uma nova reportagem em quadrinhos. “Ainda não tenho certeza. Obviamente o que está acontecendo em Gaza tem a minha atenção.” (Fonte: aqui).
sábado, 2 de agosto de 2014
INFLAÇÃO, A VILÃ
A inflação cai
A inflação, que em março saltou para 0,92%, vem caindo desde então, sendo que "Em julho, o monitoramento semanal da FGV tem mostrado tendência de queda, puxada pelo item mais importante para a vida das pessoas: alimentação, a qual experimentou inflação negativa (deflação) de 0,25% na última semana de julho." - Fonte: aqui.
Diante dessa queda continuada, causa espécie o fato de todos os analistas consultados pela imprensa apontarem os "elevados custos da inflação" como responsáveis por qualquer entrave objeto de apreciação. Curiosamente (ou sintomaticamente), nenhum repórter questiona o entrevistado: "O senhor fala em inflação, mas ela está caindo desde o mês de abril...".
Até parece que o propósito é o de incutir no espectador a convicção de que a inflação é ascendente.
PAPO DE TÁXI
O taxista é reaça? Seja mais que ele
Por Leonardo Sakamoto
O que fazer quando um taxista começa a defender barbaridades na sua frente? Preso ao banco de trás, você pode pedir para parar e descer. Discutir com ele até o destino final. Ou jogar o mesmo jogo e ver o que acontece.
Resolvi colocar em prática a sugestão de uma amiga:
- Por favor, aeroporto de Congonhas. Pode ir pela Henrique Schaumann.
- É pra já.
[Na telinha de TV do táxi] Dois menores foram apreendidos, na madrugada desta terça-feira, após uma tentativa de roubo frustrada em Moema…]
- Olha só… Depois vem o pessoal dos direitos humanos e coloca tudo de volta nas ruas. Esse país não é sério. Dane-se que tem 14, 15, anos, tem que prender mesmo. Se tem idade para cometer crimes, tem idade para ir preso como se fosse de maior.
- (Silêncio meu)
- Tinha que contratar uns policiais fora do serviço para dar uma coça nessa molecada. Assim, aprendiam o que os pais não ensinaram.
- (Silêncio meu)
- Acho que tem que ter pena de morte. Vi na TV que nos Estados Unidos não tem crime porque tem pena de morte. Mata um ou dois desses com injeção e os outros vão pensar duas vezes antes de fazer porcaria.
- Olha eu concordo inteiramente com o que o senhor disse. E acho que tem que impedir essa gente pobre da periferia de ter filho. Esterilizar toda essa mulherada mesmo para que não dê à luz bandidinho de merda. Outra medida importante seria colocar uns portões nas entradas de favelas e bairros pobres e só deixar eles saírem de dia para trabalhar. E se não tiverem trabalho, não saem. Não sabe viver em sociedade, toque de recolher! E quando resolver essa questão, tem que ir para outras, botar as coisas em ordem. Vagabundo que faz barbeiragem no trânsito tem que ir preso, gente que pula a cerca em casa tem que ir preso, bêbado que fica enchendo a cara no bar e não trabalha tem que ir preso, quem sonega imposto tem que morrer! E sem essas coisas de julgamento, não. Faz e pronto, simples assim.
- O senhor é radical. Não sei se concordo com tudo isso não…
- Por quê? O senhor defende vagabundo, é isso? Defende vagabundo?
- Não, mas também não é assim.
- Assim como?
- Ah, não acho certo. Tem que ver quem é a pessoa e coisa e tal. Não pode fazer isso, não. Não acho justo.
O motorista não deu um pio até o destino final. Mas, certamente, vai pensar duas vezes da próxima vez.
Recomendo. Por uma vida com menos mimimi. (Fonte: aqui).
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Diria o outro: "Como o trajeto era meio longo, dava pra conversar pacientemente, apresentando argumentos contrários às posições do taxista...".
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Crônica. Taxista raça. Leonardo Sakamoto.
O NASCIMENTO DO BOLSA FAMÍLIA
O dia em que FHC rejeitou o Bolsa Família
Por Luis Nassif
A Bolsa Família é uma política de universalização da renda mínima com contrapartida de exigência de matricular as crianças na rede escolar.
Ao longo dos anos, tornou-se a principal vitrine do governo Lula, garantiu sua imagem internacional e pelo menos 12 anos de governo ao PT.
O consolo do PSDB é tentar atribuir a origem da política a FHC.
Analisando-se documentos da época, no entanto, constata-se que o cavalo do Bolsa Família passou duas vezes encilhado para o então presidente Fernando Henrique Cardoso – e nas duas vezes, ele deixou de montar.
A última vez foi dois anos apenas antes de Lula apostar na política e se consagrar.
Mais que isso: toda a política de educação do Ministério da Educação implementada a partir do segundo governo Lula, com ampliação das vagas escolares, aumento dos gastos com educação, ampliação dos campus universitários, expansão do instituto técnico, estava presente no Plano Nacional de Educação (PNE) de 2001, aprovado pela Câmara e pelo Senado. E todos esses itens foram vetados por FHC.
***
No início do primeiro governo FHC, o senador Eduardo Suplicy tentou avançar seu Programa de Renda Mínima. No dia 28 de abril de 1996 a Folha entrevistou os diversos Ministérios envolvidos com o tema.
Do Ministro do Trabalho Paulo Paiva (PTB) ouviu que "não podemos simplesmente criar um novo programa que se sobreponha aos atuais". Do Ministro da Previdência Reinhold Stephanes (PFL), ouviu que o governo já tinha programas de renda mínima "e pode aperfeiçoá-los". O Ministro do Planejamento José Serra saiu-se com um não-argumento típico dele. Não era contra, mas o projeto "não tem sido discutido no âmbito do governo". Era só começar a discutir.
Foi a primeira oportunidade perdida.
***
A ideia continuou crescendo. Anos depois, foi apropriada pelo então senador Antônio Carlos Magalhães (ACM ) que a incluiu no Plano Nacional de Educação.
O projeto foi aprovado na Câmara e no Senado e chegou para a sanção presidencial. Dizia o item 1.3, subitem 22: "Ampliar o Programa de Garantia de Renda Mínima associado a ações socioeducativas, de sorte a atender, nos três primeiros anos deste Plano, a 50% das crianças de 0 a 6 anos que se enquadram nos critérios de seleção da clientela e a 100% até o sexto ano."
E aí FHC mostrou sua pequena dimensão de homem público.
O item foi vetado sob o argumento de "contrariar o interesse público". E contrariava devido ao fato de "as metas propostas (...) implicam conta em aberto para o Tesouro Nacional, (...) o que não se compadece com o quanto estabelecido nos arts. 16 e 17 da Lei de Responsabilidade Fiscal".
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Não ficou nisso.
Pelas mesmas razões de "interesse público" foram vetados o item que definia uma meta mínima de 40% do ensino público superior através de parcerias com Estados; o Item que criava um Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Superior, para expansão da rede de instituições federais; o item que ampliava o programa de crédito educativo, associando-o ao processo de avaliação de instituições privadas.
E aí por diante.
Dois anos depois Lula assumiria o poder e montaria nos dois cavalões rejeitados por FHC. (Fonte: aqui).
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
MANCHETÔMETRO
Manchetômetro: massacre midiático é incontestável
Do blog O Cafezinho (mensagem a ele dirigida por aluna da UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro):
"(...). Acompanho o seu trabalho no Cafezinho e escrevo para te convidar a conhecer o Manchetômetro, um site sobre a cobertura das eleições na grande mídia (Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal Nacional) que nós do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública do Iesp lançamos semana passada. (...)." (Para continuar, clique aqui).
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Aqui - "O Manchetômetro e a imprensa partidária", por Luciano Martins Costa.
A DE ARGENTINA E DE ABUTRES
Quem atirou na Argentina?
Por Mark Weisbrot
Quando Cristina Kirchner concorreu à presidência da Argentina pela primeira vez, em 2007, havia um anúncio de campanha em que crianças pequenas respondiam à pergunta: “O que é FMI (Fundo Monetário Internacional)?” Elas davam respostas engraçadinhas e ridículas, tais como “FMI é um lugar com muitos animais”. O narrador, então, dizia: “Conseguimos fazer com que seus filhos e netos não saibam o que significa FMI.”
Até hoje, não há nenhum caso de amor entre o FMI e a Argentina. O Fundo articulou o terrível colapso econômico de 1998-2002 no país, bem como numerosas políticas fracassadas nos anos anteriores. Mas quando a Corte de Apelações para o Segundo Circuito dos EUA decidiu em favor dos fundos-abutres, que tentam receber o valor integral da dívida argentina, que compraram por 20 centavos o dólar, até mesmo o FMI foi contra.
De modo que muitos observadores surpreenderam-se (...) quando a Corte Suprema dos EUA recusou-se até mesmo a rever a decisão do tribunal. A Corte Suprema precisa de apenas quatro juízes para conceder petição para “certiorari”, ou rever a decisão de instância inferior, e este era um caso extremamente importante. A maioria dos especialistas concorda que ele tem sérias implicações para o sistema financeiro internacional. Ainda mais importante: a Corte de Apelações decidiu que, se a Argentina pagar os mais de 90% dos credores que aceitaram um acordo de reestruturação da dívida, entre 2005 e 2010, ela está obrigada também a pagar os fundos-abutres1.
O que significa isso? No final de 2001, em meio a uma recessão profunda e incapaz de financiar enormes pagamentos da dívida, a Argentina entrou em moratória. Foi a decisão certa; a economia do país iniciou uma recuperação robusta, apenas três meses depois. Quatro anos mais tarde, 76% dos credores aceitaram uma reestruturação da dívida, que incluiu a redução de cerca de dois terços do valor de seus créditos. Por volta de 2010, mais de 90% dos credores havia aderido, aceitando novos títulos no lugar dos anteriores.
A decisão do tribunal norte-americano significa que um fundo-abutre, ou qualquer credor “resistente”, pode impedir ou destruir um acordo anterior, negociado com o resto dos credores. Como não existe algo como uma lei de falências para os tomadores de empréstimo do governo, a decisão pode limitar severamente a capacidade de credores e devedores chegarem a acordos civilizados, em casos de crise da dívida soberana. Esta é uma grande ameaça ao próprio funcionamento dos mercados financeiros internacionais.
Então, por que a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu não julgar o caso? Talvez porque tenha sido influenciada por uma mudança de posição do governo norte-americano, que (a) teria convencido de que o caso não era tão importante. Ao contrário da França, Brasil, México e do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o governo dos EUA não entrou com um amicus curiae2 na Suprema Corte, apesar de ter feito uma apresentação, no caso. E – aqui está o grande mistério – tampouco o fez o FMI, embora tenha manifestado publicamente preocupação com o impacto dessa decisão.
Em 17 de julho de 2013, a diretora do FMI, Christine Lagarde, anunciou que o Fundo apresentaria um amicus curiae na Suprema Corte norte-americana. Então o Conselho do FMI reuniu-se e, de forma um tanto constrangedora, decidiu em sentido contrário, devido às objeções dos EUA. Essa poderia ser a razão pela qual a Suprema Corte não convidou o procurador-geral dos EUA para uma exposição e, ao final, não reviu o caso. Mas quem seria o responsável pela reviravolta de Washington?
Como em uma novela de Agatha Christie, há numerosos suspeitos de ter cometido a ação. O lobby dos fundos-abutres – um grupo bem relacionado, liderado por ex-integrantes do govenro Clinton –, conhecido como Grupo Americano de Ação Argentina, gastou mais de 1 milhão de dólares no caso, em 2013. Além disso, há os suspeitos usuais no Congresso, principalmente os neo-conservadores e a delegação da Flórida, que querem mudar o partido político no poder na Argentina após as eleições de outubro de 2015.
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1Fundos-abutres (“vulture-funds”, em inglês), são fundos que investem em “papéis-podres” – ou seja, títulos que perderam quase todo seu valor, nos mercados financeiros. O fundos-abutres compram estes títulos por uma parcela insignificante de sua cotação original, esperando lucrar mais tarde, quando o devedor se recuperar e a cotação de sua dívida subir. [Nota da Tradução]
2Amicus Curie (“Amigos da Corte”, em latim) é intervenção feita, num processo judicial, por uma pessoa ou entidade julgada representativa e que, não sendo ligada diretamente na disputa, tem interesse em influenciar seu desfecho. [Nota da Tradução]. (Fonte: aqui).
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A matéria acima ajuda a entender as razões pelas quais a Argentina cogita recorrer à Corte Internacional de Haia em defesa do seu direito soberano de celebrar - e honrar - acordos com pessoas civilmente capazes. Isto, caso persista o impasse no âmbito da justiça americana, sendo que se aguarda fato novo para esta sexta, 1º de agosto.
Nessa história, há quem esteja certo da existência de outros abutres, que não os que representam 7% dos credores...
SOBRE O CASO DO AEROPORTO
"A confissão tardia de que pousou algumas vezes no aeroporto de Cláudio, quando ele já era público mas não homologado pela ANAC, coloca a candidatura Aécio numa situação que, talvez, só a parte da imprensa que o apoia possa salvá-lo.
Agora, à luz do artigo do senador, publicado na Folha (31/7), gostaria de reiterar as questões que apresentei no artigo “O caos aéreo mineiro”, publicado neste site, e acrescentar mais um ou dois elementos igualmente complicados.
O senador afirma, ao final do artigo: “Mas reitero que a obra foi não apenas legal, mas transparente, ética e extremamente importante para o desenvolvimento do município e da região.”A primeira pergunta básica é: se esse aeroporto tem essa importância toda, como explicar que ele não consta em lista alguma do Proaero/MG?
Onde estão os estudos que mostram a viabilidade econômica de aportar R$ 14 milhões de recursos públicos num aeroporto que dista apenas 32 quilômetros do de Divinópolis, que já está equipado para atender demandas num raio de 100 quilômetros?
A resposta a essas questões permitirá esclarecer o conflito existente entre interesse público e privado.
Além desse ponto, restam as questões que fiz, ainda não respondidas adequadamente pelo artigo.
Se ainda não foi homologado pela ANAC, como Aécio o utiliza sabendo que é ilegal? Ou não sabe dessa ilegalidade?
Ele afirma que não sabia que era ilegal pousar naquele aeroporto, após as obras. Muito grave essa afirmação. Afinal, ele é senador da República, membro titular da Comissão de Constituição e Justiça. Como tal, pode alegar tudo, menos que não saiba que aeroportos não homologados pela ANAC não podem receber pousos e decolagens.
Mas a fragilidade dessa resposta ganha dimensão na questão colocada em seguida.
Se é verdade que Aécio utilizou o aeroporto algumas vezes por ano, como conseguiu passar pelo controle de voo, que sabe que ele não pode ser utilizado até homologação?
Nenhuma aeronave se destina a qualquer aeroporto sem que o comandante apresente o seu plano de voo para receber autorização para decolar. Ao apresentar o destino “aeroporto de Cláudio/MG” o controle aéreo tem que checar se ele se encontra em condições legais de operação. Se estiver interditado, não recebe autorização, se não tiver homologação da ANAC, não recebe autorização. Por condições de segurança, especialmente.
Mas, agora, sabemos pelo senador, que ele pousou algumas vezes, nos últimos anos.
O que a imprensa precisa apurar é:
Que controlador aéreo deu autorização para esses pousos?
Se ninguém deu autorização para esses pousos, como o comandante conseguiu burlar a rigidez das normas da aviação e pousar lá?
O comandante da aeronave mentiu sobre o aeroporto de destino, quando informou seu plano de voo? Disse que iria para Divinópolis e foi para Cláudio?
O comandante não mentiu, mas quando o controlador informou não poder autorizar esse destino, o senador usou sua “prerrogativa do cargo”, se responsabilizando pelas consequências?
Se Aécio se tornar presidente, será o chefe supremo da ANAC. Como terá autoridade moral de exigir rigor da agência se ele mesmo violou as regras atuais?
Isso, na verdade, coloca uma questão que diz respeito à capacidade de chefiar todos os órgãos da administração pública federal, quando demonstra, bisonhamente, desconhecer leis básicas do país.
Devo lembrar que ele foi o governador que “tocou” o Proaero, programa estadual de aviação regional e, como tal, tem a obrigação de saber tudo sobre o assunto, ainda mais uma questão básica como essa.
Mas talvez tenha sido Anastasia o condutor desse assunto.
Finalmente, em seu artigo, Aécio introduz um novo dado, ao culpar a ANAC pelo atraso na homologação do aeroporto. Mais uma vez, mostra fragilidade, visto que o motivo do atraso é de total responsabilidade do governo mineiro, cujo titular, até pouco tempo atrás, era o seu candidato ao Senado Antonio Anastasia."
(José Augusto Valente, especialista em logística e transportes, no site CartaMaior, post intitulado "Aécioporto: quem vai salvar o Aécio desse rolo?".
Consta que ao longo do governo de Aécio Neves a imprensa teria agido de forma, digamos, controlada: ausência total de questionamento por parte de veículos de comunicação - e, em consequência, de leitores/pessoas diversas -, crítica zero, olhos cegos e ouvidos moucos a possíveis malfeitos, ou, para usar uma palavra em voga na seara aecista, equívocos. Fala-se até em certa leniência do Ministério Público... Uma ilha de paz e aplauso, enfim.
Eis que agora malfeitos e equívocos começam a vir à tona. No plural, visto que se anuncia um iceberg inteiro, sendo o caso do aeroporto a ponta dele. Natural: o garimpo de fatos pregressos é do jogo eleitoral: todos procuram os furos de cada oponente.
O candidato admite que errou ao realizar pousos no aeroporto de sua família, quero dizer, de Cláudio, mas os pousos são apenas um detalhe, como diria o Parreira. O grosso da coisa precede o uso irregular da pista.
Aguardemos. Enquanto isso, vejamos AQUI perspicaz abordagem produzida por Miguel do Rosário, e AQUI, por Ricardo Batista Amaral).
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Eles disseram. José Augusto Valente. Aécioporto.
AUMENTO REAL DO SALÁRIO MÍNIMO, UM GARGALO FICTÍCIO
A produtividade e o discurso contra a distribuição de renda no Brasil
Por Pedro Rossi
Os críticos à atual política econômica sustentam que o crescimento é comprometido pelos excessivos aumentos de salário mínimo e, de forma sutil, defendem que a distribuição de renda seja posta em segundo plano. É a reedição da ladainha do bolo, que se espera crescer, para depois distribuir.
O modelo de distribuição de renda, cujos pilares estão nas políticas de aumento do salário mínimo e de transferências de renda, está sendo questionado no debate público brasileiro. Esse questionamento ganhou força com a desaceleração do crescimento dos últimos anos e já assume a forma de discurso, reproduzido sistematicamente por parte dos economistas e do jornalismo econômico. Diante disso, vale um olhar mais atento sobre os argumentos que sustentam esse discurso.
Durante muito tempo, a literatura econômica dominante negou a necessidade de políticas de Estado voltadas para distribuir de forma mais equitativa os resultados do progresso econômico. O tema das transferências de renda ficou restrito às políticas de focalização para atender à extrema pobreza que, admitia-se, por alguma falha de mercado coexiste com o desenvolvimento econômico. Por detrás desse paradigma está a ideia de que a criação de riqueza depende de incentivos de renda e por isso a desigualdade é funcional ao crescimento.
Nessa perspectiva, ao longo do processo de desenvolvimento, os excessos de concentração da renda seriam corrigidos automaticamente pelo próprio mercado, na medida em que houver transferência de mão de obra dos setores de baixa produtividade para os setores modernos da economia, conforme ilustrado pela metáfora que compara o crescimento econômico com uma maré enchente que levanta todos os barcos.
O discurso antidistributivo traz essas referências, às vezes de forma explícita, como é o caso do conceituado economista americano Gregory Mankiw, que defende a desigualdade de renda e justifica os super salários do setor financeiro, alegando que esses refletem a meritocracia e estão de acordo com a contribuição econômica que esses agentes proporcionam à sociedade (ver artigo “Defending the One Percent”).
Já a versão brasileira do discurso antidistributivo raramente explicita essas ideias, e prefere construir uma argumentação à sombra da ideia de produtividade. O aumento dos salários acima da produtividade, diz o discurso, reduz as taxas de lucro e desestimula o investimento, o que tende a gerar desemprego e baixo crescimento. Armínio Fraga, por exemplo, argumentou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que o crescimento econômico foi comprometido pelos excessivos aumentos de salário mínimo.
Nesse discurso há, portanto, um dilema de curto prazo entre crescimento e as políticas distributivas. De forma sutil, mas direta, coloca-se em primeiro plano o crescimento e em segundo plano a distribuição de renda, e pressupõe-se que o primeiro plano conduzirá a uma melhora espontânea do segundo. Visto de outra maneira, esse discurso reedita a velha ladainha do bolo, que se espera crescer, para depois distribuir.
Esse discurso apresenta dois problemas centrais: primeiro, a produtividade é um indicador muito importante, mas é uma variável de resultado, um termômetro ou um sintoma do que acontece na economia (e por isso depende da expansão dos investimentos, capacidade ociosa, mudanças tecnológicas etc.) e não uma causa ex-ante. Ou seja, a produtividade tem um componente endógeno ao ciclo econômico, e não é totalmente exógena como propõe o discurso. Segundo, nessa leitura os salários são vistos exclusivamente pelo lado da oferta, como custos de produção, e não como variável de demanda, com capacidade de criar mercados.
Ao combinar essas duas críticas, tem-se que os aumentos de salários podem induzir aumentos da produtividade. Ou seja, diante da expansão do mercado interno provocada pelo aumento de poder de compra dos assalariados, as firmas aproveitam economias de escala e se tornam mais produtivas, o que resulta em crescimento com distribuição de renda. Esse círculo virtuoso ocorreu no Brasil, entre 2004 e 2008, quando a distribuição de renda dinamizou o mercado consumidor doméstico, o investimento agregado e a produtividade, o que permitiu novos aumentos de salários.
Nesse sentido, a discussão importante não é impedir elevações salariais para aumentar a produtividade, mas como distribuir renda e aumentar a produtividade simultaneamente. Trata-se de discutir um modelo econômico, no qual a questão social esteja no centro do projeto de desenvolvimento, e no qual, para sustentar a distribuição de renda e o avanço das políticas sociais, sejam implementados amplos investimentos em infraestrutura, além de incentivos à modernização da estrutura produtiva e políticas que evitem o vazamento da demanda interna para o exterior, por meio das importações.
Com esses elementos, pode-se reforçar a aposta em um modelo inclusivo, em que a distribuição de renda e o mercado interno sejam o motor dinâmico.
Por fim, não há oposição direta entre a distribuição de renda e o crescimento, tampouco entre os aumentos entre o salário mínimo e a produtividade. Há, por outro lado, um conteúdo ideológico no tratamento do tema da produtividade e um discurso montado para esconder um viés antidistributivo.
A politização da produtividade, como discurso, é pano de fundo de um amplo programa de “ajustes” na economia – que inclui a redução do papel do Estado, a flexibilização do mercado de trabalho e a revisão da regra de salário mínimo – cuja implementação pode ter como resultado a restauração de um modelo econômico concentrador de renda no Brasil. (Fonte: aqui).
Durante muito tempo, a literatura econômica dominante negou a necessidade de políticas de Estado voltadas para distribuir de forma mais equitativa os resultados do progresso econômico. O tema das transferências de renda ficou restrito às políticas de focalização para atender à extrema pobreza que, admitia-se, por alguma falha de mercado coexiste com o desenvolvimento econômico. Por detrás desse paradigma está a ideia de que a criação de riqueza depende de incentivos de renda e por isso a desigualdade é funcional ao crescimento.
Nessa perspectiva, ao longo do processo de desenvolvimento, os excessos de concentração da renda seriam corrigidos automaticamente pelo próprio mercado, na medida em que houver transferência de mão de obra dos setores de baixa produtividade para os setores modernos da economia, conforme ilustrado pela metáfora que compara o crescimento econômico com uma maré enchente que levanta todos os barcos.
O discurso antidistributivo traz essas referências, às vezes de forma explícita, como é o caso do conceituado economista americano Gregory Mankiw, que defende a desigualdade de renda e justifica os super salários do setor financeiro, alegando que esses refletem a meritocracia e estão de acordo com a contribuição econômica que esses agentes proporcionam à sociedade (ver artigo “Defending the One Percent”).
Já a versão brasileira do discurso antidistributivo raramente explicita essas ideias, e prefere construir uma argumentação à sombra da ideia de produtividade. O aumento dos salários acima da produtividade, diz o discurso, reduz as taxas de lucro e desestimula o investimento, o que tende a gerar desemprego e baixo crescimento. Armínio Fraga, por exemplo, argumentou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que o crescimento econômico foi comprometido pelos excessivos aumentos de salário mínimo.
Nesse discurso há, portanto, um dilema de curto prazo entre crescimento e as políticas distributivas. De forma sutil, mas direta, coloca-se em primeiro plano o crescimento e em segundo plano a distribuição de renda, e pressupõe-se que o primeiro plano conduzirá a uma melhora espontânea do segundo. Visto de outra maneira, esse discurso reedita a velha ladainha do bolo, que se espera crescer, para depois distribuir.
Esse discurso apresenta dois problemas centrais: primeiro, a produtividade é um indicador muito importante, mas é uma variável de resultado, um termômetro ou um sintoma do que acontece na economia (e por isso depende da expansão dos investimentos, capacidade ociosa, mudanças tecnológicas etc.) e não uma causa ex-ante. Ou seja, a produtividade tem um componente endógeno ao ciclo econômico, e não é totalmente exógena como propõe o discurso. Segundo, nessa leitura os salários são vistos exclusivamente pelo lado da oferta, como custos de produção, e não como variável de demanda, com capacidade de criar mercados.
Ao combinar essas duas críticas, tem-se que os aumentos de salários podem induzir aumentos da produtividade. Ou seja, diante da expansão do mercado interno provocada pelo aumento de poder de compra dos assalariados, as firmas aproveitam economias de escala e se tornam mais produtivas, o que resulta em crescimento com distribuição de renda. Esse círculo virtuoso ocorreu no Brasil, entre 2004 e 2008, quando a distribuição de renda dinamizou o mercado consumidor doméstico, o investimento agregado e a produtividade, o que permitiu novos aumentos de salários.
Nesse sentido, a discussão importante não é impedir elevações salariais para aumentar a produtividade, mas como distribuir renda e aumentar a produtividade simultaneamente. Trata-se de discutir um modelo econômico, no qual a questão social esteja no centro do projeto de desenvolvimento, e no qual, para sustentar a distribuição de renda e o avanço das políticas sociais, sejam implementados amplos investimentos em infraestrutura, além de incentivos à modernização da estrutura produtiva e políticas que evitem o vazamento da demanda interna para o exterior, por meio das importações.
Com esses elementos, pode-se reforçar a aposta em um modelo inclusivo, em que a distribuição de renda e o mercado interno sejam o motor dinâmico.
Por fim, não há oposição direta entre a distribuição de renda e o crescimento, tampouco entre os aumentos entre o salário mínimo e a produtividade. Há, por outro lado, um conteúdo ideológico no tratamento do tema da produtividade e um discurso montado para esconder um viés antidistributivo.
A politização da produtividade, como discurso, é pano de fundo de um amplo programa de “ajustes” na economia – que inclui a redução do papel do Estado, a flexibilização do mercado de trabalho e a revisão da regra de salário mínimo – cuja implementação pode ter como resultado a restauração de um modelo econômico concentrador de renda no Brasil. (Fonte: aqui).
HOLLYWOOD E O SACRILÉGIO
Por que Hollywood evita falar sobre Gaza?
Por Jaime González
Ao longo das décadas, muitas estrelas de Hollywood não hesitaram em expressar publicamente suas posições políticas ou emprestar sua imagem para apoiar diversas causas humanitárias.
Na reportagem, intitulada "Regra número um: fale de qualquer assunto político em Hollywood...exceto de Gaza", a jornalista Tina Daunt escreve que "enquanto o número de vítimas continua a aumentar", há, nas altas esferas da indústria cinematográfica, uma relutância "atípica" para falar sobre o que está acontecendo no Oriente Médio.Nesta semana, a revista americana The Hollywood Reporter publicou um artigo em que analisa as razões pelas quais a indústria do entretenimento permanece calada sobre o atual conflito entre Israel e o Hamas.
Daunt lembra que "a afinidade e apoio político" de executivos de Hollywood – muitos dos quais são judeus – a Israel já ocorre há muitas décadas, mas "no momento" a operação militar israelense não vem gerando o esperado debate público.
Ao mesmo tempo, de acordo com a jornalista, esses mesmos executivos acreditam que os poucos artistas que nos últimos dias têm mostrado apoio à causa palestina estão "desinformados".
Divisão de opiniões
Um desses artistas é a cantora pop americana Rihanna, que há poucos dias publicou uma mensagem em sua conta no Twitter com a hashtag #FreePalestine ("Palestina livre", em tradução livre).
Minutos depois, Rihanna apagou a postagem, em meio a uma chuva de críticas. A polêmica levou um de seus representantes a emitir uma declaração na qual afirmou que a cantora não quis tomar partido e "está apenas a favor da paz".
Rihanna faz postagem no Twitter com hashtag #FreePalestine, mas retirou em seguida
No dia seguinte, Gomez postou nova mensagem, em que esclareceu que não estava apoiando nenhuma das partes envolvidas no conflito e que rezava pela paz "para o mundo inteiro".
Foram poucos os artistas do showbiz americano que nos últimos dias vêm demonstrado abertamente solidariedade com as vítimas civis de Gaza. Entre eles, estão o diretor de cinema Jonathan Demme, a atriz Mia Farrow e os atores Mark Ruffalo, Javier Bardem e John Cusack.
Bardem, por exemplo, publicou uma carta aberta criticando a posição dos Estados Unidos, a União Europeia e Espanha contra o que ele chamou de "guerra de ocupação e de extermínio contra um povo sem meios".
Hollywood tem histórico de apoio à causa judaica
"Se você é cineasta e quer que seu filme seja visto na Turquia, não é uma boa ideia aparecer como defensor de Israel. É por isso que em Hollywood normalmente se permanece em silêncio quando se trata de assuntos polêmicos", assinalou Berrin.
A jornalista, autora do blog Hollywood Jew, em que divulga notícias relacionadas à indústria do entretenimento voltadas para a comunidade judaica, diz que "os executivos de grandes estúdios, ao comandar empresas de capital aberto, não acham que devem tomar partido em assuntos tão polêmicos e que dividam o público”.
"No caso das celebridades, tampouco elas ganham alguma coisa ao se posicionarem, uma vez que tudo o que disserem será criticado. Se eles escolherem falar de um determinado assunto, por exemplo, muita gente vai pensar 'quem eles pensam que são para opinar', se não dizem nada, vão criticá-los por não usar a fama para uma boa causa".
Berrin garante que, mesmo não se pronunciando a respeito do conflito, muitos famosos estão preocupados com o que está acontecendo e indica que "Hollywood tem uma longa história de ativismo" a favor da causa judaica.
Paródias criticadas
Apresentador John Stewart foi criticado por suas paródias sobre o conflito
Stewart foi fortemente criticado por alguns setores da comunidade judaica dos Estados Unidos ao falar sobre as diferenças entre a tecnologia que os israelenses e os palestinos têm para se proteger.
O apresentador brincou que, embora os judeus tenham um aplicativo em seus celulares para alertá-los com antecedência sobre onde um foguete vai cair, os palestinos são avisados por bombas lançadas por Israel.
Após a declaração, o comentarista de rádio conservador Mark Levin disse que Stewart é um "idiota exaltado" e um "judeu que odeia a si mesmo", enquanto jornalista do The Times of Israel David Horovitz o acusou de banalizar o conflito em Gaza com suas paródias.
Poucos dias depois da polêmica, Stewart voltou ao tema, fazendo piada dos ataques que recebe de ambos os lados sempre que fala sobre Israel ou o Hamas, mas deu a entender – como muitos fazem em Hollywood – que o melhor teria sido não se pronunciar sobre o assunto. (Fonte: aqui).
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