terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CARTUM DE CARNAVAIS PASSADOS


Nani.

A AMEAÇA AO MAIS AVANÇADO MÍSSIL DA FAB


O escândalo A-Darter
Ou de como a tentativa de assassinato da Odebrecht pode ferir de morte a construção do mais avançado míssil da Força Aérea Brasileira

Por Mauro Santayana

Está dando certo o implacável, mesquinho, totalmente desvinculado da estratégia e dos interesses nacionais, cerco, montado pela Procuradoria-Geral da República, para arrebentar com a Odebrecht, não apenas dentro do Brasil, mas, em conluio com os Estados Unidos, também na América do Norte e, com base em "forças tarefas" conjuntas, nos mais diferentes países da América Latina.

Pressionada pela perseguição além fronteiras da Jurisprudência da Destruição da Lava Jato e pela estúpida, desproporcional multa de R$ 7 bilhões estabelecida a título de punição, pelo Ministério Público brasileiro, em parceria com o Departamento de Justiça norte-americano, a Odebrecht não está conseguindo vender boa parte dos ativos estratégicos que tenta colocar no mercado, para evitar sua bancarrota e total desaparecimento, com a paralisação de dezenas de bilhões em projetos, muitos deles estratégicos, dentro e fora do país, e a demissão de milhares de colaboradores que trabalham no grupo, que já foi obrigado a se desfazer de mais de 150 mil pessoas nos últimos dois anos.

Com o cerco à empresa, que bem poderíamos classificar de mera tentativa de assassinato, considerando-se o ódio com que vem sendo tratada a Odebrecht pelos nossos jovens juízes e procuradores – já que poderiam ter sido presos eventuais culpados sem praticamente destruir a maior multinacional brasileira de engenharia –, coloca-se sob risco direto não apenas a construção do futuro submarino nuclear nacional (e de outros, convencionais), mas também a produção dos mísseis A-Darter, destinados aos caças Gripen NG BR, que se encontram em desenvolvimento pela Mectron, empresa controlada pela Odebrecht, em cooperação com a Denel sul-africana.

Não tendo conseguido negociar a Mectron, incluída em sua lista oferecida ao mercado, a Odebrecht pretende, agora, esquartejar a companhia e vender seus projetos um a um – entre eles o desse avançado míssil ar-ar – para quem estiver interessado em ficar, entre outras coisas, com parte do know-how desenvolvido pelo Brasil nessa área, desde a época do míssil "Piranha".

Enquanto isso, a Presidência e o Congresso fazem cara de paisagem.

Quando, diante desse absurdo, o mínimo que a Comissão de Defesa Nacional – por meio de CPI para investigar o caso –, o Ministério da Defesa e o Ministério da Aeronáutica deveriam fazer seria pressionar e negociar no governo o financiamento da compra da Mectron por uma empresa da área, como a Avibras, por exemplo, com recursos do BNDES, ou injetar dinheiro do Banco – agora emagrecido em R$ 100 bilhões "pagos" antecipadamente ao Tesouro – para que comprasse provisoriamente a Mectron, assegurando que seu controle ficasse com o Estado, ao menos até o fim do programa A-Darter, ou que se estabelecesse uma estratégia voltada para impedir sua desnacionalização.

O problema é que o BNDES, como faz questão de afirmar a nova diretoria, pretende mudar de foco para dar atenção – o que quer que isso signifique – a projetos que beneficiem "a toda a sociedade".

Será que seria possível que a finalização do desenvolvimento de um míssil avançado para os novos caças de nossa Força Aérea (destinado a derrubar aviões inimigos em situação de combate, em que já foram investidos milhões de dólares) viesse a ser enquadrada nessa categoria e na nova doutrina de funcionamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – que já bloqueou R$ 1,5 bilhão que a Odebrecht teria a receber por obras no exterior –, ou estaríamos pedindo demais e exagerando na importância do caso? (Fonte: Blog de Mauro Santayana; texto reproduzido AQUI).

................
"... estaríamos pedindo demais e exagerando na importância do caso?", indaga o competente articulista. Considerando os antecedentes até aqui observados e as instâncias envolvidas, parece lícito concluir que a resposta seria: "Sim, julgamos que os senhores estão pedindo demais e exagerando a importância do caso".

OLD CARTUM


Renato CANINI. (Brasil. 1936-2013). 
Em algum lugar do passado, antevendo a conjuntura atual.
(Sobre Canini, clique AQUI).

O NOVO TEMPO DA LAVA JATO


Xadrez do novo tempo da Lava Jato

Por Luis Nassif

Peça 1 - o papel da Procuradoria Geral da República

Justiça que tarda é justiça que falha. Nunca o ditado foi tão oportuno para explicar como a Lava Jato vem tratando os casos mais delicados, dos políticos com prerrogativa de foro.
A revelação dos papéis do Ministro Teori Zavascki por Elio Gaspari (https://goo.gl/kLfH6l) traz um dado concreto sobre algo que o Xadrez vem indicando há tempos: por estratégia ou insuficiência, ou por receio de chegar até seus aliados, a Procuradoria Geral da República (PGR) está tocando os inquéritos com extrema morosidade.

Desfazem-se alguns mitos.
Mito 1 – que os atrasos na Lava Jato se devem ao acúmulo de processos no STF.
Não é verdade. Mal comparando com uma empresa, confronta-se a capacidade instalada de julgamento do STF com a quantidade de inquéritos potenciais da Lava Jato. Na prática, o que ocorre é que o STF trabalha com capacidade ociosa, devido à morosidade com que chegam as denúncias provenientes da PGR.
Mito 2 – que, com a miríade de novos instrumentos colocados à sua disposição (delação premiada, cooperação internacional, integração de órgãos de controle) o Ministério Público Federal ganhou uma estrutura capaz de desvendar os crimes mais complexos.
Não é fato.
O que ganhou em poder de fogo e em deslumbramento perdeu em capacidade investigativa.
O MPF já teve figuras corajosas, que saiam a campo com risco de vida, como foi o caso do procurador Pedro Jorge, morto quando apurava o escândalo da mandioca; ou Luiz Francisco, que prendeu o deputado Hildebrando Pascoal, que matava os inimigos com motosserra; ou ainda Celso Três e Vladimir Aras no caso Banestado, ou ainda os procuradores que comandaram a Operação Monte Carlo, que investigava o bicheiro Carlinhos Cachoeira.
Hoje em dia, o estereótipo (não a totalidade) de procurador é o de um almofadinha, especializado em fuçar em bancos de dados, em ações de baixo risco, com um deslumbramento que deprecia toda a categoria, mas aparentemente incapaz de conduzir denúncias juridicamente acabadas.
Peça 2 - a fragilidade da teoria do fato
Imagine um repórter investigativo de peso que tivesse à sua disposição a possibilidade de
·      quebra de sigilo de computadores das pessoas investigadas;
·      grampos e quebras de sigilo de telefones, e-mails;
·      quebra de sigilo de contas correntes, não apenas aqui, como em paraísos fiscais;
·      acesso total a declarações de renda;
·      poder trancafiar um suspeito pelo tempo que quisesse, e só garantisse a sua libertação quando ele se dispusesse a delatar o que o jornalista quisesse.
Nada conseguiria se não dispusesse de conhecimento básicos sobre economia, mercado, contabilidade, finanças e capacidade de análise para montar uma narrativa lógica, que lhe permitisse juntar todas as peças e formular uma acusação competente.
Há pouco tempo o MPF descobriu que o melhor caminho para uma investigação seria organizá-la pela teoria do fato (não confundir com a teoria do domínio do fato). Trata-se de um método conhecido de qualquer repórter experiente. Assim que se levanta um número mínimo de evidências, formula-se uma tese visando melhor filtrar as informações: quem é quem na organização criminosa, como se organizam as jogadas etc.
Os maus repórteres se apegam à visão inicial. Tratam, então, de encaixar à martelada  na primeira versão qualquer evidência. Foi essa incompetência que gerou os grandes crimes de imprensa dos anos 90, como o da Escola Base, Bar Bodega e tantos outros.
Os verdadeiramente repórteres, quando surgem fatos que não se encaixam na teoria, tratam de reformular a teoria.
A estrutura burocrática do MPF, no entanto, somada à ideologização da corporação, transformou a teoria do fato em manual a ser seguido cegamente. Definida a primeira versão, não se muda nada para não parecer que o investigador incorreu em algum erro inicial de análise.
No nível da PGR, aparentemente, a situação fica mais complicada.
Peça 3 - o papel de Rodrigo Janot
A verrina post-mortem de Teori desnuda algo sobre o qual pairavam sinais preocupantes: a baixa competência técnica de Janot e da área da PGR envolvida com a Lava Jato.
Esse amadorismo ficou nítido no episódio em que Janot solicitou a prisão de alguns dos mais influentes políticos brasileiros com base em um grampo que registrara uma conversa banal entre eles.
Era tão sem nexo o pedido de prisão que, aqui mesmo, supus que Janot tivesse muitas outras provas na manga, que estariam sendo guardadas para o momento oportuno. Não tinha. Como não tem nada de mais concreto contra Renan Calheiros, a julgar pelos bilhetes de Teori.
O que preocupa é a ausência de assessores de peso, para alertar Janot sobre essas impropriedades, ou assessorá-lo adequadamente nas denúncias; ou então falta a Janot esperteza para ouvir os conselhos.
Fica a suspeita fundada de que o estilo amador de estabelecer correlações, dos procuradores mais jovens, no fundo, é uma fragilidade generalizada do MPF, incluindo as cabeças pensantes da Procuradoria. Daí se entende essa loucura de criminalizar políticas de financiamento de exportações do BNDES, políticas de incentivos regionais, financiamento de serviços.
Como atuam?
1.     Levantam um pagamento, que pode ser de propina ou de caixa 2 para campanha eleitoral.
2.     Vão até o banco de dados do Congresso atrás de algum projeto de lei votado na mesma época. Se não encontrarem, não tem problema, qualquer correlação vale, um PL de anos atrás, uma medida legítima de política econômica, endossada por todos os partidos, qualquer coisa.
3.     Um recurso bastante utilizado é vazar factoides para jornais e revistas. Com base no que plantam, tentam colher representações que têm como única evidência os factoides que plantaram na mídia. É o moto perpétuo da prova jurídica.
Significa que todos os PLs são insuspeitos? Longe disso. A premissa básica é a da ampla corrupção política. Só que, dispondo do maior aparato investigativo da história, o novo MPF não logrou desenvolver uma metodologia de investigação minimamente eficaz.
Em muitos casos, dada a insuficiência de provas, as investigações necessitam do efeito-manada, de tocar bumbo na mídia, de criminalizar o que não é crime, de ganhar no grito. E, aí, o que cai na rede é peixe, culpados e inocentes, pouco importa, cria-se a lei da selva, a celebração da selvageria.
Em Curitiba, tudo foi facilitado pela existência de um juiz parcial. E, agora, no STF? De um lado, uma opinião pública ansiosa por sangue e, também, por um mínimo de isonomia nas denúncias; de outro, um STF assustado e tendo à frente as denúncias insuficientes formuladas pela Procuradoria Geral.
Os procuradores da Lava Jato garantem que as delações da Odebrecht são suficientemente detalhadas para que nada escape, de Chico a Francisco, Aécios, Serra e Alckmins. Mas o PGR tem sua própria agenda e seus próprios temores. E, na ponta política, já está em marcha uma ampla coalizão destinada a bloquear a Lava Jato.
Tem-se, então, a seguinte novela jurídica:
1.     Um Supremo acuado, necessitando ser severo por questão de isonomia e para satisfazer a opinião pública.
2.     Peças inconsistentes da PGR para serem analisadas.
3.     A opinião pública convencida de que se prepara uma grande pizza.
Não há caldeirão melhor para cozinhar o que resta de reputação do Supremo.
Peça 4 - o general que gosta de tuitar
Enquanto Legislativo, Executivo e Judiciário se afogam em descrédito e desconfiança, surge um novo personagem em cena: o general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, comandante do Exército. É articulado, legalista, antenado com os fatos, e está cada vez mais encantado com a visibilidade proporcionada pelas redes sociais e pela imprensa.
De sua fala (e de conversas com oficiais da reserva) se depreende (https://goo.gl/nmtuy5):
1.     É legalista. Sustenta que as Forças Armadas jamais serão fator de instabilidade.
2.     É totalmente a favor da Lava Jato.
3.     Acha que o país está completamente sem rumo e que perdeu seu projeto de Nação. Considera que o Estado está à mercê de interesses setoriais.
Fica a impressão – apenas impressão – de que Villas Boas jamais avançaria além dos quartéis. Mas não recusaria a entrar no jogo, em uma proposta salvacionista.
(Fonte: Jornal GGN - aqui).

................
O problema é que, para lograr êxito nos desafios a que se propõem, certos 'concurseiros' se debruçam sobre os códigos a ponto de pretender decorar tudo o que contêm. Isso demanda tempo, às vezes anos e anos de insistência. A doutrina pouco tem a contribuir nessa empreitada: o tempo ruge, como diz o outro. Resultado: filosofia do Direito, sociologia do Direito e que tais são sumariamente descartadas. Se isso acontece com matérias tão cruciais, 'da área', o que dizer de micro e macro economia, de geopolítica, de... Norberto Bobbio? Não é à toa que tantos operadores do Direito assim 'esculpidos' fiquem como que a meter os pés pelas mãos, movidos pela inconsequência, o que é potencializado pelo fato de deterem, cada vez mais, uma poção inebriante chamada Poder.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

CARTUM DE OUTROS CARNAVAIS


Cleriston. (Recife).

ECOS DA SOLENIDADE DE CONCESSÃO DO PRÊMIO CAMÕES 2016


"Texto literário é coisa para Raduan.
 
Textos jornalísticos felizmente já estão sendo veiculados.
 
Este é, quiçá, um desabafo. Uma reflexão a partir do evento em que Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões.
 
Raduan iniciou seu discurso dizendo ter tido dificuldade para entender o Prêmio.
 
Eu estou até agora com dificuldades para entender a cerimônia de premiação realizada ontem, 17 de fevereiro de 2017.
 
Por um lado, sinto a felicidade por ter estado presente num evento de tal importância, ter visto e ouvido uma pessoa como Raduan – o que especificamente em seu caso é algo ainda mais raro, considerando sua discrição e opção pela reclusão.
 
Por outro, sinto o mal estar pelo ocorrido, pela maneira com que o ministro em exercício, consequentemente o próprio (des)governo, tratou aquele que é considerado por muitos o maior escritor brasileiro vivo. O desrespeito foi direto ao escritor, mas estendeu-se à plateia e ao próprio Prêmio Camões.
 
Desrespeitou-se a Cultura, a Literatura, a Língua Portuguesa.
 
Raduan Nassar foi galardoado com o Prêmio Camões em maio de 2016 por unanimidade do júri. A entrega – do diploma, pois até onde sei o prêmio pecuniário ainda não foi pago – foi adiada ao máximo justamente para afastar a possibilidade de manifestação política do escritor. O evento realizado quase um ano após a definição do prêmio não contava com nada, não foi contratado um show no valor de 500 mil reais sem licitação como o (des)governo fez em novembro de 2016 no Palácio do Planalto. Sem divulgação, deveria passar desapercebido.
 
O que Raduan Nassar fez foi um ato político.
 
Reuniu uma plateia que ouvisse seu discurso e replicasse o ocorrido, desmoralizando ainda mais este (des)governo e explicitando seu autoritarismo e descaso com o país.
 
O Prêmio não foi "dado" por este (des)governo, como disse o ministro em exercício. Foi entregue "apesar" dele.
 
Da mesma forma ocorreu a cerimônia de premiação. Muito pelo esforço de um amigo – a quem gostaria de dar o crédito, mas talvez ele goste de ser misterioso como Raduan – jornalistas, políticos, escritores, intelectuais, admiradores foram reunidos para presenciar aquele manifesto. O Coral Passarim ofereceu o momento de maior beleza com cerca de vinte meninas cantando músicas brasileiras. Outro amigo propiciou o transporte do coral. As crianças quase foram impedidas de entrar no evento, pois não estavam nos planos do cerimonial e o responsável foi indagado sobre quais músicas seriam cantadas.
 
A cerimônia ocorreu "apesar" do cerimonial do ministério da cultura.
 
Este mesmo cerimonial cometeu o despautério de inverter a ordem comum a uma premiação, fazendo com que o homenageado falasse primeiro, deixando o discurso final ao ministro em exercício para que ele transformasse o que deveria ser a cerimônia de entrega do Prêmio Camões em comício da era da pós-verdade.
 
Minha sensação foi de vergonha alheia.
 
Pois bem, iniciado o dispositivo, a presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo, erra repetidas vezes o nome do homenageado em seu discurso de apresentação, sendo corrigida pela plateia e pelo próprio Raduan NASSAR. Raduan faz um discurso sucinto, aponta fatos recentes como as invasões em escolas, violência contra manifestações democráticas nas ruas e as tragédias nos presídios para destacar a figura de Alexandre de Moraes, prestes a ocupar uma cadeira vitalícia no Supremo Tribunal Federal. Aponta diretamente a responsabilidade do Ministério Público e do STF na colocação e manutenção do governo de exceção em exercício. Menciona a decisão de Celso de Mello de garantir o foro privilegiado a Moreira Franco, citado 34 vezes numa única delação. Opina que o Supremo atuou coerente com seu passado no regime militar, ao manter Eduardo Cunha como presidente da Câmara, permitindo que instaurasse o processo de impeachment, destituindo Dilma Rousseff, íntegra e eleita pelo voto popular.
 
Em seguida, o embaixador de Portugal, Jorge Cabral, faz um discurso protocolar, atendo-se ao prêmio.
 
Roberto Freire, então, toma a palavra. Não dá para dizer que perdeu o decoro em seu discurso, pois já não há decoro nas ações dos membros desse (des)governo há muito tempo. Não dá nem para dizer que tenha sido um discurso, já que improvisa ofensas e bate boca com a plateia. Portanto, toma a palavra e tenta tomar a cena, como tomaram o governo, como tentam tomar o país.
 
Freire começa por dizer que já seria preocupante vindo de jovens, mas traz perplexidade que alguém com a "experiência" de Raduan considere que a democracia foi abalada. Diz que "quem dá prêmio a adversário político não é a ditadura" e destaca que o prêmio foi aceito, mencionando que não é apenas reconhecimento, que "há prêmio mesmo, para que todos saibam". Defende que o governo é democrático por "permitir" que um "adversário político" receba um prêmio e a prova está naquele evento, em que "foi permitido" ao homenageado que "falasse e imaginasse" o que quisesse.
 
Ora, só até aí o disparate já era imenso. Em primeiro lugar o Prêmio Camões foi instituído em 1988 por Brasil e Portugal, não é algo de um ou outro governo.
 
Confunde-se de saída Estado com governo. Trata-se de recursos públicos e não um presente do governante do momento. A escolha do premiado é feita por um júri internacional, não por membros do ministério de Freire. Além disso, Raduan foi escolhido tendo seu nome divulgado em maio de 2016, mês da saída da presidenta Dilma Rousseff.
 
A truculência e aspiração ditatorial, fazem com que Freire, querendo defender o governo como democrático, dê como prova disso ter "permitido" que Raduan fosse premiado e falasse. A mesquinharia o faz destacar que há prêmio em dinheiro, sem considerar que o valor de cerca de 300 mil reais não deve causar nenhuma cobiça ao homem que há poucos anos doou terras a trabalhadores e uma fazenda com maquinário, cujo conjunto é avaliado em cerca de 20 milhões de reais, para a Universidade Federal de São Carlos, onde hoje funciona o Campus Lagoa do Sino, em que estudam aproximadamente 500 alunos, com eixos centrados no Desenvolvimento Sustentável Territorial, Soberania e Segurança Alimentar, e Agricultura Familiar.
 
E aconteceu o que Raduan deixara como última frase em seu discurso, não houve como ficar calado.
 
Augusto Massi, poeta e professor da USP, alertou Freire de que a obra de Raduan era uma obra política, e que o ministro não estava à altura daquele evento. Freire respondeu que Raduan pôde falar, que "nós o respeitamos", ao que Massi apontou o óbvio: "hoje é o dia do Raduan, não é seu!"
 
Em meio aos aplausos pela intervenção de Massi, Freire ainda disse que foi Raduan quem não entendeu o que se fazia ali, o chama de adversário e passa a desqualificar, mas sem nenhum argumento, a narrativa do golpe.
 
E a plateia ouve. Não sei se por educação, curiosidade, ou, como eu, atônita ao presenciar algo assim. É impressionante a falta de pudor, como estas pessoas ficam à vontade para, mesmo diante de um público crítico, fazer uma fala quando não vazia de significado ou distorcendo a realidade, simplesmente autoritária. E esse caráter se acentuou.
 
"O silêncio é de praxe!", bradou a filósofa Marilena Chauí.
 
Freire tenta seguir "tomando" a palavra. Pois não havia o que responder, não havia argumentos. Apenas precisava falar mais, falar por cima, falar de cima.
 
E, talvez justamente porque saiba que "não há argumentação possível com o fascista", como disse numa entrevista ao Jornal da Unicamp em 2016, Laymert Garcia dos Santos, professor desta universidade, se dirige à plateia: "não é possível que nós continuemos ouvindo isso aqui!" "Não é possível, pois é um desrespeito ao próprio Raduan", diz Laymert. E Freire, então, vem com a pérola de que Raduan "desrespeitou a todos nós". Diz que está representando um governo, blá, blá, blá... Laymert brada que "o prêmio é maior, ele é um prêmio da literatura da língua portuguesa". O ministro, corroborando o discurso de Raduan, quando denunciou a repressão violenta às manifestações políticas, diz que "esta oposição sionista evidentemente está com os dias contados". A máscara caiu, Laymert ainda lhe indaga antes de as vaias começarem: "é uma ameaça"?
 
Ao descer do palanque que construiu, Roberto Freire vai diretamente a Laymert chamando-lhe de vagabundo e a Massi de idiota.
 
Raduan, com seus 82 anos, assistiu a tudo sereno. Depois recebeu cumprimentos, conversou, autografou.
 
Ouvi alguns aventando se ele deveria ter respondido. Não me parece de modo algum. Raduan também é maior.
 
Da mesma forma que a força de sua obra não vem da extensão – autor de dois livros e meio, como ele brinca –, não havia mais o que dizer. Já não havia resposta para o que dissera.
 
O evento político estava consumado.
 
Raduan fez com que os demais não ficassem calados."





 
(De Rafael Alves, post intitulado "Os bastidores da agressão de Freire a Raduan Nassar" - AQUI

Alves é sociólogo e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo).

OLD CARTOON

                 
Jota. (Brasil).  -  Em algum lugar do passado.
(VIRA LATA era o título do suplemento jornalístico).

REMAKE (APÓS UM MÊS DE TRUMP)

                      [Faça o antiamericanismo grande novamente]

Patrick Chappatte. (Paquistão).

FLAGRANTE CARNAVALESCO


Bruno Aziz.

O APOCALIPSE ONIPRESENTE


Por que o mundo tem que acabar?

Por Wilson Ferreira

Diariamente o mundo acaba diante dos nossos olhos, seja no cinema na atual safra de filmes-catástrofe, em séries de TV sobre Nostradamus, previsões “científicas” de algum tipo de futura catástrofe ambiental ou em algum “hoax” descrevendo cometas, asteroides ou planetas errantes que cairão sobre a Terra. A última foi sobre um pedaço do Planeta X que supostamente cairia no último dia 16. Por que o mundo tem que ser destruído? No passado, todas as religiões possuíam uma Escatologia: alguma narrativa sobre o fim dos tempos onde os maus seriam punidos e os bons salvos. Mas essas religiões se tornaram “líquidas”: sob os escombros das antigas religiões salvacionistas viraram pastiches que se rendem ao utilitarismo das necessidades do presente: “teologia da prosperidade”, “cabala do dinheiro” ou o islamismo dos homens-bomba. Esqueceram-se do futuro. Por isso, essa nova religião “líquida” e ecumênica precisa criar uma nova Escatologia, uma narrativa midiática sobre o “fim dos tempos” que junte convicções eco-ambientais, geofísica e astrofísica. A “Neoapocalíptica” como estratégia de marketing.

Se o leitor estiver lendo as mal traçadas linhas desse humilde blogueiro é porque, mais uma vez, o mundo não acabou. Segundo um autoproclamado astrônomo russo, Dr. Dyomin Zakharovich, um pedaço do Planeta X (ou “Nibiru”) atingiria a Terra o último dia 16. Repercutido pela mídia, com toques conspiratórios sobre um suposto acobertamento dos dados pela NASA, o dia chegou e nada aconteceu.

Mas agora um respeitado astrônomo britânico, Lord Martin Rees, fala em “asteroide do Juízo Final” e alerta para a necessidade da criação de um sistema de defesa global.

Sem falar no Planeta Nibiru (ou “Planeta X”, “Hercólubus”, “Nêmesis” etc.), planeta com a massa de Júpiter, que passaria pelo Sistema Solar perturbando todas ar órbitas planetárias e jogando a Terra numa catástrofe cósmica. Turbinado pela profecia Maia em 2012, previam que o planeta gigante passaria perto de nós naquele ano.

Agora, a sua passagem é prevista para outubro deste ano, como afirma David Mead no livro Planeta X: A Chegada de 2017. Como previsto, com mais acusações conspiratórias de que a NASA sabe de tudo, mas esconde do público para que apenas a elite mundial se salve em bunkers subterrâneos construídos nesse momento.

Previsões apocalípticas não estão apenas na Deep Web ou sites, revistas e tabloides sensacionalistas, aquelas publicações que faziam a alegria do agente Kevin (MIB: Homens de Preto), que acreditava que esses veículos eram a melhor fonte de informações da agência governamental.

São também repercutidas em portais de notícias da grande mídia, como “fatos diversos”  ou “matérias frias”.


1999: o ano divisor de águas


E nos canais fechados como History Channel, National Geographic ou Discovery há uma profusão de séries com uma gama de variações sobre o tema: hipótese para a extinção dos dinossauros, o que aconteceria com as cidades vazias se a humanidade desaparecesse, asteroides, efeito estufa, tsunamis, derretimento das calotas polares, aquecimento global, pandemias e... as indefectíveis profecias de Nostradamus, sempre com novas interpretações.

O ano de 1999 foi uma espécie de divisor de águas nas profecias sobre o fim do mundo. Naquele ano a chegada do novo milênio foi marcada pela confluência das profecias de Nostradamus e do “bug do milênio” – a contagem anual em dois dígitos criaria um caos informático nas redes de computadores na virada para o ano 2000, gerando desordem econômica e social semelhante ao final da primeira temporada da série Mr. Robot – clique aqui.

Por que um divisor de águas? Se olharmos em perspectiva os diversos apocalipses previstos para a humanidade, antes de 1999 a grande maioria girava em torno de interpretações de textos bíblicos, como a chegada de Jesus para os adventistas em 1843 ou para os mórmons em 1891.

Ou ainda por pastores televisivos como Pat Robertson nos EUA, que previu para 1982 um “julgamento no mundo” pelo próprio Deus.

Em outras palavras, o fim do mundo tinha uma natureza escatológica.

Pat Robertson: o modelo escatológico de apocalipse

O estudo sobre o fim


A Escatologia é uma parte da Teologia e da Filosofia. Significa “último” mais o sufixo “logia”, podendo ser definido como “estudo sobre o fim”. Pretende tratar sobre os últimos eventos da história do mundo ou do destino final do gênero humano.

Conceito criado no século XVII pelo teólogo A. Calov, o conceito “Escatologia” vai expressar os pontos centrais de muitos sistemas religiosos do passado (fim dos séculos, ressurreição, juízo final etc.) e tensões não resolvidas dentro da Filosofia como a tensão entre o destino individual e o coletivo ou o destino do humano e o do universo como um todo.

As religiões monoteístas são salvacionistas, isto é, colocam como condição para a salvação diante do fim dos tempos a vida ortodoxa em conformidade com os ensinamentos do salvador.

Se a Teogonia é o componente das religiões sobre as narrativas da Criação, a Escatologia será narrativa do destino final do gênero humano.

Para os adeptos do judaísmo, teremos o “fim dos dias” e posterior “era messiânica”. Os cristãos esperam o Apocalipse e o Juízo Final fundamentados nas profecias do Apóstolo João. E o islamismo está à espera do chamado “décimo segundo Imam”. Para essas religiões salvacionistas é necessário um evento apocalíptico, o Juízo Final, que puna os maus e salve os bons que seguirem os preceitos para a salvação.


As religiões “líquidas”


É precisamente esse componente moral da escatologia que entra em crise com a perda da legitimidade simbólica dessas grandes religiões monoteístas, seja pelo materialismo da sociedade de consumo, seja por escândalos diários repercutidos na mídia: o cristianismo sempre associado aos escândalos da Igreja Católica repercutidos pela mídia (pedofilia, corrupção etc.); o islamismo associado ao radicalismo, terrorismo e intolerância; e o judaísmo associado aos crimes de guerra de Israel no confronto com a causa palestina, que repercute diariamente na mídia internacional.

Desde o pós-guerra, sob os escombros das teogonias e escatologias das grandes religiões monoteístas, há o surgimento do misticismo de massas com a Astrologia e o que se convencionou chamar de New Age – movimento espiritual buscando a fusão Oriente e Ocidente ao mesclar autoajuda, psicologia motivacional, parapsicologia, esoterismo com física quântica.

Parafraseando Zygmunt Bauman, as religiões tornaram-se “líquidas”: mescla de fundamentalismo nostálgico com uma colcha de retalhos que vai além do sincretismo religioso – rende-se ao utilitarismo. Como, por exemplo, no católico que participa da missa dominical em busca de paz e no meio da semana frequenta uma “mesa branca” em busca de conselhos cotidianos.

Ou como as religiões evangélicas se converteram em teologias da prosperidade, mais preocupadas com o sucesso no presente do que com a vinda de Jesus no fim dos tempos.

 Ou ainda como igrejas neopentecostais juntam sessões de “descarrego” com a própria figura de Jesus para a expiação do Mal ou dos “trabalhos feitos” que emperrariam a vida pessoal do crente.

Essa liquefação dos grandes sistemas religiosos do passado corresponde à própria liquidez da infraestrutura econômico-financeira  da ordem global – a liquidez ou a financeirização das praças financeiras conectadas em tempo real.

A Neoapocalíptica


A Globalização necessita agora de uma nova religião ecumênica que dê legitimidade às novas bases materiais. Uma nova religião igualmente sem pátria, global, feita a partir do pastiche dos escombros dos grandes sistemas religiosos.

Porém, há um problema: é necessário construir uma nova Escatologia, a descrição de algum evento apocalíptico futuro que tenha a mesma função moral das escatologias do passado: redimir os bons e punir os maus. Para, no final, justificar a ordem existente (seja política, econômica ou social) como condição necessária para alcançarmos a salvação. A elaboração de uma “Neoapocalíptica”.

Uma nova Escatologia, agora elaborada pelas narrativas de apocalipses sem a presença de Deus, Jesus ou juízos finais: agora será um asteroide, um cometa, o aquecimento global, ou alguma espécie de catástrofe cósmica.  Por assim dizer, uma “neoapocalíptica secularizada”.

Um bom exemplo desse imaginário pode ser acompanhado no filme 50/50 (2011), uma comédia dramática na qual um jovem descobre que está com câncer. Ao receber o diagnóstico, ele não se conforma: “Por quê? Não fumo, não bebo e reciclo o lixo todos os dias...”. Um bom exemplo de como boas condutas ambientais têm na atualidade um componente muito mais moral do que racional – no futuro, o aquecimento global (ou o câncer) poderá destruir o planeta, mas a culpa não será minha... Estarei salvo com a minha consciência.

Essa é a motivação por trás da safra atual de filmes-catástrofes e da profusão se séries pseudocientíficas na TV sobre futuras catástrofes ambientais, astronômicas ou releituras das profecias de Nostradamus – agora o “Rei do Terror” descrito nas Centúrias é o Planeta X...


Essa nova religião ecumênica da Globalização já possui uma Teogonia: o Big Bang da Cosmologia. Falta agora uma Escatologia plausível, uma neoapocalíptica que tente juntar convicções eco-ambientais com geofísica e astrofísica.

E a Nova Jerusalém depois do fim dos tempos, a “Era Messiânica” do judaísmo, não será mais a cidade celestial, mas a imortalidade no ciberespaço, cujo hardware foi construído pelas mesmas corporações que vendem o discurso do fim do mundo.

A Neoapocalíptica seria, afinal, uma estratégia de marketing? A necessidade da destruição do mundo seria mais uma estratégia de obsolescência planejada? Estratégia de venda de uma “Terra 2.0” unificada em torno das grandes corporações sem pátria, religião ou ideologias?  -  (Fonte: Blog Cinema Secreto: Cinegnose - AQUI).

CARTUM DE CARNAVAIS PASSADOS


Amorim.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

OLD CARTUM


Paulo Moura. (Teresina). 
Cartum laureado - Salão de Humor do Piauí, 1984.

JUDICIÁRIO ENCARNA O PODER MODERADOR


Judiciário quer ser Poder Moderador; STF já ignora freios e contrapesos
Por Luís Costa Pinto
Os povos de herança anglo-saxã ergueram Estados-nação sobre uma sólida base de tradições jurídicas, separação de poderes e sistema de freios e contrapesos.
Nós os mitigamos a partir de 1891 para apagar da memória a jabuticaba jurídica do Poder Moderador, criado por Dom Pedro I e instituído na primeira Constituição brasileira em 1824 e na Constituição Portuguesa de 1826. Não moderava nada –apenas escancarava a vontade do Imperador acima de tudo e de todos.
Em 1937, Getúlio Vargas mandou que esquecessem de escrever na Carta brasileira a harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Em 1946, restaurou-se o verniz saxônico com luzes francesas em nossa Constituição, o que não impediu os militares de rasgarem tudo em 1964 e espicaçarem em 1968. Não valia o que estava escrito. Em 1988, restaurou-se a vontade de seguir imitando o mundo moderno.
Mas no Brasil de 2017 a jabuticaba constitucional voltou a florescer –freios e contrapesos deixaram de ser sistema garantidor da ordem constitucional. Foram relegados a definição de maquinário de elevador. Só isso.
O Judiciário está se sobrepondo aos demais poderes da República e seu porta-voz é uma hydra de 10 cabeças –mas a 11ª está brotando no pescoço disforme dessa criatura que nos empurra para as profundezas do inferno da História.
As 10 cabeças não têm a mesma dimensão nem lançam mão dos mesmos ardis. Algumas subjugam outras, há delas que se creem independentes e a mais jovem brota careca e reluzente, embora não por isso inocente, sendo fruto de uma articulação do mais falastrão de todos os pescoços da hydra brasiliense.
Os pais da Pátria, na ausência de legitimidade e pendurando suas reputações num talo de couve, vivem em permanente transe tentando decifrar o que agrada e o que desperta a cólera do estranho ser primal. É difícil saber o que aplaca seus bofes, afinal os padrões de julgamento são fluidos como bile.
Um dia, vale uma tradição e não se pode nomear ministro investigado porque significaria proteção de foro privilegiado. Noutro dia, diz-se que ministro não tem foro privilegiado e nomeá-lo é prerrogativa do chefe do Executivo. Hoje, intervenções em ritos do Legislativo são abjetas. Amanhã, que se mande a Câmara votar de novo uma emenda de iniciativa popular porque os deputados mudaram uma proposição –qual democracia direta, e não o salutar sistema representativo sob o qual ora vivemos.
A supremacia da hydra na capital da República já não obedece mais a freio algum e o contrapeso foi lançado do elevador na direção do andar de baixo. Está-se massacrando a lenta construção institucional brasileira em nome da preponderância de um poder ante os demais como se houvesse apenas 11 biografias providenciais capazes de nos salvar de uma tragédia. Precisamos, urgentemente, de uma eleição geral. Só a urna é providencial –ela nos devolverá a um projeto nacional, salvando-nos dessa série de estratagemas por meio dos quais algumas cabeças coroadas e sem divindade tentam escapar da sanha da criatura que habita num dos lados da Praça dos Três Poderes.

(Fonte: Site Poder 360 - AQUI).
....
(Luís Costa Pinto, 48, é jornalista. Graduou-se na UFPE em 1990. Começou no jornalismo em 1988 no Jornal do Commercio do Recife. Trabalhou em redações de “Veja" (1990-96), "O Globo" (1997-98), "Folha de S.Paulo" (1997-98), “Época" (1998-2001) e "Correio Braziliense" (2001-02). Atuou como repórter especial, editor, chefe de sucursal no Recife e em Brasília, e editor-executivo).