domingo, 22 de outubro de 2017

DOMINGO É DIA DE ANÉSIA


Will Leite. (WillTirando - AQUI).

UM TRÁGICO TEMPO DE ESTRANHAS TRANSAÇÕES



Paixão.

A MORTE DO REITOR DA UFSC: ESQUECIMENTO, NÃO


"Notícias da UFSC indicam que este senhor [corregedor federal] se arrogava o papel de policial, investigador e juiz. Como se fora uma cópia, intimava e intimidava professores e funcionários. Estimulava um clima de delação vingativa.  Falava aos quatro ventos que havia recebido mais de cem denúncias de professores e funcionários. Criava processos de investigação sem criar comissões de sindicância. Decretava sigilo sobre os seus atos, se negava a entregar cópia dos depoimentos. E [... com base em] sua convicção  começava a colher depoimentos  a partir de intimações (e intimidações) para  criar mais uma denúncia, que segundo ele geraria a segunda fase da Ouvidos Moucos.  Chegou a suspender um professor e anular um processo acadêmico de revalidação de disciplinas.  
Aos que não sabem, este senhor nunca pertenceu aos quadros da Universidade e não tinha competência acadêmica para julgar processos que haviam passado por colegiados da Universidade.  Professores foram obrigados a constituir advogado para os acompanharem nestas oitivas de caráter interno. Anunciou em Jornais que iria solicitar a averiguação dos últimos vinte anos de universidade. Falava em  decretar sigilo em processos administrativos, e em obstrução de justiça. Este ex-funcionário administrativo do Ministério Público em Brasília nutria no cargo de corregedor  a ilusão de ser um homem com autoridade judicial.  O resultado deste delírio de poder, alimentado pelo clima no país,  vai gerar prejuízos imensos à universidade, que já vê a paralisação de  atividades importantes. 
Tentava criar um roteiro, a partir de  questões administrativas e quiçá algumas  infrações administrativas, transformando-as em crimes e pavimentando  justificativas para um processo na esfera criminal. 
Espero que a UFSC possa depois do vendaval voltar a suas atividades."



(De 'Sabra', leitor do Jornal GGN, a propósito do recém-afastado corregedor federal da UFSC, responsável pela investigação do ex-reitor da instituição, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, tragicamente morto. O comentário foi suscitado pelo post "Após morte de reitor da UFSC, corregedor que o investigava é afastado":
"O corregedor-federal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Rodolfo Hickel do Prado, que investigava o ex-reitor da instituição que foi encontrado morto, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, foi afastado nesta sexta-feira [20], por portaria publicada pela Chefia de Gabinete da nova reitora, Alacoque Erdmann.

Hickel, que havia pedido o afastamento de Cancellier da reitoria da UFSC antes da Operação Ouvidos Moucos, e acusava o então reitor de pressionar a Corregedoria e atrapalhar as investigações, foi afastado pelo período de 60 dias "de todas as suas atividades, funções e atribuições".

A portaria informa na publicação que o motivo foi "como medida cautelar e a fim de que o servidor não venha a influir na apuração da irregularidade; a autoridade instauradora do processo disciplinar poderá determinar o seu afastamento do exercício do cargo, pelo prazo de até 60 (sessenta) dias, sem prejuízo da remuneração". O trecho é o artigo 147 da lei número 8.112 de 1990.

A UFSC também criou uma Comissão de Processo Administrativo Disciplinar para investigar os fatos relacionados à Corregedoria e o suicídio do reitor da instituição. Integram a Comissão três professores da Universidade."   AQUI.
....
A providência é oportuna, mas a trágica morte do reitor Cancellier está a reclamar medidas que extrapolem a esfera administrativa, razão pela qual ratificamos os dizeres de nosso mais recente comentário, escrito no último dia 16 - AQUI -: 

"Como já observado aqui, "este blog publicou alguns posts sobre a trágica morte do reitor Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina, ocorrida recentemente. Enquanto a OAB Nacional divulgou nota de repúdio - AQUI -, a grande imprensa brasileira, unanimemente, limitou-se a tratar o suicídio do reitor como ato desesperado de alguém com 'culpa no cartório', descartando  o acionamento do requerido jornalismo investigativo (alternativa fora do alcance da 'blogosfera'), que certamente traria à tona as reais circunstâncias do caso e os juízos de valor externados por estudiosos do Direito e outros. A Folha de S. Paulo seguiu a 'corrente impassível', comportando-se burocraticamente, como se convicta de que eventuais omissões poderiam ser 'compensadas' pela mea culpa global semanalmente oferecida por sua ombudsman. Mas há quem considere que esse assunto tem potencial para ocupar lugar relevante na História...".
Já neste post AQUI, sustentamos - e agora ratificamos - que "o martírio do reitor Cancellier já ocupa lugar marcante na História do Brasil", e demos conta de que "o senador Roberto Requião (PMDB-PR) declarou - veja aqui - que o seu projeto sobre abuso de autoridade, em trâmite no Congresso, será intitulado 'Lei Cancellier'".

Há outros posts, todos seguindo a mesma trilha dos acima apontados. 

Não nos compete atribuir culpa a quem quer que seja, como que cassando, a priori, a presunção da inocência. Mas o caso deveria repercutir - e ser escrutinado - na exata medida de sua magnitude. O suplício do reitor Cancellier, para dizer o mínimo, mereceria investigação rigorosa, caloroso debate nacional.").

NONSENSE CARTOON

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VIOLA EM NOITE ENLUARADA



Oguz Gurel. (Turquia).

O LEGADO DE CARL SAGAN, O CRIADOR DE COSMOS

Ilustração: Pedro Piccinini.

Carl Sagan: Como o criador de Cosmos criou uma geração apaixonada por Ciência

Da Revista Galileu

Os domingos de 1982 estão guardados com carinho na memória da família Aleman: foram marcados por um discreto ritual que se repetiu por 13 semanas. O término do Fantástico denunciava o avançado da hora quando Isabel, seu irmão e seus pais se reuniam na sala de estar da casa em Embu das Artes, na Região Metropolitana de São Paulo, para ouvir a palavra de Carl Sagan.
Mesmo tarde, ninguém ia para a cama antes de as duas crianças terem esgotado o arsenal de perguntas existenciais que surgiam depois que o programa acabava. Por 60 minutos, assistiam atentamente àquele astrônomo esguio, de cabelos escuros e voz penetrante, traduzir com eloquência poética o encanto do cosmos.

A bordo da nave da imaginação, livre das amarras do espaço e do tempo, ele podia viajar para onde quisesse — como as pétalas do dente-de-leão que soprou no início do primeiro episódio da série. Essa nave era o veículo perfeito para transportar 400 milhões de seres humanos, de mais de 60 nações, em uma aventura cósmica. “A maneira como ele explicava nos fazia entender e ficar fascinados por tudo”, diz Isabel Aleman, que viu Cosmos pela primeira vez aos 6 anos.

Hoje, com quase 40, é pós-doutora em Astrofísica pelo iag-usp e estuda detalhes sobre como as moléculas se comportam no meio interestelar. Ela jamais se esqueceu da influência que aquelas noites exerceram sobre a escolha de sua carreira. “Registrei em minha tese de doutorado um agradecimento a Carl Sagan pelas minhas primeiras jornadas nas estrelas.”
Algo parecido aconteceu nos anos 1990 em Brasília com Victor de Souza Magalhães.

Enquanto explorava a biblioteca do avô, ficou intrigado com uma capa que tinha uma vela estampada em fundo preto e um título chamativo: O Mundo Assombrado pelos Demônios — A Ciência Vista como uma Vela no Escuro. Folheou e encontrou referências a alienígenas, fantasmas e dragões que germinaram no solo fértil que é a mente de alguém de 15 anos. “Foi uma surpresa total quando comecei a ler e vi que era uma quebra de todas as místicas que existem por trás.”

Ele tinha em mãos a última obra escrita por Sagan, que também é considerada uma das mais relevantes por disseminar de forma profunda e acessível a importância do método científico e do raciocínio lógico na busca pela verdade, que deve ser guiada pelo ceticismo crítico. E isso às vésperas da virada do milênio, quando a pseudociência e o misticismo cresciam em ritmo galopante. “Ao terminar o livro, me dei conta de que esse era o caminho a seguir”, afirma o hoje pesquisador do Instituto de Planetologia e Astrofísica de Grenoble, na França.

Aleman e Magalhães fazem parte de uma geração de cientistas para a qual a porta de entrada na ciência foi o trabalho de Sagan, cuja morte prematura, aos 62 anos, no solstício de inverno de 1996, completa duas décadas no dia 20 de dezembro. “Grande parte do seu legado foi apresentar a jovens a ideia da ciência como uma carreira”, diz à galileu a produtora Sasha Sagan, única mulher entre os cinco filhos que o astrônomo teve em três casamentos. “Mas ele apresentou a milhões mais a ideia da ciência como uma filosofia, uma visão de mundo.”

NA INFÂNCIA
Para entender as raízes do dom de Sagan tanto para explicar conceitos complexos a quem pouco entendia de ciência como também para compartilhar a reverência que sentia pela vida e pelo cosmos é preciso explorar certos traços de sua personalidade. “Ele era, em vários aspectos, comparável a um poeta, que usava os fatos concretos do mundo para transmitir as emoções mais profundas”, afirma William Poundstone, autor de Carl Sagan: A Life in the Cosmos (sem edição no Brasil). “A relação de Sagan com a astronomia era, de diversas maneiras, uma relação espiritual.”

O vínculo começou ainda na infância, nos anos 1930. Sagan cresceu devorando livros de ciência e ficção científica. Depois de adulto, costumava mencionar um episódio que o marcou profundamente — quando os pais o levaram à Feira Mundial de Nova York de 1939. Então com 5 anos, ele ficou maravilhado com os pavilhões futuristas. “Isso mostrou que havia um mundo para além da vizinhança de classe trabalhadora do Brooklyn. Várias mostras da feira tinham visões otimistas do futuro, inclusive sobre viagens espaciais”, diz Poundstone. “Ele reteve aquele otimismo e cresceu para desenvolver sondas.”

Entre as coisas que viu naquele dia, talvez a mais inspiradora tenha sido o enterro de uma cápsula do tempo. Foi a base para um dos seus projetos mais emblemáticos: o Disco Dourado, lançado em 1977 a bordo das duas sondas Voyager. Nada mais é do que uma cápsula do tempo gravada em um vinil de cobre banhado a ouro, que já deixou o Sistema Solar e vagará pelo próximo bilhão de anos. É como uma mensagem em uma garrafa para possíveis inteligências alienígenas. Sagan coordenou a equipe que selecionou 115 imagens e 90 minutos de música que melhor representariam nossa espécie, bem como saudações em 55 idiomas.

EM CASA
“Olá das crianças do planeta Terra”, diz a gravação em inglês, que ficou a cargo de Nick Sagan, filho de Carl. Na época, sua idade era quase a mesma que o pai tinha quando visitou a Feira Mundial. Hoje com 46 anos, o escritor de roteiros e livros de ficção científica se considera honrado por participar de um projeto único como aquele. “Essa pequena saudação vai continuar muito depois que eu me for.” É o que Nick, fruto do casamento de Sagan com a artista Linda Salzman, considera o melhor exemplo de sua “infância surreal”. Ver lançamentos de foguetes era banal como brincar no parquinho.

Foi durante a infância de Nick que Carl, então já bem estabelecido na academia como diretor do Laboratório de Estudos Planetários da Universidade Cornell, começou a adquirir o status de figura pública. O apelo popular do Disco Dourado e a credibilidade de ganhar um Pulitzer no mesmo ano chamaram a atenção da mídia. O foco na carreira, porém, desgastou o casamento com Salzman, que logo acabaria. No desenvolvimento do Disco Dourado, Sagan se apaixonou pela diretora criativa do projeto, sua terceira e última esposa, com quem permaneceu até o fim da vida: Ann Druyan. “Ele deu sorte com uma mulher que era capaz de aceitar que ele era esse incurável workaholic”, destaca o biógrafo William Poundstone. “Claro que ajudava o fato de que, àquela altura, ele podia arcar com pessoas para ajudar com as crianças e com a casa, então não era um fardo sobre Ann.”

Produtora e escritora, Druyan não só aceitava os trabalhos do marido como colaborava com eles. Foi coautora de Cosmos, lançada em 1980, primeiro ano do casamento. “Eles estavam profundamente apaixonados — e agora, como adulta, consigo enxergar que suas colaborações profissionais eram uma outra expressão da união deles”, reflete a filha Sasha em relato à revista nymag. Assim como o meio-irmão Nick, ela teve uma infância surreal: a casa em que cresceu em Ithaca, cidade no estado de Nova York onde fica Cornell, era chamada de Tumba da Cabeça da Esfinge. O lugar parecia um templo egípcio e havia sido a sede de uma sociedade secreta da universidade no final do século 19.

NA UNIVERSIDADE
Sagan percebeu desde cedo que não era capaz de limitar seus interesses a rótulos da academia. Desde criança, fomentava também fascínio pela origem da vida, o que o fez se aproximar da biologia. Foi neste contexto que conheceu a primeira esposa, a bióloga Lynn Margulis, com quem teve dois filhos. Ao longo da carreira, publicou artigos científicos detalhando modelos de como poderia ser a vida em outros mundos e, com esses estudos, ajudou a fundar o campo multidisciplinar da astrobiologia.

Outra grande contribuição foi na área da ciência planetária: doutorou-se com uma tese sobre o funcionamento da atmosfera de Vênus. “Ele ensinou a seus alunos que planetas são lugares, verdadeiramente outros mundos”, diz o astrofísico David Morrison, que esteve entre esses estudantes. “Nos encorajava a pensar como seria a sensação de estar nesses outros mundos.” Cientista sênior da Nasa, Morrison foi orientado por Sagan no doutorado. “Mesmo que ele não desse a orientação técnica e detalhada que muitos orientadores dão, isso era compensado por sua amplitude de visão e por seus muitos contatos na ciência planetária.”

Os interesses peculiares e à frente de seu tempo, unidos à adulação do público e da imprensa, causavam estranhamento e até inveja em certos círculos universitários. O linguista Carlos Vogt, coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor), referência em divulgação científica no Brasil, atribui esse desconforto ao conservadorismo do meio. “Cada vez que, no mundo acadêmico, acontece essa força luminosa de um autor que é capaz de conversar com a academia e com o mundo não acadêmico e ainda viver de modo intenso, sempre há tensão”, diz o ex-reitor da Unicamp.

PARA AS MASSAS
Na Nasa, Sagan se envolveu em uma polêmica que diz muito sobre como via a democratização da ciência. Quase nenhum cientista da agência acreditava que as sondas deveriam ter câmeras fotográficas. “Sagan insistiu que o público estava pagando pelas missões, e que ele se relacionaria com as fotos, não com palavras ou números”, diz William Poundstone. “Ele finalmente convenceu os que duvidavam. Então, toda vez que você olhar para uma imagem dos planetas em alta resolução, isso é um legado de Sagan.”

Mas há sobretudo duas pessoas que são herdeiras diretas desse legado, ambas responsáveis pela continuação atualizada de Cosmos, que foi ao ar em 2014: a própria Ann Druyan, hoje presidente da Fundação Carl Sagan e produtora executiva da nova série, e o astrofísico carismático Neil deGrasse Tyson, a quem coube a apresentação da nova versão. Tyson sempre conta que em 20 de dezembro de 1975, exatos 21 anos antes da morte de Sagan, quando era só mais um negro de 17 anos do Bronx tentando escolher onde estudar, foi recebido pelo próprio Sagan em Cornell. O astrônomo lhe mostrou a universidade e o levou à estação de ônibus. Como nevava muito, Sagan lhe deu o número de telefone da própria casa. Pediu que ligasse em caso de imprevisto para passar a noite com sua família. “Tenho o dever de responder a estudantes que estão fazendo perguntas sobre o universo como um plano de carreira da forma como Carl Sagan me respondeu”, disse no talk show Horizon.

Os canais Nat Geo e Fox divulgaram que 130 milhões de pessoas em 125 países assistiram a Tyson pegar o bastão da mão de Sagan e levá-lo adiante. Entre os novos fãs está a estudante de administração Mileni Nogueira, 21, que gostou tanto da série que foi beber na fonte da original. O encanto pela retórica de Sagan foi ainda mais profundo. “A paixão que ele me passou foi tão indescritível que me inspirou a escrever um romance envolvendo viagens no tempo”, diz ela, que pretende trocar de curso para estudar física e se especializar em cosmologia. Mais um sinal de que Sagan continuará destrancando as portas da ciência aos seres humanos de todo o planeta. “Ele balançou meu mundo, tudo o que eu conhecia.”

LINHA DO TEMPO
Carl Sagan casou-se três vezes e teve cinco filhos. Em sua carreira luminosa, criou áreas de estudo, foi influente na Nasa e inspirou milhões. Veja momentos marcantes da vida do astrônomo.

1934 - Sagan nasce no Brooklyn, em Nova York. Estuda em escolas públicas e desde cedo ama livros de ciência. Aos 5 anos, visita a Feira Mundial de Nova York, evento futurista que o impressiona muito.
1951 - Ganha bolsa integral para estudar física na Universidade de Chicago. Lá conhece a bióloga Lynn Margulis, com quem tem dois filhos: o escritor Dorion Sagan e o programador Jeremy Sagan.
1960 - Obtém o doutorado em astronomia com tese sobre a atmosfera de Vênus. Nos anos seguintes, firma-se como consultor e conselheiro da Nasa, influenciando diretamente no programa espacial.
1963 - Separa-se de Margulis e passa a dar aulas de astronomia em Harvard. Logo se torna figura popular entre os alunos, mas os interesses por questões exóticas despertam desconfiança dos colegas.
1968 - Muda-se para a Universidade Cornell, onde ficaria até o fim da vida. Lá desenvolve novas disciplinas: ciência planetária e astrobiologia. Casa-se com Linda Salzman e, dois anos depois, nasce Nick.
1977 - São lançadas as sondas Voyager. Sagan lidera a equipe do Golden Record, cápsula do tempo com registros da espécie humana, e conhece Ann Druyan, diretora criativa do projeto e sua futura esposa.
1977 - O livro Os Dragões do Éden, onde discorre sobre a evolução da inteligência humana, ganha o Pulitzer de não ficção. Começam as aparições recorrentes em programas de TV e capas de revistas.
1980 - Cosmos vai ao ar pela PBS, aclamada por público e crítica. No ano seguinte, ele se divorcia de Linda Salzman. Casa-se com Ann Druyan, escritora e produtora da série, com quem tem Sasha e Samuel.
1985 - É publicado Contato, seu único romance, sobre uma mensagem de rádio recebida pela humanidade de uma civilização alienígena. Sagan também se dedica à luta contra o uso de armas nucleares.
1996 - Morre em 20 de dezembro, aos 62, em Seattle, com complicações derivadas de pneumonia. Dois anos antes, fora diagnosticado com mielodisplasia, doença que impede o desenvolvimento das células da medula óssea.  -  (AQUI).

sábado, 21 de outubro de 2017

A QUESTÃO CATALÃ ESPANHOLA



Kap. (Holanda).

REDE DE INTRIGAS


Sergei Elkin. (EUA)

O NOVO PROCESSO PENAL DO ESPETÁCULO

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Após publicado o artigo abaixo, Fábio Ribeiro, seu autor, aduziu: "Esqueci de mencionar os espetáculos do direito penal colonial escravocrata. Eles eram tão comuns que foram registrados por Jean-Baptiste Debret. Os colonos certamente ficavam satisfeitos ao ver as punições corporais impostas aos escravos condenados serem executadas por negros (de alma branca, como se dizia). Além de causar terror no respeitável público cativo que observava o suplício do condenado, a execução da pena fomentava o ódio entre os negros (e isto certamente facilitava a preservação do regime escravocrata que enriqueceu uns poucos homens livres). 
Se favelas são as novas senzalas, como disse Lobão, devemos admitir a hipótese de que os PMs são os novos negros de alma branca encarregados de supliciar seus iguais. Sendo assim, é natural que os espetáculos de violência punitiva nas favelas sejam televisionados. Vejam o que vocês fazem a si mesmos e nos deixem em paz, dizem com as imagens os herdeiros da colônia, que se beneficiam da recorrência do direito penal colonial." 


O novo processo penal do espetáculo com Raul Seixas no final

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em livros recentemente publicados e em textos divulgados na internet, alguns deles aqui mesmo no GGN, tenho visto juristas de renome criticando o “processo penal do espetáculo” e o lawfare. Estas seriam as novidades trazidas ao mundo pelo neoliberalismo que estariam se consolidando no Estado Pós-Democrático.

O fenômeno é realmente assustador, mas não me parece que ele seja novo.

A noção de espetáculo processual penal foi levada à perfeição pelos romanos. No Coliseu e em arenas menores que existiam por todo o império, os condenados comuns eram devorados por feras trazidas da África antes do início dos combates entre os gladiadores. Os próprios gladiadores podiam ser romanos livres que, vendidos como escravos em razão de suas dívidas, acabaram sendo comprados e treinados num Ludus em virtude de sua juventude e aptidão física. (Nota deste blog: Ludus Magnus: a grande escola de gladiadores - aqui).
Imaginem 40 mil romanos urrando de prazer ao ver as feras devorarem os malfeitores ou exigindo a morte de um Samnita covarde que recusou o combate diante de seu adversário tradicional (o Retiário). Imaginaram? Pois bem… Imaginem agora 40 milhões de pessoas vendo o Jornal Nacional atacar ferozmente um inimigo do clã Marinho durante 10 ou 15 minutos. Os jornalistas e especialistas convidados se revesando para não cansar o respeitável público, reforçando mutuamente seus argumentos e, em uníssono, exigindo a condenação imediata do malfeitor e sua prisão inevitável. Imaginaram? Pois bem...
A única diferença entre os dois espetáculos (o antigo e o moderno) é qualitativa. O espetáculo processual penal encenado no Jornal Nacional se desloca para a casa do espectador. Ele não precisa como um romano ir pessoalmente até a arena para ver o direito penal (no caso do condenado) e o direito civil (no caso do gladiador) atuarem sobre os corpos dos condenados.
O (espetáculo) da condenação era especialmente doloroso e público quando aplicado pelos generais romanos aos seus subordinados. Os soldados preguiçosos, covardes, indisciplinados e traidores podiam ser vergastados, submetidos ao garrote, obrigados a engolir chumbo derretido ou empurrados num abismo, sempre diante dos seus amigos. O efeito da pena era sempre duplo: ele atingia o condenado e aterrorizava os demais soldados.
Nada é mais repugnante do que ver um pai matar o próprio filho. No entanto, Tito Lívio narra o episódio em que um cônsul romano condenou seu próprio filho (Tito Mânlio) a ser amarrado num poste e decapitado porque ele venceu o inimigo numa escaramuça que não havia sido autorizada.
A técnica romana da condenação criminal espetacular atingiu um clímax quando Crasso mandou crucificar mais ou menos 6 mil escravos derrotados que haviam se rebelado sob comando de Espártaco. O espetáculo dos corpos pendurados em cruzes se estendeu pela Via Ápia de Cápua até Roma. Aqueles que faziam este percurso por razões pessoais ou econômicas, muitos deles escravos, tiveram a oportunidade única de presenciar um suplício interminável. E foram também obrigados a sentir o cheiro nauseabundo daqueles corpos mortos lentamente se decompondo à luz do sol.
Numa das províncias romanas, a Judeia, o processo penal sempre resultava no espetáculo da crucificação. Os inimigos, amigos e parentes do condenado podiam observar, apreciar ou lamentar a execução da pena. Este tipo de espetáculo se tornou tão comum na Judeia que  uma nova religião nasceu justamente por causa de um agitador até então desconhecido em Roma que foi condenado a ser crucificado no Monte das Oliveiras.
Ironicamente os responsáveis por organizar e manter a religião daquele infeliz crucificado também se transformaram em adeptos dos processos penais espetaculares. Durante a Idade Média os suspeitos e culpados eram sempre enforcados, afogados e queimados na fogueira diante do respeitável público. Os pobres europeus eram assim obrigados a aprender a temer a Deus e, sobretudo, a respeitar o poder secular ilimitado exercido pelos padres e bispos católicos.
Os espetáculos penais chegaram ao Brasil com a Inquisição. E não por acaso ao chegar à colônia, Tomé de Sousa fez uma demonstração espetacular de seu poder ao mandar despedaçar alguns índios na boca do canhão. Imaginem a cena…
Um pobre índio sendo levado e amarrado na peça de artilharia que havia sido adequadamente carregada. O vice-rei faz seu discurso em português castiço, uma língua que os mamelucos e indígenas presentes provavelmente não entendiam. Os soldados coloniais encarregados da execução ansiosos, porque provavelmente nunca antes haviam visto algo semelhante. Continuem imaginando.
Vestido a caráter, chapéu adornado com plumas na cabeça, o vice-rei dá o comando. A tocha se aproxima lentamente do ouvido do canhão. A pólvora entra em ignição, um estrondo e o corpo do índio é despedaçado pelo projétil. Segundos antes ele estava vivo provavelmente gritando imprecações em sua própria língua. O silêncio após o disparo é geral. O índio está morto, os pedaços dele espalhados nas proximidades. Lambuzadas de sangue, de urina ou de fezes, as pessoas que estavam mais próximas do canhão se retiram ruminando desprezo ou satisfação.
O espetáculo tem que continuar. Séculos depois o alferes Tiradentes seria condenado, enforcado, esquartejado e seus pedaços espalhados pela colônia.
“JUSTIÇA que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constituiu chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberana e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde.
MANDA que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta Cidade ao lugar da forca e nela morra morte natural para sempre e que separada a cabeça do corpo seja levada a Vila Rica, donde será conservada em poste alto junto ao lugar da sua habitação, até que o tempo a consuma; que seu corpo seja dividido em quartos e pregados em iguais postes pela estrada de Minas nos lugares mais públicos, principalmente no da Varginha e Sebollas; que a casa da sua habitação seja arrasada, e salgada e no meio de suas ruínas levantado um padrão em que se conserve para a posteridade a memória de tão abominável Réu, e delito e que ficando infame para seus filhos e netos, lhe sejam confiscados seus bens para a Coroa e Câmara Real. Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792, Eu, o desembargador Francisco Luiz Álvares da Rocha, Escrivão da Comissão que o escrevi. Sebão. Xer. de Vaslos.”
O espetáculo desta execução penal segue servindo de paradigma para a atuação da nossa triste justiça colonial. Para atender a Rede Globo, legítima representante da Embaixada dos EUA no Brasil. O réu José Dirceu (condenado porque não provou sua inocência) foi desnecessariamente transportado de São Paulo para Brasília. Ele tinha que ser filmado algemado, tinha que ser visto descendo do avião e chegando à Papuda. Se pudessem separar a cabeça dele de seu corpo, para pendurá-la no mastro de uma bandeira qualquer, o espetáculo teria sido completo.

Lula disse recentemente que a imprensa dá um tiro de canhão nele todo dia. Ele está rigorosamente certo: a imprensa e a Justiça estão despedaçando ele na boca do mais atroz e moderno de todos os canhões, aquele que desumaniza a vítima antes dela ser tratada de maneira desumana. Desgraçadamente o canhão usado contra o Lula não é real, diriam alguns jornalistas globais e milhões de telespectadores ávidos para ver o triunfo do velho processo penal romano, medieval e colonial.
É por isto que não posso concordar com os juristas que dizem que estamos diante de uma inovação. Esta porra toda que estamos vendo é muito antiga, velha demais mesmo, mano. Pronto, depois de falar sério resolvi surtar. A imprensa, os juízes e os juristas “jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha” https://www.youtube.com/watch?v=PRZa3c6y07M e, então, eu também vou reclamar https://www.youtube.com/watch?v=a0pHi0jMdOk.  -  (Fonte: Jornal GGNaqui).

TUBARÕES DA INDÚSTRIA DEFENDEM PORTARIA SOBRE TRABALHO ESCRAVO


Bruno Aziz.

CERTAS EXPRESSÕES


Samuca.

OS SERES VIVOS E SUA COPIADORA 3D

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O post abaixo, de Gustavo Gollo, se insere na abordagem 'Sobre a Teoria da Evolução' , à qual se seguiu "Teoria da Evolução", publicadas originalmente no Jornal GGN, e reproduzidas neste blog - aqui  e AQUI -, esta última, aliás, contestada/'reparada' por leitores-comentaristas do referido saite (saite, como escrevia Millôr Fernandes!), mas que não deixa de representar um enfoque interessante. (Vale a pena, pois, clicar no 'aqui', acima, e lê-la).


Genética

Por Gustavo Gollo

Uma vez que cada ser vivo é construído de maneira muito precisa, é necessário que existia algo análogo a um manual de instruções para sua construção. Não existisse alguma coisa desse tipo, e seria impossível a construção precisa de seres tão absurdamente complexos. A mera existência de tais seres, construídos em série, como réplicas, assegura a existência da informação capaz de coordenar e executar sua construção e manutenção.
Em um primeiro relance, pode-se pensar que esse “manual de instrução” para a construção e manutenção do ser vivo esteja, todo ele, contido no material genético do indivíduo, e que seu código genético corresponda exatamente a esse manual. Creio que os processos biológicos naturais não transcorram de maneira tão organizada, o que me faz pensar que tal informação esteja espalhada por todo o corpo do indivíduo e, eventualmente, até fora dele, sendo necessário que a ordem exata se manifeste no momento oportuno, mesmo que de um modo enviesado a nossos olhos. Quero dizer, não creio que o manual de instrução para a construção dos seres se apresente sob uma forma de organização reconhecivelmente humana, mas que surja de uma forma que perceberíamos como uma enorme bagunça.
Assim, suponho que o material genético dos indivíduos corresponda a uma parte dessa informação, mas que outra parte das instruções necessárias para a construção e manutenção dos indivíduos esteja contida na bioquímica das células (citoplasma, nucleoplasma, membranas, etc.), na anatomia dos indivíduos, e até no meio ambiente. (Chamo a todo esse conjunto o “genótipo estendido”, em analogia ao conceito de “fenótipo estendido”).
De um modo ou outro, os seres vivos necessitam possuir algo análogo a uma copiadora 3D e um sistema de leitura para a execução das instruções que comporão seu corpo e regerão seu comportamento. Esse mesmo conjunto deve ser replicado e repassado a cada descendente. O material genético corresponde, certamente, a grande parte desse aparato, necessariamente complementado por outro.
Em um sentido estrito, é esse o escopo da genética, da gênese, ou construção de um indivíduo, cuja compreensão pressupõe a analogia dos seres vivos com copiadoras regidas por softwares. Seres vivos são máquinas de autorreplicação.
Convém lembrar que, tradicionalmente, a palavra “genética” recebeu um outro significado, decorrente dos trabalhos de Gregor Mendel referentes à hereditariedade de certas características, e posteriormente associado aos cromossomos e ao genoma.
O breve esboço apresentado acima preenche uma lacuna centenária no estudo da genética tradicional, que embora bastante desenvolvido, sob vários aspectos, nunca deu atenção àquilo que constitui o seu próprio cerne.  -  (AQUI).

TEORIA DA EVOLUÇÃO

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Eis o 'post I' da série "Sobre a Teoria da Evolução", anunciada em post reproduzido neste blog na 'edição' do dia 15 - AQUI. A leitura deixou a impressão de uma certa 'aura religiosa' (resumida no grão de areia) na exposição, entre outros 'vacilos', o que não passou despercebido a muitos críticos (leitores), que 'esperavam' algo diferente, à vista do sugerido pelo articulista no post de apresentação acima apontado. A ressalva, porém, não nos impede de recomendar a leitura da abordagem, bem como dos comentários a que ela deu ensejo.


Teoria da evolução

Por Gustavo Gollo

O conceito central na teoria da evolução é o de replicador.
'Replicador' é qualquer entidade capaz de gerar cópias, ou réplicas, de si mesmo, ou seja, de se replicar.
Semeie um mundo com um replicador. Após algum tempo, o replicador terá se replicado, gerado uma réplica de si, povoando o mundo, nesse momento, com 2 replicadores.
Novas replicações gerarão 3, 4... muitas cópias do replicador original, réplicas que herdarão a característica definitória do replicador original: sua capacidade de se replicar.
'Replicadores estritos' são aqueles que geram réplicas exatas de si mesmos.
Exemplos de replicadores estritos: bits em um computador, nêutrons em uma reação nuclear em cadeia, ligações iônicas em um cristal.
Replicadores não-estritos geram cópias similares a si mesmos, mas não idênticas.
Exemplos de replicadores não-estritos: animais, células, sementes.
Semeado em um mundo, um replicador estrito o povoará com uma infinidade de réplicas idênticas a si. Em uma primeira aproximação, podemos considerar tais mundos monótonos e sem interesse.
Replicadores não-estritos geram cópias similares de si. Tais réplicas tendem a herdar características de seus progenitores.
Seleção natural
Replicadores diferenciados tendem a diferir em suas capacidades de replicação, sendo alguns mais eficientes nessa atividade, replicando-se mais rapidamente que outros.
Suponha um mundo vazio sendo semeado com 2 tipos de replicadores, A e B, o tipo A capaz de se replicar em um mês, o tipo B necessitando de um ano para gerar uma cópia de si.
Após um mês, o mundo estará povoado por 2 indivíduos de tipo A, o original e uma réplica. Após 2 meses, serão 4. Em 3 meses, serão 8, e em 12 meses, serão 212 ou seja, 4096 indivíduos do tipo A.
Nesse momento, o replicador tipo B estará gerando sua primeira cópia.
Ao fim do segundo ano, os replicadores A, idealizados acima, terão gerado 4096 x 4096 indivíduos, ou seja: 16.777.216. Nos anos subsequentes esse número tenderá a ficar bem grande.
Podemos imaginar replicadores imateriais, como imagens em sonhos, e fantasias em geral, capazes de se replicar imaterialmente, sem necessitar de recursos, constituindo apenas sonhos.
Replicadores materiais, no entanto, necessitam de recursos materiais que o constituam.
O crescimento exponencial, típico dos replicadores, tende rapidamente a quantidades descomunais. Em um mundo finito, isso significa que, em dado momento, os replicadores materiais esgotarão os recursos disponíveis para a sua própria construção.
Nesse momento, a competição entre os replicadores pelos recursos para a replicação acirrará aquilo que Darwin denominou “seleção natural”, quando a exclusão competitiva eliminará as linhagens menos eficientes em se replicar, estabelecendo a predominância de linhagens cada vez mais eficientes.
Esse foi o grande vislumbre de Darwin, o cerne de sua teoria que, na versão original, não faz referência a replicadores.
A versão de Darwin é eminentemente biológica. A que proponho aqui constitui uma generalização dessa versão, aplicada a sistemas replicativos em geral. Fundamenta a área de estudos denominada “biologia generalizada”, uma generalização da biologia que agrega em um único campo a biologia, as ciências humanas, a vida artificial, e os fenômenos termodinâmicos pré-bióticos tendentes à acumulação de complexidade, ou seja, todo o conjunto de fenômenos regidos por seleção natural.
Replicadores estritos
Comentei acima que, aparentemente, um mundo povoado por replicadores estritos, capazes de gerar apenas réplicas idênticas a si mesmos constitui um mundo monótono e sem interesse.
Mas, suponha um mundo povoado por 2 tipos de replicadores estritos, digamos A e C, capazes de se aglomerar em grumos. Com o passar do tempo, tais tipos, gerarão uma enorme quantidade de réplicas, cada uma delas idêntica a seu progenitor.
Sendo capazes de se agrupar, tais seres se aglomerarão em sequências como, AAACA, ACACCC, CCCA, CCCCAACCCACAAA, entre inúmeras outras variações.
Esses grumos podem ter taxas de replicação diferenciadas, sendo uns deles mais eficientes que outros na tarefa de se replicar, replicando-se mais que outros. Tais grumos se comportarão como replicadores não estritos, competindo pelos recursos de seu próprio meio. Grumos mais eficientes acabarão predominando ao longo do tempo. Grumos menos eficientes tenderão à extinção. Um mundo povoado por tais grumos tende a adquirir complexidade crescente.
A origem de nosso mundo, um breve delírio
Suponha que nosso mundo tenha sido povoado, inicialmente, por uma infinidade de seres díspares, cada um deles original e único, diferente de todos os outros, interagindo entre si louca e absurdamente, gerando, cada interação, novos seres, cada um deles único, diferente de todos os outros.
Terá passado um enorme tempo – tempo que não poderia ser medido, em meio à diversidade total – até o surgimento de um ser anômalo, o mais estranho de todos eles, em meio à infinidade absoluta de formas díspares, um ser capaz de, ao interagir com outros, gerar uma réplica de si mesmo.
Em meio à mais profusa diversidade, à desordem total, o estranho ser acabou por gerar uma cópia de si, tendo levado mais um tempo até que as réplicas produzissem novas cópias, mas assim o fizeram. Essas geraram outras, que geraram outras, engolindo tudo à sua volta, e se replicando.
Terá surgido, assim, aquilo a que chamamos matéria.
Perdoem-me a breve digressão metafísica, desnecessária, mas bela. Uma cosmogonia baseada em replicadores explicaria o surgimento da ordem, talvez do tempo.
A origem da vida
Grãos de argila existem em profusão no planeta. Constituem pequeninos cristais muito abundantes, sujeitos a interações com todos os tipos de micropartículas e sais presentes no ambiente, que aderem a sua superfície.
Ao sabor das ondas, em cada praia, minúsculas partículas interagem desde sempre, umas com as outras. Talvez tenha ocorrido numa dessas a fagulha inicial do primeiro replicador, um grão de argila envolto em sais, capaz de manter sua estrutura e moldar outros grãos com formas similares à sua, sendo tais cópias, mesmo imperfeitas, capazes de gerar novas cópias, compondo uma profusão de grumos imperfeitamente assemelhados, alguns deles tendentes a se manter mais tenazmente que outros e a gerar mais cópias de si. Grãos mais aptos que outros tendem, por essa razão, a gerar mais cópias de si. Dentre essas, naturalmente, serão as mais eficientes na capacidade de se replicar as que gerarão mais cópias, todas sujeitas a esse mesmo princípio chamado seleção natural. O resultado disso é o aperfeiçoamento contínuo da capacidade de replicação de tais seres e o aumento de sua complexidade. Trata-se da dinâmica da vida.
Um comentário
Não é necessário que a vida tenha surgido dessa maneira precisa, em torno de um grão de argila, ideia que me agrada e propicia uma boa ilustração do fenômeno. De algum modo, no entanto, um primeiro replicador, muito simples, surgiu no planeta há bilhões de anos. Sujeito à seleção natural, de maneira análoga à descrita acima, tal ser gerou réplicas mais eficientes em se replicar que ele próprio, réplicas que geraram outras ainda mais eficientes nessa ação. Toda a dinâmica da vida decorre desse evento primordial, como um enorme incêndio resultante de fagulha inicial.O resultado, ao longo das eras, é a vasta diversidade e complexidade que vemos hoje, um milagre extraordinário, o maior espetáculo da Terra.
Deslumbremo-nos.
 
(Fonte: aqui).
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NONSENSE CARTOON

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Chuva farpada


Sergei Elkin. (EUA).

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O FASCISMO FRENTE AOS PROBLEMAS ECONÔMICOS DO BRASIL


Como o fascismo resolveria os problemas econômicos do Brasil?

Por Fernando Horta

Não é novidade dizer que o fascismo surgiu e ressurge sempre em momentos de grave crise econômica. A “Marcha sobre Roma”, de Benito Mussolini e seus “Camisas negras”, ocorreu em 1922 e a chegada de Hitler ao poder ocorre em 1933, justamente durante o que a História chama de “Período Entre-Guerras”. Além da crise provocada pela primeira guerra mundial, o fascismo se alimentou – e muito – da crise de 1929. A situação na Alemanha ainda precisa ser avaliada em função do Tratado de Versalhes (1919) que obrigava a Alemanha (por ter sido responsável pela primeira guerra, segundo o Tratado) a pagar imensas somas aos países vencedores. Neste cenário, é unânime entre os historiadores o argumento de que as crises econômicas acabam por servir sempre de combustível para o radicalismo fascista.

As crises afetam diferentemente os estratos da sociedade. As elites econômicas se vêm ameaçadas pelo número cada vez maior de insatisfeitos com a sociedade e passa a demandar maior “controle”, “leis”, e presença do Estado contra os “insatisfeitos”. Junto vem todo aumento das condenações morais contra a pobreza. Imediatamente se tornam “vagabundos”, “desordeiros”, “aproveitadores” ... pintados como a escória da sociedade, a quem se vai sempre aumentando o rosário de adjetivos negativos, com o objetivo de desqualificar suas demandas, seu local na sociedade e chegando mesmo ao ponto de desqualificar sua existência.

As classes médias se vêm em processo de empobrecimento acentuado, aproximando-se das condições dos estratos mais baixos e, portanto, do seu pior pesadelo. Acabam se tornando presas fáceis para discursos de ódio e de preconceito contra minorias, ou quaisquer desafetos que possam ser colocados na mira destes grupos. A moral sempre joga papel importante, fazendo parecer que o mérito da classe média não está presente em outros grupos sociais. Só a classe média trabalha, só ela estuda e se ela se esforça para ter uma vida “melhor”. Ninguém mais. Os ricos assim o são por nascimento, e os pobres por incapacidade ou leniência. A classe média se torna cada vez mais fechada em si, a defender um modelo de sociedade inexistente: aquele conservador, ordeiro e respeitador da ordem, temente a Deus, às tradições ...Amém.
As populações mais pobres acabam sendo lançadas ao fascismo sob duas condições: (1) que tenham afinidades raciais e religiosas com as elites e (2) que aceitem a “meritocracia” como base de sua vida e de sua ação social, rejeitando assim qualquer ideia de insatisfação para com a sociedade. A insatisfação do pobre, para ser aceito no novo pacto fascista, deve ser sempre consigo mesmo. Insatisfação por “trabalhar pouco”, “ser malformado”, ter “poucas capacidades de entrar no mercado de trabalho” e todo o discurso da “meritocracia”, desenhado para manter estas populações como mão de obra barata. “Que se tiver o que comer deve levantar as mãos para o céu”, segundo o prefeito de São Paulo, um dos grandes representantes destas ideias. Para sobreviverem, os que estão habilitados (cumprem as duas exigências), recebem o que comer e podem, literalmente, sobreviver sob a tutela das elites, que posam assim como “benfeitores”.
Os pobres, para serem aceitos no pacto fascista devem ser brancos e cristãos. Em qualquer modelo de solução das crises econômicas sempre figura aberta ou implicitamente uma ideia de diminuição do conjunto de pessoas a quem as soluções se aplicam. E o primeiro corte é sempre o racial. Mesmo em soluções não totalitárias (como foi o New Deal americano) existiu um enorme segregacionismo com populações não brancas. Se ajuda apena “aqueles que querem ser ajudados” e aí está a primeira forma de sair da crise: diminuir o número de pessoas que demandam, que são reconhecidas como “legitimamente insatisfeitas”. E aqui entra o racismo, como vimos recentemente com o caso do atentado terrorista da Somália. Atentados sobre pessoas brancas e europeias levam às lágrimas, sobre negros na África não recebem o mesmo tratamento.
Ocorre, portanto, um genocídio disfarçado pelo “mercado de trabalho”. As populações não brancas acabam não apenas como as mais afetadas pelo ambiente da crise econômica, mas também acabam ficando de fora de qualquer plano estratégico de solução econômica ou social.
O fascismo só oferece solução econômica para os problemas da sociedade aumentando a expropriação sobre os trabalhadores brancos, aumentando os lucros das elites capitalistas e segregando de qualquer pacto os não brancos ou não cristãos. Ainda, existe um sobrepeso social e econômico sobre as mulheres que se vêm privadas de suas conquistas e colocadas novamente em situação de serviçais domésticas e reprodutoras, alijadas de qualquer participação política.
Não foi à toa que Temer montou todo um ministério sem qualquer mulher. Também não foi sem razão que Bolsonaro levantou o tom das agressões e desumanização contra negros. Não pode passar despercebido o fato de que têm aumentado imensamente a violência contra as mulheres, contra as diferentes religiões não cristãs e que agora, a pobreza passou a ser definidora negativa de caráter.
É preciso excluir para recuperar a economia. Aqui está o ponto de aproximação entre os liberais e os fascistas. Não há espaço para todos no “orçamento”. E quem serão os “escolhidos” que poderão entrar? Os meritocráticos brancos, ricos ou de classe média. Para os pobres sobra a regra de terem que ser brancos, cristãos e concordarem que suas falhas de caráter (falta de preparo e leniência) são responsáveis pela sua condição social. Eles precisam concordar em serem quase escravizados e nisto poderem ter o mínimo para sobreviver.
Esta é a solução que está sendo implementada hoje no Brasil. O afrouxamento das regras para coibir o trabalho escravo é apenas a transferência do mesmo plano econômico e social agora para o campo. Afinal, os grandes proprietários de terra querem também participar do novo pacto social de “reconstrução do país”. Reconstruir com a superexploração de pobres, negros, mulheres e trabalhadores do campo. É preciso que todos deem a sua contribuição, dirão cinicamente eles.  -  (Fonte: AQUI).
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"Não foi à toa que Temer montou todo um ministério sem qualquer mulher."
De fato, Temer alijou as mulheres na montagem de seu ministério. Após fortes críticas, nomeou, em 3 de fevereiro deste ano, a senhora Luislinda Valois como titular do ministério dos Direitos Humanos, que acabara de criar (aqui) -, ministra, por sinal, que até o momento silencia acerca das medidas sobre trabalho escravo adotadas pelo governo de que faz parte.
Dois entre os comentários feitos a propósito do post acima:
"O fascismo resolveria os problemas econômicos do Brasil melhorando ainda mais a vida dos proprietários e dificultando ainda mais a vida dos despossuídos." [Rui Ribeiro]
"Sobre a imposição à Alemanha, e o nascimento do Nazismo vale a pena ver esse video!
https://www.youtube.com/watch?v=0mx9t7HpsNk . [Mário Mendonça]).

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ADENDO EM 21.10

A propósito da observação acima (em negrito) sobre a omissão da ministra Luislinda Valois, dos Direitos Humanos, cumpre registrar:


"A ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, afirmou que a portaria do Ministério do Trabalho que altera a conceituação de trabalho escravo e muda as regras para a fiscalização da prática 'fere, mata, degola e destrói a lei da abolição da escravatura', em referência à Lei Áurea, assinada em maio de 1888. (...)."  -  (Para continuar, clique AQUI).