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segunda-feira, 1 de abril de 2013

SOBRE CARLITOS

Carlitos por Toni D'Agostinho.

Licença para mentir

Por Ruy Castro


Os leitores de “Cinearte” ou “A Scena Muda” devem ter lido na época. Nos anos 1920, Charles Chaplin, no auge, foi a uma festa em Monte Carlo em que os convidados tinham de se fantasiar de… Carlitos. As caracterizações mais fiéis ganhariam prêmios. Segundo Arthur Koestler, em cujo livro “The Act of Creation” fiquei sabendo disso, Chaplin, usando a roupa e a maquiagem de Carlitos, pegou o, adivinhe, terceiro lugar.

Carlos Heitor Cony, em seu magnífico livro “Chaplin”, recém-lançado, conta a mesma história, mas diz que ele ficou em 18º lugar. Não sei em que documentos em copta ou servo-croata Cony se baseou para quase condenar Chaplin à repescagem, mas com ele é assim. Suas fontes são tão inesperadas que não estranharei se uma autoridade em Chaplin, como o inglês Kevin Brownlow, vier a público e confirmar a versão de Cony.

Brownlow é o responsável pela nova edição restaurada de uma das obras-primas de Chaplin, “Em Busca do Ouro”, em DVD pela Criterion Collection (US$ 14,99, pela Amazon). Contém a versão original muda do filme, de 1925, diferente da sonorizada e narrada por Chaplin em 1942, que era a que sempre assistimos e amamos. A “nova” versão muda é muito mais delicada, e os extras do DVD revelam que a sequência em que Carlitos caminha por aquele penhasco gelado, seguido por um urso, era um efeito especial –ou seja, ele nunca correu o risco de cair no abismo.

O gênio de Chaplin não tinha lugar nem hora. Em outra festa, ou quem sabe a mesma, e para surpresa geral, ele se levantou e cantou uma ária de ópera, com notável voz de tenor. Os convidados foram cumprimentá-lo: “Não sabíamos que cantava tão bem, sr. Chaplin!”. “Mas não sei cantar”, ele respondeu. “Estava apenas imitando Caruso.”

Ao contrário dos políticos, o artista pode e deve mentir –para ser fiel à verdade.

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Segundo Ruy, Carlos Heitor Cony teria escrito que Chaplin ficou em 18º lugar em caracterização de Carlitos, ao contrário de outro escritor, que informa haver o ator ficado em 3º. É licito pensar: Cony colheu a informação em alguma fonte, ou fantasiou sobre o assunto, quero dizer, mentiu. Na prática, foi isso o que Ruy afirmou, mas a habilidade em dizê-lo foi para lá de singular. 18º?! Nadie es perfecto... 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

SOBRE CHAPLIN E CINEMA


Por Ruy Castro

Até 1960, toda enquete sobre os “maiores filmes do cinema” teria pelo menos um título de Charlie Chaplin entre os dez finais -”Em Busca do Ouro” (1925), “Luzes da Cidade” (1931) ou “Tempos Modernos” (1936).

Havia quem votasse nos três. Num espectro de, digamos, cem filmes, “O Garoto”, de 1921, “O Grande Ditador”, de 1940, e mesmo “Monsieur Verdoux” (1947) também costumavam aparecer. Sem contar suas obras-primas em curta e média-metragem, que não eram votadas.

Mas, desde então, mudou a maneira de enxergar o cinema. Alguns cineastas perderam prestígio (Vittorio De Sica, René Clair, Erich von Stroheim), outros ganharam (Hitchcock, Jean Vigo, Billy Wilder). Filmes como “Casablanca” e “Cantando na Chuva” passaram a estrelar listas para as quais nunca tinham sido convidados.

Com a ascensão de novos nomes (Fellini, Godard, Bergman), Chaplin desapareceu de muitas listas. Chocante para quem, nos anos 20 e 30, era tido como o maior artista do mundo.

Uma exposição dedicada a Chaplin chegará a SP em outubro, trazida pelo Instituto Tomie Ohtake. Conterá fotogramas, fotos, storyboards e cartazes, abrangendo sua vida e obra. Ótimo. Tal mostra seria mais bem aproveitada se seus frequentadores conhecessem bem os filmes a que se refere. Mas eles não serão exibidos. Se o leitor já viu “Luzes da Cidade”, levante o dedo.

Todo o melhor Chaplin foi feito sob a égide do cinema mudo. Mesmo quando os filmes começaram a falar, em 1927, Chaplin manteve Carlitos em silêncio. Daí, acusaram-no de conservador.

Hoje, com a tecnologia que permite desmembrar uma imagem, descobre-se que, ao contrário, Chaplin adotava os recursos mais modernos.

O DVD de “Tempos Modernos”, de 2010, pela americana Criterion, revela a riqueza de efeitos especiais neste filme -invisíveis a olho nu e, até por isso, ainda mais geniais.