sábado, 25 de março de 2017

A SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL


"“Se pensas que burlas as normas penais, insuflas, agitas e gritas demais, a lei logo vai te abraçar, infrator, com seus braços de estivador”.
A reportagem do caderno Poder da Folha de S. Paulo de 24 de março de 2017 descreve o método de perseguição ao blogueiro Eduardo Guimarães e às suas fontes jornalísticas. Traz também dados do inquérito da Polícia Federal que levou à detenção de Eduardo, acusado por ter antecipado – em um furo de reportagem – a condução coercitiva do presidente Lula.
“Se tu falas muitas palavras sutis E gostas de senhas, sussurros, ardis, a lei tem ouvidos pra te delatar nas pedras do teu próprio lar”.
Interessante é percebermos que a Policia Federal parece, nesse caso, atuar como polícia política. Não parece que o vazamento em si seja mais do que um mote para o constrangimento de adversários do “regime imaginário de poder” que a Lava-Jato passou a representar.
O que há de mais representativo dessa posição ideológica assumida pela Polícia Federal de Lava-Jato são os termos utilizados no inquérito.
A auditora da receita que teria vazado os dados para Eduardo Guimarães foi rastreada pelas páginas da internet que seguia. As páginas eram de esquerda e isso a tornou suspeita. Seguia publicações do jornalista Fernando Moraes (AQUI).
Voltaram a vasculhar as lixeiras do pessoal de esquerda. Agora, as lixeiras das caixas de e-mails.
“Se trazes no bolso a contravenção, muambas, baganas e nem um tostão, a lei te vigia, bandido infeliz, com seus olhos de raio-X”.
Agora vejamos como a PF classifica tais publicações: “desrespeitosas” e “ofensivas” para com a Lava-Jato.
Não, as publicações não eram críticas a Lava-Jato, eram ofensivas. A Lava-Jato, no entender desses policiais, não é uma investigação, é uma entidade em si mesma que pode ser desrespeitada e ofendida. Algo como a “pátria” na época da ditadura.
Para criminalizar tal atitude, ressaltam que seguir tais publicações demonstra “alguma espécie de simpatia ou alinhamento à posição ideológica do ex-presidente do Brasil”. Referem-se a Lula – por óbvio fonte de inspiração ideológica deletéria à moral e à segurança nacional.
Pelas últimas pesquisas de intenção de voto, mais de 40% dos eleitores brasileiros tem simpatia ou alinhamento ao ex-presidente do Brasil. Como se posicionaria a polícia de Lava-Jato em relação a isso?
Simples, o Brasil é o Brasil e Lava-Jato é Lava-Jato – são países diferentes, inimigos em alguns aspectos. Tal e qual demonstrar simpatia por Fidel Castro era crime na ditadura.
Quanto à pessoa que serviu de ponte entre a auditora da receita e Eduardo Guimarães – seria um “radical político”.
Mas afinal o que é um “radical político”? Algo próximo de um “radical islâmico” ou a um “terrorista”?
Não sei, mas a Polícia Federal de Lava-Jato o julga como alguém muito perigoso.
“Se vives nas sombras, frequentas porões, se tramas assaltos ou revoluções, a lei te procura amanhã de manhã com seu faro de dobermann”.
O que se passa pela cabeça de um policial que redige um inquérito usando tais expressões?
Vive em que tempo de que país? No tempo das liberdades civis garantidas, no Brasil, pela Constituição de 1988?
“Art 5º – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Não, vive em outro país – no país da Lava-Jato.
Nesse país, uma investigação policial pode ser ofendida, quem demonstrar simpatias por Lula é suspeito e quem se posicionar formalmente em relação a isso é radical político.
E, então, em nome da pátria Lava-Jato, a detenção de Eduardo Guimarães passa a ser coerente.
“E se definitivamente a sociedade só te tem desprezo e horror e mesmo nas galeras és nocivo, és um estorvo, és um tumor, a lei fecha o livro, te pregam na cruz, depois chamam os urubus”.
....
PS1: os versos entremeados ao texto são da canção “Hino de Duran”, de Chico Buarque de Holanda. São de 1979 – em plena ditadura -, e se parecem aplicáveis ao momento atual do Brasil, não é por coincidência.
PS2: Oficina de Concertos Gerais e Poesia - mais um porão infecto dentro dos subterrâneos da liberdade."



(De Sergio Saraiva, cineasta e blogueiro, titular do blog 'Oficina...', acima referido, post intitulado "DOI-CODI 2017: A polícia política da Lava Jato", publicado no Jornal GGN - aqui.
A propósito, cumpre lembrar que a OAB nacional ingressou no Supremo Tribunal Federal com ADPF [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental] - aqui - relativamente a conduções coercitivas nos moldes em que levadas a efeito na ação em foco - condução 'sem que o cidadão tenha descumprido anterior intimação' -, mecanismo sem amparo na Constituição Federal.

Sejam quais forem as circunstâncias, é imperioso defender a supremacia da Constituição).

COREIA DO NORTE BRINCA COM BOMBA


Steve Sack. (EUA).

RUMO À PRECARIZAÇÃO


Alves.

DA CONDUÇÃO COERCITIVA


Ordem dos Advogados do Brasil questiona condução coercitiva na fase de investigação criminal

Do STF:

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheça a não recepção, pela Constituição Federal de 1988, do artigo 260 do Código de Processo Penal (CPP), no que se refere à aplicação da condução coercitiva na fase de investigação criminal. A questão é tema da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 444, ajuizada, com pedido de liminar, pela entidade.
O dispositivo preceitua que “se o acusado não atender à intimação para o interrogatório, reconhecimento ou qualquer outro ato que, sem ele, não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar conduzi-lo à sua presença”. Segundo a OAB, a norma prevê a condução coercitiva do acusado para fins de realização de interrogatório e outros atos no âmbito do processo judicial, mas a regra tem sido interpretada em contrariedade com os ditames constitucionais ao se permitir a sua utilização para a constituição de atos no curso da investigação criminal. Sustenta ainda que a medida tem sido sistematicamente adotada sem a observância da premissa do próprio artigo 260 do CPP, “ou seja, sem que o cidadão tenha descumprido anterior intimação”. (Grifo deste blog).
A entidade alega que a condução coercitiva durante a fase investigativa, ainda que decretada pela autoridade judiciária competente, viola os preceitos fundamentais da imparcialidade, do direito ao silêncio, do nemo tenetur se detegere (o direito de não produzir prova contra si mesmo), do princípio do sistema penal acusatório, do devido processo legal, da paridade de armas, da ampla defesa e do contraditório. “É incabível a determinação de sua condução forçada durante a fase de inquérito, pois se trata de medida cautelar que deve ser somente utilizada na fase judicial, se necessário”, afirma.
Caso não seja acolhido o pedido principal, a entidade pede que seja declarada a inconstitucionalidade da interpretação ampliativa do dispositivo do CPP, a fim de que não seja permitida a condução coercitiva sem prévia intimação e não comparecimento injustificado do acusado.
Rito abreviado
O relator da ação, ministro Gilmar Mendes, adotou rito abreviado previsto no artigo 12 da Lei 9.868/1999 ao trâmite da ADPF 444, tendo em vista a relevância da matéria. A medida permite que o STF analise a questão de forma definitiva, sem prévia análise do pedido de liminar, tendo em vista a relevância da matéria e sua importância para a ordem social e segurança jurídica.
O ministro Gilmar Mendes observou que a ADPF 395, com objeto semelhante, está liberada para julgamento pelo Plenário. No despacho, o relator determinou ainda a requisição de informações à Presidência da República, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal, a serem prestadas no prazo de 10 dias. Em seguida, os autos deverão ser encaminhados, sucessivamente, para manifestação da Advocacia-Geral da União e da Procuradoria-Geral da República, para que se manifestem no prazo de cinco dias. (Fonte: Jornal Jurid - AQUI).
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Com que, então, três anos depois de iniciada a Lava Jato, com suas 202 conduções coercitivas "sem que o cidadão tenha descumprido anterior intimação" (AQUI), a OAB nacional se dispõe a elevar o problema à consideração da Corte Suprema. Será, enfim, o momento de saber quem está no topo: a Constituição da República ou as instâncias que a ela deveriam se curvar, convindo lembrar que a condução coercitiva 'colidente' e outras 'excepcionalidades' praticadas pelo juiz da Lava Jato foram ratificadas por seus superiores sob o argumento - inexistente na CF - de que tempos excepcionais justificam medidas excepcionais. 

Que o Supremo Tribunal Federal, Guardião da Constituição, cumpra a sua obrigação - artigo 102 - e determine que práticas irregulares como a condução coercitiva 'colidente'  sejam definitivamente abolidas.
(Mais comentários - AQUI).

NONSENSE CARTOON


Angel Boligan. (México).

A CORRIDA EM BUSCA DA SAÍDA CADA VEZ MAIS OBSTRUÍDA


Aumenta a revolta contra a Lava Jato

Por Vinicius Torres Freire

A MARÉ CONTRA o partido da Lava Jato não virou. Mas o apoio a jacobinos de Procuradoria, Justiça e polícia faz água na elite.

Articulistas e porta-vozes da direita à esquerda criticam o autoritarismo crescente do "partido da Justiça" e a demonização da política. Regentes auxiliares de Michel Temer lideram o basta, como Gilmar Mendes, entre outros.

O acordão do baixíssimo clero no Congresso ora conta com apoio explícito do clero rebaixado de PSDB e PT. Companheiros de viagem desses dois partidos e outras figuras mais respeitáveis na opinião pública elaboram a defesa intelectual do armistício.

Misturam-se os objetivos de conter extravagâncias do "partido da Justiça", de evitar a destruição de empresas enroladas, de sufocar salvadores da pátria e de preservar a viabilidade eleitoral de partidos ditos menos podres.

Os jacobinos deram a deixa. A lambança policial na Carne Fraca e o "pega um, pega geral" das delações deflagram revoltas.

Há empecilhos legais e judiciais a um acordão pacificador amplo e geral, além de pedras no caminho político. O ódio mortal entre PSDB e PT, ainda os polos achatados da política partidária, atrapalha conversas desenvoltas.

Desde 2014, a estratégia é de destruição mútua. Desgraças comuns levaram os dois partidos, cada um por sua conta, a aderir a teses assemelhadas de salvação, uma comunhão involuntária de interesses.

Os dois partidos aceitam o que se pode chamar de "doutrina Aécio Neves": se pegarem todos os ruins, sobram apenas os piores. Isto é, querem algum plano de anistia.

Um acordão pacificador de amplo espectro, que inclua também o PT, tem pelo menos três empecilhos maiores.

Primeiro, as pontes de diálogo foram queimadas. Desde o fim de 2014, quando começou a campanha para depor Dilma Rousseff, o PSDB imaginava que sairia limpinho da história com que amaldiçoou o PT.

Os tucanos levavam vantagem na luta livre até que o partido passou a ser vítima dos mesmos golpes. Procuradores, polícia e juízes ameaçam cabeças do PSDB, com apoio das "ruas".

O PSDB baixou a bola desse jogo anti-PT, mas ainda diz que não vale "misturar todos na vala comum". Falta diálogo para dar efeito prático ao acordão tácito.

Segundo empecilho: como fazer com que as "bases" engulam o acordão? O que o PSDB vai dizer às "ruas" da "ética na política"? Como explicar que casou em comunhão total de bens com o PMDB e deu gorjeta ao PT? O que o PT vai dizer às suas bases "Fora, Temer!" ao embarcar no trem da alegria dos "golpistas"?

Com jeitinho se inventaria mentira palatável. Mas então se chega ao terceiro problema: falta liderança capaz e legítima o bastante para acertar o armistício entre partidos e vender esse peixe para as "ruas".

O acordão quer zerar o jogo, permitir que os "menos piores" "comecem de novo". Mas tem também de entregar algumas cabeças e conseguir algum perdão do eleitor mediano.

Os partidos de podridão mais histórica podem até passar o acordão na marra, talvez deixando o PT de fora. Essa solução bruta atiçaria os jacobinos. O povo ficaria em revolta maior, muda ou não. A fúria daria força a salvadores da pátria e à desmoralização da política. Que era o que se pretendia evitar. QED.  

(Fonte: Folha de São Paulo; texto reproduzido pelo Jornal GGNAQUI).

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Resumo Alternativo
O serviço foi 99% realizado no que tange a uma determinada e execrada agremiação política. Paladinos, mídia, doutos, nunca se vira tanta competência, tanto domínio da arte de "solapar as bases" de um inimigo. Sucesso retumbante. 
Tudo corria bem, os paladinos seguiam cada vez mais prestigiados, mandando e desmandando, nadando em vantagens e benesses, reinando na mídia e arredores e, mais importante, colocados em patamar superior ao da própria Carta Magna. Mas...
Foi então que chegou a hora de os chamados líderes virtuosos serem incluídos na dança. É que a sanha persecutória dirigida à já referida e execrada agremiação política despertara entre os mortais comuns a revolta diante da complacência com que os líderes virtuosos vinham sendo distinguidos. As redes sociais pululavam de cobranças e exigências de ao menos um pouco de 'reciprocidade', quero dizer, de 'chamada dos virtuosos às falas'. 
Mas todos, execrados e virtuosos, a essa altura já procuravam, 'irmanados', uma saída honrosa, mesmo que com os execrados para sempre execrados e os virtuosos ainda preservando de alguma forma a aura de éticos.
A história está nesse pé. Não se sabe se o acordão prosperará. O certo é que, seja qual for o desfecho da mobilização contra a Operação, paladinos, mídia e doutos continuarão por cima da carne seca, prenhes de vantagens e benesses em meio a um país alquebrado.

NONSENSE CARTOON


Angel Boligan. (México).

sexta-feira, 24 de março de 2017

DA SÉRIE O JORNALISMO E A CONJUNTURA


"Vejamos os questionamentos feitos pelo Ministro Herman Benjamin, relator do processo que julga a cassação da chapa Dilma-Temer, a Marcelo Odebrecht, em seu depoimento ao TSE. Segundo os vazamentos terceirizados pela Folha de São Paulo de 24 de março de 2017.
Dilma não sabia, mas sabia.
O ministro questiona Marcelo sobre se ele já havia conversado com Dilma sobre as dívidas com o PT.
Resposta de Marcelo Odebrecht:
“Não. Veja bem, Dilma sabia da dimensão da nossa doação, e sabia que nós éramos quem fazia grande parte dos pagamentos via caixa dois para o João Santana. Isso ela sabia”.
Um não é um não. E um “veja bem”, ora, todos nós sabemos o valor de um “veja bem”.
O ministro é mais incisivo: “O senhor chegou a conversar com ela?”.
Odebrecht: “Não cheguei, ela sabia pelo nosso amigo”.
Como nem o vazador da Folha e nem a Folha citam quem seria o “amigo”, deixam para que o leitor imagine que seja Lula. Jornalismo imaginativo é assim.
Diante dos dois “nãos” de Odebrecht, só cabe ao ministro chegar à única conclusão possível:
“A sua impressão está clara. O senhor acha que ela sabia”.
“Sim”, disse Marcelo.
E o “achismo” de Marcelo Odebrecht transforma-se em manchete na primeira página da Folha de São Paulo: “Dilma sabia de caixa dois na campanha” seguida de uma vírgula malandra e a ressalva “diz Marcelo Odebrecht”.
Temer sabe de nada, inocente
Em relação ao jantar no Palácio do Jaburu em que Temer pediu dinheiro a Marcelo Odebrecht a Folha se esmera para transformar Temer em um idiota. As coisas acontecem na sua casa, mas ele não sabe de nada.
No jantar na casa de Temer estavam presentes, além do então vice-presidente decorativo, Odebrecht, Cláudio Melo Filho, vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, e Eliseu Padilha. Padilha, como sabemos, é o dono da tropa de “mulas” que abastecia as contas de Temer- apud José Yunes.
Vejamos como Marcelo descreve os acontecimentos.
“Não me lembro em nenhum momento de o Temer ter falado dos dez milhões, ter solicitado um apoio específico. Obviamente que fica aquela conversa de que: ‘Olha, a gente espera a contribuição de vocês; a gente tem aí um grupo que a gente precisa apoiar”.
"Olha, a gente espera a contribuição de vocês".
Se isso não é pedir dinheiro, é o quê?  Só não acertou o valor. 
“Teve um determinado momento, que eu me lembro bem, o Temer saiu da mesa, já no fim do jantar, e aí, eu, Cláudio e Padilha firmamos: ‘Oh, tá bom então. Vai ser doado dez, conforme você já acertou com o Cláudio, Padilha; desses dez, seis milhões vou direcionar para a campanha do Paulo, que ele me pediu, e vocês ficam com quatro para direcionar para os candidatos que vocês quiserem”.
Coisa de mafioso. Qualquer um que assistiu a um filme de gângster já viu essa cena. É como são protegidos os chefões – os capangas falam por eles e eles falam pela boca dos capangas. Assim, nos tribunais sempre poderão alegar:
“Nunca houve um pedido para mim, específico, do Temer”.
Entenda-se como que se quiser que significado tem o termo “especifico”.
A Folha entendeu assim: “Marcelo isentou Michel Temer da negociação de uma doação de R$ 10 milhões da Odebrecht para o PMDB”.
“Eu não vim para explicar, eu vim para confundir” era o lema de um ícone da contracultura da televisão brasileira dos anos 70 e 80 do século passado. Abelardo Barbosa – o Chacrinha. Como parte de seu show, Chacrinha costumava distribuir bacalhau e abacaxi ao seu público. “Vocês querem bacalhau?” era seu bordão.
Nota-se que, a partir do apoio da Folha de São Paulo ao Golpe de 2016, esse lema passou também a ser o novo manual da redação da Folha de São Paulo.
A Folha que aliás nem esperou a regulamentação da terceirização e já transferiu seus trabalhos de “jornalismo investigativo” para o site “O Antagonista”.
E assim, quem buscar informação na Folha vai receber bacalhau e abacaxi.
....
PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia - um lugar onde se procura, mas não se acha nada."


(De Sérgio Saraiva, cineasta, titular do blog acima citado, post intitulado "Eu não vim para explicar - o jornalismo Chacrinha da Folha de S. Paulo" - aqui).

ENQUANTO ISSO...


J Bosco.

SOBRE DIREITOS HUMANOS


Brasil vota contra resolução da ONU que monitora impactos da austeridade

Segundo a Folha de São Paulo, o governo brasileiro votou contra uma resolução da ONU que renova o mandato da entidade no monitoramento dos impactos de políticas fiscais sobre os direitos humanos.

Em 2008, 2011 e 2014, o Brasil apoiou medidas da espécie. O argumento para o voto contrário em 2017: a resolução vai contra as reformas econômicas do governo. 

A Folha informa que o atual governo "já tinha se irritado” com a ONU após a fala do relator Philip Alstom, que disse que a então Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 - que impõe um teto aos gastos públicos por 20 anos - era “inteiramente incompatível com as obrigações do país em direitos humanos”.

Alston também disse que o principal efeito da proposta, hoje Emenda Constitucional 95, é prejudicar os pobres, resultando em investimentos reduzidos em saúde, educação e previdência.

A resolução do Conselho ataca programas de austeridade fiscal similares ao implementado através da PEC. “Apenas alguns poucos países conseguem atingir uma taxa de crescimento mais alta e sustentável com esses programas”, diz a entidade.

Maria Nazareth Farani Azevedo, representante do país nas Nações Unidas, explicou o voto afirmando que a resolução vai contra os “principais elementos da política econômica atual no Brasil”. Na visão do governo, o sucesso da iniciativa preservará as políticas sociais.

Mesmo sem o voto do Brasil (e países como EUA e Reino Unido), a resolução foi aprovada - por 31 votos a favor e 16 contra. Entre os que aprovaram, o chamado “sul geopolítico”.

EU TENHO A TERCEIRIZAÇÃO TOTAL


Mário.

CARTUM DA MODERNIDADE RETRÔ


Duke.

LONDRES E O TERROR


Marian Kamensky. (Eslováquia).

XADREZ DO CENÁRIO POLÍTICO-JURÍDICO


Xadrez de um governo à beira de um ataque de nervos

Por Luis Nassif

Nosso Xadrez está ficando interessantíssimo à medida em que o cenário político-jurídico chega na hora da verdade: o momento da Lava Jato encarar o poder de fato, aquele amálgama ideológico constituído pela mídia, setores do Ministério Público, Judiciário, sob o comando difuso da ideologia de mercado.
Até agora, era moleza, especialmente depois que Dilma Rousseff jogou a toalha, lá pelo primeiro minuto após o resultado das eleições de 2014.
Para facilitar o entendimento, vamos forçar a simplificação e dividir o jogo entre quatro forças distintas.
·      A frente de esquerdas, alvo da Lava Jato.
·      O sistema, composto pela mídia, parte do Judiciário e PSDB.
·      A ultra-direita, representada por MBL e assemelhados.
·      As Organizações Globo, como um poder à parte.
PRIMEIRO TEMPO - A DESTRUIÇÃO DA ESQUERDA
A estratégia inicial da Lava Jato foi montar um sistema de comunicação, associado à velha mídia, em torno da figura do inimigo externo. E definir uma agenda de denúncias casada com o processo do impeachment, acelerando as investigações contra o PT, retardando contra o PMDB e jogando para as calendas contra o PSDB.
Conquistou o apoio das mobilizações de rua, garantidos pela direita, e do sistema, garantidos pelo endosso do Supremo e, principalmente, pelo apoio da Globo.
Essa confederação derrubou uma presidente eleita. Mas a Lava Jato se deslumbrou de tal maneira que deixou de lado qualquer cautela em relação à isenção. Firmou-se, ali, como um poder arbitrário e, por consequência, ameaçador, mesmo para aqueles que, por questão estratégica, aplaudiam e se beneficiavam politicamente de sua truculência.
No trabalho que fez sobre a Operação Mãos Limpas, o juiz Sérgio Moro não entendeu nada do que determinou o fim da operação. Foi a truculência desmedida de juízes e procuradores, na medida em que se lambuzavam com o excesso de poder, os abusos que cansaram a opinião pública e, especialmente, os estragos que provocaram na economia italiana.
E julgam que são as 10 Medidas que permitirão arrancar a árvore da corrupção, conforme a descrição tatibitate de um procurador.
SEGUNDO TEMPO - A CHEGADA AO CENTRO DE PODER
Desde o início, a Lava Jato e a PGR (Procuradoria Geral da República) fecharam um pacto tácito com o PSDB e evitaram de todas as maneiras um embate frontal. Estava nítida ali a aliança que sedimentaria o resultado final da caminhada: a entrega do poder a um grupo aliado.
As várias denúncias contra o senador Aécio Neves resultaram em alguns inquéritos permanentemente postergados para não se chegar à denúncia. O ápice da procrastinação foi a jogada de anulação da delação de Léo Pinheiro, presidente da OAS, onde apontava claramente o pagamento de propina aos governadores Geraldo Alckmin e José Serra.
O expediente adotado foi definir uma narrativa favorável ao PSDB.
Se a investigação se concentrasse em um cartel de empreiteiras manipulando licitações por todo o país, o PSDB seria apanhado em São Paulo, em Minas Gerais, em Furnas e Belo Monte.
Decidiu-se por investigar exclusivamente a Petrobras. Aliás, um álibi frouxo, pois, quando interessou, as investigações se direcionaram para o almirante Othon, pai do desenvolvimento nuclear brasileiro.
Mas a avalanche das delações da Odebrecht soterrou toda a blindagem. Tiraram o gênio da garrafa e não souberam levá-lo de volta.
TERCEIRO TEMPO - OS TIROS NO PÉ
Na fase inicial de destruição, todos os abusos foram tolerados. Era evidente que na fase seguinte, quando chegasse ao centro efetivo de poder, a Lava Jato teria que se revestir de toda maturidade para não abrir a guarda. E o que se viu foi explicitação da imaturidade de juiz, procuradores e delegados provincianos que se deslumbraram quando colocados no centro dos holofotes do país.
Holofote 1 – Á medida em que o poder absoluto vai se esvaindo, o juiz Sérgio Moro dá sinais ostensivos de desequilíbrio emocional. No domingo, as declarações no Facebook da sua esposa, reforçando o apoio popular à Lava Jato. Depois, a autorização para a condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães, provocando reações dentro e fora do país. Ali foi sua pá de cal. Os verdadeiramente poderosos, conscientes de seu poder, não desperdiçam autoridade com mesquinharias – como retaliar um crítico. Quanto mais desproporcional a força, maior o desgaste do poderoso.
Holofote 2 – o procurador Deltan Dallagnoll, uma espécie de Menudo do Ministério Público Federal, mantém seu show de imaturidade. O episódio do Power Point significou um enorme desgaste para a operação. Ontem, em entrevista a Ricardo Boechat, admitiu expressamente a maneira como se decidiu blindar o PSDB: só queriam saber da Petrobras. Não explicou, porém, por que a Eletronuclear entrou e Furnas, não.
Holofote 3 - Na Polícia Federal, o delegado Moscardi Grillo já havia dado demonstrações robustas de exibicionismo. Conseguiu, no entanto, mobilizar mais de mil agentes para uma operação, a Carne Fraca, que colocou em risco as exportações brasileiras de carne.
Holofote 4 – no STF (Supremo Tribunal Federal), o Ministro Luís Roberto Barroso, em seu papel de Raymundo Faoro depois da gripe espanhola, endossa o Estado de Exceção sem se dar conta – como constitucionalista que foi! – do papel da Constituição na consolidação do pacto social, o maior alicerce para um ambiente democrático, no qual há regramento jurídico e práticas políticas para administrar interesses e dissensos.
O que se observa, hoje em dia, é o derretimento institucional do país, uma ampla subversão das corporações, o exibicionismo incontrolado de agentes do Estado, devido ao fato de ter-se perpetrado a subversão maior: o desprezo por 54 milhões de votos.
Cria-se esse quadro inacreditável de juiz, delegados, procuradores e Ministro desse nível ter em suas mãos o destino da economia, do emprego, de setores centrais e atuando com a despreocupação de meninos jogando videogames.
QUARTO TEMPO - OS EMBATES POLÍTICOS
Desde que teve início o segundo tempo do jogo, o Ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), fica atento a qualquer sinal de fragilidade da operação para cair matando. Foi assim na denúncia-fake de Veja contra Dias Toffoli – que serviu de álibi para Janot anular a delação de Léo Pinheiro e blindar Aécio, Alckmin e Serra.
Agora, com o caso da Carne Fraca e a tal coletiva em off de Janot, Gilmar avançou com dois pés no peito do PGR, acenando com a tentativa de anular todas as delações por vazamentos – algo que ocorreu durante toda a Lava Jato.
Janot, dando plena razão aos que o consideram um PGR intelectualizado, cioso da liturgia do cargo, data vênia, o taxou de “decrépito”, de ter “disenteria verbal” e outros mimos do gênero. (Nota deste blog: Janot é candidato a uma nova reeleição, mas, ao que consta, haveria resistência/desagrado de setores do MPF. Com a áspera manifestação sobre Gilmar Mendes, certamente fortaleceu-se).
Entra-se em uma fase enrolada do jogo:
1.     Em torno de parte do PMDB, mas, especialmente do PSDB, juntam-se Gilmar Mendes, senadores e deputados alvos da Lava Jato, com o apoio tácito da mídia. Tácito porque, ao investir no eleitorado emergente da ultradireita a imprensa se tornou refém do esgoto que criou. Desvencilhar-se exige um talento desconhecido nos grupos de mídia. Gilmar arrasta consigo parte da imprensa que surfou nas ondas da ultradireita, mas, agora, ambiciona o status de imprensa de opinião, defensora intransigente do PSDB, tornando-se crítica da Lava Jato.
2.     Ao lado da Lava Jato ficam os grupos de ultradireita, movimentos como o MBL e blogs e sites.
3.     Rodrigo Janot se equilibra entre o instinto de conservação que o leva a apoiar o PSDB; e os movimentos da corporação, exigindo apoio total à Lava Jato. O jogo radicalizou tanto que o obrigou ao inesperado: uma tomada de posição eloquente contra Gilmar. E gerou uma crise institucional que não pode se restringir a bate boca de boteco .
4.     As esquerdas ficam entre a cruz e a caldeirinha. A cruz é o poder absurdo e a discricionariedade da Lava Jato, criando total insegurança jurídica especialmente para quem é visto como inimigo. A caldeirinha é a possibilidade dos políticos do PSDB e do PMDB livrarem a cara ante um possível esvaziamento da operação. O que querem: os inimigos condenados, e ampliando desmedidamente o arbítrio da Lava Jato? Ou o esvaziamento da Lava Jato, implicando em livrar os caciques do PSDB da guilhotina?
QUINTO TEMPO - A CHEGADA DO GUARDA DA ESQUINA
O melhor exemplo da subversão institucional do país ocorreu ontem (22), na posse de Alexandre de Moraes no STF.  Houve um caso fantástico de como a hierarquia ficou de pernas para o ar e os nervos do governo ficaram em pandarecos.
O Ministro da Defesa Raul Jungman, na qualidade de chefe maior das Forças Armadas, tentou pular a corda do STF para se retirar da solenidade. Chegou uma autoridade - um segurança fortão - e ordenou: Aqui não, mermão!
Aí o Ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, quis enquadrar o segurança e levou uma baita de uma enquadrada. Exigiu o nome do segurança, para dar queixa, e não conseguiu.
E a tarde terminou com o Ministro Eliseu Padilha indignado com o atraso de seu motorista e ameaçando voltar para o Palácio a pé. E Aloysio, sabendo que o perigo mora no povo, o demovendo de tão ousada caminhada (https://goo.gl/KjLW7y).
Essa é a República de Fancaria que o Brasil se tornou, depois de conquistar, por pouquíssimo tempo, um espaço nobre no chamado concerto das nações.
Vê-se, em tempo real, as razões históricas para o Brasil nunca chegar lá, no panteão dos países desenvolvidos.
SEXTO TEMPO - O DESFECHO DA HISTÓRIA
Confesso a total impossibilidade de cravar em uma hipótese de cenário futuro.
As três hipóteses abaixo são possíveis:
1.     A Lava Jato e o PGR correrem para reconstruir a figura do inimigo externo, visando recompor a aliança. Essa hipótese é reforçada pela condução coercitiva de Eduardo Guimarães e pela possibilidade de colocar blogueiros na roda.
2.     A constatação da incapacidade de Michel Temer de continuar tocando o país e sua substituição em um processo de eleição indireta, avançando sobre as eleições de 2018.
3.     A hipótese – mais remota – de que o agravamento da crise acorde o país para a necessidade de um pacto de salvação nacional.
(Fonte: Jornal GGN - AQUI).