sábado, 29 de agosto de 2026

UMA EM CADA SEIS PESSOAS NO MUNDO VIVE ALGUM GRAU DE SOLIDÃO

Celulares ocupam os intervalos urbanos antes abertos ao acaso e reduzem encontros entre desconhecidos que ajudavam a ampliar nossa experiência humana comum no dia a dia


Por Washington Araújo

Pessoas aguardam atendimento numa clínica, esperam o elevador, percorrem uma fila, ocupam um ônibus ou dividem uma mesa num aeroporto, enquanto os olhos permanecem voltados para pequenas telas. A proximidade física continua intacta; a disponibilidade para o contato sofreu uma mudança profunda. O telefone ampliou como poucas invenções a comunicação entre pessoas distantes e, ao mesmo tempo, ocupou aqueles intervalos em que desconhecidos costumavam reconhecer a presença uns dos outros. O fenômeno parece pequeno diante das grandes crises contemporâneas, mas toca uma dimensão decisiva da vida urbana: a convivência com quem não escolhemos previamente encontrar.

Em 2025, a Organização Mundial da Saúde divulgou o relatório de sua Comissão sobre Conexão Social e estimou que uma em cada seis pessoas no mundo vive algum grau de solidão. Entre adolescentes e jovens, a proporção é ainda maior. O documento relaciona isolamento e fragilidade de vínculos a consequências sobre saúde, educação, trabalho e vida comunitária, além de chamar atenção para ambientes que dificultam relações presenciais. A dimensão do problema ajuda a perceber o valor de interações que raramente aparecem nas estatísticas: uma conversa de cinco minutos numa fila, um comentário no transporte coletivo, a troca de informações entre pessoas que provavelmente jamais voltarão a se encontrar.

O acaso perde espaço

Esses contatos tiveram durante séculos um papel silencioso na formação das cidades. Esperar o ônibus, procurar um endereço, dividir um banco de praça, comentar uma demora ou perguntar as horas ofereciam pequenas aberturas para a conversa. A maioria delas desaparecia no mesmo instante, sem produzir amizade, compromisso ou qualquer continuidade. Ainda assim, fazia circular experiências entre pessoas de idades, profissões, origens e visões de mundo diferentes. As grandes cidades construíram parte de sua vitalidade sobre essa convivência imprevista, porque obrigavam indivíduos a dividir espaços com gente que nenhuma rede de afinidade havia selecionado.

Pesquisas experimentais recentes ajudam a medir o que mudou. Em estudos realizados com pessoas que ainda não se conheciam, participantes com acesso imediato ao telefone tenderam a interagir menos e a avaliar de maneira menos positiva a experiência de espera. Outro conjunto de pesquisas, conduzido com passageiros de transporte público, encontrou resultado igualmente significativo: pessoas orientadas a conversar com desconhecidos relataram uma experiência melhor do que aquelas que permaneceram isoladas, embora antes do contato tivessem imaginado que a conversa seria menos agradável. Existe, portanto, uma diferença entre aquilo que antecipamos sobre o encontro e aquilo que efetivamente sentimos depois de conversar.

O smartphone modifica esse cenário porque funciona como um endereço portátil para onde a atenção pode se transferir a qualquer instante. O corpo permanece na praça, no metrô ou no café, enquanto a consciência se desloca para uma conversa familiar, uma notícia, um vídeo ou uma rede de pessoas conhecidas. Aos poucos, a cidade começa a reunir multidões presentes pela metade. Essa transformação lembra os antigos portos depois da construção de grandes canais privados: as embarcações continuam diante da mesma costa, mas parte crescente do tráfego passa por rotas que evitam o cais comum. O espaço público permanece cheio, porém uma parcela considerável da circulação humana acontece fora dele.

Olhos que já não se cruzam

A literatura percebeu muito cedo o valor desses instantes. Baudelaire, observando a multidão parisiense do século XIX, transformou o encontro com uma desconhecida em “A uma passante”. A mulher cruza a rua, os olhares se encontram e o poeta resume a violência daquele instante: “Um relâmpago… depois a noite!”. Toda a força do poema depende de uma condição simples e cada vez menos garantida: duas pessoas levantam os olhos no mesmo momento. Walt Whitman escreveu experiência semelhante em “A um estranho”, dirigindo-se a alguém que passa pela rua e sugerindo que, por segundos, uma vida inteira poderia caber naquele reconhecimento. O desconhecido aparece na literatura porque a cidade lhe dava espaço para existir. (...).

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