sexta-feira, 11 de abril de 2014

AP 470: PODERES EXTRAPOLADOS


Promotora escondeu do STF plano de investigar Planalto

Petição do Ministério Público prevê quebra de sigilo de todos os aparelhos usados na sede do governo federal

A promotora que investiga suspeitas de que o ex-ministro José Dirceu usou um telefone celular na prisão escondeu sua intenção de investigar ligações feitas a partir do Palácio do Planalto ao pedir à Justiça a quebra de sigilo de aparelhos usados no local.

No pedido apresentado na semana passada ao Supremo Tribunal Federal, a promotora Márcia Milhomens Sirotheau Corrêa, do Ministério Público do Distrito Federal, não faz nenhuma referência ao palácio, mas indica suas coordenadas geográficas como alvo da investigação.

Condenado no julgamento do mensalão, Dirceu está preso desde novembro no complexo penitenciário da Papuda, em Brasília. O Ministério Público abriu inquérito em janeiro para saber se ele fez ligações telefônicas de dentro do presídio, o que é proibido.

O secretário de Indústria da Bahia, James Correia, disse em janeiro à coluna "Painel" ter falado com Dirceu por celular no dia 6 de janeiro. O advogado de Dirceu, José Luis Oliveira Lima, nega que o contato tenha ocorrido.

No pedido de quebra de sigilo telefônico, a promotora disse que seria preciso o "confronto entre as ligações realizadas pelos aparelhos de telefonia móvel que se encontram no presídio e pelos aparelhos que se encontravam no Estado da Bahia" e indicou duas coordenadas geográficas para o levantamento.

Embora o requerimento não deixe isso claro, as coordenadas correspondem ao presídio da Papuda e ao Palácio do Planalto. O pedido permite que todos os aparelhos usados dentro da sede do governo sejam rastreados.

Procurado pela Folha nos últimos dois dias, o Palácio do Planalto não quis se manifestar sobre a investigação.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Ministério Público do Distrito Federal não apresentou justificativas para a investigação do Planalto e afirmou que o foco da investigação é Dirceu e o uso de celulares no presídio, "independentemente de onde caia a coordenada geográfica".

O pedido foi apresentado ao presidente do STF, Joaquim Barbosa, que foi o relator do processo do mensalão. Ele ainda não decidiu se vai autorizar a quebra de sigilo.

A promotora quer que as operadoras de telefonia celular enviem registros de todas as chamadas feitas e recebidas por celulares na Papuda e no Palácio do Planalto entre os dias 1º e 16 de janeiro.

DEVASSA
Na quarta-feira, os advogados de Dirceu apresentaram ao STF o parecer de um engenheiro identificando as coordenadas informadas pelo Ministério Público e pedindo que o requerimento de quebra de sigilo seja rejeitado.

Os advogados também querem que o STF analise o processo em que Dirceu pede autorização para trabalhar fora da cadeia, que está parado por causa da investigação sobre o contato telefônico que ele teria mantido na prisão.

"É preocupante o pedido formulado pelo Ministério Público, por ser genérico e desprovido de fundamentação", afirmou José Luis Oliveira Lima. "O Ministério Público propõe uma devassa indiscriminada em várias linhas telefônicas, o que é ilegal."

O advogado criminalista Pedro Iokoi disse que um pedido de quebra de sigilo que atinja indiscriminadamente todos os aparelhos celulares de uma determinada região é "absolutamente ilegal".

A lei nº 9.296, de 1996, que trata de interceptações telefônicas, diz que os pedidos à Justiça devem conter "indicação e qualificação dos investigados", incluindo os números dos telefones a investigar.

"A quebra indiscriminada do sigilo de telefones de uma área viola o direito constitucional à privacidade daqueles que não são alvo da apuração criminal", disse Iokoi.

Para o advogado, a autorização do rastreamento dos aparelhos usados no Planalto seria "uma indevida invasão do Poder Judiciário nas comunicações do Executivo".

(VERA MAGALHÃES, SEVERINO MOTTA, MATHEUS LEITÃO E FLÁVIO FERREIRA).
Fontes: aqui e aqui.

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José Dirceu, preso em novembro, deveria estar cumprindo sua pena no regime semiaberto; entretanto, denúncia da Folha de São Paulo, em janeiro, informou que ele mantivera contato telefônico com o secretário da indústria da Bahia, James Correia (o que foi negado por ambos - aqui), irregularidade que motivou a manutenção do regime fechado.

Após apurações em seu âmbito, o Centro de Internamento e Reeducação, onde está Dirceu, informou haver mandado arquivar o caso, por considerar a 'denúncia' inverídica. O STF, via ministro Lewandowski, determinou à Vara de Execuções Penais que desse seguimento à análise do pedido de emprego formulado por Dirceu. Nada disso surtiu efeito: o caso do telefonema continua.

A providência solicitada pela promotora acima diz respeito ao assunto, e contém gravíssima irregularidade: a violação da privacidade de 'n' pessoas, entre as quais as localizadas no Palácio do Planalto.

Quanto tempo será ainda despendido até que o rol de providências esteja concluído? Quantas providências adicionais surgirão? Não se tem ideia, mas uma certeza: até lá, Dirceu continuará em regime fechado.

O SONO DO PANDA


Aytoslu. (Turquia).

A CRISE NA UCRÂNIA

      A exemplo da Crimeia, mais de 50% da população de Donetsk têm o russo como língua nativa.

A vez de Donetsk

Por Mauro Santayana

O Ocidente desestruturou uma nação que se encontrava unificada

Manifestantes que ocupam, há 48 horas, instalações públicas em Donetsk, na Ucrânia, proclamaram, unilateralmente, terça-feira, uma República Popular, na província em que se fala russo. E querem convocar um referendo para sua anexação à Rússia, para o próximo dia 11 de maio, nos moldes do que foi feito na Crimeia no mês passado.

As autoridades policiais não resistiram, nem tentaram conter os manifestantes.

Em outra cidade, Lugansk, manifestantes favoráveis à Rússia ocuparam a sede dos órgãos de segurança, e fizeram o chefe de polícia — que também não resistiu — libertar dezenas de prisioneiros favoráveis a Moscou que estavam detidos há alguns dias.

Em Kharkov, segunda maior cidade ucraniana e centro industrial do país, houve enfrentamento entre habitantes de língua russa, que ocuparam a sede do governo local, e manifestantes fiéis ao golpe desfechado contra o presidente Yanukovitch em março.

Embora as novas "autoridades" ucranianas estejam acusando o serviço secreto russo pelos tumultos, a verdade é que o apoio ao governo golpista é cada vez menor, e boa parte do território ucraniano é ocupada por habitantes de origem russa, que se recusam a se aproximar do Ocidente e se sentem ameaçados pelos golpistas de extrema direita que estão no poder em Kiev.

Eles viram que, ao contrário do que ocorreu na "libertação" do Iraque, do Egito, da Líbia, do Afeganistão, pela OTAN, onde morreram — e continuam perdendo a vida — centenas de milhares de pessoas, a "russianização" da Crimeia foi feita em poucos dias, e quase sem violência.

O fato é que, assim como fez, em muitos outros lugares, supostamente em nome da "democracia", o Ocidente desestruturou completamente uma nação que se encontrava institucionalmente unificada, funcionava razoavelmente dentro da lei, com um presidente eleito diretamente pela população, e aguardava pacificamente as próximas eleições, porque não queria que a Ucrânia "caísse" sob a influência de Moscou.

Como demonstra a situação em Donestk e em Kharkov, a influência russa na Ucrânia, do ponto de vista político, econômico, cultural, já existia, é muito maior do que se pensa na Europa e nos EUA, e permeia vastas regiões e milhões de habitantes, que se sentem russos.

A Rússia está em seus corações e mentes. Eles vivem, como russos, há séculos. E é mais fácil que a Ucrânia se divida — a partir da fragmentação irresponsavelmente iniciada em Maidan — do que eles virem a se inclinar para o lado contrário, o dos golpistas neofascistas que tomaram o poder de assalto, em Kiev, há poucas semanas. (Fonte: aqui).

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Maidan: praça de Kiev onde os revoltosos pró União Europeia se concentraram desde o início da crise.

DEDO VIRTUAL


Sinovaldo.

NOÉ, O FILME


Em 1ª declaração oficial, Vaticano diz que "Noé" é oportunidade perdida

Apesar dos esforços de Russell Crowe e do diretor Darren Aronofsky em conseguir apoio do Papa, o jornal oficial do Vaticano, o "Avvenire", reprovou "Noé" no primeiro posicionamento sobre o longa. As informações são do site Hollywood Reporter.

Em sua edição desta quinta-feira (10), o jornal trouxe uma crítica em que diz que "Noé" coloriu a história com elementos novos, "como ecologia, e transformou um conto bíblico em uma oportunidade perdida".

Em março, o diretor e o ator tentaram um encontro particular com o papa, o que foi negado pelo Vaticano. Eles, no entanto, participaram da missa aberta celebrada pelo pontífice, receberam uma rápida benção e relataram a experiência no Twitter. "Que privilégio participar de uma audiência do Papa", escreveu o ator. "Adeus, Roma. Meu amor por sua luz eterna só fica mais profundo".

A visita da equipe ao Vaticano teve bastante repercussão, mas o porta-voz da Igreja Católica, Fr. Federico Lombardi, disse repetidas vezes que o encontro não representava um apoio ao filme e que, na ocasião, nenhum representante da Igreja ainda havia visto a produção.

O crítico do jornal do Vaticano, Mimmo Muolo, ainda disse que o longa é estranho e desconcertante, apesar de ser "visualmente potente". Em certo momento, ele diz que "Noé" é uma mistura de "Gladiador", com "Harry Potter" e "Senhor dos Anéis" e ainda criticou o fato da história estar tão longe do livro da "Genesis".  (Fonte: aqui).

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O jornalista Mimmo Muolo é o 'vaticanista' do jornal Avvenire, de Milão. O jornal é propriedade da Conferência Episcopal Italiana, e não é o "jornal oficial do Vaticano", condição detida pelo  L'Osservatore Romano, da cidade do Vaticano.

O crítico Muolo faz restrições ao filme. Natural. Assim como estudiosos da Bíblia sustentam que o personagem Noé foi inspirado no mito sumério de Gilgamesh (2.750 a.C.), relatado em tabletes de argila na Mesopotâmia.

Quanto ao filme, não o vi - ainda.

ILUSTRAÇÃO


Erasmo Carlos, por Ricardo Leite.

Capa de 'Gigante gentil', 28º álbum de inéditas de Erasmo Carlos, com lançamento programado para o fim deste mês,  numa edição da gravadora carioca Coqueiro Verde Records.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O EQUILIBRISTA


Muhamed Derlek.

DESEMPREGO, IBGE E UOL

Petar Pismestrovic.

Aproveitando o clima negativo criado a partir da falha gritante do IBGE quando da pesquisa recentemente divulgada sobre estupro feminino (mulher merece ser atacada por usar trajes ousados?), o Uol estampa a manchete: "Desemprego em 2013 foi de 7,1%, segundo nova pesquisa do IBGE" - com o adendo: "índice usado anteriormente mediu 5,4%". - AQUI.

Outra falha gritante?!

Ao ler a matéria, somos informados de que o índice de 5,4% foi apurado corretamente, visto que diz respeito à PME (Pesquisa Mensal de Emprego), que é restrita às seis maiores regiões metropolitanas do país. Ou seja, a PME é restrita, mas sempre vigorou a regra de que seus resultados valem para o Brasil como um todo.

Já o índice de 7,1%, da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio Continua), espelha a realidade observada em universo mais abrangente, composto por 3.500 municípios. (O Uol bem que poderia ter informado a quantidade de municípios abrangidos pelas 'seis maiores regiões metropolitanas' que constituem a área pesquisada para a PME).

E no corpo da matéria o Uol ainda 'se preocupa' em esclarecer: "Além disso, há diferenças de conceito sobre o que é desemprego e ocupação nas duas pesquisas". 

Ou seja, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O Uol, porém, sugere que ambas são iguais. A manchete "Desemprego em 2013 foi de 7,1%, segundo pesquisa mais abrangente do IBGE",  por exemplo, refletiria os fatos de modo adequado.

Em resumo: o IBGE não errou. 

SOBRE A PUBLICIDADE VOLTADA À CRIANÇA


Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente): a sociedade civil em defesa da criança

Por Renato Godoy

A resolução 163 do Conanda, publicada no Diário Oficial no último dia 4, considera como abusiva toda a comunicação mercadológica voltada à criança. O texto completo, disponível aqui, diz que “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço” é abusiva e, portanto, ilegal segundo o Código de Defesa do Consumidor.

O Conselho, vinculado à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, é um órgão colegiado (com representantes do governo e da sociedade civil) de caráter deliberativo, que atua como instância máxima de formulação, deliberação e controle das políticas públicas para a infância e a adolescência na esfera federal.

A aprovação do texto, portanto, é uma vitória histórica da sociedade civil e um avanço significativo para a proteção integral da infância. Com a declaração da abusividade do direcionamento de publicidade às crianças, é posta em xeque uma prática mercadológica que coloca a criança no centro de uma estratégia de criação de desejos. Essa aposta do mercado exacerba a noção da criança como consumidora, com forte poder de influência nas compras realizadas pelos pais e responsáveis. Segundo pesquisa do Interscience (2003), as crianças participam do processo decisório de 80% das compras da casa.

No entanto, a ideia da criança como consumidora e promotora de vendas tende a confrontar importante conquista da sociedade brasileira: a noção da criança como um sujeito de direitos, previstos no artigo 227 da Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Desde sua fundação em 2006, o Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana defende o entendimento de que os diplomas jurídicos brasileiros já dão o embasamento suficiente para interpretar o direcionamento de qualquer comunicação mercadológica às crianças como abusiva. Entendemos que o direcionamento de comunicação mercadológica à criança é uma forma de tirar proveito de um indivíduo em desenvolvimento físico, social e psíquico que, portanto, ainda não atingiu a plenitude de seu senso crítico para compreender o caráter persuasivo da mensagem publicitária. A recente resolução do Conanda vai ao encontro desse entendimento.

O mercado publicitário, editorial e radiodifusor, no entanto, ignorou a resolução do órgão e continua incorrendo nesse direcionamento ilegal às crianças. Em uma nota assinada pelas nove maiores entidades do setor, as associações se colocam como defensoras do Estado Democrático de Direito, favoráveis à competência exclusiva do Legislativo para tratar de normas para a publicidade e tentam deslegitimar a atuação do Conselho Nacional.

Porém, a resolução do Conanda não contraria essa prerrogativa do Legislativo expressa na nota dos representantes do mercado. A 163 não cria uma nova lei sobre a prática de publicidade, mas normatiza, nos limites de sua atribuição, outras práticas abusivas também contempladas no artigo 37, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor – formulado e aprovado pelo Legislativo –, que considera ilegal a publicidade que se vale da deficiência de julgamento e experiência da criança. Portanto, a competência do legislador não está sendo ignorada ou desrespeitada, ao contrário, está sendo enfatizada pela resolução do Conselho.

A nota das associações também parece desconhecer que o poder decisório concedido aos Conselhos Nacionais é parte indissociável do Estado Democrático de Direito, forjado na Constituição de 1988, fortemente influenciada pelos desejos de participação e de liberdades democráticas. Os Conselhos Nacionais apontam para uma nova relação entre Estado e sociedade civil. Nessas instâncias, as demandas das organizações devem ter tanto peso quanto as dos representantes do governo. Assim, a sociedade civil organizada não se presta ao papel de mera avalista de políticas pré-definidas.

Mas para que os Conselhos Nacionais se consolidem como esse mecanismo transformador e promotor da inclusão da sociedade nos rumos do país, suas resoluções precisam ser respeitadas. A vigência da Resolução 163 do Conanda será, portanto, um passo importante para a sociedade civil se firmar como uma das protagonistas na condução das políticas públicas e na efetivação da noção da criança como prioridade absoluta.

* Renato Godoy é jornalista, sociólogo e pesquisador do Instituto Alana. (Fonte: aqui).

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Não obstante os consistentes argumentos, é certo que as entidades representativas do mercado publicitário esgotarão todo o estoque de alternativas que lhes possibilite escapar das limitações estabelecidas pelo Conanda. Tudo, claro, pelo dinheiro, que, ao fim e ao cabo, é o  que importa aos seguidores do chamado Mercado Livre,  ou Deus Mercado. 
E quanto aos pivetes... ora, os pivetes!

CARTUM DESCONEXO


Andrade.

BRASIL: CULTURA NOS ANOS DE CHUMBO


Endireitar, no bom sentido

Por Sérgio Augusto

A cultura brasileira ia muito bem em todos os setores e com pelo menos um fenômeno internacional em seu crédito, a bossa nova, quando os militares usurparam o poder. Com apenas nove dias de mando, baixaram seu primeiro ato institucional e invadiram o câmpus da modelar Universidade de Brasília. Estava iniciada a guerra santa contra a inteligência nacional, que pelo gosto do comandante da invasão, coronel Darcy Lázaro, teria durado três décadas. "Se essa história de cultura vai-nos atrapalhar a endireitar o Brasil, vamos acabar com a cultura pelos próximos 30 anos", ameaçou o truculento invasor.

Passados 30 anos, a cultura brasileira permanecia viva e o coronel, historicamente morto. Àquela altura, quem fazia história era outro Darcy-o antropólogo Darcy Ribeiro, reitor da UnB enxotado pelo xará fardado em abril de 1964. Mas o coronel não foi totalmente esquecido. Se não ganhou uma estátua equestre, ao menos batizaram com seu nome um estande de tiro, no Distrito Federal. Sic transit gloria mundi.

Não foi por falta de empenho que os templários do obscurantismo verde-oliva perderam sua cruzada. Enquanto a UnB era invadida, tocaram fogo no prédio da União Nacional dos Estudantes, depredaram o Instituto de Estudos Brasileiros, ambos no Rio, e criminalizaram o ativismo do Centro Popular de Cultura (Rio e São Paulo) e do Movimento de Cultura Popular (Recife), dois antros de perigosos comunistas, na avaliação do novo regime. Em seguida vieram os expurgos e demissões em massa em colégios e universidades, os inquéritos humilhantes e sem fundamento jurídico, as ameaças, prisões e tortura de intelectuais, jornalistas e artistas; livros foram apreendidos e destruídos, jornais, filmes, peças, músicas e exposições censurados e proibidos.

Horrorizado, o mais respeitado intelectual católico da época, Alceu Amoroso Lima, desabafou: "Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter".

Quando beleguins do Dops recolheram numa livraria do Rio vários exemplares do romance O Vermelho e o Negro, de Stendhal, por suspeitá-lo "subversivo", o humorista Sérgio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta, não se conteve: "A revolução está descambando para o perigoso terreno da galhofa". E deu por inaugurado o Febeapá, o festival de besteiras que começava a assolar o País. E continuaria assolando até depois da morte do humorista, quatro anos mais tarde. De enfarte, esclareça-se.

Ainda havia margem para críticas e gozações aos generais nos primórdios do regime militar. Mas nem por isso a revista de humor Pif-Paf, criada por Millôr Fernandes em 1964, conseguiu suportar as pressões da censura - no oitavo número, bateu mesa. Pif-Paf seria o embrião do semanário O Pasquim (lançado com o AI-5 já em vigor) e Sérgio Porto, seu patrono. Apesar de ameaçado de todas as formas pelo governo e até por atentados à bomba pelas forças de direita, O Pasquim logrou blefar a censura e sobreviver à ditadura. Já uma publicação séria, como a Revista Civilização Brasileira, aguerrida trincheira da intelectualidade liberal e de esquerda, viu-se obrigada a capitular após duas dezenas de edições.

Uma cultura de resistência, manifesta nas imagens ásperas de dois filmes de 1964, Vidas Secas (de Nelson Pereira dos Santos) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (de Glauber Rocha), e no show Opinião, espetáculo musicado de contestação criado no ano seguinte por Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa, Paulo Pontes e Augusto Boal para o Teatro de Arena do Rio, com Nara Leão (substituída por Maria Bethânia), Zé Keti e João do Vale, indicou um novo rumo para o cinema, a música popular brasileira, o teatro e as artes plásticas. De parâmetros renovados pela pop art e outras vertentes da arte conceitual, a geração de Hélio Oiticica, Rubens Gerchman, Carlos Vergara e Cildo Meireles elaborou estratégias simbólicas e metafóricas para burlar o cerco à liberdade de expressão, aproximar-se de formas criativas mais populares, criticar o mercantilismo e desviar sua mirada para os horizontes do social, do político e do econômico.

A cultura mais viva, portanto, continuou à esquerda do regime, buscando manter-se à margem do sistema vigente de produção e consumo. Glauber Rocha, o Hélio Oiticica do Cinema Novo, fechou com a Estética da Fome, renegando o padrão narrativo das cinematografias hegemônicas. Oiticica, o Glauber das artes plásticas, optou por uma "nova objetividade", descentralizando a experiência estética das galerias e dos museus. Nem todos, mesmo à esquerda, apreciaram de estalo a exuberância alegórica de Terra em Transe (1967), por exemplo. José Celso Martinez Corrêa apreciou e, juntando a fome com a vontade de comer antropofagicamente, montou, na mesma clave, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. A música de Caetano Veloso e Gilberto Gil e a pança de Chacrinha completaram o sarapatel tropicalista.

A geleia geral do tropicalismo foi a mais jubilosa contribuição que oferecemos à reviravolta cultural de 1968. Para tudo se acabar na diáspora provocada pelo AI-5. Bem que Millôr profetizara: "Ainda vamos sentir saudades do governo Castelo Branco". Quando abrimos os olhos, Caetano, Gil, Chico Buarque, Glauber, Ferreira Gullar e outros já haviam partido, como o irmão do Henfil, num rabo de foguete.

Quem ficou ou seguiu a receita que Brecht ensinara aos intelectuais alemães, antes de Hitler assumir o poder ("Num tempo em que você não pode dizer o que quer, continue trabalhando, faça o possível para que, no dia em que haja condições reais de você dizer o que quer, saiba fazê-lo melhor") ou conformou-se com contribuir involuntariamente para o "vazio cultural" que por um tempo desertificou nosso panorama intelectual e artístico.

No início dos anos 1970, antes de também partir para a Europa e dar prestígio internacional a sua Estética do Oprimido, Boal arriscou um palpite: o melhor do teatro brasileiro estaria confinado nas gavetas da censura. Mas quando as gavetas afinal foram abertas, a única obra fora de série que dela saiu foi Rasga Coração, de Oduvaldo Viana Filho.

No vácuo deixado pelo Grupo Oficina, quem mais viço deu à arte cênica foi Antunes Filho, com uma memorável encenação de Macunaíma, de Mário de Andrade, não por acaso a base de outro ponto luminoso nas trevas pós-64, o homônimo filme de Joaquim Pedro de Andrade. Além de nos salvar do marasmo criativo, a antropofagia e o tropicalismo, elas sim, ajudaram a endireitar, no bom sentido, a cultura brasileira. (Fonte: aqui).

CARRO ELÉTRICO


J. Bosco.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O CARRO ELÉTRICO NO BRASIL


"Carro elétrico é inviável no Brasil", diz 2º maior vendedor do país

Por André Deliberato

"Carro elétrico é inviável no Brasil". Esta é a opinião de Sérgio Habib, presidente do grupo SHC, empresa responsável pela importação oficial dos carros chineses da JAC e dos ingleses da Aston Martin. O empresário é responsável pelo segundo maior grupo vendedor de carros do país, com cerca de 27 mil veículos emplacados por ano em mais de 100 concessionárias de marcas como Citroën, Volkswagen e Jaguar Land Rover, além da JAC. Na primeira posição do ranking está o Grupo Caoa, de Carlos Alberto de Oliveira Andrade.

"Para que o carro elétrico dê certo é preciso de infraestrutura [postos reabastecedores e geradores de energia domésticos, por exemplo], algo que não existe e é totalmente infactível em metrópoles como São Paulo", afirmou Habib (...).

"Para piorar [a situação dos elétricos], no Brasil existem incentivos ao álcool, o que desfavorece totalmente esse tipo de mobilidade", completa. (...). (Para continuar, clique aqui).

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Enquanto isso, a Alemanha estabeleceu a meta de produzir 1 milhão de carros elétricos até 2020, contando com o apoio da Volkswagen...

CARRO ELÉTRICO


(Autor desconhecido).


Alexander Dubovsky. (Ucrânia).

CARTAZ DA MUDANÇA CLIMÁTICA

                  Painel Intergovernamental da Mudança Climática - Berlim, 7 a 12 de abril.

Rainer Hachfeld.

SOBRE PASADENA


Por que a mídia não está procurando Fábio Barbosa para falar da compra da refinaria de Pasadena?

Por Paulo Nogueira

Queria entender uma coisa. Por que a mídia não entrevista o presidente da Abril, Fabio Barbosa, sobre o caso Petrobras?

Ele ocupava uma posição privilegiada quando a refinaria de Pasadena foi comprada. Era integrante do Conselho de Administração da empresa.

E é um executivo respeitado.

Isso não é suficiente para ouvi-lo?

Seria, se não fosse uma coisa: Barbosa está dizendo uma coisa que a mídia não quer publicar.

Disse Barbosa: “A proposta de compra de Pasadena submetida ao Conselho em fevereiro de 2006, do qual eu fazia parte, estava inteiramente alinhada com o plano estratégico vigente para a empresa, e o valor da operação estava dentro dos parâmetros do mercado, conforme atestou então um grande banco americano, contratado para esse fim. A operação foi aprovada naquela reunião nos termos do relatório executivo apresentado.”

Não repercutiu nada esta declaração na mídia tradicional. Ela apareceu no site da Veja. Provavelmente Barbosa recorreu aos filhos de Roberto Civita para que sua versão sobre a compra fosse publicada antes que a informação de que ele a chancelara ganhasse o noticiário em circunstâncias penosas para ele. Raras vezes, e isto é batata, como dizia Nelson Rodrigues, a Veja terá publicado algo tão contrariada.

Outra ausência notável entre os entrevistados na interminável cobertura do caso é a de Claudio Haddad, também ex-conselheiro da Petrobras. Aqui é ainda mais revelador, dado que Haddad é um dos economistas mais procurados pela mídia para falar de questões macroeconômicas.

Mas ninguém quer saber de seu testemunho sobre a Petrobras.

Bem, no mesmo texto do site da Veja em que Barbosa fala do negócio, Haddad lembrou que as negociações foram assessoradas pelo Citibank, que deu aval à compra.

“O Citibank apresentou um ‘fairness opinion’ (recomendação de uma instituição financeira) que comparava preços e mostrava que o investimento fazia sentido, além de estar em consonância com os objetivos estratégicos da Petrobras dadas as condições de mercado da época.”

Algum jornalista, a propósito, foi atrás do Citi?

Não. Porque a vontade, no caso, não é levar luz onde há sombra, como manda o bom jornalismo, mas o oposto: levar sombra onde há luz.

Pobres leitores.

Pobre interesse público.

Pobre Brasil. (Fonte: aqui).


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O ex-presidente da Petrobras finalmente começou a apresentar argumentos em defesa da compra da refinaria Pasadena.

Independentemente da pertinência da defesa, o que se pode afirmar desde logo é o seguinte: 

.os conselhos de administração em geral não dispõem de todo o tempo do mundo para examinar peça por peça, planilha por planilha, cláusula por cláusula os elementos constitutivos dos processos. Essa providência é adotada pelo staff da empresa (departamentos) e seus diretores, além, claro, da presidência da empresa;

.tudo o que é relevante para embasar as decisões do conselho de administração deve estar contido no resumo executivo, que geralmente é o (único) documento de que os conselheiros se utilizam para deliberar. Daí o zelo e correção exigidos de quem o elabora;

.no caso Pasadena, entretanto, o resumo executivo omitiu informações cruciais, a exemplo da 'cláusula merlin', que determina a obrigatoriedade de um sócio adquirir a parte do outro a qualquer tempo;

.a aprovação da transação envolvendo Pasadena, em 2006, mereceu aprovação unânime do conselho de administração (até 2011, o conselho era composto por nove integrantes; a partir de então, a composição foi ampliada para dez).

Na edição de ontem, 8, o Jornal Nacional finalmente se dignou de mencionar os nomes de três dos membros do conselho de administração da Petrobras em 2006, por sinal atuantes no setor privado - os quais há mais de quinze dias se haviam manifestado publicamente sobre a lisura da deliberação do conselho, o que, no entanto, deixou de merecer qualquer destaque por parte da Globo - que agora como que se penitencia...

Aguardemos os desdobramentos.

REI MORTO, REI POSTO


Rodrigo.

EUA: LIGEIRAS IMPRESSÕES


"(...). O que entendo dos Estados Unidos é que não importa o Presidente, Republicano ou Democrata; os planos já foram traçados pela administração e não fogem muito ao que está no mapa do Império americano. (...).

Não quis comentar do Sistema de Saúde americano porque moro no Canadá, e embora o sistema do Canadá não seja maravilhoso, funciona bem melhor que nos Estados Unidos (Google: Michael Moore Sicko). Temos relatos de amigos de amigos que perderam a casa, nos Estados Unidos, porque tiveram que fazer uma operação coronária ou outra cirurgia qualquer, e era morrer ou vender a casa, por causa dos custos pra quem não tem Seguro Saúde. Outro caso, acho que famoso, foi do homem (a) que foi dada a escolha de qual dos dedos da mão salvar.(http://articles.mercola.com/sites/articles/archive/2013/03/16/high-health-care-costs.aspx). Isto não acontece, de forma alguma, no Canadá, a não ser por erro médico, outra longa história.

Também não concordo com a pesquisa da Folha (em que os EUA estão em primeiro lugar em retorno de impostos à população), pelo fato dos Estados Unidos terem inúmeras cidades fantasmas  (uma grande cidade que fica aqui, na borda do Canadá, é Detroit) onde pode-se comprar uma casa por 1 dólar (Google: US Ghost Towns). As pessoas perderam muito dinheiro. Imagine que tinha-se que pagar ao banco 350.000 dólares pela casa e agora ela vale 1 dólar. A obrigação de pagar o banco continua (Se continuar morando na casa). Lembrando que as pessoas perderam os empregos e tiveram que se mudar pra outras cidades pra achar novos empregos e recomeçar a vida.

A guerra faz dinheiro, muito dinheiro, porém quem vai ver este dinheiro são as Corporações. A Haliburton, por exemplo, detém quase todos os contratos militares. E o que aconteceu com os militares foi que aumentou o número de 'contractors' (terceirizados). Então, no passado, existiam um terceirizado pra cada 10 soldados, hoje está o inverso. No Governo dos Estados Unidos, Bush, Obama (que decepção) eles demitiram os funcionários públicos, cheios de direitos, e recontrataram como terceirizados, sem direitos e por menor salário. É uma companhia hoje que mantém boa parte dos serviços que antes eram providos pelo governo americano com seus funcionários públicos. Acredito que o sistema nos Estados Unidos hoje é o 'Corporatismo'. Mesma coisa nas escolas. Depois do Katrina, muitas escolas públicas nos Estados Unidos, naquela região, passaram a ser gerenciadas por Corporações.

Com o maior poder dado às Corporações, os Sindicatos foram acabando. Por exemplo, o que a GM, Ford, Chevrolet fizeram com demissões em  massa dos empregados das linhas de montagem (nos Estados Unidos e Canadá). Aqui no Canadá, onde Sindicatos eram fortíssimos, a coisa também já está mudando. Na verdade o  Canadá com o governo corrente segue os Estados Unidos, em quase tudo. Não temos partidos de esquerda aqui, só Centro e Direita.

Aplaudo este governo (do Brasil) por estar tentando tirar o máximo de pobres da miséria absoluta, porém não sei se sacrificando a classe média. Classe alta, vai ser classe alta não importa que holocausto venha. A impressão que tenho é que brasileiros nunca viajaram pro exterior e compraram tanto quanto nos últimos anos. (...)."



(Comentário feito por Valter Vilar, brasileiro residente no Canadá, a propósito do post Como é fácil manipular dados - aqui -, de autoria dele).

MICKEY ROONEY

              Mickey Rooney... George Burns... gigantes do bom humor!

Bob Englehart.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A TV E OS CRITÉRIOS GLOBAIS


A TV Globo encara a ruptura

Por Luciano Martins Costa

A TV Globo, carro-chefe do maior conglomerado de comunicação da América Latina, está se preparando para completar um ciclo de mudanças em 2015, ano que deverá marcar seus 50 anos de existência. Os principais jornais do país publicam nas edições de sexta-feira (4/4) entrevista com o diretor-geral da emissora, Carlos Henrique Schroder, analisando a nova estratégia para enfrentar a queda de audiência e preparar o grupo para o futuro. Na próxima sexta-feira (11/4) a TV Brasil, emissora de televisão pública vinculada à Empresa Brasil de Comunicação, discute questões relacionadas ao poder concentrado da mídia, durante o programa Ver TV.

Como tudo que envolve a Globo, qualquer movimento é capaz de provocar um tsunami no setor, dadas as proporções gigantescas de sua hegemonia. Por isso, merece atenção a afirmação do principal executivo da emissora, segundo o qual sua nova estratégia vai priorizar a inovação, o que significa assumir mais riscos de perda de audiência. Segundo Schroder, a audiência deixará de ser a meta principal, mas uma das consequências de uma programação “interessante e relevante”.

Parte das mudanças foi divulgada durante o evento intitulado “Vem Aí”, no qual a empresa apresentou seu projeto ao público.

A informação não consta da entrevista que ele concedeu a jornalistas que fazem a crônica da televisão, mas sabe-se que o processo de mudança na estratégia do grupo começou há pelo menos 13 anos, em 2001, quando os principais executivos da empresa se internaram no centro de estudos de gestão Amana-Key, tido como um dos principais núcleos de inovação estratégica do mundo. Isolados no ambiente tranquilo da zona rural de São Paulo, eles começaram ali a encarar a possibilidade de uma ruptura no amplo domínio que o grupo havia construído desde os anos 1960.

Na última década, a Globo perdeu cerca de 30% de sua audiência, e projeções citadas pela imprensa apontam para a continuidade da queda em 2014, mesmo com a Copa do Mundo. O avanço da internet é outra ameaça real ao seu domínio. No entanto, no mercado publicitário comenta-se que a emissora vai aumentar neste ano, em pelo menos 20%, sua participação no total da receita publicitária nacional, graças à Copa.

Então, qual é o segredo?

Um critério duvidoso
O segredo é o conjunto de planilhas chamado “critério técnico”, pelo qual os grandes anunciantes, entre os quais se destaca o governo federal, destinam a maior parte da verba para quem supostamente alcança o maior número de pessoas. A questão foi discutida de maneira sucinta no programa que a TV Brasil vai levar ao ar na semana que vem, e vem provocando intenso debate entre ativistas da democratização das comunicações.

Uma das questões se concentra num caso de grande repercussão nas redes sociais digitais: um governo democrático e supostamente interessado em melhorar a consciência cívica dos cidadãos, deve financiar um programa de televisão cuja apresentadora defende o linchamento de suspeitos nas ruas e se apresenta como musa de celerados que pedem a volta da ditadura? A resposta dos especialistas que decidem o destino das verbas públicas que vão para a mídia é baseada no tal “critério técnico”.

E o que seria essa panaceia? Nada mais do que a lógica segundo a qual quem tem mais audiência leva mais dinheiro.

Acontece que o “critério técnico” dos analistas de mídia é uma nebulosa – a medição da audiência é feita por uma amostragem mínima do número de aparelhos ligados, não pela atenção do eventual telespectador. A principal preocupação das emissoras é reter a sintonia. Observe-se, por exemplo, o caráter autorreferente de quase toda a grade da Globo: durante as 24 horas da programação diária, a emissora trata quase exclusivamente de reter o telespectador, à revelia da qualidade, para evitar oscilações na audiência.

Mas o que define o tal critério como uma fraude é o bônus de veiculação, ou bônus sobre volume, um benefício que os veículos dominantes oferecem para estimular a compra de pacotes de anúncios.

Os contratos valem para um semestre ou para o ano inteiro. Existem o “BV de agência” e o “BV por fora”. Corre no setor a história do presidente de uma multinacional, grande anunciante, que foi demitido porque o conselho de administração da empresa descobriu que ele destinava o BV para sua conta bancária particular.

O tema poderia preencher um debate de dias inteiros, por sua complexidade, mas vamos ficar na pauta central de hoje: a Globo entrou num processo de entropia, no qual todo o universo se resume às suas próprias referências.

Romper a cadeia do próprio sucesso é seu principal desafio. (Fonte: aqui).

MH370

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Um mês depois, mistério insondável, perplexidade, aflição familiar...


Steve Sack.

EM BUSCA DE ALTERNATIVAS


Nani.

SOBRE A RECENTE PESQUISA DATAFOLHA


A pesquisa que sumiu dos jornais

Por Luciano Martins Costa

O leitor e a leitora que costumam ler os jornais nas entrelinhas devem estar estranhando o fato de que, na segunda-feira (7/4), praticamente sumiram das páginas dos diários as análises sobre a mais recente pesquisa Datafolha de intenção de voto. Apenas a própria Folha de S.Paulo dá algum destaque ao assunto, no texto que anuncia uma entrevista do presidente do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão.

Pode parecer estranho, portanto, a quem costuma analisar criticamente a imprensa, que, depois de quase uma semana chamando a atenção para aquilo que deveria ser a hora da virada na política, os jornais tenham simplesmente abandonado o tema, depois de haverem destacado, no domingo, que a pesquisa apontava uma queda de 6 pontos porcentuais na preferência dos brasileiros pela reeleição da presidente Dilma Rousseff.

O que há por trás de tanto desânimo na imprensa com um tema que lhe é sempre muito caro?

Primeiramente, é preciso pontuar que este observador tem sérias restrições a consultas de opinião sobre determinados assuntos feitas por instituto que leva o nome do órgão de comunicação – a simples confusão entre os nomes pode influenciar diretamente na formação da opinião que será colhida. Basta uma questão para colocar areia no ventilador: quantos, entre os consultados pelo instituto, são leitores frequentes da própria Folha, ou seja, têm suas convicções alimentadas pelo jornal? Ou alguém duvida do poder de indução da imprensa?

Estabelecido esse ponto, voltemos à pesquisa propriamente dita e a seus antecedentes. No dia 1º de abril, véspera do início das consultas, a manchete do noticiário econômico da Folha era: “Inflação pode chegar ao pico de 6,72% às vésperas do 1º turno”. Coincidência? Muito improvável.

Nos dias seguintes, os três principais jornais de circulação nacional mantiveram em primeira página o escândalo da Petrobras, e nos dois dias que antecederam o anúncio da pesquisa foram unânimes em profetizar que a vantagem da atual presidente iria cair em função desse noticiário.

E qual foi o mote do Datafolha e da imprensa em geral, no domingo (6/4), ao analisar o resultado da pesquisa? O suposto pessimismo econômico que vem sendo diligentemente alimentado pelos jornais sobre uma base de dados altamente controvertida.

Vazamento de informações
Observe-se que alguns dados da pesquisa, que ainda estava em andamento, já haviam vazado na quarta-feira (2/4), primeiro dia da consulta, quando blogueiros especializados e sites de analistas financeiros começaram a anunciar que a presidente teria perdido grande parte de sua vantagem eleitoral, o que estaria provocando uma forte valorização de ações da Petrobras. Essa informação veio a ser destaque dos jornais no dia 3, quando os pesquisadores ainda estavam em campo.

Portanto, há aqui pelo menos duas questões relevantes a serem analisadas: o Datafolha vazou dados de uma pesquisa em andamento para os editores da Folha? Se as especulações do mercado, que foram veiculadas por sites respeitados entre investidores, não tinham fundamento, por que a Folha não os desmentiu antes de divulgar o resultado oficial? Pelo contrário, a Folha respaldou a ideia de que uma eventual queda na vantagem da presidente teria motivado o mercado, levando à recuperação dos negócios na Bolsa de Valores.

Essas perguntas não terão resposta, mesmo porque, se levada a fundo, a eventual vantagem de investidores, que teriam realizado lucros com ações da Petrobras com base em informação privilegiada, teria que ser investigada. Mais interessante é analisar o resultado da pesquisa em si.

Segundo o Datafolha, o ambiente social no Brasil está dominado “por crescente pessimismo com a economia e forte desejo de mudança”. Essa seria, segundo o instituto, a causa principal da queda das intenções de voto na presidente da República.

O problema é que, no cenário mais provável, tendo os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos como principais adversários, Dilma Rousseff ganharia a eleição no primeiro turno.

Se é verdade que há certo desejo de mudança, ele não se incorpora nos candidatos oposicionistas, mas se projeta, em primeiro lugar, na figura do ex-presidente Lula da Silva, na própria presidente Dilma e na ex-senadora Marina Silva, mas Lula e Marina não são cotados para disputar a Presidência.

O desejo de mudança é saudável, numa sociedade ainda marcada por fortes injustiças e carências. Mas o modelo defendido pela imprensa não parece convencer o eleitor. (Fonte: aqui).

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Não bastassem os senões acima, uma observação deixou de ser feita relativamente aos institutos de pesquisa: em 22 de março, o Ibope informou que Marina Silva, enquanto candidata pelo PSB em lugar de Eduardo Campos, detinha 9% (nove por cento) das intenções de voto. Quinze dias depois, o Datafolha dá conta de que o percentual alcançado por ela é de 27% (vinte e sete por cento). Como justificar tal distância? Conclusão óbvia: um instituto está errado. Ou ambos. Curiosamente, o silêncio em torno do assunto foi quase geral...

A SOCIEDADE INTERAMERICANA DE IMPRENSA E O DIREITO DE ESPERNEAR

                Argentina: Grupo Clarín, monopólio em fase de 'remodelagem'

SIP debate concentração da mídia e poder do Estado

Por Gabriel Manzano

No último dia de debates da Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em Bridgetown, capital de Barbados, palestrantes fizeram críticas ao modo como é debatida, no continente, a questão da concentração das comunicações. "O conceito de desconcentração é muito bonito, mas é manipulado pelos governos para debilitar as empresas", disse o argentino Adrian Ventura, do jornal La Nación. Com críticas aos governos que querem mudar as regras, ele afirmou: "Os autoritários nos embrulham no uso da palavra democracia". Outro jornal argentino, El Clarín, acusado de monopólio, foi obrigado por lei a vender parte de suas empresas.

Depois de Ventura, Asdrúbal Aguiar, da Venezuela, Edward Seaton, dos EUA, também fizeram críticas às as leis de imprensa baixadas em alguns países para "democratizar a informação". Segundo Aguiar, isso "é populismo e se dirige a maiorias" mas não combina com a cidadania. No debate, um grupo de manifestantes venezuelanos entrou no auditório com cartazes em protesto contra a repressão policial em seu país.

Outro painel foi dedicado a um balanço dos 20 anos da Declaração de Chapultepec - criada em 1994 e vista como uma espécie de 'carta magna da liberdade de expressão' na América Latina. "Apesar de Chapultepec, estamos hoje pior do que há dez anos", afirmou Eduardo Ulibarri, representante das Nações Unidas. Ele propôs que se convoque uma conferência "para adaptar a Declaração às realidades da internet e redes sociais".

Google vs. jornais.
No último debate do dia, foi analisada "A proteção da informação na era do Google" - sobre a ação do sistema de buscas, criticado por faturar publicidade distribuindo notícias sem remunerar as fontes que as produzem. José Maria Moreno, do International Institute for Media Development, resumiu o poder do Google hoje: ele "concentra 90% das buscas na internet e fica com 90% do faturamento".

O colombiano Roberto Pombo, de El Tiempo, relembrou conflitos que, desde 2010, levaram países como França, Alemanha, Espanha e Brasil a estabelecer medidas de controle. Essa relação entre os dois lados tem de ser mais de diálogo do que de demandas", resumiu.

Pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), o brasileiro Carlos Müller afirmou que o Brasil é visto como "exemplo de resistência" nessa disputa - os jornais ligados à ANJ recorreram à Justiça para evitar o uso de seu trabalho. Ele defendeu que qualquer solução para o caso deve passar pelo reconhecimento dos direitos dos jornais e outros meios, que produzem conteúdo.  (Fonte: aqui).

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O fato é que, além de políticas estatais, a democratização da informação, proporcionada pela internet, está inquietando, e muito, os conglomerados midiáticos. Depois do que aconteceu com o grupo Clarín, então...
Enquanto isso, nossa Constituição Federal continua carente de leis que regulamentem diretrizes por ela traçadas...

LEGÍTIMA DEFESA


(Autor desconhecido).

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O BRASIL E A PAPARICAÇÃO ÀS AGÊNCIAS DE RISCO


Como a Fazenda promoveu a Standard & Poor's

Por Luis Nassif

No último processo de globalização financeira, que tem início dos anos 70 e perdura até 2008, as agências de risco foram os grandes batedores iniciais do capital especulativo.

Havia muito desconhecimento sobre o novo mundo a ser desbravado e elas eram os batedores, que informavam onde havia terreno firme, onde havia o pântano.

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Com o tempo, criou-se uma promiscuidade ampla entre agências e clientes.

A experiência das agências é no ramo da contabilidade. Analisam o histórico de uma empresa – através dos balanços -, estimam o comportamento futuro de receita, despesa, geração de caixa, nível de endividamento, comportamento do mercado específico e, a partir daí, definem notas de fácil aplicação.

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Quando passaram a analisar risco soberano de país, o quadro complicou.

Um país não é uma empresa. E faltava à maioria das agências conhecimento de macroeconomia, dos movimentos dos grandes fluxos globais, das correlações entre câmbio e superávit, câmbio e demanda, políticas fiscais e consumo.

Com isso, acabaram a reboque dos departamentos econômicos dos grandes bancos internacionais, movendo-se por slogans e errando rotundamente em vários momentos cruciais da economia global recente.

E, dentre todas, nenhuma foi tão desastrosa quanto a Standard & Poor's.

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Um dos casos clássicos foi na crise da Argentina, valendo-se da teoria dos déficits gêmeos.

Essa teoria partia do pressuposto (de) que um déficit fiscal provoca, simultaneamente um déficit externo. Assim, bastaria resolver o déficit fiscal para o déficit externo ser equacionado. Ignoravam completamente os efeitos do câmbio, nível de atividade, movimentos do mercado de commodities.

Depois dos experimentos de Domingo Cavallo, a Argentina estava exangue. A S&P ameaçava rebaixar sua nota caso não promovesse um ajuste fiscal e, por consequência, o ajuste externo.

Uma semana antes da quebra da Argentina, Cavallo promoveu mais um ajuste fiscal e ganhou mais um elogio da S&P. Uma semana!

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Em 2008, a reputação das agências foi por água abaixo, especialmente da S&P. Houve quebras rumorosas de instituições contempladas, pouco antes, com sua nota máxima.

Por isso mesmo, só bagrinhos continuaram a tê-la como parâmetro. Com o mercado internacional suficientemente homogeneizado e com o conhecimento acumulado, cada grande instituição passou a recorrer exclusivamente a seus departamentos econômicos – ganhando um grau de influência maior do que o das agências de rating.

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O único governo a dar importância à S&P foi o brasileiro.

A S&P ameaçou rebaixar o Brasil e instaurou-se uma operação de guerra na República da Borundia.

O Ministro da Fazenda faz um apelo, o Secretário do Tesouro promete nunca mais sair da linha, uma comitiva da agência é recebida com pompas e rapapés em Brasília. E fica o país inteiro na torcida, rebaixa ou não rebaixa.

E ela rebaixa. O Ministro da Fazenda esbraveja, a presidente reclama, o Secretário do Tesouro resmunga, a oposição comemora.

Nos dias seguintes, as Bolsas subiram como nunca tinham subido nos meses anteriores e o dólar caiu, aquela queda mansa de economias tranquilas. (Fonte: aqui).

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Toda a paparicação às agências de risco por parte do ministério da Fazenda faz lembrar os famosos Chicago Boys dos anos 80, quando a postura neoliberal se alastrou pelo mundo...

NASA: PODE EXISTIR ÁGUA EM LUA DE SATURNO


Amorim.

RESQUÍCIO DO GOLPE


Benett.

PRECONCEITO POLICIAL

Laerte.

Racismo não existe. As armas é que gostam de matar jovens negros

Por Leonardo Sakamoto

Há amigos que nunca foram parados em uma blitz policial. Normalmente, são brancos, caucasianos, bem vestidos, jeito de bom moço ou moça, com todos os dentes ou próteses bem feitas, dirigindo veículos que estão nos comerciais bonitos de TV. Aqueles com o relevo e a fauna características de nosso país, como montanhas nevadas e cervos.

Um deles, por exemplo, me explicou que pilota uma moto há tempos sem habilitação. “A polícia não para de jeito nenhum.” Enquadra-se perfeitamente na categoria acima descrita. Recentemente, um róseo conhecido foi parado em uma batida. Ficou transtornado. “Como se atrevem? Acham que sou um qualquer?”

Por outro lado, há aqueles que cansaram de cair na malha fina da polícia. Quase sempre, negros ou pardos.

De tanto ser parado, um outro colega já encara como hábito. Perguntei se isso não o revoltava. Explicou, com um certo cansaço, que, desde moleque, era sempre a mesma coisa. Então, se acostumou. Já chegou a cair em duas batidas na mesma noite. Procuravam um meliante.

Sei que é assunto já tratado neste espaço, mas peço permissão para trazer a discussão de outro post. Pois uma pesquisa do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da Universidade Federal de São Carlos, lançada nesta quarta (2), apontou que a mortalidade de negros devido à violência policial é três vezes maior que a de brancos no Estado de São Paulo – apesar dos negros serem minoria.

Coisa que os jovens negros e pobres da periferia das grandes cidades paulistas já sabem há muito tempo.

Quando falamos em cotas raciais para acesso à educação superior ou a postos no serviço público, muita gente fica possessa. Dizem que cotas deveriam valer apenas para pobres, não para negros. Pois, às vezes, filhos de pais de pele cor parda nascem brancos ou negros. Ou, por vezes, uma pele negra esconde um perfil genético com grande participação de ancestralidade europeia.

Na minha opinião, a questão genética não deveria influenciar. O preconceito não se traduz quando alguém tem conhecimento da ancestralidade do outro (“Ei, sem preconceito! Meu tataravô era branco e alemão”), mas ao observar a cor ou diferenças étnicas. Porque mesmo que essas diferenças visuais digam pouco sobre a origem da pessoa, séculos de racismo deram um significado bem claro para determinada cor de pele. E isso não pode ser alterado sem enfrentamento.

Na prática, muitos não esperam para perguntar o perfil genético do rapaz negro que vem no sentido contrário na rua escura. Simplesmente, atravessam para o outro lado ou correm. Balas perdidas com o DNA da polícia não são guiadas pelo perfil genético e pouco se importam que um rapaz de pele negra tenha 70% de ancestralidade europeia. Talvez, posteriormente, o legista ache interessante.

E a herança desse preconceito não precisa ter sido sentida por gerações e mais gerações. Se uma criança nascer com a pele mais escura que sua família vai sofrer preconceito na sociedade mesmo que seus pais não tenham sofrido. Se for pobre, pior ainda. Tomando como referência a média salarial, os valores pagos para uma mesma função na sociedade coloca, em ordem decrescente: homem branco rico de um lado e mulher negra pobre do outro.

Ao me relacionar com os outros, não faço isso só. Imprimo séculos de biografias, séculos de acomodação cultural, de preconceitos e medos, reforçadas pela imagem do que sou hoje. Não só a genealogia pesa sobre os ombros, mas também a história e as condições sociais do país. De certa forma, no “agora” está presente toda a história humana.

A Justiça que se pretende fazer ao analisar e tentar reconstruir o Estado por um novo viés não é apenas a de saldar a dívida de uma escravidão mal abolida com os descendentes dos negros escravizados que não foram inseridos como deveriam no pós Lei Áurea. Mas sim a tentativa de mudar o pensamento e a ação de uma sociedade, ainda calcada na relação Casa Grande e Senzala, que trata as pessoas de forma desigual por conta da cor de pele.

Afinal, para muita gente, saber que alguém é negro já é o bastante. (Fonte: aqui).

EM ASCENSÃO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


Então está tudo bem no país do 'estupro mas não mata'?

Por Antonio Lassance

O IPEA errou. Errou, assumiu o erro e pediu desculpas, esclarecendo:

“Vimos a público pedir desculpas e corrigir dois erros nos resultados de nossa pesquisa ‘Tolerância social à violência contra as mulheres’, divulgada em 27/03/2014. O erro relevante foi causado pela troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases ‘Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar’ e ‘Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas’”.

Resumindo, os dados de uma pergunta eram, na verdade, referentes a uma outra questão.

O Instituto comete erros. Não é o único. O IBGE, o Banco Central, o INEP e todos os outros órgãos responsáveis por divulgar dados, todos, sem exceção, vez por outra são obrigados a publicar erratas em suas publicações, retificando ou o número em si, ou títulos de tabelas, ou outros tipos de informação.

Embora o erro faça parte do trabalho de qualquer pesquisador, e rotinas de validação existam para diminuir sua ocorrência, o fato é que a cobrança da sociedade sobre um erro é bem vinda e deve ser enfrentada com humildade.

Para começar,  é preciso reconhecer que o erro do IPEA foi maior por conta da repercussão nacional e até internacional que o dado incorreto alcançou.

Isso caiu como uma bomba sobre a cabeça dos jovens pesquisadores responsáveis pelo estudo, que são pessoas sérias. Sempre mereceram e vão continuar merecendo o respeito pelo trabalho que realizam há muitos anos na instituição.

O erro do IPEA está corrigido. Mas e o erro de quem, desavisadamente, acha que, desfeita a troca dos números, agora está tudo bem? Não, senhoras e senhores, não está tudo bem.

Se está tudo bem, por que será que o número de estupros no país está crescendo e já superou o de assassinatos, conforme informação do mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública?

Está tudo bem, então, no país do “estupra, mas não mata”? Será? Mesmo com mais de 50 mil mulheres estupradas em 2012, número mais de 18% superior ao de (...) 2011, agora podemos ficar tranquilos?

Detalhe: o número absurdo de estupros não considera os casos em que as vítimas deixam de relatar o ocorrido - por vergonha, por medo da reação da família, por receio de que alguém ache que elas não souberam “se comportar”.

O dado de estupros em 2013 vem aí. Quem fará a piada? Quem vai curtir com isso?

Desde que a Lei Maria da Penha entrou em vigor, em 2006, o número de agressões contra mulheres, relatadas ao serviço “Ligue 180”, cresceu 600%.

A cada hora, duas mulheres, vítimas de abuso, dão entrada em unidades do Sistema Único de Saúde. Alguém ainda acha pouco?

Está tudo bem no país que concorda que, “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”? Há quem diga: "Ora, bolas! Isso é só um dito popular, como outro qualquer". Sim, um dito popular como “serviço de branco”. Só um dito popular?

Está tudo bem no país que acha que a mulher que é agredida e continua com o parceiro é porque gosta de apanhar?

O IPEA errou, mas quem comemora o erro está redondamente enganado.


(*) Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do IPEA. (Fonte: aqui).

AMOR SELIC


Mário.

domingo, 6 de abril de 2014

DO CONSPIRACIONISMO


De ovos, serpentes e o que fazer a respeito

Por Carlos Orsi

Dei uma passada no YouTube para assistir ao vídeo da TV Folha com os supostos ideólogos da tal Marcha Com Deus Pela Família Etc. e Tal, e tomei um tremendo susto. Não sei se os leitores do blog se lembram, mas em julho do ano passado a revista Galileu publicou uma reportagem minha sobre teorias da conspiração. Entre outras coisas, a matéria incluía alguns avisos, feitos por psicólogos e cientistas políticos, sobre como teorias assim são perigosas, na medida em que solapam a capacidade de diálogo dentro da sociedade, transformam adversários em inimigos e, no fim, ameaçam a democracia.

Enfim. Enquanto assistia à Folha dar corda para que seus entrevistados se enforcassem, alguns sinais de alerta começaram a pipocar na minha cabeça: um deles disse que a "Nova Ordem Mundial" está controlando o Brasil. Outro, que o "Barão Rothschild" é o dono do mundo. Não sei como ninguém mencionou a Maçonaria, os Illuminati, os Reptilianos. De repente, ficou no chão da ilha de edição, ou no equivalente digital.

Falando assim pode parecer que achei graça, mas longe disso. Por dois motivos.

Primeiro: quando eu estava preparando minha matéria -- para quem não viu, ou não se lembra, o texto foi estruturado em tópicos, sendo que cada tópico representava uma conspiração diferente -- um dos temas que cheguei a propor ao editor Alexandre Matias foi "judeus".

Acabou descartado, basicamente para evitar mal-entendidos, mas a sugestão nasceu de um dado bem concreto: basicamente, toda teoria de conspiração surgida no mundo ocidental, pelo menos do século 18 para cá, é, no fundo, antissemita. Dos Illuminati da Baviera à Internacional Comunista, do Grupo Bilderberg aos Alienígenas Cinzentos, não  parece haver uma única fantasia paranoica a oeste da Sibéria que não tenha dado um jeito de reivindicar, para sua galeria de vilões, o "Barão Rothschild" e seus sequazes circuncidados.

Esboçando uma genealogia da coisa, a maioria das teorias sobre "governo mundial" passa, mesmo que seus proponentes atuais não saibam, por Nesta Webster (1876-1960), uma -- mais ou menos -- historiadora britânica, figura humana, em linhas gerais, especialmente deplorável e antissemita delirante. Creio que todo mundo que veio do século 20 sabe o tipo de merda que isso costuma dar.

A segunda razão está lá no texto da Galileu. Com o perdão da autocitação, reproduzo:

Embora o termo “paranoia” esteja quase sempre associado à conspiração, ela não se traduz como patologia psicológica coletiva. O fato de lidarem com o implausível mascara que as teorias são parte da opinião pública, como descrevem os cientistas políticos J. Eric Oliver e Thomas J. Wood da Universidade de Chicago, em estudo publicado em 2012.

Eles escrevem que essas teorias servem para consolidar uma opinião populista que tende a extremos conservadores, como tradicionalismo, xenofobia, etnocentrismo e isolacionismo. Esta constatação confirma um artigo clássico sobre o assunto, publicado em 1964, em que o historiador americano Richard Hofstadter (1916-1970) chamava atenção para o caráter corrosivo destas teorias no debate público. Se o adversário conspira, as ferramentas da democracia — negociação e diálogo — não funcionam, restando uma escalada retórica que gera ressentimentos e pode produzir violência.


E, por fim:

O cientista político Michael Barkun, que já atuou como consultor do FBI, vê a subcultura das conspirações como um sistema integrado, uma rede em que o ponto de entrada não permite determinar o destino: o melhor indicador para prever se uma pessoa vai acatar uma nova teoria de conspiração é se ela já aceita outra, não importa qual.

Destilando o principal: "O fato de lidarem com o implausível mascara que as teorias são parte da opinião pública" e "o melhor indicador para prever se uma pessoa vai acatar uma nova teoria de conspiração é se ela já aceita outra, não importa qual". Em outras palavras, o fato de uma ideia ser ridícula não significa que não haja muita gente por aí que acredita nela e, dada a porosidade da cultura da conspiração, nenhuma besteira é "grande demais", em princípio, para que seja seguro deixá-la passar sem contestação racional.

Não creio que seja ético, ou mesmo viável, suprimir ideias pela força ou pela lei. Mas isso não significa que elas não devam ser combatidas no discurso público: "desconverter" conspiracionistas convictos pode ser quase impossível, mas há uma massa de indecisos e curiosos por aí que precisa, e merece, ser melhor informada. (Fonte: aqui).

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Se bem que está consagrada a seguinte prática: se algo surge que possa, mesmo que remotamente, por em xeque algum conceito paradigmático, o adepto de tal conceito lança o implacável 'antídoto': "Bobagem, isso não passa de teoria da conspiração!".

DA SÉRIE AMENIDADES DOMINICAIS


Estudo afirma que quem bebe cerveja atrai mais pernilongos

Um estudo afirmou que pessoas que bebem muita cerveja são mais propensas a atrar pernilongos. A pesquisa foi revelada pela Toyama Medical and Pharmaceutical University, no Japão.

A explicação para o fenômeno está ligada ao tipo sanguíneo e à quantidade de cervejas que a pessoa anda bebendo. Os cientistas descobriram que pessoas com o sangue tipo O que bebem cerveja são os alvos preferidos dos insetos.

Além disso, uma simples lata de cerveja é o suficiente para que os pernilongos sejam mais atraídos pelo consumidor. Ainda não se sabe os motivos que fazem com que o sangue fique mais “adocicado” para os insetos. (Fonte: aqui).

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"Ainda não se sabe os motivos que fazem com que o sangue fique mais 'adocicado' para os insetos."
E dificilmente se virá a saber. Se ao menos se tratasse de cachaça, que é feita de cana de açúcar...