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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

PARA SAIR DA CRISE


Stiglitz: "Austeridade não é solução" para a retomada da economia

O economista norte-americano Joseph Stiglitz acredita que a Europa e os Estados Unidos estão "a seguir um caminho errado", porque "a austeridade quase nunca funciona" para reanimar as economias.

"A Europa tem de perceber que a austeridade não é solução. O crescimento não aparece sem assistência externa", disse Stiglitz, prêmio Nobel da Economia em 2001, durante o IV congresso da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), (...) em Lisboa.

Stiglitz considera que o mais recente plano europeu de combate à crise, atingido numa cimeira em dezembro, "parece focar-se apenas em austeridade". Para o Nobel, a insistência no rigor orçamental parece destinada a evitar "a próxima crise" em vez de combater a atual.

"A Europa não devia estar a pensar na próxima crise mas sim nesta", disse Stiglitz, acrescentando que "não ter déficits não (vai) evitar a próxima crise - lembrem-se que a Espanha e a Irlanda tinham orçamentos equilibrados".

Para Stiglitz, os problemas da Europa estão radicados num "conjunto de ideias sobre como fazer os mercados funcionar", e que "estavam em voga" na altura em que foi assinado o tratado de Maastricht (1992).

"Esses pontos de vista estavam na moda na altura, foram desacreditados, sobretudo à luz de crise de 2008", afirmou. "A diferença entre os EUA e a Europa é que na Europa muitas destas ideias foram integradas na estrutura das instituições comunitárias".

Uma dessas ideias "desacreditadas" é ter um banco central cuja grande prioridade é o controle da inflação.

"A inflação é importante, mas não é a única coisa que importa. Os riscos econômicos associados à inflação são grandes, mas são minúsculos comprados aos problemas associados a uma falha sistêmica da economia", afirmou Stiglitz. (Fonte: jornal Expresso, de Portugal, e blog Luis Nassif)

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Aumentar impostos, reduzir investimentos públicos, privatizar estatais, cortar benefícios - e por aí vai a austeridade. Enquanto isso, o desespero bate à porta de lares gregos, portugueses, espanhóis, islandeses, ingleses...

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A ECONOMIA E A PANDEMIA SEGUNDO STIGLITZ

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''Será muito difícil recuperar uma economia global se houver muitos países no mundo com grandes dívidas''
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Brasil: Dívida Pública ameaçando chegar a 100% do PIB, capacidade de geração de receitas comprometida pela escassez de investimentos - e o governo mirando a CPMF e a venda de estatais na bacia das almas... 


Do Página 12 (Argentina)

O economista estadunidense Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2001, afirmou que no mundo “não haverá recuperação econômica até sairmos da pandemia”. A declaração foi dada durante sua participação no encerramento da 10ª edição do Festival Puerto de Ideias, neste domingo (8/11). Além disso, opinou que “a segunda onda de covid-19 será pior do que a primeira, tanto no aspecto da saúde quanto da economia”, e que, portanto, a recuperação econômica será mais difícil.

“É preciso gastar o que for preciso (…) a ênfase deve ser reconstruir para que seja melhor, como diz (Joe) Biden”, comentou Stiglitz, referindo-se à promessa do presidente eleito dos Estados Unidos, representante do Partido Democrata, durante o discurso que deu neste sábado (7/11), na  comemoração da sua vitória eleitoral. Do Página 12 (Argentina).

O economista, que preside o think tank Initiative for Policy Dialogue, da Universidade de Columbia, também analisou o impacto que a administração do atual presidente Donald Trump teve tanto local quanto internacionalmente. “Trump ampliou as diferenças cortando impostos, o que aumentou o déficit de bilhões de dólares, mas ele foi muito esperto em esconder isso”, disse.

“Um dólar, um voto. Estamos em uma situação em que uma minoria administra políticos e não reconhece maiorias. O resultado disso é uma distorção da democracia”, disse Stiglitz, que presidiu o Conselho de Consultores Econômicos durante a presidência do democrata Bill Clinton (1993-2001).

O Prêmio Nobel de Economia participou do encerramento do evento, em discurso no qual expressou sua preocupação com o impacto da pandemia nas economias emergentes.

“Os países em desenvolvimento só podem alocar uma pequena parte de seu PIB para fazer frente aos efeitos da pandemia e, obviamente, eles são mais afetados”, explicou Stiglitz, alertando que “já existem alguns países à beira de crise, como Argentina, Equador e Líbano. "

Segundo o Prêmio Nobel, que também foi chefe do Banco Mundial e líder da Comissão de Peritos em Reformas do Sistema Monetário e Financeiro Internacional da ONU (Organização das Nações Unidas), os países que melhor controlaram a pandemia são aqueles que, agora, começam a recuperar suas economias.

“Será muito difícil recuperar uma economia global se houver muitos países no mundo com grande dívida”, afirmou. Para o economista, os organismos financeiros multilaterais deveriam reestruturar a dívida de curto prazo dos países em desenvolvimento em empréstimos de longo prazo, medida a qual algumas potências, como os Estados Unidos e a Índia, se opuseram até agora.

Em seu livro mais recente, “Progressive Capitalism. The Answer to the Era of Unrest”, Stiglitz afirma que o capitalismo deve evoluir para se salvar, e responder a novos desafios sociais: aquecimento global, inteligência artificial, mudanças demográficas e enfraquecimento das instituições que sustentam as democracias liberais.  -  (Fonte: Carta Maior - Aqui).

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A POLÍTICA MÍOPE DA AUSTERIDADE


Stiglitz e a tragédia das políticas de austeridade

Por André Araújo

Escrevi aqui mais de vinte artigos mostrando a irracionalidade absurda do plano Meirelles - Goldfajn de centrar toda a economia na meta de inflação, um erro de uma tal magnitude que custa a crer que essa insanidade possa continuar sendo vendida como solução para a economia brasileira em sua maior recessão histórica.
O Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz em seu último livro THE EURO: AND ITS THREAT TO THE FUTURE OF EUROPE mostra o desastre que é uma política amarrada exclusivamente em metas de inflação e não em emprego e crescimento.
Stiglitz começa no plano do governo Hoover de aumentar a austeridade na crise de 1930, o que tranformou uma recessão na Grande Depressão.
Mostra também a obsessão dos bancos centrais europeus pelo controle da inflação, o que liquidou com a prosperidade na Europa e propiciou maior concentração de riqueza nos 1% mais ricos sem nenhum benefício para os demais.
Demole o conceito de "banco central independente" dizendo que não há poder sem dono - este acaba sempre sendo capturado por grupos de interesses que se vinculam ao mercado financeiro.
Stiglitz prega aquilo que qualquer pessoa racional vê: a flexibilidade monetária é essencial para manter a prosperidade, a inflação pode ser uma ferramenta para sair da recessão e voltar a crescer, da mesma forma que a contração monetária em um ciclo seguinte pode ser uma ferramenta para baixar a inflação, o nome do jogo é flexibilidade, como um fole, expandir e contrair de acordo com as circunstâncias, amarrar toda a economia à meta de inflação é algo absurdamente irracional, é ENGESSAR a economia para que ela não cresça para manter a inflação no sacrossanto "centro da meta".
Os monetaristas perderam a guerra pela "prosperidade" na Europa, lá é difícil mudar porque o Euro é uma convenção politica complexa. No Brasil é facílimo, basta não ter ultra-monetaristas no comando da economia.
Pretender cortar gastos por uma lei rígida para 20 anos à frente é loucura ainda maior do que aquela que Stiglitz aponta, aumentar a taxa de juros em plena recessão, e mais loucura ainda: quando a Selic de 14,25% foi fixada a inflação estava em torno de 10% - hoje caiu a pouco mais de 6%, que quer dizer que a taxa real era de 4,5%, hoje a taxa real está e 8,5%. Estamos pagando muito mais juros com a arrecadação em queda vertiginosa e ainda querem que esse plano absurdo dê certo com meia dúzia de concessões e parcerias que ninguém sabe se saem do chão.
Se todas as concessões e privatizações acontecerem não serão suficientes em valor para tirar o país da recessão; o Brasil precisa de um trilhão de reais de injeção monetária e não 30 ou 40 bilhões em complicadas parcerias que até agora são apenas uma intensão.
Não há registro na história econômica moderna de um País sair da recessão apenas com investimentos privados. Só se sai do buraco com investimento público em grande escala, é o que ensina Siglitz e a história econômica, mesmo porque o investimento privado não tem estimulo em acontecer sem investimento público antecedente. (Fonte: aqui).

segunda-feira, 11 de julho de 2011

SOBRE A CRISE MUNDIAL

Stiglitz: pacotes de austeridade matam crescimento

Joseph Stiglitz, que participará numa conferência em Angola sobre o tema “A Crise Financeira Internacional: Riscos e Oportunidades para Economias Emergentes como Angola”, organizada pelo Sol e que marca o lançamento da revista Foreign Policy neste país, afirmou, em entrevista a esta última publicação, que “a principal razão para os déficits destes países (tal como nos EUA) é a falta de crescimento, que reduz as receitas fiscais e aumenta as despesas”. “Matar o crescimento, como fazem estes pacotes de austeridade é, por isso, contraproducente”, avançou o Nobel da Economia.

Stiglitz defende que os governos devem “encorajar o crescimento” e que deve existir uma maior assistência por parte da Europa aos países com maiores dificuldades, o que incluirá um fundo de solidariedade europeu para a estabilidade, menores taxas de juros e mais investimento.

O economista critica a noção de que os países europeus periféricos são “pecadores” e que devem ser castigados, defendendo que esta é uma visão “mesquinha e parcialmente errada”.

Joseph Stiglitz defende que é necessário que o governo tente regular os abusos” dos mercados, na medida em que “vivemos num mundo pleno de assimetrias de informação, imperfeições de mercado e de concorrência, assimetrias de poder, fatores externos”.

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Enquanto o 'livre mercado' não for regulado, a crise mundial persistirá. Enquanto Grécia, Irlanda, Potugal, Espanha e Itália, entre outros (incluamos os EUA!), rumam para o matadouro, os grandes conglomerados financeiros continuam a esbórnia. Sem regulação não há solução. (Basileia I e II, que regulam o crédito bancário, por exemplo, e que o Brasil observa, são simplesmente ignorados por Tio Sam - mesmo depois do tsunami de 2008/9...).

sexta-feira, 3 de março de 2023

VENCEDOR DO NOBEL ELOGIA LULA E DIZ QUE ESQUERDA GERE MELHOR ECONOMIA: "ABSOLUTAMENTE CORRETO"

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Stiglitz: "Lula está correto" (ao pressionar o BC). E, diante do nível desconcertante de desigualdade, arremata: "aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade."


O vencedor do prêmio Nobel de economia e professor da Universidade de Columbia (EUA), Joseph Stiglitz, em recente entrevista realizada pela CNN Brasil, comentou a respeito da atual situação da economia brasileira e das práticas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está tomando desde que assumiu seu terceiro mandato. Para Joseph, a atitude de Lula em querer manter um maior controle do Banco Central está correta. Confira a seguir os melhores trechos:

BBC News – No Brasil, o presidente Lula está travando há semanas um embate com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o nível da taxa básica de juros do país, que está atualmente acima dos 13%. Lula argumenta que os juros estão estrangulando a economia, enquanto Campos Neto defende o mandato do Banco Central de perseguir a meta de inflação do país, de cerca de 3%. Como o senhor vê essa disputa no Brasil?

Stiglitz – Primeiro, é preciso dizer que metas de inflação – que na Europa [e nos EUA] é de 2%, e você falou em 3% [no Brasil] – são tiradas do nada. Elas não têm base alguma na teoria econômica ou na experiência econômica. (…) Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva, estrangula as empresas brasileiras, enfraquece a economia do país. Então o presidente Lula está absolutamente correto em estar preocupado com essas questões.

Voltando à questão da meta de inflação, a pesquisa teórica mais recente, realizada em um período longo de tempo, mostra que, em momentos de rápido ajuste da economia e mudança estrutural – o tipo de coisa que estamos vivendo no mundo pós-covid e à medida que rumamos para a transição verde -, uma taxa de inflação mais alta na verdade facilita o ajuste. (…)

Mudando de assunto para outra área de sua especialidade, a equipe econômica de Lula espera aprovar uma reforma tributária esse ano. Essa reforma deve ter uma primeira etapa focada em simplificar impostos sobre o consumo em um imposto sobre valor adicionado, e uma segunda etapa focada no Imposto de Renda. Como alguém que vem discutindo há anos o uso da tributação como uma forma de combater a desigualdade, qual o conselho do senhor para o Brasil, às vésperas de uma reforma?

Obviamente é importante ter um sistema tributário eficiente e isso exige simplificação. Mas o que é ainda mais ou igualmente importante para o Brasil é reformular o sistema tributário para combater a desigualdade, tornando esse sistema mais progressivo [que arrecada mais de quem tem mais renda e patrimônio].
Eu não posso opinar sobre a política brasileira, mas acredito que aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade. Diante do elevado nível de desigualdade do país, isso deve estar no topo da agenda. (…).  -  (Aqui).

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A GLOBALIZAÇÃO E OS NOVOS LEVIATÃS

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Facebook e Google passam a dividir a cena com o Capital Financeiro e a Mídia Comercial. Caso encerrado. Não tem pra ninguém.
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As gigantes da Internet lideram a escalada das multinacionais sobre o Estado e a sociedade


Facebook e Google, os novos Leviatãs

Por Carlos Drummond, na CartaCapital

O crescimento do Facebook e do Google ameaça a economia e a sociedade, alertou o bilionário George Soros em Davos em seu discurso anual sobre as perspectivas mundiais, mas os monopólios globais da tecnologia da informação são só a parte mais vistosa de um problema de proporções imensas. Com crescimento desenfreado em especial a partir dos anos 1980, as multinacionais conquistaram um poder sem precedentes e exercem controle indireto sobre os Estados Nacionais e as sociedades.
As megaempresas transnacionais são os novos Leviatãs, na definição cunhada em 2005 pelos economistas Alfred D. Chandler e Bruce Mazlish, que consideraram o poderio do bloco privado superior ao do Estado Nacional, rotulado com aquela metáfora bíblica pelo filósofo Thomas Hobbes no século XVII.
Segundo a organização Global Justice Now, 69 das 100 maiores receitas anuais em 2015 provieram de corporações empresariais globais e 31 de Estados Nacionais. A ONG registrou aumento de seis megaempresas em relação ao ano anterior. O valor das dez maiores, de 285 trilhões de dólares, superou o dos 180 países mais pobres, de 280 trilhões. O trabalho soma-se a vários outros realizados desde que a ONU divulgou, anos atrás, que cerca de metade dos 100 maiores PIBs do mundo era composta de multinacionais, estas mensuradas pelas suas receitas.
Considerados os campeões em inovação, o Facebook e o Google concentram uma capacidade crescente de moldar a atenção das pessoas e as gerações que crescem na era digital terão dificuldade em restaurá-la, chamou atenção Soros. O domínio dos monopólios digitais tem consequências políticas de longo alcance, mostra a manipulação de informações nas eleições de 2016 nos EUA. A perspectiva mais alarmante, segundo Soros, é a aliança entre os monopólios de informação e os complexos de vigilância desenvolvidos pelos grandes Estados Nacionais. 
A característica distintiva das empresas da plataforma de internet, disse o empresário, é que elas são redes e desfrutam de retornos marginais (por unidade adicional vendida) crescentes. Isso explica seu agigantamento: em oito anos e meio, o Facebook conseguiu 1 bilhão de usuários e precisou de metade desse tempo para alcançar o segundo bilhão.
A essa taxa, o Facebook converterá o planeta em menos de três anos. O Facebook e o Google controlam mais da metade de todas as receitas de publicidade na internet. Inúmeros provedores de conteúdo contribuem para a rentabilidade dos donos das redes sociais por não poderem evitar o uso das suas plataformas e terem de aceitar os termos que lhes são oferecidos. 
A lucratividade excepcional daquelas empresas resulta, em grande parte, de fugirem do pagamento pelo conteúdo que oferecem. As companhias afirmam estar apenas distribuindo informações, mas o fato de serem quase monopolistas nessa atividade as torna um serviço público, e nessa condição deveriam estar sujeitas a regulamentos mais rigorosos visando à preservação da concorrência, da inovação e de um acesso universal justo e aberto, criticou Soros.
O empresário destacou a superioridade da definição de poder de monopólio na União Europeia em relação aos Estados Unidos. A aplicação da lei nos EUA concentra-se, principalmente, em monopólios criados por aquisições, enquanto a lei da Europa proíbe o abuso do poder de monopólio, independentemente de como foi alcançado.
Além disso, a legislação americana adotou uma doutrina estranha: ela mede o prejuízo como um aumento no preço pago pelos clientes por serviços recebidos – e isso é quase impossível de provar quando a maioria dos serviços é prestada gratuitamente. O procedimento não leva em consideração as valiosas plataformas de dados que as empresas coletam de seus usuários. As leis europeias de proteção de privacidade e de dados são muito mais fortes do que as americanas. A UE levou sete anos para construir um caso contra o Google, mas seu sucesso influencia hoje ações nos Estados Unidos contra os monopólios.
O poder descontrolado dos monopólios empresariais é um problema imenso, alertou o Nobel de Economia Joseph Stiglitz no artigo intitulado “America has a monopoly problem – and it’s huge”, publicado em outubro. Dominada pelas grandes corporações, disse, a economia falhou para a maioria e enriqueceu poucos. As consequências são graves.
“Costumávamos pensar que os altos lucros eram um sinal do sucesso do funcionamento da economia americana, efeitos de um produto melhor, um serviço de qualidade superior. Mas, agora, sabemos que maiores lucros podem resultar de uma maneira mais eficaz de explorar os consumidores e discriminar preços extraindo o excedente do comprador, cujo principal efeito é redistribuir a renda para o novo super-rico”, analisa Stiglitz.
A lei antitruste Sherman de 1890 visava coibir a concentração de poder econômico para revitalizar a sociedade e a democracia, diz, mas um exército de economistas e legisladores estreitou o seu escopo, presumiu que o mercado é de fato naturalmente competitivo e isso ensejou a proliferação e o fortalecimento dos monopólios. O aumento no poder de mercado de poucas empresas em cada setor levou a uma elevação nos preços em relação aos custos e isso diminuiu o padrão de vida e reduziu os salários dos trabalhadores.
O economista atribui grande parte do crescimento da desigualdade a uma redistribuição de renda a partir dos trabalhadores e dos poupadores comuns para os proprietários desses oligopólios e monopólios. Parte disso, analisa, pode ser resultado natural da evolução da economia, do crescimento das indústrias com efeitos sociais, econômicos e ambientais, de mudança na demanda para os serviços locais, mas muito se deve a uma alteração das regras implícitas do jogo e à adoção de novos padrões antitruste mais permissivos que facilitaram a criação, o abuso e a alavancagem do poder de mercado de poucos grupos.
Múltiplos estudos, prossegue Stiglitz, confirmaram um aumento dramático da parcela do preço acima do custo de produção e distribuição (mark-up), como seria de esperar a partir do crescimento do poder de mercado. Mordecai Kurz, da Universidade de Stanford, mostrou recentemente que quase 80% do valor patrimonial das empresas com ações ou outros títulos negociados com o público são atribuíveis às rendas, representando quase um quarto do valor adicionado total e com grande concentração no setor de tecnologia da informação. Tudo isso é uma mudança marcante em comparação com 30 anos atrás.
Os efeitos adversos da desigualdade resultante são óbvios, continua o economista, mas há numerosas consequências indiretas que resultam em uma economia com desempenho mais pobre. Primeiro, a riqueza originada da capitalização das rendas, que ele denomina de riqueza-renda, esvazia a formação de capital.
A fraca formação de capital dos anos recentes é parte e parcela do crescimento das rendas e da riqueza-renda, levando à estagnação econômica. Segundo, com monopólios o retorno marginal do investimento é menor do que o retorno médio – eles sabem que os seus preços podem cair se eles produzirem mais –, o que explica o resultado anômalo de imensos lucros corporativos, mas baixas taxas de investimento corporativo, mesmo com o custo de capital desabando.
Terceiro, as distorções na alocação de recursos associadas ao poder de mercado levam a uma economia menos eficiente. Quarto, o poder de mercado em particular tem sido usado para sufocar a inovação – exatamente o oposto do que deveria acontecer, segundo a Escola de Chicago. Há evidência do declínio do ritmo de criação de novas firmas inovadoras, especialmente daquelas lideradas por jovens empreendedores.
Quinto, a habilidade desses novos monstros empresariais de evitar tributação significa que o público está sendo privado de receitas essenciais para investir em infraestrutura, pessoal e tecnologia – novamente contribuindo para a estagnação e distorção da economia com a outorga, a essas firmas, de uma vantagem competitiva injusta.
Sexto, com o dinheiro movendo-se da base da pirâmide para o topo, o que significa o gasto de uma parcela menor da renda, a demanda agregada é enfraquecida, a menos que seja compensada por outras macropolíticas. Na década decorrida desde a Grande Recessão, a política fiscal foi restringida, e, devido a essas restrições, a política monetária não conseguiu preencher a lacuna.
“Devemos nos preocupar com essa aglomeração de poder de mercado, não só por causa das suas consequências econômicas, mas também em razão dos seus efeitos políticos. Uma desigualdade econômica crescente leva a uma desigualdade política crescente, que pode e tem sido usada para criar regras do jogo que perpetuam a iniquidade econômica”, chama atenção Stiglitz.
Empresas gigantes criam demandas nem sempre benéficas à sociedade. A General Motors fez uma campanha em 1952 pelo desmonte dos sistemas de trânsito urbano com o objetivo de estimular o uso de automóveis. “O que é bom para a GM é bom para os Estados Unidos”, disse na época o presidente da empresa, Charles Wilson. Não foi bem assim.
O lobby da montadora minou o transporte público, com consequências profundas em várias áreas e que mantém a economia estadunidense refém dos combustíveis fósseis até hoje, observa Neva Goodwin em trabalho sobre o impacto social das corporações multinacionais. Outro exemplo citado é a criação, pela Nestlé, de demanda pela sua fórmula alimentar infantil nos países subdesenvolvidos.  -  (Aqui).

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

AMÉRICA LATINA, REGIÃO MAIS DESIGUAL DO PLANETA

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"A América Latina foi apontada como a região do mundo com a maior desigualdade de renda no relatório de desenvolvimento humano de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado em dezembro.
Os 10% mais ricos da América Latina concentram uma parcela maior da renda do que qualquer outra região (37%), afirmou o relatório. E vice-versa: os 40% mais pobres recebem a menor fatia (13%)."
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Em tal contexto, o Brasil...
      São Paulo: Paraisópolis x Morumbi: estatísticas bem diferentes 

Por que a América Latina é a 'região mais desigual do planeta' 

Por Geraldo Lissard (Da BBC Mundo em Nova York)

A América Latina é tão desigual que uma mulher em um bairro pobre de Santiago, capital do Chile, nasce com uma expectativa de vida 18 anos menor que outra de uma área rica da mesma cidade, segundo um estudo.
Em São Paulo, essa lógica também ocorre. Quem mora em Paraisópolis, uma das maiores favelas da cidade, vive em média 10 anos menos do que os moradores do Morumbi, bairro rico ao lado da comunidade, de acordo com o Mapa da Desigualdade, da ONG Rede Nossa São Paulo, que compila dados públicos.
A grande disparidade latino-americana também envolve a cor da pele ou a etnia: em comparação com os brancos, os negros e indígenas têm mais possibilidades de ser pobres e menos de concluírem a escola ou conseguirem um emprego formal.
A América Latina foi apontada como a região do mundo com a maior desigualdade de renda no relatório de desenvolvimento humano de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado em dezembro.
Os 10% mais ricos da América Latina concentram uma parcela maior da renda do que qualquer outra região (37%), afirmou o relatório. E vice-versa: os 40% mais pobres recebem a menor fatia (13%).
Muitos têm apontado essa desigualdade como uma das explicações para a onda de protestos que varreu recentemente alguns países da América Latina, como Chile, Peru e Bolívia.
Apesar dos avanços econômicos e sociais nos primeiros anos deste século, a América Latina ainda é “a região mais desigual do planeta”, alertou a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em várias ocasiões.
A questão, então, é por que esse cenário ainda continua.
A resposta, segundo historiadores, economistas e sociólogos, começa alguns séculos atrás.
“Pode-se dizer que o passado colonial criou as condições para a desigualdade”, diz à Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.
Uma história antiga
Segundo Stiglitz, a exploração dos colonizadores semeou a desigualdade na América Latina, bem como a distribuição desigual de terras nas economias agrárias contribuiu para “a criação de algumas famílias muito ricas e muitas famílias muito pobres”.
Em vários países da América Latina, assim como nos Estados Unidos, um grande elemento racial desempenhou um papel em pelo menos uma dimensão da desigualdade”, diz o ex-economista-chefe do Banco Mundial e atual professor da Universidade de Columbia, em Nova York.
E isso parece longe de ser apenas uma questão do passado.
Na América Latina, a incidência de pobreza é ainda maior nas áreas rurais, e entre indígenas e negros, afirmou a Cepal em relatório de 2019 sobre o cenário social da região.
De acordo com o documento, embora tenha havido uma leve redução recente, a taxa de pobreza dos indígenas em 2018 foi de 49%, o dobro do registrado para a população não indígena nem negra. E a taxa de extrema pobreza alcançou o triplo (18%).
No México, os indígenas representam aproximadamente 15% da população, e quase três quartos deles vivem na pobreza. Um estudo da organização Oxfam indicou, em agosto, que 43% dos indivíduos que falam um idioma nativo não concluíram o ensino fundamental, e apenas 10% têm trabalho formal ou é empregador.

Círculo vicioso

Existem outros fatores por trás do abismo social na América Latina, que carrega a reputação de região "mais desigual" desde os anos 1980.
Hoje, a região também é uma das mais urbanizadas do mundo. As rápidas migrações da população rural para as cidades, porém, ocorreram no último meio século de maneira desordenada.
Em muitas áreas de expansão das cidades, o Estado não foi eficiente em promover serviços públicos como educação ou saúde.
Um estudo publicado pela revista The Lancet em dezembro descobriu grandes diferenças na expectativa de vida nas cidades da América Latina. E essas lacunas dependem, por exemplo, do bairro onde as pessoas moram: se ele for mais pobre, a tendência é de que seus moradores vivam menos do que os habitantes de regiões mais ricas.
Em Santiago, as mulheres mais pobres vivem quase 20 anos a menos que as mais ricas. Na Cidade do México, os homens de bairros mais pobres morrem 11 anos antes que os mais ricos.
Stiglitz, que escreveu vários livros sobre desigualdade, observa "um círculo vicioso" na região.
"Um alto nível de desigualdade econômica cria sistemas políticos que ajudam a perpetuar essa economia", explica. "Então esses sistemas não investem muito em educação, por exemplo."
Ele também afirma que economias baseadas em recursos naturais, como as da América Latina, tendem a ser caracterizadas pela desigualdade. "A riqueza do continente vem da renda associada aos recursos naturais", explica. "E, na sociedade, há uma briga por quem recebe a renda."
No entanto, outros países ricos em recursos naturais, como a Noruega ou a Austrália, escapam dos grandes problemas da desigualdade latino-americana.
A chave nesses casos, dizem os especialistas, é ter instituições que permitam um gerenciamento mais eficiente das receitas para impulsionar o desenvolvimento. E isso também é escasso na América Latina.

Fim da festa

As evidências mostram que as classes médias latino-americanas pagam mais impostos do que recebem em serviços sociais como educação ou saúde. Em resposta, elas recorrem a provedores privados, o que tende a aumentar a desigualdade, segundo o relatório do PNUD sobre desenvolvimento humano.
"Uma resposta natural seria recolher mais recursos dos mais ricos. Mas esses grupos, embora sejam minoritários, costumam ser um obstáculo à expansão dos serviços universais, usando seu poder econômico e político por meio de mecanismos estruturais e instrumentais", diz o documento.
As políticas tributárias são uma fonte fundamental desses problemas.
Comparados a outros países em desenvolvimento, os sistemas tributários latino-americanos tendem a ter uma parcela maior de impostos indiretos (sobre consumo), que favorecem menos a igualdade do que os impostos diretos (sobre renda ou propriedade).
Assim, impostos e transferências diretas reduzem muito mais o coeficiente de desigualdade nas economias avançadas do que nas economias emergentes e em desenvolvimento, "incluindo países da América Latina com algumas das maiores desigualdades de renda do mundo", alertou no mesmo relatório David Coady, do departamento de assuntos tributários do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Apesar de tudo isso, cerca de 100 milhões de latino-americanos saíram da pobreza entre as décadas de 1990 e 2000, com base em programas sociais e políticas salariais em meio ao boom das commodities.
A desigualdade estrutural nesse período, no entanto, variou muito pouco.
E a disparidade de renda em países como Brasil, México, Colômbia ou Chile ofuscou os recentes avanços no índice de desenvolvimento humano da ONU, que inclui variáveis ​​como expectativa de vida ou qualidade da educação. No ano passado, a Venezuela, Nicarágua e Argentina tiveram recuos, mergulhando os países ainda mais em suas crises políticas e sociais.
Além disso, após o boom econômico, a taxa de pobreza na América Latina aumentou de 28%, em 2014, para 31% no ano passado, segundo dados da Cepal. Do total de pobres que a região "ganhou" nos últimos cinco anos, 26 milhões sofrem com a pobreza extrema, sendo o Brasil a principal fonte desse retrocesso.
Em meio a esse panorama, a inquietação social foi expressa recentemente através de votos contra os governo atuais em todo o subcontinente e, principalmente, com fortes protestos de rua em países como Chile, Colômbia ou Equador.
"Há um protesto generalizado contra aqueles que estão governando", diz Nora Lustig, profesdora de economia na Universidade de Tulane (EUA) e diretora do Instituto do Compromisso com a Igualdade. "Combina-se o fim da festa para todos com uma situação em que a distribuição de renda começa a piorar novamente."  -  (Aqui).

terça-feira, 23 de julho de 2019

STIGLITZ: EUA: A LUTA PELA ECONOMIA VERDE É A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL


A crise do clima é nossa terceira guerra mundial, precisa de uma resposta ousada



Os defensores do Green New Deal dizem que há uma grande urgência em lidar com a crise climática e destacar a escala e o escopo do que é necessário para combatê-la. Eles estão certos. Eles usam o termo “New Deal” para evocar a resposta massiva de Franklin Delano Roosevelt e do governo dos Estados Unidos à Grande Depressão. Uma analogia ainda melhor seria a mobilização do país para combater a Segunda Guerra Mundial.
Os críticos perguntam: “Podemos pagar por isso?” E reclamam que os defensores do Green New Deal confundem a luta pela preservação do planeta, com a qual todos os indivíduos de mente certa deveriam concordar, com uma agenda mais controversa para a transformação social. Em ambos os relatos, os críticos estão errados.
Sim, podemos pagar, com as políticas fiscais e a vontade coletivas certas. Mas, mais importante, devemos nos dar ao luxo. A emergência climática é a nossa terceira guerra mundial. Nossas vidas e civilização como a conhecemos estão em jogo, assim como estavam na segunda guerra mundial.
Quando os EUA foram atacados durante a segunda guerra mundial, ninguém perguntou: “Podemos nos dar ao luxo de lutar contra a guerra?” Era uma questão existencial. Nós não poderíamos pagar não para combatê-lo. O mesmo vale para a crise climática. Aqui, já estamos experimentando os custos diretos de ignorar a questão – nos últimos anos, o país perdeu quase 2% do PIB em desastres relacionados ao clima, que incluem inundações, furacões e incêndios florestais. O custo para a nossa saúde causado por doenças relacionadas ao clima está apenas sendo catalogado, mas também chegará a dezenas de bilhões de dólares – sem mencionar o número ainda não contado de vidas perdidas. Pagaremos pelo desarranjo climático de uma forma ou de outra, então faz sentido gastar dinheiro agora para reduzir as emissões, em vez de esperar até mais tarde para pagar muito mais pelas consequências – não apenas do clima, mas também do aumento do nível do mar. É um clichê, mas é verdade: uma grama de prevenção vale um quilo de cura.
A guerra contra a emergência climática, se corretamente travada, seria realmente boa para a economia – assim como a segunda guerra mundial preparou o cenário para a era dourada da economia americana, com a taxa mais rápida de crescimento em sua história em meio à prosperidade compartilhada. O Green New Deal estimularia a demanda, assegurando que todos os recursos disponíveis fossem utilizados; e a transição para a economia verde provavelmente levaria a um novo boom. O foco de Trump nas indústrias do passado, como o carvão, está estrangulando o movimento muito mais sensato para a energia eólica e solar. Mais empregos, de longe, serão criados em energia renovável do que se perderá no carvão.
O maior desafio será organizar os recursos para o Green New Deal. Apesar da baixa taxa de desemprego “manchete”, os Estados Unidos têm grandes quantidades de recursos subutilizados e ineficientemente alocados. A proporção de pessoas empregadas em relação àquelas em idade ativa nos EUA ainda é baixa, menor do que em nosso passado, menor do que em muitos outros países e, especialmente, baixa para mulheres e minorias. Com políticas familiares de licença e apoio bem projetadas e mais flexibilidade de tempo em nosso mercado de trabalho, poderíamos trazer mais mulheres e mais cidadãos com mais de 65 anos para a força de trabalho. Devido ao nosso longo legado de discriminação, muitos de nossos recursos humanos não são usados ​​de forma tão eficiente quanto poderiam ou deveriam ser.
Enquanto a maioria dos economistas concorda que ainda há espaço para alguma expansão econômica, mesmo a curto prazo – produção adicional, que pode ser usada para combater a crise climática -, ainda há controvérsias sobre o quanto a produção poderia ser aumentada sem pelo menos estrangulamentos de curto prazo. Quase certamente, no entanto, terá de haver uma redistribuição de recursos para combater essa guerra, assim como na segunda guerra mundial, quando a incorporação de mulheres à força de trabalho expandiu a capacidade produtiva, mas não foi suficiente.
Algumas mudanças serão fáceis, por exemplo, eliminando as dezenas de bilhões de dólares em subsídios aos combustíveis fósseis e transferindo recursos da produção de energia suja para a produção de energia limpa. Você poderia dizer, no entanto, que os Estados Unidos têm sorte: temos um sistema tributário tão mal projetado que é regressivo e repleto de brechas que seria fácil levantar mais dinheiro ao mesmo tempo em que aumentamos a eficiência econômica. A tributação de indústrias sujas, a garantia de que o capital paga pelo menos uma taxa tão alta quanto aqueles que trabalham para a vida e o fechamento de brechas fiscais proporcionariam trilhões de dólares ao governo nos próximos 10 anos, dinheiro que poderia ser gasto na luta contra o clima. 
Os esforços de mobilização da segunda guerra mundial transformaram nossa sociedade. Passamos de uma economia agrícola e uma sociedade em grande parte rural para uma economia industrial e uma sociedade em grande parte urbana. A liberação temporária de mulheres quando elas entraram na força de trabalho para que o país pudesse atender suas necessidades de guerra teve efeitos de longo prazo. Esta é a ambição dos defensores, não é irrealista, para o Green New Deal.
Não há absolutamente nenhuma razão pela qual a economia verde e inovadora do século XXI tenha de seguir os modelos econômicos e sociais da economia industrial do século 20 baseados em combustíveis fósseis, assim como não havia razão para que essa economia seguisse a economia e a sociedade, modelos das economias agrária e rural dos séculos anteriores.  -  (Aqui).

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GREEN NEW DEAL = O Green New Deal é um pacote de estímulo econômico dos Estados Unidos que visa abordar a mudança climática e a desigualdade econômica. O nome refere-se ao New Deal, um conjunto de reformas sociais e econômicas e projetos de obras públicas realizadas pelo presidente Franklin D. Roosevelt em resposta à Grande Depressão.
.Clique (Aqui) para ler sobre o assunto em matéria publicada na revista Galileu.
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Quanto ao resto do mundo...
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ENQUANTO ISSO, NO BRASIL...

"Anvisa adota risco de morte como único critério para classificar agrotóxicos", por Natália Cancian, na Folha - Aqui.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

STIGLITZ: O BANCO CENTRAL ESTRANGULA A ECONOMIA BRASILEIRA

"Como o sr. vê os atuais problemas do Brasil?
A característica distintiva do Brasil é que a política monetária estrangula a economia. Vocês têm uma das mais altas taxas de juros no mundo. Se o Brasil reagisse à queda no preço das exportações com medidas contracíclicas, o País talvez pudesse ter evitado a intensidade da atual crise. Outra questão é que, sempre que ocorrem escândalos de corrupção da magnitude do que acontece agora no Brasil, a economia é jogada para baixo. Isso cria uma espécie de paralisia. O sistema legal no Brasil está colocando muita gente na prisão. Não estou dizendo que não deveriam fazer isso, mas a política monetária deveria reconhecer que este é um período em que haverá restrição de gastos, particularmente no setor público, em que as pessoas serão mais cautelosas em tomar decisões, em que a construção civil vai se contrair.
Mas a inflação está muito mais elevada que o teto de tolerância do sistema de metas.
Esse modelo que diz que, se a inflação está alta, você sobe os juros é uma teoria que foi desacreditada. É preciso saber qual é a fonte da inflação. Se for excesso de demanda, aí você sobe juros, porque tem de moderar a demanda. Mas se for um impulso dos custos, você tem de ser cuidadoso. Nesse caso, a forma pela qual a alta dos juros reduz a inflação é matando a economia. Se você conseguir desemprego o suficiente, os salários são deprimidos, e você segura a inflação. Mas isso é matar a economia. Não é bom ter inflação em disparada, mas também não é bom matar a economia. E eu acho que eles (o BC brasileiro) perderam esse equilíbrio.
No Brasil, muita gente acha que a culpa é da política fiscal, e não do Banco Central.
Quando a economia se desacelera, as receitas tributárias caem e ocorrem déficits. Se a economia for estimulada, a receita sobe. Dessa forma, a política monetária pode ajudar a política fiscal.
Então o problema no Brasil é a política monetária?
Na verdade, vocês têm dois problemas: o colapso do preço das exportações e o escândalo de corrupção. O que eu disse é que a política monetária deveria se contrapor a esses fatores, mas, em vez disso, ela está agravando o problema.
Como o sr. vê a economia global hoje?
Meu diagnóstico não é nada complicado: há falta de demanda agregada global. Mesmo antes da crise, o que sustentava a economia americana era uma bolha artificial. Se não fosse por ela, a economia teria sido fraca.
Por que a demanda global está fraca?
Olhando em volta do mundo, há quatro razões básicas. A primeira é a desigualdade. As pessoas no topo não gastam tanto (como parte da sua renda) quanto as pessoas na base. Então, à medida que a desigualdade cresce, a demanda se enfraquece. Em segundo lugar, há transformações estruturais acontecendo em quase todos os países. Nos EUA, a transição da indústria manufatureira para os serviços. Na China, das exportações para a demanda interna. Mas os mercados são duros em conduzir essas transições. Tem sempre gente que fica para trás, o que contribui para a desigualdade. Os setores que ficam para trás não podem demandar bens. Em terceiro lugar, a zona do euro está uma bagunça, com políticas econômicas que contribuíram para reduzir o crescimento.
O sr. se refere à austeridade?
Sim, até nos EUA temos uma forma moderada de austeridade, pela pressão política dos Republicanos. Nós temos meio milhão de empregos menos no setor público do que tínhamos em 2008, antes da crise, e, se houvesse uma expansão normal da economia, seriam dois milhões mais. Então temos austeridade nos EUA.
E qual seria o quarto fator para a demanda global enfraquecida?
Sempre que há uma perturbação como a queda do preço do petróleo. Todo mundo esperava que o preço mais baixo estimularia a demanda, mas se esqueceram de que se trata de redistribuição. Os vendedores perdem e os compradores ganham. Se os vendedores diminuem seus gastos em exatamente o mesmo volume que os compradores aumentam, não há nenhuma mudança. Mas há assimetrias. Muitas vezes os que perdem têm de contrair o seu gasto, dólar por dólar, e aqueles que ganham economizam, pois não sabem se o ganho é temporário ou de longo prazo. E os desdobramentos podem ser ainda piores em termos de investimento – uma das fontes de crescimento nos EUA e outros países vinha sendo o investimento em hidrocarbonetos (petróleo e gás). E isso foi cortado. Os efeitos são enormes. Da mesma forma, a desaceleração na China provoca a queda do preço do minério de ferro, e os ganhadores não gastam mais tanto quanto os vendedores gastam menos.
Qual a sua previsão para 2016?
É provável que essas tendências que eu descrevi continuem este ano. Se eu fosse otimista, eu chamaria atenção para o fato de que o orçamento americano acabou sendo melhor do que o esperado, mas há muitos fatores negativos. Não vejo nada positivo na Europa. Acho que muita gente esperava a desaceleração na China, mas não o tamanho da turbulência financeira. Tudo isso me diz que 2016 será tão ruim ou pior do que 2015.
O problema da economia global é demanda, para o senhor. Qual seria a terapia?
A terapia econômica é fácil. O problema é a política. Em termos econômicos, precisamos de um aumento dos gastos do governo nos EUA e na Europa. Nos dois casos, os setores públicos podem tomar emprestado a juros muito baixos. E, por outro lado, é preciso investimento em tecnologia, educação, infraestrutura. Isso estimularia a economia. Compraríamos mais do Brasil, o que ajudaria vocês. Na Europa e nos EUA, temos espaço fiscal, vocês têm menos. Mesmo que os EUA estivessem preocupados com o déficit público, podemos elevar impostos. Nossos impostos são muito baixos. Podemos aumentar impostos, conseguir mais igualdade.
E qual o obstáculo para isso?
O problema maior está nos EUA e na Europa, e se resume à política. Na verdade, é um pouco mais complicado. Nos EUA, é apenas a política. Acredito que há um amplo sentimento no Partido Democrata em favor das políticas que acabei de descrever. Na Europa, é complicado por causa da ideologia alemã. Tenho dúvida de que, caso a oposição vencesse, haveria uma mudança. Os alemães reescreveram a história para acreditar que a inflação foi o problema principal (na ascensão do nazismo), mas o que causou Hitler foi o desemprego. E eles se esqueceram disso. Eles esqueceram que o desemprego é a verdadeira causa da instabilidade social. E eles promovem políticas que causam o desemprego. Então a zona do euro tem de ser reformada, e isso é mais difícil, é um problema estrutural."




(De Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo - aqui - em Davos, onde participa do Fórum Econômico Mundial.
Além dos estragos causados pelo Banco Central, Stiglitz atribui à Lava Jato o peso recessivo que ela efetivamente representa - e já se anuncia que se prolongará até 2018... -, e enfatiza que, mesmo se se imaginasse a economia brasileira 'infensa' às consequências da Lava Jato, a superação dos entraves do País dependeria do exterior: "Em termos econômicos, precisamos de um aumento dos gastos do governo nos EUA e na Europa. Nos dois casos, os setores públicos podem tomar emprestado a juros muito baixos. E, por outro lado, é preciso investimento em tecnologia, educação, infraestrutura. Isso estimularia a economia. Compraríamos mais do Brasil, o que ajudaria vocês. Na Europa e nos EUA, temos espaço fiscal, vocês têm menos". Enquanto isso, o desemprego se alastra...
Comentários adicionais podem ser lidos aqui).