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segunda-feira, 13 de maio de 2019

OS TRÁGICOS REFLEXOS DO TETO DE GASTOS

(Arq.)
Um país dominado pela burrice institucional 
Por Luis Nassif (No GGN) 
A insistência de Paulo Guedes com a Lei “Mansueto”do Teto lembra, em muito, o Plano Cavallo e a maneira como a política econômica se subordinou à cegueira generalizada das agências de ratting. (Nota deste Blog: sobre a Lei do Teto de Gastos, clique aqui).
Na época, a Argentina esvaindo-se em sangue, a miséria avançando de forma galopante, o PIB despencando, e as agências de risco recomendando mais cortes fiscais. A cada nova recomendação aceita, o mercado festejava, os papéis da Argentina tinham uma pequena melhora, para despencar alguns dias depois, por absoluta impossibilidade de sustentar os cortes. 
Até que surgiu a ideia do currency board, a dolarização completa da economia argentina. A lógica era monovôltica. Com a economia dolarizada, o Banco Central não poderia emitir mais moeda. Não emitindo, não haveria mais tergiversação: haveria corte na veia, custasse o que custasse. (Nota deste Blog: currency board = 'congelamento', paridade fixa em relação a uma moeda estrangeira, no caso o dólar; âncora cambial)
E, com o louco preso na camisa de força, voltaria a fé nos mercados.
Logo após o anúncio do currency board, a Standard & Poors brasileira armou um almoço do principal responsável pela área da América Latina na matriz com jornalistas econômicos.
Durante o almoço, sutilmente fiz ver ao nobre analista que ele tinha pirado na maionese.
Terminado o almoço, Regina, a simpática diretora da S&P no Brasil, me telefonou perguntando se poderia levar o gringo no meu escritório para explicar melhor a lógica. Aceitei, é claro.
No dia seguinte, estavam ambos na minha sala, repetindo a explicação acima. Era a visão de contador analisando um balanço, sem a menor ideia sobre os mecanismos que movem a economia, sobre os efeitos dos cortes nas demandas, sobre as implicações sociais e políticas. Era nítido que o currency board argentino não duraria uma semana – aliás, explodiu antes de uma semana. No entanto, ficou o mercado inteiro balançando durante meses ao som da bandinha de três agências de risco.
Teoria conspiratória? Não: burrice! Incapacidade de pensar para além das planilhas!
A Lei do Teto é loucura igual, uma maneira de substituir o currency board sem a necessidade de dolarização da economia. Amarre o orçamento por 20 anos, e com isso não restará ao país alternativa senão obter o equilíbrio fiscal exclusivamente às custas dos cortes orçamentários. Simples assim!
O pai dessa loucura, Mansueto de Almeida, tem cabeça de contador que ignora depreciação e custos de reposição e sequer a lógica de funcionamento da empresa-Brasil, muito menos as consequências sociais, políticas desse torniquete. (Nota deste Blog: Mansueto de Almeida é o atual secretário do Tesouro Nacional).
Fosse um país racional, haveria um Ministro pensando estrategicamente e Mansueto apenas faria as contas solicitadas. Nesse país de burros, Mansueto tem, acima dele, um Ministro perdido e, em seu pescoço, a espada de Dâmocles do impeachment: depois que o Supremo Tribunal Federal aceitou que a pedalada justificava um impeachment, o que significaria a desobediência à Lei do Teto?
Com o perdão da ofensa, nos tornamos um país institucionalmente burro, e por burros não se considere apenas a família Bolsonaro.
Tem o burro solene no STF, o burro histriônico na Casa Civil, a montanha do eco que ecoa todos os zurros, na imprensa, o burro Profeta Louco na Economia. E todos sendo julgados pelas palavras, pelas frases de efeito. Se Guedes dá uma boa resposta na sessão da Câmara, os burros ouvintes se alvoroçam e dizem: agora vai!
Têm-se o caminhão sem freio em direção ao precipício e não há uma voz de racionalidade para apontar o desastre que vem pela frente.
O que irão fazer até o desastre? O corte de gastos afunda a economia que, depois da mais profunda recessão da história, está ameaçada novamente por uma recessão técnica. O que faz Guedes? Planeja mais um corte, um contingenciamento, para adequar o orçamento à nova estimativa do PIB. Haverá mais queda na economia, mais contingenciamento, pouco importando os 13 milhões de desempregados, a queda generalizada da atividade econômica. E tudo isso como pano de fundo para as burrices perigosas do presidente.