sábado, 27 de novembro de 2021
sexta-feira, 26 de novembro de 2021
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
NOVA VARIANTE SUL-AFRICANA DA COVID-19 É MAIS RESISTENTE ÀS VACINAS
SERIOUS CARTOON
COVID: CIENTISTAS ALERTAM SOBRE NOVA VARIANTE COM ALTO NÚMERO DE MUTAÇÕES
Com apenas 10 casos em três países já confirmados por sequenciamento genômico, uma nova variante causa preocupação entre cientistas. A variante B.1.1.529 foi detectada pela primeira vez em Botswana e seis casos foram encontrados na África do Sul.
quinta-feira, 25 de novembro de 2021
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
SEGUE A TRAGÉDIA DO MEIO AMBIENTE
A PUREZA DA MÚSICA DE NELSON FREIRE
Há dezoito anos o documentarista, roteirista, diretor e produtor de cinema, o carioca João Moreira Salles lançava o seu filme, Nelson Freire, no Festival É Tudo Verdade e recebia o Grande Prêmio Cinema Brasil. Em seguida, o documentário ia sendo aplaudido nos finais de suas sessões à medida da sua apresentação às plateias: musicistas, aficionados de cinema, melômanos e simplesmente espectadores de sensibilidade e bom gosto.
Com uma hora e quarenta de duração, o doc, com o passar dos anos se fez um clássico e agora vem sendo revisto com um sentimento de tristeza, por um lado, pela recente morte de Nelson há pouco mais de duas semanas, mas mesclada pelo prazer de voltar a ouvir e ver alguns momentos em público e na vida privada de um dos maiores pianistas da sua época e um dos personagens mais cordiais e queridos da nossa cultura.
Por causa de uma fratura no braço, há dois anos o artista havia cancelado sua participação como jurado do Concurso Chopin. No primeiro dia deste mês morreu de madrugada, na sua casa, no Rio de Janeiro.
Nelson Pinto Freire viveu e brilhou num ambiente bem mais estimulante e ameno que a atmosfera vivida hoje neste país. Rodou o mundo em sucessivas turnês, e sempre retornava para a linda casa onde morava, no alto da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde viveu acompanhado, além do piano e da sua música, de uma excelente coleção de filmes que carinhosamente guardava com todo cuidado.
O filme se divide em 31 ''blocos temáticos'' ou capítulos, ou croniquetas que acompanham algumas das extraordinárias exibições de Nelson ao piano, no palco, e os bastidores onde ele sempre tomava um copo de água indispensável e fumava um inseparável cigarro ao fim de cada apresentação: Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Sala Cecília Meirelles, Sala São Paulo, na França (em Menton), na Rússia, na Bélgica.
Moreira Salles acompanha o artista com uma rara delicadeza, nos seus hábitos, na discrição, os fascinantes ensaios em teatros vazios, a solidão das muitas horas de estudos, (''aprendi a gostar da solidão'', Nelson diz), a introspecção natural do artista cortada pelos encontros afetivos e alegres com a grande amiga, a pianista argentina Marta Argherich.
Ambos tocando Chopin e Rachmaninoff em dois pianos é uma das mais belas sequências do filme. Em outra, ambos tocam, juntos, novamente Rachmaninoff - o Concerto número Dois.
Mas há também Nelson ouvindo Guiomar Novaes tocando Gluck (Orfeu) e, em outro instante, ele, sozinho, com a orquestra calada em religioso silêncio, ouvindo-o executar o bis pedido por uma plateia. Mais os momentos mundanos, dos autógrafos e do camarim repleto de fãs de várias nacionalidades.
E o ''amor à primeira vista'', ainda menino, quando conheceu sua professora Nise Obino, no Rio, e seus pais já estavam quase prontos para retornar a Boa Esperança, em Minas, de onde vinha a família que desejava proporcionar ao garoto, um ''prodígio'', bons estudos de piano.
Na sua casa, um Nelson encantado e debruçado na tela da televisão comenta sobre Rita Hayworth e Fred Astaire dançando no musical Ao compasso do amor. Em outro momento, ouvindo Erroll Gardner, ele fala sobre a sua conhecida frustração de não tocar jazz, música produzida com improvisos: ''Eles tocam com grande prazer', diz, entusiasmado. ''Nunca vi alguém tocar com tanto prazer''!
É um presente ouvir Nelson Freire nesse precioso doc, interpretando Liszt, Chopin, Brahms, Schumann, Guarnieri (a pedidos); e com a OSB, com a Filarmônica de St. Petersburgo.
Outro presente é admirar o virtuosismo de Moreira Salles nesse trabalho, a excelência do roteiro montado com Felipe Lacerda e Flavio Pinheiro que também é autor do argumento. Sem uma única cabeça falante, sem depoimentos em falso, qualquer narração em off, apenas montagem, montagem, montagem, cortes exatos, travellings discretos, close respeitoso nos dedos fortes do pianista no Concerto número Dois de Brahms.
Em homenagem a Nelson registramos o que João Moreira Salles escreveu sobre ele, no blog do Instituto Moreira Salles, em outubro último, pouco antes do seu falecimento.
''Durante os anos 80 e 90, toda vez que Nelson passava pelo Rio eu tentava conseguir um ingresso para ouvi-lo. De todas as coisas extraordinárias que aconteciam no palco naquelas ocasiões, uma das que mais me chamavam a atenção era a elegância contida dos seus gestos''.
''Isso pode parecer estranho, dado que de um músico se espera música e não mímica. Mas sempre achei que a música de Nelson se parecia com seus gestos – todos eles precisos, sem derrames desnecessários, sem nenhuma retórica''.
E ele conclui, coberto de razão:
''Num mundo cada vez mais exibido, esse recato é o traço mais belo de Nelson e, na minha opinião, a razão da extraordinária pureza da sua música''.
Sem dúvida.
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
BOLSA DESISTE DE IMITAR WALL STREET
SOBRE O FILME 'MARIGHELLA'
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Filme de Wagner Moura leva às telas barbaridade da repressão desencadeada pela ditadura implantada em 1964
Carlos Marighella, Herói Trágico
Seu Jorge - Marighella
Por Eduardo Escorel
O protagonista de Marighella (2019) encarna a figura do herói trágico, categoria de personagem raro no cinema brasileiro, cujo heroísmo fascina sem ser isento de falhas e erros que o levam à morte prematura. A galeria desses heróis, cada um com suas respectivas peculiaridades, inclui de Édipo a Peter Pan, passando por Creonte, Romeu, Macbeth e Gatsby, entre outros.
Passados cinco anos, próximo ao desfecho, Marighella tenta ir ao encontro de Carlinhos, em Salvador, apesar de estar ciente do alto risco que está correndo – ocasião em que deixa de ser preso por pouco, evitando cair na armadilha da polícia graças aos gritos do esperto adolescente.
A essa relação paterna afetuosa é acrescida a despedida, discretamente sensual, de Clara (Adriana Esteves), companheira de Marighella há cerca de vinte anos. Quando ele optou pela luta armada contra a ditadura, ela lhe disse: “não me peça licença para você sair daqui e morrer.” Bonomia e destemor do ridículo ao usar uma peruca como disfarce completam a personalidade cativante de Marighella apresentada no filme.
Aos traços de simpatia se justapõe, porém, a determinação férrea de Marighella que o leva a romper com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), após 34 anos de militância. E de vir a ser um dos fundadores, em 1968, da Ação Libertadora Nacional (ALN), dedicada a enfrentar o regime ditatorial com guerrilheiros urbanos, baseada no “conceito teórico pelo qual […] a ação faz a vanguarda” revolucionária (Magalhães, p.361. Referência abaixo). O que move a ALN é a convicção radical mencionada no filme de que “pelas coisas certas vale a pena viver e vale a pena morrer”.
Por oposição à prática tradicional do PCB, a ausência deliberada de comando centralizado na ALN explica o fato assombroso de o sequestro do embaixador americano, em setembro de 1969, ter sido realizado sem conhecimento prévio de Marighella, assassinado apenas dois meses depois em emboscada de agentes do Dops possuídos de furor vingativo, liderados pelo delegado Sérgio Fleury.
Devido ao isolamento da ALN de qualquer setor ponderável da população, ao contrário da experiência cubana, como é mencionado, o filme deixa clara a inexistência de condições para o êxito da forma de atuação política preconizada, no momento em que a organização é criada.
Fica evidente não só o voluntarismo da ALN, mas também a considerável responsabilidade pessoal de Marighella, ao se radicalizar, pelo sofrimento e morte de seus companheiros – ele chegou a ponto de declarar, em 1967, que “devemos lutar para atrair as forças-militares norte-americanas a combater desvantajosamente em vários lugares do mundo ao mesmo tempo” (Magalhães, p.362. Referência abaixo).
É esse herói trágico, com propósitos nobres, mas tendo que responder pelas consequências de seus atos que aflora, embora derrotado, em Marighella. Corajoso e leal, a partir de certo ponto o personagem parece estar sendo arrastado pela torrente, incapaz de alterar o curso fatídico dos acontecimentos. Ele assume sua responsabilidade e, no ato final, está preparado para oferecer a própria vida em sacrifício.
Se o herói trágico tem falhas, quanto mais um filme a seu respeito. E Marighella não foge à regra. Destacam-se entre as deficiências o excesso de tiroteios que mais parecem sequências de bang bang, além da insistência em diálogos gritados. Outra imperfeição é omitir quase por completo menção à influência de Cuba na ruptura de Marighella com o PCB e na sua adesão à guerrilha como sendo a “própria estratégia da revolução”, conforme afirmou em entrevista ao vespertino cubano Juventud Rebelde, em agosto de 1967, dada enquanto participava, em Havana, da Primeira Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade – Olas (Magalhães, p.348. Referência abaixo). Especialmente difícil de compreender é a razão de ter sido incluído o arroubo juvenil de encerramento em que um pequeno grupo do elenco canta aos gritos um trecho do Hino Nacional, incluindo, salvo lapso de memória, “Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte / Em teu seio, ó liberdade / Desafia o nosso peito a própria morte! / Ó Pátria amada / Idolatrada / Salve! Salve! / Brasil, um sonho intenso, um raio vívido”.
Os créditos de Marighella informam que o filme é “inspirado” na biografia Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães, publicada em 2012. Ao escrever o roteiro, Moura e Braga tiveram o bom senso de não pretender dar conta de suas 569 páginas de texto, sem contar notas e agradecimentos. Pelo contrário, o filme é sucinto, apesar de durar 2h35m. Relata a prisão de Marighella no Cinema Eskye, no Rio de Janeiro, em 1964, quando levou um tiro da polícia, mas se concentra a seguir no período entre abril de 1968, quando ocorreu o primeiro assalto a uma instituição financeira feito pela organização de Marighella, e novembro de 1969, quando ele foi assassinado em uma emboscada da polícia, fuzilado ao fazer menção de pegar algo (acredita-se que cápsulas de cianureto para não se entregar vivo). Constatado que ele não estava armado, a polícia falseia a cena para justificar o crime (de acordo com Magalhães, p. 553. Referência acima). Mesmo assim, o ano e meio ao qual a narrativa do filme se atém ocupa 219 páginas, cerca de 38% do livro, o que pode ser considerado prova do poder de síntese e impacto emocional da narrativa cinematográfica ou, em certos casos, de sua superficialidade e tendência a se acomodar, em nome do espetáculo, ao que é considerado o gosto dominante.
Ter superado os obstáculos que impediram Marighella durante quase três anos de ser exibido comercialmente em larga escala, no Brasil, após a estreia em fevereiro de 2019 na 69ª Berlinale, é um feito notável pelo qual Moura e os produtores devem ser louvados. Ser finalmente lançado em 280 cinemas, passando no segundo fim de semana a 316 salas (segundo a plataforma Filme B), com mais de uma sessão por dia, é admirável. E estar sendo visto por público considerável (mais de 215 mil espectadores nos onze primeiros dias, de 4 a 14 de novembro) é alentador. Registre-se, porém, que é baixa a média de 178 espectadores por cinema (sempre conforme dados da plataforma Filme B).
Para quem quiser ver, está nas telas a barbaridade da repressão desencadeada pela ditadura civil-militar implantada em 1964. Marighella oferece a valiosa oportunidade de conhecer ou rememorar e refletir sobre os impasses políticos dos tempos idos em que a tortura foi elegida como instrumento político do Estado.
O que a meu ver não faz sentido é pretender que um filme sobre a resistência de Marighella e seus companheiros de organização armada sirva para lidar com o catastrófico governo federal prestes a completar três anos na Presidência da República. Insistir nessa tecla é um anacronismo brutal que resulta em percepção distorcida da realidade política contemporânea.
Gostaria de ter podido comentar Marighella há mais tempo. Lamento não me ter sido dada uma oportunidade de assistir ao filme, apesar das reiteradas solicitações que fiz desde a estreia na Berlinale, em 2019. Wagner Moura recusou também o convite para participar do nosso programa #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena e conversar sobre o filme. Para poder assistir a Marighella, só me restou esperar o lançamento e criar coragem para ir a uma sessão de cinema pela primeira vez após um ano e meio de abstinência devido à pandemia. Comprei, então, uma entrada para idoso por 12,77 reais e, na quarta-feira passada (10/11) fui, embora temeroso, à sessão de 15h10 no Espaço Itaú de Cinema – Botafogo 4. Ao chegar de máscara, minha temperatura foi medida logo na entrada do saguão, precaução inútil segundo voz abalizada, e, para ter acesso à sala, a Carteira de Vacinação foi pedida adiante. Sem estar lotado, o cinema estava cheio, o que foi uma grata surpresa. Temerário é não estar sendo exigido distanciamento entre os espectadores, mas apenas o uso de máscara durante a projeção, o que nem todos obedecem. No final, ouviram-se dois ou três tímidos gritos “Abaixo a ditadura!”. Gostei de ter visto Marighella, mesmo sem poder, como de hábito, assistir ao filme outra vez, nem conferir trechos específicos enquanto escrevo. Apreciei as qualidades do que resultou do trabalho de Wagner Moura e sua equipe, o que não me impede de comentar aspectos que considero mal realizados. Espero que esse direito seja respeitado sem causar rusgas com ninguém. - (Fonte: Revista Piauí - Aqui).