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sexta-feira, 8 de julho de 2011

O POVO DESORGANIZADO


"O Brasil foi apropriado por uma casta", diz Ferreira Gullar

Josélia Aguiar, Uol

Ferreira Gullar, sempre campeão de público em todas as edições da Flip a que compareceu, repetiu o feito: a Casa Folha ficou lotada na manhã desta sexta (8), quando o poeta, 81, tratou das conexões entre poesia e política.

Gullar fez graça logo no começo de seu depoimento ao dizer que não entendia nada do tema, somente dava palpites. "Política é uma coisa muito difícil. Não recomendo a vocês."

Como exemplo, lembrou que a presidente Dilma Roussef está numa "saia justa", após a queda do ministro dos Transportes, porque não pode desagradar aos "40 deputados do partido que o apoiam".

Uma hora e meia depois, após contar vários episódios e ler poemas, o tom de piada foi substituído por outro, mais sério e preocupado: "O Brasil foi apropriado por uma casta, do Congresso ao Senado", disse. Se alguma coisa está acontecendo, argumentou o poeta, é "graças à imprensa, que denuncia".

"Não sei como vamos sair disso. A minha esperança é o povo desorganizado, como ocorreu no Oriente", acrescentou Gullar. (...)

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A imprensa está denunciando, Gullar, e isso é positivo. Mas há que observar o fato de que nos estados e municípios 'amigos' a ação da imprensa, lamentavelmente, deixa muito a desejar.

Quanto à 'casta' que se teria apropriado do Brasil, até onde nos é dado ver a Constituição Federal vem prevalecendo, o que torna lícito dizer que o Brasil observa os ditames do Estado Democrático de Direito. Se o povo escolheu bem ou mal, Gullar, é questão de opinião. E há, mesmo, na minha opinião, escolhas péssimas - mas tais escolhas são incrivelmente (ainda na minha opinião) julgadas boas por outrem. Coisas do tal Estado Democrático de Direito...

Relativamente à manifestada esperança de que o 'povo desorganizado', tal qual ocorreu no Oriente, faça o Brasil 'sair disso', ponderamos: uma vez que os indicadores sociais do Brasil colidem frontalmente com os ainda reinantes no Egito, Tunísia e outros (emprego formal, elevação do poder aquisitivo do povão, ascensão social, combate à miséria etc), seu sonho, Gullar, a cada dia se situa em patamar mais distante. Sua esperança, poeta, é, felizmente, vã.

No mais, pra fechar: Toda Poesia, 1950-1980, de Ferreira Gullar, capa dura, 448 páginas, Civilização Brasileira, prefácio de Sérgio Buarque de Hollanda, abrangendo A Luta Corporal (1950-1953), O Vil Metal (1954-1960), Poemas Concretos/Neoconcretos (1957/1958), Dentro da Noite Veloz (1962-1975), Poema Sujo (1975) e Na Vertigem do Dia (1975-1980), é um livro que vale a pena ser lido.