domingo, 19 de maio de 2013
A POESIA DO SAMURAI
"Toda Poesia" reúne mais de 600 poemas do curitibano Paulo Leminski (1944-1989), de diferentes fases e estilos, e procura decifrar o complexo universo do autor, que transitou com desenvoltura pelos territórios distintos, e eventualmente opostos, do erudito e do popular, e que foi descrito "por Caetano Veloso como 'concretista beatnik', por Haroldo de Campos como 'polilíngue paroquiano cósmico' ou simplesmente como 'samurai malandro', por Leyla Perrone-Moisés." (ver final do post).
A poeta Alice Ruiz, viúva do poeta e escritor, e as filhas Estrela e Áurea, há anos trabalham na organização e difusão da extensa produção de Leminski nas mais diferentes áreas. Parte desse trabalho resultou na exposição "Múltiplo Leminski", mostra, que fica em cartaz até junho em Curitiba e depois segue para Goiânia, Recife e Foz do Iguaçu, além da obra poética, destaca os trabalhos do artista na música, no cinema, grafite e quadrinhos.
Ainda não li o catatau, mas o farei. Quero (re)ver, por exemplo, insights do samurai em elaborados picles e haicais, ofício em que (também) foi mestre.
Abordagem interessante sobre Leminski pode ser lida ao clicar-se aqui.
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Literatura. Poesia. Paulo Leminski.
sábado, 18 de maio de 2013
LEMBRANÇAS DA MPB
O índio do Corcovado
Por Ana Luiza Martins
"Em 1931, meu pai, Luís Martins, era assistente de redação da revista Para Todos, dirigida por Álvaro Moreyra. Um belo dia, apareceu na redação o pintor português Correia Dias (primeiro marido de Cecília Meireles e pai da atriz Maria Fernanda) dizendo ter feito uma descoberta sensacional no Corcovado. Havia o perfil de um índio, dez vezes maior do que o Cristo, esculpido numa das escarpas da montanha. Correia Dias achava que era obra de uma misteriosa civilização pré-colombiana. De fato, se você olhar da Lagoa, altura de Ipanema, para o topo da montanha e fizer um certo esforço (talvez um grande esforço) é possível que veja o perfil de um índio na encosta, do lado direito. Tem um cocar de penas na cabeça e os braços cruzados sobre a barriga proeminente. Lembra vagamente um chefe indígena Sioux, aqueles do desenho do Pica-pau. Mas tudo bem. Se até os fenícios subiram a Pedra da Gávea, por que os Sioux não poderiam ter vindo dar uma voltinha no Corcovado?
Correia Dias estava disposto a se embrenhar na mata e subir a montanha para fotografar o índio. Seria acompanhado por um rapazinho imberbe de 18 anos chamado Carlos Lacerda (sim, o futuro governador da Guanabara), que ficaria encarregado do texto. Resultaria da expedição uma reportagem que o pintor ofereceria de graça ao Para Todos. Álvaro Moreyra achou graça na história. Para alavancar as vendas da revista, sempre mal das pernas, teve o que hoje se chamaria uma brilhante ideia de marketing. Pediu ao seu assistente de redação que encomendasse ao Joubert de Carvalho, compositor de grande prestígio na época, uma música sobre o tal índio e produzisse um disco.
O prazo era curtíssimo. Joubert topou, sob a condição de que meu pai escrevesse a letra. Feita às pressas, O índio do Corcovado saiu como deu. Gastão Formenti, cantor predileto da dupla e de muita gente, foi convidado a gravá-la. Tudo resolvido, faltava apenas uma coisa: uma música para pôr no outro lado do 78 rpm. Joubert não tinha nenhuma, mas disse que tentaria alguma coisa. Foi para casa e compôs uma canção, praticamente da noite para o dia. Lançado o disco, história e música do índio foram recebidas sem muito entusiasmo. Mas Maringá, a do lado B, estourou nas rádios. Fez tanto sucesso que seria mais tarde homenageada até com nome de cidade no Paraná (e não o contrário, como muitos imaginam).
Joubert de Carvalho e Luís Martins fizeram depois outras parcerias. Mas O índio do corcovado é a única música escrita por meu pai que já ouvi. Quando eu era criança, sempre que passávamos pela Lagoa, ele contava essa história, ria, apontava para a montanha e desenhava o índio no ar com o dedo. Eu não tinha a menor dificuldade em visualizá-lo. Faz alguns anos, porém, que sempre que estou no Rio e passo na Lagoa, fixo os olhos na escarpa do Corcovado até quase envesgar, mas não há meio de conseguir ver a silhueta do imponente chefe Sioux. Fico pensando se foi a montanha que mudou ou se fui eu que perdi o índio, não sei como". (Fonte: Blog do IMS Instituto Moreira Salles - e blog Luis Nassif, aqui).
ÁULICOS DA REPRESSÃO
Benett.
Os cães da guerra
Por Luis Fernando Veríssimo
Os cães da guerra
Por Luis Fernando Veríssimo
A Convenção de Genebra pode ser vista como um monumento à hipocrisia. Ela propõe regras para a barbárie e infere que o que Shakespeare chamou de “os cães da guerra”, uma vez soltos, podem ser controlados. E que guerras podem ser cavalheirescas, desde que regulamentadas.
Um conceito que por pouco não morreu na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo as convenções de Genebra, desde a primeira, no século dezenove, tentam preservar o que, numa guerra, nos distingue de cachorros raivosos. No caso a hipocrisia é necessária. É outro nome para civilização.
Uma das regras explícitas na atual Convenção de Genebra diz respeito ao tratamento de prisioneiros. O argumento principal de quem defende a repressão e seus excessos durante a ditadura militar no Brasil é que se tratava de uma guerra aberta entre o regime e seus contestadores armados, que sabiam no que estavam se metendo.
Só aos poucos estamos conhecendo as atrocidades cometidas na luta contra a guerrilha no Araguaia, da qual a maioria não sobreviveu e nem seus corpos foram encontrados. Mas quanto ao que aconteceu nas salas de tortura da repressão não existem dúvidas ou apenas suposições, está vivo na memória dos torturados e suas famílias.
Foi quando os cães sem controle da guerra estraçalharam o que poderia haver de simples humanidade no tratamento de prisioneiros, ou o simples respeito a regras convencionadas, por um Estado civilizado.
Se a discussão entre os que sustentam que salvaram o Brasil com seus excessos e os que querem que o Brasil conheça a verdade enterrada sem lápide daqueles tempos parece um diálogo de surdos, o grande mudo desta história toda é a instituição militar, que nunca fez uma autocrítica consequente, nunca desarquivou voluntariamente seus arquivos ou colaborou nas investigações sobre o passado, o dela e o nosso, para evitar a cobrança atual.
E o que foi feito não era inevitável. Na Itália, por exemplo, na mesma época, o governo enfrentou uma violenta contestação armada sem sacrificar um direito civil, ameaçar uma instituição democrática ou recorrer ao seu próprio terror. Sem, enfim, soltar os cachorros.
A diferença, claro, é que lá era um governo legítimo.
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No Brasil, há tempos foi enterrada a possibilidade de punição dos torturadores e seus mandantes (aqui, sim, a legítima teoria do domínio do fato), e a Comissão da Verdade luta para ao menos levar a público os crimes praticados e os nomes de quem os perpetrou. Na Argentina, foi enterrado o ditador Videla (aqui), que nos anos 70 comandou massacres em série, crimes pelos quais foi duas vezes condenado à prisão perpétua (após a primeira condenação, recebeu indulto de Carlos Menem, parceiro de ideias. Até que Kirchner anulou a benesse).
sexta-feira, 17 de maio de 2013
PRIVATIZAÇÃO E CONCESSÃO
Convertida em lei a MP dos portos, cuida agora a imprensa de especular sobre vetos a que o governo poderá proceder. Um deles torna sem efeito a prorrogação automática de contratos de concessão por (mais) 25 anos, que a Câmara inseriu no texto da MP. Dessa forma, o texto voltaria à redação anterior: prazo de 25 anos para as concessões.
Caso se tivesse partido para a privatização, o domínio passaria definitivamente para o comprador, a exemplo do observado no governo FHC, quando telefônicas e empresas como Vale do Rio Doce e Companhia Siderúrgica Nacional saíram, de uma canetada, das mãos do estado brasileiro.
É incorreto, pois, classificar como privatização o que está estabelecido na MP dos portos. O que se está admitindo é a possibilidade de se fazer concessão, mecanismo previsto na Constituição Federal.
Conclusão: a charge acima não procede.
O GRITO PORTUGUÊS
Foto integrante de ensaio do fotógrafo brasileiro Maurício Lima, feito sob encomenda do The New York Times. O trabalho se intitula “Portugal, Tension and Transition” e mostra como a crise financeira na Europa tem afetado a vida dos portugueses. A foto acima motivou a escolha de Maurício como um dos vencedores do PDN Photo Annual 2013 (Fonte: aqui).
ZONA DO EURO À DERIVA: VITÓRIA DA AUSTERIDADE
Kountouris.
Nove dos 17 países da zona do euro estão em recessão: Espanha, França, Itália, Finlândia, Holanda, Portugal, Chipre, Grécia e Eslovênia. A política de austeridade imposta pela troika (Banco Central Europeu, FMI e União Europeia) e pelo governo alemão de Angela Merkel está afundando a Europa.
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Charge. Zona do euro. Kountouris.
A SAGA DO POETA DAS RUAS
Após voltar pra casa, 'poeta das ruas' continua a escrever histórias
Por Carla Guimarães
O "poeta das ruas" de São Paulo, Raimundo Sobrinho, 74, passou 20 anos no canteiro central da avenida Pedroso Morais, zona oeste. (...).
Há um ano, ele foi encontrado pelo irmão --graças à ajuda de uma publicitária que se sensibilizou com sua história-- e levado para morar em Goiânia com a família. Entre lacunas e imprecisões, o poeta conta sua trajetória.
Os documentos dizem Raimundo Arruda Sobrinho, nascido em 1º de agosto de 1938, na fazenda Sol Ferino, em Porto do Sítio [atual Goiatins, norte do TO].
Meu pai era vaqueiro. Nascido e criado na zona rural, fui levado aos 16 anos para a cidade, me entregaram para o prefeito, para educar.
De agosto de 1954 a janeiro de 1961 morei com o prefeito. Ia no período das aulas e passava férias em casa.
Em 1960 fui reprovado na segunda série ginasial, me desgostei e fui para São Paulo --cheguei em 10 de janeiro de 1961. Um conhecido me arranjou a passagem.
Fui procurá-lo [o conhecido] na Vila Madalena, num cortiço de madeira. Amanheceu e já fui trabalhar de jardineiro.
Em 1974 houve um desgosto qualquer, abandonei o jardim e fui vender livro velho pelas calçadas. Passava semana sem vender um. Não ganhei nem mais para alimentação.
Dois anos depois estive internado na psiquiatria do Hospital das Clínicas. Muita gente diz: "Tu não sabe o que é um hospital psiquiátrico".
Tive 14 endereços até 1978. Morei num quarto e cozinha sem luxo, mas asseado, onde ficou tudo que é meu.
Quando me fizeram abandonar a casa em que eu morava, em 29 de abril de 1978, comecei a dormir pelas ruas.
Ali me reconheci vítima de violação de direitos humanos. Procurei consulados, ninguém prestou atenção.
Sem dinheiro para nada, decidi em 1980 tentar ir para a Argentina. Fui até onde disseram que era Uruguaiana (RS). Cheguei em julho de 1980. Alegaram falta de documento...
Em outubro tentei o Paraguai. Cheguei num dia, no outro fui preso. Passei três dias na cadeia. O cônsul brasileiro me retirou. Deixaram-me onde disseram ser Foz do Iguaçu. Ali fui servente de pedreiro.
No Uruguai. entrei mas não pude ficar. As autoridades e eu nos desentendemos.
Voltei a São Paulo em 1983. Estive no Morumbi, Jardim Paulista, Ibirapuera. Em 1985 fui para a av. Amarílis, onde vivi até junho de 1989.
Numa madrugada chegou um carro cheio de rapazes, acordaram-me e ameaçaram-me. Na rua das Amoreiras fui apedrejado. Não mataram porque não quiseram.
Ficava num local enquanto podia. Havia demonstração de desapreço, me afastava.
Ali [canteiro central da Pedroso de Morais] cheguei era 27 de outubro de 1993. Vivia debaixo de plástico, noite e dia cercado por assaltantes.
Em 1986, em novembro, nasceu o atual diário --diário de uma vítima de violação de direitos humanos.
As mínipáginas não me lembro bem, mas nasceram nesse período. Tudo que escrevo assino, dato e localizo.
O público dava os papéis.
A produção é reduzida. Se a pessoa chegasse e eu tivesse minipágina, dava. Se não tivesse, prometia, fazia e guardava à espera da pessoa.
Além delas tem os caderninhos. A capa é feita de papel de embrulho. Fiz centenas.
O barulho dos automóveis não alterava para escrever, só a má iluminação. Qualquer hora escrevia, até debaixo de chuva. Arranjava um plástico, sentava numa lata de 18 litros e continuava trabalhando.
Tem coisas nos meus escritos que considero de valor científico. Chegou um ponto que deixei de assinar meu nome, para assinar o pseudônimo "O Condicionado". Não me lembro a partir de quando. Comecei a ouvir "o condicionado". Descobri que era eu.
Em 1986 veio um pessoal que disse ser do programa Flávio Cavalcanti [então transmitido pelo SBT], me entrevistaram e perguntaram se poderia ir ao programa. Trouxeram a mulher do Antônio Souza Porto [ex-prefeito de Goiatins] e o filho dela.
Do programa me levaram para um hotel. No outro dia me arrastaram até Goiânia. Eu não queria vir. Passei um mês e voltei para o mesmo local que vivia, no Morumbi.
ADAPTAÇÃO
Desta vez disseram que foi com essa instituição dos celulares que me localizaram. Envolveu uma jovem que começou a frequentar o local que eu vivia [a publicitária Shalla Monteiro].
Disseram que ela se comunicou com o Francisco [Arruda, irmão dele]. Ele foi lá duas, três ou quatro vezes, e terminou arrastando-me para cá. Eu não queria.
Não teve problema de adaptação. Preferia continuar lá, porque aqui estou dando trabalho, ocupo espaço, consumo, como, bebo.
Aqui a ordem foi que não preciso trabalhar. O que posso ajudar, faço. Limpar, varrer embaixo dessas mangueiras.
Amanheceu o dia faço o que é possível, depois pego os papéis. O fundamental é o diário. As minipáginas faço o que posso. Aqui não tem muita necessidade delas. Lá precisava para dar a quem me desse alguma coisa, tenho a necessidade moral de retribuir com qualquer coisinha.
Não me considero escritor, mas uma pessoa que sabe gastar papel. Não ganhei um centavo à custa do que escrevi. Tentei. O mundo editorial não pôde pagar coisa nenhuma. Publicar não quero.
Não sei coisa nenhuma o que fazer da vida. Escrever, enquanto eu puder, vou escrever. (Fonte: aqui).
quinta-feira, 16 de maio de 2013
APROVADA MP DOS PORTOS
Lute.
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Entreouvido na redação: "A charge fez água."
O fato é que a matéria objeto da medida provisória (agora convertida em lei) é estratégica para o país, visto que contribuirá, e muito, para a redução do Custo Brasil, conferindo maior competitividade à atividade produtiva nacional.
Ficou demonstrada a importância de se contar com uma base aliada, não obstante os incidentes de percurso verificados.
Quanto às charges publicadas ao longo dos dias sobre o assunto, todas remaram contra a MP. Coisas da democracia. Assim como é democrático dizer que todas fizeram água.
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Charge. MP dos portos. Lute.
PIB TRIMESTRAL: 1,05%
A atividade econômica apresentou crescimento de 1,05%, no primeiro trimestre deste ano, na comparação com os últimos três meses de 2012. Os dados são do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) dessazonalizado (ajustado para o período), divulgado hoje (16).
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Vale reproduzir previsão (publicada no início do ano jornal Valor Econômico) feita por Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse no Brasil (Teixeira foi quem mais se aproximou dos pibs observados em 2011 e 2012, e ao opinar nas duas ocasiões foi criticado pelo ministro Mantega por sua posição pessimista):
Como se observa, nesta oportunidade o economista, até agora assertivo, está sendo mais otimista do que o ministro, que estima em 3% o pib 2013. Sair de 0,9, em 2012, para 3% será um bom salto.
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Economia. PIB 2013. PIB 1º trimestre 2013.
EUA E DEMOCRACIA RELATIVA
No âmbito da Democracia, do Estado Democrático de Direito, há o respeito à livre manifestação, à confidencialidade da informação. Conversas telefônicas, por exemplo, só podem ser interceptadas/registradas mediante prévia autorização judicial.
Notícias recentes dão conta de que jornalistas americanos teriam tido violado o seu direito à inviolabilidade de comunicação (aqui), mas, quando se esperava um baita estardalhaço sobre o assunto, a denúncia logo saiu do foco. Por quê? Será que após o 21 de setembro de 2001 e o consequente Ato Patriótico tudo se tornou possível ao governo americano?
Uma leitora do blog Luis Nassif, Jussara Lourenço, atualmente no Canadá, expressou com veemência sua impressão:
"Parece que a notícia do grampeamento de telefones da AP e de alguns de seus jornalistas e editores deixou de ser notícia. Talvez porque não seja importante ou talvez porque todos concordam que havendo um 'bom motivo' os meios de comunicação podem ser grampeados.
Hoje, aqui em Toronto, acordei com a notícia de que a indignação dos meios de comunicação e jornalistas dos EUA e Canadá era muito grande. Saí para o trabalho e quando volto para casa (...) não vejo menção nenhuma ao fato no mesmo canal (CBC) e tampouco em seu website. (...). Vou ao IG, Terra e UOL e nada também.
Pensei que toda a imprensa deveria estar indignada e essa deveria ser a manchete do dia: a atitude do governo americano de grampear os telefones da AP e de jornalistas por dois meses. Posso estar errada, mas a ênfase dada a essa questão é quase nenhuma. (...)".
Coisas da democracia relativa...
quarta-feira, 15 de maio de 2013
O PETRÓLEO É NOSSO
O petróleo é nosso
Por Mauro Satayana
A Petrobras desfigurou-se quando o governo dos tucanos paulistas e cariocas decidiu entregar a exploração do petróleo a empresas estrangeiras. Uma evidência da entrega: todos os países exportadores de petróleo cobram das empresas estrangeiras royalties, em média, de 80%: em petróleo. O Brasil, por decisão desses senhores, só cobra dez por cento do óleo extraído — e em moeda. Na realidade, essas empresas são donas de todo o petróleo produzido, cuja descoberta se deve à própria Petrobras.
Mais do que o petróleo, vindo do solo, a Petrobras extraiu da alma brasileira a sua orgulhosa consciência de povo. Essa consciência vinha sendo construída em difíceis passos políticos, confrontada com a cumplicidade das oligarquias coloniais com a Metrópole, na exploração do trabalho escravo e no saqueio sistemático da natureza, desde o século 17. É bom registrar que ela sempre se associou aos nossos recursos naturais, do pau-brasil ao ouro e a outros minerais.
A Independência, em 1822, serviu para o surgimento de grupos mais atilados, com ideais democráticos e republicanos, ainda que prevalecessem os interesses oligárquicos. A confluência do movimento abolicionista com a campanha republicana, a partir de 1870, acabaria com as duas instituições caducas, a escravatura e a monarquia. Mas, fora a pequena elite pensante das grandes cidades, não havia consciência de nação. No campo, os grandes fazendeiros viam o país como um território repartido entre eles, senhores das terras e dos que nelas trabalhavam e viviam.
Só na segunda década republicana houve quem associasse o desenvolvimento industrial ao bem-estar dos trabalhadores — mas esses visionários foram violentamente reprimidos pelos governos, a serviço das oligarquias e das empresas estrangeiras. Elas controlavam as incipientes manufaturas e o comércio exterior com a venda de nossos produtos primários - e a importação de bens de consumo, em sua maioria supérfluos.
A partir dos anos 20, começou a esboçar-se o que podemos entender como a assunção do Brasil, como ele é: uma nação de imigrantes, mestiça de mamelucos e cafuzos, de negros e brancos, de europeus nórdicos e meridionais — e de gente do Oriente Médio e da distante Ásia. Nesse sentido, apesar de seus críticos, a Semana de Arte Moderna, de 1922, teve a sua marcante influência. O Brasil desembarcou definitivamente da Europa com o atrevimento dos intelectuais, muitos deles brasileiros de primeira geração, que tornaram nobre o que antes se considerava vulgar.
Foi então que despimos as sobrecasacas, trocamos as ceroulas por cuecas, e as mulheres se livraram dos espartilhos para que suas formas desabrochassem sob a regência de uma sensualidade tropical.
Nesses anos 20, em certos momentos sem uma orientação política e ideológica coerente, surgiram os partidos de esquerda e os movimentos de rebeldia militar com os tenentes, como a gesta heroica, mas prematura, da Coluna. Tudo isso conduziria à Aliança Liberal de 1930, empurrada, como sempre ocorre, pelo confronto de interesses políticos pessoais de personalidades fortes, associado ao conflito das forças econômicas regionais.
É interessante notar que, nesses decênios iniciais do século 20, o petróleo já se situava no centro da disputa geopolítica das grandes potências — e desde a Primeira Guerra Mundial, com o desembarque inglês, comandado pelo coronel Lawrence, na Península Árabe. O livro de Essad Bey, A luta pelo petróleo, é a melhor fonte para entender as intrigas entre os estados e os milionários no esforço pelo controle das jazidas.
Em 1928, como narra Monteiro Lobato em seu livro sobre o assunto (O escândalo do petróleo), os soviéticos, preocupados em diminuir o elevado consumo de álcool entre seus soldados, propuseram ao Brasil trocar petróleo - do qual grande parte de seu território era, e continua, encharcado - por café brasileiro. Acreditavam que a nossa bebida contribuiria para aliviar o alcoolismo de suas tropas. Os Rockfeller, donos da Standard Oil e líderes das grandes petroleiras, impediram que fizéssemos o negócio.
Com Getúlio, dentro das amarras do tempo, começamos a levar o problema a sério, com o Conselho Nacional do Petróleo, criado em 1938, e sob a chefia do general Horta Barbosa. Todas as atividades petrolíferas se encontravam sob o controle do Estado, que poderia conceder a exploração e o refino, dentro dos interesses nacionais. Enfim, em 1953, criou-se a Petrobras.
O lema da campanha popular, O petróleo é nosso, transcendia de seu enunciado. Não era só o petróleo que era nosso. Queríamos dizer que o Brasil, com o petróleo e tudo mais, pertencia-nos, como povo. Na medida em que a Petrobras se consolidou — mesmo sobre o cadáver de Getúlio — entendemos que éramos um povo capaz de conduzir, soberanamente, o seu próprio destino.
Se não fosse essa consciência, adquirida nas lutas populares, Juscelino não teria sido eleito em 1955, e não teríamos dado o grande salto, dos cinquenta anos em cinco, durante o seu quinquênio: construímos trechos de ferrovias, grandes eixos rodoviários e erigimos Brasília, porque a criação e os primeiros êxitos da Petrobras diziam-nos que éramos um povo tão capaz como qualquer outro, e poderíamos, com isso, construir definitivamente a nossa soberania.
No entanto, a partir do governo presidido por Fernando Henrique Cardoso, a Petrobras tem sido submetida a lenta, mas criminosa, desconstrução. O Estado vendeu, no exterior, as ações preferenciais da empresa, transferindo assim, em forma de dividendos, os esforços dos técnicos e trabalhadores brasileiros, que, com o seu êxito, ajudaram-nos a criar a consciência de nação soberana.
A Agência Nacional do Petróleo, ao que parece a isso autorizada pelo cimo do governo, decidiu colocar em leilão, hoje, e pelas regras que remontam a Fernando Henrique, centenas de lotes de exploração de petróleo na costa brasileira. Trata-se de áreas em que a Petrobras investiu centenas de milhões em pesquisa e que serão entregues, em sua maior parte, e ao que se prevê, a empresas estrangeiras.
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Convém, a propósito, ver nota da Petrobras, de 15.05.2013, aqui.
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Economia. Petróleo. Brasil. Mauro Santayana.
SOBRE O CONTROLE PRÉVIO DE CONSTITUCIONALIDADE
Dias atrás, o ministro Gilmar Mendes mandou o Poder Legislativo sustar o trâmite de projeto de lei que altera o tratamento a ser oferecido a "novos" partidos políticos no que respeita ao acesso a recursos do fundo partidário e ao tempo na propaganda eleitoral. O ministro considerou o projeto inconstitucional, exercitando, monocraticamente, o chamado controle prévio de constitucionalidade.
Eis que agora o procurador-geral da República afirma considerar pertinente o despacho do ministro.
Enquanto se aguarda o exame da matéria pelo pleno do STF, continua pairando no ar a seguinte notícia (pelo visto, ignorada pelos acima citados):
"Peluso retira proposta de controle prévio de constitucionalidade
Brasília, 31/03/2011 - O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Cezar Peluso, aproveitou a reunião que teve hoje (31) com os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e Antonio Palocci, chefe da Casa Civil, para informar que retirava das conversações em torno do 3º Pacto Republicano a proposta de um controle prévio de constitucionalidade - antes da sanção presidencial - de projetos de lei aprovados pelo Congresso.
O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, e vários parlamentares criticaram a ideia de Peluso do controle prévio de constitucionalidade pelo Supremo. Para o presidente nacional da OAB, a medida seria 'uma grave quebra da harmonia e da independência entre os Poderes da República'." (Fonte: Portal OAB, 31.03.2011 - aqui -, e blog Luis Nassif, aqui).
terça-feira, 14 de maio de 2013
BRASIL: O AVANÇO DO CONHECIMENTO
ITA Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos-SP.
Revista americana Forbes destaca importância de universidades brasileiras
A publicação americana afirma, também, que o ensino superior é um grande negócio em si mesmo. A busca por um diploma levou ao crescimento de um setor multibilionário no País. O artigo cita a compra da “Anhanguera Educacional” pela “Kroton Educacional”, que vai pagar US$ 2,48 bilhões pela primeira para formar uma empresa de US$ 6 bilhões.
Revista americana Forbes destaca importância de universidades brasileiras
Um artigo publicado no site da revista “Forbes” na última sexta-feira afirma que as universidades brasileiras desempenham papel importante no momento positivo do País e serão ainda mais importantes no futuro. "(O Brasil) vai fazer inúmeras contribuições e muitas virão de, e quase todas estarão conectadas, um setor que atrai pouca atenção da grande mídia - a academia", diz o texto, assinado pelo jornalista Ricardo Geromel e pelo empresário americano Luke Barbara, baseado em São Paulo.
Segundo a revista, a atenção no Brasil está focada no crescimento econômico e nas políticas de relações exteriores, em empresas como Embraer e Petrobras e em eventos globais como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. "Muitas pessoas fora dos círculos acadêmicos não ouviram falar das universidades do Brasil e de seu importante papel no sucesso do País através da educação, liderança e inovação tecnológica."
O artigo destaca a importância de qualquer líder que deseja entender o Brasil de se familiarizar com a educação superior do País. A revista comenta que aqui, ao contrário dos Estados Unidos, são as universidades públicas que mostram melhor qualidade e destaque internacional e que têm sistemas de seleção rigorosos e competitivos.
Um exemplo usado pela publicação é a relação entre o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e a fabricante de aviões Embraer, que começou nos anos 50. "A poderosa combinação do ITA como uma universidade focada em tecnologia e a agência governamental CTA (Centro Técnico Aeroespacial, que hoje se chama Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial) deu origem, com sucesso, à então estatal Embraer, a qual foi privatizada [25 anos depois]. Hoje, a Embraer é uma empresa global de aviação, de US$ 6 bilhões, e o ITA é chamado por muitos de 'MIT do Brasil'", diz a publicação, se referindo a uma das melhores universidades do planeta. A revista afirma ainda que o sucesso acadêmico brasileiro vai além da área aeroespacial.
A “Forbes” cita também que as universidades brasileiras têm parceiras de longa data com as melhores instituições de ensino do mundo e novas iniciativas são lançadas com frequência cada vez maior no País. "A academia brasileira precisa do conhecimento, talento e polinização de ideias de outras instituições e pesquisadores ao redor do planeta. Mutualmente, ela contribui nessa troca repartindo a criatividade, inovação e liderança de pensamento com o resto do globo."
A revista cita, por exemplo, o “Centro David Rockefeller de Estados da América Latina”, de Harvard, que estabeleceu um escritório em São Paulo, e a “Universidade do Sul da Califórnia”, que recentemente lançou um posto avançado para recrutar estudantes brasileiros. Por outro lado, a USP e a “Universidade do Estado de Ohio” mantêm parceria de 49 anos de pesquisa e intercâmbio de estudantes em ciências e tecnologias de agricultura.
INDÚSTRIA DA EDUCAÇÃO
A publicação americana afirma, também, que o ensino superior é um grande negócio em si mesmo. A busca por um diploma levou ao crescimento de um setor multibilionário no País. O artigo cita a compra da “Anhanguera Educacional” pela “Kroton Educacional”, que vai pagar US$ 2,48 bilhões pela primeira para formar uma empresa de US$ 6 bilhões.
Mas o texto não é só elogios às universidades brasileiras. Segundo a revista, o País precisa melhorar seu "ecossistema educacional" para encontrar as habilidades, conhecimento e inovação para melhorar a qualidade de vida de todos os cidadãos e subir mais alto no cenário mundial. Para isso, afirma a publicação, é necessário esforço estatal e privado, e muitos empresários apostam que a classe média que emerge no Brasil vai abrir sua carteira para investir em educação.
‘Políticas mundiais, liderança econômica, produção energética e segurança alimentar são apenas algumas de muitas áreas nas quais o Brasil vai não apenas contribuir, mas provavelmente liderar no século 21. Influenciadores globais e líderes econômicos devem entender a importância da academia brasileira e se engajar ativamente com instituições de ensino superior que estão criando ideias, tecnologias e líderes que vão moldar o Brasil e, portanto, o mundo’. (Fonte: aqui).
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Brasil. Educação. Universidades. Forbes.
A BASE FURADA DA AUSTERIDADE (II)
Arcadio.
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É fato que o desemprego se alastra pela Europa, é fato que proventos foram reduzidos, é fato que benefícios sociais foram extintos, é fato que o desespero bateu à porta dos lares - mas, que a austeridade está sendo altamente benéfica para os bancos e grandes conglomerados financeiros, isso é inquestionável.
Convém observar: é total a mobilização dos grandes bancos norte-americanos contra as iniciativas do governo Obama visando a, enfim, impor limites regulatórios à ação dos agentes financeiros. Obama pretende acabar com o rótulo de "grande demais para quebrar", com que até agora os grandes grupos vêm auferindo benesses estatais, em detrimento dos interesses públicos.
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A BASE FURADA DA AUSTERIDADE
Não é bem furo; é rombo...
Dois + dois = ?
Por Luis Fernando Veríssimo
Dois + dois = ?
Por Luis Fernando Veríssimo
Um economista americano desconhecido estava revendo a tese de dois economistas muito conhecidos, que provava que a responsabilidade fiscal e a austeridade nos gastos sociais favorecia, em vez de atrasar, como diziam alguns, a recuperação econômica, e estava sendo usada por economistas oficiais para justificar o aperto aplicado pela maioria dos governos do mundo contra a crise, quando descobriu um erro. Não um erro de posicionamento, de interpretação ou de redação — um erro de matemática. Certas contas não fechavam.
Dois mais dois simplesmente não davam quatro. O economista desconhecido publicou sua descoberta, o que o tornou conhecido, e os dois economistas conhecidos reconheceram seu erro, mas não lhe deram importância, o que os tornou cúmplices declarados do massacre que a tese deles continua causando.
A certeza de que com o tempo a austeridade se justificará, demonstrada claramente nas contas erradas da dupla, só conseguiu transformar “austeridade” em palavrão, nos países em que a maioria da população continua pagando, com desemprego e miséria, pelos desmandos dos seus governos e a ditadura do capital financeiro, responsável pela crise.
Mas talvez haja uma explicação que absolva os dois economistas conhecidos. É difícil imaginar que eles não tenham recorrido aos seus laptops, ou aos laptops de assistentes, para fazer suas contas. (“Veja aí, dois mais dois quanto dá”). E os laptops podem ter fracassado.
Hoje confiamos tudo ao computador, por que não confiar na sua matemática? E a sua matemática pode entrar em pane.
Me lembrei da história do Millôr sobre o último homem do mundo que ainda sabia contar nos dedos. Um dia todos os sistemas interligados do mundo caem. Ninguém mais consegue escrever sem um teclado, o que dirá fazer contas sem uma calculadora eletrônica.
Recorrem ao homem, que cobra caro pelo seu serviço. E o fornece tranquilamente, certo de que se errar nas suas contas primitivas não haverá como comprovar o erro. Ele será a autoridade final em todas as contas.
A austeridade não está dando certo em nenhum lugar do mundo, muito menos nos países mais sacrificados pela crise, como Grécia e Espanha.
Na Inglaterra, as pompas fúnebres para Margaret Tchatcher, Mrs. Austeridade, também foram, um pouco, uma celebração provocativa do aperto promovida pelo governo conservador. O neoliberalismo dando um último chute no “welfare state” antes de ser canonizado.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
EVANGÉLICOS, GO HOME
W. Passos.
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Enfim, uma charge ao estilo do velho O Pasquim, juntando informação, ironia, mordacidade e traços para lá de hilários, que Jaguar assinaria com satisfação.
Quanto à proibição de funcionamento de igrejas evangélicas, a conclusão a que se chega é a de que Angola não estava ainda dominada, ao contrário do que se observa em outras plagas.
O DOMÍNIO DA INTERNET
Brasil: para 88%, Internet é a mídia mais importante
A internet é a mídia mais importante para a grande maioria dos brasileiros, revelou uma pesquisa realizada pela comScore, em parceria com o Interactive Advertising Bureau (IAB), com duas mil pessoas. Para 88% dos entrevistados, a rede mundial de computadores é a preferida, seguida da televisão – preferência de 55% das pessoas –, dos jornais (44%), do rádio (28%) e das revistas (27%).
Outro importante dado da pesquisa é sobre como os brasileiros veem a publicidade online. Para 50% do público, ela é a mais informativa e, para 49%, a mais criativa. Os anúncios mais memoráveis perdem para os da televisão, na opinião de 48% dos entrevistados, mas ficam à frente dos veiculados em jornais e revistas (10%) e nos rádios (9%). Os anúncios na web influenciam 66% das pessoas a buscarem mais informações sobre a marca anunciada.
O local de trabalho é onde a internet é mais utilizada por 43% de quem respondeu à pesquisa, via computadores e notebooks. O perfil mais comum do usuário brasileiro mais assíduo é a mulher entre 25 e 44 anos, que preferem as redes sociais, enquanto os homens navegam por sites em sua maioria. (Fonte: aqui).
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No Brasil e no mundo, a internet continua a demolir impérios de comunicação, até então "donos" da verdade opinativa e factual. Nada mais bem vindo e salutar.
Marcadores:
Mídia. Internet. Brasil.
SOBRE BOLSA FAMÍLIA E POLÍTICA DE COTAS
Brava gente, a brasileira
Por Elio Gaspari
Dados do Bolsa Família e da política de cotas ensinam o andar de cima a olhar direito para o de baixo
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Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911-1964) uma frase segundo a qual "a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta". Nas últimas semanas divulgaram-se duas estatísticas que ilustram o qualificativo que ele deu ao seu povo.....
A primeira, revelada pelo repórter Demétrio Weber: Em uma década, o programa Bolsa Família beneficiou 50 milhões de brasileiros que vivem em 13,8 milhões de domicílios com renda inferior a R$ 140 mensais por pessoa. Nesse período, 1,69 milhão de famílias dispensaram espontaneamente o benefício de pelo menos R$ 31 mensais. Isso aconteceu porque passaram a ganhar mais, porque diminuiu o número da familiares, ou sabe-se lá por qual motivo. O fato é que de cada 100 famílias amparadas, 12 foram à prefeitura e informaram que não precisavam mais do dinheiro.
A ideia segundo a qual pobre quer moleza deriva de uma má opinião que se tem dele. É a demofobia.
Quando o andar de cima vai ao BNDES pegar dinheiro a juros camaradas, estimula o progresso. Quando o de baixo vai ao varejão comprar forno de micro-ondas a juros de mercado, estimula a inadimplência.
Há fraudes no Bolsa Família? Sem dúvida, mas 12% de devoluções voluntárias de cheques da Viúva é um índice capaz de lustrar qualquer sociedade. Isso numa terra onde estima-se que a sonegação de impostos chegue a R$ 261 bilhões, ou 9% do PIB. O Bolsa Família custa R$ 21 bilhões, ou 0,49% do produto interno.
A segunda estatística foi revelada pela repórter Érica Fraga: um estudo dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que num universo de 168 mil alunos que concluíram treze cursos em 2008, as notas dos jovens beneficiados pela política de cotas ficaram, na média, 10% abaixo daquelas obtidas pelos não cotistas. Ou seja, o não cotista terminou o curso com 6 e o outro, com 5,4. Atire a primeira pedra quem acha que seu filho fracassou porque foi aprovado com uma nota 10% inferior à da média da turma. Olhando-se para o desempenho de 2008 de todos os alunos de quatro cursos de engenharia de grandes universidades públicas, encontra-se uma variação de 8% entre a primeira e a quarta.
Para uma política demonizada como um fator de diluição do mérito no ensino universitário, esse resultado comprova seu êxito. Sobretudo porque dava-se de barato que muitos cotistas sequer conseguiriam se diplomar. Pior: abandonariam os cursos. Outra pesquisa apurou que a evasão dos cotistas é inferior à dos não cotistas. Segundo o MEC, nos números do desempenho de 2011, não existe diferença estatística na evasão e a distância do desempenho caiu para 3%. Nesse caso, um jovem diplomou-se com 6 e o outro, com 5,7, mas deixa pra lá.
As cotas estimulariam o ódio racial. Dez anos depois, ele continua onde sempre esteve. Assim como a abolição da escravatura levaria os negros ao ócio e ao vício, o Bolsa Família levaria os pobres à vadiagem e à dependência. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
Admita-se que a frase atribuída a San Tiago Dantas seja apócrifa. Em 1985, Tancredo Neves morreu sem fazer seu memorável discurso de posse. Vale lembrá-lo: "Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas". (...). (Fonte: aqui).
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Bastante judiciosas as considerações de Elio Gaspari, até então ferrenho (e irônico) opositor das iniciativas acima e de muitas outras - ou, mesmo, de todas elas.
Marcadores:
Bolsa Família. Cotas. Brasil. elio Gaspari.
domingo, 12 de maio de 2013
OLD MAGAZINE
The New Yorker, edição de 10 de maio de 1993, dia das mães.
Capa: cartum de Art Spiegelman, sueco radicado nos EUA.
VAMOS AO PARQUE SERRA DA CAPIVARA
No Piauí, serra da Capivara guarda o maior tesouro arqueológico do Brasil
Por Rafael Mosna
Parecia um tour exclusivo. Em abril, a reportagem visitou durante quatro dias o parque nacional da serra da Capivara, no Piauí, e só cruzou com um turista (isso mesmo, no singular) uma vez.
Sorte? Não exatamente. Essa época é considerada baixa temporada e, além disso, eram dias de semana.
Dados oficiais, no entanto, mostram que a visitação ainda é baixa.
Em 2012, 11.655 pessoas passaram pelo parque, sendo estudantes da região a maior parte delas. Vindos de fora do Nordeste, foram apenas 1.500 visitantes.
Para efeito de comparação, o sítio arqueológico de Tulum, no México, também de grande importância histórica, recebeu 1,2 milhão de visitantes no mesmo período.
Por que, afinal, é tão baixa a visitação à mais relevante área arqueológica do Brasil?
A principal hipótese é a dificuldade de acesso para quem vem de fora do Piauí. De São Paulo, o viajante precisa combinar trecho aéreo com escala e estrada, num total de dez horas de viagem.
Não é fácil chegar, mas quem se aventura raramente se arrepende desta viagem à Pré-História.
Estudos apontam a presença do homem há cerca de 50 mil anos. Os vestígios são resultado de escavações lideradas pela arqueóloga Niède Guidon na década de 70, quando foram encontradas ferramentas que evidenciaram a presença mais antiga do homem nas Américas.
Desde então polêmicos, os trabalhos ganharam maior aceitação décadas depois, durante apresentação em um simpósio no Piauí em 2006.
Formado por quatro serras, o parque tem como cartão-postal o sítio Boqueirão da Pedra Furada, com mais de mil pinturas rupestres. Estão ali, a poucos metros da parada de carro. Acesso facílimo.
Mas nem tudo é sombra, água fresca e trilhas planas. Para ver algumas das pinturas rupestres descritas nesta edição, será preciso encarar o calor de até 45ºC e subir em paredões íngremes.
Em suma, é preciso suar a camisa. (Fonte: aqui).
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A matéria da Folha oferece outras valiosas informações.
Posts publicados neste blog sobre a serra podem ser vistos aqui.
Lá funciona o Museu do Homem Americano. O parque compreende cerca de 900 sítios arqueológicos, mais de 600 deles com pinturas rupestres.
Marcadores:
Turismo. Piauí. Serra da Capivara.
MONA
Kambiz, cartunista iraniano - lembrando caricatura produzida por Márcia Z, vencedora de um dos primeiros salões de humor do Piauí (1983, 1984, por aí).
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Cartum. Mona Lisa. Kambiz Derambakhsh.
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