domingo, 16 de outubro de 2011
CARTUM É COISA TAMBÉM NOSSA
Com o cartum acima, nosso amigo Izânio abocanhou o primeiro prêmio do Salão de Humor da Bahia. A seguir, trechos da matéria sobre o assunto, redigida por Rômulo Maia, do Portal AZ:
"O bom de traço Izânio Façanha, chargista do Portal AZ, faturou o primeiro lugar do Salão de Humor da Bahia, realizado em Salvador. O resultado foi anunciado por Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica.
O piauiense é autor do cartoon 'Lutando contra o tempo' (...) (sobre) 'a resistência de um velhinho à viagem para sua última morada'.
Cheio das liberdades quando o assunto é retratar políticos e causos, o chargista fica sem jeito para falar de si. Acuado pelas perguntas dos colegas de redação, Izânio sorri meio de banda e fala do que o prêmio significa para ele.
'Para quem vive do que desenha, ganhar um prêmio é o reconhecimento do trabalho bem feito' (...).
E olha que o sujeito já figurou na lista dos melhores em 16 ocasiões diferentes. (...)"
Nossos parabéns ao Izânio.
sábado, 15 de outubro de 2011
SINATRA SEGUNDO LADY BLUE EYES
Francis Albert Sinatra continua a ser ouvido mundo afora, anos após sua morte. O número de acessos no Youtube a seus clássicos demonstra o que digo. Tenho CDs dele, além de bolachões supimpas; mais do que isso: não me desfiz de fitas cassete (!!) com canções de mr. Frank. Um senhor cantor.
Ainda há pouco, li crítica de Ruy Castro acerca de um novo livro que acaba de ser publicado sobre Sinatra. Compartilho-a:
Sinatra é tema de simpático memorial afetivo
O que Gay Talese não conseguiu - falar com Frank Sinatra -, e por isso teve de fazer o que todo repórter faz desde Gutenberg - conversar com as pessoas ao redor do personagem -, Barbara Blakeley fez durante 22 anos, todos os dias. Não apenas falar com Sinatra, mas jantar, dormir, acordar e tomar o café da manhã com o homem, viajar junto (inclusive para o Rio), assistir a todos os seus shows e, muitas vezes, até ouvi-lo sussurrar ao seu ouvido "I get a kick out of you..." ["Tenho tesão por você..."] - o que Sinatra jamais faria com Talese.
É verdade que, para isso, Barbara Blakeley, depois de dois casamentos que não valeram, teve de se tornar Barbara Sinatra, o que aconteceu em 1976 e durou até a morte do cantor, em 1998. O resultado dessa convivência está no livro "Lady Blue Eyes - My Life with Frank", sendo o título uma referência a um dos apelidos de Frank, "Old Blue Eyes" (velho olhos azuis). Não é um marco da literatura nem do jornalismo novo ou velho. É uma memória - e, como todas as memórias, só recorda o que lhe convém -, mas contém revelações de que Talese, com toda a sua prosopopeia engomada, nunca poderia suspeitar. Exemplos?
O pai de Sinatra, Marty, siciliano, não falava inglês - Sinatra servia-lhe de intérprete, e os dois se adoravam. Em compensação, Sinatra tinha medo da mãe - na presença de Dolly, que morreu num acidente de avião quando ele tinha 61, voltava a ser o menino de Hoboken que ela espancava dia sim, dia não.
Sinatra gostava de cozinhar e, segundo Barbara, fazia isso muito bem - mas só macarrão, que comia todos os dias. Gostava de trocar receitas de temperos e de cozinhar para as visitas às 4h da manhã. Quando ia a restaurantes de amigos, metia-se pela cozinha e dava palpite no conteúdo das panelas. Estranho, sendo ele italiano, é que detestasse alho. Gostava também de pintar, embora esse fosse um hobby intermitente - não era como Tony Bennett, que fez da pintura sua segunda forma de expressão.
Com todo seu poder, Sinatra não tinha liberdade de movimentos. Ia muito a restaurantes, mas só podia entrar ou sair deles pela porta dos fundos, passando pela cozinha. Quando era hora de ir embora, um ou mais carros o esperavam na saída traseira, já com o motor ligado. Garçons e maîtres levavam gordas gorjetas para não avisar a repórteres ou paparazzi que ele estava no recinto.
Segundo Barbara, nunca houve homem mais gentil. Na sua presença, nenhuma mulher acendeu um cigarro, abriu a porta de um carro ou vestiu um casaco sem ajuda.
Mas era também um homem que passava uma "sensação de perigo" - sujeito a súbitas explosões de violência -, o que, para ela, era um dos componentes de seu inacreditável charme.
Sinatra era grande leitor, diz Barbara: literatura, história dos EUA, política, artes plásticas e biografias. Vivia recomendando livros ou presenteando amigos com eles.
Seu interesse em muitas disciplinas tornava-o um craque em palavras cruzadas - que fazia todo dia, sempre as mais difíceis, e diretamente a tinta.
Em sua fortaleza no deserto, em Palm Springs, Sinatra tinha uma coleção de trenzinhos de brinquedo que tomava um quarto inteiro - quilômetros de trilhos atravessando túneis e estações, do chão ao teto, e mais de 200 composições de máquinas e vagões de todos os estilos, origens e épocas, que ele manobrava com controle remoto. Na porta do aposento, uma placa dizia: "Aquele que morre com mais brinquedos ganha".
Sinatra nunca deixou escapar, mas Barbara achava que ele tinha a ambição de ser embaixador dos EUA na Itália. De Franklin Roosevelt a George W. Bush, foi amigo de todos os presidentes americanos, mas nenhum cogitou seu nome para o cargo. Talvez por conta das pessoas estranhas ("homens de cara feia e ternos mal cortados", escreveu Barbara) que às vezes entravam em sua vida e pareciam justificar as acusações de ligações com a máfia.
Fumou a vida inteira (Camel sem filtro) e, dos 30 anos até pouco antes de sua morte, aos 83, pode ter tomado uma garrafa de bourbon Jack Daniel's por dia. Mas não há registro de problemas vocais crônicos em sua história, nem de certos efeitos típicos do alcoolismo. Mesmo seus episódios de violência independiam da quantidade de álcool no tanque. E seis horas de sono bastavam para refazê-lo e deixá-lo pronto para mais um dia.
Sinatra perdeu cabelo muito cedo, e suas perucas eram fabricadas por Joe Paris, peruqueiro de Nova York. Mas nunca as usava em casa, nem mesmo diante de visitas, e não se importava de que amigos o fotografassem sem elas.
Não se permitia ser anunciado ao entrar no palco. "Se até hoje não sabem quem eu sou, não estariam aqui", dizia. O show para 175 mil pessoas no Maracanã, em janeiro de 1980, foi, segundo Barbara, sua apresentação mais inesquecível - e olhe que ele cantou diante da Acrópole (Atenas), do Coliseu (Roma) e da Grande Pirâmide de Gizé (Egito), além de todos os night clubs importantes de EUA, Europa e Japão.
Senhor de todo o cancioneiro americano - o qual, em grande parte, foi estabelecido por ele -, Sinatra só cantava "My Way" e "Strangers in the Night" porque o público exigia (achava "muito óbvias" as duas canções). Em suas últimas apresentações, já beirando os 80 (e embora com todo o equipamento vocal em dia), ele se despedia da plateia dizendo: "Obrigado por me deixarem cantar para vocês".
O derradeiro show foi no dia 25 de fevereiro de 1995, no hotel Marriott de Palm Springs, para um concerto beneficente. Morreu três anos depois, em 14 de maio de 1998.
"Lady Blue Eyes" é apenas uma simpática memória afetiva. Barbara consegue escrever quase 400 páginas sem citar as duas filhas de Sinatra, Nancy e Tina, que ele adorava e com quem ela nunca se deu - sinal de que nem tudo foram dias de vinho e rosas entre ela e Frank. Ela impediu os podres de aflorar. Mas isso é tarefa para biógrafos, não para viúvas.
LADY BLUE EYES
Autora Barbara Sinatra
Editora Crown Archetype; 388 págs.
Avaliação bom
EM MEMÓRIA DOS BICHOS
Por José Rezende Jr.
A SOMA DE TODOS OS MEDOS O mendigo velho e seu velho cão compartilham tudo. Sobretudo o medo de que o outro morra primeiro.
PARTILHA
Na separação, eu e o cachorro ficamos com meu pai; minha irmã e o gato, com minha mãe. E cada um de nós passou a ser só metade.
CUMPLICIDADE
Escondeu a gravidade da doença fingindo passear todo os dias com o cão. Ninguém notou que, perto do fim, era o cão que passeava com ele.
FÁBULA
O gato abriu a gaiola e deu fuga ao passarinho. Estranhando a bondade do gato? Pois me assusta é a maldade de quem prendeu o passarinho...
MIGUILIM
Meu cachorro conversa com o vento. Não dizem nada um ao outro. Apenas deixam que os desejos se toquem.
LEÓN
O danado do gato dorme dentro da gaveta. Toda vez que a menina procura os óculos de gatinho, o que ela encontra é um gatinho de óculos!
LAÇOS DE MATILHA Adotou dois vira-latas e dois gatos de rua. Nenhum dos quatro se envolveu com drogas ou más companhias. E todos cuidaram dele na velhice.
SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO Olhou-me com olhos de peixe morto, mas estava vivo quando o tirei do anzol. Morreu foi depois, de saudade do rio.
REVOLUÇÃO DOS BICHOS Uma só patada - e ele partiu ao meio o domador com seu chicote. Em seguida, de nojo, recusou-se a comer-lhe a carne.
MATADOURO O patrão botou culpa ni'mim, mas os bois e as vacas é que tramaram tudo. E foi tão bonito ver a carinha alegre deles na hora da fuga!...
(Do livro 'Estórias mínimas', de José Rezende Jr.)
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
O MAIOR MASSACRE DA HISTÓRIA
Por Emir Sader
12 de outubro marca o início dos maiores massacres da história da humanidade. A chegada dos colonizadores, invadindo e ocupando o nosso continente – ate aí chamado Aby ayala pelas populações indígenas -, representava a chegada do capitalismo, com o despojo das riquezas naturais dos nossos países, da destruição das populações indígenas e a introdução da pior das selvagerias: a escravidão. Chegaram com a espada e a cruz, para dominar e oprimir, para impor seu poder militar e tentar impor sua religião.
Os massacres das populações indígenas e dos negros revelava como o capitalismo chegava ao novo continente jorrando sangue, demonstrando o que faria ao longo dos séculos de colonialismo e imperialismo. Fomos submetidos à chamada acumulação originária, aquele processo no qual as novas potências coloniais disputavam pelo mundo afora o acesso a matérias primas, mão de obra barata e mercados. A exploração colonial das Américas fez parte da disputa entre as potências coloniais no processo de revolução comercial, em que se definia quem estaria em melhores condições de liderar o processo de revolução industrial.
Durante mais de 4 séculos fomos reduzidos a isso. Os ciclos econômicos da nossa história foram determinados não por decisões das populações locais, mas das necessidades e interesses do mercado mundial, controlado pelas potências colonizadoras. Pau brasil, açúcar, açúcar, borracha, no nosso caso. Ouro, prata, cobre, carne, couro, e outras tantas riquezas do novo continente, foram sendo reiteradamente dilapidados em favor do enriquecimento das potências colonizadoras europeias.
Assim foi produzida a dicotomia entre o Norte rico e o Sul pobre, entre o poder e a riqueza concentrada no Norte – a que eles chamavam de “civilização” – e a pobreza e a opressão – a que eles chamavam de “barbárie”.
O início desse processo marca a data de hoje, que eles chamavam de "descoberta da América", como se não existissem as populações nativas antes que eles as “descobrissem”. No momento do quinto centenário buscaram abrandar a expressão, chamando de momento de “encontro de duas civilizações”. Um encontro imposto por eles, baseado na força militar, que desembocou no despojo, na opressão e na discriminação.
Não nos esqueçamos disso, demos à data seu verdadeiro significado, que nos permita entender o presente à luz desse tenebroso passado de exploração e de massacre das populações indígenas e das populações negras.
ECOS DA INCLUSÃO SOCIAL
“Antes eu não era nada. Ninguém me vendia nem uma caixa de fósforos”.
(Confissão de uma senhora de Demerval Lobão, Piauí, beneficiária do programa Bolsa Família, à socióloga e professora da Unicamp Walquíria Domingues Leão Rego, que ao longo de cinco anos foi ouvir mulheres em regiões tradicionalmente não assistidas pelo Estado – como o Vale do Jequitinhonha e o sertão alagoano, entre outras. Sua intenção foi saber como os beneficiários avaliavam os impactos de programas como o citado Bolsa Família, e o aumento real do salário mínimo. Quis conhecer os efeitos sobre a vida pessoal, a cidadania, a maneira como as pessoas passaram a se ver. Walquíria concluiu que a renda monetária conferiu-lhes dignificação da vida, confiabilidade. A possibilidade de escolha – entre comer feijão ou macarrão, por exemplo – mudou a percepção das pessoas sobre a vida, a cidadania, os direitos. Fonte: Coluna Econômica - Luis Nassif).
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
HACKERS DO RAUL
Hackers invadem Blog do Planalto
Hackers invadiram nesta quinta-feira o blog do Planalto. O grupo identificado como "Hacker Beleza" pedia Ficha Limpa e voto aberto no Congresso. Na página, os invasores deixaram uma foto onde as pessoas aparecem "varrendo a corrupção".
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Ficha Limpa e voto aberto no Congresso? Beleza. Quanto à manipulação partidário-piguiática...
O PAPEL DO NORDESTE NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS
Por Lilian Milena
Da Agência Dinheiro Vivo
Com a expansão econômica no Nordeste, 12 milhões de pessoas migraram para a Classe C durante os últimos oito anos. O aumento do PIB no centro Crato/Juazerio do Norte do Ceará, por exemplo, foi de 28%, entre 2003 e 2008, e em Vitória da Conquista, Bahia, o crescimento do PIB municipal foi de 32%, no mesmo período. Em Picos, no Piauí, o aumento de empregos formais foi de 126%, enquanto a média do Brasil, de 2003 até 2009, foi de 55%.
Os fatores que explicam o dinamismo recente do Nordeste, segundo o diretor de Gestão do Desenvolvimento do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), José Sydrão de Alencar Júnior, são as políticas de valorização do salário-mínimo e as políticas sociais (Bolsa Família e previdência social).
"De R$ 1 bilhão em políticas sociais no Nordeste, R$ 350 milhões, ou 35%, vão para as regiões Sul e Sudeste em forma de impostos pagos", contou durante o 15º Fórum de Debates Brasilianas.org, realizado hoje (13), em São Paulo.
Para ele o país passa hoje por um processo de desenvolvimento que tem a ver com questões regionais. Nesse sentido o Nordeste deve fazer parte do projeto de um país que se quer desenvolvido, e as transferências sociais e as carteiras de investimentos voltadas ao micro e pequeno empreendedor foram fundamentais nesse sentido. Hoje, o BNB tem uma carteira com 1,5 milhão de clientes nesse perfil, sendo a média de inadimplência deles menor do que 2%.
"Temos alguns empreendedores copiando produtos chineses, a exemplo do que está acontecendo em Santa Cruz do Capibaribe, também com alta produção de confecções de baixo custo que são levadas para todo o país. Lá os empresários trabalham num circuito eficiente de fornecimento de peças para as feiras", conta o diretor. Para ele, os incentivos fiscais não são mais necessários para atrair investimentos privados aos estados. O Nordeste está alcançando um nível de crescimento relacionado ao aumento do poder de consumo da população, e em algumas regiões alcança o passo seguinte, que é ganhar autonomia capaz de manter por si só o ciclo de crescimento. Atualmente, o Nordeste responde por 1/5 do consumo de bens duráveis, por 1/3 das motos vendidas, e por 1/4 do comércio da linha branca, no país.
Desafio
Ainda existem cerca de 5 mil famílias que vivem no semi-árido nordestino através de uma agricultura com baixo nível tecnológico. Além disso, 1/3 da região está em processo de desertificação e degradação. A lenha é uma das principais fontes de energia utilizadas pelas famílias e indústrias locais.
Segundo Alencar Júnior, a região poderá contribuir ainda mais com o fornecimento de alimentos e produtos agrícolas no geral. “O mundo está passando por um processo de expansão das fronteiras agrícolas, inclusive na África, evento que obriga mudanças de logística de transporte no mundo”, explica, apontando como indicador a obra de aprofundamento do canal do Panamá – país situado na América Central -, que irá possibilitar a travessia de navios de até 220 mil toneladas. Naturalmente a melhoria nessa rota de transportes irá trazer impactos nos próximos 20 anos para o Porto de Santos, São Paulo. No Brasil, os portos das regiões Sul e Sudeste já estão saturados, e isso forçará investimentos na ampliação e construção de novos portos na região Nordeste.
BRASIL: AS RAZÕES DA NÃO PRIMAVERA
Situação econômica faz com que poucos brasileiros protestem contra a corrupção
Tatiana Farah (O Globo)
A primavera dos brasileiros já passou. Essa é a opinião de especialistas ouvidos na quarta-feira pelo GLOBO, que apontaram como grandes momentos de mobilização as Diretas Já, nos anos 80, e o Fora Collor, nos anos 90. O movimento contra a corrupção, que tem saído da internet para ganhar as ruas como aconteceu ontem em diversas cidades brasileiras, no entanto, está longe de ser uma nova primavera.
- Nossa primavera foi o momento das Diretas, quando 1,5 milhão foi às ruas. O que são cinco mil pessoas reunidas em São Paulo ou 13 mil em Brasília? É muito pouco. Sem organicidade, esse movimento não vai crescer. As manifestações ganham força se tiveram algo orgânico, como partidos e sindicatos - afirma o cientista político Carlos Mello, do Insper.
Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro afirma que um problema para a mobilização do país contra a corrupção é que as pessoas são contra a corrupção, mas dos partidos alheios:
- O problema na luta contra a corrupção é que ela está tomada pelos partidos. E é uma lástima que as pessoas usem isso contra o partido oposto.
Para Janine Ribeiro, não se pode comparar o movimento contra a corrupção com movimentos como a Parada Gay:
- Na Parada Gay, todos estão celebrando a vida. Quando se está lidando com uma coisa suja, como a corrupção, não há toda essa euforia. Acho essa comparação inoportuna e um tanto moralista.
Janine Ribeiro, Carlos Mello e o cientista político David Fleischer, da UnB, apontam que o momento econômico brasileiro colabora com a desmobilização:
- A economia é um fator para a desmobilização. Quando a economia está positiva, com aumento do salário médio e menos desemprego, isso alivia a barra dos brasileiros que, por natureza, são mais pacíficos e conciliadores - diz Fleischer.
Para Fleischer, uma mobilização de massa precisa contar com "o elemento da opressão financeira", como tem ocorrido na Espanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos.
- Nós já tivemos nossas primaveras, como as Diretas Já e o Fora Collor. Eram momentos em que os brasileiros não estavam aguentando mais.
Janine Ribeiro lembra que, nesses momentos, o Brasil estava com graves problemas econômicos e que a indignação nas ruas não era apenas política.
- Infelizmente, parece que o ponto crucial, o determinante, é a situação econômica. Realmente, eu gostaria que tivéssemos derrubado Collor pela corrupção e não pela crise econômica, mas não foi isso o que ocorreu.
Segundo Carlos Mello, em momentos de crise econômica, "a corrupção passa a ser intolerável".
- Mas o momento é desmobilizador, com desemprego de 6% e com algum crescimento econômico.
Na Espanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos, a crise empurrou as pessoas para as ruas. Agora, aqui, estão exigindo espírito cívico demais para um mundo que não tem mais esse civismo - diz Mello.
Para Mello, não se pode dizer que os brasileiros não saem às ruas simplesmente porque na Espanha os "indignados" tomaram as praças.
- Os espanhóis se mobilizam agora, mas aguentaram 40 anos de regime franquista - afirma Mello.
HOT VERDECAP (II)
B-R-O-Bró fica mais quente a cada ano, constatam pesquisadores
A cada ano que se passa a sensação dos teresinenses é que no período que vai de setembro a novembro, o chamado B-R-O-Bró, o calor aumenta. E isso não podia ser diferente. Segundo dados da meteorologista da Secretaria do Meio Ambiente do Estado, Sônia Feitosa, nos últimos dezoito anos a temperatura média de Teresina aumentou cerca de 0,7°C.
Se observarmos em um período mais longo, nos últimos 33 anos, a temperatura média de Teresina cresceu 1,13°C no b-r-o-bró. Os dados fazem parte de um estudo da climatologista Sônia Ribeiro em parceria com a coordenadora Geral de Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, Drª Jaíra Alcobaça.
Se observarmos em um período mais longo, nos últimos 33 anos, a temperatura média de Teresina cresceu 1,13°C no b-r-o-bró. Os dados fazem parte de um estudo da climatologista Sônia Ribeiro em parceria com a coordenadora Geral de Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, Drª Jaíra Alcobaça.
Apesar de parecerem números insignificantes, Sônia afirma que esse aumento é suficiente para modificar o clima da região e provocar consequências perceptíveis. (...)
Fonte: Portal AZ. Foto: Nayene Monteles.
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DE COMO OBAMA PISOU NA BOLA
É o emprego, 'cara'...
Delfim Netto
CartaCapital
De todos os desperdícios de recursos naturais de uma sociedade, nenhum é mais injusto, mais prejudicial à integração social e à autoestima do cidadão do que negar-lhe a oportunidade de viver honestamente e sustentar a família com o resultado do seu trabalho. É por isso que a construção de uma sociedade mais “justa” começa pela maximização do nível de emprego.
Não se imagina que em uma organização econômica como a que vivemos todos terão emprego a um só tempo, mesmo nos períodos mais dinâmicos de crescimento. Sempre haverá fases de acomodação do nível da atividade podendo gerar uma taxa de desemprego friccional que a sociedade “justa” tem de socorrer com as políticas sociais do Estado.
Há quatro anos a sociedade americana viu-se envolvida em uma séria crise bancária que em poucas semanas eliminou milhares de empregos no setor financeiro, antecipando a tragédia que em alguns meses suprimiu perto de 15 milhões de postos de trabalho nos demais setores da economia. Países da Comunidade Europeia sofrem hoje de forma dramática o agravamento de uma crise de origens similares, sob ameaça de desmoronamento dos pilares de sua principal construção, o sistema do euro.
No mundo inteiro, algo como 30 milhões de trabalhadores não recuperaram os empregos incinerados desde a crise de 2008/2009.
As consequências de ordem política e institucional estão revelando-se na medida em que os cidadãos ocupam as ruas das maiores metrópoles do Ocidente, cobrando respostas das lideranças globais, aparentemente perplexas e atordoadas. É surpreendente, mas reveladora deste estado de coisas, a explicação e o mea culpa atribuídos ao ministro da Economia da Grécia, Michalis Chryssohoidis: “Nossa situação é desesperadora, porque reduzimos de forma bastante drástica a renda das pessoas”.
Dos Estados Unidos, os europeus estavam acostumados a receber conselhos (quando não a mão amiga) para contornar as crises. O que assistiram, porém, no início da última semana na tevê foi a imagem de um presidente americano cabisbaixo, desanimado, admitir em plena campanha que se tornou o “azarão” das próximas eleições. Importante, mesmo, foi Obama admitir francamente que seus baixos índices de popularidade são consequência do estado da economia neste final de mandato: “Os eleitores não estão melhores hoje que há quatro anos. Conseguimos um progresso contínuo para estabilizar a economia, mas a taxa de desemprego ainda é muito alta”.
Um esforço para estabilizar que custou mais de 1 trilhão de dólares despejados nos cofres dos bancos para salvá-los da quebra, na crença de que o sistema financeiro retribuiria irrigando com créditos o setor produtivo. A esperança era de que o dinheiro do contribuinte seria usado para financiar a retomada dos investimentos na indústria e da atividade comercial, voltando a estimular o consumo e com isso a recuperação do nível de emprego.
Nada do que se esperava aconteceu, como se sabe. Em contraste, formou-se aquele circuito tenebroso: sem a expectativa de melhora da demanda interna em razão da manutenção de altos níveis de desemprego, as empresas simplesmente adiaram investimentos na produção e não fizeram novas contratações de mão de obra, um circuito que se autoalimenta e habitualmente conduz à recessão econômica.
O Brasil, é sempre bom lembrar, escolheu logo no início da crise outro caminho, até certo ponto surpreendente, mas que se revelou extremamente virtuoso: sem perder muito tempo com a sofisticação de modelos, o presidente Lula dirigiu-se diretamente ao consumidor brasileiro e, na linguagem que cada um de seus milhões de eleitores compreendeu rapidamente, exortou-os a continuar consumindo: “Se você deixar de ir ao mercado ou às lojas, se parar de comprar com medo de perder o emprego, aí então é que vai ficar sem emprego, porque a empresa vai deixar de produzir se não tiver para quem vender”.
Todos sabem que funcionou e o comportamento da economia brasileira para vencer a crise de 2008/2009 mantendo os níveis de emprego, a renda salarial e o consumo interno em crescimento, é reconhecido mundialmente como extraordinariamente bem-sucedido. Hoje o nosso ex-presidente continua sendo admirado como “o cara”, que intuiu que a saída da crise estava na manutenção dos empregos e da renda dos salários, mais do que a salvação da banca.
Curiosamente é Obama, o criador do honroso apelido, quem hoje faz também uma espécie de mea culpa por demorar quatro anos para entender a mensagem de seu então “colega”, o trabalhador Luiz Inácio Lula da Silva.
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'cara'...,
Artigo. Delfim Netto. É o emprego
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
LIVROS VIVOS
Não são bons os tempos para as bibliotecas públicas. Além da concorrência com internet e e-books, a crise econômica de 2008-2009 fez estragos. É o caso do Canadá, onde a crise provocou cortes no orçamento dos serviços públicos. Para combater a situação, a cidade de Surrey, na Colúmbia Britânica, resolveu humanizar, literalmente, o contato com livros. A City Centre Library, uma moderna biblioteca inaugurada em setembro, engaja voluntários para participar do que foi batizado de “livros vivos”. Eles ficam disponíveis para conversar com o público, sobre qualquer assunto, em sessões de cerca de meia hora. A ideia é proporcionar algo além da simples pesquisa em livros: acesso a conhecimento e troca de experiências com gente da própria comunidade. Algo que não se encontra no Google. (Fonte: Superinteressante).
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A ideia pode ser interessante, mas uma resposta deveria ter sido oferecida desde logo: se biblioteca é local onde o silêncio é sagrado, como se darão as conversas entre os 'livros vivos' e o público? Fones individuais? Papos em cabines hermeticamente fechadas? Telepatia?!
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Bibliotecas. Livros vivos. Superinteressante.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
BRAÇOS ABERTOS SOBRE A GUANABARA
O Cristo Redentor está completando 80 anos. Referência na paisagem carioca e um dos pontos turísticos mais visitados do Rio de Janeiro (oito mil pessoas a cada dia), terá seu aniversário marcado por shows, exposições e cerimônias religiosas.
Nova York, Buenos Aires e Jerusalém receberam réplicas da imagem, e comemorações acontecerão por lá também.
Ruy Castro publicou há poucos dias a crônica abaixo, e é com ela que, lembrando canções de Tom Jobim e João Donato, rendemos homenagem a essa Maravilha do Mundo:
CONVERSÕES DE PEDRA
Na noite de 12 de outubro de 1931, um marinheiro irlandês, já para lá de zuzu, desembarcou de um navio recém-aportado no Rio. Ao pisar a praça Mauá, olhou para o céu escuro e, súbito, um Cristo fosforescente surgiu aos seus olhos. "Milagre!", exclamou o marinheiro, a quem uma remota fé católica e as pregações do capelão não impediam que ele emborcasse tudo que houvesse de líquido a bordo e, às vezes, visse coisas.
Mas aquele era um sinal. O homem de braços abertos surgira do nada, aceso, paternal, como que chamando de volta o cordeiro que se desgarrara. O marujo voltou correndo para o navio e se entregou ao capelão. O qual, se sabia que o Cristo era uma estátua da altura de um edifício de dez andares que se inaugurava naquele dia, no alto de uma montanha, fez-se de bobo. Afinal, ganhara de graça uma alma que já dera como perdida para as biroscas do cais.
O tal marinheiro não foi a única conversão operada pelo Cristo Redentor. Nem a primeira. Antes mesmo de sua inauguração naquele dia, há quase 80 anos - antes até de ficar pronto -, a imagem do Cristo já consolidara a fé do homem que o estava construindo no topo do Corcovado: o engenheiro-arquiteto carioca Heitor da Silva Costa.
Matemático e geômetra rigoroso, nascido e formado no século 19, Heitor era indiferente às coisas místicas, quase um agnóstico. Seu interesse inicial pelo monumento pode ter sido o desafio puramente técnico. Mas o Cristo avassalador que nascia de seu gênio e concepção alterou sua visão do mundo. Dali Heitor construiria outros monumentos religiosos, em São João del-Rei, Petrópolis e no próprio Rio.
E quem, muito depois, em visita ao Rio, disse que aquele Cristo entre as nuvens balançara seu ateísmo foi a escritora americana Anne Rice. E os vampiros ficaram tiriricas.
UM CHORO GINGADO
Confissão de um teresinense ligado em MPB: "Vou compor um chorinho gingado, intitulado Saudade do Trombone e Companhia."
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Foto. Trombone e companhia. Um choro gingado.
SUTILEZA MALÚFICA
"Cada um tem seus pecadinhos; os meus nunca atrapalharam ninguém."
(Paulo Maluf, político e empresário, a Kennedy Alencar, na Rede TV. Maluf, a exemplo dos espertalhões em geral e alguns incautos em particular, estabelece distinção entre os dinheiros: apropriar-se de dinheiro privado é sacrilégio, crime hediondo, ato abominável que atrapalha a vítima; já surrupiar dinheiro público é aceitável, de 'menor potencial ofensivo': afinal, é dinheiro público, mesmo; não tem dono específico; não atrapalha ninguém.
Esses corruptos!...).
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
INDIGNADOS CANSADOS
INDIGNADOS E DESACREDITADOS
Por José Roberto de Toledo
Por que o movimento dos "indignados", que ganhou notoriedade na Espanha, se espalhou para o Chile e agora ocupa Wall Street (EUA), não comoveu multidões no Brasil? Desde julho, quando o jornal espanhol El País fez essa pergunta, parece haver mais indignação com a falta de resposta do que, propriamente, com a corrupção da política nacional.
Tentativas de mobilização das massas não foram muito além de um trending topic ou outro nas redes sociais. Quando chegaram às ruas, não saíram dos bairros mais afluentes, tampouco tiveram sustentação ao longo do tempo. Nos termos de seus idealizadores, cansaram logo.
As explicações aventadas variam da mitológica cordialidade nacional ao efeito lavador de cérebros da propaganda governamental. A despeito de exemplos como os dos "caras-pintadas" e das "diretas já", os argumentos rapidamente se voltam contra o objeto da mobilização: o brasileiro - que seria, antes de tudo, um apático. Vale a pena, então, comparar o que ele pensa com o que pensam outros povos mais indignados.
A começar pelas semelhanças e diferenças na opinião pública de Brasil e Chile, onde o Ibope fez pesquisas com metodologias idênticas. O Índice de Confiança nas Instituições varia de 0 a 100. Quanto maior, mais confiante a população naquela instituição. Na média, o índice chileno pende bem mais para o lado da desconfiança do que o brasileiro: 46 a 55.
Semelhanças positivas - bombeiros: (Chile) 92 a 86 (Brasil); polícia: (Chile) 60 a 55 (Brasil); Forças Armadas: (Chile) 56 a 72 (Brasil); organizações da sociedade civil: (Chile) 60 a 59 (Brasil).
Semelhanças negativas - partidos políticos: (Chile) 17 a 28 (Brasil); Congresso Nacional: (Chile) 23 a 35 (Brasil); sistema público de saúde: (Chile) 40 a 41 (Brasil); sindicatos: (Chile) 47 a 44 (Brasil).
Semelhanças neutras - governo municipal: (Chile) 50 a 47 (Brasil); eleições: (Chile) 49 a 52 (Brasil).
Diferenças: presidente da República: (Chile) 27 a 60 (Brasil); Governo federal: (Chile) 36 a 52 (Brasil); Justiça: (Chile) 30 a 49 (Brasil); igrejas: (Chile) 44 a 72 (Brasil); meios de comunicação: (Chile) 51 a 65 (Brasil); empresas: (Chile) 49 a 59 (Brasil).
Nos EUA, o Instituto Gallup com metodologia diferente chegou a conclusões semelhantes. Como no Chile e no Brasil, nenhuma instituição é mais desacreditada entre os norte-americanos do que o Congresso. E apenas como no Chile, a Presidência da República está em processo de descrédito - desde a posse de George W. Bush, com leve, mas fugaz recuperação da confiança no começo do governo de Barack Obama.
Uma hipótese surge das pesquisas: quando a população se desencanta com seu governante e não enxerga representatividade no Congresso nem nos partidos nem nos sindicatos nem na mídia para expressar sua indignação, deságua sua insatisfação em protestos de rua. Não por coincidência, o chileno Sebastián Piñera é o governante mais mal avaliado das Américas, e o espanhol José Luis Zapatero está na lanterna na Europa.
E o que Obama, Piñera e Zapatero têm em comum, que presidentes com melhores índices de avaliação, como Dilma Rousseff (Brasil), Dmitry Medvedev (Rússia) e Cristina Kirchner (Argentina), não têm? Sérios problemas na economia de seus países. (Fonte: jornal O Estado de São Paulo).
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Já abordei o assunto aqui no blog: o povão brasileiro não vive no melhor dos mundos, mas percebe os avanços verificados. O poder de compra do salário não é de causar sensação, mas o desemprego é um dos menores da história. A ascensão social é notória. O Brasil ainda paga juros escorchantes por conta da dívida pública (de cerca de 1,7 trilhão de reais, 39% do PIB), pagamento que este ano girará em torno de 200 bilhões de reais, e isto é vergonhoso, porém o perfil da dívida está mudando, para melhor (ou menos mal). Os bancos estatais, greves à parte, ampliam sua participação na concessão de crédito no País; o sistema bancário é sólido em função da adoção de cautelas ainda mais rigorosas do que as traçadas pelos Acordos da Basileia I e II.
Se o Brasil não tivesse feito convenientemente o dever de casa (a exemplo das medidas adotadas em face da crise mundial de 2008/9), o caos econômico teria batido à porta, e caos econômico é o 'lança-chamas' de indignação nas ruas. (O caso do Chile tem particularidades especiais: os jovens estão nas ruas para contestar a herança deixada pelos Chicago Boys de Pinochet: sucateamento do ensino público, mercantilização do ensino universitário e atos assemelhados, situação que até se agravou após a ditadura).
Quanto aos EUA, a contida (no caso) mídia tupiniquim evita reportar-se especificamente ao Ocupe, preferindo fazer 'abordagem contextualizada' e/ou en passant, como na matéria do Estadão, acima. Compreensível.
PALAVRA DE NORDESTINA
A vergonha que não tenho de ser nordestina
Por Sheila Raposo
Do blog de Luis Nassif
Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.
Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano, correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pr’o curral e esperar, pacientemente, o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.
Sou nordestina. Falo oxente, vote, danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria-José! Proseio numa língua ligeira, que engole sílabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o meu mais fiel retrato. Os amigos acham engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E, olhe: acho que não vai sair é nunca!
Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquelas que quando a gente termina de engolir o suor já está pingando dos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. No outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na urêa de pau com café torrado em casa!
Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas, e que também são minhas, estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.
Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.
Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio já é bom demais. E fico nesse rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô, negocio bom!
Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.
Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.
Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Sou não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro.
Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade.
Para eles, ofereço estas linhas.
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Comentários sobre este relato podem ser lidos AQUI.
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Crônica. Nordeste. Nordestina. Sheila Raposo.
domingo, 9 de outubro de 2011
FESTA DA MEMÓRIA
Vi esta fotomontagem há um bom tempo. Ela brilhava em meio a muitas fotos. Não sei quem a produziu. Cartum puro.
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Foto. Festa da memória. Velhice juventude.
BBC, QUESTÃO DE TEMPO
BBC deixa de usar aC e dC; jornal do Vaticano reage
As emissoras de TV e de rádio da BBC (British Broadcasting Corporation) deixaram de usar as abreviaturas aC (antes de Cristo) e o dC (depois de Cristo) como referências históricas, substituindo-as, na tradução para o português, por "antes da era comum" e "era comum".
A BBC informou que decidiu pela mudança por se tratar de uma empresa ligada ao Estado, que é laico, e também em respeito às pessoas de outras religiões.
O jornal L'Osservatore Romano, porta-voz do Vaticano, reagiu com uma contundência que não lhe é habitual. Disse que a empresa optou pela “hipocrisia historicamente insensata”.
"Muitíssimos não cristãos disseram que não se sentem ofendidos pela datação tradicional, pelo aC e dC”, disse o jornal.
“O que está bem claro é que o respeito a outras religiões é só um pretexto [da BBC], porque o que se pretende é apagar qualquer marca do cristianismo na cultura ocidental”, disse o L'Osservatore.
A até o final da tarde de terça-feira (4), a BBC não tinha comentado o artigo do jornal. O Vaticano já vinha acusando a emissora britânica de ter tomado uma postura nitidamente antirreligiosa, principalmente em relação ao catolicismo.
Recentemente, a Austrália determinou que as referências aC e dC fossem retiradas dos livros didáticos, em uma medida que deverá entrar em vigor em 2012. O arcebispo Peter Jensen, de Sidney, taxou a decisão de “uma tentativa absurda” de expulsar Jesus Cristo da história.
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O calendário em vigor, gregoriano, substituiu (mas sem mexer na origem) o calendário juliano, que por sua vez foi instituído levando em conta a passagem de Cristo pela Terra. Pelo raciocínio da BBC e da Austrália, o laicismo exacerbado, por uma questão de coerência, vai instituir um novo calendário. 2012 seria o ano um, ou zero, ou dois?
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O calendário em vigor, gregoriano, substituiu (mas sem mexer na origem) o calendário juliano, que por sua vez foi instituído levando em conta a passagem de Cristo pela Terra. Pelo raciocínio da BBC e da Austrália, o laicismo exacerbado, por uma questão de coerência, vai instituir um novo calendário. 2012 seria o ano um, ou zero, ou dois?
sábado, 8 de outubro de 2011
LITERATURA FUTURA
"Não sou fanático por tecnologia. Tenho o mesmo telefone celular há anos e não pretendo trocá-lo. Escrevo em computador, como fiz antes com a máquina de escrever. É óbvio que as máquinas facilitam a finalização de um texto. Só que as coisas estão se transformando muito rapidamente para meu gosto. Não consigo achar graça em ler livros em formato eletrônico em e-reader. Outro dia passei em uma loja Apple com a forte disposição de comprar um iPad. Cheguei lá, vi tanta gente se acotovelando para ver como funcionava o aparelho e cheguei a testá-lo. Acabei desistindo. Não sei por que, mas o iPad não me convenceu, talvez porque pareça chato escrever nele, e ler nele é dispersivo. Quem vai conseguir ler um livro inteiro meu naquele tablet? É mais um totem do culto à tecnologia. Hoje, toda a cultura se encontra a nossa disposição. E isso me preocupa. A cultura literária como conhecemos vai acabar em 20 anos. Ela já está agonizando. Obras de ficção não despertam mais interesse dos jovens, e tenho a impressão de que não são mais lidas. Hoje, a atenção é voltada para o mais novo celular, o mais novo tablet. Daqui a poucas décadas, a relação do público e do escritor com a cultura será muito diferente. Não sei como será, mas os livros em papel vão acabar. Surgirá outro tipo de literatura, com recursos audiovisuais e o que mais inventarem."
(Philip Roth, escritor americano - 1933, Newark, NY -, em entrevista à revista Época. Roth é o único autor vivo a merecer a edição de suas obras na editora The Library of America, dedicada a escritores consagrados.
Não sei como será a literatura no futuro, mas desconfio que os livros em papel sobreviverão, pelo menos para quem aprecia fazer anotações neles. Quanto às obras de ficção e o interesse dos jovens, recordo observação feita pelo poeta Drummond em crônica publicada em priscas eras no extinto Jornal do Brasil: no futuro - hoje, ou, digamos, 2020 -, as obras de ficção continuarão despertando interesse, desde que os textos sejam curtos, enxutos. Deve ser por aí, mesmo).
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