quarta-feira, 25 de abril de 2018

PALANQUE DE BAIXO CALÃO


Nani.

UM POUCO DE HISTÓRIA: O PERIGO DAS CRUZADAS SALVACIONISTAS


O Mahadi e a tragédia histórica das cruzadas salvacionistas

Por André Araújo

Mohamad Ahmad foi um líder político e religioso do Sudão no Século XIX. Um pregador de notável capacidade oratória, se apresentava como o “salvador” do povo sudanês, naquela época um domínio britânico controlado pelo “Sirdar”, o comandante do exército anglo-egípcio com base no Cairo e capital política em Khartoum, cidade às margens do Nilo e que era a capital do vasto território conhecido como “Kordofhan”, correspondente ao centro do Sudão.

O “Mahdi” foi magistralmente representado no cinema pelo maior ator inglês do Século XX, Sir Lawrence Olivier, no filme “Khartoum”, que é a epopeia sobre a trajetória do “Mahadi” no tempo histórico real, um personagem que representa com precisão o movimento das cruzadas “salvacionistas” com soluções simples e erradas para países em crise. De matiz religioso, o movimento mahadista era também político e se apossou do Estado sudanês.

Mohamad Ahmad tomou o poder em Khartoum, cidadela do Exército britânico e centro do poder no Kordofhan, em 1884, matando o General Charles Gordon, Governador Geral do Sudão, expulsou os ingleses do vasto território, o “mahadismo” governando o País por 8 anos deixando no seu no seu rastro a fome, o desgoverno, o desmonte de todas as estruturas institucionais, a expulsão de suas elites políticas, fazendo o País retornar ao tempo das cavernas. A solução “salvacionista” vinda para expulsar toda a corrupção resultou numa implosão de todo o sistema organizado de Governo, com repercussão histórica que fez o Sudão retroagir séculos e cujos efeitos devastadores repercutem até hoje na configuração de um território convulsionado e desorganizado, recentemente repartido em dois Países.
O território dominado pelo “mahadismo” foi recuperado por uma grande expedição militar chefiada pelo célebre General Herbert Kitchener, depois Ministro da Defesa britânico  na Primeira Guerra Mundial e dessa expedição participou como oficial de cavalaria o jovem Winston Churchill, que descreveu a batalha de reconquista do Sudão, a Batalha de Omdurman, em seu primeiro livro de memórias, “MINHA MOCIDADE”, traduzido para o português por Carlos Lacerda, republicado dezenas de vezes no Brasil, com reedição recente.
Uma expedição anterior (1882) de soldados egípcios, com 7.700 homens e comando de oficiais britânicos, foi facilmente vencida pelo “mahadistas”, tendo a expedição perdido na derrota milhares de rifles, que armaram agora os rebeldes, antes apenas com lanças.
A expedição Kitchener (1892) foi muito maior, 26.000 soldados, sendo 8.600 ingleses, cavalaria acompanhada por artilharia e barcos artilhados seguindo em flotilha pelo Nilo, venceu em horas os “mahadistas” com a morte de 11.500 de seus fiéis, recuperando o controle do Kordofhan e enterrado o movimento “mahadista” que se espalhara pelo Sudão.
A CRUZADA SALVACIONISTA
Onde se aplica a lição do Mahadi no Brasil de hoje? O Mahadi tinha como bandeira combater a corrupção e o pecado, iria “salvar” o Sudão de suas mazelas porque ele era o único “puro”, isento do pecado, um “ficha limpa”. Essa era sua mensagem, que cativou os sudaneses, conquistou adeptos fanáticos e fiéis à sua pregação, assumiu o poder, matou dezenas de milhares de “impuros”, entre os quais incluía toda a estrutura governamental, acabou com a agricultura porque os fazendeiros eram para ele também “impuros”, deixou um legado de miséria, morte e destruição do qual o Sudão não se recuperou até hoje, o preço da salvação foi como sempre muito alto, o “salvador” cobra caro pelos seus serviços.
O “salvador” promete milagres e tem uma excepcional capacidade de convencimento. É um perigo para qualquer Democracia, porque é bom para ganhar a eleição, mas não tem a mínima capacidade de governar, não tem educação, preparo, experiência, conexões, equipe, e não tem como entregar o que promete. Para se manter no poder que conquistou com sua capacidade de convencimento precisa encontrar adversários fáceis, que ele combate, unificando o povo e identificando um inimigo de simples caracterização contra o qual centra sua campanha, um inimigo que eleva no imaginário como “o mal” a vencer.
A existência de “inimigos do povo” para um combate contínuo é essencial para o “salvador” usar sua retórica e se manter no comando do País que conquistou com promessas falsas. O “processo salvacionista” é um acidente histórico fatal e provoca como resultado a destruição de um País no caminho da luta do “salvador” para se manter no Poder.
O  ‘HOMEM PURO” NO COMBATE À CORRUPÇÃO
O combate à corrupção, aí entendida a corrupção de todos os tipos dentro do Estado e fora dele, é central no caminho do “salvador”. Ele se apresenta como um “puro” e a partir desse pedestal pode combater os impuros. No geral, mesmo essa pretensão é falsa, porque o “salvador” uma vez no poder deixa de ser “puro” e passa a exercer a corrupção de forma mais violenta do que aquela que pretendeu combater, o que ocorreu no Sudão, onde os fazendeiros foram extorquidos com “contribuições” para manter o movimento salvacionista, uma corrupção maior e mais violenta que aquela que ele partiu para combater.
UM POUCO DE HISTÓRIA
Mahamad Ahmad nasceu em 1844 e morreu por doença 1885, bem antes da redenção do Sudão pelas tropas de Kitchener. Após a morte do “Mhadi” o movimento caiu em mão de seus sucessores, ainda piores que o líder, como pode acontecer na história dos salvacionismos.
A Batalha de Omdurman (1892) que derrotou o “mahadismo” foi a última do Século XIX combatida com lanceiros a cavalo, entre os quais estava o jovem oficial Winston Churchill, o guerreiro que em uma só vida passou da lança para a Era Nuclear, do combate a cavalo para o avião a jato, do Mahadi como inimigo para a luta contra Adolf Hitler.
AS CRUZADAS SALVACIONISTAS COMO INSTRUMENTOS DA POLÍTICA
Através da História o combate à corrupção se transforma por si só em uma arma para alcançar o Poder.  O lutador contra a corrupção capitaliza seu combate e se lança como pretendente ao poder em nome desse combate. Essa foi a base conceitual do Papado contra o Império por toda a Idade Média, o Papado representando a Virtude, a Pureza contra a corrupção do poder político terreno. Uma exacerbação desse conflito foi a Santa Inquisição, forma violenta de combate que em certo momento se assumiu como poder político desafiando o próprio Estado. A Inquisição Ibérica representava a pureza em combate mortal contra os impuros e os hereges e pelo caminho confiscava bens de suas vítimas e se fortalecia.  Em Portugal coube ao Estado representado pelo Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) enquadrar a Inquisição e cassar seu poder político para defender o poder do Estado.
No Brasil, um político que chegou à Presidência da República fez toda sua carreira no combate à corrupção, Jânio Quadros, percorreu toda a trajetória do ciclo, chegou à Presidência sem ter as condições políticas para tal cargo, caindo no abismo de suas próprias fraquezas.
Como todo salvacionista, a pureza era apenas de aparência: Jânio nunca foi tão santo como seus eleitores pensavam, legando vasta fortuna para seus descendentes.
A cruzada janista tinha como alvo final o grande sistema de poder da Era Vargas, representado em São Paulo por Adhemar de Barros, interventor, governador e prefeito nos anos varguistas.
Já o Presidente da República por um longo período histórico, identificado pelos conservadores como líder de um sistema corrupto, Getúlio Vargas, não deixou herança aos descendentes após décadas de poder. Sua corrupção era uma fantasia criada pelos udenistas de então. Vargas foi acossado como corrupto, assim como Juscelino Kubtschek, os udenistas antecessores dos moralistas que hoje pontificam no Brasil praticando o mesmo processo de purificação punitiva que então a UDN de Carlos Lacerda propunha realizar. Raramente o moralista NA POLÍTICA é sério, ele apenas ataca a corrupção do outro para elevar seu capital político e ocupar a cadeira daquele que aponta como corrupto. Por ironias da História o “moralista de ataque” é geralmente mais corrupto que seu adversário que ele aponta como corrupto, todo um grande jogo de cena para a troca do grupo no Poder.
Na essência, os movimentos anti-sistema se justificam pelo combate à corrupção e na sua trajetória não poucas vezes se transformam em outro sistema igualmente ou mais corrupto que aqueles que visavam combater. O combate à corrupção como gazua para entrar no palácio é um enredo repetido incontáveis vezes pela História conhecida da humanidade.
O registro histórico mostra que o caminho mais racional é a evolução lenta e gradual no aperto dos sistemas de controle, sem destruir suas bases, e não a cruzada salvacionista que, a pretexto de combater o mal, implode a engrenagem de governo que por si só é também um capital valioso de cada Estado e da estrutura econômica da cada País. Ao combater a corrupção como cruzada salvacionista é possível a destruição de capital, de empresas, de setores inteiros, o que ao fim tem um valor muitas vezes superior à própria corrupção alegada.
O DESASTRE ANUNCIADO DO SALVACIONISMO
O salvacionismo tem como alvo o Poder. Uma vez lá chegado não sabe governar e cai no abismo, fazendo o País retroceder décadas. O episódio do Mahadi no Sudão é apenas uma moldura que se repetirá provavelmente em um vasto território conhecido como Brasil.  -  (Aqui).

terça-feira, 24 de abril de 2018

O CARTUM


Oguz Gurel. (Turquia).

SOBRE A FOLHA DE SÃO PAULO


"(A Folha de São Paulo é a maior decepção jornalística). Por quê? Dos demais nunca tive dúvidas. Durante mais de 40 anos, assinante, fui enganado pelo Dr. Otávio, o “c” de cu ele não merece, como o de seu filho mais velho, de lábios finos e espertos como Sérgio Moro. Dos demais herdeiros, pouco sei para anotar, mas participantes do grupo flores que bem cheiram não podem ser.
Qual o motivo (para), diante de tantas publicações jornalisticamente abjetas, eu dar destaque à Folha de São Paulo?
O que esperaríamos de O Globo, Estadão, e sucursais regionais concessionadas? E Veja, Isto É, Época – a última agora encartada no Valor, sucursal paulista de O Globo? O mesmo das TVs da família Saad ou de Edir Macedo e Sílvio Santos. O resto quer contar, mas sabe que não.
Resta-nos CartaCapital (mas, por quanto tempo?) e os blogs progressistas, sem expressão à altura ainda das impressas e televisivas, divididas entre mortadelas e coxas. Cada um de nós se informa e lá segue convicções próprias, entre nós mesmos. No fim, mais e mesmo se anulam e o desenvolvimento futuro fica "a Deus dará" (Chico Buarque, em percepção antecipada e honestidade atual).
Explico: até 3 anos atrás e durante mais de 40 anos fui assinante do jornal da Barão Limeira. Ajudava-me a crença de que combatia o governo militar, depois desmentida por Otavinho "Ditabranda" Frias. Lá escrevia Luís Nassif que, mais tarde, acreditou seria primeira a sair do jornalismo de esgoto. Até hoje, espero.
Hoje em dia, sua jogada de neutralidade e equilíbrio, através de seus colunistas, é a maior farsa do jornalismo brasileiro. Quem lê e escreve, sabe como donos jornais e seus lacaios editores são capazes de desequilibrar opiniões em favor de sua linha editorial contra o que escrevem colunistas discordantes.
Qualquer notícia que induz à inocência e à perseguição a Lula vem seguida de um adversativo que anula a notícia original. O que é isso, se não partidarismo contra um presidente, que seu instituto de pesquisa cansou de mostrar índices recordes de aprovação e de fazer sucessores em duas eleições presidenciais, contra o acordo secular de elites?. Não são mesmo os mais calhordas entre as folhas e telas cotidianas do mal?
Saberiam Jânio de Freitas, Vladimir Safatle, Laura Carvalho, Gregório Duvivier, o quanto se prestam a isso? Não percebo neles ninguém pobre o suficiente a coonestar essa vagabundice jornalística.
Não assino ou leio mais o jornal. Apenas tenho acesso, via internet, às suas manchetes e chamadas. É o que basta para sacar a ignomínia de seus mandantes canalhas.
Noto isso diariamente. Com um braço e, agora, um zóio. Paro aqui esta semana. Até que um médico confirme o “olho gordo” que me assiste.
Inté!"


(De Rui Daher, jornalista, post intitulado "Folha de São Paulo, a maior decepção jornalística", publicado no Jornal GGN - AQUI).

REVISITANDO O DESCOBRIMENTO

Mayrink.
....
Revisitando o cáustico Ivan Lessa:
"Revisitar o descobrimento pode, né? Agora, visitar o preso político Lula, nem pensar."

CINEGNOSE: EXTREMISMO E GUERRA HÍBRIDA


Niall Ferguson: baixa educação e ressentimento alimentam extremismo e guerra híbrida

Por Wilson Ferreira

Historiador escocês, professor de Harvard e nome que esteve na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista “Time”, Niall Ferguson afirmou: parcelas menos educadas da população tendem a aderir a discursos extremistas de direita como solução para crise. Em passagem em evento promovido pelo banco Itaú em São Paulo, Ferguson demonstrou como a baixa qualidade educacional cria a percepção de que “o mundo não funciona” e a fácil aceitação de que pessoas sozinhas com soluções extremistas resolveriam problemas como criminalidade e imigração. Apesar de ser um intelectual muito solicitado como palestrante em eventos corporativos, a fala de Ferguson revelou como a baixa qualidade educacional cria o ressentimento: a matéria-prima psíquica da qual se aproveitou a guerra híbrida brasileira. Mas agora, discursos extremistas de direita brasileiros estão prontos para oferecer novos bodes expiatórios para direcionar o ressentimento de jovens universitários que sentem que o “mundo não funciona”: a distância entre o diploma conquistado com esforço e a realidade profissional precarizada. Pauta sugerida pelo nosso leitor Paulo Manetta.  
  
Niall Ferguson não é apenas um historiador escocês, professor na Universidade de Harvard e palestrante bastante requisitado na Europa e Estados Unidos. E que passou esse mês aqui pelo Brasil no evento Macro Vision, promovido pelo banco Itaú em São Paulo. Ele também é um “think tank” (instituição ou personalidade especializada em influenciar a opinião pública e decisões políticas), que já esteve na lista das 100 pessoas mais influentes da revista americana Time.

Ferguson costuma vender o diagnóstico de que o mundo ocidental está em decadência: a democracia, o capitalismo, o respeito às leis e a sociedade civil estão em crise e as políticas dos governos dos EUA e Europa só pioram a situação.

Como não poderia deixar de ser, por onde passa diz que a solução é aquilo que as atentas audiências formadas por CEOs e banqueiros já pensam: limitar o governo e desregulamentar o mercado. Em outras palavras, Niall Ferguson é aquele que atira primeiro a pedra na vidraça para depois tocar a campainha da casa para vender seguro – a estratégia da “vidraça quebrada”.

Mas às vezes devemos ficar atentos às falas desses intelectuais insiders que acenam soluções neoliberais para a banca. Muitas vezes apresentam dados cuja interpretação é “invertida”: apontam para tendências e fenômenos sociais muitas vezes verdadeiras, porém não como denúncia de uma realidade que precisa ser mudada. Mas como prospecção de matéria-prima para futuras ações de guerra híbrida.

Niall Ferguson

Baixa educação e populismo de direita


Em declaração ao jornal Valor Econômico, Ferguson apontou que as experiências recentes do Brexit e das eleições americanas de 2016 sugerem que a parcela menos educada da população tende ao populismo de direita como solução para as crises – clique aqui.

“O que vimos é que pessoas de mais baixa educação têm maior probabilidade de votar no populismo de direita. Isso se mostrou verdadeiro em eleições europeias recentes”. Para Ferguson, “pessoas com maior educação tendem ao centro, seja de esquerda ou direita, porque o mundo funciona para essa parcela da população, que por isso é favorável à manutenção do status quo”.

E completou: “As pessoas que não se beneficiam do status quo são atraídas por quem diz que pode mudar o sistema, que pode sozinha resolver o problema, seja de imigração ou criminalidade”.

Segundo Ferguson, sempre após as crises o populismo de direita tende a ter bom desempenho. E alerta os brasileiros: “imagino que o pesadelo de vocês seja, com a ausência de Lula, uma disputa entre Bolsonaro e o substituto de Lula”.


“O mundo não funciona”


Fica claro que o conceito de “baixa educação” não se refere a uma insuficiência de nível escolaridade formal, mas à precarização da qualidade. Por exemplo, conseguir um diploma de ensino superior em faculdades privadas de baixo nível ou em cursos EAD acessíveis ao nível de renda. Como o pesquisador escocês aborda no livro “The Great Degeneration: How Institutions Decay and Economies Die” – veja “US education and economy are on the skids, says britsh historian” In:Mercatornetclique aqui.

Isso talvez explique o porquê de Bolsonaro ter melhor resultado entre os mais escolarizados (aqueles que completaram o ensino superior) segundo pesquisa Datafolha (clique aqui e aqui). Além da pesquisa apontar que 60% dos eleitores do parlamentar de direita serem jovens – entre 16 e 34 anos.

Nem tampouco essa “baixa educação” tem a ver exclusivamente com a desinformação que levaria jovens a serem seduzidos pelo canto da sereia dos discursos extremistas – respostas simples baseadas em soluções finais do tipo “subir a Rocinha dando tiros” como defendeu certa vez Jair Bolsonaro.

A chave de compreensão do diagnóstico de Niall Ferguson está na percepção dessas pessoas de que, para elas, “o mundo não funciona”, apesar da escolaridade superior conquistada a muito custo e motivada pela crença da justiça do sistema meritocrático.

A percepção de que “o mundo não funciona” deixa de ser uma questão eminentemente sociológica para entrarmos no campo explosivo psicossocial – campo embrionário do fascismo que sempre esteve vinculado com o ressentimento do indivíduo contra uma sociedade injusta que parece sempre burlar as regras do jogo.

Os anos de governos lulopetistas das políticas de inclusão de estudantes no ensino superior (crescimento de 65%, e destes 75% em instituições privadas, setor que se tornou um parceiro do governo federal) criaram expectativas para a chamada “Classe C” de que estava entrando no jogo da meritocracia em condições de igualdade. Como reza a boa ideologia do mérito e do empreendedorismo.

Mas essa inclusão quantitativa não foi acompanhada pela qualificação das escolas de ensino superior. O que significa que a conquista do diploma universitário não significou necessariamente a conquista de empregos qualificados ou uma carreira bem remunerada com perspectivas de crescimento profissional.


Ressentimento e precarização


Pesquisadores como Giovanni Alves observaram que o modelo neodesenvolvimentista conduzido pelos governos do PT basearam a inclusão social através do mercado de consumo e da precarização do trabalho. Uma nova geração de trabalhadores cujas noções de cidadania e trabalho passaram muito mais pelas ambições por consumo do que pelos valores de classe social, direitos de trabalho e sindicalização – leia ALVEZ, Giovanni, “Neodesenvolvimentismo e precarização do trabalho no Brasil” – clique aqui.

E os diplomas conquistados em faculdades com educação também precarizada fecharam essa conta, que mais ampliou expectativas do que as satisfez. Jovens diplomados foram jogados em um mercado de trabalho que confundiu ícones de softwares, sistemas operacionais e aplicativos como um verdadeiro saber profissional. Quando na verdade não passavam de trabalho simplificado, rotinizado e fragmentado, pronto para ser controlado e monitorado por gestores.

E nesse gap entre o diploma e a realidade precarizada (carreira frustrante de baixa remuneração) está o mal estar psíquico do ressentimento – a humilhação e revolta de que “o mundo não funciona”, a percepção genérica de que “tudo o que está aí” está errado.

Pronto! Temos a atmosfera psíquica perfeita que busca bodes expiatórios. Apenas aguardando uma tradução em uma bomba semiótica, em um slogan, em uma guerra híbrida.

Em postagens anteriores este Cinegnose vem apontando que a combinação explosiva de meritocracia com ressentimento motiva a atual guerra simbólica empreendida pelo complexo jurídico-policial-midiático cujo ápice foi a prisão de Lula e a sua tradução cinematográfica: o rebento de José Padilha, a série Netflix O Mecanismo – veja links abaixo.


Para o ressentido, o bode expiatório da corrupção é mais atraente do que as críticas dos  juros altos, das políticas econômicas antinacionalistas, do neoliberalismo ou do sucateamento proposital do patrimônio público para as privatizações serem aceitas como fato consumado – de novo, a “estratégia da vidraça quebrada”.

A vantagem é que a corrupção pode ser midiaticamente personalizada em políticos com rostos, partidos etc. – serem demonizados, caçados, presos em espetáculos de meganhagem policial ao vivo na TV, com armas e carros negros reluzentes. Alívio psíquico regressivo (sádico-masoquista) para o ressentimento.

Crítica ao juros alto ou perda da soberania nacional são abstratas demais para um ressentido.

Com a prisão de Lula (vendida a um preço simbólico muito baixo, sob a égide da “rendição”) como o epílogo ideológico da Lava Jato, restam os discursos extremistas de direita, como o de Jair Bolsonaro, herdarem o ressentimento de uma massa de jovens universitários. Frustrados porque o “mundo não funciona”.

De tudo isso, ficam duas questões que sempre atormentaram pesquisadores como esse humilde blogueiro: por que historicamente a frustração social sempre foi melhor traduzida politicamente como ressentimento pelos discursos extremistas de direita? Por que até aqui o ressentimento nunca foi revertido em frustração que motivasse uma crítica ao verdadeiro mecanismo, o sistema reprodutor da desigualdade?

O fato é que diagnósticos como os de Niall Ferguson não são usados para a transformação social. Mas para a prospecção de novas oportunidades no atual quadro de guerra híbrida em escala planetária.  -  (Fonte: Cinegnose - AQUI).


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Oguz Gurel.
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DEIXA O TEMPO PASSAR
LULA LIVRE
NEM PENSAR

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A TRÉGUA


Oguz Gurel. (Turquia).

POEMA LIVRE 2018


Ao que se vê, lê, ouve e infere, 
o plano faz água aos borbotões. 
O simulacro, qual sorvete, se dissolve ao sol. 
As fajutices vêm à tona
e lançam fogo às próprias vestes. 
Como dizia Drummond:
Das casas
As janelas observam. 

DE COMO PHILIP MARLOWE VOLTOU À AÇÃO (CAPÍTULO 19)

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Para ler os capítulos anteriores, clique AQUI.
Sebastião Nunes, autor da série, é natural de Bocaiuva, MG, escritor, editor, artista gráfico e poeta. É também titular de um blog no Portal Luis Nassif OnLine.


O país dos canalhas - Capítulo 19 - As veias abertas da América Latina

Por Sebastião Nunes

– ¡Dispare! ¡No tenga miedo! – disse Che ao suboficial Mario Terán quando o militar, completamente bêbado, apontou a metralhadora. Terán teve medo. Saiu assustado, mas foi obrigado a voltar pelo major Miguel Ayoroa e pelo coronel Andrés Selnich, ambos do exército boliviano. Então disparou uma rajada e Che caiu.
Che não morreu na hora. O executante tinha instruções para não atirar no peito nem na cabeça, evitando feridas “fulminantes”: queriam que sofresse, queriam que sangrasse. Fora ferido nas pernas no último combate. Matou-o afinal um bom sargento também bêbado, que atirou na sua cabeça horas depois, de saco cheio daquela bosta.
Acompanhei tudo em meu delírio no quarto do Hospital de Base, em Brasília, as veias povoadas de agulhas e veneno. A maioria dos visitantes, os milhares de mortos pelas ditaduras latino-americanas ao longo de décadas, tinham desfilado diante de nós (Dom Quixote, Sancho Pança, Simón Bolívar e eu) durante três dias e três noites.
Agora restava Che, inteiriçado no chão, seco e de olhos abertos. 50 anos depois.

UM LIVRO QUE SANGRA
“A prosa da esquerda tradicional é chatíssima”, disse Eduardo Galeano em 2014, aos 73 anos, quase exatamente um ano antes de morrer de câncer em sua cidade natal. Galeano aproveitou a ocasião para desancar a própria obra: “A realidade mudou muito e eu mudei muito. A realidade é muito mais complexa exatamente porque a condição humana é diversa”. Galeano morreu em abril de 2015.
Em meu delírio, aprovei a autocrítica do uruguaio. Com meus fantasmas, vendo no chão o cadáver ensanguentado do Che, aplaudi. Galeano estava coberto de razão: realidade e condição humana são muito mais complexas do que a dicotomia esquerda-direita. Mas Galeano tinha 74 anos quando morreu, seu livro devastador é de 1971, mais de quatro décadas passadas até que o renegasse, só que a dura realidade da América Latina insiste em manter a eterna dicotomia entre os que podem e os que não podem. Além disso, espero que minha prosa não seja chata: prosa chata não é privilégio da esquerda, basta ouvir os discursos dos deputados de direita, basta ler os pareceres dos juízes de direita, basta ouvir a lenga-lenga dos abutres de preto, machos e fêmeas, que povoam nosso STF e os juizados menores. A realidade não mudou.

FRAGMENTO DE UM SONHO
Então ouvi, juro que ouvi em meu delírio interminável:
– Existe um planalto na América do Sul, na Bolívia e no Paraguai, numa região tangenciando o Brasil, o Uruguai, o Peru e a Argentina de onde, se instalarmos nele uma força guerrilheira, poderíamos espalhar a revolução por toda a América Latina.
– Quem disse isso? – perguntei a meus estranhos visitantes.
– Eu não disse nada – apressou-se Bolívar.
– Nem eu – apoiou Quixote.
– Em boca fechada não entra mosquito – só podia ser Pança.
Teria sido eu mesmo, delirando?
O velho e encarquilhado cadáver de 50 anos retorceu a boca e murmurou:
– Fui eu.
Ficamos boquiabertos.

O PÊNDULO MAROTO
– A América Latina funciona como um pêndulo – disse Bolívar, como se continuasse a fala do defunto. – Durante algum tempo um punhado de países tende para a esquerda, elegendo presidentes progressistas.
Paguei para ver. Quixote e Sancho também. Che balançou a cabeça seca.
– Se os países exageram, vem lá de cima o Tio Sam com sua bota pesada e dá um basta nos exagerados. Os outros países continuam bancando os espertos.
Concordamos todos.
– Então os países progressistas elegem presidentes de direita e tudo volta a ficar como antes: da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda – infinitamente. Os movimentos à esquerda são sempre incompletos, enquanto os movimentos à direita sempre galopam (epa!) para ditaduras, sanguinárias ou não.
– Cu de pobre não tem dono – só podia ser Pança de novo.
– Se merda fosse dinheiro pobre nascia sem cu – disse Bolívar, que eu nem sabia que fosse chegado a um ditado popular, ainda mais com palavrão.
– Praga de urubu magro não mata cavalo gordo – acrescentou Quixote.
– Quem nasce para cachorro morre latindo – acrescentei eu.
– Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão – disse o descarnado defunto inteiriçado no chão, desafinando o coro dos descontentes.
– Gente besta é a alegria dos outros – intrometeu-se Galeano, defunto recente demais para não se imiscuir, mas tudo bem: entendemos o recado.

UM DISCURSO ANTIQUADO
De repente o cadáver estirado no chão se remexeu todo e começou a falar que nem papagaio:
– O exemplo de nossa revolução e as lições que ela encerra para a América Latina destruíram todas as teorias de mesa de bar: demonstramos que um pequeno grupo de homens, sem medo de morrer quando for necessário, pode superar um exército regular disciplinado e derrotá-lo. Esta é a lição fundamental.
Nesse ponto a fala do defunto se tornou um murmúrio ininteligível.
Não tinha importância. Era um discurso muito velho e fora de moda. Quem é que, hoje em dia, num país tão canalha como o Brasil se importa com essas bobagens? Cadê o grupo de homens sem medo de morrer? Aqui, pelo menos, nunca existiu.
Suspirei fundo. O defunto se calou.
No País dos Canalhas tudo continua como antes. Ou pior.
.(Continua.  -  Fonte: Aqui).