Mostrando postagens com marcador Direito. Lava Jato. Moro desafia STF.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Direito. Lava Jato. Moro desafia STF.. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de fevereiro de 2019

LAVA JATO: MORO E PROCURADORES DESAFIAM O STF

Ao longo de sua atuação como condutor da Lava Jato e no cargo que atualmente ocupa, o ex-juiz Sérgio Moro elegeu a palavra "Poderosos" como preferida. Uma decisão a tomar pode agredir frontalmente a Constituição, mas, se visa a 'contrariar poderosos', quero dizer, "certos 'poderosos'", tudo bem. Todas as inconstitucionalidades são admissíveis, desde que em prejuízo de 'poderosos' - com o beneplácito de escalões superiores, a exemplo do que se vê Aqui. Para este blog, poderoso, mesmo, é quem, incumbido de administrar justiça, se coloca acima da Constituição, seletivamente. O que, no caso, vem ao caso.


Moro e procuradores põem STF em xeque ao fazer balanço da Lava Jato

Folha (Texto reproduzido no Conversa Afiada)

Convidado no ano passado a fazer um balanço da experiência como juiz da Lava Jato em Curitiba, Sergio Moro escolheu o Supremo Tribunal Federal como foco de sua atenção, pouco antes de deixar a magistratura para assumir o Ministério da Justiça.

Parte de uma coletânea que chegou às livrarias na sexta 22, o artigo de Moro aponta a decisão que autorizou a prisão de condenados em segunda instância em 2016 como a medida mais relevante tomada pelo STF nos últimos anos e critica os ministros que contrariam a maioria formada na corte a favor dessa orientação.

A interpretação “garantista” da lei, como ele diz ao falar da posição desses ministros, “não é a mais consistente com os princípios mais amplos que animam a nossa Carta e o regime democrático, refratários à impunidade dos poderosos e à sociedade de castas”.

O Supremo marcou para abril o julgamento de três ações que questionam esse entendimento, que abriu caminho para a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros condenados que ainda discutem suas sentenças nos tribunais superiores.

Ao mencionar as pressões que a corte tem recebido para rever a jurisprudência estabelecida há três anos, Moro afirma no artigo que a mudança é improvável com a atual composição do STF e sugere que o futuro do combate à corrupção no país está em jogo. 

“Fechou-se a principal brecha do sistema processual penal que era utilizada, com frequência, por criminosos poderosos para evitar que fossem responsabilizados por seus crimes, ainda que fossem graves, e as provas, cabais”, diz o ex-juiz federal. 

Moro colocou o ponto final em seu artigo em julho, três meses antes de largar a toga para participar do governo Jair Bolsonaro. Ele teve oportunidade de fazer revisões antes da publicação, mas preferiu deixar o texto como estava. 

Organizado pela economista Maria Cristina Pinotti, “Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas” examina o impacto das investigações sobre corrupção no Brasil e na Itália, cinco após a deflagração da Lava Jato e duas décadas depois do fim de sua precursora italiana. 

Para Pinotti, que faz no volume uma revisão da literatura acadêmica sobre o tema, os esforços da classe política para minar a Mãos Limpas e a erosão da confiança no Judiciário foram fatores decisivos para a estagnação econômica da Itália nos últimos anos. 

O livro tem prefácio do ministro Luís Roberto Barroso, um entusiasta da Lava Jato no STF, e inclui, além do texto de Moro, um artigo especialmente duro com o tribunal, assinado pelos procuradores Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon, da força-tarefa na linha de frente das investigações. 

Eles contabilizam 27 decisões contrárias à Lava Jato desde 2017 e acusam os ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, hoje presidente da corte, de criar um ambiente favorável à impunidade e à corrupção ao soltar acusados presos em caráter preventivo e arquivar denúncias por falta de provas. 

“O grande receio é que o Supremo se curve à velha política, à plutocleptocracia que se arraigou no país, ainda que sob protesto de ministros que têm sido bastante firmes em relação à corrupção”, dizem. 

O volume reúne ainda artigos de dois veteranos da Operação Mãos Limpas na Itália. O depoimento de Gherardo Colombo, que se afastou da magistratura desiludido com os fracassos de seu país no combate à corrupção, é o único a oferecer um contraponto crítico a seus colegas brasileiros. 

Alvo de ataques de políticos quando participava da Mãos Limpas, Colombo destaca a importância da imparcialidade dos juízes e defende o sistema italiano, que atribui a magistrados diferentes o acompanhamento das investigações e o julgamento dos acusados.

O juiz deve ser a terceira parte, e isso significa que não pode julgar aquilo que fez ou tenha ajudado a fazer”, afirma Colombo. “Há o risco de que alguém que tenha feito parte das investigações se enamore da sua própria atividade e das suas próprias teses e seja levado a sustentá-las mesmo se forem erradas. 

Acusado com frequência de ter feito exatamente isso na Lava Jato, Moro diz em seu artigo que os juízes brasileiros se limitam a analisar pedidos de policiais, procuradores e advogados na fase de investigação, sem comprometer sua isenção para o julgamento depois. 

“Pode-se cogitar em alterar o sistema, mas no momento é o que existe”, escreveu Moro, ao se defender. É o tipo de argumento que soa pouco convincente para seu colega italiano. “Basta que a gestão da Justiça pareça parcial, mesmo quando não é, para perder sua credibilidade”, diz Colombo.  -  (Aqui).

[Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas
Maria Cristina Pinotti (org.), Gherardo Colombo, Piercamillo Davigo, Deltan Dallagnol, Roberson Pozzobon, Sergio Moro. Portfolio-Penguin. R$ 54,90 (256 págs.)].