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sábado, 1 de abril de 2023

BANCO CENTRAL, BUNKER DA OPOSIÇÃO

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"Ainda durante a campanha eleitoral, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, afiançava a uma seleta plateia do banco que, mesmo com a eleição do Lula, a vida boa dos rentistas-saqueadores não seria abalada."
- (Por Jeferson Miola, em seu Blog)...

(Amarildo)

É uma grande balela dizer que como o Banco Central [BC] é independente, é natural que tome decisões sobre a taxa de juros com total autonomia em relação ao governo soberanamente eleito.

A alegada independência do Banco Central é mero subterfúgio para camuflar o aparelhamento ideológico do órgão por agentes bolsonaristas e ultraliberais e por tecnocratas das finanças.

Na realidade, o Banco Central funciona como um bunker da oposição ao governo Lula. Suas decisões não se sustentam, em absoluto, em fundamentações técnico-econômicas razoáveis; são escolhas de natureza político-partidária.

O BC é, ao mesmo tempo, um mecanismo de rapinagem e roubo do orçamento público por meio de taxas estratosféricas de juros; e, também, uma arma de sabotagem e terrorismo financeiro para causar recessão econômica e, com isso, asfixiar e debilitar o governo Lula.

Na maior desfaçatez, a diretoria bolsonarista do BC pede que o governo tenha “serenidade e paciência” para com a cortesia pornográfica que faz aos rentistas – principalmente estrangeiros – com o dinheiro do Tesouro que é desviado do orçamento sem autorização do Congresso e sem a concordância do Poder Executivo.

A dinheirama adicional para pagar o serviço da dívida aumentada devido aos juros altos do BC não sai dos cofres do Banco Central, mas do Tesouro Nacional. Com um detalhe a mais: é uma despesa extraordinária que não é decidida pelo governo eleito, e tampouco é aprovada pelo Congresso.

E não se trata de pouco dinheiro! São entre 60 e 70 bilhões de reais a mais para cada 1% de juros. Portanto, se os juros estão pelo menos 8 pontos acima do padrão internacionalmente praticado, de taxa de juros reais negativos, abaixo da inflação, isso representa entre R$ 480 e 560 bilhões a mais que são drenados para as finanças se esbaldarem.

É isso que gera desequilíbrio fiscal, não os investimentos em áreas sociais e em obras e serviços para o desenvolvimento do país com geração de empregos.

Já é lugar comum no debate econômico que envolve economistas intelectualmente honestos e confiáveis, de distintas orientações ideológicas, como André Lara Resende, Jeffrey Sachs e Joseph Stiglitz, que esta política do Banco Central, da maior taxa de ganho real do mundo, de 8%, é totalmente descabida.

A continuidade desta política, inclusive com a perspectiva irresponsável de “manutenção da taxa básica de juros por período prolongado”, não faz absolutamente nenhum sentido fiscal e econômico, porque é uma escolha puramente político-partidária.

A direção bolsonarista do Banco Central promete complicar ao máximo a vida do governo Lula durante os dois anos de mandato de Roberto Campos Neto na presidência. Esta estratégia de sabotagem e asfixia encontra defensores poderosos.

Ainda durante a campanha eleitoral, o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, afiançava a uma seleta plateia do banco que, mesmo com a eleição do Lula, a vida boa dos rentistas-saqueadores não seria abalada. Afinal, disse ele, “ainda teremos dois anos de Roberto Campos Neto” no Banco Central “independente”.

Vale lembrar que o BTG Pactual de Esteves/Paulo Guedes é uma sinecura que alberga vários agentes que serviram e se serviram do governo fascista-militar e que, sem nenhuma cerimônia e, menos ainda, ética, giraram a porta giratória e passaram para o outro lado do guichê – Fábio Faria, Bruno Bianco, Marcelo Sampaio e quejandos.

O bunker da oposição conta, ainda, com o obstinado apoio do chefe da deputadocracia, deputado federal Arthur Lira, que não vê “nenhuma possibilidade de mudança em relação à independência do Banco Central no Congresso Nacional”.

Apesar, no entanto, da tripla blindagem de Roberto Campos Neto – pelas finanças, pelo chefe da deputadocracia e pela mídia neoliberal –, é preciso se cumprir a própria Lei de independência do Banco Central, que eles tanto defendem, e demitir o bolsonarista da presidência do BC por “comprovado e recorrente desempenho insuficiente para o alcance dos objetivos do Banco Central do Brasil” [inciso IV do artigo 5º da Lei 179/2021].  -  (Aqui).

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Essa Situação Imposta Pelo Banco Central Vem Rendendo Muito Pano Pra Manga...

.De Matéria Publicada Ontem - Aqui:

Os comentários dos leitores do Jornal GGN estão entre os mais aclamados. Selecionamos dois deles:

.Da leitora Elena:
"De seu lado, o Banco Central mostrou que está atuando politicamente. Teve até a ousadia de ameaçar o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social): se definir custo do dinheiro inferior à Selic, o BC responderia com aumento de juros". Meu Deus! Como a arrogância do tal Roberto Campos Neto é monstruosa, gente! O que ele pensa que é? Se autointitulou presidente do país? Um sem voto agora manda em tudo? O povo tem que colocar esse arrogante em seu devido lugar!!!"

.Do leitor Wilson Ramos:
"Mesmo não tendo ainda todos os detalhes, parece que as medidas contemplam os diversos interesses em jogo. Tanto do lado da possibilidade de ampliação de gastos como também das salvaguardas para contenção da dívida. O ingrediente contra cíclico deverá vir na definição de bandas para o resultado primário, ideia que Paulo Nogueira Batista tem recomendado em seus artigos. Não se pode esquecer também que alguma coisa pode ter sido deixada para o Congresso emendar, já que não podem passar como meros expectadores e aprovadores. Como Lula parou de bater no BC, deixando para os parlamentares as críticas necessárias, dependendo da repercussão, será possível discutir e rever a meta de inflação pelo CMN em Junho, como de hábito. Não tendo a meta irrealista para perseguir, o BC não tem desculpa para o juro exagerado. Mesmo que tente burlar, pois aí um processo de destituição da diretoria seria justificado."

sexta-feira, 3 de março de 2023

VENCEDOR DO NOBEL ELOGIA LULA E DIZ QUE ESQUERDA GERE MELHOR ECONOMIA: "ABSOLUTAMENTE CORRETO"

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Stiglitz: "Lula está correto" (ao pressionar o BC). E, diante do nível desconcertante de desigualdade, arremata: "aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade."


O vencedor do prêmio Nobel de economia e professor da Universidade de Columbia (EUA), Joseph Stiglitz, em recente entrevista realizada pela CNN Brasil, comentou a respeito da atual situação da economia brasileira e das práticas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está tomando desde que assumiu seu terceiro mandato. Para Joseph, a atitude de Lula em querer manter um maior controle do Banco Central está correta. Confira a seguir os melhores trechos:

BBC News – No Brasil, o presidente Lula está travando há semanas um embate com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o nível da taxa básica de juros do país, que está atualmente acima dos 13%. Lula argumenta que os juros estão estrangulando a economia, enquanto Campos Neto defende o mandato do Banco Central de perseguir a meta de inflação do país, de cerca de 3%. Como o senhor vê essa disputa no Brasil?

Stiglitz – Primeiro, é preciso dizer que metas de inflação – que na Europa [e nos EUA] é de 2%, e você falou em 3% [no Brasil] – são tiradas do nada. Elas não têm base alguma na teoria econômica ou na experiência econômica. (…) Há um custo enorme em ter taxas de juros altas. Isso coloca o Brasil em desvantagem competitiva, estrangula as empresas brasileiras, enfraquece a economia do país. Então o presidente Lula está absolutamente correto em estar preocupado com essas questões.

Voltando à questão da meta de inflação, a pesquisa teórica mais recente, realizada em um período longo de tempo, mostra que, em momentos de rápido ajuste da economia e mudança estrutural – o tipo de coisa que estamos vivendo no mundo pós-covid e à medida que rumamos para a transição verde -, uma taxa de inflação mais alta na verdade facilita o ajuste. (…)

Mudando de assunto para outra área de sua especialidade, a equipe econômica de Lula espera aprovar uma reforma tributária esse ano. Essa reforma deve ter uma primeira etapa focada em simplificar impostos sobre o consumo em um imposto sobre valor adicionado, e uma segunda etapa focada no Imposto de Renda. Como alguém que vem discutindo há anos o uso da tributação como uma forma de combater a desigualdade, qual o conselho do senhor para o Brasil, às vésperas de uma reforma?

Obviamente é importante ter um sistema tributário eficiente e isso exige simplificação. Mas o que é ainda mais ou igualmente importante para o Brasil é reformular o sistema tributário para combater a desigualdade, tornando esse sistema mais progressivo [que arrecada mais de quem tem mais renda e patrimônio].
Eu não posso opinar sobre a política brasileira, mas acredito que aumentar a progressividade do sistema tributário do Brasil deve ser uma prioridade. Diante do elevado nível de desigualdade do país, isso deve estar no topo da agenda. (…).  -  (Aqui).

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O SUCESSO QUE GERA DESGRAÇA

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O que é 'vencer na vida'? Há os que tiveram sucesso 'vencendo' os outros, derrubando concorrentes, impondo-se pela força e pelo dinheiro. E há os que tiveram sucesso ajudando os outros, colaborando, contribuindo para a sociedade. Paulo Freire, Josué de Castro, Celso Furtado e tantos outros. Na corrida pelo sucesso, temos de pensar para onde estamos correndo, e o que realmente vale a pena


Por Ladislau Dowbor

“A maldade dessa gente é uma arte”
(Ataulfo Alves)

Temos o dinheiro, temos a tecnologia, temos estatísticas detalhadas sobre cada drama, em cada canto da terra. Temos até instruções passo a passo nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para 2030. Mesmo assim, apenas olhamos e balançamos a cabeça. Nossos problemas não são econômicos, são uma questão de organização social e política. É uma questão de mudança cultural. Sentimo-nos institucionalmente desamparados. E a ética tem muito a ver com os desafios.

Todos temos direito a um pouco de filosofia, ainda que hoje para tudo se exija diploma. Mas somos filósofos na intimidade. É uma questão de sobrevivência. A partir de certa idade, você não pode deixar de se questionar: qual é o sentido de tudo isso? Para onde estamos todos correndo? Wim Wenders teve esse momento de lucidez: “Humanity is craving for meaning”. Dar sentido à vida.

Venderam-nos a ideia de que precisamos entrar na corrida pelo sucesso. Saia na frente dos outros, esse é o objetivo geral. Mas à frente dos outros para quê? Ao cruzar com um professor esbaforido no corredor da PUC-SP, outro dia, não pude deixar de questioná-lo: para onde estamos correndo? Ele sorriu, e encolheu os ombros: quem sabe? Nós apenas corremos. Corra, cara, corra. Um filme que assisti em 1962, The Loneliness of the Long Distance Runner, está muito presente para mim hoje, passados mais de cinquenta anos. O herói do filme, interpretado por Tom Courtenay, decide que ficar à frente de todos não é o seu negócio.

Bem, se você correr mais rápido, deixará os outros para trás, você está na frente, você é um sucesso. Você terá uma coroa de louros, um mausoléu, ou construirão um enorme obelisco em sua homenagem, na Place de la Concorde ou em qualquer lugar surgirá um enorme monumento, mais alto que os outros. No Rio de Janeiro também temos um obelisco na parte central da cidade. Quem se lembra em honra de quem? O importante é que fique bem visível.

Décadas atrás, com o HIV em todos os lugares, havia uma luta para que fossem autorizadas campanhas publicitárias pelo uso de preservativos, contra todos os protestos chocados dos conservadores de sempre. Carlos Minc, então secretário do Meio Ambiente no Rio, teve uma ótima ideia: pediu para o pessoal de escola de samba costurar uma gigantesca camisinha, e em plena luz do dia, um helicóptero alugado foi baixando a camisinha sobre o obelisco no centro da cidade. Não há mídia que resista à visão da gloriosa ereção recebendo o preservativo, sensibilizando milhões de brasileiros para o não menos gigantesco problema da Aids no Brasil. Ninguém mais achava absurdo discutir Aids e preservativo. Com que rapidez o sentido do sucesso pode mudar: contribuir para uma coisa útil.

Frans de Waal, em seus estudos apurados sobre Our Inner Ape (O primata dentro de nós) comenta uma notícia de jornal norte-americano, sobre uma mulher presa por amamentar um bebê em um supermercado. Como os americanos podem ficar tão chocados ao ver um seio, pergunta de Waal, quando você pode vê-los aos pares em qualquer praia da Europa? Os americanos consideram armas algo natural, mas a visão de um seio assusta, rompe com as normas sociais. É tudo uma questão de normas sociais, muitas vezes ridículas ou divertidas, mas é mais importante nos preocuparmos com direitos humanos.

As normas podem mudar, os humores sociais podem mudar, mesmo que pareçam tão rígidos e até sejam eternos frente ao curto prazo das nossas vidas. A escravidão há pouco mais de um século era considerada algo natural, da mesma forma o colonialismo nos tempos do meu pai e mesmo na minha juventude. O apartheid na África do Sul foi ontem. Na Palestina continua. Conseguimos avançar nesses dramas, mas devemos considerar os novos desafios, que envolvem uma profunda mudança cultural, uma abordagem civilizada e solidária de como nos organizamos como sociedade.

Sabemos tudo sobre as dinâmicas desastrosas que enfrentamos, cabem em um parágrafo. Estamos destruindo a vida neste planeta, embora tenhamos toda a tecnologia necessária para reverter a tendência. Estamos mantendo mais da metade da população mundial na pobreza, em condições humilhantes, embora o que produzimos em todo o mundo seja equivalente a 20 mil reais em bens e serviços por mês por família de quatro pessoas. Bastaria uma moderada redução da desigualdade para assegurar a todos uma vida digna e confortável. Isso vale também para o Brasil, com o equivalente de 11 mil reais. E destruir a Amazônia faz algum sentido?

Os recursos financeiros necessários para consertar tanto o meio ambiente quanto os dramas da desigualdade correm livremente em investimentos especulativos, embora saibamos muito bem o que fazer para torná-los produtivos. No mundo morrem anualmente de fome cerca de 6 milhões de crianças. No Brasil temos 20 milhões de pessoas passando fome, numa país que produz o equivalente a 3,2 quilos de grãos por dia por pessoa. Para os traders que negociam os grãos, é mais rentável o mercado externo. É preciso ser mais claro?

Temos o dinheiro, temos a tecnologia, temos estatísticas detalhadas sobre cada drama, em cada canto da terra. Temos até instruções passo a passo nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU para 2030. Mesmo assim, apenas olhamos e balançamos a cabeça. Nossos problemas não são econômicos, são uma questão de organização social e política. É uma questão de mudança cultural. Sentimo-nos institucionalmente desamparados. E a ética tem muito a ver com os desafios.

Peter Drucker tinha uma compreensão profunda do desafio quando escreveu, que “não haverá negócios saudáveis %u20B%u20Bem uma sociedade doente”. Podemos levar essa compreensão para a nossa vida cotidiana: não haverá vida digna em um planeta doente. Por quanto tempo o homo sapiens que temos dentro de nós seguirá repetindo o “the business of business is business”, idiotice de Milton Friedman que livrava as corporações da responsabilidade social e ambiental. O sucesso de Friedman se deveu essencialmente ao fato de ele trazer lustro acadêmico àquilo que as corporações querem, que é pegar qualquer coisa, a qualquer custo, sem qualquer regulação e isso parecer legítimo. Vemos nos noticiários de TV homens adultos, pulando como primatas, e entoando Greed is Good (ganância é bom), no fechamento do dia em Wall Street. Não, Greed is not Good. Nós temos que construir um novo normal.

Temos nos alimentado, e certamente fomos alimentados, com uma simplificação cultural: é preciso correr e alcançar “o sucesso”. E sucesso é medido na quantidade de dinheiro que você ganha, mas dinheiro é riqueza individual, não é bem comum. Não é melhoria para a comunidade na qual você se insere e com a qual contribui, tampouco para a construção de um planeta saudável. Tenho na minha mesa a edição brasileira da revista Forbes, apresentando os 315 bilionários que temos no país. Os escolhidos para a capa estão sorrindo: é um sucesso para um bilionário estar na capa da Forbes. Antes de pensar em maldade, precisamos dar uma boa chance à ignorância.

Ter sucesso por meio do acúmulo de riqueza tende a significar que foi “uma conquista”. A implicação é que é “merecida”. Em um livro inspirador, Gar Alperovitz e Lew Daly chamaram a moderna acumulação de riqueza de Apropriação Indébita. É o título do livro inclusive, em que eles mostram que todo o progresso que tivemos resultou basicamente do progresso tecnológico, que em si é resultado de construções sociais, da eletricidade à eletrônica ao DNA, à biologia moderna e à internet. Mariana Mazzucato deu mais força ainda a essa compreensão em seu O Estado Empreendedor, mostrando a dimensão social e generalizada dos avanços.

Joseph Stiglitz mostra que atualmente as fortunas são essencialmente construídas a partir de atividades especulativas, juros, dividendos e organização de monopólios, ao invés do lucro resultante da contribuição produtiva para a sociedade. Marjorie Kelly e Ted Howard chamam isso de extractive capitalism, mostrando que a riqueza extraída é muito maior do que a contribuição produtiva, gerando um resultado líquido de extração. Thomas Piketty enterrou o que restou da aparência de legitimidade do capitalismo, em seu estilo, sob montes de páginas, mas também com um raciocínio muito sólido: a contribuição produtiva para a sociedade e o acúmulo de riqueza tornaram-se rodas separadas. E rodas separadas no veículo econômico não funcionam. Não é apenas ilegítimo, simplesmente não está funcionando. O PIB mundial cresce a um ritmo médio de 2% a 2,5% ao ano, mas a especulação financeira rende cerca de 7% a 9% nas últimas décadas. O dinheiro obviamente tem ido para onde paga mais. O Brasil está se desindustrializando.

A chave para as novas tendências reside na compreensão de como vinha funcionando o progresso econômico e social até algumas décadas atrás, e como está sendo transformado. O principal insumo produtivo, ou fator de produção, hoje é o conhecimento e a tecnologia incorporados aos processos produtivos. A agricultura e o controle da terra eram o principal fator de produção séculos atrás, depois com revolução industrial veio a máquina e a propriedade da fábrica. Hoje, com a revolução digital, é o insumo imaterial, o conhecimento, a informação, o dinheiro virtual e as diversas dimensões da tecnologia, que se tornaram o motor propulsor da economia. Isso muda as regras do jogo, abre novas oportunidades: Se uma pessoa tem uma ideia inovadora, essa ideia pode se espalhar pelo mundo sem nenhum custo adicional. O conhecimento é um bem comum. O dinheiro que está nos bancos é de quem?

Se você produz bicicletas, produzir para mais pessoas envolve custos adicionais. A ideia é diferente. Depois de cobrir os custos de gerá-la, é muito mais produtivo para a sociedade deixar a ideia fluir do que multiplicar patentes e gerar escassez artificial. Em tempos de pandemia, milhões morrem enquanto o Big Pharma mantém suas patentes pré-históricas de 20 anos. A inovação deve certamente ser recompensada, mas na devida proporção dos insumos e no respeito ao fato de que o conhecimento livremente acessível tem um enorme efeito multiplicador. Colocar pedágios sobre o acesso às ideias resulta em fortunas para poucos, enquanto a colaboração gera um progresso generalizado de enriquecimento coletivo. Tim Berners-Lee não patenteou a World-Wide-Web, ele não fez fortuna individualmente, com seu www. Permitiu que bilhões aumentassem sua produtividade pelo mundo afora. Precisamos de inteligência social e ambiental, não apenas da capacidade de superar os outros. Sucesso pela contribuição, mais do que do que truculência e esperteza.

Podemos ver isso de outra maneira. Temos grande número de pesquisas e estudos sobre a felicidade humana. Você pode pensar que ter dinheiro é uma boa medida: não é. Ou melhor, se você é muito pobre, ter algumas centenas de reais a mais acrescenta muito ao seu sentimento de felicidade. Mas depois que você atinge um limite relativamente modesto, da ordem de menos de 100 mil reais por ano, acumular dinheiro continua enquanto ilusão, mas o sentimento de felicidade estagna. Passam a ter mais importância o enriquecimento social e cultural, as relações familiares, é uma variedade de objetivos que tendem a predominar. Um milhão a mais nas mãos de um milionário, isso pode levantar seu obelisco, e vai batalhar por sempre mais, mas não o deixará mais feliz. Os poucos recursos suplementares colocados na base da pirâmide geram não apenas muito mais felicidade, eles reduzem drasticamente o sofrimento. Os mesmos recursos que já temos, mas melhor distribuídos, aumentariam radicalmente a sua produtividade social. Tornar um planeta menos desigual não é apenas uma questão de justiça, é também uma questão de inteligência social e econômica.

Então, do que se trata? Fazer alguns obeliscos a mais e mais altos ou gerar sustentabilidade e bem-estar geral? Lutar contra rivais, derrotar concorrentes, poderia eventualmente fazer algum sentido quando você competia para produzir mais e melhores bens e serviços para a sociedade, mas na era da revolução digital, quando a colaboração é muito mais produtiva do que a competição, o que resta é a obsessão pelo sucesso individual, mostrar mais dinheiro, se mandar para o espaço. “S’envoyer en l’air”, como os franceses chamariam, com um objetivo mais sábio e melhores resultados. Cada um de nós contribuiu com a viagem do Bezos, ao realizarmos compras com a Amazon.

A lição básica é simples: seja qual for o seu sucesso individual, se não for acompanhado do sucesso ou do bem-estar da sociedade como um todo, bem como da restauração do planeta, você é apenas um oportunista. Possivelmente bem-sucedido, mas ainda oportunista. O importante não é correr mais rápido, mas entender para onde estamos indo. Não apenas sendo inteligente em termos dos meios que você usa, mas inteligente em termos de resultado sistêmico.

Sucesso individual não faz sentido se prejudica o bem-estar social.

Quanto ao obelisco, eu teria algumas ideias.-  (Fonte: Boletim Carta Maior - Aqui).

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A ECONOMIA E A PANDEMIA SEGUNDO STIGLITZ

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''Será muito difícil recuperar uma economia global se houver muitos países no mundo com grandes dívidas''
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Brasil: Dívida Pública ameaçando chegar a 100% do PIB, capacidade de geração de receitas comprometida pela escassez de investimentos - e o governo mirando a CPMF e a venda de estatais na bacia das almas... 


Do Página 12 (Argentina)

O economista estadunidense Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2001, afirmou que no mundo “não haverá recuperação econômica até sairmos da pandemia”. A declaração foi dada durante sua participação no encerramento da 10ª edição do Festival Puerto de Ideias, neste domingo (8/11). Além disso, opinou que “a segunda onda de covid-19 será pior do que a primeira, tanto no aspecto da saúde quanto da economia”, e que, portanto, a recuperação econômica será mais difícil.

“É preciso gastar o que for preciso (…) a ênfase deve ser reconstruir para que seja melhor, como diz (Joe) Biden”, comentou Stiglitz, referindo-se à promessa do presidente eleito dos Estados Unidos, representante do Partido Democrata, durante o discurso que deu neste sábado (7/11), na  comemoração da sua vitória eleitoral. Do Página 12 (Argentina).

O economista, que preside o think tank Initiative for Policy Dialogue, da Universidade de Columbia, também analisou o impacto que a administração do atual presidente Donald Trump teve tanto local quanto internacionalmente. “Trump ampliou as diferenças cortando impostos, o que aumentou o déficit de bilhões de dólares, mas ele foi muito esperto em esconder isso”, disse.

“Um dólar, um voto. Estamos em uma situação em que uma minoria administra políticos e não reconhece maiorias. O resultado disso é uma distorção da democracia”, disse Stiglitz, que presidiu o Conselho de Consultores Econômicos durante a presidência do democrata Bill Clinton (1993-2001).

O Prêmio Nobel de Economia participou do encerramento do evento, em discurso no qual expressou sua preocupação com o impacto da pandemia nas economias emergentes.

“Os países em desenvolvimento só podem alocar uma pequena parte de seu PIB para fazer frente aos efeitos da pandemia e, obviamente, eles são mais afetados”, explicou Stiglitz, alertando que “já existem alguns países à beira de crise, como Argentina, Equador e Líbano. "

Segundo o Prêmio Nobel, que também foi chefe do Banco Mundial e líder da Comissão de Peritos em Reformas do Sistema Monetário e Financeiro Internacional da ONU (Organização das Nações Unidas), os países que melhor controlaram a pandemia são aqueles que, agora, começam a recuperar suas economias.

“Será muito difícil recuperar uma economia global se houver muitos países no mundo com grande dívida”, afirmou. Para o economista, os organismos financeiros multilaterais deveriam reestruturar a dívida de curto prazo dos países em desenvolvimento em empréstimos de longo prazo, medida a qual algumas potências, como os Estados Unidos e a Índia, se opuseram até agora.

Em seu livro mais recente, “Progressive Capitalism. The Answer to the Era of Unrest”, Stiglitz afirma que o capitalismo deve evoluir para se salvar, e responder a novos desafios sociais: aquecimento global, inteligência artificial, mudanças demográficas e enfraquecimento das instituições que sustentam as democracias liberais.  -  (Fonte: Carta Maior - Aqui).

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

AMÉRICA LATINA, REGIÃO MAIS DESIGUAL DO PLANETA

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"A América Latina foi apontada como a região do mundo com a maior desigualdade de renda no relatório de desenvolvimento humano de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado em dezembro.
Os 10% mais ricos da América Latina concentram uma parcela maior da renda do que qualquer outra região (37%), afirmou o relatório. E vice-versa: os 40% mais pobres recebem a menor fatia (13%)."
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Em tal contexto, o Brasil...
      São Paulo: Paraisópolis x Morumbi: estatísticas bem diferentes 

Por que a América Latina é a 'região mais desigual do planeta' 

Por Geraldo Lissard (Da BBC Mundo em Nova York)

A América Latina é tão desigual que uma mulher em um bairro pobre de Santiago, capital do Chile, nasce com uma expectativa de vida 18 anos menor que outra de uma área rica da mesma cidade, segundo um estudo.
Em São Paulo, essa lógica também ocorre. Quem mora em Paraisópolis, uma das maiores favelas da cidade, vive em média 10 anos menos do que os moradores do Morumbi, bairro rico ao lado da comunidade, de acordo com o Mapa da Desigualdade, da ONG Rede Nossa São Paulo, que compila dados públicos.
A grande disparidade latino-americana também envolve a cor da pele ou a etnia: em comparação com os brancos, os negros e indígenas têm mais possibilidades de ser pobres e menos de concluírem a escola ou conseguirem um emprego formal.
A América Latina foi apontada como a região do mundo com a maior desigualdade de renda no relatório de desenvolvimento humano de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado em dezembro.
Os 10% mais ricos da América Latina concentram uma parcela maior da renda do que qualquer outra região (37%), afirmou o relatório. E vice-versa: os 40% mais pobres recebem a menor fatia (13%).
Muitos têm apontado essa desigualdade como uma das explicações para a onda de protestos que varreu recentemente alguns países da América Latina, como Chile, Peru e Bolívia.
Apesar dos avanços econômicos e sociais nos primeiros anos deste século, a América Latina ainda é “a região mais desigual do planeta”, alertou a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em várias ocasiões.
A questão, então, é por que esse cenário ainda continua.
A resposta, segundo historiadores, economistas e sociólogos, começa alguns séculos atrás.
“Pode-se dizer que o passado colonial criou as condições para a desigualdade”, diz à Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.
Uma história antiga
Segundo Stiglitz, a exploração dos colonizadores semeou a desigualdade na América Latina, bem como a distribuição desigual de terras nas economias agrárias contribuiu para “a criação de algumas famílias muito ricas e muitas famílias muito pobres”.
Em vários países da América Latina, assim como nos Estados Unidos, um grande elemento racial desempenhou um papel em pelo menos uma dimensão da desigualdade”, diz o ex-economista-chefe do Banco Mundial e atual professor da Universidade de Columbia, em Nova York.
E isso parece longe de ser apenas uma questão do passado.
Na América Latina, a incidência de pobreza é ainda maior nas áreas rurais, e entre indígenas e negros, afirmou a Cepal em relatório de 2019 sobre o cenário social da região.
De acordo com o documento, embora tenha havido uma leve redução recente, a taxa de pobreza dos indígenas em 2018 foi de 49%, o dobro do registrado para a população não indígena nem negra. E a taxa de extrema pobreza alcançou o triplo (18%).
No México, os indígenas representam aproximadamente 15% da população, e quase três quartos deles vivem na pobreza. Um estudo da organização Oxfam indicou, em agosto, que 43% dos indivíduos que falam um idioma nativo não concluíram o ensino fundamental, e apenas 10% têm trabalho formal ou é empregador.

Círculo vicioso

Existem outros fatores por trás do abismo social na América Latina, que carrega a reputação de região "mais desigual" desde os anos 1980.
Hoje, a região também é uma das mais urbanizadas do mundo. As rápidas migrações da população rural para as cidades, porém, ocorreram no último meio século de maneira desordenada.
Em muitas áreas de expansão das cidades, o Estado não foi eficiente em promover serviços públicos como educação ou saúde.
Um estudo publicado pela revista The Lancet em dezembro descobriu grandes diferenças na expectativa de vida nas cidades da América Latina. E essas lacunas dependem, por exemplo, do bairro onde as pessoas moram: se ele for mais pobre, a tendência é de que seus moradores vivam menos do que os habitantes de regiões mais ricas.
Em Santiago, as mulheres mais pobres vivem quase 20 anos a menos que as mais ricas. Na Cidade do México, os homens de bairros mais pobres morrem 11 anos antes que os mais ricos.
Stiglitz, que escreveu vários livros sobre desigualdade, observa "um círculo vicioso" na região.
"Um alto nível de desigualdade econômica cria sistemas políticos que ajudam a perpetuar essa economia", explica. "Então esses sistemas não investem muito em educação, por exemplo."
Ele também afirma que economias baseadas em recursos naturais, como as da América Latina, tendem a ser caracterizadas pela desigualdade. "A riqueza do continente vem da renda associada aos recursos naturais", explica. "E, na sociedade, há uma briga por quem recebe a renda."
No entanto, outros países ricos em recursos naturais, como a Noruega ou a Austrália, escapam dos grandes problemas da desigualdade latino-americana.
A chave nesses casos, dizem os especialistas, é ter instituições que permitam um gerenciamento mais eficiente das receitas para impulsionar o desenvolvimento. E isso também é escasso na América Latina.

Fim da festa

As evidências mostram que as classes médias latino-americanas pagam mais impostos do que recebem em serviços sociais como educação ou saúde. Em resposta, elas recorrem a provedores privados, o que tende a aumentar a desigualdade, segundo o relatório do PNUD sobre desenvolvimento humano.
"Uma resposta natural seria recolher mais recursos dos mais ricos. Mas esses grupos, embora sejam minoritários, costumam ser um obstáculo à expansão dos serviços universais, usando seu poder econômico e político por meio de mecanismos estruturais e instrumentais", diz o documento.
As políticas tributárias são uma fonte fundamental desses problemas.
Comparados a outros países em desenvolvimento, os sistemas tributários latino-americanos tendem a ter uma parcela maior de impostos indiretos (sobre consumo), que favorecem menos a igualdade do que os impostos diretos (sobre renda ou propriedade).
Assim, impostos e transferências diretas reduzem muito mais o coeficiente de desigualdade nas economias avançadas do que nas economias emergentes e em desenvolvimento, "incluindo países da América Latina com algumas das maiores desigualdades de renda do mundo", alertou no mesmo relatório David Coady, do departamento de assuntos tributários do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Apesar de tudo isso, cerca de 100 milhões de latino-americanos saíram da pobreza entre as décadas de 1990 e 2000, com base em programas sociais e políticas salariais em meio ao boom das commodities.
A desigualdade estrutural nesse período, no entanto, variou muito pouco.
E a disparidade de renda em países como Brasil, México, Colômbia ou Chile ofuscou os recentes avanços no índice de desenvolvimento humano da ONU, que inclui variáveis ​​como expectativa de vida ou qualidade da educação. No ano passado, a Venezuela, Nicarágua e Argentina tiveram recuos, mergulhando os países ainda mais em suas crises políticas e sociais.
Além disso, após o boom econômico, a taxa de pobreza na América Latina aumentou de 28%, em 2014, para 31% no ano passado, segundo dados da Cepal. Do total de pobres que a região "ganhou" nos últimos cinco anos, 26 milhões sofrem com a pobreza extrema, sendo o Brasil a principal fonte desse retrocesso.
Em meio a esse panorama, a inquietação social foi expressa recentemente através de votos contra os governo atuais em todo o subcontinente e, principalmente, com fortes protestos de rua em países como Chile, Colômbia ou Equador.
"Há um protesto generalizado contra aqueles que estão governando", diz Nora Lustig, profesdora de economia na Universidade de Tulane (EUA) e diretora do Instituto do Compromisso com a Igualdade. "Combina-se o fim da festa para todos com uma situação em que a distribuição de renda começa a piorar novamente."  -  (Aqui).

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

VEM AÍ A REELEIÇÃO DE TRUMP

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“'Mesmo que a grande República sobrevivesse ao julgamento amplamente ilesa (o que é otimista), a reeleição desse homem – um demagogo, nacionalista, mentiroso incontinente e admirador de tiranos– teria importância mundial', pontua o articulista, explicando que os déspotas veem Trump como um espírito irmão".

(Trump, por Manny
Francisco - Filipinas)

O perigo de uma reeleição de Trump 

Do Jornal GGN 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conseguiu se livrar do impeachment com o esperado partidarismo dos republicanos no Senado, que acabaram abandonando o papel posto a eles pela Constituição norte-americana.
Agora, eles remeteram a decisão aos eleitores na disputa em novembro – e Trump tem ao seu lado apoiadores apaixonados, um partido unido, o colégio eleitoral e uma economia considerada saudável, o que torna sua reeleição provável.
Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, Martin Wolf, comentarista-chefe de economia do jornal Financial Times, diz que a economia poderá ser o motivo mais claro para Trump vencer a eleição. “Como salientou Joseph Stiglitz, o economista prêmio Nobel, o desempenho dos EUA continua fraco pelos padrões de seus pares em aspectos importantes, notadamente a expectativa de vida, índices de emprego e desigualdade. Além disso, a produção, o emprego, o desemprego e os salários reais são tendências pós-crise que continuam de modo geral”.
Contudo, a implicação mais evidente de uma vitória de Trump seria seu impacto sobre a economia liberal norte-americana. Segundo Wolf, o presidente norte-americano “acredita que está acima da prestação de contas à lei ou ao Congresso pelo que ele faz no cargo”. Para Trump, ele só precisa prestar contas ao seu eleitorado – e aqueles nomeados em seu governo devem lealdade a ele e não a uma causa maior.
“Mesmo que a grande República sobrevivesse ao julgamento amplamente ilesa (o que é otimista), a reeleição desse homem – um demagogo, nacionalista, mentiroso incontinente e admirador de tiranos– teria importância mundial”, pontua o articulista, explicando que os déspotas veem Trump como um espírito irmão.
Uma nova vitória de Trump significaria o abandono dos liberal-democratas, e a ideia do Ocidente como uma aliança com alguma base moral evaporaria. “De modo mais amplo, seu transacionalismo em curto prazo e a disposição a usar todos os instrumentos disponíveis do poderio americano criam um mundo instável e imprevisível não apenas para os governos, mas também para as empresas. Essa incerteza também pode piorar em um segundo mandato. É uma pergunta em aberto se algum tipo de Estado de direito internacional sobreviveria”.  -  (Aqui).

sábado, 2 de novembro de 2019

DOWBOR DISSECA O DESASTRE LATINO-AMERICANO


O desastre latino-americano 

Por Nicolau Dowbor 

É tempo de pararmos de apenas comentar os irresponsáveis no poder, nos países latino-americanos, e pensar de maneira mais ampla sobre o que está acontecendo. A Venezuela é um ótimo exemplo: país grande e com imensas reservas de petróleo, criou uma elite que entregava o óleo para os grupos americanos, em troca de gordas royalties que serviam para o consumo de luxo de uma minoria dirigente, complementado com férias em Miami. Esta elite, amplamente satisfeita com a sua prosperidade, nunca concebeu o petróleo venezuelano como um recurso natural do país, destinado ao usufruto de todos; e nunca investiu esses recursos no desenvolvimento nacional. O resultado disso, foi um vazio econômico que não abriu espaço para a crescente população, nem em termos de infraestruturas, nem de produção agrícola e industrial, e muito menos em termos de políticas sociais decentes. Para a população venezuelana, evidentemente, isto não funcionou.
Essas elites parasitárias foram atacadas com movimentos fortes ainda antes de Hugo Chávez, mas foi com ele e por meio da única estrutura organizada de contrapoder no país, as Forças Armadas, que foi possível inverter a equação: o petróleo foi reapropriado e seus recursos direcionados aos interesses populares e investimentos produtivos. Tampouco funcionou, não pelo lado econômico desta vez, mas sim pelo lado político. As elites não iriam se conformar com a perda dos gigantescos privilégios improdutivos, e nem os americanos com a perda do controle do petróleo venezuelano, tão próximo e tão estratégico. Reforçou-se a aliança das elites com os Estados Unidos, e gerou-se um clima permanente de boicote e desorganização política e econômica na Venezuela, inclusive com a tentativa de golpe contra Chávez, e o atual bloqueio que apenas agrava a situação da população.
Temos aqui uma peça importante para a compreensão dos nossos dilemas: a Venezuela não poderia continuar a funcionar com elites parasitárias, quando o povo hoje conhece os potenciais do país, e se recusa a aceitar a volta ao passado; mas o país também não consegue funcionar com as elites fora do poder, pois a capacidade dessas elites de desarticularem as políticas públicas e de paralisarem a economia é muito grande, em particular, porque contam com o apoio americano. O impasse tem uma raiz, denominador comum das nossas crises: nesse infeliz subcontinente da desigualdade, as elites não aceitam reduzir seus privilégios, e as populações não aceitam mais a miséria e humilhação a que são submetidas. Vivemos um trágico impasse, e é tempo de novos caminhos.
Não é muito misterioso fazer o elo entre a implosão política e econômica da América Latina, e a principal deformação estrutural que é a desigualdade. O que as nossas elites não estão conseguindo entender, em parte por ignorância e em parte por ganância, é que o chamado “povo”, o pacato, submisso e humilde povo, está com o “saco na lua” de não poder ter uma clínica decente onde a mulher possa parir, uma escola decente para os filhos, um emprego produtivo neste continente onde há tantas coisas a fazer. Não estamos mais no país nem no subcontinente do “sim-sinhô”, ou de indígenas vistos como folclore, ou de mulheres submissas, ou de negros que concordam.
As alternativas são claras: ou nos democratizamos e organizamos um pacto nacional pela redução das desigualdades e pela inclusão produtiva da massa da população, ou vamos afundar cada vez mais na violência e no desastre político, econômico e social. E cabe às elites, que controlam as principais rédeas do poder, responsabilizarem-se pelos dramas que vivemos. A massa de pobres e remediados, que constitui a ampla maioria, não é responsável pela deformação das regras do jogo e pela escandalosa dilapidação dos nossos recursos. Quem é responsável pelo caos criado, país por país, são suas elites: as grandes fortunas, com seus políticos, juízes e jornalistas, bem como a tropa de choque de advogados, informáticos e managers, que vivem de bons salários e constituem a classe média tecnocrática. A crise é sistêmica, e os responsáveis são aqueles que a criaram e a agravam, dia após dia.
A desigualdade não consiste apenas na pobreza, mas na perda de governabilidade das nossas nações. Ou seja, a desigualdade, este câncer do passado herdado do presente desarticulado, tem de ser vista em sua dimensão estruturante, ou desestruturante, da sociedade. Não haverá soluções sem enfrentá-la.
Justiça é fundamental. Uma sociedade, para funcionar, tem de assegurar um mínimo de equilíbrio nas oportunidades e no destino dos diversos atores que a compõem. No centro dos dilemas não estão os desequilíbrios orçamentários, com os quais se encobrem os problemas reais, mas sim o resgate da ética, elemento fundamental para qualquer sociedade que funcione. No Brasil, nós já produzimos o suficiente para assegurar uma vida digna e confortável a todos, sem precisar para isso de medidas draconianas: basta um pouco de redução da desigualdade. Os bens e serviços atualmente produzidos representam 15 mil reais por mês por família de quatro pessoas. Não somos um país pobre, somos um país rico, mas com poucos ricos e muitos pobres. Isso não funciona. Do lado da massa da população, e não apenas para os eternos “pobres”, o fato ético básico é que eles não são responsáveis pela deformação das regras do jogo, que tanto os prejudicam. Não são eles que fazem as leis, nem são eles que as aplicam ou distorcem. Que culpa têm as crianças que nascem na miséria? Ou os jovens que se debatem num beco sem oportunidades?
Do lado dos ricos, o dilema ético é igualmente claro: eles estão se empanturrando ao mesmo tempo em que paralisam o desenvolvimento do país. Falar em merecimento, o manto com o qual se cobrem, só pode ser má-fé ou ignorância. A Forbes nos traz o detalhe das fortunas dos 206 bilionários que controlam o Brasil: contam-se nos dedos os que produzem algo. São essencialmente donos de bancos, de holdings, de participações acionárias, de fundos de investimento, de cotas e semelhantes. Estão longe os capitalistas que investiam e produziam, trata-se de gente que “vive de rendas”.
Para dar um exemplo, Joseph Safra tem uma fortuna de R$ 95 bilhões, que aumentou em 19 bilhões, nos últimos 12 meses, entre 2018 e 2019. Em 2012, tínhamos 74 bilionários com patrimônio declarado de 346 bilhões de reais; em 2019, temos 206 bilionários que detêm mais de 1.200 bilhões. Literalmente, esses bilionários que representam o “poder profundo” estão lavando a burra, ou seja, estão drenando a economia, com pouquíssimos investimentos efetivamente produtivos. Caso alguém não tenha notado, é o sexto ano que estão “consertando o país”. Lembrando que, desde 1995, as elites brasileiras não pagam impostos sobre os valores obtidos com a especulação financeira, pela isenção dos “lucros e dividendos distribuídos”. Eu, professor, pago 27,5% de imposto sobre o meu salário. A deformação é sistêmica. Criou-se uma classe de parasitas que não investem nem pagam impostos.[1] Mas fazem política o tempo todo. (Nota deste Blog: O professor inseriu, no rodapé de seu original, a seguinte nota, que trazemos para cá: "Fazem aplicações financeiras, o que lhes rende lucros e dividendos, mas uma aplicação financeira não gera nenhum produto, contrariamente ao investimento produtivo. Naturalmente, preferem chamar tudo de “investimento”. O Economist distingue productive investments e speculative investments para deixar mais claro. Em francês a diferença entre investissements e placements financiers fica evidente").
Quando não há um mínimo de ética nas regras de jogo e nos comportamentos econômicos, aumenta a desigualdade, pois os mais ricos transformam o poder econômico em poder político, no sentido amplo, ou seja, não só nos processos eleitorais, mas também nas leis que nos regem, no judiciário que controla a sua aplicação, na mídia, nos poderes locais. Em termos éticos, é evidente que os ricos não merecem a fortuna que têm, nem os pobres ou remediados as dificuldades e frequentes dramas que enfrentam. Há uma imensa injustiça que assola os nossos países.
Injusta, esta sociedade tornou-se igualmente politicamente disfuncional. Em termos de procedimentos democráticos, a partir de um certo grau de desigualdade, a sociedade apenas multiplica conflitos, tensões e ódios. Já temos quase um milhão de pessoas nas prisões, 40% delas sem processo; e matamos anualmente 60 mil pessoas, majoritariamente jovens homens e negros. Em 2018, a polícia matou uma média de 14 pessoas por dia. E temos palhaços explicando que não matamos o suficiente. O clima generalizado de insegurança criado no país gera precisamente comportamentos sociais patológicos, busca desesperada de bodes expiatórios, de “culpados” sobre os quais possam ser descarregados os medos e os ódios. Campo fértil para oportunistas.
Os processos sociais colaborativos, únicos portadores efetivos de progresso, são substituídos por divisões que nos polarizam. Isso se dá com Macri, com Piñera, com Bolsonaro, com Trump, com Erdogan, com Duterte, com Boris Johnson, com Orbán e tantos outros. O problema não está na boçalidade desses líderes, sempre haverá boçais ambiciosos, mas sim no fato das massas desesperadas votarem em qualquer candidato que se apresente “contra tudo isso aí”; e, em particular, na disposição das elites em entregar o país a esses boçais, conquanto possam manter ou ampliar seus privilégios. Na raiz do problema está a desigualdade, a acumulação de privilégios absurdos frente a uma população cada vez mais indignada. Os mais ricos, para assegurarem o futuro das suas famílias – justificativa tão frequente para as fortunas que acumulam – fariam melhor em contribuir com a construção de uma sociedade equilibrada, que funcione para todos.
Politicamente, no sentido de fazer a sociedade no seu conjunto funcionar, o sistema está falido. Em termos econômicos, o sistema é literalmente burro. O que é particularmente chocante, e vem sendo objeto dos meus trabalhos, como o livro A Era do Capital Improdutivo, mas também de inúmeros pesquisadores de primeira linha como Joseph Stiglitz, Thomas Piketty, Paul Krugman, Amartya Sen, Michael Hudson, além de um conjunto de núcleos de pesquisa econômica e social na Unicamp, na PUC-SP, na UFRJ e em outros centros, é que manter a renda e a riqueza concentradas em poucas mãos paralisa as nossas economias. Lembremos que o problema é mundial. Atualmente 26 pessoas no mundo acumularam mais riqueza do que possuem 3,9 bilhões de pessoas, metade mais pobre do planeta. A América Latina apenas apresenta uma deformação mais grotesca do processo global de financeirização.
Particularmente importante é entender o mecanismo. Stiglitz mostra que acumular riqueza aumentando a produção é diferente de enriquecer se apropriando da riqueza dos outros. O imenso sucesso de O Capital no Século XXI de Piketty se deve, essencialmente, do fato dele conseguir demonstrar que o PIB mundial vem crescendo numa faixa de 2,5% com a produção concreta de bens e serviços, enquanto as aplicações financeiras, constituídas essencialmente por especulação improdutiva, rendem entre 7% e 9%. Ou seja: o capitalismo que investia e produzia foi substituído por um capitalismo que literalmente vive de especulação, o “capitalismo extrativo” nas palavras de Marjorie Kelly e Ted Howard. A financeirização generalizada criou um capitalismo que funciona para o 1%, mas não para o resto do mundo. Os autores mencionados trazem todas as demonstrações científicas necessárias.
Mas particularmente útil, além dos cientistas, é olhar o que funciona na China, no Canadá, na Coreia do Sul, nos países nórdicos. O sistema que funciona foi igualmente aplicado no New Deal dos Estados Unidos nos anos 1930; na Europa do pós-guerra no chamado Welfare State; no Brasil, na década de 2003 a 2013, chamada pelo Banco Mundial de “a década dourada da economia brasileira”. Todas essas experiências consistiram na utilização do Estado para melhorar a situação das famílias, assegurando o bem comum. A fórmula é simples: com mais recursos para gastar, as famílias passam a consumir mais estimulando as empresas, que expandem empregos e investimentos produtivos. Tanto a demanda das famílias gera impostos sobre o consumo, receita para o Estado, como a atividade ampliada das empresas gera impostos sobre a produção, mais receitas para o Estado. E a conta fecha.
O Estado dispondo de mais recursos pode, por um lado, ampliar o bem-estar das famílias (que não se resolve apenas com gastos individuais), assegurando o acesso aos serviços de saúde, educação, segurança, rios limpos e semelhantes. Essa é a dimensão pública do bem-estar, com acesso gratuito e universal por parte da população. Por outro lado, o Estado passa a ter recursos para investir em infraestruturas, como transporte, energia, telecomunicações e sistemas de água e saneamento, investimentos que melhoram a produtividade de todos, e em particular das empresas. Este duplo circuito, em que o ponto de partida, o “motor de arranque” por assim dizer, é orientar os recursos para o bem-estar das famílias, constitui o denominador comum das economias que funcionam, tanto no Canadá quanto na China, ainda que sejam países politicamente tão diferentes. É o chamado círculo virtuoso da economia.
O resto é narrativa. Dizer que temos de dar mais dinheiro aos ricos, para que eles tenham “confiança” e invistam, é uma tremenda enganação. Um empresário no Brasil, depois de seis anos de redução de direitos sociais e trabalhistas, constata desolado: realmente, está mais barato eu contratar mão de obra, mas para que vou contratar se não tenho para quem vender? As empresas efetivamente produtivas não precisam de discursos ideológicos nem de narrativas, precisam da população com dinheiro para que tenham para quem vender; e precisam de crédito barato para poder investir. No Brasil, com os retrocessos gerados a partir de 2014, as empresas não têm nem um, nem outro.
Com diversos formatos e variações locais, este sistema mantém a América Latina travada nos planos ético, político e econômico. É o tecido social no seu conjunto que se desarticula. Mas os bilionários que pouco produzem, e drenam a economia por meio de sistemas de intermediação financeira e de acordos escandalosos com grupos internacionais, esses sim estão otimistas, compram mais papéis financeiros, acumulam mais dinheiro em paraísos fiscais, e se congratulam quando a bolsa ganha alguns pontos, como se se tratasse da economia real. Esta farsa está quebrando grande parte do planeta, mas em particular a América Latina. É hora de inverter os rumos.
Hoje olhamos com desolação a repressão e as mortes que se multiplicam. Acusados de serem desordeiros, o que os manifestantes querem é justamente a ordem, uma ordem que funcione. Hoje está cada vez mais evidente: a massa de jovens herdará um sistema que lhes tolhe o futuro e liquida suas oportunidades, e que vai acabar não funcionando para ninguém. O que está nos afundando não é a pobreza, e sim a irresponsabilidade e ganância dos ricos.
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(Ladislau Dowbor é professor de economia da PUC-SP, e consultor de várias agências internacionais. Os seus estudos estão disponíveis na íntegra online em http://dowbor.org O seu último livro, A Era do Capital Improdutivo, está disponível online em forma de texto e vídeos, http://dowbor.org/2018/08/curso-pedagogia-da-economia-com-ladislau-dowbor-instituto-paulo-freire-2018-15-aulas.html/).
(Fonte: Jornal GGN - Aqui).