sábado, 2 de fevereiro de 2013

CALHEIROS E OS NOSTÁLGICOS

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Com que, então, o senador Renan Calheiros foi eleito presidente do Senado da República. Não houve jeito de barrar a raposa (não por falta de empenho de Gurgel e da mídia). Seu oponente, Pedro Taques, foi professoral no udenístico discurso sobre a derrota anunciada, destacando "o silêncio dos covardes", para arrematar dizendo que, eleito, "eu" observaria rigorosamente a Constituição Federal, "eu" adotaria as medidas que se impusessem para o resgate da dignidade do Poder, "eu" etc. Não funcionou, como se viu. Renan, arguto, cuidou até mesmo de enfatizar o "nós, a mesa do Senado": "nós" faremos isso, "nós" deliberaremos sobre tais temas. Um piparote no professor Taques.

A situação, porém, é no mínimo desconfortável. O argumento de que o Senado já havia absolvido Renan não é bastante. Tampouco a 'coincidência' da denúncia de Gurgel. Ou qualquer outro argumento.

O jornalista Paulo Moreira Leite produziu análise contextualizada em que trata do assunto:


Nostalgias interesseiras

Por Paulo Moreira Leite

Estamos assistindo a uma nova sessão de nostalgia em torno da candidatura de Renan Calheiros à presidência do senado.

O negócio é dizer que nossos políticos chegaram ao fim da linha, uma espécie de fim de raça que poderia até justificar... (não vamos falar isso em voz alta porque tem criança acordada, né?).

O costume é sentir saudade. Já vi gente com saudades coletivas, de uma geração inteira. Mas também temos saudades individualizadas.

O nome sempre lembrado é Ulysses Guimarães, o que é um tremendo problema, considerando que o patrono da Constituição cidadã nos deixou em 1992. Sou admirador de Ulysses, mas pergunto: não apareceu nada de bom na política brasileira depois dele, que estaria com 95 anos se não tivesse sido levado por uma tragédia de helicóptero no litoral de São Paulo?

Ulysses era uma raridade raríssima.

Mas o esforço para apresentá-lo como uma espécie de santo do consenso nacional inclui apagar uma campanha sórdida contra sua liderança no Congresso durante a Constituinte.

Depois que Ulysses passou a resistir a entregar o poder aos conservadores, teve início uma campanha despudorada para tentar desmoralizá-lo, que incluiu até médicos dispostos a produzir diagnósticos telepáticos que questionavam sua saúde mental por meio da imprensa –apenas porque ele não queria entregar direitos e obrigações aos senhores de sempre.

As nostalgias coletivas são mais complicadas. Fica feio falar bem de João Goulart e Getúlio, que os salões chiques – alguns com convidados de esquerda – chamam de populistas.

Sobra quem? Eurico Dutra, representante da ala “germânica” do Estado Novo que assumiu a presidência e abandonou o padrinho, como gostariam que Dilma tivesse feito com Lula? Jânio Quadros, o breve?

Também não se pode falar bem de Juscelino para plateias maiores porque logo aparece alguém para dizer que ele ficou rico em Brasília.

Nada se provou contra JK, mas antes mesmo do Inquérito Policial Militar contra Juscelino nós já sabíamos que as provas, contra determinados demônios, não têm importância, vamos combinar.

Fernando Henrique foi um presidente de méritos, mas depois que nem os tucanos quiseram assumir sua defesa na hora certa...

Sobra, a rigor, uma geração de golpistas ligados à UDN. Muitos tinham diploma universitário, alguns haviam até estudado fora.

Eles ajudaram a colocar o PCB na ilegalidade, proibiram os trabalhadores de formar uma central independente e a cada piscar de olhos tentavam revogar a CLT.

Forçaram a crise que levou Getúlio ao suicídio e em seguida tentaram impedir a posse de Juscelino. Articularam o golpe contra Goulart com ajuda inestimável da imprensa, que se encarregou de mobilizar os empresários e a classe média contra um presidente constitucional.

A ideia de que os jornais apenas “apoiaram” o golpe é falsa. Muitos foram além. Estiveram dentro dele, antes e depois da derrubada de Goulart. Debateram listas de cassações.

É dessa turma que temos saudade?

“Canalhas!”, gritou Tancredo Neves para colegas de Congresso que, em 1 de abril de 64, participaram da farsa ao decretar que a presidência da República se encontrava vaga – o que permitia empossar um boneco de ventríloquo do PSD em seu lugar, até que Castello Branco, o preferido do governo americano, fosse escolhido para o posto. Nem o chefe do golpe aquela turma da saudade escolheu.

Qualquer manual de sociologia ensina que se costuma embelezar o passado como uma forma de cobrir o presente de feiura. Mas é difícil. O desemprego é o mais baixo da história. A renda continua sendo distribuída, apesar do crescimento baixo.

A turma da direita que usava argumento de esquerda – como o juro nas alturas – para bater no Planalto agora tem de ficar quieta ou procurar outro argumento.

As histórias que rondam Renan merecem uma explicação que ele não ofereceu. Concordo.

Mas ninguém se preocupava com dramas semelhantes quando ele era ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso. Isso aí. Ministro da Justiça. Tinha a Polícia Federal na mão.

Ou, mais atrás, quando Fernando Collor era o queridinho da turma da saudade, feliz porque conseguira emplacar o candidato conservador na primeira eleição direta depois da ditadura. Renan estava ali, no jantar de Pequim onde aquela aventura começou.

É quando se torna aliado de Lula e Dilma que Renan se torna inaceitável. Leva nossos observadores a sentir saudade.

Deve ser pura coincidência, vamos combinar. (Fonte: aqui).

5 comentários:

Anônimo disse...

Paulo
Belo artigo, será que Paulo perdeu seu emprego na midia? Acho que sim, há tempos que não o vejo na Época.
Um sujeito independente como ele não conseguirá mais emprego nesta midia suja.
ab
joão antonio

Anônimo disse...

Dodó
O Paulo era jornalista da Épca, mas agora não sei onde ele está. Originalmente onde este texto foi publicado, você sabe? Acho estranho o Paulinho falar com tanta liberdade numa imprensa que não dá espaço para esta palavra. Jornalista desta imprensa só fala o que eles querem.

ab
joão

Dodó Macedo disse...

Caro João,

O Paulo Moreira foi contratado pela IstoÉ. Lotado em Brasília, é editor, cuidando inclusve do blog (ou site, sempre misturo)lançado recentemente pelo grupo. Ele e o Janio de Freitas (este da Folha de São Paulo) estão seguindo contra a corrente, fazendo um jornalismo crítico e incisivo, o que é louvável.

Grande abraço.

Anônimo disse...

Dodó
Há uma luz no fim do túnel afinal...
ab
joão

Dodó Macedo disse...

É isso, amigo, entendo que o leitor deve estar ligado em tudo. Senso crítico se apura com informação. Concordo com você: há luz no fim do túnel.

Abração.