domingo, 29 de agosto de 2021
O ROTEIRO DO GOLPE
Um grande temor de que um golpe será tentado no dia 7 tomou conta da mídia e ocupou diversos analistas. E não à toa, pois o episódio do coronel Aleksander Lacerda trouxe um elemento até então menos visível, o fato de o coronel estar na ativa e, por norma, não poder fazer manifestações político-partidárias. Até então os porta-vozes da infiltração bolsonarista nas polícias eram da reserva e/ou estavam em cargos políticos.
Levantamento da consultoria Arquimedes feito a pedido da piauí mostra que na segunda, dia 23, dia da reportagem, as convocatórias para o dia 7 dominaram as redes sociais, e o caso do coronel Aleksander foi vastamente utilizado para criticar o governador João Doria e chamar para os atos programados. Nas postagens, os porta-vozes são, como esperado, da reserva, mas tentam inflar o episódio e destacar o fato de um policial da ativa falar abertamente. Ganhou destaque o chamado para as manifestações feito pelo ex-comandante da Rota Ricardo de Mello Araújo, que hoje preside a Ceagesp e, em 2017, ainda na ativa, disse que “abordagens policiais nos Jardins e na periferia têm de ser diferentes”.
Dois outros oficiais da reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) também tiveram destaque, sendo o primeiro o coronel Homero Cerqueira, que foi presidente do ICMBio durante a gestão de Ricardo Salles, quando a pasta do Meio Ambiente transferiu cerca de 19 milhões de reais para a PMESP oriundos de pagamentos de multas ambientais. Já o segundo, o deputado federal Coronel Tadeu, eleito por São Paulo pelo PSL em 2018 com 98.373 votos, anunciou a locação de cinquenta ônibus para policiais se deslocarem do estado todo para a Avenida Paulista.
A partir da movimentação deste último, o roteiro do golpe ficou mais explícito, passando pelo assédio e pela cooptação das forças policiais da ativa. Ou seja, radicalizar posições junto a um eleitorado visto como cativo e se tornar visível faz parte não só do processo de ruptura institucional. Caso ela não ocorra, ajuda na estratégia de fazer frente ao fim das coligações partidárias, tema ainda em discussão no Congresso, e tentar se reeleger em 2022. E isso mostra-se ainda mais forte quando constatamos que, ainda segundo a Arquimedes, das dez postagens das redes sociais sobre o Sete de Setembro que mais geraram engajamento, duas delas eram da deputada Carla Zambelli, também eleita por SP pelo PSL, com 76.306 votos, e uma das mais proeminentes representantes do bolsonarismo radical.
Dito de outra forma, 2018 foi um ano eleitoral muito atípico – e nada disso deve se repetir em 2022. Na última eleição presidencial, o antipetismo turbinou o bolsonarismo e criou um resultado artificial para o repaginado PSL, partido que se propôs a abrigar o capitão. Movidos pelo antipetismo, paulistas e paulistanos deram, somados, quase 3 milhões de votos a Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann. No total, somando votos nominais e de legenda, o PSL recebeu 20,90% dos votos válidos para deputado federal, mais que o dobro dos 9,80% destinados ao PT, partido com mais de quarenta anos de existência e tido como o preferido dos brasileiros. Foi essa enxurrada de votos que possibilitou a eleição dos peselistas Coronel Tadeu e Carla Zambelli, entre outros, já que sozinhos eles não chegariam nem perto do quociente eleitoral, que, em 2018, foi de 301,9 mil votos.
Além disso, o bolsonarismo está em baixa e, ao invés de atrair apoios fáceis como o Bolsodória em 2018, encontra dificuldades em angariar aliados. O PSL, por sua vez, rachou. Hasselmann é considerada estrela dissidente do bolsonarismo e hoje, junto com outra ex-estrela do PSL, Alexandre Frota, cerra as fileiras dos que pedem o impeachment do presidente. Eduardo Bolsonaro, assim como já aconteceu com Carlos Bolsonaro no Rio de Janeiro em 2020, deverá ver sua votação substancialmente diminuída.
Ou seja, a reeleição dos que permanecem fiéis ao bolsonarismo move a radicalização de seus discursos em busca sobretudo do eleitorado mais fiel ao “mito”. O episódio do coronel Aleksander caiu como uma luva para isso, pois envolveu João Doria, um dos principais antagonistas de Jair Bolsonaro, e um oficial da ativa da PMESP de São Paulo, cujo tamanho e história são chaves para a segurança de todo o país. O risco de esses bolsonaristas fiéis não se reelegerem aumenta exponencialmente o risco de erros de avaliação em relação ao que pode ser feito diante do comprometimento das polícias pelo bolsonarismo.
Na segurança pública, o bolsonarismo não é um pensamento único, mas hoje é a forma hegemônica por meio da qual os policiais compreendem o ser e fazer polícia no Brasil contemporâneo. As tentativas de radicalização e assédio protagonizadas por próceres bolsonaristas buscam criar um clima de mobilização e revolta entre os 650 mil policiais da ativa do país. Lembremo-nos de que o bolsonarismo, enquanto ideologia política, tem raízes históricas muito mais profundas do que a atuação direta do presidente Jair Bolsonaro durante os primeiros anos de sua gestão. Ele atualiza narrativas conservadoras e autoritárias que há séculos informam lugares institucionais, culturas organizacionais e representações sociais sobre como o Estado deve lidar com crime, medo e violência.
Assim, vemos que o grupo político de Bolsonaro tem investido ativamente na propagação de suas bandeiras e na formação política ideológica de policiais. Nos dois primeiros anos de mandato, o presidente Jair Bolsonaro já participou de 24 formaturas de militares ou policiais. As participações continuam em 2021 e, em junho, durante uma delas, o então comandante geral da PM do Distrito Federal encerrou a cerimônia oficial com o lema de campanha do presidente.
Olavo de Carvalho, astrólogo que se declara filósofo e é uma das grandes referências ideológicas da extrema direita brasileira, oferece gratuitamente, desde meados de 2019, seu curso online de filosofia para policiais brasileiros. O vereador no Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente e responsável pela comunicação de Bolsonaro nas redes sociais, reconheceu no seu perfil do Twitter que a oferta gratuita de cursos é uma “excelente estratégia para que as Forças de Segurança Pública possam se dispor a aprender mais sobre a cultura esquerdista maléfica que nos cerca […]”.
Tudo isso sob o aplauso e apoio de parcelas significativas da população. Pesquisa sobre medo da violência e a propensão a valores autoritários, de 2017, com base em um survey nacional que aplicou a famosa Escala F, de Theodor Adorno, calculou que, em uma escala de 1 a 10, o escore médio de apoio a posições autoritárias no país foi de 8,1. Entre as assertivas que mais se destacaram nesse estudo, a que se mostrou mais significativa foi a dimensão originalmente nomeada por Adorno como submissão à autoridade. Bolsonaro moldou-se perfeitamente ao perfil do imaginário social que vê a necessidade nacional de encontrar um “salvador”, que “coloque ordem na casa” e retome a “autoridade” perdida, segundo os discursos de ultradireita, para a agenda de direitos civis, políticos e sociais da Constituição brasileira.
A agenda de direitos foi e é vendida, portanto, como a responsável pela decadência “moral” e “cívica” da nação, não obstante termos visto que ela ainda é um projeto inconcluso no que diz respeito à segurança pública. Direitos coletivos e humanos têm sido associados a criminosos, enquanto são realçadas bandeiras como a defesa irrestrita da ampliação do porte e da posse e a revogação de qualquer política de controle e rastreabilidade de armas de fogo.
Há um reforço em temas morais e de costumes e, na medida em que a garantia da ordem social democrática inaugurada pela Constituição de 1988 é feita pelo Congresso Nacional e pelo STF (Supremo Tribunal Federal), por exemplo, o discurso bolsonarista busca desconstruir a legitimidade de tais poderes da República. Ataques contra integrantes desses poderes passam a ser parte do jogo político. A gravidade do problema aumenta exponencialmente quando esse projeto político e ideológico consegue mobilizar parcelas significativas dos policiais brasileiros a ponto de estes publicarem manifestações antidemocráticas aceitando que instituições da República sejam fechadas e que o presidente Jair Bolsonaro intervenha para romper com a ordem constitucional democrática do Brasil.
Isso é o que revela estudo do FBSP do ano passado, que mostra que o alinhamento ao discurso do bolsonarismo antidemocrático e radicalizado representa ao menos 12% de policiais militares, 7% de policiais civis e 2% de policiais federais que possuem contas nas redes sociais e interagem publicamente em grupos e páginas do Facebook. Se extrapolarmos a amostra do estudo, tais percentuais representam um grupo de aproximadamente 120 mil policiais convertidos para discursos golpistas e autoritários, que aceitariam rupturas institucionais sem maiores constrangimentos éticos ou morais. Tais percentuais não se resumem apenas aos apoiadores de Jair Bolsonaro. Revelam as visões de mundo que regem as representações sociais do conjunto dos policiais acerca de ordem social e pública. Nas redes sociais, apenas 68% dos policiais que criticaram o Congresso e o STF apresentaram interações diretas em ambientes ligados ao bolsonarismo radical. Ou seja, a força do discurso hiperconservador de Bolsonaro nas polícias é bem maior do que o engajamento em si dos policiais a um projeto político específico. Corroborando os números captados nas redes sociais, o instituto de pesquisa de opinião Atlas (2021) aplicou um survey especificamente junto a policiais e apurou que 21% deles (o equivalente a cerca de 140 mil policiais) são a favor da instalação de uma ditadura militar no Brasil.
Mas não é preciso uma ruptura radical para subverter o ordenamento democrático e colocar em risco a capacidade de o estado de direito lidar com suas forças de segurança. No plano do burocrata do nível da rua, a contaminação das tropas é algo já bastante visível, revelada pela quantidade cada vez maior de casos de policiais militares acusados de agir de forma político-partidária contra opositores do governo. Entre janeiro de 2020 e agosto de 2021, foram registrados ao menos dezessete casos de policiais militares atuando para reprimir ou prender adversários de Jair Bolsonaro, segundo levantamento do Estadão e do FBSP. Antes desses episódios, um primeiro caso ocorreu logo no início da gestão do atual presidente, quando a Polícia Militar do Estado de Minas Gerais proibiu um tradicional bloco de Carnaval da cidade de Belo Horizonte de desfilar fazendo críticas a Bolsonaro.
Seja como for, duas pesquisas, com metodologias diferentes (survey e tracking de redes sociais) e feitas por instituições diferentes, estimaram que entre 120 mil e 140 mil policiais aderiram ao discurso bolsonarista mais radical que defende medidas antidemocráticas e fechamento das instituições. Em termos comparativos, esses números representam cerca de 20% das forças policiais brasileiras. Bolsonaro reforçou, ao que tudo indica, uma tendência de conservadorismo dos policiais brasileiros que, associada ao quadro de disjunção política e organizacional da segurança pública do país, acende alertas importantes acerca da capacidade de contenção e/ou mitigação dos riscos de ruptura institucional.
A questão, portanto, não é apenas de convergência ideológica dos policiais. Bolsonaro se fortalece no amálgama de condições políticas, ideológicas, jurídicas e institucionais que dão forma ao modelo de ordem social e pública violento e desigual aceito e “naturalizado” pela maioria dos policiais brasileiros. Ao fazer isso, ele estimula que policiais não aceitem questionamentos ao seu projeto político e reprimam manifestações e movimentos sociais de oposição. A oposição passa a ser sinônimo de antipatriotismo, de “mal” e de desordem. Com o enfraquecimento de lideranças policiais tradicionais, que até o início da gestão de Jair Bolsonaro eram capazes de representar os anseios de suas categorias profissionais, os policiais assumem o culto da personalidade e da figura do “mito”, cuidadosamente construída pelos responsáveis pela comunicação do atual mandatário do Brasil. A nosso ver, esse é o principal risco da radicalização policial, o de confundir um líder populista com a própria noção de Estado, de Pátria e de Nação.
Polícias são instituições de Estado. Elas são o braço armado do Estado em tempos de paz e, se não reguladas, viram-se contra, até mesmo, os seus integrantes que destoam do pensamento hegemônico. A população está submetida à incerteza. Diante de tal quadro, o caso do coronel Aleksander serve para mostrar que, mesmo potencializados por políticos bolsonaristas, muitos deles oriundos das polícias, há problemas sérios que exigem a mobilização de governadores, Ministérios Públicos e Judiciário para que possamos interromper as rupturas democráticas já em curso. No planejamento de poder bolsonarista, o Sete de Setembro é só mais um passo para naturalizar a ideia de golpe e de ruptura. Por ele, as polícias são peça-chave mesmo que, ao fim e ao cabo, sejam esses mesmos policiais que, por serem da ativa, poderão ser processados e presos por motim ou revolta caso embarquem no canto da sereia da nau do capitão. - (Fonte: Revista Piauí - Aqui).
DO PREÇO DO FEIJÃO
sábado, 28 de agosto de 2021
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
COMO FUNCIONA O MODELO INGLÊS DE REGULAÇÃO DA MÍDIA (QUE LULA DEFENDE)
CARTUM IDIOTA
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
O PROGRESSO SEMPRE FOI IRREGULAR. MUITAS MULHERES AFEGÃS SE SENTIAM INSEGURAS ANTES DA CHEGADA DO TALIBÃ
O destino de Farkhunda também deveria nos dizer que a punição corporal brutal conduzida pelo bando sob pretextos religiosos, especialmente a uma mulher, não é só domínio do Talibã. Mais preocupante, também deveria nos dizer que até mesmo no “novo Afeganistão” permanecia uma perturbadora e recorrente misoginia em algumas partes da sociedade. Naquele dia, forças de segurança afegãs assistiram parados enquanto pessoas tentavam despedaçar a jovem mulher. Eu suspeito que a frustração de décadas ouvindo com má vontade para aceitarem os direitos das mulheres em público foi lançada sobre um pequeno e enrugado corpo.
Eu não fiquei surpresa. Nos muitos anos que trabalhei no Afeganistão, eu batalhei para encontrar mulheres, para ter projetos com mulheres, para empregar mulheres, protegi mulheres, ouvi mulheres destruídas... eu quase fui linchada, sequestrada, empurrada, agredida verbalmente, ignorada, menosprezada, assediada sexualmente e maltratada em mais ocasiões do que eu gostaria de lembrar, por afegãos e “internacionalistas”. Tudo por ser uma mulher em um mundo dos homens. Tudo porque as questões das mulheres não eram consideradas relevantes.
Farkhunda provavelmente foi empoderada por toda a retórica sobre direitos das mulheres e pensou que estava em uma nova era na qual ela poderia lutar pelos direitos das pessoas que estavam sendo enganadas por um ambulante religioso. Ela achou que tinha voz. Ela pensou que estava segura. Mas ela tocou em um nervo e não entendeu que ainda estava em território perigoso.
As pessoas relembram alegremente a tortura sofrida pela pobre menina. Se qualquer um já se perguntou sobre a atmosfera das queimas às bruxas medievais, essa pessoa teria sentido nesse dia. O governo teve que prender pessoas. Eles não poderiam ignorar esse abuso e assassinato de uma cidadã. Alguns homens foram presos, mas eventualmente saíram em silêncio enquanto homens poderosos intercederam em seu favor.
A batalha pelos direitos das mulheres não vai parar no Afeganistão, nem em dez anos, nem em séculos. Ao longo de todos os anos pelos quais órgãos internacionais se parabenizaram por conquistas nos direitos das mulheres, os horrores encarados por Farkhunda pairavam nas sombras, logo além da borda da cerimônia de premiação de uma defensora dos direitos das mulheres ou de um projeto para ensinar habilidades básicas para garotas.
A assistência voltada para essas mulheres nunca foi suficiente. As poucas vistas pelo ocidente em seus projetos podem ter ficado em segurança, mas as não alfabetizadas que ganhavam dinheiro no projeto de costura recebiam um soco na cara. A jovem menina que entrou para a academia de polícia recebia ordens para esvaziar lixeiras, fazer chá para os homens e disponibilizar seu corpo para o prazer sexual dos homens. A mulher que foi presa por adultério, no reinado de Hamid Karzai ou Ashraf Ghani, ficaria aterrorizada de deixar a prisão em uma província do norte por temer por sua vida e pelo bem estar dos seus filhos, tendo em vista que não existem empregos bem pagos para mulheres analfabetas em áreas rurais.
Eu fui uma das muitas afegãs e estrangeiras que tentou garantir que milhões de meninas fossem para o ensino fundamental, e, se tivessem sorte, para o ensino médio e para a universidade. Mas eu tive que encarar a realidade de que elas sofreriam para arranjar empregos porque a economia ainda é dominada por instituições comandadas por homens. Muitas dessas garotas saíram da escola, casaram e esqueceram o pouco que aprenderam.
Até mesmo no ano passado, eu estava lutando contra jovens afegãos estudados no meu projeto de assistência às vítimas. Eu queria que as viúvas que estávamos ajudando tivessem o direito de receber assistência. O argumento deles era que qualquer parente homem, mesmo que fosse distante, seria uma escolha melhor porque uma mulher enlutada não “estaria bem da cabeça”. Alguns até mesmo apelaram para velhas desculpas de que as mulheres são “naqes ul aql”, de acordo com sua interpretação do Islã, traduzido grosseiramente como se tivessem metade de um cérebro.
Temos um longo caminho a seguir e a luta continuará, bem depois de a bagunça no aeroporto de Cabul assentar. Os últimos 20 ou 30 anos de dólares jogados em projetos de mulheres e o parágrafo inserido na página 60 de um documento de projeto dizendo que a “igualdade de gênero seria aderida” levou algumas mulheres a um êxtase de sentimentos de segurança e empoderamento. Mas ainda havia um longo caminho a seguir e o dinheiro para fazer as coisas acontecerem estava desaparecendo rápido demais enquanto o cansaço dos doadores ganhava terreno.
O destino de Farkhunda é um alerta de que não era preciso a entrada do Talibã para fazer essas mulheres se sentirem inseguras. O Afeganistão tinha acabado de começar uma jornada desafiadora em direção à democracia com mulheres enquanto cidadãs com direitos iguais, uma jornada pausada por agora. O que eu vi foi uma nação devastada pela pobreza e pela guerra com um contraste gritante entre a riqueza obscena e a pobreza destruidora, onde mulheres e crianças continuavam a carregar as consequências de políticas ruins, corrupção, falta de estado de direito e conservadorismo generalizado. Eu vi um processo de assistência falho que tinha resultados bons e ruins.
A assistência às mulheres sempre foi a conta gotas até alguma crise iluminar a peleja de um grupo específico e então muitos fundos eram torpedeados com baixo impacto sustentável. A batalha para ajudar mulheres afegãs a terem vidas normais exige uma parceria de longo prazo e uma compreensão do que o Afeganistão realmente é. O país não pode ser consertado com a varinha mágica da mudança de regime ou inserindo mulheres em instituições que não estão prontas para valorizar suas contribuições. Será consertado com um compromisso de longo prazo e com humildade e compreensão sobre a jornada perigosa morro acima que as mulheres e suas famílias apenas começaram. - (Aqui).
DA CRISE HÍDRICA/ELÉTRICA
O TALIBÃ DEU O ULTIMATO...
O atentado deixou 12 soldados norte-americanos mortos e feriu outros 15, além de matar pelo menos 60 afegãos e ferir cerca de 140.
Biden explicou que pensou em mandar mais tropas para cobrir a retirada do Afeganistão, mas foi desaconselhado pelos líderes militares.
“Foi um dia duro em Cabul, como vocês sabem. Terroristas atacaram o aeroporto, como estávamos preocupados. Estamos revoltados e entristecidos com o que ocorreu”, afirmou o presidente.
O ataque teve autoria assumida pelo braço afegão do Estado Islâmico.
“Não vamos perdoar, não vamos esquecer, vamos caçá-los e vamos encontrá-los. Vocês vão pagar pelo que fizeram”, disse em recado aos autores dos ataques.
“Não seremos detidos nem intimidados. pelo terrorismo. Dei ordem para retaliar contra as lideranças do Isis-K. Eles não vão vencer, vamos resgatar os norte-americanos e retirar os nossos aliados afegãos”, prometeu. - (Aqui).
quinta-feira, 26 de agosto de 2021
ELES DISSERAM E/OU CANTARAM
CONJUNTURA BRASIL
PRÓXIMA PARADA: MÉXICO
Como o aeroporto é pequeno e não tem fingers, os passageiros descem pela escada da aeronave, caminham pela pista em direção a uma porta de acesso, onde dois policiais seguram cães farejadores pela coleira. Os animais cheiram as pessoas e as bagagens de mão em busca de drogas – cocaína, maconha, metanfetamina. É o primeiro sinal a indicar que Mexicali, com cerca de 1 milhão de habitantes, é um dos maiores entrepostos de narcotráfico do mundo.
Depois de passar pelos cães, os passageiros exibem seus passaportes, ou carteiras de identidade no caso dos nativos, para outro policial. A primeira família brasileira – pai, mãe e uma filhinha de uns 5 anos de idade – é barrada. Os passaportes são retidos. Em seguida, eu também sou barrado e meu passaporte é apreendido. O policial me pergunta o motivo da viagem. Explico que sou jornalista e estou ali para fazer uma reportagem sobre o crescente fluxo de brasileiros desembarcando no México para tentar cruzar a fronteira com os Estados Unidos. Ele aponta uma parede, na qual devemos ficar encostados. O passageiro seguinte é outro brasileiro. A mesma coisa: passaporte retido, parede. Depois, vem outro. E mais um. E outro ainda. Em questão de minutos, 28 pessoas estão encostadas à parede: 18 brasileiros, 5 venezuelanos e 5 equatorianos, todos potenciais migrantes irregulares.
Com a presença de tantos brasileiros, o policial me pede para ajudar na tradução. Queria perguntar se alguém havia despachado bagagem. Todos dizem “não”, balançando a cabeça. Lo mismo de siempre, resmunga o policial, já sabendo que os passageiros chegaram ali para tentar atravessar a fronteira com os Estados Unidos. Somos conduzidos, todos em silêncio, alguns de mãos dadas, até a frente da minúscula cabine da Subdelegación Local Aeropuerto Internacional de Mexicali, onde um funcionário copia os passaportes, pergunta o motivo da viagem, pede a reserva de hotel (todos são orientados a ter alguma) e censura quem tenta usar o celular. Uma brasileira, sentada no chão, com uma blusa de moletom amarrada à cintura e uma mochila no colo, enxuga discretamente as lágrimas. Um brasileiro, de camisa polo amarela e calça jeans, rompe o silêncio e anuncia em portunhol que tem uma amiga em Mexicali. Cállate, ordena o funcionário.
Em pouco tempo, todos estão liberados. Uns brasileiros irão para algum hotel das redondezas, para ficar um ou dois dias, tentando dissimular o interesse de atravessar a fronteira. Outros vão direto para o ponto de travessia ali adiante. Alguns ficarão pelo México, perdidos na vida. Outros ainda, sem melhor opção, simplesmente voltarão para o Brasil. Uns poucos vão cruzar a fronteira e, quem sabe, ficarão nos Estados Unidos durante anos, talvez a vida inteira. Um desses brasileiros é o mineiro Matheus Carvalho, com aparência de 35 anos. Está bem-vestido, com calça jeans escura e camisa branca da marca Dudalina, e seus cabelos estão bem alinhados pelo gel. No colo, carrega a filha que ainda não fez 2 anos. Ele e sua mulher levam duas malas de mão. A filhinha segura uma mochila da Peppa Pig. É a bagagem para tentar uma nova vida.
Em meados de junho, o empresário Bruno Maggi Pissollo, 38 anos, e sua mulher, a modelo Nara Alves, dez anos mais nova, estavam numa suíte de três andares no hotel Azulik, em Tulum, o balneário mais chique do litoral caribenho do México. Ali, começaram a quarentena de quinze dias, exigência das autoridades sanitárias para que brasileiros possam entrar no território dos Estados Unidos. A ida ao México era o que as agências de viagem batizaram de “turismo da vacina”. Na suíte, com a diária salgadíssima de 6 mil dólares, ou cerca de 30 mil reais, o casal ficou apenas dois dias. Depois, se transferiram para o Moon Palace, um resort à beira das águas tranquilas de Cancún, balneário a duas horas de carro de Tulum. Concluída a quarentena, Pissollo e Alves voaram para Orlando, na Flórida. Do hotel, pediram um Uber para localizar um posto de vacinação que estivesse aplicando o imunizante da Janssen. Acharam a 15 km. Queriam a Janssen pela vantagem de imunizar com dose única.
A ida ao México não se limitou a isso. “Nossa viagem teve múltiplos fatores”, diz Pissollo, que é sobrinho do bilionário Blairo Maggi, conhecido como o Rei da Soja. “O México não tem burocracia para receber brasileiro e aproveitamos para dar uma esticada até os Estados Unidos. Minha mulher queria visitar a irmã gêmea dela, que mora em Atlanta.” Em 2020, o casal pegou Covid-19 e enfrentou uma situação difícil. Um mês depois de testar positivo, Nara Alves engravidou. Aos seis meses de gestação, sofreu um aborto espontâneo. A bebê teve problemas de má-formação, que Alves credita ao coronavírus. “A ideia de ter apressado para tomar vacina é porque queremos engravidar de novo”, conta Pissollo. Ainda do México, o casal fez o cadastro pelo site do governo norte-americano para agendar a imunização. Pissollo acha que o presidente Jair Bolsonaro tem razão ao defender vacina opcional e que todo mundo deveria ter o direito de escolher a marca. Ele condena Bolsonaro por não ter adquirido vacina no ano passado. Acha que, se não fosse isso, seria reeleito ainda no primeiro turno.
A trinta minutos do Azulik, fica uma joia da hotelaria chique da costa mexicana: o Esencia, um hotel à beira-mar que frequenta a lista dos melhores do mundo. Ao contrário do Azulik, o Esencia recebe os ricos discretos, que não querem exibir suas fotos no Instagram. O local é tão reservado que, quando se chega ao km 265 da Carretera Cancún-Tulum, a rodovia litorânea que conecta os balneários da região, não há sinalização indicando a entrada do hotel. O Esencia divulga que seu prédio foi originalmente construído como residência de verão da duquesa italiana Rosa de Ferrari e depois transformado em hotel boutique pelo norte-americano Kevin Wendle, cofundador da Fox Broadcasting. “Noooooooo”, espanta-se Sean Murphy, o gerente-geral do Esencia, quando é perguntado se o estabelecimento adota o esquema de all inclusive. No Esencia, tudo é pago à parte. Huevos a la mexicana? 15 dólares. Jugo de naranja? 5 dólares. Um jantar no Beefbar, fora a bebida alcóolica e a gorjeta? 150 dólares por pessoa, em média.
O Esencia já era uma opção – digamos – popular entre os brasileiros ricos, mas de maio para cá ocorreu uma explosão. “Em alguns dias, o Brasil representa 20% de nossa clientela”, diz Murphy. “E, assim como americanos e europeus, quase todos eles voam para cá de jato privativo.” Durante nossa conversa na quinta-feira, 24 de junho, o gerente-geral informou que duas suítes do hotel estavam ocupadas por brasileiros naquele momento. Dias antes, um banqueiro de São Paulo e sua mulher, cujas identidades Murphy não quis relevar, hospedaram-se na suíte presidencial, com praia e academia privativas. A diária, que varia ao longo do ano, estava cotada em 7 mil dólares. O casal ficou dezesseis noites e, a bordo de um jato privado, voou para os Estados Unidos para se vacinar. (O Esencia não oferece desconto para a suíte presidencial porque há fila de espera.)
No início do turismo da vacina, os brasileiros não postavam suas fotos nas redes sociais com receio da má repercussão. Anitta, a cantora cuja vida é compartilhada trinta horas por dia, não divulgou nenhuma imagem quando tomou a vacina da Pfizer em Miami, em março passado, depois de fazer quarentena em Punta Cana, na República Dominicana. Nem o publicitário e apresentador Roberto Justus, que tem um fraco por holofotes, postou sua foto sendo imunizado em Miami, no início de maio. Justus escolheu receber a dose única da vacina da Janssen porque tinha compromissos no Brasil e não podia ficar três semanas nos Estados Unidos.
Com o atraso da vacinação no Brasil e o acúmulo de milhares de mortos, o turismo da vacina no exterior aos poucos passou a ser menos censurável. O empresário José Carlos Semenzato, dono da holding SMZTO, especializada em investir em franquias que incluem rede de depilação, consultórios odontológicos e quiosques de açaí, não escondeu ter sido imunizado em Miami, cidade onde tem apartamento no condomínio Trump Tower com uma Ferrari na garagem. Semenzato e a mulher Samara fizeram quarentena no luxuoso Four Seasons Resort Punta Mita, na costa mexicana do lado do Pacífico.
Os brasileiros pobres que chegam à fronteira do México com os Estados Unidos fazem parte de uma massa que não para de crescer. Em 2013, o fluxo começou porque o governo mexicano deixou de exigir visto de entrada para brasileiros. Desde então, com o desemprego recorde no Brasil, nunca houve tantos tentando entrar nos Estados Unidos a partir das cidades mexicanas localizadas na fronteira. Em março deste ano, 16,8 mil brasileiros chegaram ao México como turistas, mas 3 996 foram detidos pelas autoridades norte-americanas ao cruzar a fronteira. Em abril, 17 mil brasileiros desembarcaram no México, dos quais 8 751 foram pegos pelas patrulhas dos estados do Arizona, Califórnia e Texas. Em maio, foram 27 291, e 7 372 retidos nos Estados Unidos.
Até março deste ano, a cada mês, a Embaixada do Brasil no México recebia apenas um ou dois pedidos de ajuda de cidadãos que tiveram seus passaportes e dinheiro roubados por coiotes, como são chamados os operadores do esquema da travessia clandestina. Hoje, há dez chamados por semana. Até o ano passado, apenas 7% dos brasileiros migrantes usavam a rota que vai de Mexicali para Yuma, a primeira cidade no estado do Arizona, e apenas 13% chegavam ao México sozinhos, sem cônjuge, sem filhos, sem familiares. Naquela época, o grosso dos brasileiros preferia sair de Ciudad Juárez, no estado de Chihuahua, e entrar nos Estados Unidos pela cidade de El Paso, no Texas. Como esse ponto tornou-se perigoso com a sangrenta disputa de território entre os cartéis do narcotráfico, tudo mudou: agora, a rota Mexicali-Yuma concentra cerca de 60% dos migrantes e nada menos que 40% chegam sem qualquer companhia – um indicador de desalento da juventude com as perspectivas de vida no Brasil.
Também é crescente o número de brasileiros barrados ao chegar à Cidade do México, destino final de dois voos diários que partem do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Entre os anos de 2018 e 2019, antes do desemprego recorde e da chegada da pandemia, apenas 0,37% dos brasileiros que desembarcaram no México foram retidos na triagem da imigração. De março para cá, o índice saltou seis vezes. Os barrados na chegada – quase sempre porque não conseguem convencer as autoridades de que estão viajando a turismo – são levados para um dormitório dentro do próprio aeroporto, recebem alimentação e passam a noite em beliches. No dia seguinte, embarcam no primeiro voo para o Brasil. A companhia aérea é obrigada a levar de volta. Entre janeiro e abril deste ano, 1 846 brasileiros foram inadmitidos no México.
Quem passa na vistoria do aeroporto da capital mexicana, o mais movimentado da América Latina, recebe um carimbo de entrada no país e, no caso dos migrantes, logo toma o voo para Mexicali, a capital do estado de Baja California. De lá, os brasileiros costumam ir para um distrito próximo chamado Los Algodones. É um lugarejo de apenas 8 mil habitantes. Tem um clima desértico, com temperaturas infernais, que podem passar dos 50ºC. Quase todo mundo ali fala inglês, mas a peculiaridade mais atraente é outra: não há um muro físico em um pequeno trecho entre Los Algodones e Yuma, a primeira cidade no estado do Arizona, que fica a apenas 16 km de distância. O muro de ferro, que o ex-presidente Donald Trump começou a construir para barrar a imigração ilegal, foi interrompido naquele ponto em decorrência da presença do Rio Colorado, que separa o México e os Estados Unidos. De suas águas depende a vida dos membros da tribo Cocopah, que habita a região desde tempos imemoriais.
O trecho sem muro tem apenas 15 metros de extensão, mas é largo o suficiente para permitir a passagem de dezenas, centenas, milhares de brasileiros, que, às vezes de dia, mas quase sempre à noite, tentam entrar nos Estados Unidos. Para ir do Centro de Mexicali até o distrito de Los Algodones, os brasileiros pegam um motorista previamente arranjado pelos coiotes. Mas, para não chamar a atenção, descem do carro a 1 ou 2 km da fronteira propriamente dita e seguem a pé, carregando as malas nas mãos por uma rua que termina no Rio Colorado, por onde é possível ter acesso ao vão do muro.
Num sábado de junho, sob um sol inclemente de 44ºC, um grupo de meia dúzia de coiotes estava a 400 metros da fronteira dos Estados Unidos à espera da chegada dos brasileiros do dia. Eles fumavam, falavam no celular, protegidos pela sombra de uma árvore. Eram quase todos mexicanos – alguns são turcos. Em tese, os coiotes já foram devidamente pagos para ajudar os brasileiros, no âmbito de um acerto feito ainda no Brasil. Uma família composta por um casal e um filho paga entre 18 e 22 mil dólares, o que oscila entre 90 e 110 mil reais. Uma pessoa sozinha desembolsa até 12 mil dólares, ou 60 mil reais.
O preço inclui – teoricamente – o serviço completo, do Brasil até a ajuda na travessia final da fronteira. Mas, como acontece nas organizações criminosas, os acordos são frágeis. Muitos coiotes extorquem ou roubam os migrantes, que se encontram expostos, num país estranho e sem passagem de volta. É comum que cobrem uns 100 dólares extras, mas outras vezes revistam carteiras e bolsas para levar o que encontram. Com frequência, a situação foge de controle. A Embaixada brasileira no México informa que, toda semana, há casos de desaparecimentos ou assassinatos. “Os brasileiros precisam ser devidamente informados e alertados sobre os riscos de uma travessia ilegal nas mãos de coiotes, cujo único interesse é cobrar valores altíssimos para traficar pessoas, sem nenhum compromisso em preservar a vida do migrante”, diz o embaixador brasileiro na Cidade do México, Mauricio Carvalho Lyrio, que está de malas prontas para assumir o posto diplomático na Austrália. “Para eles, a coiotagem é o tráfico de uma mercadoria, não de seres humanos, e por isso são frequentes os sequestros, mortes e desaparecimentos.”
Naquele sábado, a situação correu sem contratempos. “Silêncio, silêncio”, disse um dos três coiotes encarregados de atravessar cinco brasileiros – um casal e uma mãe com duas filhas pequenas. Eram 13 horas, o calor estava abrasivo e só se ouviam os passos sobre a areia e as pedras, mas todos obedeceram à ordem do silêncio para não chamar a atenção dos patrulheiros do outro lado da fronteira. O grupo dirigiu-se ao trecho sem muro. A essa altura, a vegetação alta e os declives me impediam de vê-los. Cerca de quarenta minutos depois, os três coiotes reapareceram no ponto onde eu estava. Os brasileiros, carregando malas e mochilas, haviam entrado em território norte-americano. Nunca mais tive notícias deles.
Los Algodones é um vilarejo, mas tem uma movimentada vida econômica devido à presença fervilhante de cidadãos norte-americanos em busca de tratamento dentário. No mundo pré-pandemia cerca de 10 mil atravessavam a fronteira diariamente para fazer um tratamento de canal, uma obturação, um implante, ou para colocar as branquíssimas facetas de porcelana. Os turistas dentários desembarcam no aeroporto de Yuma, no Arizona, alugam um carro e vão ao dentista em Los Algodones. Se o tratamento demora mais de um dia, costumam voltar e se hospedar em hotéis do lado norte-americano.
“Um implante aqui sai por apenas 1 mil dólares”, contabiliza o dentista Abelardo Norzagaray, dono de uma clínica de dois andares que fica a menos de trinta passos da fronteira. “Nos Estados Unidos, o mesmo implante custa dez vezes mais.” Nas clínicas dentárias de Los Algodones, todas as placas são em inglês. O turismo dentário garante dinheiro e segurança. “Aqui todo mundo anda na rua tranquilamente e não há venda de drogas ao ar livre. A nossa economia depende de estrangeiros que vêm tratar seus dentes e gastar em farmácias, então é fundamental que nenhum americano seja assaltado para o dinheiro circular e não termos problemas diplomáticos”, diz Morayma Medellín, a simpática delegada de 36 anos, que coordena uma equipe de quarenta policiais. Mora, como é conhecida, não anda armada.
Com a chegada da pandemia, Cancún ficou fechada durante três meses. Quando reabriu, adotou medidas severas de segurança. A rede hoteleira da região – 30 mil suítes, outras 5 mil em construção – só podia ocupar 10% de sua capacidade, os salários dos funcionários foram cortados pela metade, e os brasileiros, parte expressiva da clientela, sumiram. Em setembro, começaram a voltar timidamente, aproveitando que o México foi um dos poucos países que mantiveram suas fronteiras abertas a cidadãos brasileiros. Mas em maio passado, mês que se encerrou no Brasil com mais de 460 mil mortos e apenas 10,48% da população imunizada com as duas doses, o turismo da vacina explodiu.
Hoje, Cancún voltou à vida praticamente normal. Nas baladas, é grande a presença de jovens norte-americanos, já vacinados, aglomerando com copo e cigarro eletrônico nas mãos e sem máscara. Na boate La Vaquita, uma das principais da região cujo desenho se assemelha ao de um teatro de arena, a pista de dança é aberta e voltada para a rua. Da outra calçada, pode-se ver a juventude se divertindo como antes da pandemia. As ruas centrais estão lotadas, há filas nos restaurantes, as regiões de shoppings e bares ficam repletas de turistas circulando em carros conversíveis, e, nas calçadas, ouve-se com frequência traficantes oferecendo “marijuana”. “Os hóspedes americanos estão relaxados e em paz, chegam para aproveitar esse momento de superação da pandemia”, diz Javier Monje, diretor de vendas da rede riu Hotels & Resort. Em todo o estado de Quintana Roo, cuja população na alta temporada aumenta tanto que passa a regular com a de Salvador, a taxa diária de contaminação em junho não passava de 280 pessoas. (A de Salvador, no mesmo período, era de 570.)
“De maio para cá, tivemos uma grande procura de brasileiros fazendo reservas de quinze dias, sinal de que seguiriam depois para se vacinar”, diz Javier Monje. Os primeiros brasileiros a chegar foram casais em torno dos 50 anos, muitos deles em jatos particulares ou fretados. Do final de abril em diante, a Flapper, especializada em locação de jatos em São Paulo, fretou dezoito voos para brasileiros indo fazer quarentena no Caribe, sobretudo México, Bahamas e Ilhas Turcas e Caicos. Depois, desembarcaram os de 40 anos e, agora, os visitantes incluem uma massa de jovens e adolescentes – que, ainda ressabiados pela pandemia e sem imunização, não costumam se misturar com os norte-americanos ou mexicanos. “Alguns clientes brasileiros estão trocando a festa de debutante das filhas para dar a viagem de presente”, diz Andrea Schver, dona da agência Venice Turismo, de São Paulo, que monta pacotes específicos para cada cliente. A agente de viagens Lilian Zanon, paranaense de Siqueira Campos que mora em Cancún há três décadas, calcula que já vendeu mil pacotes para brasileiros interessados em fazer quarentena no México para se vacinar nos Estados Unidos.
O turismo da vacina é caro. Além de ficar duas semanas no México, o brasileiro precisa permanecer outras três semanas nos Estados Unidos, pois as vacinas mais comuns por lá são as da Moderna e da Pfizer, que exigem um intervalo de 21 dias entre a primeira e a segunda dose. Ainda assim, o turismo da vacina não é exclusividade dos muito ricos. “Fizemos as contas e raspamos nossas economias para vir para cá”, diz a atriz carioca Isadora Studart, de 31 anos, que também é dona de um canil premium de chihuahuas. Acompanhada do marido, o engenheiro mecânico Leonardo Paim, de 34 anos, ela resolveu fazer a viagem depois da morte do comediante Paulo Gustavo, vítima da Covid-19 aos 42 anos. “A morte dele trouxe um recado forte de urgência”, diz ela. “Se ele, adulto, jovem e com condições para se tratar, acabou morrendo, o que poderia acontecer com todos?”
Studart e Paim têm consciência da situação privilegiada que vivem. “Eu sei disso, claro, mas só tomamos essa medida porque o presidente do Brasil abandonou a população, recusou comprar vacina e promoveu uma política que causou mais de 500 mil mortos”, diz ela. O casal teve Covid-19. Ela, uma vez. Ele, duas. Na segunda, Paim sentiu fraqueza extrema, perdeu 7 kg e ficou três meses sem conseguir surfar. Como trabalha no Brasil para uma empresa norte-americana, resolveu consultar os chefes sobre a viagem e recebeu sinal verde. Em Cancún, o casal ficou num hotel que cobra 70 dólares a diária, depois voou para Los Angeles. Ficaram na casa de amigos e tomaram a vacina da Pfizer.
A atriz Elaine Mickely, mulher do jornalista César Filho, da TV Record, viajou na companhia dos filhos de 17 e 20 anos, depois de um susto. Seu marido contraiu a doença e, passados dez dias, quando parecia se recuperar, começou a sentir falta de ar e passou a usar um cilindro de oxigênio no quarto. “Eu ajoelhava no chão para orar pelo meu marido. Ver quem você ama tossindo e com dificuldade para puxar o ar, só Deus sabe…”, diz ela. Numa noite, ele teve uma crise aguda e foi internado. Ficou uma semana no hospital, mas não precisou ser intubado. Mickely e os filhos ficaram quinze dias no México e três semanas em Miami, onde também tomaram a vacina da Pfizer. “Eu me sinto aliviada com meus filhos protegidos”, diz a mãe.
Se são barrados na fronteira antes de entrar nos Estados Unidos, os migrantes irregulares voltam para Los Algodones, esperam a troca da equipe de patrulheiros e tentam de novo. Se a patrulha faz vista grossa – e como há câmeras e sensores de som no trecho da fronteira sem muro, é comum que façam vista grossa –, os brasileiros entram no país. Assim que pisam em território norte-americano, eles se entregam às autoridades e pedem asilo. No governo Trump, os migrantes não se rendiam aos patrulheiros porque eram devolvidos ao México, onde deveriam aguardar a Justiça norte-americana decidir se aceitaria seus argumentos para admiti-los no país. Enquanto isso, as crianças ficavam em abrigos nos Estados Unidos, separadas dos pais – uma brutalidade que chocou o mundo. Sob Trump, 3 913 crianças enfrentaram essa situação.
No governo Joe Biden, os irregulares se entregam às autoridades porque são levados para um centro de imigração nos Estados Unidos e não devolvidos para o México. Perto de Los Algodones, já em território norte-americano, o alojamento recém-inaugurado comporta até quinhentas pessoas. Ali, as autoridades avaliam caso a caso. Se não acreditam na história contada pelo candidato a imigrar, deportam na hora. É o caso de cerca de 20% dos brasileiros. O restante fica aguardando uma audiência na Justiça, que decidirá se os admite no país. Uns pagarão uma fiança de 10 mil dólares por família para deixar o centro de imigração e aguardar a audiência judicial na casa de algum parente ou amigo em situação regular. Outros, sobretudo os que estão acompanhados por crianças, serão liberados mesmo sem fiança. Em qualquer dos casos, são obrigados a assinar um termo se comprometendo a comparecer à audiência na Justiça – o que, em geral, descumprem e somem dentro do país.
As alegações mais frequentes que os brasileiros apresentam para pedir asilo é a crise econômica, perseguição política ou religiosa. As autoridades norte-americanas não costumam aceitar essas alegações. Os raros casos em que concedem asilo são de homossexuais expulsos de casa por intolerância familiar, policiais jurados de morte por alguma facção criminosa ou mulheres que sobreviveram a uma tentativa de feminicídio.
“A crise econômica do Brasil, a demora na vacinação e a falta de perspectiva de melhora no padrão de vida estão nos fundamentos da decisão de deixar o país, mas também tem uma ilusão”, adverte o advogado brasileiro Felipe Alexandre, especializado em direito migratório e fundador da empresa AG Immigration Law Group, sediada na Califórnia. “Os coiotes vendem a falsa ideia de que, com Biden, tudo mudou. Isso não é verdade. Há de fato um tratamento mais humano, mas não existe garantia de que poderão ficar de forma legal”, afirmou, durante nossa segunda conversa por Skype. Alexandre mora nos Estados Unidos desde os 7 anos de idade, quando seu pai, funcionário de uma multinacional, se mudou para o país.
L.N., de 33 anos, brasileira da cidade de Caratinga, em Minas Gerais, teve dificuldades inclusive para entrar no México. Ela, o marido e a filha de 8 anos tentaram três vezes, todas neste ano. Só conseguiram ser aprovados pela polícia migratória ao apelar para um esquema ilegal. Por meio de um coiote, pagaram 6 mil dólares para o responsável por carimbar os passaportes no aeroporto de Cancún, onde desembarcaram vindo de um voo direto do Brasil. “Mandamos por WhatsApp fotos tiradas no embarque em Guarulhos, com as roupas que estávamos usando. E recebemos, também por WhatsApp, fotos dos policiais da migração que faziam parte do esquema”, diz L. N., que penhorou sua casa em Caratinga para pagar os coiotes ainda no Brasil. Ela acabou desistindo de tentar a vida nos Estados Unidos e voltou para casa.
As quadrilhas de coiotes estão bem estabelecidas em Minas Gerais, sobretudo na região de Governador Valadares, a cidade que continua sendo o epicentro nacional dos brasileiros que querem ir para os Estados Unidos. “Em Minas, a coisa é tão disseminada que tem candidato a vereador que até coloca o nome ‘Coyote’ em seu material de campanha”, diz Daniel Vianna Ottoni de Siqueira, chefe da Polícia Federal em Governador Valadares. Nos últimos meses, 150 funcionários deixaram seus empregos nas redes locais de supermercado para tentar a vida nos Estados Unidos. Como garantia de pagamento aos coiotes, boa parte assinou notas promissórias e entregou carros ou terrenos. “Em uma única operação, apreendemos 14 milhões de reais em notas promissórias na casa de um coiote”, diz o delegado.
Na manhã da última terça-feira de junho, voltei ao aeroporto de Mexicali para verificar o fluxo de migrantes brasileiros. Antes das dez da manhã, já havia um grupo de 34 pessoas cujos passaportes estavam apreendidos. Entre eles, onze crianças. Todos foram orientados a permanecer encostados à parede próxima à Subdelegación Local. Um dos brasileiros ali era Matheus Carvalho, cuja filhinha carregava uma mochila da Peppa Pig. Ele, a mulher e a filha foram logo liberados. Conversamos enquanto a família deixava o aeroporto e se encaminhava para a fila do táxi. Seu plano era ficar dois ou três dias num modesto hotel em Mexicali aguardando orientação dos coiotes sobre o ponto exato da fronteira em que tentariam atravessar. “Estou esperando eles me falarem”, disse. Quando os policiais perceberam que ele estava falando com um jornalista, abordaram Carvalho e lhe disseram que aquilo não era recomendável. Um dos policiais provocou: “Você não quer ter problema com a polícia do México, certo?” Constrangido, Carvalho interrompeu a conversa, se despediu e partiu com a família sem olhar para trás.
Em Cancún, enquanto tomava um café num restaurante que oferece uma vista estupenda do pôr do sol, Lilian Zanon, dona da AT Travel, agência de viagens que atua no mercado de luxo, comentava sobre os riscos oferecidos pela chegada de tantos brasileiros pobres ao México. Há cinco anos, Zanon exerce as funções de vice-cônsul honorária do Brasil em Cancún e lida com demandas de toda sorte. “Muitos estão sendo prejudicados com essa onda de gente cruzando a fronteira com os Estados Unidos”, reclama. “O meu medo, e de todo mundo que trabalha com turismo, é que o México volte a exigir visto de turismo do Brasil.” Em junho, dois casais que planejavam passar a lua de mel no país foram barrados ao desembarcar no país. “A polícia pensou que iam atravessar a fronteira, quando só queriam viver um dos momentos mais especiais de suas vidas.” - (Fonte: Revista Piauí - Aqui).





















