terça-feira, 27 de setembro de 2016

ECOS DA ÚLTIMA DE ALEXANDRE, O GRANDE

Samuca.

Frank.

O EFEITO AQUARIUS (OU: POR QUE VOLTAR A FALAR EM AQUARIUS)


Aquarius, a energia para continuar a lutar

Por Léa Maria Aarão Reis

Quando um evento gera imensa expectativa antes de se concretizar, é frequente a decepção quando ele acontece. O objeto da espera invade a imaginação dos que aguardam  e inflaciona, na fantasia, a versão do acontecimento. Perde-se a dimensão do real. A data da partida, o dia da chegada, a noite da grande festa, do encontro decisivo. Da estreia de um filme muito badalado.

Não é o caso de Aquarius, cujo autor, de 48 anos, é um dos mais competentes cineastas brasileiros da sua geração, o pernambucano Kléber Mendonça Filho, de Recife, de formação jornalística. Aquarius não desaponta. Pelo contrário. Eletriza milhares de espectadores e é consagrado, durante e no final das sessões dos cinemas onde é exibido, como ocorreu no último fim de semana.

Depois de quatro meses aguardando para estrear no Brasil, desde o histórico fora-temer da sua equipe, nas escadarias do Festival de Cinema de Cannes, em maio passado, o filme protagonizado por Sonia Braga atinge uma marca rara de bilheteria - duzentos mil espectadores nos seus dez primeiros dias; sessões lotadas, calorosos aplausos e gritos de protesto das plateias contra o mordomo e o golpe de estado.

Aquarius se firma além da sua dimensão estritamente cinematográfica, que é admirável, e se torna um filme/ícone. É o totem da resistência permanente dos brasileiros contra o esbulho dos meliantes usurpadores do governo e da energia da qual precisamos para botá-los para fora.

Neste começo de carreira a sua trajetória é notável embora acabe de ter sido golpeado pelo governo através de uma comissão, sem representatividade e sem ética (um dos membros é daquela crítica mal cheirosa do não-vi-e-não-gostei de certos filmes), que tradicionalmente aponta as produções brasileiras a serem escolhidos por Hollywood como candidatas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Apesar do revanchismo político com gosto de vingança infantil, Aquarius já pode prescindir da benção de um Oscar. Ganhou prêmios nos festivais de Amsterdã, no Transatlantyk, da Polônia, em Lima, no Peru e em Sidney, na Austrália. Fez furor na Europa e esta semana está sendo mostrado no Festival de Cinema de Toronto – isto, por enquanto.

Já está vendido para o Netflix internacional, comprado para exibição em cinemas de 60 países e é praticamente unânime a crítica que recebe dos mais influentes jornais ocidentais. Um grande filme.

Portanto, não conceder ao Brasil a honra de apresentar Aquarius como candidato ao Oscar, é como não convocar Neymar para a seleção de futebol porque ele seria contra o golpe, diz-se nas redes sociais. Mais um escândalo internacional do governo temer. Mais um tiro no pé.

Os produtores do filme formam um time da pesada. Além dos  franceses Michel Merkt e Emilie Lascaux, Saïd ben Saïd está no grupo. É o respeitado produtor franco-tunisiano que costuma captar recursos para filmes de Polansky, Brian de Palma e Barber Schroeder. Os brasileiros Walter Salles e Carlos Diegues são co-produtores.

A espinha dorsal do roteiro de autoria de Mendonça traz um admirável e fascinante retrato de mulher forte e potente - idosa? madura? velha? meia-idade? -, a Clarade Sonia Braga, de 66 anos. Clara é o símbolo da mulher da geração libertária dos meados dos anos 60, corajosas mulheres da contracultura que romperam os padrões patriarcais vigentes até então. Clara é da leva de geração que se seguiu, nos anos 70/80.

Viúva, mãe de três jovens adultos, tem netos e é jornalista aposentada. Desde a juventude vive no apartamento do primeiro andar do Aquarius (na realidade, o edifício Oceania) defronte do mar, na praia da Boa Viagem, no Recife, onde criou os filhos e viveu boa parte de sua vida.

Interessados em construir uma torre, um prédio/pombal moderno, naquele espaço, os responsáveis pela empresa Bonfim já adquiriram todos os apartamentos do prédio, menos o de Clara. Por mais que tenha deixado claro que não pretende vendê-lo – o seu ninho afetivo -, ela sofre um assédio cada vez mais agressivo para mudar, por parte de um coronel transmutado (hoje) em empresário, e seus filho coxa que estudou nos Estados Unidos (netos dos entulhos da ditadura civil-militar de 64) e voltam “com os olhos cheios de sangue” (como diz o personagem) para começar a trabalhar aqui.

Com habilidade, o tom da narrativa pouco a pouco vai  transformando o universo plácido da protagonista numa história de quase-suspense onde o pano de fundo permanece a questão urbana e social desumana: a  gentrificação de bairros e quarteirões das grandes cidades brasileiras entregues à sanha de grupos da indústria imobiliária e da construção civil.

Em Boa Viagem, por exemplo, em determinado momento, Clara mostra ao filho e à jovem nora a língua negra de esgoto, na areia, que divide a avenida da praia das edificações onde mora a classe média e alta separada dos casebres da favela. Insinua-se que a favela, é óbvio, com o tempo será engolida. “Num país em que para tudo há um jeitinho, as cidades acabam sendo uma grande confusão,” diz o diretor.

Para ele “o filme é de resistência e é um pouco um filme de sobrevivência.” Mas “trata-se de um filme sobre a energia necessária para existir. Às vezes cansa, mas há que encontrar mais energia para continuar a lutar.“

Na perspectiva cinematográfica, Aquarius me empolga por três principais razões: é cinema de substantivos fortes com pouca adjetivação. Como nos filmes de mestres, uma imagem nele vale por toda uma sequência, o que dá vontade de assisti-lo novamente. Por isto, Mendonça é saudado, com razão, como um diretor com domínio absoluto do cinema.

O trabalho poderoso de Sonia Braga é um capítulo á parte ao qual se deve voltar. E me fascina porque é impregnado da sensualidade de Recife e do Nordeste, no sentido mais largo, como é O Som ao redor (2013) outro belo filme do cineasta. A sensualidade trazida pela própria sedução e pela sexualidade intacta, apesar do câncer de mama e da idade, da vigorosa Clara cujo nome é um dos inúmeros símbolos, signos e chaves que permeiam a narrativa clara e serena tocada com a trilha musical deliciosa.

Na sua sensualidade Aquarius tem o doce perfume dos cajus que o lendário escritor  Rubem Braga sempre pedia aos amigos - “uma caixinha” - para trazerem para ele, na sua cobertura em Ipanema.

Discriminar Aquarius é passar mais um recibo da grossura e da burrice do governo golpista. É reforçar o que escreveu o crítico do jornal The Guardian Peter Bradshaw – será ele um petralha?:

"Essa rica e misteriosa história brasileira é sobre desintegração social. Metáfora do Brasil com temas sobre nepotismo, corrupção e cinismo.” Vamos mudar esta imagem. Fora, temer.  (Fonte: site Carta Maioraqui).

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'Aquarius' já foi algumas vezes abordado neste blog, sendo a mais recente "Aquarius, um filme na mira do poder" - aqui. Por que motivo, afinal, vale a pena voltar a falar em Aquarius? Simples: trata-se de um filme qualificado, marcante, incômodo. 

Vejamos a seguir:

I) "Esnobado pela comissão do Ministério da Cultura que escolheu o candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro, "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, vai fazer campanha para concorrer em outras categorias do prêmio da Academia. Quem está por trás da estratégia, que terá a atriz Sonia Braga como principal trunfo, é o americano David Shultz, diretor da Vitagraph Films, a companhia encarregada de distribuir o longa-metragem nos Estados Unidos, onde ele estreia no dia 14 de outubro, depois de ser exibido no Festival de Nova York..."  - "Distribuidora americana fará campanha por Sonia Braga e 'Aquarius' no Oscar" - AQUI.

II) POR QUE AQUARIUS INCOMODA A FOLHA


Revelador: jornal mobiliza colunista para sugerir, com base no filme, que Previdência Social é injusta. Ela sabota o “progresso” oferecido pela especulação imobiliária…
Por Glauco Faria, no site Outras Palavras
Neste domingo (25), a Folha de S. Paulo brindou seu leitor com um artigo intitulado “Aquarius”, de seu colunista Samuel Pessoa. Para quem não conhece, trata-se de um economista ligado ao Instituto Millenium e um dos principais assessores da área na campanha do presidenciável Aécio Neves (PSDB) em 2014.
texto escolhe o filme de Kléber Mendonça Filho, que se tornou símbolo de resistência ao processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, para defender a reforma da previdência. A história em si é centrada em Clara, personagem vivida por Sônia Braga, que luta para permanecer em seu apartamento no Aquarius, um edifício antigo de poucos andares na Praia de Boa Viagem, no Recife, alvo de uma construtora que pretende destruí-lo para fazer ali um novo e suntuoso empreendimento imobiliário.
Pessoa diz em seu texto, em síntese, que “um conjunto imenso de distorções explica o poder de barganha de Clara”, entre elas o fato de ela receber aposentadoria integral (uma suposição sua, porque isso não é dito no filme em momento algum). Diz o autor:
“Na maioria dos países, a aposentadoria é um período de ajustes e contenção, sobretudo para quem teve vida profissional mediana, afinal, não é comum aposentadoria com salário integral.”
E complementa, adiante:
“Clara é aposentada, provavelmente no teto do INSS, e recebe a pensão do marido, que, imagino eu, é de professor titular da UFPE, ou algo equivalente. Nas regras brasileiras, exclusividade nossa, Clara pode acumular seu próprio benefício com o do marido.”
Após (com mais uma suposição) criticar o fato de o apartamento ter provavelmente sido comprado por meio de financiamento obtido junto ao antigo BNH, ele volta a mirar a Previdência. “Claro que a soma de nossas distorções –que resultam, entre outras, no gasto de 13% do PIB com aposentadoria e pensões, quando pela nossa estrutura demográfica deveríamos gastar 5%– é importante causa do baixo crescimento econômico. 
- Clique AQUI para continuar -.
'Aquarius': enfim, um grande filme brasileiro).

A VINGANÇA DO VOTO MAL PENSADO


Pavel Constantin. (Romênia).

UMA LEITURA DA REFORMA DO ENSINO


A agenda secreta da reforma do ensino: o analfabetismo visual

Por Wilson Ferreira

Depois da divulgação da Medida Provisória que “flexibiliza” disciplinas do Ensino Médio como Artes e Educação Física o Ministério da Educação voltou atrás dizendo que não era bem assim. Isso depois de forte reação de educadores e pedagogos. Mas está claro: não basta apenas o golpe político. É necessária uma operação psicológica para anestesiar as outras amargas “flexibilizações” que serão proximamente enfiadas goela abaixo da sociedade. Uma operação para manter um sistema de comunicação projetado pela ditadura militar e mantido até hoje – a concentração das informações para a opinião pública exclusivamente nas mídias audiovisuais, especialmente a TV. Para isso é necessária a manutenção do analfabetismo visual: a crença ingênua de que ver é um ato natural e fisiológico, impossibilitando a educação do olhar e a percepção das intencionalidades por trás das mensagens visuais. “Flexibilizar” Arte e Educação Física mostra  o “núcleo duro” de Poder, persistente há décadas, não brinca em serviço. Sabe o que faz: o olhar e a autoconsciência corporal estão conectados através da “propriocepção”, a base da alfabetização visual.
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Um grupo de alunos estava fazendo apresentação oral de um trabalho de pesquisa para a disciplina Estudos da Semiótica que ministrava na Universidade Anhembi Morumbi. O tema era a influência dos líderes de opinião na opinião pública a partir da referência teórica das pesquisas da Mass Communication Research de Paul Lazarsfeld.

A certa altura, foi mostrado um vídeo, desses inúmeros com a presidenta Dilma Rousseff que circulavam nas redes sociais que pretendiam comprovar que ela não passava de uma indigente mental: um pout pourri de frases desconexas, repetições, falas que não diziam coisa com coisa, gaguejos etc. Era nítido nesses vídeos que eram montagens, muitas delas criando um verdadeiro “efeito kuleshov” -experiência feita pelo teórico e cineasta russo Lev Kuleshov mostrando que a interpretação que o espectador faz de uma cena pode ser alterada através da montagem e justaposição arbitrária dos planos.

Intervi na apresentação, demonstrando como o vídeo era o resultado de um nítido trabalho de montagem. O vídeo em questão tinha passagens de emendas toscas, pinçadas de trechos de vídeos originais. Foi espantoso perceber a ingenuidade de alunos de segundo semestre de um curso de comunicação que, supostamente, deveriam ser os mais atentos a esses detalhes.

Essa foi uma pequeno amostra daquilo que podemos chamar de “analfabetismo visual” – a crença ingênua de que a visão é natural e que a compreensão das mensagens visuais é vinculada exclusivamente ao alfabetismo verbal. O analfabeto visual acredita estar “olhando”, quando apenas está vendo. Limita a sua leitura ao nível representativo e literal das imagens (a habilidade fisiológica da visão), sem compreender o nível abstrato (sintaxe, edição, montagem) da linguagem visual – o “olhar”, a habilidade sensitiva e afetiva construída socialmente.

Equivale ao analfabeto funcional: lê as palavras isoladamente, sem conseguir interpretar o que está lendo.


O projeto audiovisual da Ditadura Militar


Em um país no qual a ditadura militar implementou um projeto político de concentrar na televisão (especificamente no monopólio da Rede Globo) a exclusiva fonte de informações para os brasileiros, os doze anos de governos supostamente progressistas perderam a oportunidade histórica de alterar esse quadro.

A oportunidade de inserir no conteúdo de disciplinas como Artes ou especificamente dedicadas à Linguagem Audiovisual, desde o ensino fundamental, as noções de sintaxe, gramática e morfologia audiovisual. A partir da educação artística e fundamental do olhar, avançar para  sintaxe das histórias em quadrinhos, para a linguagem do story board até chegar ao roteiro e toda morfologia audiovisual de cinema e TV.

Somente em maio desse ano, no governo já agonizante de Dilma Rousseff, as artes visuais foram incorporadas ao currículo do ensino básico brasileiro. Para depois, o já empossado presidente desinterino Michel Temer ameaçar com uma Medida Provisória (MP) “flexibilizar” as disciplinas de  Artes e Educação Física no Ensino Médio – outro eufemismo é “opcionais”, o que na prática é o convite à erradicação.

Depois da divulgação da MP e da forte reação de professores e pedagogos, o Ministério da Educação emitiu nota dizendo que não é bem assim e que nenhuma disciplina seria eliminada.

Para bom entendedor, meias palavras bastam: esse verdadeiro núcleo duro do Poder, na política brasileira desde as últimas décadas (a recorrente eminência parda do PDS-PFL-PMDB desde a ditadura militar, representada pelos seus vices – Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel e Michel Temer) sabe muito bem o que pretende. O núcleo é composto por profissionais que não brincam em serviço.


Operação Psicológica


Enfiar goela abaixo da opinião pública um programa como o “Ponte Para o Futuro”, com as medidas neoliberais que estalarão como chicote no lombo daqueles que vivem da força de trabalho, implica numa delicada “psy-op” (“Operação Psicológica” no jargão da Inteligência e Espionagem) que envolve principalmente a grande mídia – especificamente, a grande mídia televisual.

Essa operação psicológica é nada mais do que a manutenção do analfabetismo visual. Situação que apenas confirma a sombria conclusão do célebre documentário Muito Além do Cidadão Kane: o Brasil mudou, o País se democratizou, mas os meios de comunicação não – mantêm não só a mesma configuração do período ditatorial como dão continuidade ao projeto de concentrar nas mídias audiovisuais a única fonte de informação para os brasileiros – sobre o documentário clique aqui.

 Em tal concentração, monopólio e exclusivismo da linguagem visual na opinião pública, o analfabetismo visual é a pré-condição necessária para que esse sistema de comunicação mantenha-se intacto – assim como um “núcleo duro” de poder que seja capaz de convencer os brasileiros sobre qualquer coisa: “golpes constitucionais”, “flexibilização” de direitos adquiridos, “teto de gastos” etc.

Analfabetismo visual e verbal


O analfabetismo visual é ainda mais insidioso do que o verbal, porque é silencioso: enquanto o analfabetismo verbal imediatamente prejudica a socialização, o visual é imperceptível. O analfabeto acha que está olhando (por considerar tudo natural e representativo), porém apenas vê. Acredita que a imagem é um decalque do real e é incapaz de perceber que suas impressões e juízos são decorrentes dos efeitos psicológicos (comportamentais, Gestalt, cognitivos) da sintaxe da linguagem visual.

Ana Mae Barbosa: a importância da leitura das imagens na educação

Para Ana Mae Barbosa, especialista em arte-educação, a presença das Artes desde o ensino básico beneficiaria tanto professores como alunos: Primeiro, a leitura da imagem. Preparar o indivíduo para decodificar imagens, encontrar o sentido escondido por trás delas. Além de acostumar o indivíduo a contextualizar as imagens, onde estão inseridas. Para ela, seria a porta aberta para a interdisciplinaridade, o diálogo com outras disciplinas. A História, por exemplo – sobre isso clique aqui.

Esse “núcleo duro” do Poder, perpetuador do projeto político da ditadura militar, sabe muito bem que a sua continuidade depende da hegemonia de um sistema de informação exclusivamente audiovisual. Por isso, o golpe não pode ser apenas político. Tem que continuar na esfera educacional para garantir a perpetuação do analfabetismo visual.

Analfabetismo visual e o ovo da serpente


O analfabetismo visual sempre foi o combustível que potencializou manipulações históricas em momentos políticos decisivos:

(a) A mundialmente famosa edição tendenciosa do último debate entre Collor e Lula em 1989 no Jornal Nacional, perdida de vista por leigos incapazes de perceber a edição e seleção de planos;

(b) A flagrante montagem das imagens da pilha de dinheiro (tomadas de baixo para cima pelas câmeras) apreendida pela Polícia Federal para uma suposta compra de um dossiê pelo PT, cujo impacto levou a eleição para o segundo turno em 2006;

(c) E agora, na reta final das eleições municipais, a edição do vídeo de 27 minutos com o depoimento de Eike Batista à Operação Lava Jato – foi selecionada apenas a sequência que envolve o nome do ex-ministro Guido Mantega, ignorando sequências decisivas nas quais Eike Batista entrega uma lista com beneficiados de todos os partidos, para depois ser devolvida pelos procuradores. Repercutido e martelado à exaustão, o analfabeto visual ignora a intencionalidade e contextualização do vídeo. (Nota deste blog: o juiz Moro mandou soltar, ontem, 26, os sete presos da 'operação Arquivo X', detidos na última quinta, 22 - aqui).


E como grand finale, provando que essa psy-op é séria e profissional, ameaçam “flexibilizar” também a disciplina Educação Física.  Isto é, intervir na autoconsciência corporal e cinestésica – a chamada “propriocepção”, decisiva também na inteligência visual.

Sem falar que há uma agenda ainda mais sinistra, porque internacional e imposta pelos bancos mundiais de financiamento: a agenda do controle populacional. Banir a Educação Física em um momento no qual a obesidade entre jovens de classes sociais inferiores cresce (o analfabetismo visual ainda se soma ao analfabetismo alimentar) é uma evidente política deliberada para estimular doenças e mortes decorrentes da má alimentação.

  Mais uma vez, comprova-se que os doze anos de governos supostamente progressistas nada mais fizeram do que chocar o ovo da própria serpente que iria devorá-los: enquanto estimulavam a inserção da classe C na sociedade de consumo como símbolo da conquista da cidadania, TVs e mais TVs de plasma e LED com grandes telas de 32 ou 42 polegadas entravam nos lares de novos consumidores extasiados.

Através delas, analfabetos visuais acompanharam a grande novela da caça aos corruptos, bem editada e montada para olhos ingênuos. 

O que lembra o sombrio aforismo de Walter Benjamin no momento da ascensão do nazismo: “As massas assistem ao espetáculo da sua própria destruição”. (Fonte: aqui).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

OLD PHOTO


Clarissa, Luis Fernando e seu pai, o escritor gaúcho Érico Veríssimo. Foto acervo IMS. Sem data.
Luis Fernando, cartunista, tradutor, cronista, músico e humorista consagrado, completa hoje 80 anos.
“A gente se distrai e, quando vê, está com 80 anos. Deveria haver um curso preparatório para a velhice”.

(Vi no imagensvisions - aqui).

DIÁLOGO TRANSCENDENTAL


- Está AQUI. Vou ler pra você a parte mais grave, ok?

- Manda ver. Quanto mais eles estiverem encalacrados, melhor!

- Lá vai: "A PF diz que está provada por documentos a autorização de Marcelo Odebrecht para o pagamento de propinas nas seguintes obras:

.Linha 2 do metrô de São Paulo

.Contratos com a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), em São Paulo

(...)

.Contrato de processamento e tratamento de lixo em São Paulo...

- Para! Para! Que esculhambação é essa?! Quem essa força tarefa pensa que é, para extrapolar as coisas dessa maneira?!

- O que fica claro é que o país esteve por anos ocupado por empreiteiras corruptas, em todos os quadrantes, realidade que vem desde os tempos mais remotos. Uma roubalheira generalizada que não poupa ninguém.

- Dane-se!

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NOTA

Enquanto isso, José Dirceu está preso há tempos em face de acusações diversas, uma das quais consistente em que a Odebrecht teria repassado, para sua JD Consultoria, em 2009/10, propina no valor de R$ 48 milhões, à vista de anotações apreendidas pela PF onde figurava a sigla "JD" como beneficiária. À época, o então advogado de José Dirceu, Roberto Podval, argumentou: 

"Não tem nenhum cabimento. Tudo o que foi recebido pela JD Consultoria foi escriturado. Como alguém vai receber essa quantia sem que isso apareça na contabilidade?"

Eis que hoje, 26, informa-se - AQUI - que a sigla "JD" não diria respeito a José Dirceu, mas a Jucelino Dourado, ex-chefe de gabinete de Antonio Palocci.

E ficamos assim. 

No mais, como diria o mestre João Saldanha, vida que segue.

FLAGRANTE EDIFICANTE DA VIDA REAL


Mariano.

A CORRIDA DA LAVA JATO


"Teve (Operação Lava Jato) a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim", disse ontem, 25, o ministro da justiça, Alexandre de Moraes, em encontro no interior paulista com Duarte Nogueira, candidato do PSDB à prefeitura de Ribeirão Preto, terra de Antonio Palocci, seu adversário político. Veja-se AQUI.

A curiosa declaração do ministro levanta dúvidas a respeito da real independência das instituições envolvidas na operação e um questionamento: a Lava Jato poderia estar sofrendo influência da Esplanada para interferir no resultado das eleições municipais?

Posteriormente, talvez se dando conta do vacilo em que incorrera, o senhor Alexandre, por sua assessoria, disse serem naturais as suas palavras, visto que "toda semana praticamente está acontecendo alguma coisa". O 'vão lembrar de mim', alega, é porque o governo está apoiando a operação.

Hoje, 26, menos de 24 horas depois da revelação, é lançada a etapa 35 da Lava Jato, com providências diversas e três prisões preventivas, entre as quais a do ex-ministro Palocci, por sinal demitido do governo Dilma em face de enriquecimento ilícito, inexplicado e suspeitíssimo, para dizer o mínimo. 

Mas persiste no ar a, digamos, dúvida: a Lava Jato estaria sendo direcionada para o favorecimento de terceiros na corrida eleitoral municipal em curso, ou seria mero delírio de alguns a insistência em classificar as peripécias dos últimos dias como "operações boca de urna"?

De fato, ou 'algo muito estranho' está a ocorrer, ou o ministro da justiça é afortunadamente dotado de um singularíssimo poder premonitório. 

A NOVA CASA DE PÃO E BOLO DE JOÃO E MARIA


Lauzan. (Chile).

REFORMA DO ENSINO: A SÍNDROME DE FROTA


A visão da gestão de padaria de Maria Helena, do MEC

Por Luis Nassif

No início dos anos 90 tiveram início os programas de qualidade no país. Naquele aprendizado inicial, os consultores limitavam-se a identificar os principais processos em cada organização e a redesenhá-los, visando aumentar sua eficiência.
Era uma espécie de bê-a-bá da gestão, na qual era mais importante conquistar um ISO 9000 do que melhorar o desempenho da empresa.
À medida em que as empresas foram evoluindo, devidamente assimilados, os programas de qualidade passaram a ocupar um lugar secundário. E a gestão passou a recorrer a instrumentos mais sofisticados visando o objetivo-fim, como o planejamento estratégico, a discussão de novos métodos para a área de recursos humanos, a descoberta de novas qualidades exigidas dos gestores e funcionários.
O próprio Prêmio Nacional de Qualidade incorporou um conjunto maior de indicadores, para evitar essa prisão a um indicador só, em detrimento dos demais. E o papel do RH (Recursos Humanos) passou a ser central. Motivação do funcionário, capacidade de auto avaliação de seu trabalho, estímulo à criatividade, tudo isso passou a contar na avaliação dos modelões de gestão.
Da equipe de Paulo Renato de Souza no MEC, Maria Helena Guimarães Castro sempre foi o estereótipo acabado do gestor cabeça-de-planilha que aprendeu as primeiras lições e não mais evoluiu. Sempre pertenceu à parcela dos gestores que colocam os meios na frente dos fins. Esse tipo já foi extirpado das empresas mais modernas do país, mas persistiu na educação de São Paulo.
Em nenhum outro setor, a motivação é mais relevante do que na educação. Uma empresa pode ter vendedores desmotivados, desde que o produto seja bom. Mas na educação o produto final é o próprio trabalho do professor. E quando se montam políticas públicas federais, a adesão dos professores ao projeto pedagógico é elemento central. A consolidação dessas políticas se dá através da troca de experiências, da identificação das experiências bem sucedidas, da assimilação dos ensinamentos pelas Faculdades de Pedagogia.
Em vez de uma visão sistêmica e sofisticada, Maria Helena transformou toda a gestão escolar em um desafio para gerentinhos, privilegiando diretores que soubessem fazer o livro caixa, cuidar do dia-a-dia, da limpeza, da merenda etc. Um desperdício completo! A micro gerência, que deveria ser trabalho de um funcionário menor, do administrativo, acabou se constituindo no único papel do diretor, desviando-o do produto final, o ensino do aluno. Equivale a uma empresa colocar o diretor de um departamento para conferir a entrada de cargas no pátio.
Lembro-me de um Prêmio de Gestão do Estado de São Paulo, do qual fui um dos jurados. Minas e São Paulo tinham lançado sua reforma educacional. No júri havia um técnico da McKinsey que participara dos dois projetos e me explicou a maneira como cada qual foi implementado.
Em Minas, o projeto foi amplamente discutido com professores, diretores, com pedagogos, com a Universidade. Em São Paulo, gestão Maria Helena, enfiou-se goela abaixo dos professores. Uma gerente na cabeça da Secretaria da Educação, com algumas estatísticas na mesa e nenhuma ideia na cabeça. Não pegou.
A ignorância tecnocrática de Maria Helena nunca aceitou o óbvio: que o professor é elemento central na educação, o ponto de ligação com o aluno. Sem professores endossando projetos pedagógicos, não se chega até a ponta do cliente (para usar uma terminologia que ela gosta), o aluno.
Nos últimos anos, houve enormes avanços na interação entre os diversos agentes da educação. As Conferências Nacionais promoveram a troca de informações e conceitos entre Secretarias de Educação, sindicatos de professores, ONGs empresariais, permitindo a consolidação de consensos, expressos no Plano Nacional de Educação.
De repente, um Ministro da Educação totalmente jejuno, ao ponto de receber propostas do ator Alexandre Frota, tendo Maria Helena como Secretária Executiva, tenta promover mudanças radicais na Educação – um setor que mexe com milhões de alunos, milhares de escolas e professores – através de uma Medida Provisória.
Convoca as ONGs empresariais em Brasília para celebrar o gol. E o Jornal Nacional é obrigado a forçar declarações compungidas de lideranças empresariais sobre o tema – como a diretora de Todos Pela Educação e Viviane Senna -, claramente decepcionadas com o estardalhaço montado em torno de uma Medida Provisória e explicando (nas frases editadas do JN) que mudanças dessa envergadura não podem ser feitas a toque de caixa e com Medida Provisória.
No ano passado, a ocupação das escolas estaduais paulistas foi um clarão em cabeças pedagógicas mais abertas. Estudantes de baixa renda, nos pontos mais afastados, tiveram uma luta pela escola. Montaram palestras interdisciplinares nos finais de semana, levantaram temas contemporâneos, como o machismo, a tecnologia. Nas mãos de qualquer educador, seria ouro puro.
Mas Maria Helena ficou fiel ao seu padrão de gerente de padaria.
(Fonte: Jornal GGN - aqui).

SÍRIA, EUA, RÚSSIA: VERGONHA MUNDIAL

                                "ESTA ERA A MESA DE NEGOCIAÇÃO!..."

Patrick Chappatte.

domingo, 25 de setembro de 2016

A COLUNA DOMINICAL DE JÂNIO DE FREITAS


'Soluções inéditas' da Lava Jato têm um nome: Tribunal de Exceção

Por Jânio de Freitas

A realidade não precisa de batismo nem definição, mas ambos tornam mais difundidas a sua percepção e compreensão. Esse é o auxílio que o país recebe de um tribunal do Sul, quando os fatos fora do comum se multiplicam e parecem não ter fim: a cada dia, o seu espetáculo de transgressão.

Foi mesmo um ato tido como transgressor que levou o tribunal, ao julgá-lo, a retirar a parede enganadora que separava a realidade de certos fatos e, de outra parte, a sua conceituação clareadora. Isso se deu porque o Tribunal Regional Federal da 4a Região (Sul) precisou decidir se aceitava o pedido, feito por 19 advogados, de "processo administrativo disciplinar" contra o juiz Sergio Moro. O pedido invocou "ilegalidades [de Moro] ao deixar de preservar o sigilo das gravações e divulgar comunicações telefônicas de autoridades com privilégio de foro [Dilma]". Parte das gravações, insistiu o pedido, foram interceptações "sem autorização judicial".

Se, entre os 19, alguém teve esperança de êxito, ainda que incompleto, não notara que recursos contra Moro e a Lava Jato naquele tribunal têm todos destino idêntico. Mas os 19 merecem o crédito de haver criado as condições em que o Judiciário reconheceu uma situação nova nas suas características, tanto formais como doutrinárias. Nada se modifica na prática, no colar de espetáculos diários. O que se ganha é clareza sobre o que se passa a pretexto da causa nobre de combate à corrupção negocial e política.

De início era apenas um desembargador, Rômulo Pizzolatti, como relator dos requerimentos. Palavras suas, entre aquelas com que apoiou a recusa do juiz-corregedor à pretensão dos advogados: a ação do que se chama Lava Jato "constitui um caso inédito no direito brasileiro, com situações que escapam ao regramento genérico destinado aos casos comuns". E o complemento coerente: a Lava Jato "traz problemas inéditos e exige soluções inéditas".

O "regramento genérico" é o que está nas leis e nos códigos, debatidos e fixados pelo Congresso, e nos regimentos e na jurisprudência criados pelos tribunais. O que "escapa ao regramento" e, em seu lugar, aplica "soluções inéditas" e apenas suas, tem nome no direito e na história: Tribunal de Exceção.

A tese do relator Rômulo Pizzolatti impôs-se por 13 votos contra um único desembargador. Não poderia ser tida como uma concepção individual do relator. Foi a caracterização –correta, justa, embora mínima– que um Tribunal Federal fez do que são a 13a vara federal de Curitiba, do juiz Sergio Moro, e "a força-tarefa" da Procuradoria da República no sistema judicial brasileiro, com o assentimento do Conselho Nacional de Justiça, do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Conselho Nacional do Ministério Público e dos mal denominados meios de comunicação.

Fazem-se entendidos os abusos de poder, a arrogância, os desmandos, o desprezo por provas, o uso acusatório de depoentes acanalhados, a mão única das prisões, acusações e processos: Tribunal de Exceção.

TAPEAÇÃO

A "reforma do ensino" lançada por Michel Temer é só um engodo para haver algo que pareça atividade no governo imóvel.

"Reforma do ensino" por medida provisória é restringir o tema à discussão, se houver, no Congresso –o ambiente onde proliferam analfabetos funcionais.

Reforma do ensino não é assunto de parlamentares, tem que ser discutida e decidida por professores. 

(Fonte: Folha de São Paulo; texto reproduzido pelo Jornal GGN - aqui).

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Clique aqui para ler "Lava Jato: acima da Constituição", post publicado neste blog em 24.09.

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A seguir, trechos do  único voto contrário ao relator desembargador federal Rômulo Pizzolatti - de autoria do desembargador federal Rogério Favreto:


O magistrado [Sergio Moro], como se vê, defende posição contrária à proibição em abstrato da divulgação de dados colhidos em investigações. Todavia, essa tese, conquanto possa ser sustentada em sede doutrinária, não encontra respaldo no ordenamento jurídico pátrio no tocante a conversas telefônicas interceptadas, cuja publicização é vedada expressamente pelos arts. 8º e 9º da Lei 9.296/1996
O debate doutrinário é saudável. Todavia, não pode, porém, converter em decisão judicial, com todos os drásticos efeitos que dela decorrem, uma tese que não encontra fundamento na legislação nacional.
Ao assim agir deliberadamente, pode o magistrado ter transgredido o art. 35, I, da Lei Orgânica da Magistratura Nacional.
Outrossim, a tentativa de justificar os atos processuais com base na relevância excepcional do tema investigado na comentada operação, para submeter a atuação da Administração Pública e de seus agentes ao escrutínio público, também se afasta do objeto e objetivos da investigação criminal, mormente porque decisão judicial deve obediência aos preceitos legais, e não ao propósito de satisfazer a opinião pública.
Um segundo fator externo ao processo e estranho ao procedimento hermenêutico que pode ter motivado a decisão tem índole política. Mesmo sem juízo definitivo, posto que se está diante de elementos iniciais para abertura de procedimento disciplinar, entendo que seria precipitado descartar de plano a possibilidade de que o magistrado tenha agido instigado pelo contexto socio­político da época em que proferida a decisão de levantamento do sigilo de conversas telefônicas interceptadas.
São conhecidas as participações do magistrado em eventos públicos liderados pelo Sr. João Dória Junior, atual candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PSDB e opositor notável ao governo da ex-­Presidente Dilma Rousseff.
Vale rememorar, ainda, que a decisão foi prolatada no dia 16 de março, três dias após grandes mobilizações populares e no mesmo dia em que o ex­-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi nomeado para o cargo de Ministro da Casa Civil.
Além disso, a decisão, no quadro em que proferida, teve o condão de convulsionar a sociedade brasileira e suas disputas políticas. Aliás, no dia dos protestos contra o Governo da Ex-­Presidente Dilma (13/03/2016), o próprio magistrado enviou carta pessoal à Rede Globo e postou nota no seu blog, manifestando ter ficado “tocado” pelas manifestações da população e destacando ser “importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas”.
Ora, esse comportamento denota parcialidade, na medida em que se posiciona politicamente em manifestações contrários ao Governo Federal e, ao mesmo tempo, capta e divulga ilegalmente conversas telefônicas de autoridades estranhas à sua competência jurisdicional. O Poder Judiciário, ao qual é própria a função de pacificar as relações sociais, converteu-­se em catalizador de conflitos.
Não é atributo do Poder Judiciário avaliar o relevo social e político de conversas captadas em interceptação e submetê-­las ao escrutínio popular. Ao fazê-­lo, o Judiciário abdica da imparcialidade, despe-­se da toga e veste-­se de militante político.
Com efeito, o resultado da divulgação dos diálogos ­ possibilitada sobretudo pela retirada do segredo de Justiça dos autos, ­ foi a submissão dos interlocutores a um escrutínio político e a uma indevida exposição da intimidade e privacidade. Mais ainda, quando em curso processo de impedimento da Presidenta da República, gerando efeitos políticos junto ao Legislativo que apreciava o seu afastamento.
Penso que não é esse o papel do Poder Judiciário, que deve, ao contrário, resguardar a intimidade e a dignidade das pessoas, velando pela imprescindível serenidade. 
(Os grifos são de autoria de Fernando Brito, no blog Tijolaço, de onde recolhi os trechos acima - AQUI).