domingo, 28 de agosto de 2016

O JULGAMENTO DE DILMA ROUSSEFF, PARTE 7


O julgamento de Dilma: a conspiração do golpe

Por Raimundo Rodrigues Pereira

1. É domingo, 28 de agosto. Na quinta, sexta e ontem foram ouvidas sete testemunhas na fase final do processo de impeachment da presidente da República. Amanhã esta etapa termina com o testemunho da própria Dilma Rousseff, que irá ao plenário do Senado para apresentar sua defesa e responder às perguntas dos senadores. A previsão é de o julgamento terminar até quarta, dia 31, tendo cada um dos 81 senadores respondido sim ou não à seguinte questão, a ser formulada pelo condutor dos trabalhos, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski: “Cometeu a acusada, a senhora presidente da República, Dilma Vana Rousseff, os crimes de responsabilidade correspondentes à tomada de empréstimos junto a instituição financeira controlada pela União (art. 11, item 3, da Lei 1079/50) e à abertura de créditos sem autorização do Congresso Nacional (art. 10, item 2, da Lei 1079/50) que lhe são imputados e deve ser condenada à perda de seu cargo, ficando, em consequência, inabilitada para o exercício de qualquer função pública pelo prazo de oito anos?” Com 54 ou mais votos pelo sim, a presidente é afastada. Com 28 votos ou mais, somando o não, ausências e abstenções, Dilma Rousseff volta imediatamente ao cargo.

O julgamento, como se sabe, não é político, apenas; é também jurídico. Como se viu a acusação enquadra Dilma Vana Rousseff em dois itens específicos, de dois artigos – 10 e 11 – da Lei 1079, que estipula os “crimes de responsabilidade” da presidente da República. E, em princípio, foi o cometimento desses crimes que se tentou provar, ou negar, nas duas sessões de coleta de provas: a que se realizou no plenário do Senado no fim de semana que passou e praticamente terminou ontem, deixando de lado, por enquanto o testemunho da presidente; e a levada a cabo entre 8 e 29 de junho, na Comissão Especial de Impeachment (CEI), formada por 21 senadores e 21 suplentes. Que balanço se pode fazer dessa etapa dupla de coleta de provas?
Em primeiro lugar se deve dizer que ela foi, no mínimo, curiosa. Pela seguinte razão: no julgamento de crimes, que é o caso, quem acusa tem de provar a existência do crime e sua autoria; e, neste julgamento, coube à defesa a tarefa, original, de provar que o crime não existiu. Na primeira fase da oitiva de testemunhas, na CEI, a defesa apresentou 36 testemunhas; a acusação só duas. Todas as 36 da defesa mostraram, exaustivamente, que todos os procedimentos do governo tinham sido os mesmos de sempre, que nunca tinham sido contestados antes, na década e meia de existência da famosa Lei de Responsabilidade Fiscal – inúmeras vezes citada nos debates como uma das mais importantes do País – e das modificações introduzidas por ela na antiga lei dos crimes da presidência da República, a 1.079, de 1950.
Ainda nessa fase inicial, das quatro testemunhas do juízo, como se diz no linguajar das cortes, no caso escolhidas pelo então juiz, o presidente da CEI, Raimundo Lira (PMDB-PB), apenas uma – Leonardo Rodrigues Albernaz, auditor chefe da Semag, Secretaria de Macroavaliação Governamental do Tribunal de Contas da União, de certo modo seguiu o caminho de Júlio Marcelo de Oliveira, o promotor público junto ao TCU – e,  como já se viu nos capítulos anteriores, o grande defensor da argumentação pro-impeachment. Não por acaso, Júlio Marcelo e um auditor, Antônio D´Ávila, da Secex, Secretaria de Controle Externo do TCU, foram as duas únicas testemunhas da acusação naquela fase. Nessa última etapa das provas, do último fim de semana, Júlio Marcelo e D´Ávila foram, novamente, as duas únicas testemunhas dos acusadores. Eles confirmaram todas as acusações que tinham feito antes à presidente. Mas, dadas as circunstâncias que exporemos a seguir, tiveram de ir além: de certo modo, expuseram o que nos parece ser o fio do novelo de interesses que construiu a trama do impeachment.
Em segundo lugar devemos dizer que a presença do presidente do Supremo na condução do processo, nesta segunda etapa de apresentação de testemunhas, tornou a qualidade do espetáculo do plenário um pouco melhor do que a das sessões comandadas por Lira, o presidente da CEI. De fato e de direito, os poderes de Lewandowski são maiores que os de Lira. O senador paraibano, pode-se dizer, fez o máximo para se mostrar imparcial. De fato, porém, não tinha essa condição: poucas coisas ele podia decidir por sua própria consciência. Eleito pela bancada pro-impeachment, estava inarredavelmente amarrado a ela: mesmo a coisas elementares, como a de aceitar a realização de uma perícia nos documentos das ações presidenciais questionadas, ele não decidiu sozinho. Pediu o voto da maioria, que obviamente era contra. E se opôs à perícia, apoiado no bloco antidilma. Apenas a intervenção de Lewandowski, após recurso dos dilmistas, garantiu a perícia. E mais ainda, no mesmo caso, quando surgiram evidências clamorosas de que um dos peritos escolhidos era militante do movimento anti-Dilma, Lira não o destituiu, apenas o rebaixou da condição de chefe e o manteve na trinca de escolhidos para a tarefa.
A posição de Lewandowski é outra. Ele não é, por dever de ofício, alinhado com nenhuma das partes. Como disse bem, ao falar na abertura do julgamento, teria a tarefa até mesmo de impugnar, não apenas as considerações, mas as próprias perguntas feitas pelos senadores que fugissem ao objeto do processo em discussão. E foi com essa autoridade que ele rebaixou a qualificação do depoimento de Júlio Marcelo e, dada a gravidade dos fatos confessados por D´Ávila, deixou aberta para a defesa a possibilidade, inclusive, de anular o seu testemunho. Como isso aconteceu? É o que se verá em seguida.
2. No seu depoimento na tarde de quinta-feira, Júlio Marcelo confirmou todas as acusações que fez antes, na CEI, contra a presidente Dilma Rousseff, considerando-a culpada dos dois tipos de crime de responsabilidade que lhe são atribuídos, o da tomada de empréstimos de bancos públicos pelo governo federal e o de assinar decretos de suplementação de créditos orçamentários sem autorização do Congresso Nacional. Mas não depôs na condição de testemunha, mas na de informante. Qual a diferença? A testemunha é obrigada ao juramento de dizer a verdade e então pode ser punida em caso de desrespeito a esse compromisso. Seu depoimento é mais valorizado. O informante não tem a obrigação do juramento e suas informações têm outro estatuto.
Antes que Júlio Marcelo começasse a depor, o advogado da presidente, José Eduardo Cardozo, interveio para pedir duas coisas. Citou o Código de Processo Penal para pedir o “impedimento objetivo” do depoimento. E citou o Código do Processo Civil para alegar a “suspeição” de Júlio Marcelo e, com isso, requalificar a qualidade de seu depoimento. Lewandowski só aceitou o segundo pedido. O que parece ter influenciado mais para a aceitação da suspeição, foi o seguinte argumento de Cardoso. Ele disse que Júlio Marcelo não atuou somente como membro do Ministério Público. “Ele atuou verdadeiramente como militante político de uma causa. Não tenho dúvida nenhuma em relação a isso, a partir do momento em que ele especificamente divulgou convocatórias de um ato para pressionar os Ministros do Tribunal de Contas da União a rejeitarem as contas da Senhora Presidente da República em 2014”. Cardozo pediu a Lewandowsli que ouvisse Júlio Marcelo sobre suas alegações, mais destacadamente, se ele convocou e participou da manifestação "Vem pra Rampa", para pressionar pela rejeição das contas de Dilma Rousseff de 2014 que estariam sendo analisadas no TCU durante o ato.
Depois de pedir a opinião da advogada da acusação, Janaína Paschoal, que basicamente argumentou contra o impedimento e protestou contra a pergunta, considerando-a ofensiva ao depoente, Lewandowski se pronunciou. Disse que iria transmitir a Julio Marcelo a pergunta de Cardozo mas, antes, negou o pedido de impedimento de seu testemunho. Disse: “Eu vou […] transmitir a pergunta feita por V. Sª à testemunha Júlio Marcelo de Oliveira apenas quanto à suspeição”. E explicou: “Nós sabemos que há dois tipos de vedações para participar de atos processuais: os impedimentos, que são de ordem objetiva, e as suspeições, que são de natureza subjetiva. Do ponto de vista do impedimento, parece-me que o fato de a testemunha ter atuado como membro do Ministério Público do Tribunal de Contas no exercício de suas atribuições legais não a impede de ser ouvida como testemunha, porque, senão, como disse a Drª Janaína, um auditor fiscal, num processo de natureza tributária, ou mesmo um delegado de polícia, num inquérito policial ou numa ação penal, também não poderia ser ouvido. Portanto, a questão dessa impossibilidade, [dessa] alegada impossibilidade de participar deste ato por uma razão de natureza objetiva, qual seja, por ter desempenhado certas funções inerentes ao cargo que exercia, fica afastada. Agora”, disse Lewandowski dirigindo-se então a Júlio Marcelo, “V. Sª responderá a esse impedimento de natureza pessoal, subjetiva, íntima de ter ou não participado desses atos que lhe são atribuídos pelo Dr. José Eduardo Martins Cardozo”.
Júlio Marcelo tentou negar o fato. Disse que não tinha convocado nem participado “de qualquer ato destinado a pressionar o Tribunal de Contas para tomar decisão X ou Y”; que apenas tinha divulgado em sua página no Facebook, um comentário sobre uma convocatória feita por movimentos sociais cujos líderes desconhecia, dizendo ser “muito apropriado que a sociedade brasileira amadureça no sentido de discutir as contas públicas”. Lewandowski passou a réplica para Cardoso. Ele perguntou de novo quase a mesma coisa. Júlio Marcelo respondeu, de novo, que não: “Esse ato, se bem me lembro [...] foi em algo como junho, julho, não lembro bem exatamente a data. Mas o que dizia lá é exatamente o que acabei de dizer: considero apropriado que a sociedade brasileira se aproprie da discussão sobre a sanidade das contas públicas”.
A seguir, com a autorização de Lewandowski, interveio a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ela disse que Júlio Marcelo tinha dado a mesma explicação na CEI: de que sua manifestação pelo ato se dera para estimular a sociedade “a discutir, a debater as contas públicas”. “O problema”, disse a senadora, “é que a chamada para o ato não era para debater as contas públicas”. A chamada para o ato, disse ela, era: “Ato de reivindicação ao TCU pela rejeição das contas do Governo Dilma, em 17/06, na rampa do Tribunal de Contas da União”. “Não era para discussão, era para rejeição”, disse a senadora Gleisi. “Então, eu pergunto se o dr. Júlio Marcelo, alguma vez, também chamou algum ato para aprovação de contas presidenciais. Esse ato não foi para discutir, esse ato foi chamado para rejeitar. Ele tinha lado. Portanto, que fique registrado isso, Sr. Presidente”.
A seguir falou o senador Cassio Cunha Lima (PSDB-PB) para protestar, dizendo que os defensores de Dilma estavam falando para serem vistos na GloboNews, na TV Senado, que estavam transmitindo ao vivo os debates e porque o PT estava fazendo um filme sobre o processo de impeachment. Mas, logo Lewandowski decidiu. Primeiro, citou o art. 214 do Código de Processo Penal: “Antes de iniciado o depoimento, as partes poderão contraditar a testemunha ou arguir circunstâncias ou defeitos, que a tornem suspeita de parcialidade, ou indigna de fé. O juiz fará consignar a contradita ou arguição e a resposta da testemunha, mas só excluirá a testemunha ou não Ihe deferirá compromisso nos casos previstos nos arts. 207 e 208.” A seguir emendou: “Eu quero dizer o seguinte: entendo que os membros do Ministério Público e os integrantes da Magistratura têm os mesmos impedimentos, prerrogativas, vantagens e estão sujeitos às mesmas suspeições. No caso, vejo que a  testemunha, o Sr. Júlio Marcelo de Oliveira, confirma os fatos que foram irrogados pela Defesa, na medida em que S. Sª participou de um ato em que se pretendia, publicamente, agitar a opinião pública para rejeitar as contas da Senhora Presidenta da República. Penso que, como membro do Ministério Público do Tribunal de Contas, S. Sª não estava autorizado a fazê-lo; portanto, incide na hipótese de suspeição”.
A seguir, Lewandowski citou dois parágrafos do artigo 457 do Código de Processo Civil. O primeiro: “antes de depor, a testemunha será qualificada, declarará ou confirmará seus dados e informará se tem relações de parentesco com a parte ou interesse no objeto do processo.” O segundo: “sendo provados ou confessados os fatos a que se refere o § 1º, o juiz dispensará a testemunha ou lhe tomará o depoimento como informante”. Lewandowski, a seguir, concluiu, primeiro, voltando-se para Júlio Marcelo: “A meu ver, S. Sª confessou a participação nesse ato. Portanto, vou dispensar o Sr. Júlio Marcelo de Oliveira como testemunha”. E depois, falando para o plenário: “Portanto, retiro-lhe o compromisso, mas será ouvido na qualidade de informante. Está decidida essa questão.”

3. Quanto a Antônio D´Ávila, a decisão de Lewandowski foi de outro tipo. D´Ávila é o auditor do TCU que, como já explicamos em capítulo anterior, emocionou os defensores do impeachment na CEI por ter dito até que “sentiu um frio na barriga” ao descobrir o atraso do Tesouro nos pagamentos aos bancos públicos, na investigação das chamadas “pedaladas” que conduziu no final de 2014. A defesa pediu a anulação do seu depoimento. O presidente do STF negou o pedido. Disse que ele era intempestivo, ou seja, estava sendo feito fora de hora e no local errado. O advogado da presidente, José Eduardo Cardoso, já afirmou que vai pedir a anulação do depoimento de D´Ávila no devido lugar e numa devida hora. Por quê?
D´Ávila confessou, de público, ao depor, como testemunha, já no final da noite de quinta, que ajudou Júlio Marcelo a fazer a primeira denúncia das pedaladas em agosto de 2014, mesmo sendo ele a pessoa que iria apreciá-la e dar-lhe seguimento. No início de seu depoimento, horas antes, D´Ávila tinha respondido aos senadores pro impeachment reafirmando todas as teses da acusação. O senador Ronaldo Caiado (DEM – GO) o elogiou dizendo que em seu depoimento anterior na CEI, ele tinha emocionado os senadores. Leu, inclusive, trecho daquele depoimento. “Eu confesso isso a V. Exª [é D´Ávila falando a Caiado, na CEI]. Eu não acreditava que eu estava diante daquela situação. De tal sorte que, ao receber o contraditório, os argumentos da outra parte me davam um frio na barriga tão grande, porque eu falava: ´Não é possível. Eu devo estar errado. Eu devo ter cometido alguma falha no processo. Não é possível. Eu devo estar errado”. Na ocasião, nesta série, dissemos, de passagem, que D´Ávila parecia estar dizendo que o frio que sentia na barriga vinha do medo de ser contraditado. E ao que parece, a contradita veio. Quem a fez foi o senador Randolphe Rodrigues (Rede, AP).
Era noite avançada quando o senador perguntou a D´Ávila se ele, de fato, era o autor da representação apresentada por Júlio Marcelo ao TCU, em agosto de 2014, a famosa peça que deu início à movimentação da corte de contas contra as chamadas pedaladas. “Há informações, dr. D’Ávila, de que o senhor seria o verdadeiro autor dessa representação assinada pelo Sr. Júlio Marcelo. E de que teria havido uma articulação para que a referida representação fosse remetida para a sua Secretaria, contrariando, no meu sentir, o que é disposto nas regras internas do Tribunal de Contas da União. Portanto, complementarmente, eu lhe pergunto: o senhor chegou a conversar com o Procurador Júlio Marcelo sobre o tema das ditas pedaladas? O senhor teve essa conversa antes de ser apresentada a representação? O senhor, de alguma forma, contribuiu com a redação da representação ou conheceu seu conteúdo, preliminarmente?
D´Ávila, como todas as testemunhas, estava isolado num quarto de hotel até a hora de depor. Não conhecia os termos do depoimento de Júlio Marcelo. Randolphe, antes da pergunta, tinha feito uma referência ao depoimento do, já então, informante Júlio Marcelo. De qualquer modo, D´Ávila assumiu sua participação no trabalho do promotor. Disse: “Sim”. E passou a justificar-se: “Eu auxiliei o ministério Público, o Procurador Júlio Marcelo, a redigir essa representação, porque se trata de um tema muito específico; é um tema que gosto muito, é um tema que tem influência, sim, nas finanças públicas. Ele solicitou a minha ajuda, o meu auxílio, e eu jamais poderia me negar, como jamais me negarei a escrever qualquer texto. Além do mais, sou professor que atua na área. E, como professor que atua na área, eu sempre estou tratando desses temas com qualquer pessoa que seja meu aluno, [como] com qualquer pessoa que queira conversar comigo sobre essa temática.”
D´Ávila foi além disso. Sugeriu que a representação era apenas “formalmente” de Júlio Marcelo. Disse textualmente: “Formalmente a representação foi apresentada pelo Dr. Júlio e cabia a ele decidir se faria ou não. Mas, sim, conversei com ele antes da representação, passei a ele alguns conceitos, porque envolvia questões de apuração de resultado fiscal e, em função do que estava colocado nos jornais, ele queria obter maiores informações em relação a isso. Auxiliei, sim, na redação de alguns trechos da representação”.
Randolphe voltou à carga. Na primeira resposta D´Ávila tinha dito também que a Secex, a secretaria de controle externo do TCU, na qual trabalhava, era o setor certo para receber a representação de Júlio Marcelo e não havia nada errado no fato de ela lhe ter sido encaminhada. Randolphe o contradisse. Dirigindo-se a Lewandowski, falou: “Há outra questão, Presidente, que me parece curiosa […] a representação de 2014 naturalmente deveria ir para a Semag [secretaria de Macroavaliação Governamental] que tem competência normativa para avaliar violações à Lei de Responsabilidade Fiscal, [mas] foi distribuída – vejam só – para a secretaria […] onde trabalhava, circunstancialmente, quem? Dr. D'Avila. [...] Assim, a distribuição, ao que me parece, claramente foi feita para assegurar que a representação caísse justamente para a testemunha, e não para a secretaria de origem. E veja, Sr. Presidente, eu chamo a atenção para o art. 46 da resolução sobre as competências da Semag, no Tribunal de Contas da União, que diz, ipsis litteris, o seguinte: ´Realizar a fiscalização e controle de cumprimento das normas estabelecidas pela Lei Complementar nº 101 [...]´ justamente a Lei de Responsabilidade Fiscal”.
D´Ávila se defendeu dizendo que quem direcionou a representação para seu setor, a Secex, foi o ministro do TCU José Múcio Monteiro. A sessão continuou. D'Ávila respondeu a senadores interessados em outros aspectos de seu depoimento. A seguir, a advogada da acusação, Janaína Paschoal, a seu estilo, falando de temas muito amplos, tentou defendê-lo. Mas a hipótese de um conluio entre o principal defensor da tese do impeachment, Júlio Marcelo, e D´Ávila voltou ao debate. E foi o próprio D´Ávila que voltou ao assunto, preocupado em defender-se. “Em relação à interferência, jamais houve – de qualquer pessoa que seja – qualquer interferência, porque eu não aceitaria. Jamais aceitei e jamais vou aceitar, porque não considero isso correto. E repito, como já disse na Comissão Especial do impeachment, os Ministros do Tribunal jamais – jamais interferiram em qualquer trabalho que realizei desde 2004 até a semana passada, em que eu trabalhava no Tribunal de Contas da União" (D´Ávila informou que tinha saído do TCU e se tornara assessor parlamentar.
O último a falar sobre o assunto foi José Eduardo Cardoso. Ele disse que a defesa da presidente estava “absolutamente estarrecida” com o depoimento de D´Ávila. “Nós sabíamos que havia divergências dentro do Tribunal de Contas. Afirmamos, nas nossas peças [de defesa da presidente] que, curiosamente, uma das unidades que havia firmado esses pareceres não tinha sido lembrada no acórdão, por alguma razão. É estranho que um órgão que sustente a transparência, que cobre a transparência, que acuse o Governo de maquiar coisas simplesmente não aponte as suas divergências internas. Por que será? Eis que, a partir da arguição do Senador Randolphe Rodrigues, se revelou algo assustador: o Ministério Público, que é o órgão que tem independência funcional, pede o auxílio de um auditor, que tem o dever da imparcialidade funcional, para preparar uma representação onde o Ministério Público é parte, e essa representação é dirigida ao próprio auditor, fora da unidade que deveria recebê-la. É isso que nós ouvimos hoje. É o mesmo, Sr. Presidente, que um juiz auxiliasse um advogado a elaborar a petição que seria dirigida a ele, para que ele pudesse acolhê-la. É gravíssimo! […] É inacreditável o que nós estamos vendo aqui, Sr. Presidente – inacreditável!”
Passava da meia noite, já era sábado, dia 27. Cardoso concluiu: “Eu não vou prejulgar, mas me parece claro que foi violentado o Código de Ética do Tribunal de Contas da União nos arts. 5º, 13 e 14, sem embargo de ofensas funcionais com base na Lei nº 8.112, sem embargo em situações que podem ser tipificadas na Lei Orgânica do Ministério Público. Portanto, eu requeiro, Sr. Presidente, a extração, em caráter de urgência, da ata e do depoimento, para que a Defesa da Senhora Presidente da República possa, imediatamente, tomar as medidas [...] que julgar cabíveis, do ponto de vista disciplinar e outras que porventura se configurem como tipificadas, diante de um comportamento que, a meu juízo, qualifica de nulidade plena o que aconteceu nesse caso do Tribunal de Contas da União. Duvido que os Srs. Ministros saibam disso, duvido. E deverão sabê-lo. E nos encarregaremos de informá-los formalmente e de pedir as providências cabíveis, nos termos da lei, em todos os seus aspectos [...]. Senhores, é estarrecedor o que nós estamos vendo aqui hoje, estarrecedor! E em jogo está o mandato de uma Senhora Presidente da República eleita por 54 milhões de brasileiros. É isso que nós estamos vendo”.
D´Avila ainda se defendeu. Disse que não havia divergência de opinião dentro do TCU quando ele colaborou no texto de Júlio Marcelo. Que essa divergência apareceu apenas no ano seguinte, quando o governo entrou com recurso na Serur, Secretaria de Recursos do tribunal de contas, depois que saiu o primeiro acórdão pela condenação do governo. “Eu fui consultado como professor da área. […] Várias pessoas me ligam todos os dias para saber: ´D’Ávila, o que é resultado primário?´ ´D’Ávila, esse tipo de operação tem efeito no resultado primário?´ ´D’Ávila, esse tipo de operação aumenta ou diminui a dívida líquida?´ Esse tipo de pergunta me é feito por várias pessoas, por ex-alunos, por alunos atuais, por pessoas que trabalham no Senado, na Câmara ou no TCU, que já foram meus alunos, e que têm interesse. Eu tenho livros na área. As pessoas me perguntam mais como professor e como fonte de informação do que propriamente para qualquer tipo de auxílio ou para tentar burlar qualquer processo. Isso jamais existiu e jamais existirá. Eu não permito que isso seja feito e jamais permitirei”.
Depois dessas considerações de D´Ávila, Lewandowski encerrou a sessão. No dia seguinte ele decidiria não anular o depoimento do auditor por considerar o pedido intempestivo, como dissemos. Cabe agora à defesa tomar as providências que anunciou, no devido tempo e no devido lugar. Ainda no sábado, no seu longo depoimento no plenário do Senado, o ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, Nelson Barbosa, contou mais um detalhe do processo do TCU, envolvendo Júlio Marcelo. O recurso apresentado pelo governo no TCU foi, primeiro, analisado por dois auditores da Serur. A argumentação do governo foi aceita por eles Eles diziam que bastava pagar os atrasos, não era questão de punir, porque aquilo não era operação de crédito. Esse parecer foi acatado por um diretor de sub divisão da Serur. Porém, foi rejeitado pelo chefe da secretaria. Este afirmou textualmente: “porque caso se enquadrem como 'operações de crédito', estaremos diante de atos políticos-administrativos com repercussão nos ilícitos penais, administrativos e civis, enquanto, caso sejam tidos como 'prestação de serviços', estaremos diante de mora na quitação de tais despesas." Ou seja, o chefe precisava de um “ilícito penal”, não de um simples atraso de pagamento pelo qual se cobram juros de mora.
Diante disso, o ministro do TCU, Vital do Rego, demandou parecer alternativo. Quem o fez? Exatamente o doutor Júlio Marcelo. Portanto, o parecer de Júlio Marcelo substituiu o parecer da própria Serur, ignorando os pareceres dos auditores que analisaram o recurso na própria divisão. Repetindo o dito que já usamos no início desta série, do velho e sempre bem lembrado Leonel Brizola: “No hay carne y hay pastel de carne. Algo hay”. (Fonte: aqui).
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BRASIL BURLESCO


Ri, palhaço

Por Luis Fernando Veríssimo

Depois da provável cassação da Dilma pelo Senado, ainda falta um ato para que se possa dizer que la commedia è finita: a absolvição do Eduardo Cunha. Nossa situação é como a ópera “Pagliacci”, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. E acaba mal. Há dias li numa pagina interna de um grande jornal de São Paulo que o Temer está recorrendo às mesmas ginásticas fiscais que podem condenar a Dilma. O fato mereceria um destaque maior, nem que fosse só pela ironia, mas não mereceu nem uma chamada na primeira página do próprio jornal e não foi mais mencionado em lugar algum.
A gente admira o justiceiro Sérgio Moro, mas acha perigoso alguém ter tanto poder assim, ainda mais depois da sua espantosa declaração de que provas ilícitas são admissíveis se colhidas de boa-fé, inaugurando uma novidade na nossa jurisprudência, a boa-fé presumida. Mas é brabo ter que ouvir denúncias contra o risco de prepotência dos investigadores da Lava-Jato da boca do ministro do Supremo Gilmar Mendes, o mesmo que ameaçou chamar o então presidente Lula “às falas” por um grampo no seu escritório que nunca existiu, e ficou quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém. As óperas também costumam ter figuras sombrias que se esgueiram (grande palavra) em cena.
O Eduardo Cunha pode ganhar mais tempo antes de ser julgado, tempo para o corporativismo aflorar, e os parlamentares se darem conta do que estão fazendo, punindo o homem que, afinal, é o herói do impeachment. Foi dele que partiu o processo que está chegando ao seu fim previsível agora. Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha. Manifestantes: às ruas para pedir justiça para Eduardo Cunha!
Contam que um pai levou um filho para ver uma ópera. O garoto não estava entendendo nada, se chateou e perguntou ao pai quando a ópera acabaria. E ouviu do pai uma lição que lhe serviria por toda a vida:
— Só termina quando a gorda cantar.
Nas óperas sempre há uma cantora gorda que só canta uma ária. Enquanto ela não cantar, a ópera não termina.
Não há nenhuma cantora gorda no nosso futuro, leitor. Enquanto ela não chegar, evite olhar-se no espelho e descobrir que, nesta ópera, o palhaço somos nós. (Fonte: O Globo; comentários AQUI).
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Para acentuar o poder e a desenvoltura do ministro: 
Gilmar Mendes não ficou só "quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém", ficou um ano e seis meses - aqui - sentado no processo relativo a ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) sobre a proibição de doações de empresas privadas para campanhas políticas. A razão por que o ministro enfim liberou o feito: ele achava que com a aprovação, pela Câmara, de projeto de reforma política em que o financiamento empresarial era admitido, a ADI restaria prejudicada - o que felizmente não se confirmou. 

O QUE APARECEU NO NEW YORK TIMES


Fontes: aqui e AQUI.
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E assim vai seguindo a imagem do Brasil mundo afora. 

Parafraseando um velho chiste consagrado no tempo d'O Pasquim, parece lícito dizer: Partindo de uma governabilidade eivada de oportunismo e volúpia de poder, chegamos à plena ridicularização do Brasil.

Lamentavelmente.

O QUE DIZ O LE MONDE SOBRE O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF


Editorial. Première femme présidente du Brésil, Dilma Rousseff vit ses derniers jours au sommet de l’Etat. L’issue de son procès en destitution, ouvert jeudi 25 août au Sénat, ne fait guère de doute. A moins d’un coup de théâtre, la dauphine du bien-aimé président Lula (2003-2010), suspendue de ses fonctions en mai, sera définitivement chassée du pouvoir le 30 ou le 31 août. (...). - (Aqui).

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Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, está vivendo seus últimos dias no comando do Estado. Praticamente não há mais dúvidas sobre o resultado do julgamento de sua destituição, iniciado na quinta-feira (25) no Senado. A menos que aconteça uma reviravolta, a sucessora do adorado presidente Lula (2003-2010), que foi afastada do cargo em maio, será tirada definitivamente do poder no dia 30 ou 31 de agosto.

Dilma Rousseff cometeu erros políticos, econômicos e estratégicos. Mas sua expulsão, motivada por peripécias contábeis às quais ela recorreu bem como muitos outros presidentes, não ficará para a posteridade como um episódio glorioso da jovem democracia brasileira.

Para descrever o processo em andamento, seus partidários dizem que esse foi um "crime perfeito". O impeachment, previsto pela Constituição brasileira, tem toda a roupagem da legitimidade. De fato, ninguém veio tirar Dilma Rousseff, reeleita em 2014, usando baionetas. A própria ex-guerrilheira usou de todos os recursos legais para se defender, em vão.

Impopular e desajeitada, Dilma Rousseff acredita estar sendo vítima de um "golpe de Estado" fomentado por seus adversários, pela mídia, e em especial pela rede Globo de televisão, que atende a uma elite econômica preocupada em preservar seus interesses supostamente ameaçados pela sede de igualitarismo de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).

Inimiga número um de parte dos brasileiros

Essa guerra de poder aconteceu tendo como pano de fundo uma revolta social. Após os "anos felizes" de prosperidade econômica, de avanços sociais e de recuo da pobreza durante os dois mandatos de Lula, em 2013 veio o tempo das reivindicações da população. O acesso ao consumo, a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas não conseguiam mais satisfazer o "povo", que queria mais do que "pão e circo". Ele queria escolas, hospitais e uma polícia confiável.

O escândalo de corrupção em grande escala ligado ao grupo petroleiro Petrobras foi a gota d'água para um país maltratado por uma crise econômica sem precedentes. Profundamente angustiados, parte dos brasileiros fizeram do juiz Sérgio Moro, encarregado da operação "Lava Jato", seu herói, e da presidente sua inimiga número um.

A ironia quis que a corrupção fizesse milhões de brasileiros saírem para as ruas nos últimos meses, mas que não fosse ela a causa da queda de Dilma Rousseff. Pior: os próprios arquitetos de sua derrocada não são santos.

O homem que deu início ao processo de impeachment, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, é acusado de corrupção e de lavagem de dinheiro. A presidente do Brasil está sendo julgada por um Senado que tem um terço de seus representantes, segundo o site Congresso em Foco, como alvos de processos criminais. Ela será substituída por seu vice-presidente, Michel Temer, embora este seja considerado inelegível durante oito anos por ter ultrapassado o limite permitido de doações de campanha.

O braço direito de Temer, Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento do governo interino, foi desmascarado em maio por uma escuta telefônica feita em março na qual ele defendia explicitamente uma "mudança de governo" para barrar a operação "Lava Jato".

Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.

SOBRE O SITUAR-SE NO MUNDO E O TRIUNFO DO INDIVIDUALISMO

                                                  Abraão, Isaac e o anjo

Somos todos responsáveis pelo fracasso deste país

Por Sebastião Nunes

Houve uma época, quando eu amadurecia intelectualmente, em que a filosofia dominante era o existencialismo, especialmente o existencialismo ateu. Era de um radicalismo estonteante ou, como escreveu Simone de Beauvoir, “todos somos responsáveis por tudo perante todos”. Falando da missão de quem escreve, Sartre, seu companheiro, disse: “A função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele”. Em outras palavras, na opinião desses inimigos mortais do individualismo irresponsável, “ninguém é inocente”.
Esta expressão, “ninguém é inocente”, tornou-se paradigmática na minha geração, pelo menos para aqueles que se consideravam comprometidos com a ética e o futuro da humanidade. Muitos abdicaram, recuaram, fizeram-se surdos, cegos, mudos e foram ser felizes em outras praias, pois é extremamente difícil manter-se coerente. Foi de sua liberdade, da liberdade radical de dizer, escrever e agir, que Sartre, Simone e Camus nunca abriram mão, para o bem ou para o mal.
O CAVALEIRO DA ESPERANÇA
            “Kierkegaard é de longe o mais profundo pensador do século XIX”, curvou-se diante do dinamarquês um dos expoentes do pensamento filosófico do século XX, o austríaco Ludwig Wittgenstein. Filho de uma das famílias mais ricas da Áustria, Wittgenstein podia se dar ao luxo de abandonar a filosofia e se tornar jardineiro, como chegou a fazer depois de publicar seu extraordinário “Tractatus Logico-Philosophicus”, título assim mesmo, em latim, livro com que pretendeu resolver, em definitivo, todos os problemas da filosofia. Pretensão absurda? Nem tanto. Outro dos mais notáveis filósofos do século, Bertrand Russel, diante de carismático, polêmico, atrevido e genial Wittgenstein, chegou a considerá-lo seu herdeiro. Cansado de se embrenhar pelos inextrincáveis labirintos da abstração, Russel ansiava por encerrar seu trabalho, de preferência passando o bastão a um sucessor digno de seu talento.
             Mas Russel amava Wittgenstein que amava Kierkegaard que amava Regine Olsen, que não era filósofa e não se casou com nenhum deles. Como Kafka, que escreveu quase toda a sua obra para demonstrar ao pai não ser de todo inútil, Kierkegaard escreveu quase tudo para explicar a Regine que a merecia. Em ambos, o criador de absurdos literários e o pensador da radicalidade, faltava um quase nada, apenas coragem de sair da vida de papel para o mundo real. Bem ao contrário de Sartre que, já velho, ainda distribuía panfletos na rua, entre maoístas parisienses, e cujo lema sempre foi “O homem está condenado a ser livre”.
BOTANDO A MÃO NO FOGO
            Também para Kierkegaard o homem era radicalmente livre. E o homem mais livre que já existiu foi Abraão, o “herói trágico” ou, em outros termos, o “cavaleiro da fé”. Tinha liberdade absoluta para decidir o que fazer, senhor da vida e da morte e, no entanto, preso à fé no Deus que lhe prometera que “todas as nações da terra serão abençoadas em sua posteridade”. Paradoxalmente, era o menos livre de todos os homens, pois se havia comprometido pela fé. Se Deus lhe prometera imensa descendência, não havia como pôr em dúvida a ordem de Deus: “Tome o teu filho, o teu único filho, aquele que amas, Isaac; vai com ele ao país de Morija e, ali, oferece-o em holocausto sobre uma das montanhas que te indicarei”.
            Abraão estava velho, Isaac era o herdeiro, filho de sua velhice, a viagem durou quatro dias e, com tudo isto, em momento algum Abraão duvidou, nem mesmo quando ouviu: “teu único filho, aquele que amas...”.
            Essa fé desesperada era o que maravilhava o filósofo. Em sua fé absurda, Abraão esteve absolutamente só, durante os quatro dias de viagem, ele, a mula e o menino, buscando a montanha, preparando-se para sacrificar o filho em nome da fé, ou seja, em nome do compromisso que assumira com seu Deus, que lhe falava.
DE ABRAÃO AO NOSSO TEMPO
            Todos conhecem o final da história. No momento em que se preparava para sacrificar o filho, quando ergue a faca, eis que surge um cordeiro para ser imolado – salva-se a fé, e com ela o compromisso da fé.
            “Temor e Tremor”, o livro de Kierkegaard sobre o “cavaleiro da esperança”, narra apenas isto: a absoluta confiança de Abraão na promessa de Deus, de que “todas as nações da terra seriam abençoadas em sua posteridade”. É uma breve reflexão – breve em termos filosóficos, pois todos os filósoficos adoram imensos calhamaços, inclusive os desmedidos arrazoados do próprio Sartre – sobre liberdade, solidão e fé. Tornando-se absolutamente responsável pelo próprio destino, Abraão também se torna absolutamente solitário. Ao mesmo tempo, e nas palavras de Kierkegaard, “por ele se viu no mundo o que era ter esperança”. Ele se colocou, pela fé, acima do desespero e dos outros homens. Não sendo inocente, já que aceitou sacrificar o filho, se tornou responsável por tudo perante todos. Kierkegaard assinou o livro com um pseudônimo definitivo: Johannes de Silentio.
            Os existencialistas reivindicavam, como precursores, Schopenhauer, Nietzsche e Dostoievski, além de Kierkegaard. Todos deram sua contribuição na ambiciosa tarefa de pensar o sentido ético da vida humana. Se estivessem vivos, seria com desesperançada desconfiança que veriam os rumos que tomamos. Se o homem está condenado à liberdade, conforme seus princípios básicos, essa liberdade implica responsabilidade total e inabaláveis princípios éticos.
            Mas como pensar em ética e responsabilidade, quando a liberdade existencialista foi trocada pela individualista, absolutamente irresponsável, egoísta e predatória? Para o bem ou para o mal, cada época tem a liberdade – e os homens – que merece. (Fonte: aqui).

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(Ilustração: Intervenção sobre “O sacrifício de Isaac”, de Caravaggio).

NONSENSE CARTOON


Jalal Pirmarzabad. (Irã).

sábado, 27 de agosto de 2016

DA GLAMOURIZAÇÃO DO SUFOCO


Globo News dá 'pérolas coxinhas' para desempregados

Por Wilson Ferreira (No Cinegnose)

Certa vez em 1933, no Palácio dos Esportes em Berlim, um pouco antes da vitória de Hitler, dois propagandistas, um comunista e outro nazista, discursaram. O aparentemente gentil nazista insistiu que o comunista tomasse primeiro a palavra. O que o comunista sentiu como uma distinção, e começou a falar: aí veio um discurso recheado com as partes mais complicadas de O Capital sobre “contradição principal”, “taxa de lucro média” e cada vez mais cifras. O público nada entendia e assistia entediado. No final, aplausos entre regular e fraco.
Então, aparece o nazista. E foi fulminante: “quando vocês trabalham no escritório o que os Srs. e Sras. fazem o dia inteiro? Escrevem números, somam, subtraem! E o que os Srs. ouviram do Sr. orador que me antecedeu? Números e mais números. De tal forma que a frase do nosso Führer encontrou uma confirmação inesperada: comunismo e capitalismo são os dois lados de uma mesma moeda”. Então, fez uma pausa bem estudada e emendou: “Eu, porém, falo a você de uma incumbência mais alta...!”.
Guardadas as devidas diferenças, atualmente as esquerdas brasileiras continuam a assistir perplexas à eficácia como o espectro político à Direita manipula de forma eficaz as diferentes meios de comunicação. Desde que os nazi-fascistas estetizaram e despolitizaram a política (como no breve exemplo acima), as esquerdas ainda se portam como o ingênuo propagandista comunista, lisonjeado em tomar primeiro a palavra – o que na verdade foi apenas um ardil do nazista.


Ideologia e Imaginário

Enquanto as esquerdas preocupam-se com conteúdos (denúncias, críticas ideológicas, matérias investigativas que nunca terão a devida repercussão) a Direita lapida o imaginário, o verdadeiro substrato de toda ideologia.
A Direita não faz Política. Política é um espaço desinteressante, fastidioso, árido – as mesmas discussões parlamentares, políticos que nada resolvem, partidos atrelados a interesses econômicos. 
A Direita chega à Política indiretamente, por meio do imaginário e das fantasias, e não com o concreto e o imediato. Não com “conteúdos” de comunicação através dos quais, diferentemente, as esquerdas de forma teimosa insistem: filmes ou documentários sobre denúncias ou histórias de opressão, censura e exploração, por exemplo.

Imprensa é propaganda

Como disse certa vez Goebbels, ministro da propaganda nazista: “para nós, a Imprensa é propaganda com meios jornalísticos”. A Direita simula transmitir conteúdos (notícias, por exemplo), mas na verdade cria imagens, plots, narrativas.
Diante da eficácia comunicativa da Direita, as esquerdas denunciam o “monopólio midiático” e a força bruta da grana (o BV, Bonificação por Volume, pago aos anunciantes pela Globo, por exemplo). São verdades, mas não explicam totalmente o porquê da eficácia comunicativa da Direita.
Um singelo exemplo dessa construção de “imagens” e de formas comunicacionais para, indiretamente, chegar à política por meio do imaginário foi dada pela Globo News.
No programa Conta Corrente a apresentadora Christiane Pelajo falava sobre os números crescentes do desemprego apontados pelo IBGE. Números áridos que representam os jovens desempregados na faixa entre 18 e 24 anos.
Mas de repente esses números ganham concreção em um plot dramático: a história de dois irmãos que passam dois dias por semana na Avenida Paulista segurando cartazes com dizeres: “Não quero esmola, quero um emprego”. Dois jovens pernambucanos que vieram a São Paulo em busca de trabalho e até aquele momento não obtinham sucesso.
“A gente gastava muito dinheiro com ônibus e currículos e aí pensamos numa forma mais barata, só com a cartolina”, descreveram para a repórter Thais Itaqui que se dirigiu a casa dos jovens. 


Pérolas coxinhas

Uma semana depois, no mesmo programa Conta Corrente, mais notícias dos números áridos do desemprego, discussões no Congresso sobre enxugamento dos gastos do governo e... uma boa notícia: um dos irmãos pernambucanos “que apelaram para a criatividade para conseguir um trabalho” ligou para a redação da emissora para avisar que tudo deu certo. Foi empregado em uma loja de produtos orgânicos no bairro nobre das Perdizes. E a mesma repórter foi cobrir o primeiro dia de trabalho do rapaz.
O patrão foi rápido: “Ele é seu pupilo, hein!... minha esposa viu a matéria na TV e gostou da postura deles de batalhar”. “E qual o diferencial para um jovem que está assistindo a gente pode ter para arrumar um emprego nesse momento?”, perguntou a atenta repórter ao proprietário da loja.
A partir daí o entrevistado começou o desfiar o rosário dos clichês do conhecido manual meritocrático como “proatividade”, “fazer diferença”, “ser criativo”, “competitividade” e assim por diante.
Preocupado, o rapaz lembrou que só faltava agora o seu irmão ser empregado: “veja lá no vídeo do dia 17 do G1 que está a gente com o cartaz com o telefone. Liga lá que meu irmão tá precisando”, disse o rapaz entre sorrisos.
Claro, são “pérolas coxinhas” do manual do perfeito empreendedor de si mesmo. Estranha situação na qual apesar do País viver “a maior crise da história”, basta ser proativo, criativo e competitivo que achará um lugar ao sol, ou, no caso, uma luz no meio das trevas. É o sucesso do adjunto adverbial de concessão – apesar de a crise ser econômica e política, o sucesso será sempre individual.


O Conto Fantástico

Mas a força imaginária da peça ideológica que representou essa matéria do Globo News não vem do seu conteúdo – por si só um conjunto de clichês do discurso da meritocracia desgastados e repetitivos e muitas vezes irreais diante do cotidiano do próprio telespectador.
A força vem da forma narrativa (o jornalismo em busca de personagens) e das estratégias meta-midiáticas – efeito Heisenberg e tautismo.
Embora o tema do programa Conta Corrente seja desemprego, não é sobre isso que a repórter queria informar. Ela pretendia nos contar uma fábula de personagens tão oportunos e perfeitos que pareciam inventados por algum roteirista – jovens irmãos pernambucanos (que remete a todo imaginário dos retirantes em busca do Sul Maravilha fugindo do subdesenvolvimento nordestino) que não querem esmola de ninguém - mais uma referência, dessa vez às críticas a programas de assistência como Bolsa Família tidos como “esmolas”.
Não estamos mais no jornalismo mas na morfologia do Conto Maravilhoso estudada por Vladimir Propp – o herói tem um dano ou uma carência, os esforços de recuperação do dano e a superação da carência. É a própria essência do Conto Fantástico.


Efeito Heisenberg

E toda a matéria é um grande efeito Heisenberg – novamente, a Globo News não está informando. Apenas narra os efeitos da própria cobertura jornalística no mundo real criando um loop – sobre esse conceito clique aqui.
Um loop metalinguístico onde a Globo quer representar sua onipresença, a loja de orgânicos das Perdizes fazer relações públicas de si mesma e os jovens protagonistas (híbridos ficção/não-ficção) pretendendo alcançar visibilidade.
Pouco importa se o núcleo dessa pequena fábula seja irracional cujo sentido é apenas sustentado por um adjunto adverbial de concessão “apesar de” – apesar da crise e do desemprego, se você for proativo, fizer a diferença e for criativo vai arrumar trabalho.
Em síntese, o poder dessa ideologia que vem cimentando o imaginário que sustenta o atual golpe político não vem dela mesma – da falácia, da mentira. Vem do poder da forma na comunicação: a narratologia e as meta-estratégias midiáticas.
Se as esquerdas entendessem o porquê daquele propagandista nazista ter sido tão bem sucedido no Palácio dos Esportes em 1933, veria que matérias diárias como esse do Globo News não se combatem com crítica ideológica, mas com guerrilha e anarquismo midiático: pegadinhas e trolagens.
Imagine guerrilheiros midiáticos atraindo solertes repórteres da grande mídia (loucos para encontrar personagens para seus “Contos Fantásticos” proppianos) em pontos como Avenida Paulista simulando ser protagonistas de novas “notícias”. Teríamos situações perfeitas para desmoralizar a grande mídia.
Assim como apresentado no documentário O Abraço Corporativo (2009): o jornalista Ricardo Kauffman criou um perfeito personagem ficcional que repórteres tomaram como verdadeiro e irresistível para encaixar nas suas pautas, produzindo uma das maiores barrigas do jornalismo brasileiro recente - sobre o documentário, clique aqui.

DA SÉRIE EDIFICANTES EPISÓDIOS DO JORNALISMO DE GUERRA


"É repulsiva a cobertura da Globonews sobre o julgamento final do Senado sobre o golpe.
Não sou masoquista. Não vejo a Globonews porque não aprendo nada sobre jornalismo e desaprendo sobre caráter.
Mas fiquei algum tempo ali por razões excepcionais: o julgamento.
Ouviu alguma coisa estranha? Sou eu vomitando.
Nesta sexta houve um episódio exemplar.
Renan e Gleisi tiveram uma treta, como todos sabem.
Gleisi disse que o Senado não tinha autoridade moral para julgar Dilma, e Renan deu uma patada nela. Caiu sua máscara — fajutíssima desde cedo, é claro — de ‘magistrado imparcial’.
Como a Globonews tratou o assunto?
Lewandowski chamou um intervalo.
O comando das transmissões voltou à sede da Globonews, no Rio. Eis que a âncora chama três repórteres presentes em Brasília.
A primeira era Andreia Sadi, afilhada de Aécio e casada com um primo dele, também jornalista de política da Globo.
Logo em seguida, foi Renata Lo Prete. E mais Cristiana Lobo.
As três, sorridentes, narravam em tom de furo uma conversa com Renan no cafezinho do Senado. Pareciam amiguinhas no recreio do colégio.
O furo: Renan disse que recebeu um telefonema de Gleisi depois da encrenca e não atendeu.
Falo como jornalista: três repórteres da Globonews para ouvir Renan e ninguém para ouvir Gleisi?
Claro que Renan estava se gabando. O subentendido é que Gleisi ligara para pedir desculpa. Era isso que as três comadres da Globonews procuravam transmitir, para ajudar a imagem de Renan.
Mas foi isso mesmo? Gleisi deixou recado? Queria dizer o quê? Mais tarde, ela reafirmou, num dos grandes momentos desta fase final de julgamento, que o Senado não tem autoridade para julgar Dilma. Esta a frase que enfureceu Renan.
Mas repare.
Três comadrinhas tomando café com Renan e trazendo suas fofocas autocongratulatórias e ninguém com Gleisi.
Logo depois, dois compadres se juntariam a elas. Os repórteres Valdo Cruz e Gerson Camarotti. Formou-se um quinteto, e todos falando a mesma língua pró-Renan e prógolpe. Nunca tinha visto Valdo Cruz, um jornalista que me pareceu da minha geração, formada nos anos 1980: mas que repórter patético. A Globo lotou suas redações de tipos assim, fâmulos dos patrões, gente cuja missão é apenas defender a plutocracia.
Não é jornalismo. Ou especificamente: é jornalismo de guerra. Você junta um monte de pseudojornalistas para enganar o povo.
Não existe nada remotamente parecido com equilíbrio e isenção. Uma concessão pública é usada pela família Marinho para promover lavagem cerebral no público que vê a Globonews.
Ainda ontem, no Twitter, o jornalista Glenn Grenwald citou as três maiores pragas brasileiras.
A primeira delas era a Globo. Vinham depois o PMDB e Gilmar Mendes.
Mas no topo do pódio, com a medalha de ouro da infâmia pendurada no peito, reinava a Globo."



(De Paulo Nogueira, titular do 'Diário do Centro do Mundo', post intitulado "A cobertura repulsiva da Globo News sobre a fase final do julgamento do Senado" - aqui.
Tal comportamento newsglobal não causa estranheza. 

Relativamente à TV aberta, JN à frente, há quem a considere, digamos, mais habilidosa, para não dizer sutil: não incorre em 'bandeiras informais' e oferece, sim, a notícia, mas desfalcada de detalhes capazes de expor a verdade completa - quando dita verdade depuser contra o 'lado virtuoso', obviamente. Esses vácuos só são detectáveis por quem teve a oportunidade de, antes da exibição do JN e quejandos, haver-se inteirado da realidade mediante outras fontes, o que, por 'n' razões possíveis, nem sempre é fácil).