sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

GASLIGHTING: E O MÉDICO INVOCOU A SÚMULA 7 E NÃO REQUISITOU EXAMES (O DIREITO, O DIREITO!)


"A dor do descrédito: o que fazer contra o
 gaslighting processual?

1. Falarei do gaslighting jurídico: Mas, antes, qual é o conceito usual de gaslighting?

O conceito usual de gaslighting — está em vários compêndios — é que se trata de uma forma de abuso psicológico em que informações são distorcidas, seletivamente omitidas (ignoradas) ou inventadas fazendo a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.

O mais comum é o gaslighting médico. Funciona assim:  o paciente conta seus sintomas e o médico ignora. Pior: não pede exames (em uma alegoria com o direito, digamos que o médico invoca a Súmula 7 ou a 283 contra o paciente – como veremos na sequência).

Resultado: a piora ou a morte do infeliz. Como diz uma reportagem da revista Veja, trata-se da “dor do descrédito”. Há um movimento inédito contra o gaslighting médico. O abuso é caracterizado por desprezo ou subvalorização de sintomas relatados pelas pacientes e pode resultar em sérios riscos.

Pausa para uma reflexão e seguir adiante.

Pensemos agora na Súmula 7 ou nas negativas dos embargos respondidos assim: “nada a responder, a parte quer rediscutir a causa, não há contradição, o juiz tem livre convencimento ou o precedente é apenas persuasivo…”

Ou pense nos REsp decididos-barrados de algum modo (chamo a esses procedimentos de “fulminar” de algum modo) monocraticamente mesmo que o tribunal de origem tenha reconhecido omissões e contradições — sem que o relator enfrente nenhum dos argumentos do tribunal de origem.

2. Gaslighting processual, os EDs (embargos de desespero), os recursos especiais e extraordinários desistimados monocraticamente e a dor do Tema 339

E o que seria, então, o gaslighting jurídico-processual

É como a angústia. Difícil ou impossível de explicar. Mas tentarei.

É aquele aperto no peito do causídico…! Por exemplo, ele faz embargos e invoca várias omissões e contradições, que são respondidos em cinco linhas… Em face disso, invoca as omissões acerca das omissões e o REsp é barrado (fulminado) monocraticamente – sob o argumento das Súmulas 7 e 283. E tudo fundado no artigo 932 do CPC – sem que Sua Excelência justifique (isto é, sem dizer por que é REsp é manifestamente inadmissível ou improcedente e em que ele se baseia para dizer isso, por exemplo, quais os precedentes que dão azo a esse posicionamento). Oposto o Agravo, novas barreiras, com argumentos como “porque o recorrente não demonstrou…” etc.Para entender melhor, vejamos um exemplo (hipotético ou não): o advogado ingressa com ação. Cita, na forma do artigo 489 do CPC (ou 315 do CPP) um precedente ou súmula que lhe dá razão. É um elemento objetivo a seu favor. Pela lei, cabe ao juiz dizer que ele não tem razão (inciso VI).

Todavia…

Então começa o gaslighting processual. É quando o Judiciário ignora os “sintomas”. Ignora o que foi alegado. O advogado ingressa com embargos (como um paciente que mostra caroços no seu corpoao médico) dizendo que houve omissão etc.  No caso do médico, ele se recusa a pedir exames. É como se o médico tivesse uma espécie de Súmula 7 medicinal.

E aí vem a decisão: “nada há a esclarecer”.

Ou, que “a parte deseja rediscutir o mérito”.

Ou, “o juiz-tribunal tem livre convencimento e por isso não necessita responder aos argumentos da parte, se já está convencido do resultado” (Tema 339 do STF).

3. O gaslighting processual e o desespero dos desacordos empíricos

gaslighting processual também pode ser detectado (ou sentido) quando a decisão possui erro crasso (digamos, assim, um desacordo empírico que qualquer leigo detectaria, mas que a assessoria do tribunal insiste em ignorar) e o causídico ingressa com embargos de declaração. Na medicina seria algo como o paciente chegar com pressão alta, taquicardia, tossindo e o esculápio não fazer as medições protocolares e receitar paracetamol. Recentemente um parente meu morreu assim, por gaslighting médico. Já um piloto de automobilismo morreu não faz muito no RS. Gaslighting esculpido em carrara.  Ficou três horas esperando no hospital. Tudo indicava fraturas internas. O gaslighting médico o matou.

4. De como o gaslighting processual aniquila direitos

É desse modo que o gaslighting processual ceifa direitos todos os dias. Ignorar claros limites semânticos também é jus gaslighting. Está lá escrito na lei, mas o médico (quer dizer, o juiz ou tribunal) se recusa a verificar.

E, pior: por vezes isso ocorre em dois níveis: primeiro, ignora-se o dever de fundamentação (constitucional); já quando se reclama via embargos, ignora-se o que foi ignorado (isto é, violando o artigo 1.022 em conjunto com os incisos do artigo 489). É um ignorar/omitir de segundo nível. E quando vai levar para o STJ, ocorre gaslighting de terceiro nível. O cidadão não consegue sequer que suas alegações sejam “vistas-examinadas”. Isto é: é algo empiricamente demonstrável; é um fato. E por que é omitido? Talvez tenhamos que apelar para o empirismo lógico (Círculo de Viena), com sua Condição Semântica de Sentido.

O valoroso advogado Paulo Iotti faz uma cruzada contra algo parecido, mostrando que o modo de deficiência nas fundamentações passa por um “Estado de Coisas Inconstitucional da Fundamentação das Decisões Judiciais no Brasil”. Uma espécie de gaslighting no dever de fundamentar.

O que impressiona é o olhar complacente da doutrina jurídica (agora em boa parte embriagada com os robôs e a IA). Comparativamente, é como se a comunidade médica olhasse de soslaio para a prática de gaslighting na medicina.

5. Sinais visíveis de gaslighting processual: a manipulação dos “sintomas”

Com efeito, o gaslighting processual é a manipulação do próprio direito para dizer que não se tem direitos.

De que modo o pobre do utente convence o médico…ou… o Judiciário…? Imagine-se você no consultório frente ao poder do médico. Sem ter o que fazer. Lembremo-nos de como o reitor Cancellier sofreu e morreu por gaslighting jurídico.

Talvez o caso do reitor tenha sido o maior exemplo de gaslighting processual.

E como provar que um esculápio fez gaslighting? Muito difícil. Tão difícil quanto provar que houve jus gaslighting. Porque se forma um círculo vicioso.

Pensemos em alguns exemplos:

(i) O causídico alega dever de fundamentação;

(ii) Essa fundamentação não é feita, violando explicitamente o artigo 489 do CPC (ou o 315 do CPP).

(iii) O causídico também alega descumprimento do artigo 926 do CPC.

(iv) Da sentença o causídico interpõe embargos de declaração, agora explicitamente institucionalizados pela ligação umbilical do artigo 489 com o 1022 do CPC.

(v) Os embargos são rejeitados em clara desobediência do artigo 489 (ou 315). Faz embargos dos embargos. Resposta: está pretendendo rediscutir o mérito ou algo assim.

(vi) O causídico faz apelação e invoca esse dever de fundamentação brandindo, de novo, os artigos 489 e 926 (ou o 315 do CPP);

(vii) O que fazer? Uma preliminar pela negativa de vigência dos dispositivos violados. Funciona?

(viii) O causídico interpõe REsp (e RE), barrado já no tribunal a quo.

(ix) O que fazer? Interpor um agravo… que provavelmente será julgado (e improvido) monocraticamente, como já explicado acima.

Há casos dramáticos. Pensem em um caso em que, em processo criminal:

(i) O réu invoca desde o primeiro grau determinados dispositivos do CP.

(ii) A sentença ignora.

(iii) Interpõe embargos. Rejeitados.

(iv) O acórdão da apelação ignora novamente. Embargos rejeitados.

(v) Maneja REsp e não é admitido pelo tribunal de origem por suposta falta de discussão prévia sobre, exatamente, os dispositivos que foram ignorados na sentença... Um verdadeiro looping.

(vi) Maneja, então, AREsp, igualmente não-conhecido, monocraticamente.

(vii) Interpõe agravo regimental, mas a Turma também não conhece do AREsp, transcrevendo ipsis literis a decisão monocrática do relator.

(viii) Reclamar para quem desse gaslighting?

Sigo.

Veja-se a dimensão do gaslighting: imaginem um determinado processo no qual a decisão monocrática nega, sem fundamentação, provimento a REsp nos seguintes termos:

“Consoante a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, o relator está autorizado a negar provimento a recurso por decisão monocrática quando a irresignação for manifestamente inadmissível, improcedente, prejudicada ou em confronto com súmula ou jurisprudência dominante do respectivo Tribunal, do STF ou do STJ”.

Pronto. E o que mais? Nada.

Essa decisão serve para qualquer recurso (aliás, contraria frontalmente o inciso III do par 1º. Do artigo 489 do CPC e 315 do CPP). No caso, como o recorrente pode enfrentar esse tipo de decisão que, aliás, contraria também o artigo 489, II, que diz que não se considera fundamentada a decisão que empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar os motivos concretos de sua incidência no caso.

O que é “manifestamente inadmissível”? Parece óbvio que, para ser utilizado, esse conceito deveria estar acompanhado das razões concretas de sua incidência. Isso é elementar. Mais: confronto com súmula? Qual súmula? Em que medida? Súmula 7? OK. Mas, com qual dimensão concreta? O que é isto – o Direito brasileiro? São direitos de liberdade, propriedade e dignidade em jogo.Agora, pensemos em outra situação passada em órgão controlador: um causídico deseja que o CNJ ou o CNMP investiguem um membro que cometeu uma falta funcional (grave); nesse caso, há uma prova a ser examinada – condição de possibilidade de a “queixa” ir para a frente; porém, o Órgão responde que a parte não tem razão porque não juntou prova. Só que a prova está juntada. Mas o órgão se nega a examinar. E a parte cai em uma armadilha processual. Esgotada a “instância”, morreu o direito. Sem ter sido examinado.

Isso não é gaslighting? Não é a dor do descrédito? Efetivamente, advocacia não é só para fortes. É também para os humilhados.

Sigamos.

Também hipoteticamente, pensemos em um processo em que, em sede de REsp, o tribunal a quo tenha reconhecido (e proferido juízo positivo de admissibilidade) quase duas dezenas de omissões e contradições no acordão de segundo grau. Pensem, agora, na dimensão do problema: 

(i) No STJ, o REsp é barrado monocraticamente, 

(ii) sem que sejam examinadas quaisquer das quase duas dezenas de omissões e contradições; 

(iii) ao ignorar até mesmo o juízo de admissibilidade do tribunal de origem, não há, nisso, gaslighting processual?

6. Medicina é coisa séria e deve evitar a prática de gaslighting – que pode matar. 

No Direito o gaslighting fere, mutila e até mata. Direito também é coisa séria

jus gaslighting mata direitos (por vezes, tira liberdades e vidas), e o Direito, por ser também coisa séria, deveria criar mecanismos para vedar a prática. O que pensa a doutrina sobre isso? Prefere apostar na IA e nos robôs?

Já vimos, mais de uma vez, que o gaslighting pode matar — literalmente. Quem não se deixa manipular pelo discurso oficial sabe do que falo. O reitor Cancellier vive em memória para denunciar o gaslighting jurídico.

Precisamos, urgentemente, falar sobre gaslighting processual. Assim como médicos fazem gaslighting (por isso surgiu o conceito), no direito isso é perceptível quando você não consegue mostrar os “caroços” (vejam a relação com a medicina) processuais ao tribunal — que lhe ignora solenemente.

Não precisaríamos falar seriamente sobre isso? Ou a doutrina — em sua maior parte — está fadada a fazer glosas de decisões tribunalícias?

Agora vem aí o robô Maria e outros robôs. Talvez o primeiro programa a ser inserido nos robôs deveria ser a proibição de gaslighting.

Se o olho humano não vê, quem sabe os algoritmos?

Ou com os algoritmos isso ficará pior ainda?

Precisamos falar sobre isso. Esse é o papel da doutrina. Sempre sob a luz do princípio da caridade epistêmica, tão bem trabalhados por Davidson e Blackburn.

Feliz Natal com efeito ex tunc. E Feliz 2025. Empiricamente verificável."



(Do prof. Lênio Streck, artigo publicado na revista ConJur - Aqui - reproduzido por publicações Brasil afora.
O deplorável caso do prof. Luiz Carlos Cancellier de Olivo, ex-reitor da UFSC, tratado - por pessoas como o professor Streck - com o respeito merecido). 

OLD CARTUM


Rucke.
(EM ALGUM LUGAR
DO PASSADO).

PUTIN?!


Amorim.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

ELES DISSERAM E/OU CANTARAM

.
(02.01)


.CHORO DAS 3 - ADEUS AOS EUA:
Especial Tom Jobim: 
Live #238; EUA #88 - 02.01.2025 ..... Aqui.
.Replay Retrospectiva:
Um ano de motorhome nos EUA ....... Aqui.
................
NUNO MINDELIS:
-Por que Eddie Taylor mudou
o Blues para sempre? .......................... Aqui.
................
.COVERS:
-Roy Caetano - "Aceito Seu
Coração" - (Orig. Roberto Carlos) ..... Aqui.
-Cláudio Carlos - "Ternura" (RC) .....  Aqui.


.VIBE DE DOIS:
Vamos até o Alasca. (No caminho...
o que está acontecendo?) ................... Aqui.
................................ 

.BOM DIA 247:
Agressor de Natuza é o
bolsonarista típico ............................. Aqui.

.PAULO A. CASTRO:
Jair Renan Bolsonaro na 
mira do TSE ...................................... Aqui.

.BRASIL AGORA:
2025: ano decisivo para aliados
de Bolsonaro no TSE (e alhures) ...... Aqui.

.BEMVINDO SEQUEIRA:
O fuxico da esquerda ........................ Aqui.

.NATUZA AMEAÇADA:
-DCM - Live da Tarde ...................... Aqui.
-Maderada Brasil ............................. Aqui.

.BOA NOITE 247:
Jornalismo de guerra contra Lula ... Aqui.

.LUÍS NASSIF:
O que dizem os astros sobre a
política no Brasil em 2025 .............. Aqui.

.PAULO A. CASTRO:
Gustavo Lima anuncia que é
candidato a presidente ................... Aqui.

...............
.VÍDEOS DIVERSOS:
-Space Today:
Hidrogênio escondido na Terra
pode abastecer e salvar o mundo .. Aqui
....
-Ciência Todo Dia:
O mistério do astronauta perdido . Aqui.
O que aconteceu na Apollo 13? ..... Aqui.
....
-Cortes do Estranha História:
Petra, a cidade esculpida
nas montanhas ............................. Aqui.

E LA NAVE VA


Aroeira. 

EM TEMPO (II)

.
Maria Lucia, zeladora do Blog SamPaulo (Aqui), ao tempo em que formula votos de venturoso Ano Novo, lembra que a criação de novo personagem nem sempre prospera: se SamPaulo se deu bem com o sombrio Sofrenildo, o contrário foi o que se viu com o Sortêncio. Lançado em 1969, no jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre...


...depois de algumas peripécias, em que - ao contrário de Sofrenildo -, sempre se dava bem, até quando parecia que não...



...o Sortêncio, nas palavras de Maria Lucia, "não agradou e sumiu...".
E assim se deu a saga do personagem Sortêncio, que nem sequer um Ano Novo comemorou.

................


Blog SamPaulo. (Aqui).

EXPULSÃO DE MILHÕES DE IMIGRANTES + FIM DAS AGÊNCIAS REGULATÓRIAS + AMEAÇA DA MOEDA DO BRICS + ...

                      "É Ilusão Minha Ou Aquele Balão 
                       Está Diferente Este Ano?"

Christopher Weyant. (EUA). 

O TERROR


Pat Bagley. (EUA). 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

PROJETO 2O25 PODERÁ SER FATAL


Marian kamensky. (Áustria). 

ELES DISSERAM E/OU CANTARAM

 .
(01.01)


.NAS TRILHAS 
COM O VINIL:
Gravou esse disco e foi integrar
talvez a mais importante banda .......... Aqui.
................
.CHORO DAS 3 - EUA TOUR:
Um ano de motorhome nos EUA ........ Aqui.
................
.CADÊNCIA DO CHORO:
"Com dor e tudo" (Deo Rian) .............. Aqui.
"Nostalgia" (Jacob do Bandolim) ....... Aqui.
................
.COVERS:
-The Beagles - "Não me diga adeus" ... Aqui.
-Banda Faive - "Não vá embora
sem me dizer" ..................................... Aqui.


.ROLÊ FAMÍLIA:
Serra da Capivara: o lugar que
desafia a História ............................... Aqui.
................................

.BOM DIA 247:
Mídia abre 2025 em guerra
guerra contra Lula ............................. Aqui.

.O MUNDO COMO ELE É:
Nova fase da luta entre o brutal
imperialismo e multipolaridade ........ Aqui.

.PAULO A. CASTRO:
Jornalista Natuza Nery ameaçada .... Aqui.

.DESMASCARANDO:
Natuza Nery ameaçada de morte p/
bolsonarista em supermercado ........ Aqui.

.DCM - LIVE DA TARDE:
Tentativa de golpe 8/1: eventos ....... Aqui.

.EDUARDO BUENO:
Previsões após calipso ..................... Aqui.

.REFLEXÕES SOCIAIS:
Mais consciência coletiva social ..... Aqui.

.PORTAL DO JOSÉ:
Folha de S.Paulo decreta que povo
está pessimista; pesquisa discorda . Aqui.

.BOA NOITE 247:
Jornalismo de guerra contra Lula ... Aqui.

.LUÍS NASSIF:
Miguel Nicolelis - A distopia de
Trump e o fim do sonho ................. Aqui.

.O ESSENCIAL:
O Essencial -21h ............................ Aqui.

.PAULO A. CASTRO:
Policial que ameaçou Natuza
atacou urnas e defendeu golpe ...... Aqui.
    

................
.VÍDEOS DIVERSOS:
-Galeria do Meteorito:
Tempestade solar: está ocorrendo
agora + OVNI enorme no mar ....... Aqui.
....
-Canal do Scwarza:
Algo estranho com nossa galáxia .. Aqui.
....
-Talk Flow:
O problema que não 
vem sendo noticiado ..................... Aqui.
....
-André Apolinário:
O homem cuja armadilha 
pegou um disco voador ................. Aqui.

ALERTA


Carlos Latuff. 

YEAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!


Paresh Nath. (Índia).  

A LILIPUTIZAÇÃO DA HUMANIDADE

.
"Como a desproporção de poder e a banalização da desigualdade estão miniaturizando a humanidade diante das forças globais do capitalismo e da tecnologia


As escalas são convenções sobre proporcionalidades e sobre as relações entre elas. A ideia da escala humana é antiga e está presente em todas as culturas. Refere-se às proporcionalidades do corpo humano e às deste com tudo o que o rodeia. Marcos Vitruvius, arquiteto romano do século 1 a.C., foi quem fez a primeira teorização da proporcionalidade humana, que haveria de desembocar no Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Mas houve sempre quem mostrasse a relatividade das escalas e a racionalidade que cada uma gera, uma vez que não há fenômenos, há escalas de fenômenos. Muitos se recordarão de As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e dos seus encontros com muitos povos, entre os quais os liliputianos, seres humanos de quinze centímetros de altura (1726).

Com a emergência da época moderna, com a expansão colonial europeia e com o capitalismo, sobretudo a partir do século XIX, a escala humana passou por uma mutação importante: a mudança de relação entre a escala humana e a escala das transformações que os humanos eram capazes de realizar no mundo. A partir daí, as escalas do universal (ligada ao racionalismo renascentista e ao Iluminismo) e a do global (ligada à expansão colonial e ao capitalismo) passaram a ser as escalas dominantes, embora os seres humanos concretos continuassem a viver a sua vida sempre numa escala particular e local.

Podemos dizer que a primeira liliputização dos humanos ocorreu então. Foi uma liliputização diferente da de Swift. Enquanto este trata como iguais e de igual racionalidade os seres de 15 centímetros e os de um metro e sessenta ou setenta, a época moderna passou a desvalorizar não só povos inteiros com que os povos europeus se encontraram, como sub-repticiamente desvalorizou os seres humanos comuns na Europa e fora da Europa em relação aos seres humanos especializados nas escalas universais e globais (cientistas, políticos, técnicos, navegadores, comerciantes).

Nos últimos cem anos, assistimos a dois movimentos aparentemente contraditórios que mais desestabilizaram a escala humana. Por um lado, a física, a química e depois a biologia levaram o pequeno aos confins do ínfimo. Ao atômico, ao subatômico e, por último, ao quântico. Na ciência da computação, o movimento foi do bit ao qubit. A viagem ao inimaginavelmente ínfimo foi empreendida para atingir o inimaginavelmente grande em termos da energia e do poder transformador da realidade que pode gerar. Dada a competição instalada entre quem produz o mais poderoso computador quântico, o Cântico dos Cânticos de Salomão do Antigo Testamento em breve será superado em grandeza (ainda que não em beleza) pelo Quântico dos Quânticos! As viagens espaciais e as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki representam os dois polos do imenso poder criativo e destrutivo resultante da superação da escala humana. Esta explosão do poder tem tido múltiplas consequências. Vou salientar algumas que apontam para a fatal miniaturização da escala humana.

A dronificação do poder e a resistência - Os drones militares são aqui usados como metonímia de uma forma de poder tão poderosa que não tem de se preocupar com retaliações por parte dos seus inimigos, não imagina ter de se preparar para uma derrota, nem celebra a vitória, porque a vitória é um rotineiro dia de trabalho em frente a um computador. Não tem heróis porque os seus heróis são programas de computador que não conhecem os seus superiores. Representa o paroxismo da guerra irregular, que viola todas as principais convenções da guerra.

As principais características desta forma de poder são: relações de poder extremamente desiguais; nenhuma obrigação de seguir as mesmas regras do jogo que o adversário; segredo, velocidade, superioridade tecnológica, tempo eletrônico, informalidade e surpresa como modos de operação para assegurar a maior destruição ou acumulação possível, dependendo das circunstâncias; danos colaterais como uma ideia obsoleta. O poder dronificado é uma forma de poder que não teme minimamente os seus inimigos ou rivais, ostentando sem pudor a sua suposta invulnerabilidade. A sua forma de estar na história é conceber-se a si próprio como fora da história. Funciona através do tempo eletrônico, com uma lógica de durabilidade eterna e ultimamente atingiu, com a inteligência artificial, uma potência quase sem limites.

A dronificação do poder ocorre não só nos meios militares e nos campos de batalha dos países ou populações-alvo, mas também em muitos outros domínios da vida social. Com adaptações, encontramos o mesmo padrão para o exercício do poder em áreas tão distintas como a impunidade generalizada da brutalidade policial e a corrupção política; mercenários e grupos paramilitares contratados para expulsar camponeses desarmados ou povos indígenas dos seus territórios, por assassinato, se necessário, para disponibilizar terras para a agricultura industrial ou megaprojetos de "desenvolvimento"; estados de exceção não declarados para proporcionar privilégios excepcionais a grupos poderosos ou infligir um sofrimento horrendo a grupos vistos como inimigos.

Os domínios sociais em que a dronificação do poder é provavelmente mais visível são o capital financeiro e as grandes empresas de comunicação social. No mundo financeiro global, o capital financeiro autorregulado confere aos seus principais atores a capacidade de lançar sobre um país-alvo os drones da avaliação do rating de crédito ou taxas de juros especulativas para sufocar a sua economia e provocar ou aprofundar a sua insolvência. Como resultado, mesmo não sendo detectável uma deterioração súbita dos indicadores da economia real, grandes setores da população podem ver a sua subsistência dramaticamente afetada de um dia para o outro por decisões opacas tomadas por mega-atores em grande parte desconhecidos, invisíveis e irresponsáveis que pilham os seus salários, pensões e poupanças ou lhes tiram as suas casas.

No domínio dos meios empresariais, a crescente concentração do poder dos meios de comunicação oferece aos seus proprietários a prerrogativa da impunidade, impondo agendas políticas e cancelamentos que os favorecem, apesar de não terem qualquer mandato democrático ou provas, com consequências devastadoras para a grande maioria da população.

Perante este tipo de poder, a escala humana da resistência sente-se profundamente miniaturizada, e, com ela, a própria humanidade. A desproporção é de tal ordem que nem a parábola de David e Golias parece adequada. Não se trata de a humanidade ser infantilizada. Ela está íntegra, pensa, sente, vive normalmente, mas em miniatura, quando comparada com tudo o que sucede à sua volta. O que se passa à sua volta também é humanidade, mas, vista a partir da sua existência liliputiana, é tão racional quanto monstruosamente desumana – ou super-humana. Em qualquer caso, não corresponde à escala humana.

A desproporção - A imensa riqueza dos bilionários do mundo, o 1%, a rapidez com que a adquirem, a ostentação com que a exibem e o poder não apenas econômico que a riqueza lhes proporciona, é algo monstruoso para a quase totalidade da humanidade, os 99%, que trabalham de modo cada vez mais precário e sem direitos para, no melhor dos casos, poderem alimentar a família durante todos os dias do mês. Além disso, enfrentam riscos como a brutalidade policial, os roubos praticados por gangues que proliferam nas periferias das cidades e a impossibilidade de custear tratamento médico por falta de dinheiro para seguros de saúde.

Esta desproporção e a inexistência de qualquer mecanismo realista que a diminua – seja tributação progressiva, nacionalização ou direitos sociais – podem levar ao desespero e à violência. Terá sido esse o caso do recente assassinato em Nova York de Brian Thompson, CEO da UnitedHealthcare, uma grande empresa de seguros de saúde? A senadora Elizabeth Warren, crítica eloquente do sistema de saúde dos Estados Unidos, pôs o dedo na ferida quando afirmou:

“A resposta visceral de todos quantos neste país se sentem ludibriados, espoliados e ameaçados pelas práticas mesquinhas das suas companhias de seguro devia servir de aviso para quem se ocupa dos serviços de saúde. A violência não é nunca a resposta, mas as pessoas não podem ser forçadas a tudo. Isto foi um aviso; se se força demasiado as pessoas, elas deixam de acreditar na capacidade do governo para fazer mudanças, deixam de acreditar na capacidade de quem está à frente dos cuidados de saúde para fazer mudanças e começam a tomar conta da situação de formas que, em última análise, serão uma ameaça para toda a gente.”

Apesar de mais tarde a senadora ter sido “obrigada” a retirar esta declaração, ela está validada pela história. Muitos dos assassinatos levados a cabo pelos anarquistas europeus de finais do século XIX e do início do século XX partiam da raiva contra os titulares de riqueza ou de poder considerados discricionários e escandalosos.

Lembrar esta história é importante porque a violência anarquista abrandou a partir do momento em que os sindicatos foram autorizados, os trabalhadores começaram a ter melhores salários e mais direitos e quando o Estado social começou a emergir. Aparentemente, esta história não é conhecida ou não é relevante para quem está agora particularmente preocupado com a segurança dos CEOs de grandes e poderosas empresas, cujos lucros escandalosos crescem na medida do sofrimento e abandono de milhões de pessoas sujeitas a essas empresas.

Segundo a reportagem no Politico de 13 de dezembro, as iniciativas preventivas focam-se sobretudo em novas tecnologias e mais recursos humanos de segurança contra o que estranhamente designam como terrorismo doméstico.

No Brasil, esta desproporção atinge outra dimensão não menos dramática. Apesar do bom desempenho do governo Lula dentro de todos os condicionalismos, uma pesquisa Quaest de 4 de dezembro revela que os agentes do mercado financeiro preferem de longe (em mais de 80%) um candidato de extrema direita ao candidato Lula da Silva. A atual especulação contra o real mostra que não estamos perante meras intenções de voto. Estamos perante políticas já em curso para destruir a democracia brasileira.

Nada disto exige má-fé ou “ideologia reacionária” dos inquiridos. Trata-se apenas de seguir a racionalidade dos “mercados”, como agora se chama o capitalismo. Mais do que nunca, o capitalismo de hoje prefere o caminho para a ditadura como sendo o mais curto com vista a garantir a rentabilidade dos rentistas.

Banalização - Banalizar é aceitar algo como pouco significativo, nem positivo nem negativo. Corresponde a um estado psíquico de indiferença e, em última instância, de cinismo. Dois exemplos entre muitos ilustram o que penso.

A destruição do Oriente Médio por parte de Israel, e muito especialmente o genocídio de Gaza e a indiferença de quem lhe poderia pôr fim, é um ataque particularmente violento à nossa humanidade, que se repete diariamente. Onde estão a ONU, a Organização Mundial da Saúde, o Tribunal Penal Internacional, a Liga Árabe, a União Africana, a União Europeia, o Papa? As imagens passam rápidas para as vermos sem nos vermos refletidos nelas. Para que não possamos sequer imaginar que é a nossa humanidade que está ali a ser reduzida a escombros e que as sacas de plástico brancas (cada vez mais pequenas) lançadas em valas comuns levam nelas fragmentos da nossa humanidade.

Aquelas valas são comuns a todos nós. Somos os liliputianos ante um Gulliver degenerado. Imagens grotescas do mais vil brutalismo animalesco.

A segunda ilustração é o recente relatório do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (Department of Housing and Urban Development) do governo norte-americano, segundo o qual a população sem-teto cresceu 18% em relação ao ano anterior. Esta subida é de 39% para famílias com crianças. Estamos a falar de mais 770.000 pessoas.

Este escândalo, a ocorrer no país mais rico do mundo, não é notícia em nenhum meio de comunicação de grande audiência. A raiva dos sem-teto fica confinada nos patamares dos prédios em que se abrigam. E, pelo contrário, os melhores propagandistas dos EUA, como por exemplo Fareed Zakaria, ao mesmo tempo que reconhecem alguns problemas internos, banalizando-os como notas de rodapé, proclamam a vitalidade do império e a sua capacidade para derrotar todos os possíveis rivais.

A resistência dos liliputianos - Lemuel Gulliver visitou muitos povos em suas múltiplas viagens, até que um barco português o resgatou e trouxe até à Europa. Não foi um regresso feliz, pois, uma vez de volta à sua terra natal, Gulliver preferiu passar os dias a conversar com cavalos a conversar com humanos.

Mas a humanidade, que tem vindo a ser liliputizada por múltiplos mecanismos de escala desumana, não se pode dar ao luxo de passar a conversar só com animais, plantas ou paredes, embora, por vezes, não pareça haver outra opção.

Mas, afinal, os liliputianos de Swift conseguiram imobilizar Gulliver quando um dia decidiram fazê-lo. Para isso, uniram-se, juntaram muita gente, muitas escadas, muitas cordas e dedicaram muito tempo e esforço a essa tarefa. Realizaram-na com êxito.

Na época moderna, e sobretudo depois do século XIX, as tarefas de resistência foram entregues a especialistas, fossem eles sujeitos históricos, intelectuais de vanguarda ou partidos revolucionários, e os instrumentos que utilizaram foram pouco diversificados e, exceto em alguns momentos históricos, não conseguiram reunir maiorias.

O pensamento crítico eurocêntrico tem de viajar pelo mundo, conhecer outros povos, outras lutas, outras narrativas, outras estratégias e escalas antes de poder aspirar a ter consigo gente e forças necessárias para imobilizar o Gulliver do nosso tempo, o 1% e tudo o que o torna possível. Parece ridículo, mas na lógica invertida das escalas dominantes (riqueza primeiro, humanidade depois), 99% é menos que 1%."



     (
Representação imaginária de 'As Viagens de Gulliver', 
      ficção produzida em 1726 pelo irlandês Jonathan Swift)

(Do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, artigo sob o título acima, publicado no Brasil 247 - Aqui).

GAZA QUOUSQUE TANDEM


Emad Hajjaj. (UK/Jordânia). 

ARCA 2025


Dario Castillejos. (México),