O plano de governo de Flávio não tem uma linha sobre reforma da previdência, regra de aposentadoria, BPC ou salário mínimo; o que há é “INSS sem fila” e um “pacote antifraude”. Mas o coordenador da campanha escreveu por ele. À Folha de S.Paulo, em 6 de março de 2026, Rogério Marinho disse: “O modelo está estourando. Só posso dizer que vamos ter de revisitar a Previdência” — e admitiu que isso pode envolver “parâmetros ou até uma mudança de modelo”. Mudança de modelo como a da proposta original de “reforma” previdenciária do governo Bolsonaro. Ela previa autorizar o regime de capitalização — a aposentadoria transformada em poupança individual, sem solidariedade entre gerações —, além de um BPC de R$ 400 aos 60 anos, que só chegaria a um salário mínimo aos 70, e de aposentadoria rural aos 60 anos com 20 anos de contribuição para homens e mulheres. O Congresso retirou tudo isso do texto. Flávio votou a favor da “reforma” nos dois turnos, em 1º e 22 de outubro de 2019.

Depois veio o restante do receituário. Em novembro de 2019, o governo mandou ao Senado o “Plano Mais Brasil”, que a própria equipe econômica batizou de “DDD”: desobrigar, desindexar, desvincular. Guedes justificou com um número: “67% das despesas primárias da União são indexadas”. A PEC Emergencial virou a Emenda 109, com gatilhos que congelam salários e vedam concursos; Flávio votou sim. E o salário mínimo, que é o piso de dois em cada três benefícios do INSS, passou 2020, 2021 e 2022 sem um centavo de ganho real, só a inflação. A política de valorização foi retomada em 2023, pela Lei 14.663.

Em 22 de abril de 2026, a Folha revelou que a equipe econômica de Flávio planejava reajustar aposentadorias e BPC apenas pela inflação — uma “economia” de R$ 1,1 trilhão em dez anos — e eliminar os pisos constitucionais, percentuais mínimos da receita tributária que os governos estão obrigados a destinar de Saúde e Educação. O anúncio, previsto para março, foi abortado para não dar “munição política” ao PT. Em 28 de agosto, na sabatina do Jornal Nacional, Flávio disse que “quem recebe salário mínimo hoje está perdendo o poder de compra devido à gastança do governo”, prometeu “um tesouraço dos gastos e nos cargos comissionados” e não disse qual seria o reajuste do mínimo. Em 9 de setembro, Daniella Marques afirmou aO Estado de S.Paulo que não há “credibilidade de nenhum líder hoje no Brasil para levar uma discussão de qualquer ajuste em programa social ou em salário mínimo, ou em reforma (da Previdência), enquanto você não enfrentar a discussão sobre privilégios”. Perguntada se a mudança na regra do mínimo ficaria para depois, respondeu: “Talvez não seja necessário”. E minimizou o ganho real: “Quando você fala do aumento real do salário mínimo, mesmo na conta da Previdência, você está falando de R$ 40, R$ 80”. Só em 25 de setembro, a nove dias da eleição, Sachsida anunciou nas redes que a campanha preparou medidas para manter a vinculação entre o salário mínimo e os benefícios previdenciários, “para proteger os idosos do país”. Mas fica claro que manter a vinculação não é manter o ganho real. O piso pode continuar igual ao mínimo, e o mínimo parar de subir acima da inflação — exatamente o que aconteceu entre 2020 e 2022.

O que está em jogo é algo profundo sobre o futuro da aposentadoria. Dos benefícios pagos pelo INSS, 23,3 milhões, ou 66,2% do total, valem até um salário mínimo. Cada real de aumento no mínimo custa cerca de R$ 380 milhões por ano à Previdência, e é esse “custo” que o tesouraço mira. São 61,9 milhões de pessoas com rendimento referenciado no mínimo. E a Previdência, sozinha, reduz a pobreza no país de 42,8% para 28,7%. Congelar o ganho real é a forma silenciosa de fazer a reforma perversa e agravar o quadro da crise social brasileira.

O que o Flávio quer é transformar a aposentadoria em renda complementar.

Há ainda a porta dos “antifraudes”. O plano promete “fim das fraudes” e “INSS sem fila”, com uma frase: “Sai a gestão voltada a entidades sindicais, entra a gestão profissional”. O vice de Flávio, Alfredo Gaspar, foi o relator da CPMI do INSS, que terminou sem relatório aprovado: o texto dele, com 216 pedidos de indiciamento, foi rejeitado por 19 votos a 12. A fraude dos descontos associativos é real — R$ 6,3 bilhões cobrados indevidamente entre 2019 e 2024, segundo a PF e a CGU, com os descontos disparando a partir de 2022 —, mas quem viveu o “pente-fino” da MP 871, de 2019, sabe o que “combate a fraudes” pode significar na prática: bônus a servidores para revisar benefícios, cancelamento em massa de auxílios, novas exigências para a aposentadoria rural, uma fila que chegou a 1,85 milhão de pedidos em novembro de 2021 e um veto de 41% do orçamento do INSS para 2022. Em 2019, esse suposto “pente-fino” causou um impacto imenso no indeferimento de mais de 75% dos benefícios requeridos. (...).

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