sexta-feira, 31 de agosto de 2012

OLD CARTUM


Quino.

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Cartum produzido nos anos 1970. Os Ipads, smartphones e quetais eram tresloucada ficção...

MÍDIA, DISTORÇÕES E SILÊNCIOS


A democracia relativa

Por Rodolpho Motta Lima

Países autointitulados democráticos estão mostrando a toda hora o relativismo desse conceito. Uma ação é tida como democrática quando consulta determinados interesses, mas uma outra atitude igual ou semelhante é tachada de antidemocrática se os contraria...

No reduto ocidental, que nos interessa diretamente, Estados Unidos e Inglaterra – esse braço americano na Europa – tentam impor a concepção de que, em nome dos princípios democráticos, é preciso haver uma “polícia mundial”, atuando, é claro, sob o comando deles, que “coloque em ordem” o planeta, segundo um conceito que quase sempre esconde interesses discutíveis.

Em declaração recente, James Cameron, primeiro-ministro inglês, acusou a Argentina de colonialista em relação às ilhas Malvinas. Mas logo a Inglaterra é que vem falar disso, com sua vasta e não muito digna história nesse campo? Logo a Inglaterra, que, há não muito tempo, utilizando-se de uma falsa alegação de armas de destruição em massa e escondendo os verdadeiros objetivos petrolíferos da operação militar , ajudou os americanos a invadir o Iraque? Claro – dirão alguns -, o Iraque era uma ditadura. Mas e as outras, da mesma região, aliadas do Ocidente, cujo petróleo já está “sob controle”? É o tal princípio relativista de democracia , que se apregoa quando serve e se esconde quando não interessa.

O caso Assange, brilhante e exaustivamente tratado aqui no DR, caracteriza situação que envolve um atentado à soberania nacional – insinuam-se ações contra a embaixada equatoriana - , e de profunda desfaçatez política – o estupro sueco como desculpa para a extradição do jornalista fundador do “Wikileaks”. Por que “desculpa”? Pela própria admissão da Suécia de que poderá enviar Assange para os EUA se lá não houver risco de pena de morte (o estupro não seria então a razão, e prisão perpétua pode...). E qual é a postura dos órgãos midiáticos aqui do Brasil diante dessa perspectiva? Limitam-se a informar os fatos, sem qualquer análise , isso quando não deixam escapar simpatias pela extradição.

Em momentos como esse, percebe-se que, quando não interessa, não existe a tal visão crítica, ou, se existe, surge apoiada em pretensos “especialistas” colhidos a dedo.

Faço aqui uma comparação, só para provocar uma reflexão, com o que vi na Globo a propósito da declaração do candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Freixo, para quem, se eleito, o município carioca só subvencionaria o Carnaval para as escolas de samba que, nos desfiles, apresentassem bons projetos culturais, já que, na sua concepção, o dinheiro público não pode servir, por exemplo, à promoção da revista “Caras” e coisas do gênero. Tanto bastou para que a turma global denunciasse um comportamento de censura (o que não é o caso, porque o que ele diz é que dinheiro público deve ser aplicado em interesse público).

E é a mesma turma que se cala diante do caso Assange, que, com o Wikileaks, colocou a nu ações governamentais nem sempre dignas ou democráticas... São os mesmos, aliás, que não perdem uma oportunidade de defender o bloqueio a Cuba em função da ausência de liberdade na ilha cubana, mas calam-se quase totalmente quando se trata de referir-se à prisão de Guantânamo, essa excrescência que mantém muitos seres humanos encarcerados sem acusação formal ou julgamento, em uma das maiores manifestações de desapego aos direitos humanos nos dias que correm.

Mudo agora de exemplo, mas não de assunto. Ai do cidadão que não consegue ter discernimento (às vezes, recursos) para se informar corretamente através de fontes isentas que lhe permitam distinguir o joio do trigo!
 
Recentemente, a grande imprensa publicou resultado de um levantamento efetuado na América Latina a respeito dos índices de desigualdade social nos países que a compõem. Colocou-se em destaque negativo o Brasil , posicionado em quarto lugar entre os países de maior desnível, só perdendo para Guatemala, Honduras e Colômbia. Também se informou, porque os estudos diziam isso, que essa posição revelava uma melhoria conquistada nos últimos anos, porque anteriormente o país liderava esse “ranking” perverso. É claro, porém, que a ênfase ficou para o negativo.

A linguagem da mídia usa frequentemente o recurso do “mas” para enfatizar o que pretende. Ensino aos meus alunos que o “mas” não é apenas uma partícula adversativa no discurso, mas (como estou fazendo agora) tenta construir a verdade que se pretende, desqualificando o anteriormente dito. Se alguém diz que “ela não é rica, mas é inteligente”, está valorizando a inteligência, o que não fará com a mesma ênfase quem disser que “ela é inteligente, mas não é rica”, que soa como uma lamentação.
  Preste atenção na linguagem da mídia “tucano-urubulina” quando se trata de informar virtudes do governo: há sempre um “mas”, geralmente acompanhado de “especialistas“, para desconstruir o impacto positivo da própria notícia...

Ainda nesse levantamento, a Venezuela aparece como o país de menor desigualdade social e Cuba não foi relacionada (não deve fazer parte da América Latina...). Nenhum destaque para esse fato. Aí, ficamos sem saber o que pensar, ou melhor, o que pensam esses “deformadores de opinião”: se o indicador de desigualdade é – como eu penso que seja - um dado democrático importantíssimo, então a Venezuela está de parabéns (e ninguém ousou dizer isso nas reportagens). Mas se essa turma não acha isso relevante, por que destacar negativamente o Brasil? Respondam os que, ingenuamente, não acreditam em manipulações e na necessidade de se regular essa liberdade de desinformar...  (Fonte: aqui). 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

OS MAIORES ESPORTISTAS DO MUNDO


Charge de Dum.

CELULAR (QUASE) UNICELULAR


Novo celular liga para apenas 12 contatos

Em tempos de celulares inteligentes e multi-funcionais, uma empresa no Reino Unido lança um aparelho que serve apenas para ligar e receber, e para um número limitado de contatos. Chamado de OwnFone, o aparelho descarta o teclado numérico completo e vem com o limite de 12 teclas personalizadas, cada uma representando um contato.

"É o ideal para crianças ou usuários mais idosos que se atrapalham com a tecnologia, ou como um celular reserva para quando o iPhone ficar sem bateria", comenta o vídeo de apresentação do OwnFone.

Pela internet, os clientes podem customizar os aparelhos escolhendo número de teclas, ou contatos, digitar uma identificação para cada contato, cor, padrão de estampa ou uma imagem. O modelo tem o tamanho de um cartão de crédito e é enviado diretamente para a casa dos clientes, serviço hoje disponível apenas no Reino Unido.

Em breve, promete o site, será possível imprimir teclas com braile e fotografias. (Fonte: aqui).

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Na foto, "mummy", mãe. Nada mais pertinente. E o bacana é que, certamente, no Reino Unido os celulares funcionam a contento...

A CHEGADA DO BRASILEIRO CAMPEÃO


Lute.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

OLD PHOTO


Ingrid Bergman, atriz sueca. 29.08.1915 - 29.08.1982.

Foto de John Florea/Time, feita em 1943, quando das filmagens de “Por Quem os Sinos Dobram”.

De 1934 a 1982, protagonizou mais de 50 filmes, entre os quais (além do clássico acima, claro) "Casablanca" (1942), "À Meia Luz" (1944), "Os Sinos de Santa Maria" (1945), "Flor de Cacto" (1969) e "Assassinato no Orient Express" (1974).

DO FILOSÓFICO AO BIG BANG


Teorizando as teorias

Você já parou para pensar sobre o que é uma teoria? Como nasce uma teoria? Como se valida ou invalida uma teoria?
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Comecemos do princípio: o que são teorias?
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Teorias são ideias, ideias são teorias.
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As teorias podem ser simples, podem ser complexas, podem ser praticáveis, podem ser impraticáveis, podem ser utilizáveis, podem ser inutilizáveis, podem funcionar, podem não funcionar, podem chegar a conclusões inesperadas, enfim, podem, ou não, dar respostas satisfatórias para solucionar os problemas que são apresentados.
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Tudo depende da possibilidade ou não de se traduzir essa ideia em algo mensurável.
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Como nasce uma teoria, afinal?
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Toda teoria nasce fundamentalmente como algo de caráter filosófico, ela nasce de um experimento mental, uma ferramenta imaginativa do nosso intelecto, que tenta responder a uma pergunta, que traduzirá o que vemos na tentativa de explicá-lo e/ou melhorá-lo.
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Uma teoria nasce filosoficamente, como a possível resposta a uma pergunta, e que é resultado de uma série de observações, e as suas conclusões deverão passar pelo crivo da experimentação para tornar-se uma teoria científica.
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O ser humano observa o mundo a sua volta e se pergunta: como ele “funciona”, como podemos explicá-lo, como podemos melhorá-lo, como podemos aprender com ele, como podemos tirar melhor proveito dele?
A partir do momento em que a resposta se cristaliza em nossa mente, esta resposta ainda é uma resposta fundamentalmente filosófica.
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A verificação dessa resposta por meio de experimentos é que fará com que essa resposta saia do âmbito filosófico para o âmbito da realidade.
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Um bom exemplo de como nasce uma teoria, é o caso de Einstein. Ele desenvolveu suas teorias da relatividade restrita e geral, na tentativa de responder as seguintes perguntas: “O que aconteceria, se ele viajasse à mesma velocidade que a luz? O que ele veria ao se emparelhar lado a lado com um dos fótons que compõe essa luz e olhasse diretamente para esse fóton?”
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Através da imaginação criativa, ele fez essa viagem, e na volta dela, trouxe a bagagem necessária contendo as informações para desenvolver as teorias, as possíveis respostas para as perguntas formuladas.
A resposta cristalizou-se no ano de 1905, mas, ainda assim, era uma resposta puramente filosófica, que só pode tornar-se uma parte de uma resposta científica, em 1918, quando através de experimentos, se comprovou uma de suas teorias.
Uma teoria filosófica só se torna uma teoria científica quando passa pelo crivo da experimentação.
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Os experimentos irão indicar uma das possibilidades abaixo:
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1 ) A ideia está errada, pois não corresponde com a realidade observável.
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2 ) A ideia está correta, pois corresponde com a realidade observável.
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3) A ideia ainda não pode ser comprovada, por falta de melhores recursos experimentais que a comprovem ou desaprovem.
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4) A pergunta que deu origem à ideia está formulada de forma correta, mas a interpretação de sua resposta experimental está incorreta.
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5) A pergunta que deu origem à ideia está formulada de forma errada, mas a interpretação de sua resposta experimental está correta.
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Isso acaba virando um tremendo balaio de gatos, uma vez que se podem tirar conclusões corretas por meios errados, e tirar conclusões erradas por meios corretos.
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Felizmente, existe a pesquisa incessante da ciência, para colocar os pingos nos devidos “Is”, mas, muitas vezes, perceber a ilusão de uma resposta errada que se acredita estar certa pode levar décadas para ser entendida e finalmente corrigida.
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Isso acontece porque muitas vezes, ao observamos um determinado fenômeno, não termos a tecnologia ideal para medir esse fenômeno, então nos baseamos em dados probabilísticos. Para chegar a uma resposta mais ou menos correta.
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O outro problema, é que muitas vezes ao observamos um determinado fenômeno, lhe atribuímos a uma causa errada, por acreditarmos que é essa causa, que geraria este fenômeno.
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Mas, basicamente, se a ideia não pode ser comprovada plenamente, ou somente parte dela pode ser confirmada, ela então, permanece apenas como teoria parcialmente filosófica e não totalmente científica.
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Esse é o caso, por exemplo, da teoria Padrão, mais conhecida como “teoria do Big Bang”, ela explica muitas coisas corretamente, isso é, muitas de suas respostas foram comprovadas experimentalmente, mas em compensação deixa um monte de lacunas sem resposta, ou perguntas mal respondidas, criando mais perguntas sem respostas ou com respostas ainda não mensuráveis. Isso a coloca, então, no hall das teorias mais filosóficas do que científicas, indicando que ela pode ser substituída futuramente por uma nova e melhor teoria.
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Agora, se uma ideia for comprovadamente falha e não responder satisfatoriamente e plenamente a uma pergunta, ela pode ser definitivamente descartada e não se fala mais nisso, ok? Não adianta tentar ressuscitar um morto, ele está morto e por mais fé que você tenha nessa teoria, ela não andará com os próprios pés. Então, descarte a teoria e tente criar uma nova e mais satisfatória teoria. (...).
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Para continuar a leitura, clique AQUI.

TANGO LUNAR


- O que sentem por vencerem o mundial de Tango?

- Foi um pequeno passo de Tango e um grande passo para a humanidade!

Por Crist.

ELITES LÁ E CÁ

Comentário a propósito da impressão manifestada por uma leitora do blog do jornalista Luis Nassif, de que "as elites são todas iguais":


A diferença entre as elites

Por André Araujo

(...). As elites são muito diferentes. As elites dos países emergentes são piores, mais egoístas, mais corruptas, mais oportunistas, não tem muito interesse pelo coletivo, pelo futuro do Pais.

As elites dos países centrais tem mais interesses culturais e coletivos; os ricos americanos doam todos os anos cerca de 150 bilhões de dólares para filantropia, os museus, óperas, ballets, universidades, muitos hospitais, institutos de pesquisas nos EUA, Inglaterra e Aleamanha são financiados por enormes fundos doados por particulares, quase não há dinheiro publico. O fundo de investimentos de Harvard, constituido por doações, hoje tem 33 bilhões de dólares investidos; as universidades mais antigas (as Ivy League) tem todas fundos de bilhões de dólares, tudo doado por particulares, o Metropolitan Museum de Nova York, assim como o Museum of Modern Art, o Museu Whitney, a Frick Collection, o Carnegie Hall, é tudo doação de ricos, isso aqui no Brasil é muito mais raro. A Faculdade de Medicina da USP, uma das melhores do País, teve seu prédio antigo doado pela Fundação Rockefeller, isso há quase cem anos atrás.

Mesmo ricos que gostariam de doar aqui no Brasil não acreditam na boa administração dos recursos, não confiam no sistema de controle, muitas fundações são dilapidadas.

O (bilionário) Jorge Paulo Lehman doou 15 milhões de dólares para Harvard e aqui, ao que eu saiba, não doou nada, não há aqui o espírito de boa gestão de fundações, a impressão que se tem é que tudo pode sumir na mão de malandros.. A magnífica Maternidade São Paulo, enorme, central, onde nasceram tantos paulistanos, está fechada há 9 anos, abandonada, o prédio em deterioração, por falta de recursos, era uma entidade particular beneficiente, Paulo Maluf nasceu lá e ao que eu saiba nunca doou nada; muita gente rica nasceu lá e ninguém salvou essa instituição tão benemérita.

As elites são realmente bem diferentes, não são "iguais em todo lugar". (Fonte: aqui).

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Interessantes as observações acima. Permito-me, nada obstante, fazer uma ponderação: a legislação norte-americana relativa a imposto sobre a renda e grandes fortunas é pesadíssima, e em certos casos é mais proveitoso (ou 'menos doloroso') fazer-se generosas doações a determinadas instituições, ou até mesmo instituir-se fundações. Nos países nórdicos essa realidade também é observada - mas desconheço as normas vigentes em outros países ricos (ou centrais, como o articulista classifica).
Contudo, é lícito supor que há doadores/instituidores que assim agem por puro espírito de solidariedade e por estarem convictos da correta aplicação dos recursos liberados.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

TRAÇO E RISO



Por Jota A. aqui.

TRAÇO, RISO E FESTA



Os aficionados em humor/artes gráficas fizeram fila para adquirir o livro Traço e Riso, de Jota A, lançado dia 23, no Teresina Shopping. Nada mais natural, dada a qualidade do trabalho desse filho de Coelho Neto (MA), internacionalmente teresinense.

Na foto abaixo, Jota A e meu compadre Kenard Kruel.

Clique aqui para ir ao blog do Jotinha, e aqui, de Kenard.

HORIZONTE ABERTO


Shahrokin Heidan.

AULAS DO MENSALÃO


Merece registro a iniciativa de algumas instituições de ensino, de destacar estudantes de Direito para assistir a sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal.

Nesta semana, por exemplo, compareceram estudantes de Balsas (MA), seguiosos dos ensinamentos a serem ministrados pelos doutos julgadores do chamado processo do Mensalão.

Infelizmente, depois de juízos formulados fora dos autos, da não consideração da subsunção do(s) ato(s) praticado(s) aos tipos penais e do entendimento externados pelo ministro Fux consistente em que o ônus da prova cabe ao acusado, os professores certamente terão fortes ressalvas a oferecer a seus aplicados apreciadores do Direito Penal.

DA COERÊNCIA


Pavel Constantin.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

CRISTO DESFIGURADO



A sra. Cecília Gimenez, de 81 anos, tentou, por iniciativa própria, restaurar a obra "Ecce Homo", de Elías García Martínez, pintada no início do século XIX em um dos muros do santuário de Nossa Senhora da Misericórdia de Borja, de Zaragoza, Espanha. Dona Cecília foi terrielmente malsucedida, como se observa.

Dentro de 15 dias será conhecida a providência a ser adotada, e três possibilidades são consideradas: deixar a pintura como está (!), colocar por cima da obra um quadro do mesmo artista - que a família estaria disposta a doar - e levar a cabo a restauração.

Nesse meio tempo, o assunto caiu no picadeiro das redes: aplicativos permitem que se façam montagens/colagens as mais diversas. (Mais informações AQUI. Só pra constar: clicando no 'aqui', vai-se ao Uol... entretenimento!... Tsk, tsk, e pensar que houve um tempo em que temas da espécie figuravam em religião...).

Na opinião de Ailton Medeiros, titular de blog constante nos links, o afresco "tem tudo para se tornar ícone", bem como "poderá repetir Monalisa, de Leonardo da Vinci, que ficou famosa depois que sumiu do Louvre, em 1911."

PIRACICABA 2012: PRÊMIO TIRINHA


Rafael Correa, de Porto Alegre-RS.

SOBRE O AFROUXAMENTO DA LEI AMBIENTAL


Ba Biling.

Código florestal: águas ameaçadas

Por Antonio Nobre e Ricardo Rodrigues

No país dos superlativos, o gigantismo do nosso sistema hidrológico também entra no rol de maior do mundo: são mais de 9 milhões de quilômetros de rios. Enfileirados dariam 220 voltas na Terra, ou cobririam 22 vezes a distância à Lua. Da estabilidade, vigor e saúde desses rios dependem o suprimento das cidades, a segurança hidrológica, a geração de eletricidade, a irrigação na agricultura e a sobrevivência de preciosa biodiversidade. As bacias hidrográficas adequadamente florestadas, como ainda vemos em parte da Amazônia, mantêm rios ricos e saudáveis. No contraponto, as terras agrícolas degradadas e os efluentes urbanos e industriais têm péssimas consequências.

A destruição indiscriminada dos ecossistemas resulta sempre em elevados prejuízos. Com a degradação das terras, das águas, do clima e da biodiversidade surgem múltiplos impactos na saúde e também consequências econômicas, nem sempre devidamente reconhecidas ou contabilizadas. A complacência com a destruição é herança da mentalidade colonial europeia e da revolução industrial, dois aríetes históricos que deixaram um rastro de destruição mundo afora. Mas a consciência sobre a necessidade de preservação das florestas não é recente nem é um luxo urbano. Em 1537 o governador desta colônia portuguesa, Duarte Coelho, determinou: "E assim mando que todo povo se sirva e logre dos ditos matos,..., tirando fazer roça que não farão,... e... árvores maiores... não cortarão sem minha licença..., porque tais árvores são para outras coisas de maior substância..., e assim resguardarão todas as madeiras e matos que estão ao redor dos ribeiros e fontes." Em meados do século XIX, D. Pedro II, premido pela degradação da água que abastecia o Rio de Janeiro, desapropriou fazendas no maciço da Tijuca e mandou reflorestar a mata Atlântica. Hoje, como no tempo do descobrimento, fluem cristalinas as águas alí.

Como resposta a séculos de abuso, o primeiro código florestal de 1934 já veio tarde. O desrespeito generalizado ao "resguardo das madeiras e matos ao redor de ribeiros e fontes" comprometeu águas por toda parte. E para azar dos rios, o despejo crescente de esgotos e todo tipo de contaminantes somou-se à centenária erosão das terras desnudas. O código florestal evoluiu no interesse do bem comum, peitando a arraigada mentalidade desmatadora, oferecendo assim um mínimo de proteção para as florestas, e com elas para as águas e para os rios. Apesar disso, para muitos a lei era regra de papel, e as florestas continuaram a tombar. Acumulou-se extenso passivo de ilegalidade nas propriedades, situação colocada em evidencia pelo eficiente cerco de fiscalização e punição dos anos recentes. A reação no setor rural foi curiosa: se a obediência é inescapável, então desconstrua-se a lei. Suportados por uma azeitada máquina política no Congresso e investindo pesado em retórica, lideranças deste setor vêm tentando justificar o afrouxamento na lei.

Não há argumento científico ou de interesse agrícola para não recompor as matas ciliares
Com recurso à ciência, analisemos apenas a alegação de que restaurar matas de galeria, os indispensáveis cílios ecológicos de proteção aos corpos d"água, reduzirá a área disponível para a produção de alimentos. Estudos feitos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), cobrindo milhões de hectares em várias partes do país, encontraram que a superfície que era destinada à proteção de matas ciliares em propriedades privadas, seguindo as estipulações do revogado Código Florestal de 1965, ocupava apenas de 7 a 9% da área total; para proteger todas as nascentes acrescentavam-se ínfimos 0,2%. Superando duas vezes essa área de proteção, a superfície ocupada por terrenos úmidos foi estimada em 17%. Ora, os terrenos úmidos, com lençol freático exposto, são impróprios para a maioria das práticas agrícolas.

O arroz irrigado, uma das poucas culturas aptas a crescer em terrenos úmidos, foi usado repetidamente como exemplo de área agrícola consolidada, na tentativa de justificar a redução generalizada das áreas de proteção no entorno de rios. Contudo, com aproximadamente 1,3 milhão de hectares, essa cultura ocupa menos de 1% dos 144 milhões de hectares de terrenos úmidos e representa menos de 0,5% da ocupação agropecuária do país. Já os arroios, riachos e igarapés dos altos cursos - aqueles com menos de 10 metros de largura - representam 86% da extensão dos rios e não têm interferência significativa com a produção de arroz, cultivado em várzeas amplas de rios maiores. Sobre esse vasto sistema hidrológico capilar se abaterão massiva e adversamente as consequências do afrouxamento na lei. A pequena ocupação da cultura de arroz irrigado, ou ocupação ainda menor das culturas de vazante na Amazônia, não podem justificar a redução da proteção no atacado como fora feito.

Não há, portanto, argumento científico ou do interesse agrícola, mesmo em relação a pequenas e médias propriedades, para não recompor integralmente as matas ciliares, permitindo que desempenhem seu vital papel no condicionamento das águas e proteção dos rios. Ademais, surge no horizonte valorização econômica significativa para os chamados serviços ambientais das matas naturais. Um estudo feito para o Estado da Geórgia, nos EUA, estimou em US$ 37 bilhões o valor anual dos serviços ambientais prestados por florestas preservadas em propriedades rurais naquele Estado, que é do tamanho do Acre. A lógica econômica é simples: tornar potáveis águas contaminadas chega a custar cem vezes mais do que aquelas servidas, cristalinas, pelas florestas naturais.

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Antonio Donato Nobre, agrônomo e PhD em Ciências da Terra, é pesquisador sênior do INPA e coordenador do Grupo de Modelagem de Terrenos no Centro de Ciências do Sistema Terrestre do INPE

Ricardo Ribeiro Rodrigues doutor em Biologia Vegetal, é professor titular e coordenador do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/ USP.

Os dois autores atuaram como relatores no estudo feito pela SBPC e ABC sobre o Código Florestal.


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A seca brutal que assola o Piauí (o Nordeste) já produz consequências extremamente negativas, como a (previsível) redução do fluxo dos rios Poty, Parnaíba e demais, e o acentuado rebaixamento/esgotamento do lençol freático de Teresina e arredores, comprometendo os cerca de 120 poços que suprem as necessidades de abastecimento desta Capital, segundo a Agespisa.
Quais os reflexos negativos adicionais que o afrouxamento da lei ambiental irá provocar?

domingo, 26 de agosto de 2012

39º SALÃO DE HUMOR DE PIRACICABA


Cartum de Oleksy Kustovsky, da Ucrânia, premiado no 39º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, cuja abertura aconteceu sábado, 25.

Informações sobre o evento aqui.

ÓCULOS


Bosc.

ASSANGE: PLANOS PÚBLICOS


Por descuido, vazam planos da polícia britânica para capturar Assange

Um oficial da polícia metropolitana de Londres (ou Met, como é conhecida no Reino Unido) revelou acidentalmente um plano para deter Julian Assange “sob qualquer circunstância” caso ele pise fora da embaixada do Equador. O policial desinformado foi fotografado segurando uma prancheta que detalhava possíveis formas pelas quais o fundador do WikiLeaks poderia tentar escapar do prédio onde se abriga há dois meses.

Os planos escritos à mão, capturados por um fotógrafo da Press Association enquanto o oficial esperava ao lado de fora da embaixada equatoriana (...), dizem que o australiano deve ser capturado caso surja em um veículo com imunidade ou mesmo em uma mala de correspondência diplomática. Houve também especulações de que Assange poderia ser “contrabandeado” para fora do prédio escondido em um pacote ou receber um cargo do Equador nas Nações Unidas para evitar sua prisão.

O guia de operações, marcado como confidencial, também alertava para a possibilidade de que simpatizantes do australiano pudessem tentar distrair a polícia e criar uma brecha para que Assange fuja. Outros detalhes das anotações, que estavam cobertos pelo braço do oficial que as sustentava, se referiam, aparentemente, a operações de rotina da embaixada e de uma possívlel necessidade de “suporte adicional” de uma agência conhecida como SS10. A Scotland Yard alegou não saber a que isso se refere. (Fonte: aqui).

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A OEA, Organização dos Estados Americanos, acaba de oferecer apoio ao Equador relativamente ao caso Assange, tendo como base diretrizes do Direito Internacional. A Grã Bretanha, ao que se observa, permanece atenta aos humores do governo americano, que continua (aparentemente) mudo, o que é de uma eloquência ímpar. Quanto aos humores do Direito Internacional, no comments.

sábado, 25 de agosto de 2012

CARTUM CÓSMICO


Muhittin Koroglu.

POEIRA DE ESTRELAS


"Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade."


(Neil A. Armstrong. Astronauta americano. 5.8.1930-25.8.2012. Armstrong tinha 39 anos quando comandou a tripulação da nave Apollo 11. Ao lado do também astronauta Edwin Aldrin, ele caminhou na Lua por quase três horas, no dia 20 de julho de 1969, vinte minutos após a nave aterrissar no satélite natural da Terra. Foi então que proferiu as palavras acima.
Persistem questionamentos quanto ao 'passo gigantesco', mas são inegáveis os avanços tecnológicos advindos da era espacial. Pululam também teorias conspiratórias quanto ao tema 'homem na Lua' - à prova de quaisquer contraprovas, segundo seus adeptos).

CARTUNS ESPACIAIS

Dodó Macedo. 1991. Cartum classificado no 18º Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

VChMyriov. Ucrânia. 2012.

OLD PHOTO

Capa do livro "Terra", com foto de Joceli Borges, a menina sem-terra, de autoria de Sebastião Salgado. 1996.

"Menina eternizada em foto de Sebastião Salgado ainda é sem-terra

Aos cinco anos de idade, Joceli Borges foi retratada pela famosa câmera de Sebastião Salgado ao lado dos pais, que peregrinavam pelo interior do Paraná em busca de um lote de terra.

Aquele rosto sujo de olhar provocativo virou capa de livro e ganhou espaço na mídia, em museus e em galerias do Brasil e do exterior.

Passados 16 anos, a jovem de 21 anos continua uma trabalhadora rural sem terra.

Vive com o marido e a filha em um acampamento do MST e diz ter dois sonhos: um lote e dois exemplares do livro que espalhou sua imagem mundo afora. "Um pra mim e outro pro meu pai."

O livro "Terra", com o rosto de Joceli na capa, foi lançado em abril de 1997. Além de uma centena de fotos em preto e branco do meio rural brasileiro, o trabalho traz texto de José Saramago e vem acompanhado de um CD com músicas de Chico Buarque.

À época, os sem-terra marchavam pelo país para lembrar o primeiro aniversário do massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), invadiam propriedades aos montes e colocavam a reforma agrária em destaque. (...)"

À esquerda, foto feita por Sebastião Salgado em 1996; à direita, Joceli hoje, em acampamento do MST

Para ler a matéria completa, clique AQUI.

ILUSTRAÇÃO


Vladimir Kush.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A MORTE DO GRANDE ARQUEIRO


Félix Miéli Venerando, goleiro da seleção brasileira na Copa de 70, morreu hoje aos 74 anos, por conta de uma doença pulmonar obstrutiva crônica agravada por pneumonia.

O goleiro foi revelado pelo Nacional, de São Paulo, e jogou na Portuguesa e no Fluminense e foi titular na conquista do tricampeonato, ao lado de Pelé, Tostão, Clodoaldo, Gerson e Rivellino.

Quem viu Brasil X Inglaterra na Copa de 1970 sempre terá em mente as defesas do grande Félix, em especial a investida de Lee na pequena área, que ele, no reflexo, rebateu com a mão direita.

Mas Félix nunca teve a unanimidade da torcida. Eu mesmo, no começo, torcia o nariz. Depois da conquista do TRI tudo mudou. Opa! Mudou, em termos: o próprio Félix alimentava mágoas em razão do desconhecimento de seu talento:

"Pelo menos quando eu morrer que parem de dizer que o Brasil ganhou a Copa de 70 `apesar do Félix´. O Barbosa foi crucificado por não ter ganho a Copa de 50 e eu por ter ganho a Copa de 70. Duas grandes injustiças!"

Partiu um heroi da Seleção de 70...

MENSALÃO: BREVE PITACO


Charge de Aroeira.

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Há um relator, um revisor e os demais julgadores. Em tese, num julgamento tradicional (não fatiado em capítulos, como ocorre) o relator daria o seu voto por inteiro, e pronto; caso encerrado pra ele. Passo seguinte, o revisor se manifestaria, e fim de papo. A palavra seria então dos demais julgadores.

O fato novo (no julgamento fatiado): inconformado com o voto do revisor, contrário a seu juízo, o relator, inovando, pretende tomar a palavra para replicar. Eis que o revisor pondera: se vai haver réplica, que me seja dado o direito de tréplica. Ah, mas aí não pode! Que absurdo é esse?! Afinal, com tanta discussão e rediscussão, até onde se estenderá esse julgamento?!!

O fato é que o relator pretende ter a última palavra (a exemplo do Procurador-geral, que, após as defesas apresentadas pelos advogados, apressou-se em destinar um memorial aos ministros), e onde já se viu revisão de última palavra?

De repente, o próprio papel de revisor passou a ser minimizado pelo presidente do Supremo: não passaria de mero coadjuvante...

De qualquer modo, cumpre aguardar.

ELEIÇÕES EUA: O FATOR DINHEIRO



A Suprema Corte americana decidiu que inexiste teto para as doações realizadas por empresas: cada uma pode doar o quanto entender cabível. Daí a polvorosa nos comitês republicano e democrata. Mobilização total. Uma das bandeiras de Romney é aumentar impostos para os mortais comuns e reduzir os dos detentores de grandes fortunas. Logo... Haja luva de boxe pra agasalhar tanto cifrão!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ALGUMAS DE NELSON



O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência.


Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de “ilustre”, de “insigne”, de “formidável”, qualquer borra-botas.


A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.


O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.


Em nosso século, o “grande homem” pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.


O amor não deixa sobreviventes.


Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.


Invejo a burrice, porque é eterna.


Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, com a luva de borracha e um passarinho em cada ombro.


O cinema não chega a ser uma arte. Daqui a seis mil anos talvez o seja./O cinema francês é como o italiano: um conto do vigário./O cinema brasileiro só dará pé quando desaparecer o Cinema Novo até o último vestígio.

Um vago decote pode comprometer ao infinito. Só o ser amado tem o direito de olhar um simples decote.


Hollywood é o óbvio ululante.

 

Nada mais doce, nada mais terno, do que um ex-inimigo.


Nossos marxistas são marxistas de galinheiro. Aliás, Marx também era marxista de galinheiro.

 

O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem.


O biquíni é uma nudez pior que a nudez./Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro./Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.

Nunca o brasileiro foi tão obsceno. Vivemos uma fase ginecológica.


Só os profetas enxergam o óbvio./Todo óbvio é ululante.

A plateia só é respeitosa quando não está entendendo nada.


Viajar também é uma forma de solidão.

Toda unanimidade é burra.


O sujeito que não se considera um gênio não deve se dedicar a fazer arte ou literatura.

(Frase que Nelson gostaria de ver gravada em seu túmulo, sob o tradicional Aqui jaz): "Assassinado por imbecis de ambos os sexos".


Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.


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Para ver (quase) tudo sobre Nelson Rodrigues, clique AQUI.

REPLAY NELSON RODRIGUES (II)


Em 2008 aconteceu o centenário da morte de Machado de Assis; hoje comemoramos 100 anos do nascimento de Nelson Rodrigues.

Replay de post publicado em 29 de setembro de 2008:


ENTREOUVIDOS

- Joaquim Maria Machado de Assis, morto há cem anos.

- O texto dele, atual, respira.

- A escrita é imortal. Especialmente - eu e meus chistes! - se se entende do riscado.

- Ele foi tudo: romântico, em certa fase, realista, noutra; e, sempre, arguto, irônico, com pitadas de humor aqui, ali, acolá.

- Hoje, faria tudo, até quadrinhos.

- Até charges. Charges com texto, que fique claro.

- E Capitu, decifrou-a?

- Pois é, né? Essa ficou. Mas os contos dele é que são os tais. Aliás, tem conto que foi rotulado de conto, mas parece mais crônica. Besteira! O que importa, ao fim e ao cabo, é o texto dele: dez!

- Vamos voltar a ler o Machado. Lembremos do Nelson Rodrigues: "bom, mesmo, é reler!"

- Isso. Grande Nelson. E longa vida a ambos!

REPLAY NELSON RODRIGUES


"A TODA HORA E EM TODA PARTE, HÁ ÍNTEGROS QUE NOS ATROPELAM COM SUA INTEGRIDADE, HÁ JUSTOS QUE NOS HUMILHAM COM A SUA JUSTIÇA, HÁ CASTOS QUE NOS OFENDEM COM A SUA PUREZA. RARÍSSIMA UMA BONDADE SEM IMPUDOR".


(NELSON RODRIGUES; 1912/1980; jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro).

ASSÉDIO ELEITORAL


Tiago Recchia.

SOBRE O MORAL E O LEGAL


Uma defesa da hipocrisia

Por João Pereira Coutinho

Ironias da vida: falamos com uma pessoa de tendências progressistas sobre a liberalização das drogas. Ela concorda: as políticas repressivas falharam. Só a liberalização diminui o tráfico.

E, além disso, cada um sabe de si na forma como usa e abusa da própria liberdade: quem sou eu para impor a terceiros os meus pontos de vista moralistas e repressivos?

Calma, camaradas. Tanta violência retórica não se justifica: já escrevi repetidas vezes que o meu "conservadorismo de costumes" só se aplica a matérias de vida ou morte.

A liberdade individual termina quando começa a liberdade dos outros? Deploro esse clichê.

Melhor dizer que a liberdade individual termina quando está em causa uma vida humana -a do próprio ou a de terceiros. Aborto, eutanásia, suicídio assistido, pena de morte- não contem comigo para a jornada.

Mas contem comigo para o resto. E o resto, lamento informar, inclui a prostituição também.

Sim, eu sei: idealmente, o amor não deveria estar à venda, embora seja sempre possível contar a piada de que a única diferença entre sexo pago e sexo grátis é que sexo grátis, normalmente, fica mais caro.

Aqui, o meu interlocutor progressista hesita. Se mudamos o gênero da palavra e escrevemos "interlocutora", o feminismo vem à tona e decide o assunto: a prostituição degrada as mulheres, alimenta o tráfico de seres humanos e deve ser reprimida pelas autoridades.

Um bom exemplo dessa atitude radical está na França. Leio nos jornais que o governo progressista de François Hollande tem um Ministério dos Direitos das Mulheres.

E a ministra, Najat Vallaud-Belkacem, quer acabar com a prostituição no país. A sra. Vallaud-Belkacem, manifestamente, nunca leu Maupassant ou Flaubert, escritores que construíram o melhor da literatura francesa no conforto dos bordéis.

Para a ministra, é preciso um plano de ação contra o negócio, desmantelando redes de tráfico e proxenetismo. Os clientes também serão duramente penalizados.

Perante essa deriva persecutória, só me resta dizer: "bonne chance, madame". Mas também acrescento que a ambição governamental será inútil e, além disso, abusiva.

Começa por ser abusiva porque o governo francês confunde tudo: tráfico de seres humanos com a decisão autônoma de alguém vender o corpo para fins sexuais.

As duas situações não habitam o mesmo plano moral. Traficar ou escravizar alguém é um crime contra a liberdade de terceiros. Vender o corpo para fins sexuais pode ser uma degradação da condição humana do sujeito -ou, para usar a linguagem kantiana, uma forma de sermos tratados como um meio, não como um fim.

Mas essa decisão, moralmente condenável, não constitui uma ameaça para ninguém. A minha vida e mesmo a minha liberdade não estão ameaçadas se a vizinha do lado gosta de receber cavalheiros ao serão.

Por outro lado, a ambição do governo francês será também inútil. A prostituição não é apenas a mais velha profissão do mundo. Como dizia Nelson Rodrigues, com sua insuperável sabedoria sobre a natureza humana, é também a mais velha vocação.

E nem todas as leis serão capazes de alterar a realidade: enquanto houver gente disposta a vender e a comprar sexo, haverá um mercado para o negócio.

A única diferença é que, em países que fizeram da proibição uma cruzada, esse mercado funciona na clandestinidade, desprotegendo ainda mais as mulheres que o Estado imagina proteger.

Nada disso significa, obviamente, que cabe ao Estado regular a atividade como se a prostituição fosse apenas mais um negócio entre vários. Ou, pior ainda, que o Estado pode legitimamente lucrar com ele, taxando os seus proventos. O Estado não deve ser um proxeneta coletivo.

Tolerar a prostituição significa apenas isso: tolerar. O fato de algo ser moralmente condenável não significa que deva ser legalmente proibido.

A hipocrisia, como dizia um francês ilustre, pode ser a homenagem que o vício presta à virtude. Mas, sem essa homenagem, as sociedades humanas seriam lugares inóspitos para habitar. (Fonte: aqui).

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O texto acima foi produzido (quero dizer, publicado) em julho passado, antes, portanto, das ações levadas a efeito pelas autoridades policiais/judiciais piauienses, mais especificamente as que atuam em Teresina, no (sub)mundo da prostituição. Trata-se de tema inesgotável, de complexidade ímpar, sobre o qual, como diria Nelson Rodrigues, só o Sr. Imponderável de Almeida terá a palavra final - palavra talvez marcada por um forte sotaque de hipocrisia. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

TRAÇO E RISO


Amanhã, às 19:30h, ocorrerá o lançamento do novo livro do cartunista Jota A, Traço e riso, na Praça de Eventos do Teresina Shopping.

São 140 páginas com o fino humor de um artista gráfico completo.

HITCH NA CABEÇA


Um Kane que cai

Por Marcelo Coelho

Durante cinco décadas, o maior filme de todos os tempos sempre foi "Cidadão Kane", de Orson Welles. Era até chato conferir as listas; "Kane" não saía do primeiro lugar.

O reinado acabou neste ano. Pelo menos entre os mais de mil críticos, programadores, exibidores e outros cinéfilos convocados pela revista britânica "Sight and Sound".

"Kane" passou para segundo lugar, derrotado por "Um Corpo que Cai", de Alfred Hitchcock.
De certo modo, trata-se de boa notícia. É sinal de que as pessoas não respondem a essas enquetes só por inércia, colocando os nomes incontornáveis: "Kane", "Potemkin", "Rashomon", "Nosferatu", "Joana d'Arc".

Para mim, foi de qualquer modo uma punhalada nas costas. "Um Corpo que Cai" mal e mal entraria na minha lista de dez melhores filmes de Hitchcock. Acho a narrativa pastosa, e a dupla identidade de Kim Novak, essencial para a história do filme, não convence visualmente.

Fora isso, é a primeira vez que um filme colorido chega ao topo da lista. Reconheço que existe preconceito meu, mas "o maior filme", o "clássico dos clássicos" tem de ser em preto e branco. Geralmente, as cores "cafonizam" o cinema.

Nem sou o maior fã de "Cidadão Kane". Não hesitaria em dizer que é o filme "mais genial" de todos os tempos. Mas isso é diferente de classificá-lo como "o melhor", ou ainda como "o maior" filme da história.

Um amigo diz que "Cidadão Kane" tem o poder de concentrar em si todos os assuntos do cinema: amor, dinheiro, política, fama, memória, amizade, reconstrução fantasiosa do mundo, busca das origens... e tudo o mais que quisermos.

Discordo com relação ao primeiro item: a história de amor conta pouco em "Cidadão Kane". Como repositório de frases, como carisma dos atores, como entrelaçamento entre amor e política, como objeto de culto, como filme mítico por excelência, "Casablanca", a meu ver, está em primeiro lugar.
Mas seria uma lista diferente: eu não estaria falando dos pontos mais altos do cinema enquanto arte, mas sim dos filmes mais... Mais o quê? Mais "cinemosos" do cinema, talvez.

A lista da "Sight and Sound" aparece de dez em dez anos. Há muitas outras surpresas: "Encouraçado Potemkin" ficou em 11º lugar, atrás de "Homem da Câmera", de Dziga Vertov, que ficou em 8º.

O escândalo deveria ser levado ao Supremo Tribunal Federal. Nenhuma cena do entusiástico documentário urbano de Vertov tem o poder visual e o significado, não digo nem do famoso massacre da escadaria de Odessa, mas sequer das grandes peças de carne penduradas nos ganchos, oscilando como as redes dos marinheiros, no porão do navio que iria conflagrar-se.

Mas sempre se pode aprender com essa lista. Aumentou muito o número dos participantes, incluindo uma quantidade de entrevistados fora dos Estados Unidos e da Inglaterra. Por isso, sobre muitos filmes e diretores eu confesso minha ignorância cavalar.

Bela Tarr, com "Sátántangó", de 1994, está em 36º, empatando com "Jeanne Dielman", de Chantal Akerman, de 1975. "La Maman et la Putain", de Jean Eustache (1973), ganha de "Morangos Silvestres", de Ingmar Bergman.

Avance mais um pouco na lista, e você encontrará "A Brighter Summer Day" (1991), de Edward Yang, "Touki Bouki", de Djibril Diop Mambéty, e "A City of Sadness", de Hou Hsiao-hsien. Não se esqueça de Apichatpong Weerasethakul.

Todos esses estão à frente, por exemplo, de "Em Busca do Ouro", de Chaplin, de "Napoleão", de Abel Gance, de "As Vinhas da Ira", de John Ford, e de "O Iluminado", de Stanley Kubrick.

Wong Kar-Wai fica na frente de Claude Lanzmann e seu "Shoah". Se tudo isso é culpa ou mérito da globalização e da economia dos países emergentes, não sei. Nenhum brasileiro, nem um Glauberzinho de consolação aparece, em todo caso, nos 250 filmes dessa lista, em que "O Piano" ganha de "Caligari", "King Kong" de "A Laranja Mecânica", e "Guerra nas Estrelas" de Méliès.

Distorções da estatística, é claro, surgem nas últimas colocações, porque, quando vai baixando o número de votos, a cabeça de um só crítico faz diferença.

Vendo a lista, não sei se é melhor quando todos estão juntos ou quando cada um responde sozinho.
Antes que me esqueça: "Casablanca" ficou em 84º lugar, empatado com "Fanny e Alexander", de Bergman, e atrás de "Era uma Vez no Oeste", de Sergio Leone. A desordem reina, como se vê, e é inútil chamar o xerife. (Fonte: aqui).

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O assunto acima já foi tratado neste blog mediante o post "Os Melhores da Sétima Arte", do dia 8, que reproduziu a matéria "Pop cult 89", de Felipe Hirsch.
São cerca de 2.000 (dois mil) filmes na disputa. Acho que nenhum crítico conseguiu ver todos eles. A lista, portanto, é, ao fim e ao cabo, uma lista.
E constatar que "O Poderoso Chefão" partes I e II não está sequer entre os dez mais, convenhamos, é desanimador...

CARTUM ASSÉPTICO


Bruno.

ILUSTRAÇÃO


Paul Kuczynski.

A OUTRA REVOLUÇÃO DOS BICHOS

Ilustração: autor desconhecido (Google)

Eles sabem

Por Maria Esther Maciel

Um boi rumina sobre a espécie humana, questionando a falta de visão dos homens diante do mundo. Uma cadelinha pensa, age e sonha como gente, em plena seca do sertão. Um burro conversa com o outro sobre as durezas do trabalho escravo. Uma galinha incita as outras a fazer uma rebelião na granja. Um elefante retribui, vinte anos depois, o ato de generosidade de uma mulher que havia cuidado dele quando filhote. Um cachorro, ao ver um outro ser atropelado numa avenida, corre para salvá-lo, puxando-o pelo asfalto até a calçada. Um papagaio mostra a uma pobre senhora onde foi enterrada a herança de um tio morto.

Ficção? Em parte. Essas cenas aparecem em textos de Drummond, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Virginia Woolf, ou em filmes de animação. Uma delas está num vídeo divulgado na internet. Mas a nenhuma falta uma boa dose de verdade comprovável.

É o que asseguram os 13 neurocientistas renomados que, há um mês, se reuniram em Cambridge para formalizar uma declaração histórica, na qual admitem que os humanos não são os únicos seres do planeta a ter consciência, sentimentos, atos intencionais e inteligência.“Todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência”, afirma o cientista canadense Philip Low, que elaborou o comunicado. E olhem que o cara é uma fera da neurociência: foi ele quem criou o iBrain, aparelho capaz de ler as ondas cerebrais do físico Stephen Hawking e enviar os resultados traduzidos para um computador. Hawking, aliás, foi presença de honra no ato de assinatura da declaração.

O resultado divulgado em Cambridge, porém, não é nenhuma novidade para quem conviveu ou convive com cães, gatos, papagaios, cavalos e outros bichos. Ou para quem presta atenção no mundo em que vive. Já no século 16, o filósofo Michel de Montaigne afirmava a existência de consciência nos animais, capazes, segundo ele, de fazer coisas que nossa razão desconhece. Mesmo antes, houve quem descrevesse a inteligência e habilidade dos bichos, a exemplo de Plínio, o Velho, autor da mais alentada enciclopédia de história natural do mundo antigo. E até Machado de Assis deu um puxão de orelhas nos cientistas que teimavam em afirmar que os animais não possuíam consciência nem sentimentos. Ou seja, só a ciência ignorou o óbvio ao longo dos séculos. Mas agora, finalmente, reconhece que os animais também têm neurônios.

Pelo que tudo indica, a capacidade divinatória do polvo Paul, demonstrada na Copa do Mundo de 2010, não é pura invencionice. Aquela história do macaco que pegou uma máquina fotográfica e tirou fotos de si mesmo, rindo, agora faz mais sentido. O caso do cachorro que reconheceu e atacou, muitos anos depois, o assassino de seu dono, passa a ter fundamento. E a genialidade dos golfinhos deixa de ser apenas uma fantasia dos fimes da Disney. Palavra da ciência.

Daqui a alguns anos, não será surpresa se um macaco chamado Pedro Rubro, vestindo terno e gravata, fizer uma palestra para um grupo de acadêmicos de uma universidade famosa, como no famoso conto de Kafka, “Relato a uma academia”. Que George Orwell me desculpe, mas a verdadeira revolução dos bichos só agora está começando.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

OLD CARTUM


Saul Steinberg. Cartunista e ilustrador romeno (1914-1999) naturalizado americano, colaborador da revista The New Yorker.

DA SÉRIE DEUSAS DA MPB


Cantoras que cantavam

Por Ruy Castro

Clara Nunes, que teria feito 70 anos (no dia 12 de agosto), morreu em 1983, aos 40. Muito jovem. Assim como ela, Dolores Duran morreu em 1959, aos 29; Sylvia Telles, em 1966, aos 32; Maysa, em 1977, aos 40; Elis Regina, em 1982, aos 36; e Nara Leão, em 1989, aos 47. Qual música popular perdeu, tão cedo, tantas cantoras importantes?

Exceto Dolores e Maysa, que também compunham (e deixaram clássicos), elas eram exclusivamente intérpretes -cantoras para quem os compositores escreviam e com quem contavam para lançar suas canções. Sylvia Telles, por exemplo, dedicou sua carreira a cantar Jobim. Elis Regina foi decisiva para impulsionar Edu Lobo, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc. Nara fez por Chico Buarque, Paulinho da Viola e Sidney Miller o que já tinha feito por Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti. E ninguém tirou da zona fantasma tantos sambistas quanto Clara.

Todas eram de um tempo em que os compositores compunham e os cantores cantavam. Uma canção lançada por elas era adotada por outros cantores, replicada por grupos instrumentais, tornava-se um "standard", e a música popular inteira se enriquecia. Quando os compositores começaram a cantar, os cantores a compor e os conjuntos de guitarra a criar seu próprio material (intransferível para os cantores), esta cadeia vital se quebrou.

Ao morrer, Clara Nunes deixou órfãos os compositores que descobria nas escolas de samba -autores de joias como "Ê Baiana", "Conto de Areia", "Ilu Ayê"- e que, sem ela para cantá-los, parecem ter perdido a motivação para compor.

Só estive com Clara uma vez, em 1978, no camarim de um programa que eu escrevia para a TV Globo, "Brasil Pandeiro". Em silêncio, concentrada para a gravação que faria dali a minutos, era como se já pudéssemos ouvi-la. Como se sua música a antecedesse.

EUA: A REVOLUÇÃO DO TEA PARTY


Bennett.

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Faz até lembrar aquele general franquista dos anos quarenta na Espanha: "Quando ouço falar em cultura, saco logo a minha pistola!"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

PIAUÍ RUPESTRE


Já está nas livrarias o livro de Denise Crispun, que elege como foco a Serra da Capivara, atração do Piauí. Vi no blog de Mariana Massarani - que ilustra o livro (de 31 páginas).

A Serra da Capivara integra o Patrimônio Mundial da Humanidade. Clique aqui para inteirar-se de seu porte e histórico.

A GLORIFICAÇÃO DO EGOISMO


Ayn Rand, a escritora que ajudou os Estados Unidos a serem o que são

Por Paulo Nogueira

Se você quer entender os conservadores americanos, tem que conhecer Ayn Rand, escritora russa de origem judaica que fugiu da Revolução Comunista de 1917 e se instalou nos Estados Unidos. Ali ela morreria aos 77 anos, em 1982. Uma biografia recente de Rand tem um título que diz tudo: “A Deusa do Mercado”.

Rand voltou às manchetes recentemente nos Estados Unidos por causa de um de seus devotos: Paul Ryan, o companheiro de chapa de Mitt Romney nas eleições presidenciais. Num vídeo feito antes de ele ser escolhido por Romney, Ryan disse ter sido fundamentalmente inspirado pelas idéias de Ayn Rand. Num Natal, ele comprou vários exemplares do principal livro de Rand, lançado no Brasil com o título de “A Revolta de Atlas”, e distribuiu como presente. Ryan é tido como um pensador entre os republicanos, e uma de suas missões é dar algum lustro à chapa republicana, dado que Romney parece tão bronco quanto Ronald Reagan sem ter o charme hollywoodiano dele.

O problema, para Ryan como candidato a vice, é que Rand era atéia. Os partidários de Obama exploraram isso. Então Ryan pediu que esquecessem o que dissera, e afirmou que sua inspiração, na verdade, é São Tomás de Aquino.

Licença para um hahaha básico.

Bem, o ateísmo é irrelevante na filosofia de Rand. O ponto central – e foi a ele que os conservadores se agarraram – é que o mundo é dividido entre a elite rica e os parasitas. A elite rica é uma minoria que empurra o mundo adiante, com sua criatividade incansável da qual deriva sua justificada fortuna. Parasitas somos todos nós, que sugamos o sangue dos melhores. É uma inversão curiosa do conceito consagrado pelo movimento Ocupe Wall Street: o 1% é glorificado e os 99% desprezados.

Rand é o ídolo maior dos integrantes do Tea Party, a direita da direita americana. Nas reuniões do Tea Party, são comuns cartazes em que aparece o nome “John Gaunt”. John Gaunt é o herói de A Revolta de Atlas, um romance filosófico que está sempre entre os mais vendidos nos Estados Unidos desde seu lançamento, em 1957.

Gaunt representa o Atlas, ou melhor, a elite que leva o mundo nas costas. Gaunt, revoltado com as pressões dos parasitas por condições de vida melhores, decide fazer uma greve. Não só dele, mas de todos os seus iguais – o 1% santificado. A humanidade é tremendamente castigada pela insurreição comandada por Gaunt.

O culto a Rand na década de 1960 entre os americanos sofreu um golpe quando veio a público que ela mantinha um caso com um discípulo bem mais jovens. Ambos eram casados. O marido dela e a mulher dele foram avisados pelos amantes e aceitaram o caso, mas não a sociedade americana. Rand, no apogeu, foi uma figura presente nos mais prestigiados programas de entrevistas da tevê americana. No YouTube, o acervo de vídeos dela é enorme. Numa entrevista, perguntaram a ela qual deveria ser a posição dos Estados Unidos no Oriente Médio. Ela chamou os árabes de “selvagens”.

Rand defendeu o egoísmo como a virtude suprema da elite. Pense em você, em você e ainda em você. “Eu” era a palavra sagrada para ela. “Nós”, uma abominação. Ela levou a extremos um clássico pensamento de Adam Smith, o filósofo do livre mercado. Smith, em "A Riqueza das Nações", de 1776, disse que o bem estar da comunidade depende do interesse pessoal do leiteiro, e do padeiro etc. Eles fazem o que fazem pensando em si mesmos, e a sociedade se beneficia disso.

Mas Adam Smith, na essência, não poderia ser mais diferente que Rand. Smith tinha um conceito de moral oposto ao da deusa da direita americana.

Um pensamento dele: “A disposição de admirar, e mesmo louvar, os ricos e os poderosos, e desprezar, ou pelo menos negligenciar pessoas de poucos recursos, é a maior e mais universal causa de corrupção dos nossos sentimentos morais”.

Isso é a antítese de Rand e de Gaunt – e do 1% americano que viu em ambos, criador e criatura, uma oportuna defesa intelectual para seus privilégios, sua ganância e seu egoísmo. As consequências disso estão aí: um país em acentuado declínio, atolado numa crise econômica, moral e social que leva a pensar que bem que Gaunt e seus congêneres poderiam mesmo entrar em greve e sair de cena – permanentemente. (Fonte: aqui).

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Título original: "A deusa do mercado: as idéias de Ayn Rand, a escritora que fez os Estados Unidos serem o que são".  Procedi a pequenas alterações, visto que o Protestantismo não pode ter sombreada sua condição de 'moldador ' emérito. Não à toa, os WASP traduzem os EUA.

O CASO ASSANGE


Cau Gomez.

DIREITOS, FREIOS E CONTRAPESOS


Vovó cortesã

Por Ruy Castro

Parece uma queda travada pelos dois braços de uma só pessoa. De um lado da mesa, a Constituição, que garante a liberdade de expressão, de imprensa e de acesso à informação. Do outro, o Código Civil, que garante ao cidadão o direito à privacidade e o protege de agressões à sua honra e intimidade. Dito assim, parece perfeito -mas os copos e garrafas afastados para os lados, abrindo espaço para a luta, não param em cima da mesa.

A Constituição provê que os historiadores e biógrafos se voltem para a história do país e reconstituam seu passado ou presente em narrativas urdidas ao redor de protagonistas e coadjuvantes. Já o Código Civil, em seu artigo 20, faz com que não apenas o protagonista tenha amparo na lei para se insurgir contra um livro e exigir sua retirada do mercado, como estende essa possibilidade a coadjuvantes de quarta grandeza ou a seus herdeiros.

Significa que um livro sobre d. Pedro 1º pode ser embargado por algum contraparente da família real que discorde de um possível tratamento menos nobre do imperador. Ou que uma tetra-tetra-tetraneta de qualquer amante secundária de d. Pedro não goste de ver sua remota avó sendo chamada de cortesã -mesmo que, na época, isso fosse de domínio público-, e parta para tentar proibir o livro.

Quando se comenta com estrangeiros sobre essa permanente ameaça às biografias no Brasil, a reação é: "Sério? Que ridículo!". E somos obrigados a ouvir. Nos EUA e na Europa, se alguém se sente ofendido por uma biografia, processa o autor se quiser, mas o livro segue em frente, à espera de outro que o desminta. A liberdade de expressão é soberana.

É a que se propõe o Associação Nacional dos Editores de Livros: arguir no Supremo Tribunal Federal a inconstitucionalidade do artigo 20 do Código Civil. Assim que terminar o mensalão.

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Trata-se de situação em que não se pode acionar o sistema de freios e contrapesos. São diversos os direitos e garantias previstos na CF, e a expectativa é de que em cada caso concreto, em se verificando colisão de direitos, se pondere sobre qual o que deve prevalecer (por exemplo: liberdade de expressão X direito à intimidade). 
Ocorre que o Código Civil (que é de 2002, posterior, portanto, à CF) decretou como prioritário o direito à (preservação da) honra (art. 20) e à intimidade (vida privada - art. 21), e tal prioridade pode se efetivar antes mesmo do acionamento de outro direito - exatamente o que o biógrafo Ruy e a ANEL questionam.
Vai ser um bom debate.