sábado, 18 de novembro de 2017

BREVE PERFIL DOS BRASILEIROS

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Pesquisa publicada pelo jornal Valor Econômico revela que o perfil predominante do povo brasileiro colide com o das conservadoras elites nacionais. Colide também com o perfil que a mídia tradicional tenta 'vender' como representativo das camadas populares. Minorias, impostos, direitos humanos, serviços públicos, tudo, ou quase tudo, foi abordado, e mais uma vez cai o mito da chamada tese do Estado Mínimo, o esperto mote neoliberal consistente em que o Estado deve limitar-se ao mínimo possível, cedendo lugar ao Mercado, cujos 'resultados indiretos' se revelariam bem mais eficazes do que os 'perseguidos' pelo Estado.
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(Teria sido interessante conhecer a avaliação popular acerca de outros itens, a exemplo das PPPs, as Parcerias Público Privadas, iniciativa - prevista na Constituição Federal - valiosa numa realidade de recursos escassos e que pode resultar em excelentes benefícios às comunidades, convindo lembrar que o Piauí vem se destacando no cenário nacional em tal segmento). 


Brasileiros são contra posições conservadoras, diz pesquisa

Do Jornal GGN

Uma pesquisa do Instituto Idea Big Data revela uma baixa adesão dos brasileiros a posições conservadoras. Ao contrário, a maioria da população defende que o Estado deve garantir a igualdade de oportunidades, a proteção aos mais pobres, aposentadoria aos mais velhos e o crescimento econômico do país. Para 62,4%, por exemplo, os direitos humanos devem valer para todos, incluindo bandidos.

Aqueles que são contra a frase representam 33,8% dos 3 mil entrevistados em todo o país, entre os dias 1 e 10 de novembro. O levantamento foi encomendado pelo grupo "Movimento Agora!", que reúne pesquisadores, ativistas, economistas, profissionais liberais, membros de ONGs e outros entre seus participantes. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos. 

Entre os integrantes da organização, que tem cerca de 90 pessoas, estão os empresários Carlos Jereissati Filho e Eduardo Mufarej, Beto Vasconcelos, ex-secretário Nacional de Justiça e ex-chefe de gabinete da ex-presidente Dilma Rousseff, a economista Mônica de Bolle, o ativista indígena Anápuáka Muniz Tupinambá Hã-Hã-Hãe e as pesquisadoras Ilona Szabó e Melina Risso. Luciano Huck também aparece como membro do movimento.

A primeira pergunta da pesquisa foi questionar se preferem impostos mais baixos ou melhores serviços públicos, como saúde e educação. De cada 10 brasileiros, 8 optaram pela segunda opção. 

                               (Clique na imagem para ampliá-la)

"Foi com satisfação que eu vi os resultados dessa pesquisa. Uma boa surpresa perceber que há espaço para discussão de outros temas. Acho esse resultado da preferência por serviços públicos revelador da desconexão entre o que ganha visibilidade na imprensa e no debate público e o que é dito pelos brasileiros", afirmou a pesquisadora ao jornal Valor.

Nessa mesma linha, três entre quatro ouvidos concordaram que "reduzir imposto é importante, mas não urgente". Sendo que apenas 15,5% discordaram, e outros 8,3% não concordaram nem discordaram.

(...) 57,2% da população mostra-se favorável às cotas raciais em universidades públicas, e 39,2% são contra. "Dez anos atrás, só um terço da população defendia cotas desse tipo. Houve uma rápida inversão nesse tema", concluiu Mauricio Moura, ao Valor.

Ainda dentro do que se chama de minoria, direitos para homossexuais também ganharam maior apoio: 65,5% acreditam que pessoas do mesmo sexo têm direito a se casar, e 29,7% são contra. Também 62,4% reconhecem o direito de homossexuais de adotarem crianças, e 34,6% discordam.

Um dos únicos pontos que se assemelham a teses conservadoras (causando espécie, portanto)  foi a concordância de 44,8% das pessoas para com a frase "bandido bom é bandido morto". Os que discordam são uma minoria de 31,4%.  -  (AQUI).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

SALVE A ENERGIA LIMPA


Musa Gumus. (Turquia).

A MORTE DO REITOR DA UFSC: ESQUECIMENTO, NÃO (IV)

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No dia 11, publicamos a matéria número III sobre a trágica morte, em 02.10, do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, da Universidade Federal de Santa Catarina (AQUI). Indo lá, o leitor terá acesso aos tópicos II e I. Cumpre lembrar que as matérias numeradas abrangem dois posts ou mais. Como dissemos, a morte do reitor Cancellier entrou para a história do Brasil, em vista das circunstâncias que a cercaram, razão pela qual não pode cair no esquecimento.
A seguir, texto de Kiko Nogueira, publicado no Diário do Centro do Mundo, no qual se manifesta sobre trabalho publicado pela Veja acerca "do tormento do reitor que, levianamente acusado de integrar um 'esquema criminoso', foi preso, banido do campus e derrotado pelo peso da humilhação".


Dois meses depois da prisão do reitor da UFSC, a Veja tenta lavar as mãos na tragédia

Por Kiko Nogueira

Nesta terça, dia 14, (completaram-se) dois meses da prisão do reitor Luis Carlos Cancellier.
Na edição desta semana, a Veja resolveu dar oito páginas sobre o assunto e uma carta ao leitor intitulada “Os erros e a tragédia”.
A matéria “Crônica de um suicídio” questiona a atuação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal na tragédia que culminou no suicídio de Cancellier.
Uma chamada menciona “os erros de investigação que humilharam o reitor da UFSC.”
A reportagem não traz nada que você não tenha lido no DCM, a não ser a história de um garçom que teria encontrado o reitor e recebido um beijo de adeus.
“Não há no inquérito nenhum indício ou acusação de que o reitor fosse membro do ‘esquema criminoso’, nem mesmo a descrição do que poderia vir a ser esse ‘esquema criminoso'”, lê-se.
A Veja tenta limpar a barra depois de transformar policiais federais e procuradores em super herois chefiados pelo semideus Sergio Moro. Sempre exaltou os poderes plenipotenciários das “autoridades”.
Ao longo dos últimos quatro anos de Lava Jato, deu alentado espaço para o punitivismo e a egolatria dessa gente. Em agosto, por exemplo, Dallagnol aparece afirmando que “a revisão de prisões é algo catastrófico”. 
Fora algumas capas com Moro, todas elas laudatórias. 
Numa entrevista de 2015, a delegada Erika Mialik Marena declarava o seguinte à revista: “Acreditamos que o que foi produzido até aqui no âmbito da investigação policial tem consistência suficiente para levar a bons resultados no futuro”.
“A operação já é uma referência”, garante.
Erika é a coordenadora da operação Ouvidos Moucos, que investigava Cancellier. Em dezembro, aceitou convite para se transferir de Curitiba para a Superintendência de Santa Catarina. O nome Lava Jato é atribuído a ela.
Mandou prender Cancellier. Depois questionou a soltura dele, determinada pela juíza Marjorie Cristina Freiberger. De acordo com Erika, ele tentava “obstaculizar (sic) investigações internas”.
O ex-senador e advogado Nelson Wedekin fez um belíssimo discurso na solenidade fúnebre em tributo a Cancellier.
“Não se passa o país a limpo assim, senhores e senhoras. Digo de novo o que já escrevi: os senhores, as senhoras, estão jogando o bebê fora junto com a água do banho”, falou.
Wedekin acusou “uma imprensa que primeiro atira e só depois pergunta quem vem lá, quando e se pergunta. Uma imprensa que toma como verdadeira, em princípio, a palavra da autoridade, não mediada, não contextualiza”.
Continuou: “De blogueiros, ativistas e pessoas ‘comuns’ que, raivosos, expelem argumentos chulos, pensamentos prontos, clichês preconceituosos, manifestações de atraso, ignorância, e ódio, muito ódio nas redes sociais. Mãos de quem confunde moral com moralismo de baixo custo, que a todos rotula, por método, costume e um certo prazer sádico”.
As mãos da Veja estão sujas do sangue de Cancellier e não há água ou tinta que consigam lavá-las. A crônica é de um assassinato e a Veja é cúmplice.  -  (AQUI).

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Nota: Desconhecemos o inteiro teor da matéria produzida por Veja, visto que não somos assinantes da publicação. 

DO DIRIGISMO


Angel Boligan. (México).

DA SÉRIE LANCES DA RODADA


Laerte.

FAKE NEWS (II)


Schot.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

SOBRE A RELAÇÃO GLOBO, CBF E FIFA, E A JUSTIÇA

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Palpos de aranha. Essa é a expressão que ocorreria aos observadores da cena político-jurídica em face dos últimos acontecimentos. Quem estaria em palpos de aranha? Os 'fiscais da Lei', diriam uns. Outros responderiam: a própria interessada principal. Outros, porém, seriam amplos e gerais: todos estão em palpos de aranha. Os 'fiscais da Lei' teriam sido instados, mediante representação judicial, acerca do 'estado de coisas', queremos dizer, da inação - AQUI -, mas, se se dispuserem a se pronunciar, certamente saberão mostrar que isso não vem ao caso. Com o beneplácito de todos os parceiros. Palpos de aranha, assim, estariam desde logo descartados.
Enquanto isso, leiamos o que (sobre a interessada principal) dizem o sociólogo Jessé Souza em seu livro "A elite do atraso" - aqui - e o analista político-econômico e jornalista Luis Nassif, a seguir:



Xadrez da CBF, FIFA e a Globo faz a diferença na Justiça

Por Luis Nassif

Peça 1 - as relações históricas com o MPF
Antes da Lava Jato e das jornadas de junho de 2013, já havia um acordo tácito entre a imprensa - Globo à frente - e procuradores.
Matérias penais sempre renderam leitura e audiência. A mídia ia atrás dos escândalos investigados, selecionava alguns e lhes dava visibilidade. Sua participação era duplamente vantajosa para o procurador contemplado. Dando visibilidade ao processo, reduzia as resistências dos juízes. E elevava o procurador, ainda que provisoriamente, ao status de celebridade.
Cunhou-se uma expressão no MPF: só vai para frente processo que a mídia bate bumbo.
Nas décadas 1990 e 2.000 a parceria produziu vários episódios de repercussão e algumas injustiças flagrantes, como o episódio do hoje desembargador Ali Mazloum.
No início do Twitter, era notável a quantidade de procuradores que colocava no perfil uma foto com um microfone da Globonews, como sinal de status, confirmando o extraordinário poder de persuasão dos holofotes da mídia.
Com o tempo, essa parceria foi institucionalizada. Os procuradores passaram a receber aulas de midia training - mais focadas em ensinar como poderiam impressionar o repórter e arrancar uma manchete, do que em discorrer sobre a missão do Ministério Público.
Gradativamente, o uso do cachimbo passou a entortar a boca do MPF. Ao se preocupar em atender às demandas da mídia, o treinamento ia amoldando sua forma de atuação àquilo que fosse mais atraente para os jornais. Um número cada vez maior de procuradores passou a buscar o endosso da mídia para seus processos.
Essa aproximação se ampliou com o endosso da Globo a prêmios como o Innovare – por si, uma iniciativa relevante – e “Faz a Diferença” - uma tentativa canhestra, provinciana (e eficiente) de cooptar pessoas através da lisonja.
No "mensalão" a parceria se consolidou.
O MPF descobre que, dando foco na aliança com a mídia, poderia passar do estágio das cooperações pontuais para uma parceria capaz de torná-lo um poder de fato, fugindo das limitações nem sempre legítimas impostas pelo Judiciário e Executivo.
Mundialmente, já estava em andamento a crise das instituições, atropeladas pela nova ordem midiática, com a velha mídia ou através das redes sociais.
A manipulação não veio de jovens procuradores deslumbrados, mas do cerne da organização.
As figuras referenciais do MPF, aliás, nos devem explicações sobre essa primeira incursão no ativismo político, que se baseou em falsificação de provas - o tal desvio da Visanet que nunca houve - para tentar derrubar o governo.
Essa falsificação passou por dois PGRs – Antônio Fernando de Souza e Roberto Gurgel -, um ex-procurador – Joaquim Barbosa – e um grupo de procuradores de ponta atuando nos grupos de trabalho.
Barbosa escandalizou-se com os abusos do impeachment. Mas cabe a ele o duvidoso mérito de ter inaugurado a manipulação dos processos para fins políticos e de autopromoção.
A trajetória do Procurador Geral Antônio Fernando de Souza, aposentando-se e ganhando um megacontrato da Brasil Telecom de Daniel Dantas - a quem ele poupou na denúncia -, sem nenhuma reação da corporação, já era um indício veemente de que alguma coisa estranha ocorria no âmbito do MPF.  Tudo pelo poder passou a ser a bandeira.
O clima de catarse, proporcionado pela aliança com a mídia, contra um alvo fixo - o governo do PT - abriu um leque de possibilidades inéditas para a corporação. Gradativamente trocou a velha senhora, a Constituição, pelo deslumbramento com o novo mundo que se abria, ofertado pelo Mefistófeles do Jardim Botânico.
Quando eclodiram os movimentos de rua de junho de 2013, a parceria foi formalizada. A Globo montou uma campanha contra a PEC 37 - que ninguém sabia direito o que era, mas sabia que era de interesse do MPF. Quando veio a Lava Jato, assumiu as redes da corporação.

Peça 2 - o novo padrão de parceria

Com a Lava Jato consolida-se definitivamente o novo padrão de parceria. E o MPF se torna um instrumento da Globo, conduzido pela cenoura e o chicote. Bastava dar foco nas investigações de seu interesse, e jogar no limbo as investigações que não interessavam, para tornar o MPF um instrumento dócil de seus objetivos políticos.
O caso Rodrigo De Grandis é exemplar. Há indícios veementes de que o atraso na liberação de provas para o MP suíço visou blindar políticos paulistas envolvidos com os escândalos da Alstom.
Cobrado pelos suíços, o Ministério da Justiça solicitou diversas vezes os documentos, o que afasta definitivamente a hipótese de que a não entrega foi fruto de um esquecimento pontual da parte dele. Bastou a mídia tirar foco das investigações para o procurador ser inocentado.
A parceria consolidou-se com um padrão cômodo de acolhimento de denúncias por parte do MPF. Só é aceito como denúncia o que parte dos seus aliados da mídia. Denúncias de outras fontes, ainda que bem fundamentadas, são ignoradas.
Esse mesmo padrão viciado – embora menos óbvio – ocorreu com grupos jornalísticos de outros países. A ponto de os grandes escândalos recentes – do assédio sexual em Hollywood aos escândalos dos grupos de mídia com a FIFA – serem levantados por sites alternativos, como o BuzzFeedd e Intercept, bancado por bilionários do setor de tecnologia visando quebrar os tabus na cobertura da mídia tradicional.
No Brasil, essa estratégia, de só aceitar denúncias vindas da velha mídia, gerou o estilo viciado de investigações, com todo o sistema de investigação subordinado ao que é acordado pela Globo com o MPF e, subsidiariamente, com a Polícia Federal.
A maior prova dessa parceria foi a mudança da linha de cobertura do Jornal Nacional.
Dia após dia, passou a ser dominada pela cobertura policial-jurídica, de difícil compreensão pelo público mais amplo, mas essencial para o controle e direcionamento das ações do MPF.
Sacrificou-se a audiência em favor de um protagonismo político explícito, investindo na parceria com o MPF.

Peça 3 - as interferências diretas

O episódio da delação da JBS foi o corolário dessa atuação. Ocorreu dias depois do Ministério Público espanhol denunciar Ricardo Teixeira por corrupção na venda dos direitos de transmissão da Copa Brasil - da qual a única compradora foi a Globo.
Ou seja, um escândalo brasileiro, com personagens brasileiros, ocorrido em território brasileiro, e desvendado pelo Ministério Público espanhol. Outra parte do escândalo levantada pelo FBI. Uma terceira parte pelo Ministério Público suíço. E nada pelo Ministério Público Federal do Brasil.
Poucos dias antes, vazou a informação de que o Ministério Público espanhol tinha levantado a prova decisiva da corrupção da Globo: a compra dos direitos de transmissão da Copa Brasil, sem o uso de “laranjas”. Três pessoas sabiam disso na Globo: João Roberto Marinho, Ali Kamel e o vice-presidente de Relações Institucionais.

A saída foi o pacto de sangue com o Procurador Geral da República, dando endosso total à delação da JBS, levando a Globo a romper com a organização criminosa que ela levou ao poder.
No mesmo dia da conversa, o material foi encaminhado para o colunista Lauro Jardim. E à noite recebeu cobertura intensa e desorganizada, porque improvisada, do Jornal Nacional.
Quando teve início a campanha para a eleição da lista tríplice, dos candidatos a PGR, a Globo atuou como cabo eleitoral explícito de Rodrigo Janot, sendo cúmplice em várias armações contra Raquel Dodge. Como na reunião do Conselho Superior do Ministério Público, na qual Janot se baseou em interpretações falsas para acusar Dodge de pretender prejudicar a Lava Jato. E a manipulação foi endossada nas publicações da Globo.

Peça 4 - a organização criminosa

Têm-se, portanto, um poder de Estado sendo conduzido por uma organização privada, a Globo. Aí se entra em um terreno pantanoso: como se comporta essa organização na sua atividade corporativa?
É importante a diferença entre as palavras e os atos.
O gráfico abaixo foi produzido pelo relatório alternativo da CPI do Futebol, uma das muitas CPIs que apontavam explicitamente o envolvimento da Globo na corrupção esportiva. E que não deram em nada.

Ele se refere à quinta forma de corrupção na FIFA e na CBF, onde o ponto central, de onde fluíam os recursos para toda a cadeira criminosa, eram os patrocínios adquiridos pelas emissoras de TV.
Têm-se aí todos os ingredientes de uma associação criminosa. Conforme descrito pela CPI:
O núcleo diretivo da CBF está conformado nos seus principais dirigentes (presidente, vice-presidentes e diretores) que, com unidade de desígnios, executam planos criminosos, objetivando o enriquecimento ilícito.
O núcleo empresarial está assentado nas empresas contratualmente ajustadas com a entidade nos acordos comerciais, com combinação de preços para pagamento de vantagens indevidas.
O núcleo financeiro comporta determinadas empresas responsáveis pela transferência dos ativos ilícitos aos dirigentes e funcionários da CBF, além daquelas interpostas nos acordos comerciais celebrados entre a CBF e as contratadas (núcleo empresarial), cabendo as postadas de permeio o repasse de parte das comissões ao núcleo diretivo, como forma de propinas.
O esquema montado pela organização criminosa extremamente sofisticado e de difícil elucidação. Por isso, a atuação do FBI na prisão do ex-presidente JOSÉ MARIA MARIN, na Suíça, por crimes relacionados ao FIFA CASE, mesmo caso em que RICARDO TERRA TEIXEIRA, MARCO POLO DEL NERO e outros brasileiros foram denunciados pelo Departamento de Justiça Americano.

O papel da Globo não foi apenas o de provedora inicial dos recursos distribuídos pelas diversas peças da engrenagem criminosa. Foi fundamental também para a blindagem política de Ricardo Teixeira.
Na CPI da Nike, em 2001, o Senado Federal levantou 13 imputações de crime a Teixeira. Nada resultou no âmbito do Ministério Público Federal. Houve outras CPIs, outras descobertas retumbantes, enterradas sob o silêncio do MPF e da mídia.
Houve apenas um início de investigação, que parou em uma juíza da 1a instância.

Peça 5 – a hora da verdade

Dia desses saiu a notícia, sem muito alarde, de que o ex-procurador Marcelo Miller vibrou quando a Lava Jato chegou em Aécio Neves. Miller não era um petista, longe disso; nem um anti-aecista. Mas estava nítido, para parte relevante da corporação, que a blindagem de Aécio tornava o MPF uma instituição de segunda categoria, porque restrita a um espaço delimitado.
Pelas redes sociais foi visível o alívio de procuradores, tirando de si (na opinião deles) a carga de terem espaço para agir apenas contra o PT.
Agora, se chegou à hora da verdade em relação à Globo.
As evidências de crime são enormes, e não apenas na confissão do lobista Alejandro Burzaco, à corte de Nova York. Há os inquéritos na Espanha, batendo direto na Copa Brasil. Há as investigações na Suíça.
E há uma nova Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, no maior desafio que um PGR enfrentou, provavelmente desde a Constituição: provar que o MPF é um poder de Estado de fato, e que não existem intocáveis na República.
São tão abundantes as informações que jorram do exterior, que não será possível esconder o fato debaixo do tapete, como foi feito em outros tempos com tantos inquéritos.
Do desafio de investigar a Globo se saberá se o MPF se assumirá como poder de Estado, ou se continuará atrelado a uma organização criminosa.  -  (Aqui).

FAKE NEWS


Schot. (Holanda).

O QUE ESTARIA A SEPARAR MARCO AURÉLIO GARCIA DE WILLIAM WAACK


"Em 17 julho 2007, um terrível acidente ocorreu no aeroporto de Congonhas na cidade de São Paulo. Um avião da TAM não conseguiu frear e saiu da pista indo chocar-se contra um prédio da própria TAM do outro lado da avenida que margeia o aeroporto. Duzentas pessoas morreram.

Antes que qualquer investigação fosse feita, o governo Lula foi responsabilizado. Acusavam-no de descaso com a manutenção da pista de pouso e a palavra “groove” saiu do meio musical e passou a frequentar as colunas de política. Todos tornaram-se, de repente, especialistas em construção aeroportuária.
"GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS" – assim, em caixa alta, decretava um colunista da Folha.
Dias depois, uma reportagem do Jornal Nacional trazia a informação que relativizava tudo: o avião estava voando com um defeito nos reversores dos motores. No dia anterior, quase sofrera outro acidente, mas a companhia continuou voando com ele mesmo assim. O inquérito da Aeronáutica não responsabilizaria a empresa, no entanto, e concluiria, anos depois, por falha humana como causa do acidente. O problema não estava na pista.

Marco Aurélio Garcia – o já falecido assessor especial de Lula – assistia à reportagem em uma das dependências do Palácio do Planalto. Com ele, somente seu assessor de imprensa. Fez um gesto com as mãos dirigido aos acusadores do governo - ”foderam-se”. Estava próximo à janela e foi filmado pelo lado de fora.
O mundo veio abaixo. Foi chamado de obsceno. Acusaram-no de ser desrespeitoso com a dor dos parentes dos mortos.
Sobre o acontecido, Marco Aurélio em uma nota oficial alegou o óbvio: fora filmado em uma situação de intimidade e sem seu conhecimento. Jamais faria tal coisa em uma situação pública. E desculpou-se:
"Minha reação, absolutamente pessoal, ... não expressa 'satisfação', 'alívio' ou 'felicidade', como pretenderam setores da mídia.... o sentimento que extravasei, em privado, foi de repúdio àqueles que trataram sordidamente de aproveitar a comoção que o país vive, ... Aos que possam, ainda assim, sentir-se atingidos por minha atitude, apresento minhas desculpas”.
O caso é bastante conhecido. Interessante, no entanto, recordarmos como reagiu, então, a imprensa. Tomarei como exemplo o jornalista Reinaldo Azevedo. Mas poderia ser qualquer outro da chamada “grande imprensa”.
”Os nojentos - asquerosa! Deprimente! Revoltante! Vagabunda! Delinquente! A que outras palavras se pode recorrer para definir os gestos despudorados do velho Marco Aurélio Garcia ...?  Marco Aurélio resolveu dar uma pequena entrevista se explicando, ... Classificou as imagens de “clandestinas” e disse que, em público, não se comportaria daquela maneira. ... Clandestinas? Ele estava no Palácio do Planalto... Ninguém invadiu a sua casa para flagrá-lo na intimidade. ... O que ele esperava? Que o cinegrafista, vendo-o ali, desligasse por pudor a câmera? Talvez sim. Os indecorosos sempre esperam que os decorosos se intimidem. Contam com isso. Hoje o demiurgo [Lula] fala. ... Se não der um pé no traseiro do Batman Gorducho... estará repetindo ele próprio o gesto de seus subordinados”.
No início de novembro de 2017 – uma década passada do acidente da TAM – as redes sociais fervem. William Waack, respeitado jornalista da Rede Globo. é flagrado em um diálogo de cunho racista. As imagens eram de 2016 e haviam dormitado por um ano em algum lugar até que, de repente, vieram a público.
Waack cobria a eleição de Donald Trump e se preparava para entrar no ar com um convidado. As câmeras já estavam ligadas, mas o programa ainda não havia começado e, incomodado com um buzinaço que vinha do lado de fora do local onde estavam, Waack comentou: "Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é." E dirigindo-se ao convidado conclui em voz baixa: "É preto. É coisa de preto".
Sobre o acontecido, desconheço qualquer posicionamento oficial de William Waack, mas a Rede Globo declarou em uma nota, quando do afastamento do jornalista: “... Waack afirma não se lembrar do que disse, já que o áudio não tem clareza, mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação”.
O caso é bastante conhecido. Interessante, no entanto, é como reagiu a imprensa. Tomarei como exemplo o jornalista Reinaldo Azevedo. Mas poderia ser qualquer outro da chamada “grande imprensa”.
“O jornalista mais importante do pais não é racista - um desses cretinos ressentidos escreveu por aí: 'Vamos ver se alguém tem a coragem de defender William Waack'. Eu tenho. E o faço, antes de mais nada, por uma obrigação moral. Não vou me sujeitar a uma ordem de coisas em que eu me veja proibido de dizer a verdade sobre um amigo, quando o vejo ser esmagado pela mentira... pelo oportunismo ... pela deslealdade... pela vigarice...
Parto do princípio de que William falou o que dizem que falou ...
Se disse aquilo, não o fez para que fosse ao ar. ... Tratava-se de uma conversa privada. Ainda que a fala revelasse um juízo pessoal depreciativo... o que importa é o seu trabalho, é o que diz no ar, é a sua contribuição ao debate civilizado.
A acusação de racismo que colhe William o ofende gravemente, ...  Ainda que tivesse cometido um pecado, uma falha, uma transgressão — ele se desculpou sinceramente se assim foi interpretado — o deslize, que não reconheço, não resumiria a sua vida. E explico por que não reconheço: eu me nego a submeter um gracejo expresso num ambiente privado a critérios com que se analisam questões públicas”.
Reinaldo vê William como o ofendido na questão. Interessante. Interessante também, mas não vou tratar aqui, o detalhe de Reinaldo Azevedo ter, no mesmo artigo, dito que Waack é alguém como que “mulatinho”. Tratou-se, por certo, de uma gentileza de um amigo para com outro. Não vem ao caso.
Mas comparando as duas posições tão antagônicas – em relação a Marco Aurélio Garcia e em relação a William Waack – para casos tão próximos, guardadas as devidas proporções, dada a tragédia como terrível pano de fundo, no primeiro caso. foi-me inevitável recorrer ao auxílio luxuoso da poesia:
“em vão lutando contra o metro adverso, só me saiu este pequeno verso: "mudou-se a noção de obscenidade ou mudei eu?".  
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PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesiaum lugar onde o pau que bate em Lula também dá em Luiz Inácio."






(De Sérgio Saraiva, post intitulado "E se William Waack fosse petista?", publicado no Jornal GGN - AQUI.

Sérgio Saraiva é titular do blog Oficina de Concertos Gerais e Poesia, acima referido).

ECOS DA AGUDA CRISE

         (Lembrando cartum exposto em Salão de Humor do Piauí do século passado...)
Jorge Braga.

TRUMP LOOK


Rainer Hachfeld. (Alemanha).

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A INDÚSTRIA DA DELAÇÃO PREMIADA, PARTE 6

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Na sexta matéria da série sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM (Diário do Centro do Mundo), um passeio pela delação de Glaucos da Costa Marques e os deslizes da Lava Jato no tocante à Receita Federal e reais implicados. As outras matérias da série 'A indústria da delação premiada' podem ser vistas aqui.


A Lava Jato propõe a delator trocar o pescoço do filho pelo de Lula

Por Luis Nassif e Cíntia Alves

O poder absoluto conferido à Lava Jato acabou por definir um modo de atuação arbitrário, especialmente quando envolve delação premiada.
No capítulo de hoje vai se mostrar um dos expedientes mais utilizados pela Lava Jato, com ampla parceria dos procuradores com o juiz de instrução que consiste nos seguintes passos:
  1. Ameaças de envolvimento de familiares dos réus nas investigações.
  2. Negociações para a inclusão, nas delações, de declarações que corroborem a narrativa e os interesses políticos da Lava Jato, mesmo sem acompanhamento de provas.
  3. Benefícios, tais como fechar os olhos a contas no exterior e a lavagem de dinheiro já identificada.
Vamos à análise do primeiro caso, a compra do apartamento vizinho ao de Lula.

Lance 0 – Apresentando o jogo e os jogadores

Quando Lula ainda presidente, o governo alugava o apartamento vizinho ao seu, em São Bernardo do Campo. Em parte, para garantir a privacidade do presidente. Em parte, para abrigar o esquema de segurança.
Deixando a presidência, constatou-se que o apartamento estava à venda. Para preservar a privacidade de Lula, Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula, solicitou ao amigo José Carlos Bumlai que encontrasse algum conhecido com interesse em adquirir o apartamento e alugá-lo para Lula.
Bumlai conversou com o primo Glaucos da Costa Marques, um pecuarista que investia em imóveis, que topou a compra por perceber uma boa oportunidade de negócio.
A notícia veio à tona no dia 7 de setembro de 2016 e foi divulgada pela mídia no dia 08/07/2016 (clique aqui). Okamoto explicou que Lula passou a pagar o aluguel a Glaucos.

Lance 1 – A criação da narrativa pela Lava Jato

13/12/2016 – A PF lança sua narrativa

Segundo a narrativa da PF, (clique aqui)
o apartamento teria sido comprado por Glaucos da Costa Marques e alugado ao ex-presidente Lula, em um contrato celebrado no nome da ex-primeira-dama, Marisa Letícia. No entanto, de acordo com a investigação, nunca houve qualquer pagamento por parte do ex-presidente, que utiliza o imóvel, pelo menos, desde 2003.
A polícia diz que a operação foi realizada para ocultar o verdadeiro dono do imóvel. Para o delegado, o ex-presidente Lula é quem é dono do local, que também teria sido adquirido por meio de propina obtida junto à Odebrecht, com a intermediação de Palocci.

27/12/2016 - Lava Jato vaza depoimento para atingir advogado de Lula

Glaucos sustentou que adquiriu o apartamento por ser bom negócio e por estar habituado a investir em imóveis.
Para a Lava Jato, a unidade, na verdade, foi adquirida com valores pagos pela Odebrecht como uma forma velada de beneficiar Lula. Glaucos teria recebido dinheiro da DGA Construtora que, por sua vez, teria sido repassado pela Odebrecht.
A acusação ficava no ar, sem nenhuma comprovação.

26/01/2017 – PF divulga inquérito em prazo recorde

Nesse dia, fica-se sabendo que há 8 meses a Polícia Federal investigava sigilosamente a compra do apartamento vizinho ao de Lula. Quatro dias depois de a denúncia ser aceita pelo juiz Sérgio Moro, a PF divulgou seu inquérito, sem jamais ter informado à defesa (clique aqui) sobre sua existência.

Lance 2 –Lava Jato consegue que Glaucos mude seu depoimento

Em 06/09/2017, a Lava Jato dá um lance ousado, induzindo Glaucos a mudar a versão inicial.
Na nova versão, reiterou que a compra do apartamento foi para garantir a privacidade de Lula. Disse que o imóvel custou R$ 504 mil e que assinou um contrato para locação diretamente com a ex-primeira-dama Marisa Letícia.
A partir daí, entra na narrativa acertada com a Lava Jato.
  • Sustentou que entre 1o de fevereiro de 2011 e novembro de 2015 não recebeu nenhum pagamento.
  • Transação concluída, Roberto Teixeira, advogado de Lula, teria pedido que Marques devolvesse o lucro que obteve com a compra de um imóvel para o Instituto Lula, que ele revendeu para a DAG, lucrando R$ 800 mil. E Glaucos se recusou.
  • Por fim, teria topado devolver R$ 650 mil – descontando R$ 120 mil de impostos mais despesas.
Glaucos sustenta que se recusou a pagar o lucro relacionado à compra de imóvel para o Instituto Lula, porque ele correu o risco. Mas aceitou devolver o que recebeu.
Mesmo no depoimento a Sergio Moro, Glaucos explica que também ficou sabendo do imóvel para o IL porque Bumlai disse que Roberto Teixeira tinha um "bom negócio" em vista, que serviria a uma manobra chamada de "flip" (quando se compra barato para revender barato, tirando uma pequena margem de lucro). 
Glaucos diz que, no final, não precisou desembolsar o montante envolvido na compra (cerca de R$ 6,5 milhões) porque assinou uma autorização (cessão de direitos) para que os primeiros proprietários vendessem o imóvel diretamente à DAG - empresa usada pela Odebrecht na triangulação. 
O primo de Bumlai admite ter lucrado R$ 800 mil nesse “flip” e relata que Teixeira ganhou cerca de R$ 234 mil em honorários. 
Moro até ironizou: "O senhor não acha que recebeu 800 mil reais sem fazer nada? Quero um advogado desses pra mim.”  
O problema para a Lava Jato é que a mudança no depoimento de Glaucos não é trunfo absoluto. A força-tarefa ainda não consegue esclarecer como o primo pode ter usado os R$ 800 mil que recebeu da DAG em dezembro de 2010 para custear a compra do apartamento por R$ 504 mil, realizada quatro meses antes.
Esse dado consta em relatório da Polícia Federal sobre o caso e na “fórmula matemática” que a equipe de Deltan Dallagnol desenhou e tratou de propagandear na grande mídia como se fosse o mapa da propina a Lula. Passou longe de ser, conforme o GGN já expôs. (Clique aqui)
Glaucos, portanto, não conseguiu apresentar provas das duas acusações mais graves:
  • Não conseguiu comprovar o não recebimento dos aluguéis, pois declarou todos os valores à Receita e ainda assinou recibos e trocou e-mails sobre os que são relativos ao ano de 2013, tudo exposto pela defesa de Lula
  • Não conseguiu comprovar a devolução do dinheiro, porque, segundo ele, teria sido feito em dinheiro vivo através de um carro blindado.

10/10/2017 – Glaucos muda depoimento para implicar filho de Lula

A grande incógnita é o que teria levado Glaucos a mudar o depoimento. Novas provas da Lava Jato, desqualificando a versão anterior, ou chantagem?

Lance 3 - Defesa de Lula entrega recibos do aluguel

Em 25/09/2017, a defesa de Lula dá o primeiro xeque na Lava Jato, apresentando cópias dos recibos de aluguel – em lugar dos originais.
Os advogados de Lula sustentam que pesquisaram nos guardados de dona Marisa e encontraram os recibos. Dois deles tinham datas inexistentes: 31 de junho e 31 de dezembro (clique aqui).

Lance 4 – O contra-ataque da Lava Jato

Há uma dupla reação das peças brancas, da Lava Jato:

06/10/2017 MPF garante que recibos são falsos

Procuradores da Lava Jato garantem que os recibos apresentados pela defesa de Lula são falsos “sem margem à dúvida” (clique aqui). E a perícia técnica é “imperativa”. Os advogados de Glauco sustentaram que os aluguéis só passaram a ser pagos "após visita do doutor Roberto Teixeira ao defendente”, quando este estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde Glaucos se submeteria a intervenção cardiovascular.

28/09/2017 – Defesa de Glaucos apresenta como prova visitas em hospital

No documento apresentado pela defesa de Costa Marques a Moro (clique aqui) se admite:
  • A existência de um contrato de locação, razão pela qual os recibos foram exigidos.
  • A declaração dos valores dos alugueres na Receita. Mas tudo seria sido por influência de Roberto Teixeira, advogado de Lula.
E termina com um pedido:
Diante do exposto, requer-se a expedição de ofício ao Hospital Sírio-Libanês, na cidade de São Paulo, para que informe os dados relativos ao registro de JOÃO MESTIERI ADVOGADOS ASSOCIADOS 4 visitas ao hospital, referentes ao período de 22/11/2015, data da internação de GLAUCOS naquele hospital e 29/12/2015, data da alta hospitalar, com ênfase nos visitantes Dr. ROBERTO TEIXEIRA e Sr. JOÃO M. LEITE.
Naquele dia, comentaristas da GloboNews sustentam que “tem que haver mais que recibos”. Lula teria que comprovar sua inocência mostrando o “caminho do dinheiro”, comprovando a pouca familiaridade da imprensa com o Código Penal, que diz claramente que o ônus da prova cabe ao acusador.
Têm-se dois desafios postos, então: a discussão em torno da validade dos recibos; e as provas das visitas de Roberto Teixeira a Glaucos, quando hospitalizado.

02/10/2017 – Moro ordena que hospital entregue registro de visitas a Glauco

A determinação era para o Sírio Libanês informar se o advogado Roberto Teixeira e o contador João Muniz Leite estiveram no hospital (clique aqui)
O hospital não encontrou registro de visita específica de Teixeira a Glaucos. Em depoimento a Moro, o advogado já havia explicado que deu entrada no Sírio porque também enfrentava tratamento médico e o encontro que teve com o primo de Bumlai acontecera rapidamente, sem que o assunto do aluguel viesse à tona.

Lance 5 - Entra no jogo o cavalo da Receita Federal

Segundo dados da Receita, Glaucos da Costa Marques não teria renda para comprar o apartamento. E mostra que sua conta recebeu depósitos de seus próprios filhos.
"Há razoável suspeita de que em alguns anos (especialmente 2010, 2011 e 2013), além da possibilidade de sonegação de receitas, as contas bancárias de Glaucos da Costa Marques podem ter sido utilizadas apenas como interposição para passagem de expressivos valores de terceiros", diz o texto da Receita. Faltou explicar: laranja de quem?
Como apontou o GGN, o fio da meada era outro:
(...) quem se prestou a ler as 32 páginas do relatório descobriu que parte das movimentações financeiras estranhas de Glaucos está relacionada a empréstimos milionários que ele recebeu de seus filhos, ano a ano.
Em 2010, foram R$ 480 mil de Gustavo da Costa Marques e mais R$ 1,189 milhão de Fernando. Em 2011, o pai recebeu mais um total de R$ 3,1 milhões dos dois filhos. Em 2012, mais R$ 3,6 milhões. [O total passa dos R$ 8,3 millhões]
(...) em nenhum momento o relatório diz quem são os agentes implicados nessas movimentações.
(...) A análise da Receita sobre o comprador, o vendedor e a corretora imobiliária que intermediou a venda do apartamento 121, em São Bernardo, mostra que tudo ocorreu sem nenhum tipo de ressalva.

Lance 6 – Sírio desmonta movimento com visitas

Hospital confirma apenas a visita de contador do caso dos recibos de aluguel de Lula (clique aqui). Mas contador explica que recebeu pagamentos de Costa Marques por ter prestado serviços a ele de 2010 a 2015. Sustenta ter recebido periodicamente recibos relativos aos pagamentos de alugueis a partir de 2011. E informa ter colhido assinaturas de apenas alguns recibos. "Em apenas alguns meses, que embora tivéssemos os recibos, os mesmos não estavam assinados."

Lance 6 – Mate: Lula confirma ter recibos originais

O MPF estava questionando as cópias dos recibos. Lula informa, então, ter encontrado os recibos originais (clique aqui) e mais um conjunto de provas robustas

25/10/2017 – Defesa de Lula mostra e-mail que comprova pagamento

Conforme constatou o GGN, já havia vários elementos contradizendo Glaucos (clique aqui):
  • A defesa de Lula encaminhou à imprensa um e-mail em que Glaucos informa ao contador João Muniz Leite os valores do aluguel que recebeu ao longo de 2013, totalizando R$ 46,8 mil.
  • A pedido de Moro, a defesa de Lula apresentou comprovantes de pagamento de aluguel que abrangem os 4 anos de contrato.
  • Na audiência com Moro, Glaucos não disse em nenhum momento que os recibos em posse de Lula, referentes a 2015, foram assinados de uma vez só. No depoimento, ele só se preocupou em desqualificar a declaração do imposto de renda, que já estava em posse dos procuradores.
  • Em resposta a Moro e aos procuradores de Curitiba, o Sírio Libanês confirmou o depoimento de Roberto Teixeira, que negou em juízo ter ido ao hospital em 2015 para visitar Glaucos e tratar do aluguel. 
  • Além do e-mail trocado por Glaucos e o contador, há ainda um relatório feito a partir de dados da Receita Federal que mostram que não há nenhuma irregularidade na história da locação do apartamento em São Bernardo do Campo.
O que esse relatório revela, e foi completamente ignorado pela grande mídia, é o possível motivo para que Glaucos tenha resolvido mudar suas versões e colaborar com os investigadores.
O documento aponta que há movimentações suspeitas em anos em que ele recebeu empréstimos milionários de seus filhos. Em 2010, foram R$ 480 mil de Gustavo da Costa Marques e mais R$ 1,189 milhão de Fernando. Em 2011, o pai recebeu mais um total de R$ 3,1 milhões dos dois filhos. Em 2012, mais R$ 3,6 milhões.  
  • (...) Paulo Roberto Costa é um exemplo de delator que fez acordo e conseguiu imunidade processual para a família. Resta saber quais benefícios Glaucos - que vem mantendo um silêncio ensurdecedor a respeito dos recibos do aluguel - pretende obter nesta ação penal.

Lance 7 – Moro vira o tabuleiro

Quando percebeu que havia levado xeque mate na questão dos recibos, Moro acolheu pedido do Ministério Público e decidiu reabrir a fase de instrução, para interrogar de novo Glaucos da Costa Marques.
Ora, se houvesse dúvidas sobre a veracidade dos recibos, o papel do juiz seria ordenar uma perícia.

01/07/2016 – Depoimento de Gustavo da Costa Marques

E aqui se mostra o jogo de pressões e vantagens que tem sido a marca da Lava Jato.
Há indícios fortes de que Glaucos da Costa Marques era laranja, de fato. Mas de seu filho Gustavo da Costa Marques, Diretor de Relações Institucionais da Camargo Correia.
O cargo, lotado em Brasilia, é para contatos diretos com autoridades.
Gustavo depôs em 1o de julho de 2016 para Sergio Moro:

Conclusão - O jogo pesado da Lava Jato

A provável pressão colocada para Glaucos da Costa Marques foi simples. Se não ajudar a imputar a Lula a movimentação dinheiro em sua conta, a penalidade recairá sobre seu filho, podendo anular o acordo de delação premiada fechado com a Lava Jato.
Afinal, ou ele seria “laranja” de Lula ou seria do filho.
Com esse jogo, além de forçar uma acusação falsa contra Lula, a Lava Jato poderá estar livrando a cara não apenas do dono da conta laranja, mas também de todas as autoridades que foram subornadas com ele, através do laranjal montado pela diretoria de Relações Institucionais da Camargo Corrêa.  -  (Aqui).
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Costumamos dizer, neste blog, que muitos dos comentários produzidos por leitores do Jornal GGN não podem passar despercebidos. Pois eis um deles, de autoria de Eduardo Ramos:
"Nós que somos de uma geração mais antiga damos muito valor a algumas palavras que formaram nosso léxico e nossa semântica. São palavras que nos MOLDARAM, tornaram-se símbolos tanto conscientes como inconscientes em nossa formação. Como todos cometemos erros, uma coisa que nos acostumamos foi sentirmos culpa, ou "vergonha" dos erros mais graves, porque essa era uma das palavras mais usadas por nossos pais, tios, avós..... "Você devia se "ENVERGONHAR" de fazer isso" - nos diziam, ou "Como é que fulano não sente "VERGONHA" por ter feito isso?" - exclamavam, enquanto nos passavam preciosas lições, sobre honra, justiça, verdade, ética.....
Por mais que a modernidade traga a relativização de certos conceitos, por mais que termos como "ética", "moral", "certo", "errado" tornem-se "aguados" e confusos, não podemos fugir de um fato: princípios civilizatórios, o respeito pelo outro, tudo enfim que permite que uma sociedade, um país sobreviva sem o caos, a barbárie, a lei do mais forte, a lei da selva, essas coisas nos remetem a esses "antigos valores", uma coisa esquecida, chamada RETIDÃO!
Uma das heranças PODRES, fétidas, perversas, desconstrutoras do Brasil enquanto nação civilizada, é essa falta de VERGONHA dos agentes públicos do nosso Judiciário e Ministério Público Federal, além da Polícia Federal e Mídia, em todo esse processo, a Lava Jato e todas as ações desses poderes que envolvam Lula, Dilma, e hoje em dia, até "gente comum", como foi o caso do reitor Cancellier em SC.
Mentir, eventualmente todos mentimos.... é um dos paradoxos da vida. Tudo desabaria se no meio de nossas verdades, não houvessem as mentiras que nos poupam e aos outros, de constrangimentos, mágoas, sofrimentos. Isso é TOTALMENTE DIFERENTE da construção de uma narrativa FALSA, TODA ELA BASEADA EM MENTIRAS, forçando goela abaixo de uma sociedade enferma, doente de preconceitos, fanatismo e ódios, a distorção consciente da verdade, como se verdade fosse. E esse é o método comum da Lava Jato, que se espraia como uma praga hedionda.
Não somos "preparados" para isso. A verdade - enquanto sinônimo de representatividade do que é, de fato, REAL.... - é, literalmente, o CHÃO PSÍQUICO que estamos preparados para caminhar, nossa mente se FRAGMENTA se esse chão é substituído sistematicamente, pela ficção, pela farsa, pela pantomima, pelo caricato.....
É a quebra de paradigmas elementares, tanto de cada indivíduo, quanto da coletividade que formamos, a soma de todos, ou a soma de cada um de nós. O ambiente criado pelo "mundo-matrix" gera uma espécie de "esquizofrenia social", onde a representação farsesca da realidade, passa a se impor como realidade. A mente humana não resiste a tal violência...."   
(Para continuar, clique AQUI).