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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

XADREZ DO PAI DO CARLOS BOLSONARO, POR LUIS NASSIF

(Colagem: GGN).
Xadrez do pai do Carlos Bolsonaro
Por Luis Nassif

Peça 1 – o desmanche do governo

O governo Bolsonaro não precisa de inimigos. Ele e a família se bastam. Imaginava-se que o primeiro mês de governo seria das cabeçadas. Depois, haveria uma articulação inicial para começar a implementar seus diversos sacos de maldade.
O episódio Bebianno mostrou que Jair e filhos são incontroláveis.
Como se recorda, a Folha denunciou o desvio de verbas partidárias para laranjas do PSL. Imediatamente, Carlos Bolsonaro – o filho pitbull – apontou o dedo para Gustavo Bebianno, Secretário Geral da Presidência. Para se proteger, Bebianno declarou ter conversado três vezes durante o dia com o pai de Carlos. Carlos desmentiu e o pai de Carlos confirmou o desmentido.
Frágil até a medula, o pai de Carlos anunciou que esperava chegar em Brasília com Bebianno fora do governo. Sabendo no tête-à-tête o pai de Carlos é frágil, Bebianno disse que só sairia depois de conversar pessoalmente com o pai de Carlos.
O pai é emocional e politicamente dependente dos filhos. E os filhos são completos sem-noção. O governo Bolsonaro não sobrevive com os filhos no centro dos acontecimentos. E o pai não sobrevive sem eles. Como é que se resolve esse drama nelsonrodriguiano?

Peça 2 – Bebianno e Sérgio Moro

A encrenca Gustavo Bebianno respingou pesadamente em Sérgio Moro.
Em entrevistas à imprensa, Bebianno sugeriu que se caísse levaria junto o pai de Carlos Bolsonaro. Já o Ministro Sérgio Moro anunciou que investigaria a denúncia contra Bebianno a pedido do pai de Carlos. Ora, se Bebianno diz que haveria respingos no pai de Carlos, e o pai de Carlos pede expressamente para Moro conduzir a investigação, a suspeita que fica é que o pai de Carlos tem esperança de que Moro deixe o laranjal inteiro no quintal de Bebianno.
E se o próprio Ministro Moro avisa que vai investigar o laranjal, a pedido do pai de Flávio, mais eloquente ainda ficou seu silêncio em relação ao envolvimento do motorista Fabrício Queiroz com o irmão de Carlos.
Com imbróglio dessa natureza, não adiantou sequer chamar outra vez a cavalaria – o enésimo vazamento da delação do ex-Ministro Antônio Pallocci. A esta altura do campeonato, nem as milícias virtuais de Bolsonaro acreditam mais em Pallocci.
Aliás, a maior defesa de Carlos foi o elogio que as contas do PSL receberam do ínclito Ministro Luís Roberto Barroso, do Tribunal Superior Eleitoral. Para saber para onde caminham os ventos, sugere-se ficar de olho nas declarações de Barroso. Se ele criticar os Bolsonaros, é porque não há nenhum risco de eles manterem o poder.

Peça 3 – barbárie avança sem comando

Mesmo com quatro aloprados no comando, a barbárie avança em várias frentes:
  • Chacinas no Rio de Janeiro, sob o guarda-chuva de dois alucinados, o governador Wilson Witzel e o próprio Sérgio Moro.
  • Invasões de terras indígenas e mortes de lideranças de sem terra.
  • Paralisação gradativa da rede pública de saúde, por cortes nos repasses.
  • CPI para investigar a Comissão Nacional da Verdade.
  • Intenção de instituir a auto regulação nas instituições de ensino.

Peça 4 – as reformas de Paulo Guedes

A única esperança da família Bolsonaro seria a melhora na economia. Não há perigo de melhorar, a não ser uma pequena melhora cíclica que manterá o PIB distante do período pré-crise.
O país entra no 4º ano de recessão, após a maior queda do PIB da história. Quedas desse nível só ocorrem quando existem problemas insolúveis com a dívida externa e fuga de capitais.  E, depois de quedas drásticas, há enorme condição de recuperação rápida da economia, porque em cima de uma base já instalada.
Nada disso ocorreu por aqui. A jabuticaba foi uma recessão da qual a única causa foram erros de condução avalizados por todo o mercado e pela mídia.
Repete-se, com muito mais perdas, as ilusões de ótica da economia norte-americana. A história de que se houver cortes nos impostos, a resposta automática seria o crescimento da economia.
Quando Joaquim Levy implementou seu pacote fiscal, em uma economia já em queda, aprofundou violentamente a recessão. Resposta dos economistas de mercado, a posteriori: o ajuste não foi radical o suficiente. Depois, mais três anos de desastres do governo Temer, com Lei do Teto e tudo, e nada da economia se recuperar, o álibi é que faltou a reforma da Previdência.
É evidente a necessidade de uma reforma da Previdência. Mas, por aqui, a reforma está sendo empurrada goela abaixo da opinião pública midiática por meio de uma mentira: a ideia de que bastará a reforma para recuperar o crescimento.
Com mais gravidade, é o mesmo que foi aplicado nos Estados Unidos quando, em outubro, de 2017, o Secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, apostou que o mercado de ações explodiria se os republicanos aprovassem uma lei cortando impostos. O crescimento seria tanto que, mesmo com alíquotas menores, o aumento da arrecadação reduziria os déficits em um trilhão de dólares.
No final de 2018, o déficit fiscal norte-americano aumentou 17% em relação o ano anterior, em um total de acréscimo de US$ 779 bilhões. Depois do impacto inicial no PIB, com crescimento de 3,1% em 2018, as previsões indicam desaceleração para 2,4% em 2019 e para 1,6% nos três anos seguintes. Sem aumento da demanda, as empresas contraíram crédito para recomprar suas próprias ações.
Por aqui estimula-se a informalidade no emprego, esvazia-se a principal fonte de financiamento de longo prazo – o BNDES -, cortam-se  gastos sociais para a baixa renda, anuncia-se mais redução dos impostos, paralelamente a uma redução proporcional nos gastos sociais.
Mata-se o mercado interno, secam as fontes de financiamento de longo prazo, e espera-se que desse salseiro nasça a luz.

Peça 5 – a peça Hamilton Mourão

O governo Bolsonaro, os Ministros de confiança de seus filhos, compõem a mais estabanada equipe ministerial da história. Tem-se um Ministro da Educação, Ricardo Velez,  sem nenhuma noção do ofício; uma Ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que parece vendedora de Bíblia do velho oeste; um Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, delirante; um Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,  ignorante e com condenação por falsificação de documento público, e um chefe da articulação política, Onix Lorenzoni, o mais completo caso de solenidade vazia da República.
Não há a menor condição de ter vida longa. A maior prova é do STF (Supremo Tribunal Federal) começar a colocar as mangas de fora.
A dúvida é sobre o que virá depois. Pelo simples fato de falar coisa com coisa, o general Hamilton Mourão emerge como a salvação da lavoura – apesar de sua única atitude concreta ter levado à inviabilização da Lei da Transparência.  -  (Aqui).
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Em tempo: aparentemente, a paz já teria voltado (aqui). Agora, espera-se, é aguardar os resultados da apuração do caso, que, aliás, ao que tudo indica, não seria 'estadual' (PE), mas nacional (vide MG). Como diria o saudoso Ivan Lessa: "...mas, quanto a Esquemas WhatsApp e Queiroz, nem pensar."

(Nota: Clique aqui para ler "Entenda a suspeita de laranjas do PSL e a crise que afeta Bolsonaro", e aqui: "A razão da bronca dos Bolsonaros com Bebianno").

.Em tempo II: De fato, a paz era aparente: segundo o SBT, o ministro acaba de ser exonerado.