sexta-feira, 31 de julho de 2015

A GEO GUERRA MUNDIAL

               (O sistema tradicional exulta... enquanto China/BRICS se
                   aproximam, ameaçadores. A guerra, porém, está apenas começando)

Paresh Nath.

OS EUA E A SUPREMACIA DO INTERESSE NACIONAL


Como se faz uma potência: o caso Von Braun

Por André Araújo

Ao fim da Segunda Guerra a Alemanha desenvolveu armas novas e altamente destrutivas impulsionadas por foguetes, as bombas voadoras V-1 e V-2. O pai dessas armas foi o Major SS Werner von Braun, cientista e nazista, que desenvolvia projetos bélicos durante toda a Segunda Guerra.

As armas foram produzidas com trabalho escravo de trabalhadores russos e judeus do campo de Mittelbau-Dora. Se Von Brau não despertasse o interesse dos EUA seria julgado culpado no Tribunal Internacional de Crimes de Guerra de Nuremberg, onde TODA a SS foi declarada criminosa, além disso as bombas V-2 foram declaradas crimes de guerra porque matavam civis de forma indiscriminada, destruíram grande parte do centro de Londres matando milhares de civis.

Mas os EUA eram e são uma potência geopolítica; então sua lógica coloca a justiça em escala mais baixa do que o interesse nacional. O Major SS Von Braun teve seu passado apagado com borracha e resgatado pelo Exército que o enviou em 20 de setembro de 1945 para os EUA com seus colaboradores e  familiares, com ficha limpa, casa, comida e salário.

Alguns resmungos de Promotores (sempre eles) foram ignorados. O agora ex-Major SS tornou-se cidadão americano de 1ª classe; naturalizado americano em 1955, foi nomeado Diretor da Agência de Mísseis Balísticos do Exército dos EUA. Von braun foi o pai do Projeto Apolo, que levou o homem à Lua. Von Braun fundou e foi o primeiro Presidente do Instituto Espacial Nacional e ganhou o Prêmio Nacional de Ciência de 1975.

Na década de 70 Von Braun foi membro do Conselho de Administração da Daimler Benz, fabricante dos automóveis Mercedes Benz. Morreu em 1977, deixando esposa e três filhos. Von Braun teve intensa vida amorosa antes e durante a guerra, com muitas ligações e affairs.

Von Braun foi resgatado e purificado pelos EUA, assim como cerca de 12.000 nazistas dentro da Operação Paperclip.

Outro famoso foi o General Reinhard Gehlen, chefe da Inteligência do Exército alemão no Leste, que trabalhou para a CIA até o fim da vida, como Chefe do Centro de Inteligência para a Europa do Leste em Pullach, perto de Munich.

A lição dessas ações é que o objetivo de INTERESSE NACIONAL é superior à importância de se aplicar justiça a um indivíduo. O INTERESSE NACIONAL supera outros interesses, nessa escala a justiça tem pequeno peso. Interesses econômicos, geopolíticos e militares são mais importantes e, se necessário for, devem ser descartados em benefício do INTERESSE NACIONAL, que diz respeito à sobrevivência do País.

O Brasil evidentemente não tem nenhum interesse em ser potência; escolheu ser um cartório bem chinfrim. (Fonte: aqui).

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De fato, von Braun e milhares de outros cérebros foram assimilados de bom grado pelos EUA - que travavam disputa acirrada com a URSS pelo domínio mundial. Ou fariam o que fizeram, ou... 

No Brasil, o prolongadíssimo processo da Lava Jato está afetando de modo contundente segmentos econômicos estratégicos, como a indústria naval, e a tese de que as grandes empreiteiras podem ser substituídas por empresas menores não se sustenta, por motivos diversos. À morosidade processual se junta a objeção por parte do MPF à alternativa da celebração de acordos de leniência (muito embora tal objeção não tenha 'força de lei', felizmente). Mas, 'tudo bem': a morosidade processual se basta: seu potencial danoso está sendo demonstrado com folga. Diante do quadro desolador que se instala, o caminho, depois de a terra estar arrasada, seria o de abrir as portas a empreiteiras estrangeiras. Ao que analistas como André Araújo indagam: E o interesse nacional, como fica?

O caso, não há dúvida, é complexo - mas a indagação/preocupação do articulista é extremamente procedente.

O QUE DETERMINOU O REBAIXAMENTO DA GLOBO

"Ontem o Globo deu mais uma de suas manchetes contra Dilma.
Era mais ou menos isso: “Agora Dilma culpa a Lava Jato pela crise econômica”.
É que Dilma dissera que a Lava Jato estava cobrando um preço sobre a economia do país, com o cerco prolongado – e para muitos exagerado – a grandes empresas nacionais.
Tudo isso posto, seria interessante saber como o Globo daria na manchete o rebaixamento de sua nota pela agência de avaliação S&P, uma das maiores referências para grandes investidores de todo o mundo. Bancos também consultam a S&P quando examinam o pedido de empréstimo de uma corporação para minimizar o risco de calote.
Tenho a convicção de que o Globo terceirizaria a culpa, no mesmo estilo que o jornal criticou tão brutalmente em Dilma.
“Instabilidade na economia brasileira faz nota da Globo baixar”: seria mais ou menos esta a manchete.
E seria a linha seguida pelos comentaristas econômicos da casa, de Míriam Leitão a Sardenberg.
A Globo foi vítima, portanto.
Tudo bem, não fosse isso um sensacional autoengano.
Não que a turbulência do momento na economia não possa ter tido algum peso. Mas o grande fator do rebaixamento está na própria Globo.
A Globo opera num setor – a mídia – que passa por um processo que vai além de transformação. Estamos diante de uma disrupção. Ou, para usar um célebre conceito de Schumpeter, presenciamos na mídia uma “destruição criativa”.
Morre um mundo, aquele em que a Globo parecia inexpugnável, e ergue-se outro em que a empresa é mais um na multidão.
A internet está fazendo com as companhias tradicionais de jornalismo o que os automóveis fizeram com as carruagens há pouco mais de cem anos.
Sabia-se, faz tempo, que a mídia impressa estava frita. Mas se imaginava que a televisão poderia escapar da internet. Não. Os sinais são claros de que o destino da tevê como a conhecemos – aberta ou paga – é o mesmo de jornais e revistas.
A internet está engolindo a televisão. Em seus tablets ou celulares, as pessoas vêm vídeos como querem, na hora em que querem – e sem precisar de emissoras de tevê.
A Reuters acaba de lançar um serviço de vídeo cujo slogan diz tudo: “O canal de notícias para quem não vê mais televisão”.
Bem-vindo ao Novo Mundo.
Nele, os protagonistas serão empresas como Netflix, e não Globo ou qualquer outra emissora.
Como esquecer um depoimento recente de Silvio Santos, ao vivo, no qual ele disse não ver televisão? SS afirmou que gasta seu tempo com a Netflix, e recomendou aos espectadores que fizessem o mesmo.
Quanto tempo até os anunciantes fazerem, no Brasil, o mesmo percurso dos consumidores e irem para a internet?
No Reino Unido, a internet em 2015 responderá por metade do bolo publicitário. No Brasil, o pedaço digital está ainda na casa dos 15%.
Todas as audiências da Globo, do jornalismo às novelas, despencam sob o impacto da internet.
O Jornal Nacional se esforça para não cair abaixo dos 20 pontos, e novelas em horário nobre, como Babilônia, descem a abismos jamais vistos na história da emissora.
O público se retirou, e quando os anunciantes fizerem o mesmo, o que afinal é inevitável, a Globo estará em apuros sérios, como é o caso, hoje, da Abril.
Na internet, a Globo jamais conseguirá reproduzir a dominância que tem na tevê – e muito menos os padrões multimilionários de receitas publicitárias.
Tudo isso pesou na avaliação da S&P.
A Globo tenderá a justificar seu rebaixamento colocando a culpa em Dilma, mas o problema está nela mesma.
Sobra a piada que a Globo usou contra Dilma.
'Dilma é culpada até pelo rebaixamento da Globo.' "




(De Paulo Nogueira, em seu blog 'Diário do Centro do Mundo', post intitulado "Por que a Globo foi rebaixada?", reproduzido no Jornal GGN - aqui.

Enquanto Google e Netflix tomam corpo no Brasil, a Globo se preocupa em  a) torcer para que o sistema 4G encalhe, ou sofra atrasos, visto que dele depende a expansão mais agressiva da internet;  b) manter o BV, bônus de volume, curioso critério de distribuição de recursos para as agências publicitárias parceiras;  c) preservar suas atrações exclusivas, etc, etc. E por aí vai...).

O FATOR DARWIN


C J Madden.

UMBERTO ECO: A MIDIÁTICA MÁQUINA DE LAMA, O NOME DA ROSA, OS IMBECIS E OUTROS TEMAS


Umberto Eco: "Todo fundamentalismo quase sempre se baseia em informações falsas"

Umberto Eco é um italiano que olha a realidade com óculos especiais. Defini-lo como escritor e crítico literário seria muito pouco. Também seria insuficiente nominá-lo como linguista; esse piemontês de Alexandria, de fama internacional, é também filósofo e um ensaísta vivaz. Semiólogo, usa a ciência dos símbolos como um esquema mental. Grande apaixonado pela Idade Média, produziu obras como O Nome da Rosa, de 1980, um suspense filosófico ambientado no ano de 1327, que virou best seller, e inspirou um filme com Sean Connery. Estudioso do fenômeno da comunicação, foi um dos primeiros por aqui a falar de linguagem televisiva. Acompanhou o nascimento da televisão italiana e do pensamento americano sobre a TV. Um princípio fundamental da sua narrativa é a suspeita, a desconfiança no que se diz. Umberto Eco põe em discussão qualquer interpretação sobre os fatos. Na sua casa em Milão ele nos mostrou a edição brasileira de Número Zero, o seu último livro, que cita histórias da época contemporânea para falar de chantagem, intrigas e de reputações enlameadas dentro da redação de um jornal.
Ilze Scamparini — O senhor acabou de lançar uma espécie de manual do mau jornalismo. Criou uma redação de pretensiosos. Essa ideia vem de onde?
Umberto Eco —
 Há pelo menos 30 anos que escrevo artigos e ensaios sobre os vícios do jornalismo. Uma visão de dentro, porque também escrevo em um jornal. Então, é um tema familiar para mim.
Ilze Scamparini — Imagino que o senhor não tenha feito essas observações só na Itália.
Umberto Eco —
 A minha é uma redação de jornalistas fracassados. E, nesse caso, um exemplo de péssimo jornalismo. Mas, alguns diretores de jornal aqui na Itália debateram o meu livro e disseram: “Sim, mas alguns desses vícios são também do grande jornalismo”. E são no mundo inteiro por uma série de razões. De todo o modo, o jornalismo vive uma crise desde o fim de 1953. Pelo menos, na Itália. Nos Estados Unidos, um pouco antes, por causa do advento da televisão. Antigamente, os jornais diziam de manhã o que havia acontecido na noite anterior. Ou seja, diziam de manhã aquilo que todo mundo já sabia pela televisão. Isso poderia ter sinalizado o desaparecimento dos jornais como objeto, como instituição. Mas, os jornais precisaram aumentar o número de páginas para acolher publicidade, etc. Quando eu era pequeno, os jornais tinham quatro páginas. Agora, têm sessenta. Então, o que faz um jornal? Ou pode fazer um aprofundamento, o que exige uma redação forte, uma preparação de investigações. Ou fofocas. Como os vespertinos ingleses, que não fazem outra coisa a não ser falar da família real. Em alguns casos, como acontece no meu jornal, o sensacionalismo e a chantagem. Quando eu trabalhava em redação, existia um personagem na Itália se chamava Pecorelli. Ele tinha uma agência de notícia. Ele não fazia um jornal, fazia um boletim de notícias. Não era vendido em banca. Mas acabava nas escrivaninhas de todas as pessoas importantes. Então, era um sistema de chantagem porque apresentava algumas notícias que ele poderia vir a divulgar em seguida.
Ilze Scamparini — E por isso ele foi assassinado?
Umberto Eco —
 Foi assassinado. Então, podemos dizer que devia incomodar. Os jornais de chantagem, do tipo que na Itália se chama “máquina de lama”, existem. Até mesmo aqueles jornais que se consideram nacionais e bastante sérios. Nesse caso, coloquei em evidência este problema que é comum a vários tipos de jornalismo. Por exemplo, a tentativa do jornalista de não manifestar opinião, o que é muito praticado. A grosso modo, tem-se um fato, descreve-se o fato. Depois dá-se, entre aspas, a opinião de alguém que passou por ali. Ou seja, dá-se a impressão de que opinião é separada do fato. Mas quem escolheu a pessoa que dá a opinião?
Ilze Scamparini — Essa “máquina de lama”... Se eu não me engano, até o senhor foi vítima dessa “máquina de lama” quando foi a Jerusalém e fez a famosa declaração, não?
Umberto Eco —
 Sim, mas aquela era só uma máquina de estupidez. Porque teve efeito apenas sobre uma pequena discussão. Melhor, o que é típico da “máquina de lama” é que para desacreditar alguém, não é necessário acusá-lo de ladrão, assassino. Basta dizer as coisas que são realmente verdade e que são normais, mas que jogam uma sombra de suspeição. Então, um jornal que não gostava de mim publicou um texto assim: “Ontem, Umberto Eco foi visto em um restaurante chinês com um desconhecido, enquanto comiam com palitinhos.” Não tem nada de mal estar num restaurante chinês. O personagem era desconhecido para eles e não para mim. Era um amigo meu. Mas imagine que, a não ser em Milão, Roma ou Bolonha, em suma, todas as grandes cidades onde existem restaurantes chineses, no resto do país não tem. Então, para as pessoas, a ideia de alguém com um desconhecido usando palitinhos em vez de comer massa com grafo, como fazem as pessoas normais, já transforma tudo em Chinatown, um filme de Polanski. É uma forma de lançar uma sombra de suspeição. Essas são técnicas refinadas da “máquina de lama”.
Ilze Scamparini — Para o senhor quais são os danos mais comuns e mais nefastos do mau jornalismo?
Umberto Eco —
 São infinitos. A senhora definiu o meu romance como um manual. E, na verdade, chegaram a propor usá-lo como manual nas escolas de Jornalismo, para explicar o que não deve ser feito. E os espanhóis querem mesmo trabalhar nesse sentido. Pense, por exemplo, nas práticas que, aparentemente, são corretas, a edição. Assim, um jovem mata a namorada em Belo Horizonte. Um outro mata a mulher em São Paulo. Um outro mata a amante em Salvador. São três fatos estatisticamente, num país grande como o Brasil, estatisticamente bem normais. Se todos são postos na mesma página, cria-se um alarme. Se, além disso, todas essas pessoas são, digamos, da mesma cor, são negros. Então, cria-se, de fato, uma perseguição racial. Simplesmente colocando as notícias na mesma página. Então, são técnicas que, algumas vezes, estão arraigadas. Porque vêm naturalmente para os jornalistas. Três notícias bem parecidas são postas uma ao lado da outra. Mas se cinco acidentes de carro são postos numa mesma página, quer dizer que tem alguma coisa que não funciona no motor dos carros. Este é um elemento mínimo. Mas onde a gente vê como o jornalismo pode ser perigoso mesmo quando se trabalha corretamente.
Ilze Scamparini — Mas a política dentro da redação, isso também pode ser uma coisa nefasta? A política, o jornalismo contaminado da política partidária?
Umberto Eco —
 Só existe um tipo de jornal que não é contaminado. É o jornal de partido. Porque se sabe que é um jornal de partido, então se sabe como ler e fazer a filtragem das informações. É claro que cada jornal tem pressão política de todos os tipos. Vai depender de como eles declaram isso. Os grandes jornais americanos, quando tem eleição para presidente, dizem: “Nós apoiamos este.” Ok, estamos entendidos. Na Itália, o problema trágico é que não existem jornais independentes. Todos são, de algum modo, ligados a bancos, indústria etc. Isso é muito grave. Não é tanto a política. Um jornal deve fazer política. Se é um jornal honesto, deixa claro qual é a posição política dele.
Ilze Scamparini — Os mecanismos revelados pelo livro poderiam ser aplicados em outros países?
Umberto Eco —
 Cabe aos outros países decidirem.
Ilze Scamparini — O empresário que patrocina o jornal que não será nunca publicado representa alguém especificamente? Sei que é uma pergunta que fazem bastante.
Umberto Eco —
 É uma pergunta que todos me fazem. É Berlusconi? Este comendador Vimercati. Existem tantos senhores Vimercati em Itália e em toda parte. Quem é Murdoch? Quem são os donos de jornais, etc. Então, até Vimercati tende a ser um personagem universal.
Ilze Scamparini — Já que os fatos se ligam também, o que significa Silvio Berlusconi na história italiana?
Umberto Eco —
 Atualmente, não acho que Berlusconi tenha ainda um grande futuro político, por causa da idade, por que a situação é diferente. Ele foi ignorado. Encontrou gente mais esperta que ele. O presidente Renzi é mais esperto que Berlusconi. E ele achava que era mais esperto. Berlusconi representou por vinte anos mais um personagem dotado, realmente, de fascínio para muita gente. É um homem de grande simpatia. De grande poder econômico. E como tinha o controle dos meios de comunicação de massa pode convencer um país inteiro, por quase vinte anos, de um programa inexistente: que ele deveria livrar a Itália do comunismo. Quando o comunismo já havia se liberado sozinho. E já havia acabado. Então, Berlusconi foi um produto típico da sociedade de massa. Representa uma nova forma de populismo, de uma política que tem apelo direto com o povo, ignorando o Parlamento. E sobre populismo, a América Latina tem muito a nos ensinar.
Ilze Scamparini — Uma cultura que, no fim das contas, ele produziu, ainda está em vigor.
Umberto Eco —
 Mas, certamente, o eleitorado de Berlusconi é ainda de senhores entre cinquenta e noventa anos, principalmente, os que veem televisão.
Ilze Scamparini — O senhor escreveu O Nome da Rosa há 35 anos. Até hoje, o livro é um mito absoluto na literatura e muito fundamental na sua vida de escritor. De que maneira aquele romance influenciou sua narrativa desde então?
Umberto Eco —
 Pelo simples fato de que, até aquele momento, por exemplo, tem o fato de que eu nunca havia escrito um romance. Costumo brincar que todos os meus livros anteriores tinham uma sinfonia de Mahler, uma obra de Charlie Parker. Então, a cada vez, a gente procura encontrar novas soluções estilísticas, etc. Simplesmente, me aconteceu a desgraça de ter um grande sucesso com o meu primeiro livro. Sorte seria se o grande sucesso tivesse acontecido no último livro. Tendo sucesso no primeiro livro, e citei García Márquez, ele pode ter escrito tudo o que quis depois, mas as pessoas só lembravam de Cem Anos de Solidão.
Ilze Scamparini — O senhor o enxerga como uma coisa negativa?
Umberto Eco —
 Sim, porque se eu precisasse escolher entre todos os meus romances qual deveria salvar e jogar fora os outros, escolheria o Pêndulo de Foucault. Essa é uma opinião pessoal. De leitor.
Ilze Scamparini — O Nome da Rosa tem mais de 15 milhões de cópias vendidas. O senhor sabe [o número] ao certo?
Umberto Eco —
 Não se sabe. Alguns dizem quinze. Por quê? Porque a metade do mundo não tinha, naquela época, um acordo para direitos autorais. Na China, podem ter impresso uma centena ou um milhão. Não se sabe. Todo o mundo oriental. Mais da metade são edições piratas. Não pagavam os direitos. Toda a Rússia, o mundo soviético. Não existia um acordo. Então, não se sabia quanto eles tinham vendido. Não pagaram os direitos. Então, não se sabe.
Ilze Scamparini — Um personagem do seu livro Número Zero diz que todos mentem, os jornais, a TV...
Umberto Eco —
 Sempre o Bragaddocio paranoico.
Ilze Scamparini — Bragaddocio, exatamente. Os intelectuais também mentem?
Umberto Eco —
 Essa é a opinião de Bragaddocio.
Ilze Scamparini — Os fenômenos atuais como imigração, terrorismo, racismo, são, volta e meia, vítimas de informações erradas?
Umberto Eco —
 Naturalmente. Todo tipo de racismo, fundamentalismo, quase sempre, se baseia em afirmações falsas. (...).
Ilze Scamparini — Os meios de comunicação ao mesmo tempo que podem combater a censura e defender a democracia podem também produzir coisas danosas à sociedade. O que o senhor acha?
Umberto Eco —
 É como todas as coisas. Os automóveis permitem fazer um monte de coisas boas, mas também explodem nas estradas. Pense na internet, cheia de defeitos. Mas, alguém disse que, se no tempo de Hitler existisse internet, a tragédia não seria possível porque todo o mundo teria tomado conhecimento em cinco minutos. É preciso, como sempre, ver os aspectos positivos e negativos. Eu li uma vez que os mecânicos franceses fizeram uma manifestação contra as leis para diminuir os acidentes na estrada... Com menos acidentes, eles trabalham menos.
Ilze Scamparini — O senhor desencadeou uma forte reação quando foi duro contra uma parte da internet.
Umberto Eco —
 É dar muita importância a uma coisa óbvia. É ou não verdade que no mundo existem muitos imbecis? Me parece que sim. Agora, podemos discutir se são a maioria ou a minoria. Mas existem muitos. No momento em que a internet permite que todos falem, permite que um grande número de imbecis fale. Então, é preciso também saber criticar aquilo que está na rede e pronto. Acho que quem protestou foram eles, os imbecis.
Ilze Scamparini — A paixão pela Idade Média passou ou ainda vai dar frutos?
Umberto Eco —
 Tanto que foram publicados há dois anos todos os meus escritos sobre a idade média, que chegaram a 1.500 páginas. Foi sempre o período que mais me interessou. Se ainda dará frutos, eu não sei. Como o que vou trabalhar nos próximos anos ou se ainda estarei vivo nos próximos anos. Mas, de qualquer forma, já separei uma ótima série de estudo.
Ilze Scamparini — O senhor escreveu uma bela homenagem para Haroldo de Campos quando ele morreu. Que relação o senhor teve com os poetas concretistas?
Umberto Eco —
 Quando a gente nem se conhecia ainda, eles se ocupavam das mesmas coisas que eu e outros colegas, a semiótica de Peirce e outras coisas. Por isso, quando cheguei pela primeira vez ao Brasil... Além disso, através de um colóquio, quem me convidou foi o Décio Pignatari, eu imediatamente me encontrei com Haroldo e Augusto de Campos, em todo aquele ambiente. Havia um lugar que se chamava João Sebastião Bar. Então, me tornei muito amigo de Haroldo. Não é só isso. Eu tinha publicado... Eu fui ao Brasil acho que em 1963. Eu havia publicado, em 1962, Obra Aberta. E Haroldo me mostrou um artigo que ele havia escrito antes de 1962, onde ele falava da Obra Aberta. Nos tornamos, vamos dizer assim, irmãos. Com muitas ideias em comum. Logo, nos mantivemos sempre em contato. E então, através deles, todo o grupo se manteve, conheci um pouco. E assim, a chamada vanguarda brasileira e o mestre deles Oswald de Andrade, etc. E considero, sobretudo, Haroldo de Campos um ótimo tradutor. Ele traduziu “Dante” de uma forma, em português do brasileiro que é, realmente sublime. E ele era uma grande figura.
Ilze Scamparini — O senhor participou ativamente do Grupo 63, neovanguardista que negava, violentamente, a trama na literatura. Mas o que aconteceu com a sua narrativa, que recupera a centralidade da trama?
Umberto Eco —
 Aconteceu que já em 1965 — ou seja, o grupo se chamava 63 porque fez a primeira reunião em 1963. Mas já em 1965, teve um encontro onde dissemos que tudo bem, que era preciso retornar à narrativa. Uma outra narrativa, diferente daquela do tempo de Robbe-Grillet, o novo romance e toda essa forma nova de narrativa. A verdade é que aquilo que mais tarde foi chamado de Modernismo chegou à página branca, ao quadro monocromático, à cena vazia, ao silêncio musical. Ou seja, alcançou um ponto de destruição da linguagem anterior...
Ilze Scamparini — Que era necessário voltar atrás.
Umberto Eco —
 Ou então, não se poderia. Depois do quadro branco, não se podia fazer nada a mais ou a menos. Então, houve um retorno, no sentido de revisitar as formas tradicionais e modo irônico, meta-linguagem, e tantas coisas sobre as quais podemos falar. Eu acredito que não poderia ter escrito os meus romances se não tivesse passado pela experiência do Grupo 63.
Ilze Scamparini — O senhor afirmou que Tomás de Aquino, milagrosamente, o ajudou a curar-se da fé. O que resta, professor, apenas a fé no homem?
Umberto Eco —
 Não disse isso...
Ilze Scamparini — Não? É um outro caso de mau jornalismo?
Umberto Eco —
 Eu disse que, gradativamente, comecei os estudos de São Tomás enquanto era um crente e terminei porque já estava abandonando a fé. Não porque havia sido inspirado por São Tomás. Mas também porque, mesmo quando se faz um trabalho histórico, objetivo, sobre este personagem, projetei o mundo dele à distância para observar com o olhar crítico da história. Não era mais o meu mundo. Era o mundo dele. Mas não é culpa dele. Estive há pouco tempo no quarto onde ele morreu, em Fossanova. Participei de um congresso sobre a vida de São Tomás e continuo fascinado pelo gorducho.
Ilze Scamparini — E como o senhor, um autor de um estudo sobre Tomás de Aquino, estudioso dos meios de comunicação, vê um Papa comunicador como Francisco?
Umberto Eco —
 Bem, eu o vejo com extrema simpatia. Não por acaso é um jesuíta sul-americano. E não é argentino, é paraguaio. Eram os jesuítas das missões, dos seiscentos, que armaram os índios contra os espanhóis. Para mim, é assim. Ele veio deste mundo ali. Não dos jesuítas reacionários franceses dos oitocentos. Mas dos jesuítas um pouco revolucionários, paraguaios, dos seiscentos. E, então, assim nasce esse personagem bastante singular.
Ilze Scamparini — Um papa um pouco laico, não?
Umberto Eco —
 Em suma...
Ilze Scamparini — Mais que os outros...
Umberto Eco —
 Ele não tem uma visão de talibã.
....
(Fonte: Consultor Jurídico; entrevista à Globo News; reproduzida no Jornal GGN - aqui).

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A ECONOMIA MUNDIAL


Pavel Constantin. (Romênia).

O CASO DO MATADOR


O leão Cecil e a insensatez humana

Por Paulo F.

Um caçador estadunidense matou Cecil. Para aqueles que não o conheciam, Cecil era um leão. Mais, era um espécime de juba negra, objeto de estudo científico e animal símbolo do Zimbábue.

Nascemos todos caçadores e coletores. Era desta forma que nossos ancestrais  buscavam alimentação. Estudos científicos mostram que a evolução só foi possível com o aumento do consumo de proteína, muito dessa proteína encontrada no que chamamos tutano. Éramos chupadores de ossos...

A evolução deu-se e consolidamos o que se pode chamar de Humanidade. Porém, de forma imperfeita, pois em seu seio abriga elementos como James Palmer, 55 anos, dentista, reincidente.

Palmer já havia caçado outro grande mamífero, um urso pardo de forma ilegal. Não satisfeito e de forma a satisfazer seu ego, com um punhado de dólares, cinquenta e cinco mil  para ser exato, o Sr. Palmer, auxiliado por dois locail, acertou Cecil com  um projétil disparado de seu arco.

O grande mamífero, que segundo relatos apreciava a atenção que os humanos dedicavam a ele, não caiu imediatamente. Agonizou por horas. Foi morto por disparo de arma de fogo.
Palmer necessitava mais para satisfazer sua vaidade. O troféu. A cabeça e a pele de Cecil.

Espera-se ação imediata das autoridades estadunidenses (que volta e meia se arvoram em polícia do planeta), e que o Sr. Palmer pague mais que uma multa e leve uma passada de mão na cabeça de um juiz de uma corte inferior.
  
Muito mais que Cecil,  o Sr. Palmer destruiu símbolos. Como o da nossa capacidade de compreender e apreciar a beleza, que o grande Cecil representava. Exterminou não só o animal, mas também um pouco  da Humanidade latente em todos nós.

(Para continuar, clique aqui).

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Bob Englehart.
A atitude abominável de Palmer foi amplamente divulgada/denunciada pela blogosfera mundial. A charge acima revela quem, ao fim e ao cabo, mereceu ocupar o lugar do troféu insanamente perseguido. 

SOBRE A AMPLITUDE DA CORRUPÇÃO


Máquina da corrupção

Por Jânio de Freitas

Nem tanto pela prisão de alguém eminente como o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, posto sob suspeita de corrupção como presidente da Eletronuclear, mas pela abertura de nova frente de investigações, a Lava Jato dá um passo para a demonstração de que a máquina corruptora movida pelas empreiteiras não tem limites.
Hidrelétricas, estradas, pontes, infraestrutura de comunicações, metrôs, edificações –onde quer que as grandes empreiteiras estiveram ou estejam, é área minada por corrupção. Seja no nível federal, seja no estadual e no municipal. Licitações e contratos corretos por certo houve e há, mas como fatos fora do sistema. Assim é pelo menos desde a abertura da Transamazônica no período do general Médici –ocasião em que foram estabelecidas as fórmulas, hoje uma norma, de compartilhamento da obra e de entendimento entre as empreiteiras para divisão das oportunidades.
Faço eco do já escrito aqui muitas vezes: atacar a corrupção manobrada pelas grandes empreiteiras, para obras públicas e para seus negócios de concessões e privatizações, seria mudar toda a prática política no Brasil. A voracidade de parlamentares e partidos que oprime governos, para entrega de ministérios, secretarias e empresas a políticos e a indicados seus, origina-se nas grandes empreiteiras e seus interesses tentaculares, lançados sobre a administração pública.
Não há um só propósito legítimo para que partidos e seus políticos rebaixem-se até a condição de chantagistas para obter diretorias em estatais, autarquias e ministérios. Manietar as empreiteiras e, portanto, fechar aqueles guichês de corrupção seria, além do mais, dar a tais seções do serviço público a possibilidade de se tornarem mais eficientes. E a custos menores. Um Brasil que o Brasil não conhece.
Petrobras, Eletronuclear –vamos em frente?
ATÔMICA
A Folha não se lembrou, mas "O Globo", por intermédio de José Casado, não esqueceu: "A 'Delta IV' (...) foi revelada pela repórter Tânia Malheiros. Estava em nome do capitão-de-fragata Marcos Honaiser e do seu chefe, Othon. Funcionava como caixa para pagamentos das compras feitas no submundo do comércio de materiais nucleares".
A revelação de Tânia Malheiros foi feita na Folha. Espetacular. Acompanhei-a de perto: trabalho cercado de perigos, inclusive ou sobretudo de morte, mas feito com persistência e perfeição técnica de apuração, até revelar o sistema de "Contas Delta" e prová-las. Fortunas que escorriam em segredo, por contas bancárias mascaradas e manipuladas por militares e uns poucos civis, sem controle algum e sem registro de seus destinos. Era a ditadura em ação para desenvolver a propulsão e a bomba nucleares.
O Othon citado por Casado é o almirante preso agora pela Lava Jato, suspeito de corrupção como presidente na Eletronuclear. O livro que Tânia escreveu a partir de suas reportagens foi editado aqui e no exterior. Na Alemanha, tem várias edições.
A imprensa é um território de pequenas e grandes injustiças, não só para fora. Meses depois do seu trabalho, e não por causa dele, Tânia não pôde continuar no jornal. Decidiu abandonar o jornalismo. Hoje é cantora, e vai abrindo um caminho de reconhecimento, crescente.
NA MOITA
O sucinto noticiário da palestra de Eduardo Cunha para empresários paulistas, anteontem, inovou. Não fez a costumeira citação de notáveis presentes, não colheu as obviedades de praxe. Nem as imagens da plateia permitiam identificações.
Eduardo Cunha é atilado. Percebeu. Xiiiiii. (Fonte: aqui).

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Ontem mesmo discorri para um amigo acerca desse 'mal das empreiteiras'. São elas - além, claro, de quem com elas se locupleta - as principais atrizes no cenário da corrupção. Alguns denominam a situação como 'sistêmica', outros, como o ministro da Justiça, dedicam-lhe o adjetivo 'histórica'. E é mesmo. Como dizem elas próprias (as empreiteiras): 'Quem não entra no jogo, dança'. André Araújo, observador atento, tem sustentado em textos publicados no Jornal GGN a, digamos, inevitabilidade desse flagelo, presente em todos os países do mundo, com intensidade variada. Araújo ressalta inclusive que o favorecimento a empreiteiras mundo afora é encarado como uma das artimanhas para atender ao 'interesse nacional de certos países', os quais como que estariam a fazer coro com as empreiteiras: 'País que não adere, dança'. E agora? Combata-se, sem trégua, o flagelo, mas tenha-se presente a situação do país. Estou afirmando, assim, que julgo pertinentes eventuais acordos de leniência que venham a ser firmados.

A ironia básica reside no fato de certos segmentos estarem empenhados em envolver ao máximo determinados partidos políticos, escondendo deliberadamente o jogo jogado por outras agremiações, simpáticas, éticas, imaculadas e sobretudo virtuosas...

GLAUCO PREMONITÓRIO


Glauco.  (Anos 90).
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(Glauco Villas Boas, cartunista, 1957-2010).

O TRISTE (PARA ALGUNS) FIM DA LISTA

              
E agora, a lista do HSBC

Por Mino Carta

O disco do 'Opportunity' não foi aberto. Dez anos depois, o Brasil parece disposto a deixar em paz os sonegadores graúdos, protagonistas em ambos os casos.

A capa [acima] de 12 de outubro de 2005 [da revista CartaCapital] conta um enredo melancólico que ameaça repetir-se, para a felicidade da casa-grande.

Delicioso editorial do [tucano] "Estadão" de terça 21, a lembrar os melhores textos do senhor Pott, inolvidável diretor da "Gazeta de Eatanswill" em os "Pickwick Papers de Dickens". Lê-se no jornalão que o ex-presidente Lula “só pensa em 2018”. Era do hábito do senhor Pott que a verdade factual pouco lhe importasse, tratava-se de alguém dotado exclusivamente de certezas. Parece difícil acreditar que Lula, neste exato instante, só pense em 2018. Quem, pelo contrário, cultiva a obsessão aterrorizada do retorno do ex-metalúrgico à Presidência é, de fato, a mídia nativa. 

Aos barões midiáticos desaconselho fervorosamente a leitura da coluna de Marcos Coimbra à página 43 da edição [desta semana da revista "CartaCapital"], desde que se dignem a tanto. O diretor do respeitável Instituto Vox Populi aponta em Lula o favorito do próximo pleito presidencial, a despeito das turbulências atuais, com efeitos semelhantes àqueles precipitados pelo chamado “mensalão”.

Só faltava esta, mas Coimbra é cidadão desassombrado. Há escândalos e escândalos, está claro, para influenciar momentos políticos variados, e não me referirei desta vez aos eclodidos durante o governo de PSDB/Fernando Henrique, monumentais e mesmo assim silenciados. Estrondosamente. Mas também há presidentes e presidentes.

Não preciso perguntar aos meus botões por que a Operação Lava Jato prossegue impávida, a nos brindar com acusações a serem provadas, e até condenações, enquanto em torno da célebre lista dos grandes sonegadores brasileiros que filtrou através do sigilo do HSBC suíço fecha-se a "omertà", como se diria na Sicília, igual ao mar sobre um barco furado. Inclusive por parte do jornalista nativo que milita em um Consórcio de dimensões globais, em poder de uma parte do elenco vip (leia a reportagem que começa na página 34 da edição desta semana da revista "CartaCapital").

Moita. Caluda. E não se trata de café-pequeno, e sim de mais de 7 bilhões de dólares escondidos em cofres pretensamente seguros. Me sobe à memória o episódio protagonizado, dez anos atrás, pelo disco rígido capturado pela "Operação Chacal" na sede do [Banco] "Opportunity" do indestrutível, onipresente Daniel Dantas. Aquele mesmo que, preso anos após pela "Operação Satiagraha", contou com o pronto socorro de Gilmar Mendes, o ministro do STF disposto a “chamar às falas” o então presidente Lula e provocar o desterro do honrado e competente delegado Paulo Lacerda.

Esquecido o disco rígido, enterrada a "Satiagraha". Em 2005, o disco foi entregue ao STF pela PF dirigida por Lacerda, que no segundo mandato de Lula se transferiria para a ABIN, substituído por um duvidoso Luiz Fernando Corrêa. O disco acabou nas mãos da ministra [do STF] Ellen Gracie, a qual nunca disse por que o seu conteúdo deixou de ser revelado. Em oportunidades diversas, duas autoridades de alto nível pronunciaram em benefício dos meus ouvidos, e na presença de testemunhas, a seguinte frase: “Se abrirem o disco, cai a República”. Não era conjectura. E uma das fontes admitiria que parlamentares exerciam pressões no sentido de jogar ao lixo o fatídico apetrecho, e também um ministro, o chefe da Casa Civil José Dirceu.

Nada disso me surpreendeu, a corrupção é doença endêmica. Hoje em dia o Partido dos Trabalhadores, que vi nascer esperançoso, encanta-se com um site de obscura origem, que desconfio abastecido por dinheiro do inesgotável Dantas, quem sabe com o beneplácito ou intermediação de Dirceu. Cruzam-se os caminhos da corrupção, a bem da confirmação de um vetusto enredo, que não exclui o moralismo primário dos ingênuos e dos hipócritas.

Dispensados de saída, os botões murmuram sinistramente a probabilidade de que os nomes ilustres elencados no disco do "Opportunity" figurem em parte, ou mesmo in totum, na lista do HSBC. Machuca, soletram constrangidos, que a Argentina mais uma vez mostre a qualidade da sua democracia na comparação com a nossa incipiente, ao investigar seus sonegadores, com a colaboração de Hervé Falciani, revelador do escândalo, entrevistado páginas adiante e pronto a colaborar também com o Brasil.

Pois é, a Argentina... Somos também o país onde os torturadores não são punidos, os ditadores tornam-se nome de ponte e rodovia, e uma comissão dita da verdade, com V pateticamente grande, cuida de preservar uma Lei da Anistia imposta pela ditadura. Meus botões confessam a dúvida: talvez sejamos o que merecemos. (Fonte: CartaCapital - aqui).

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Entreouvido nos bastidores: "No Brasil, até os chavões são subvertidos: a história se repete como rotina!"

CINEMÍMICO


Liberati.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A MAIS RECENTE DO DEPARTAMENTO DE PESOS E MEDIDAS


"Quando o doleiro Youssef delatou na operação Lava Jato desvios de dinheiro em Furnas envolvendo diversos políticos do PSDB, foi interpelado pelo juiz dizendo que a ação se referia a desvios na Petrobras, portanto, Furnas estava fora da questão.
 
Surge agora a questão da Eletronuclear com a prisão do  Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, mais uma grande obra de desenvolvimento tecnológico brasileiro a cargo da Odebrecht sendo paralisada. Comenta-se que as próximas etapas da Lava Jato serão as hidroelétricas, onde Belo Monte será a bola da vez. Pergunta-se: Por que o juiz não adotou o mesmo critério para a Eletronuclear que adotou em Furnas?
 
Qual o país que resiste a tantos ataques desvairados em sua economia como o que vem ocorrendo com o Brasil nas ações da Lava Jato? O país está sendo destruído e levado para o buraco negro da recessão, comprometendo o futuro das novas gerações, tudo isto com a complacência dos tribunais superiores."




(De Webster Franklin, em post intitulado "Por que Furnas está fora de questão na Lava Jato?", publicado no Jornal GGN - aqui.

Há quem afirme não saber o porquê de Furnas haver sido repelida de forma tão veemente pelo juiz da Lava Jato, mas, que se sabe que o juiz da Lava Jato será poupado dessa pergunta por parte dos milhares de solícitos repórteres e analistas da grande imprensa, não há a mais remota dúvida).

PESQUISA REVELA QUE MENOS DE 5% DOS BRASILEIROS CONFIAM NA IMPRENSA

                    (Apenas 4,8% das pessoas confiam na imprensa).

Dodó Macedo. 

SMARTPHONE LOOK


Liam Walsh.  (In The New Yorker magazine).

O ESTRATÉGICO BNDES


A Odebrecht e o BNDES

Por Mauro Santayana

Nos últimos dias, diários e portais jornalísticos vêm dando ênfase à informação de que os empréstimos do BNDES para a Odebrecht haviam disparado de 2007 até agora, e que os diplomatas brasileiros que prestam serviço na Venezuela e em outros países teriam apoiado a empresa e celebrado, em comunicados e correspondências internas, o fato de seus negócios no exterior terem aumentado nos últimos anos. 
Chamam a atenção sobre isso como se houvesse algo irregular nesses dois fatos.
Primeiro lugar, no fato de que o nosso maior banco de fomento, que leva em suas siglas os adjetivos “econômico” e “social”, financie clientes internacionais da maior empresa de engenharia e construção da América Latina, a aquisição de produtos e serviços brasileiros.
Logo, na ação dos diplomatas brasileiros, apoiando a expansão de empresas nacionais no exterior, como o fazem cotidianamente os embaixadores e encarregados de negócios norte-americanos em todo o mundo, como se pode ver em centenas de documentos secretos revelados pelo Wikileaks.
De acordo com os dados levantados, os financiamentos do BNDES a clientes da Odebrecht no exterior haviam superado uma média de 166 milhões de dólares por ano, de 1998 a 2005, a um bilhão de dólares em média de 2006 a 2014.
Uma quantia que equivale a um percentual – como o próprio artigo acaba informando mais abaixo – de apenas 8,4% dos contratos totais da Odebrecht fora do Brasil no período, que totalizaram 119 bilhões de dólares, em sua maioria emprestados por bancos internacionais – o que mostra também que o BNDES não é o único a ter confiança na empresa – para o financiamento da execução de projetos dos seus clientes em outros países.
Para se ter uma ideia, os recursos do BNDES para financiar os pagamentos à Odebrecht alcançaram, em 2014, apenas 7% dos 14 bilhões de dólares que a empresa faturou no ano passado.
Entretanto, ao ler o artigo, muitos leitores podem chegar a pensar que esse aumento foi só para a Odebrecht, ou, como dizem muitos colunistas e movimentos de oposição, que o BNDES está investindo muitos recursos fora do país em vez de aplicá-los em projetos dentro do Brasil.
Isso seria verdade se o BNDES tivesse retirado do seu orçamento histórico, sem aumentá-lo, o dinheiro para as obras realizadas pela empresa no exterior nos últimos anos, e se essas obras não tivessem criado milhares de empregos para brasileiros, dentro e fora do país.
Mas o que ocorreu foi exatamente o contrário.
Os investimentos do BNDES para o financiamento de todos os setores da economia passaram de menos de 35 bilhões de reais em 2002, a 187 bilhões de reais em 2014.
E mais, se de 1990 a 2006, em 16 anos, o BNDES EXIM, seu braço de apoio à exportação, destinou aproximadamente 23 bilhões de dólares a diferentes projetos, nos sete anos seguintes, entre 2007 e 2014, esse valor aumentou para mais de 40 bilhões de dólares – para ser mais exatos, 128 bilhões de reais, que beneficiaram não só a Odebrecht e outras grandes empresas, mas também milhares de pequenas e médias empresas brasileiras.
Outra impressão que fica no texto (...) para certo tipo de público é que a Odebrecht seria uma organização “terceiro-mundista”, “comunista” e “bolivariana”, que só se expandiu no mundo graças ao apoio do PT.
Entre os projetos da Odebrecht no exterior nos últimos anos estão: o metrô de Caracas e de Los Teques, na Venezuela – o primeiro financiamento para essa obra foi do governo de Fernando Henrique Cardoso – centrais hidroelétricas e termoelétricas no Equador, Angola, Peru e República Dominicana, um gasoduto na Argentina, aeroportos “como o de Nacala, em Moçambique”, e o Porto de Mariel, em Cuba, onipresente nas críticas da imprensa brasileira há alguns meses.
Mas não se dá maiores informações aos leitores, e a toda a sociedade brasileira, sobre o fato de que a mesma Odebrecht que levantou o Porto de Mariel também realizou obras no Porto de Miami, como a infraestrutura que permitirá receber os supercargueiros que atravessarão o novo Canal do Panamá, que foi ampliado. Que se fez obras no aeroporto de Nacala, também as fez no aeroporto de Miami – o novo Terminal Norte do Miami Airport, construído pela Odebrecht, recebeu o prêmio Global Best Projects, da prestigiada revista ENR, Engineering News-Record –, e também nos aeroportos de Orlando e de Fort Lauderdale. Que se construiu o metrô da capital da Venezuela, também trabalhou em uma linha ferroviária de superfície em Miami, em rodovias como a Route 56, na Califórnia, e a SR 836/I-395, na Flórida, ou na Sam Houston e na Grand Parkway, no Texas. Viadutos como o Golden Glades e estádios como o American Airlines Arena, em Miami, centros culturais como o Adrienne Arsht Center for Performing Arts, na mesma cidade, sistemas de proteção hidráulica contra inundações, como a represa de Seven Oaks, na Califórnia, ou o LPV-9.2, que protege as estações de bombeamento do Lago Pontchartrain, na Louisiana, contra eventuais furacões.
Tudo isso nos Estados Unidos, país onde está presente desde 1990, e no qual emprega milhares de trabalhadores de 33 diferentes nacionalidades – entre eles, muitos brasileiros.
Como vemos, a situação é tão surrealista e absurda que, ainda que a capital da Odebrecht fora do Brasil seja Miami – a cidade mais conservadora dos EUA – e não Havana, seu presidente está preso e é fustigado diariamente nas redes sociais brasileiras pelo suposto “bolivarianismo” da sua empresa e as eventuais “conexões” com o PT.
Já faz algum tempo que o BNDES vem sendo violentamente atacado nas redes sociais.
O que se está promovendo através do argumento da “liberdade total” é a prorrogada, persistente e duradoura temporada de caça ao chifre em cabeça de cavalo, ou de pelo em ovo, tentando envolver o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em alguma irregularidade.
Se transformou num lugar comum dizer que existe uma “caixa preta” no BNDES, que, se aberta, sacudiria a República – nos círculos mais ignorantes da sociedade, se mantém vivo o mito urbano de que a família de Lula é dona da Friboi, também beneficiada por financiamentos do banco. Na verdade, o banco estatal é uma das instituições mais sérias e competentes do Brasil, e um pilar de grande importância para o desenvolvimento econômico e social do país.
Outro mito comum nos últimos tempos é que as operações do BNDES no exterior teriam aberto um rombo no tesouro e causado bilhões de dólares de prejuízos ao país.
Ao contrário do que muitos pensam, o BNDES não tem o costume de salgar a carne podre, e é uma das instituições mais sólidas do mundo.
Enquanto o índice de Basileia exige mais de 11%, o do BNDES é de 15,9%. O capital principal tem que ser de mais de 4,5%, quando o do BNDES é de 10,6%. A exposição cambial tem que ser de menos de 30%, e no BNDES é de apenas 4,8%. A exposição ao setor público deve ser de menos de 45%, e no BNDES é de 26,2%. A imobilização deve ser menor que 50%, e no BNDES, é de somente 11,4%. Os dados são de dezembro de 2014.
Seus ativos aumentaram de 782 a 977 bilhões de reais (eram menos de 43 bilhões em 2002), entre dezembro de 2013 e o mesmo mês no ano seguinte. O patrimônio líquido subiu de 60 a 66 bilhões de reais, a inadimplência se manteve num modestíssimo 0,01%, enquanto os lucros, o resultado líquido, subiram de 8,1 a 8,5 bilhões de reais no final de 2014.
O que dificulta a expansão da infraestrutura no Brasil não é a falta de dinheiro. É a ortodoxia monetária que impede o governo de se endividar eventualmente para desenvolver e inclusive para defender o país – como habitualmente o fazem nações como os Estados Unidos, que estão entre as maiores devedoras do mundo –, e diversos tipos de obstáculos e sabotagens os fatores que fazem com que obras como a hidroelétrica de Belo Monte ou a refinaria Abreu e Lima enfrentem dezenas de interrupções.
O Congresso aprovou o fim do segredo em operações de financiamento exterior do BNDES – vetado pela senhora Dilma Roussef – como se a norma fosse praticada em bancos de apoio à exportação de países como a Coreia do Norte, apesar de formar parte do comportamento normal de bancos e instituições similares na Alemanha (KFW), Canadá (Banco de Desenvolvimento do Canadá), Espanha (ICO) e Japão (JFC e JBIC), para não entregar informações gratuitas à concorrência.
Não se trata de ter mais simpatia pela Odebrecht do que por qualquer empresa que gere o número de empregos que ela gera, e que tenha a importância estratégica que ela tem para o Brasil, visto que ela está à frente da construção da nossa nova base submersa, dos vários submarinos convencionais e do novíssimo submarino atômico nacional que formarão parte da frota brasileira, entre outros importantes projetos – condição também ameaçada pelos problemas que está vivendo agora.
Também é hora de que as empresas que são financiadas pelo BNDES no exterior promovam uma ação institucional coletiva para explicar ao público como funcionam os financiamentos do banco nesta área e a importância da exportação de serviços de engenharia para o Brasil e para a economia nacional, e que o BNDES faça o mesmo, já que tem o dever de render contas à população.
Mas o primeiro compromisso do jornalista é com a verdade.
E a verdade, independente dos fatos acima citados, é que não se fazem grandes nações sem grandes bancos públicos como o BNDES, para financiar seu desenvolvimento e suas exportações, sem uma diplomacia ativa em defesa dos interesses nacionais e sem grandes grupos empresariais, especialmente das áreas de engenharia e infraestrutura, que possam apoiar a venda dos seus produtos e serviços, e projetar a imagem de um país ativo e competente mundo afora – em lugares menos e mais desenvolvidos que o nosso.
Os financiamentos do BNDES no exterior garantem 1,5 milhão de empregos no Brasil, e a sobrevivência de milhares de empresas brasileiras, como as que fornecem serviços e produtos para clientes da Odebrecht no exterior, cuja lista (só das mais importantes) retirada do site da empresa, estamos dispostos a publicar depois deste texto.
São instrumentos de financiamento, apoio governamental, know-how avançado, entre outros – que distinguem os países fortes e bem sucedidos dos mais dependentes e fracos, e que abrem o caminho para o avanço de certas nações em detrimento de outras, em um planeta cada vez mais complexo e competitivo.
E existem nações que se arriscam a isso, ou que estão impedidas – infelizmente, até mesmo dentro – de alcançar o desenvolvimento e o progresso, pelo surgimento insidioso de uma quinta coluna em que desfilam, ombro a ombro, o arbítrio, a intriga, a hipocrisia, a subserviência com os de fora, a intolerância com os oprimidos, a manipulação, o auto-preconceito e a ignorância. (Fonte: aqui).

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Altamente didático esse artigo de Mauro Santayana acerca da magnitude do BNDES, notadamente num momento de tanta turbulência, em que interesses nacionais correm o risco de sofrerem impactos irreparáveis. Há uma CPI na pauta, visando à análise das ações desse banco. Boa oportunidade de se deixarem claros os seus méritos, afastando suspeitas que pairam no ar, independentemente dos propósitos de quem as formula.