sábado, 25 de fevereiro de 2017

CARTUM DO FERIADÃO


Tacho.

O INQUEBRANTÁVEL MURO MONOPÓLICO


Fissuras no monopólio da Globo: Atletiba, blocos de rua e impeachment no Corinthians

Por Wilson Ferreira

O muro do monopólio da Rede Globo está trincando. Nos últimos dias, uma série de fissuras começaram a surgir: o histórico cancelamento do clássico Atletiba como reação ao monopólio das transmissões esportivas da emissora; o impeachment mal sucedido no Corinthians, no ápice de recorrente pauta negativa da emissora envolvendo a arena do Itaquerão; e o crescimento exponencial do carnaval de blocos, atraindo verbas publicitárias que migram do sambódromo para as ruas, ameaçando um dos principais produtos oferecidos pela emissora ao mercado. Por trás dessas fissuras estão tecnologias de convergência, mídias sociais, empreendedorismo e competição. Tudo aquilo que o telejornalismo e colunistas globais raivosamente defendem como o futuro ético para o País. Mas que, na prática, o monopólio tautista da Globo foge, assim como o diabo foge da cruz. 
  
O que há em comum nessas três histórias?

(a) O cancelamento do clássico “Atletiba” (Atlético Paranense X Coritiba) no domingo passado por que os clubes se negaram a jogar devido ao impedimento da transmissão do jogo ao vivo, exclusivamente pelos seus canais no Facebook e YouTube, pela Federação Paranaense.

(b) A absolvição do presidente do Corinthians Roberto de Andrade e o arquivamento do pedido de impeachment feito pelo Conselho Deliberativo do clube.

(c) O crescimento dos blocos de carnaval de rua nas grandes cidades brasileiras. Em consequência, grandes marcas estão trocando os camarotes dos sambódromos pelas ruas. Depois de 26 anos de presença cativa no sambódromo carioca, a Ambev anunciou o fim das suas marcas (Antarctica, Skol, Bhrama etc.) nos camarotes VIP. Prefere agora desconcentrar a verba publicitária, dividindo-a pelo maior número de cidades e blocos de carnaval de rua.

 O leitor deve ter matado a charada: o que há em comum é que essas três histórias narram três derrotas sequenciais da Rede Globo. Três derrotas que abrem perigosas fissuras no monopólio global de comunicações.

As mais importantes fissuras são a (a) e (c), pois têm a ver com o crescimento das tecnologias de convergência e redes sociais, cujo monopólio da Globo vem, a todo custo, tentando frear ou desmerecer principalmente pelas pautas negativas - para a emissora, Internet é sinônimo de crimes, vício, piratas e pedófilos.


 Assim como fez nos anos 1990 com a ameaça dos canais por assinatura: monopolizou o mercado da TV fechada (ao custo do endividamento em dólares que quase a destruiu, não fosse o financiamento do BNDES dos tempos de FHC) e evitou a sua expansão, tornando o serviço caro e ineficiente. Literalmente, sentou em cima do futuro daquela mídia – aliás, muitos telespectadores passaram a assinar a TV fechada apenas para melhorar o sinal do canal aberto da Globo.

 Abordaremos essas questões mais abaixo. Vamos começar pela história (b).

Fissura 1 – derrota no impeachment corintiano


Desde que as articulações políticas de Lula levaram à construção da Arena Corinthians, a Globo vive com o clube uma relação conflituosa: seus jogos são a principal audiência na grande São Paulo, maior praça comercial do País. Contando com a segunda maior torcida do futebol brasileiro, o Corinthians torna o futebol, ao lado das telenovelas, um dos principais produtos da emissora.

Por outro lado, dentro da atual tabelinha com a Operação Lava Jato e a liderança da Globo no movimento do impeachment, as relações de Lula com a chamada “nação corintiana” tornam-se problemáticas, principalmente com a proximidade das eleições de 2018 e a necessidade de torná-lo inelegível.

Desde o ano passado, uma pauta negativa em relação ao clube foi posta em prática: queda de parede, vídeos de vazamentos, queda de placas, supostos perigos aos torcedores ou qualquer coisa negativa envolvendo a Arena Corinthians. E mais estranho: do noticiário local a pauta foi transferida para o programa esportivo Globo Esporte.

O crescendo negativo chegou com uma das delações de Emílio Odebrecht, sempre divulgada em programas esportivos: o estádio teria sido um presente para Lula, que é torcedor do time. A construtora pertence ao consórcio que administra a Arena.

TV Globo faz previsível aproximação do impeachment no Corinthians com Operação Lava Jato.

E culmina com a tentativa de impeachment do presidente Roberto de Andrade por supostas irregularidades no contrato do estacionamento com uma empresa, com todo estardalhaço no noticiário esportivo.

A absolvição de Roberto de Andrade - após todo o estardalhaço do noticiário da emissora com direito a infográficos e os indefectíveis testemunhos com áudio alterado com o rosto do entrevistado à contra-luz para impedir identificação - foi a derrota para uma emissora que pretende, a todo custo, negativar todo o legado de Lula no clube.

Nesses 35 anos como jornalista, professor universitário e pesquisador de mídia, esse humilde blogueiro nunca viu um noticiário esportivo dar tanto espaço à política interna de um clube. Mas, sabemos, Lula fez parte do Conselho Deliberativo corintiano até 2016, então...

Fissura 2 – o histórico cancelamento do Atletiba


“O Grupo Globo continua respeitando os clubes e trabalhando para a melhoria do futebol brasileiro”. Essa foi a resposta tautista (autismo + tautologia – sobre o conceito clique aqui) da emissora ao cancelamento do clássico Atletiba: uma nota da emissora sem as imagens dos times reunidos do centro do gramado aplaudindo os 20 mil torcedores presentes que gritavam protestos contra a Federação de Futebol e a Rede Globo.

A torcida aplaudiu um jogo que não aconteceu, compreendendo a importância histórica daquele ato frente ao monopólio de federações e Rede Globo.


  Os times recusaram a proposta da TV Globo e RPCTV (afiliada da Globo no Paraná) com valores menores que do ano passado. E decidiram transmitir a partida pelos seus canais no Facebook e YouTube. Como represália, a federação se apegou a questões burocráticas e notificou que a transmissão pela Internet estava proibida porque os técnicos e jornalistas que trabalhariam no estádio não estavam “credenciados”.

No dia seguinte, na CBF, mais retaliações: em reunião técnica de planejamento do Brasileirão 2017, foram vetados campos com grama sintética. O que atinge diretamente a Arena da Baixada em Curitiba, local onde Atlético Paranaense manda seus jogos.

A resposta tautista


A Globo diz cinicamente que nada tem a ver com tudo isso. Porém, o que chama a atenção é a flagrante resposta tautista da emissora anunciada pela SporTV, na qual praticamente afirma aquilo que nega:
O Grupo Globo é, de longe, o maior incentivador do futebol brasileiro. Tanto dando visibilidade ao seu conteúdo em programas, telejornais e nas próprias transmissões esportivas, quanto no aspecto financeiro, adquirindo os direitos dos principais campeonatos, como o Brasileiro, os Estaduais, a Copa do Brasil, a Libertadores da América, as Eliminatórias da Copa e a Copa do Mundo de futebol – clique aqui.
É flagrante o tautismo da emissora: mas, é exatamente devido ao monopólio (que a Globo considera como “incentivo”), por ter em suas mãos os principais campeonatos, que episódios como o do cancelamento do Atletiba ameaçam se repetir no futuro. A emissora sabe que concentra o mercado publicitário brasileiro e que, por isso, a velha TV aberta, com seu ultrapassado conceito de “grade de programação”, é o que sustenta toda a pesada e cara infraestrutura global.


Por isso, iniciativas como as do Atlético e Coritiba são uma séria ameaça que deve ser punida exemplarmente, assim como na Idade Média o senhor feudal empalava aldeões desobedientes e os deixavam expostos nas estradas para servir de exemplos a todos os vassalos.

Conteúdos de vídeo do YouTube concorrem diretamente com a TV aberta. E o segundo maior destino de publicidade no Brasil é o Google, proprietária da plataforma que mais cresce nas mídias sociais.

Mas o curioso é que essa perigosa fissura que se abriu no monopólio global é cercada por uma série de ironias.  Para começar, a TV Globo - cujos telejornais e colunistas defendem raivosamente o empreendedorismo, competição meritória como ética civilizatória para o País - é a primeira que reage violentamente a qualquer ameaça ao seu monopólio; ela teme qualquer episódio de concorrência ou evolução tecnológica.

Outra ironia é tudo isso ter acontecido em Curitiba, sede da Operação Lava Jato liderada pelo heroico juiz Sérgio Moro, sob os holofotes e aplausos diários do telejornalismo da Globo. E, tão irônico que beira à perversidade, é o fato de que muitos daqueles torcedores que gritavam “Globo vai se fudê!” na Arena da Baixada saíram às ruas nas manifestações pelo impeachment e apoiando a Lava Jato. Vestindo camisetas da CBF, a mesma que agora inicia o ritual de “empalamento” do Atlético Paranaense ao vetar o gramado sintético aprovado pela Fifa.

Fissura 3 – Os blocos de rua


Ninguém mais assiste à Fórmula 1 da TV Globo, cuja categoria não possui mais piloto brasileiro competitivo. O evento esportivo foi jogado para a TV fechada (aquela que a Globo senta em cima) para que melancolicamente acabe. E as transmissões dos desfiles das escolas de samba prometem ter o mesmo triste fim.

E novamente as tecnologias de convergência estão por trás. Para o jornalista e sociólogo Bruno Fillippo, o atual crescimento exponencial do carnaval de blocos de rua reflete a era tecnológica na qual os jovens se organizam através de redes sociais para melhor aproveitar os dias de folia:
É, em primeiro lugar, uma nova geração de foliões, que não se interessam muito pelas escolas de samba. As mudanças tecnológicas da comunicação acabaram por interferir na organização do carnaval de rua. Hoje há blocos temáticos em homenagem a cantores como Michael Jackson e Beatles, que foram organizados por pessoas que não são tradicionais do samba e do universo do carnaval e que arregimentam um grande público através das redes sociais – clique aqui.
As escolas de samba se tornaram reféns da grade horária e elitização de um evento que impõe, para os alijados dos desfiles, ficar passivamente assistindo na TV entre um cochilo e outro nas madrugadas...

Resta, porém, a diversão de assistir à apuração dos votos dos juízes e o indefectível grito de algum representante de escola de samba protestando: "É roubo, porra!".  -  (Fonte: Blog Cinegnose; post reproduzido AQUI).

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Convém lembrar que certos antídotos à debacle podem se mostrar eficazes: apropriar-se de todos os direitos de transmissão; providenciar leis que de alguma forma 'amenizem' a ação predatória da internet, bem como possam render bons frutos (como a lei das teles e seus cem bilhões de reais); abarrotar a programação com futilidades diversas; adocicar o noticiário, descarregando eventuais assuntos negativos ao planalto logo nos primeiros minutos dos jornais - omitindo, se for o caso, detalhes mais embaraçosos -, para em seguida enfileirar notícias ou mesmo "notícias" amenas e, melhor ainda, edificantes/comoventes; ainda no que respeita ao noticiário: enfatizar que 'no governo passado as coisas eram um descalabro'... Enfim, comportar-se como legítima 'agência nacional', fazendo jus à apetitosa bolsa mídia e demais deferências com que regularmente é homenageada. A perpetuação assim, quem sabe?, pode tornar-se factível.

OLD CARTUM

Santiago. 
(Abril de 1979).
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"Meu nome é Leão da Energia Nuclear, mas pode me chamar de Leão da Receita."

O AVANÇO IMPLACÁVEL DO OBSCURANTISMO


Pavel Constantin. (Romênia).

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

AS PONTES DE TOKO-RI


As pontes de Toko-Ri

Por Rui Daher

Na terça, 21, fui visitar uma fazenda centenária a 2 km de Campinas, SP. Mantém-se produtiva, praticamente dentro de uma cidade com mais de um milhão de habitantes. Quase mil hectares de terra, plantados com café, soja, milho, construções soberbas ainda preservadas, bosques de frutíferas. Voltarei a escrever sobre ela, mas em Andanças Capitais. Difícil assuntar a agropecuária, tal a fúria com que ferem conquistas rurais merecidas.

Saí cedo de São Paulo, razoavelmente gripado. Minha sócia carregou o fardo em seu carro, incapacitado ao trabalho por uma médica que presta serviços oftalmológicos ao Poupatempo de São Bernardo. Fosse séria, a Dra. Neuza deveria reprovar-me e indicar que eu fosse atrás de óculos e voltasse. Vetou-me dirigir em estradas e após o pôr-do-sol.

Durante a viagem, testei-me. Não houve (se errei o uso do verbo haver, peço consultarem o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, para correção) placas que não conseguisse ler a 500 metros de distância, comprovando o diagnóstico de meu oftalmologista particular de não precisar ainda óculos para distância.
E assim fomos. Do jeito que o Brasil está não se deve brincar, ainda mais desfalcado da AK-47. Viajava em missão de paz.
Na fazenda, sol forte, implacável, temperatura de 36 graus, sobe-desce do carro, o ar condicionado ao arrasto de botas entre os talhões de café, feijão-soja alto, perto da dessecação e colheita, que deixará a palhada para acamar o milho safrinha.
Não é frequente, mas tudo isso aniquilou o meu ânimo laboral quando no campo. Piorou a gripe e relembrei os sonhos de refrigério que sempre usei para me queixar do saco cheio com o trabalho.
Passar dias orando nos corredores que saíam da sacristia da igreja de São Bento até o belo jardim interno, proibido aos alunos que não oblatos. Ser um alfaiate de interior e pespontar durante horas, radinho ligado na emissora Ondas de Palmeira. Ser corretor de terrenos em beira de estrada esperando ninguém parar e interromper a boa leitura. Mais recente sugestão veio do namorado de uma das minhas filhas. Faroleiro. Morar e tomar conta de um farol marítimo dando aviso aos navegantes. Provável que a examinadora de olhos me impediria. Acharia que, vendo um golfinho dando piruetas sobre o mar, alertaria a marinha para um transatlântico voador.
Caso é que voltamos de Campinas, logo depois do almoço, e fui direto para casa. Não aguentaria o clima do escritório, ar que respiro cada vez com maior dificuldade.
Deitei-me e liguei a TV atrás de um filme antigo. Fui feliz: “As Pontes do Toko-Ri” (EUA, 1954). A ação se passa durante a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, e que acabou por dividir o país. Direção de Mark Robson, tem no elenco William Holden, Grace Kelly, Frederic March, Mickey Rooney, entre outros.
Pauleira brava de caças dos EUA que partem de um porta-aviões a destruir alvos dos comunistas coreanos. Tudo muito bem filmado para a época. Oscar de Efeitos Especiais e indicação pela Montagem.
O personagem de Holden, tenente Brubraker, é ao mesmo tempo o herói que bombardeia e o que hesita diante das iniquidades das guerras e do medo de não voltar aos braços da esposa Nancy (bem, tratava-se de Grace Kelly).
A história e o filme confirmam a vitória dos EUA. Pouco antes do “The End”, no entanto, Hollywood deixa transparecer um misto de arrependimento e “pena, mas assim tem de ser”.
Foi então que percebi o quanto me orgulho de ser norte-americano.
O quê? Estranham? Como não?
Quando o filme foi lançado nos EUA eu tinha nove anos de idade.  Com o delay até o Brasil, digamos que assisti “As Pontes do Toko-Ri”, com 11 anos. Assim como centenas de outros filmes de guerra norte-americanos. Virei um. Vocês não? (Fonte: aqui).

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Eu, sim. Não só nos filmes made in USA, mas nos quadrinhos (Tarzan, Aí mocinho, Kid Colt, Pato Donald, Almanaque do Tio Patinhas, Fantasma, Durango Kid, Zorro - os dois -, Histórias de Terror, Buck Jones, Kit Carson, Buffalo Bill, Fotoaventuras...), na Seleções do Reader's Digest (notadamente a seção de livros condensados) e em livros diversos (Mark Twain...), etc., etc.

Tempos depois, lendo sobre economia, geopolítica, corrida espacial e contracultura, o caldo entornou, embora permaneça ainda ligadão em filmes e que tais norte-americanos...

CARTUM DE CARNAVAIS PASSADOS


Reinaldo.

CARTUM AMADOR

Iotti.
....

Ao que o crítico, desolado, observa:

"Como se não bastassem o Pré-Sal, o submarino nuclear, o conteúdo nacional, as terras da União, os direitos previdenciários, as garantias trabalhistas, etc., etc..."

CARTUM DE TODOS OS CARNAVAIS


Duke.

POST ATRASADO, PORÉM VALIOSO: TRUMP CONTRA A CIÊNCIA


Trump contra a ciência

Por Carlos Orsi

A comunidade científica dos Estados Unidos vinha prendendo a respiração, esperando pelo pior, desde o anúncio da vitória de Donald J. Trump na eleição para a Casa Branca. Já se sabia, afinal, que Trump é um negacionista do aquecimento global antropogênico e que seu vice, Michael Pence, não acredita no elo entre tabaco e câncer de pulmão. Após a cerimônia de posse, ficou claro que Sean Spicer, o assessor de imprensa da Casa Branca, não acredita em aritmética. O fato de jornalistas não terem perguntado aos membros da nova administração o que pensam a respeito da forma da Terra, de sua posição no espaço relativa ao Sol e, crucialmente, de que tipo de queijo a Lua é feita é, talvez, um ato de caridade para com o Partido Republicano.
Durante o período de transição, Trump logo confirmou os piores pesadelos de seus mais virulentos detratores dentro da comunidade científica. A lista de atrocidades é ampla, mas um exemplo: no início de janeiro, ainda presidente-eleito, convidou Robert Kennedy Jr., um proponente da tese – desacreditada – de que vacinas causam autismo, para encabeçar um comitê sobre “segurança das vacinações”.
Assessores do Líder do Mundo Livre correram para negar que um comitê do tipo estivesse realmente nos planos (“nenhuma decisão definitiva foi tomada”, disseram, na típica novilíngua dos burocratas encarregados de trocar as fraldas do chefe), mas Andrew Wakefield, o ex-médico britânico responsável pelo estudo fraudado que aparentemente “comprovava” a ligação entre a tríplice viral e autismo, compareceu ao baile da posse. Refiro-me a Wakefield como “ex-médico” porque sua licença para praticar Medicina na Inglaterra foi cassada.
A ameaça à saúde pública é tão grande que o editor-chefe da rede de publicações científicas Public Library of Science estabeleceu uma página especial em seu site para concentrar, por via das dúvidas, os principais estudos que mostram que vacinas não têm nada a ver com autismo.
A relação difícil de Trump com a ciência também trouxe uma ameaça de holocausto nuclear. Seu ungido para chefiar o Departamento de Energia, o ex-governador do Texas Rick Perry, ignorava que a principal missão desse órgão é garantir a qualidade, a confiabilidade e a segurança do arsenal atômico norte-americano. Ele achava que, como chefe do Departamento de Energia, seu principal trabalho seria interromper pesquisas de energias alternativas e promover o uso desbragado de petróleo.
Mas as tensões entre Trump e a comunidade científica chegaram ao ponto de ruptura entre terça e quarta-feira desta semana, quando seu governo foi acusado de emitir uma gag order – literalmente, “ordem de mordaça” – proibindo órgãos federais ligados à pesquisa científica, especificamente a Agência de Proteção Ambiental (EPA) e o Departamento de Agricultura, de se comunicar com a imprensa, postar em redes sociais e liberar fundos para pesquisa. Entre o fim do dia de quarta e a manhã desta quinta, no entanto, funcionários de carreira das duas entidades vieram a público afirmar que as notícias sobre gag orders eram exageradas e refletiam apenas a suspensão, temporária e rotineira, de comunicação enquanto os novos chefes assumem seus postos e se familiarizam com a área.
“Acredite se quiser” parece ser a expressão-chave diante dessa situação. O  que é inegável é que a EPA foi submetida a algo que poderia ser descrito como tratamento extraordinário, e no mau sentido. Citado pela Associated Press, Doug Ericksen, membro da equipe de transição de Trump, disse que todo o conteúdo do site oficial da agência estava sob revisão de agentes políticos. Além disso, uma diretriz, nada “rotineira”, determinou a remoção de todos os dados sobre mudança climática presentes no site da Agência. Isso desencadeou uma guerra nas redes sociais, em que funcionários de um parque nacional americano passaram a fazer “uso clandestino” da conta oficial do órgão no Twitter para divulgar as informações que a EPA estaria sendo forçada a suprimir. Mais tarde, a ordem de apagar os dados do site acabou revogada, segundo informações da revista Science.
O uso de gag orders para calar pesquisadores é um recurso caro aos negacionistas climáticos. Quando esteve no poder, o ex-primeiro-ministro conservador canadense Stephen Harper tornou-se infame por estabelecer uma série bizantina de regulações para a comunicação entre cientistas e imprensa que, para todos os fins práticos, impedia que pesquisadores vinculados a órgãos públicos falassem com jornalistas. Harper sentiu-se especialmente incomodado por estudos a respeito dos riscos ambientais da pesca do salmão e da mudança climática antropogênica.
Antes que se imagine que a coceira para silenciar pesquisadores seja um apanágio exclusivo da direita, lembremos que, no Brasil, histórias sobre gag orders impostas ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) foram comuns no período petista (Nota deste blog: Quais gag orders? Quais as circunstâncias? O oferecimento de informações sobre o assunto, por parte do articulista, seria indispensável), e que a maior gag order de todas – o envio para o gulag – foi implementada contra biólogos darwinistas por aquele Guia Genial dos Povos, Josef Stálin. 
A rejeição à ciência corta fundo no modus pensandi trumpista. Outra figura indicada para o primeiro escalão do novo governo, o deputado Mick Mulvaney, escolhido para o Gabinete de Orçamento e Administração da Casa Branca, tem registradas no Facebook declarações em que questiona a necessidade de financiamento público para pesquisa científica. Isso ignora, claro, que toda a infraestrutura tecnológica que sustenta o modo de vida americano nasceu de pesquisa pública – a internet é apenas um exemplo.
Desde o fim da 2ª Guerra Mundial – que revelou, de modo dramático, o poder e o potencial da ciência para transformar o mundo – que os EUA são guiados por uma visão, estabelecida pelo engenheiro e inventor Vannevar Bush (1890-1974), que defendia a ideia de que a sociedade só teria a ganhar se o governo desse aos cientistas todo o dinheiro que pedissem, e depois os deixasse trabalhar com toda a liberdade.
Se a realidade nunca permitiu a implementação desse ideal de fundos infinitos e liberdade infinita para a ciência, o fato de os EUA terem se tornado a maior potência científica, econômica e tecnológica do pós-guerra, enquanto países que preferem estádios a laboratórios continuam chafurdando no atoleiro, mostra que a ideia de Bush deve ter lá seu mérito.
O mais pungente é que a afirmação de Mulvaney (que se não se der bem no governo americano pode tentar uma vaga aqui ao lado de Geraldo Alckmin) foi feita no contexto de um debate sobre o financiamento de estudos a respeito da epidemia brasileira de microcefalia associada ao zika vírus. Os Institutos Nacionais de Saúde (NHS) dos Estados Unidos são, há tempos, os maiores investidores em pesquisa médica do mundo.
Trump, seus acólitos e entusiastas inserem-se naquilo que o escritor de ficção científica Isaac Asimov (1920-1992) chamava de “fio constante de anti-intelectualismo” que percorre a vida cultural e política dos Estados Unidos, “sustentado pela noção falsa de que democracia significa que a minha ignorância vale tanto quanto o seu conhecimento”. Essa “noção falsa” é o  esteio maior do populismo. O elogio arrogante da ignorância e do senso-comum nunca deixa de atrair votos.
Sendo os Estados Unidos uma democracia funcional, nada disso passa em branco, claro. O Greenpeace, cuja rejeição fanática aos organismos geneticamente modificados tem tanta base em realidade quanto a negação do aquecimento global, hasteou uma bandeira gigante com a palavra “Resista” diante da Casa Branca. Pesquisadores assustados e revoltados com as iniciativas de Trump preparam uma Marcha da Ciência sobre Washington. E ainda há os  cientistas que buscam se articular para conquistar cargos eletivos, por meio de iniciativas como a 314 Action. Afinal, se os suplementos vitamínicos e os produtores de petróleo têm bancadas no Congresso, por que não uma bancada do laboratório?
E, se rir é o melhor remédio, uma boa dose de aspirina veio com a publicação de um artigo satírico, formatado como um “paper” científico e assinado por “Donald J. Trump”, exortando a comunidade lógico-matemática a abraçar o conceito de “fatos alternativos”, proposto pela assessora Kellyanne Conway, como uma forma de demonstrar teoremas altamente complexos; por exemplo, a conjectura de que 0=1.  -  (Fonte: Revista Amálgama - AQUI).

CARTUM FANTASIOSO


Amarildo.

CARNAVAL: RECATO, ORDEM E PROGRESSO


S Salvador.

SEGUINDO O SCRIPT


Tacho.

SOBRE A ECONOMISTA MONICA DE BOLLE E A RECESSÃO

                          (Fotos: 1 - Hayek, 2 - Monica, 3 - Keynes)

Monica de Bolle no teatro da recessão

Por André Araújo

Monica de Bolle é uma das melhores economistas acadêmicas brasileiras, com capacidade de formulação de ideias claras e bem apresentadas. Não se confunde com "economistas de mercado" que apenas repetem bordões dos departamentos econômicos dos bancos, caso de 90% dos que se apresentam nas mídias brasileiras. Monica tem uma formação especial por uma escola que não tem paralelo do mundo acadêmico de economia, a London School of Economics, onde lecionaram Lord Keynes e Friedrich von Hayek, os dois pensadores com maior impacto na economia política do Século XX. A London School tem uma origem de esquerda, fundada por dois socialistas - Sidney e Beatrice Webb - em 1895, para se contrapor às escolas da aristocracia onde o aluno da classe média tinha pouca chance de entrar.

A "escola"  de economia no sentido ideológico tem grande importância na formação do economista, com uma clivagem bem específica. Os muito inteligentes pensam por si próprios, absorvem os conhecimentos mas têm capacidade de refletir sobre o que lhes é ensinado, enquanto os medíocres sofrem lavagem cerebral e se diplomam "cartilhados", absorvem o que apreenderam e não mudam mais, porque não têm capacidade intelectual de reflexão e reciclagem de ideias, carregam o resto da vida a tábua dos mandamentos da "escola". É o caso da esmagadora maioria dos economistas brasileiros que estudaram especialmente em universidades americanas, as maiores "lavadoras" de cérebros do planeta.

O grande farol do economista flexível é Lord Keynes, um clássico que mudava de acordo com as circunstâncias: ortodoxo antes da crise de 1929, heterodoxo na Grande Depressão e visionário na Conferência de Bretton Woods. Se Keynes tivesse tido um pensamento fixo, de cartilha, o mundo teria sofrido muito mais com a depressão de 1929 e com o caos econômico do pós-guerra.

Hoje Monica de Bolle trabalha em Washington, no Peterson Institute for International Economics, um dos mais prestigiosos "think tanks" de economia. Criado por Fred Bergsten, um dos mais próximos do círculo íntimo de Henry Kissinger, subsecretário de Estado para assuntos econômicos, Bergsten é daquela elite internacionalista que fez a grandeza dos EUA na segunda metade do Século XX, uma elite antípoda da ignorância e grossura de Trump. O instituto é financiado pela Fundação Peterson, gestora de parte substancial da fortuna do ex-Secretário de Comércio dos EUA Peter Peterson, um grego que virou bilionário americano e dedicou metade de sua fortuna para causas de interesse público. A linha do Peterson Institute é pro-globalização mas com visão social. Não é uma linha puramente ideológica como o American Heritage, o American Enterprise e o Center for Strategic and International Studies, centros com uma visão mais principista sobre geopolítica e economia, componentes da direita dos "think tanks". O Peterson é mais centrista e humanista, com uma angulação tanto para os EUA como para o mundo não americano.

Monica de Bolle tem um discurso doutrinário ortodoxo mas, coisa raríssima, traduziu uma obra nitidamente de esquerda, o grande livro de Thomas Pikety, O CAPITAL NO SÉCULO XXI, algo que ortodoxos puros teriam alergia a fazer. Mostra, assim, ecletismo e refinamento intelectual, coisa raríssima em economistas brasileiros do "mainstream" econômico, que funcionam em trilhos mentais rígidos incapazes de vestir outra roupa que não seja a da ortodoxia antiga, que circula em seu grupinho restrito PUC Rio + mercado, a mesma ortodoxia que já foi abandonada na maior parte do mundo civilizado e que será chutada agora nos EUA pelas ideias de Trump para relançar a economia americana no crescimento acelerado através de maciços investimentos em infraestrutura com dinheiro novo tirado do chapéu de Tio Sam.

Trump, como grande devedor, sempre foi um empreendedor imobiliário ultra alavancado, não está nem aí para a inflação se esta vier, inflação é um bálsamo para devedores mas jogar US$1 trilhão em infraestrutura não faz nem coceira no Tesouro americano: quem deve US$20 trilhões pode dever mais US$1 trilhão que com a economia crescendo mais se repõe pelo aumento da arrecadação.

Por tudo isso, a avaliação que Monica faz da economia brasileira atual é (de que é) uma decepção. O receituário Meirelles-Goldfajn é claramente equivocado, o remédio de um ajuste estatístico é ainda mais falso e danoso, um verdadeiro engodo de sacrifícios inúteis e mal direcionados.

O ajuste fiscal como política única jamais irá vencer a recessão, falta o combustível dos estímulos monetários, empuxo essencial para tirar o Brasil da crise econômica.
O engodo pregado agora diariamente pelos que dizem que a "economia está melhorando" deveria ser desmascarado por economistas do calibre de Monica de Bolle, uma mensagem enganosa amplificada pela mídia engajada como âncora coadjuvante do modelo.

O uso de estímulos monetários é tradicional, consolidado, faz parte do receituário econômico desde o fim da Primeira Guerra. Schacht usou na Alemanha dos anos 30, Roosevelt, aconselhado por Keynes, usou em abundância para vencer a Grande Depressão. Também na recuperação econômica alemã dos anos 50, o "milagre econômico alemão", liderado pelo Ministro Ludwig Erhard, não nasceu apenas do Plano Marshall, foram essenciais os estímulos monetários do crédito barato como alavanca para relançar a economia devastada pela guerra. No nosso caso, os grandes picos de crescimento econômico do Brasil dos anos 50, 60 e 70, quando se construiu o País moderno,  tiveram como combustível estímulos monetários. Porque viraram pecado quando o País está em depressão?

Ah, mas os estímulos monetários podem causar inflação. Ora, a deflação e o mega desemprego são coisa melhor que a inflação? Mas, atenção, com altíssima capacidade ociosa na indústria, com uma massa real de desempregados, que pode chegar ao dobro da estatística PNAD, não é só 12% porque esses são os que procuram emprego, mas passa de 20% se considerarmos todos os que não têm ocupação ou atividade econômica (Nota deste blog: Tal realidade foi confirmada ontem, 23, com a divulgação dos números PNAD 2016).
Se considerarmos todos os desocupados, com essa reserva de mão de obra e de ociosidade não há espaço para a inflação se forem injetados na economia R$ 1 trilhão em 40 meses, sangue que foi tirado da mesma economia nos últimos dois anos, liquidez que sumiu e paralisa a atividade, uma injeção monetária puxa a economia para fora do abismo da recessão e, mesmo se houver - tudo indica que não haverá - alguma inflação, será um preço modesto a pagar. A inflação incomoda, o desemprego mata de fome porque um desempregado, mesmo em um ambiente de inflação zero, não sobrevive porque falta dinheiro para comprar qualquer coisa.

A análise dos "economistas de mercado" é de que não há outro caminho além da fórmula Meirelles, o que é uma falácia. Os doze milhões de desempregados, considerados apenas o que procuram empregos, não podem esperar o laboratório desse monetarismo mal digerido dar resultados, o que, pelos seus próprios operadores, vai levar muito tempo. Como dizia Keynes, a longo prazo todos estaremos mortos, recuperação para 2015 não serve para nada.

Um dos dinossauros mais representativos dessa cartilha velha, o ex-presidente do BC Afonso Celso Pastore, disse em recente programa da GLOBONEWS (Diálogos com Mario Sergio Conti) que os 12 milhões de desempregados estão se virando com bicos mas têm uma grande vantagem: como a inflação está caindo a vida para eles está mais fácil. Pastore minimizou a tragédia social, disse que é assim mesmo, não tem outro jeito, mas temos a vantagem que a inflação está caindo e o juro também, assim os pobres endividados e desempregados estão gastando menos com juros porque estes estão caindo, segundo ele imagina, dado que o BC baixou a Selic. A alienação da realidade é impressionante, ele narra um mundo irreal que só existe na conclusão de sua teoria de "ajustologia", basta o ajuste fiscal e tudo se arranja.

Mas Pastore disse mais, por causa da baixa inflação e da queda de juros os desempregados estão tendo uma sensação de bem estar e esperança, portanto estão se sentido melhor graças à recuperação da economia que virá e que ele percebe estar em curso. É uma torcida de que o "ajuste" vai dar certo, se é em 50 anos não importa porque o "rumo" está na direção correta; é a anti-economia em estado puro, reserva de mercado dos economistas trogloditas que sequer aceitam que a crise de 2008 provocou a revisão de um bom número de dogmas ortodoxos, monetaristas e neoliberais. Foi a crise que provou que só o Estado pode resgatar uma economia em contexto de crises profundas. A crise de 2008 só foi debelada por uma injeção de U$780 bilhões pelo Tesouro americano, no progrma TARP, quer dizer, a turma do "mercado resolve" foi resgatada do afogamento pelo Estado que eles sempre execraram, dizendo "o Estado só atrapalha".

Aqui no Brasil, os economistas jurássicos, superados pela própria evolução das crises, aqueles da era Pastore, não receberam essa informação (de) que lá nos EUA se baixou a bola do monetarismo e da desregulamentação que pregava Friedman. A crise de 2008 foi a crise do monetarismo e o fim do mito "o mercado resolve", como aqui hoje se pensa em relação à recessão, acreditando, como Pastore, que o programa de concessões vai reativar a economia sem dinheiro do Estado, um programa modestíssimo, de alto risco regulatório, complicado, nem em MIL ANOS responde a realidade a essa fantasia dos "economistas de mercado" velhos e novos; concessões e privatizações são modelos de gestão e não significam por si só crescimento; os empresários não querem investir muito, embora queiram ganhar muito.

Altas taxas de desemprego por muito tempo, segundo a lição da História, produzem cataclismos políticos. Na Itália de 1922 produziu o fascismo, na Alemanha de 1930 produziu o nazismo, nos Estados Unidos elegeu Roosevelt e fez nascer o New Deal. Por relação de causa e efeito, o desemprego está na raiz da Segunda Guerra Mundial.

Mas para os economistas "mainstream", aos quais De Bolle se alia, é tudo uma questão de tempo. Pastore acha que já no primeiro trimestre de 2017 começamos lentamente a sair da recessão, com base em que gatilho ele não disse, talvez porque imagine que da recessão se sai por ato de inspiração. Pastore disse também que com a queda do juro, sentida por todos, os desempregados já estão ficando animados, estão com melhor estado de espírito.
Disse também que não há importância com a quebra de empreiteiras porque no seu lugar virão estrangeiras e médias, apoiando assim a cruzada moralista, logo ele que foi Secretário da Fazenda do Governo Paulo Salim Maluf.

Monica é muito melhor do que esses pré-históricos por isso minha decepção que não tenha algo mais inovador a apresentar com sua facilidade de exposição. Não precisa seguir os poucos economistas heterodoxos do seu País, como Laura Carvalho e Antonio Correa de Lacerda, mas pode tirar outras inspirações da economia pelo grupo de Nova York ancorado no Institute for the New Economic Thinking, onde estão Joseph Stiglitz e Paul Krugman, ambos Prêmios Nobel de Economia. Há hoje, em todo o mundo, uma negação e revisão dos catecismos monetaristas no ciclo do chamado "austericídio" , quando o próprio FMI criticou o excesso de austeridade em relação à Grécia atual (no Relatório do FMI sobre a Grécia em 2016), esse mesmo Fundo onde Monica trabalhou como economista. (Continua...)

(Para continuar, clique  aqui).

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Dias depois de produzido o texto acima...

Leitores, comentando o artigo "A armadilha da Bolsa de Nova York" (também de André Araújo), AQUI e reproduzido neste blog - AQUI -, fazem as seguintes digressões:

1. "... A economista Monica de Bolle, depois dessa, subiu bastante na minha pontuação.
Vale a pena conferir. Melhor ouvir. Repito. Vale a pena.
Um, que é  empregado, tentando defender a tese de "seus patrôes", e ela firme na sua posição, que me pareceu bem sensata. 
Confiram.
2. "Ele é o péssimo e ela é o muito ruim. 
Desarranjo macroeconômico que não é culpa do BC nem da equipe econômica, baixa de juros, que não são reais, mas  que vão ajudar a economia...
A culpa é do governo! Ilan não tem autonomia!
Ela questiona armando a arapuca de que a PEC da Morte só deve ter sua implementação forçada no próximo governo se ele for de esquerda! Pois se for de direita, o STF argui a inconstitucionalidade eximindo o governo de culpa!
Sardenberg:
A sociedade não quer a reforma da previdência?! A sociedade não quer ser terceirizada? A sociedade não quer ver as próprias tripas?!
Bolle:
(assustada) Eu não sei. Mas é extremamente importante.
(...)
Sardenberg:
Se a reforma da previdência, se a reforma trabalhista, se as privatizações, se o Brasil quebrar e for vendido pro estrangeiro com a população acorrentada nas galés... o Brasil melhorará em 2019!
Bolle:
São 4 "se"s que dependem de Lula não estragar tudo em 2018!
Competição de loucos para ver quem mente mais sem resvalar na barreira do perigoso abismo que é qualquer simulacro da realidade.
3. Ao que André Araújo observa:
"Excelente debate, a Monica deu uma surra no medíocre Sardenberg, que apenas repete chavões do mercado financeiro,
Monica tem uma visão de muito maior alcance, uma enorme cultura econômica; fiz aqui um artigo crítico a ela exatamente porque achava que ela deveria fazer o que  fez hoje, abrir muito mais o debate e dizer aquilo que ela realmente vê e não aquilo que os entrevistadores querem ouvir; ela hoje executou esse roteiro e pôs para quebrar, desmontou a fragilidade dos argumentos do Sardenberg, que não sabia o que dizer quando ela disse que os JUROS REAIS ESTÃO SUBINDO e não caindo, que aquilo que o Sardenberg acha vitórias é tudo SE, coisa que não se sabe se vai existir e como vai ficar de pé, Monica mostrou que a economia brasileira continua em profunda recessão e que a população não percebe NENHUMA melhora, Sardenberg acha o contrário. Foi um diálogo impressionante no panorama de ignorância econômica que impera no Brasil.
4. E um outro leitor aponta as perspectivas:
"Os gastos primarios impactam diretamente na demanda agregada e têm efeito multiplicador positivo na economia através de investimentos no setor produtivo, saúde, educação, ciência e tecnologia.  Com o teto dos gastos reduz-se a participação do estado dos atuais 20% do PIB para 10% do PIB e consequentemente a economia vai se retrair inexoravelmente durante 20 anos. Por outro lado os gastos financeiros também têm impacto, só que negativo na economia, pois retiram dinheiro do setor produtivo em favor do pagamento de juros, e pior, como estão fora do congelamento continuarão aumentando conforme o risco de default aumenta. Trocando em miúdos, não há a menor possibilidade de retomada de crescimento se a taxa de juros real continuar aumentando; pelo contrário, há risco sim de deflação e completa estagnação, inclusive dos investimentos privados, uma vez que nessas condições cada um real investido retorna menos que um real no futuro.
(...) Sardenberg, Leitão e Vaack sabem perfeitamente disso, mas são obrigados a corroborar o mantra dos SEs das reformas e das privatizações por exigência de seus empregadores, e mais : eles também sabem perfeitamente que 20 anos de vigência da lei nada mais é do que o ROI (Tempo de retorno de investimento) de quem comprar campos de petróleo a 2 dólares o barril e vender pelo preço de mercado.
O que Monica faz é simplesmente advertir discretamente que isso não dará certo e merece parabéns pela coragem!!!
No mais me divirto muito com o "noticiário econômico" dessa trupe, que se fosse em preto e branco se confundiria com o antigo seriado de Joe, Poe e Larry."
5. E André Araújo volta à carga:
"Sempre soube que a Monica nunca foi de seguir cartilhas, como a esmagadora maioria dos economistas de mercado brasileiros. Apesar de ter formação clássica de economia ela tem larga visão e capacidade de análise, anos luz a frente de economistas convencionais que só trabalham com o Boletim Focus e com o mês a mês da economia.
Foi por saber desse potencial que fiz um artigo há quinze dias para que ela rompesse as barreiras do "mainstream" mediático que compreende 95% dos economistas com acesso à mídia; digo que fiquei decepcionado com sua entrevista no RodaViva. Agora, com essa discussão com um dinossauro como Sardenberg, ela mostrou o que é, uma das mais inteligentes economistas brasileiras da atual geração, capaz de enxergar anos-luz à frente do dia a dia.
Com essa entrevista ela desmontou por completo o teatrinho de mídia da medíocre "equipe econômica" que quer fazer crer que estão no caminho certo enquanto rumam em direção ao abismo de um cataclismo social nunca visto no Brasil." (AQUI).

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

TRUMP: NADA PREVALECE, TUDO É RELATIVIZÁVEL


Marian Kamensky. (Eslováquia).

DA SUTIL ENGENHARIA DE PERCEPÇÃO


Comercial vende carro e ética na política detonando bomba semiótica

Por Wilson Ferreira

Bombas semióticas 2, A Missão! O Império Contra-ataca! Após as recentes pesquisas revelarem que Lula está mais vivo do que nunca, liderando com folga todos os cenários eleitorais para 2018, e que ainda seus principais adversários estão se desgastando com a evaporação do mar de rosas que, acreditava-se, seria o País pós-impeachment, o complexo jurídico-midiático reage. Depois de novos vazamentos seletivos e busca de mais espécimes assustadores do “Brasil profundo” para figurar na capa de revistas semanais, retiram mais uma vez do paiol midiático a artilharia pesada das bombas semióticas. Dessa vez, em um comercial para TV da GM Brasil o qual se posiciona sobre temas como “ética” e “política” para vender o novo Chevrolet Cruze.  Mais uma vez, a tática de engenharia de percepção – por meio de gestalt, cores e a palavras metonimicamente contaminadas, bombas semióticas criam um pano de fundo para tornar mais crível o cenário político do momento. Reforçam subliminarmente pautas, slogans e clichês disseminados liminarmente pela grande mídia. Um exemplo de como a criação publicitária torna volátil a fronteira entre consumo e cidadania.

Depois dos resultados da pesquisa CNT/DMA mostrando que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva venceria as eleições 2018 em todos os cenários, acendeu-se a luz amarela do maior partido de oposição na era lulo-dilmista: o complexo grande mídia e Judiciário.

Mesmo com todos os escândalos associados ao PT denunciados pela Operação Lava Jato, com todas as manchetes diárias sobre um grandioso triplex no Guarujá, um suntuoso sítio em Atibaia e, agora, um curso para o filho de Lula supostamente pago pela Odebrecht, mesmo assim Lula continua favorito com folga para as próximas eleições. E o que é pior: revelando o desgaste dos oponentes Temer, Aécio e Alckmin – corroídos pela crise econômica que contrariou a expectativa de um mar de rosas após o impeachment e os respingos das delações premiadas e vazamentos nos outros partidos.

E pior ainda: colou-se à imagem de Lula, além do “sebastianismo” (sobre esse conceito messiânico na política clique aqui), a nostalgia de um país que viveu tempos melhores com o crescimento da Classe C, a expansão do crédito e do consumo.

A reação do complexo jurídico-midiático foi imediata: a ministra Carmen Lúcia decide pelo sigilo das delações que estavam sob custódia de Teori Zavascki – será que ele pagou com a própria vida? (clique aqui) Aliás, por que as investigações sobre as causas do suposto acidente aéreo desapareceram da mídia? 
  
Claro, a decisão pelo sigilo é a senha para iniciar a estratégia dos vazamentos seletivos que atingirão alvos selecionados, de acordo com a conjuntura política do momento. E Lula novamente é o alvo da vez depois dos alarmantes números das pesquisas.


Espécimes de águas turvas


A segunda reação é novamente buscar no fundo das águas turvas do Brasil profundo exemplares obscuros, psicóticos e paranoicos, como fez a revista IstoÉ: a utilização de um espécime chamado Davincci Lourenço que teria levado uma mala cheia de dinheiro para Lula num período em que supostamente viveu na intimidade da cúpula da construtora Camargo Correia. Enquanto isso, Davincci fazia vídeos com gravíssimas denúncias sobre pernilongos geneticamente alterados pelo PT para criar a epidemia de Zika e desviar a atenção do povo dos problemas de corrupção da Dilma, além de posar como sniper, vestindo camiseta do FBI e com o símbolo da Polícia Federal de fundo...

Agora, do fundo do paiol da grande mídia, ressurge a grande arma detonada durante a crise política iniciada pelas grandes manifestações de rua de 2013: as bombas semióticas.

A General Motors do Brasil estreou nova campanha publicitária nesse domingo (19) se posicionando sobre os temas da “ética” e “corrupção” como estratégia de promoção de vendas dos novos Chevrolet Cruze hatch e sedan.


O comercial


Exibido nos canais Globo, Band, AXN e Sony, o comercial mostra planos gerais de ruas desertas do Centro do Rio de Janeiro que logo depois são ocupadas com manifestantes empunhando placas e faixas exigindo ética e combate à corrupção, com a indefectível presença de policiais de choque com escudos. “Somos um povo que aprendeu a exigir mudanças e que está mudando para servir de exemplo”, inicia a locução feminina em off.

“Que não aceita menos que o justo”, continua, com imagens estilizadas de engravatados sendo conduzidos por agentes também estilizados da PF com locuções de telejornal ao fundo dizendo: “esquema de corrupção iniciado em 2009...”.

“Que cansou da malandragem...”, a palavra “malandragem” com tom jocoso, entrando com som de cuíca ao fundo e um gari varrendo “santinhos” de políticos no chão de uma calçada. “E que acelera na direção certa!”, conclui a parte político-ideológica do comercial para depois, metonimicamente, o comercial associar mudanças políticas com a troca do seu carro pelo novo Chevrolet Cruze.

O que são bombas semióticas?


Bombas semióticas não se prestam à inculcação político-ideológica: isso já é feito diariamente pela pauta do jornalismo e colunistas da grande mídia. Sua função pertence à engenharia de percepção mais ampla e atmosférica – reforçar o noticiário dominante criando subliminarmente um pano de fundo, um horizonte de eventos ou uma paisagem de signos com gestalts, cores e sutis alusões a slogans e clichês do cenário político do momento.

Em outras palavras: reforçar através da estética e da percepção em filmes, vídeos publicitários, clipes da Internet etc. a memória do conteúdo já absorvido cognitivamente pelo noticiário – sobre a série das bombas semióticas analisadas pelo Cinegnose clique aqui e aqui.

E o comercial da GM é um caso exemplar dessa estratégia semiótica.

(a) O caminho inverso


Em primeiro lugar chama a atenção o caminho inverso tomado pela aproximação Publicidade/Política. Se em 2013 as manifestações “espontaneamente” tomaram slogans publicitários como “Vem pra rua” (comercial da Fiat para a Copa das Confederações) e “o gigante acordou” (comercial do uísque Johnnie Walker) transformando em palavras de ordem e hashtags, agora um comercial exorta os brasileiros a não mais tolerarem a corrupção diante da proximidade das eleições presidenciais 2018.

E convoca novamente os brasileiros irem para as ruas... com o novo Chevrolet.

A GM faz uma espécie de recall para os manifestantes e paneleiros, agora silenciosos diante das tentativas do governo do desinterino Temer em “estancar essa porra de sangria” das investigações da Lava Jato.

Porém, um recall tão seletivo quanto os vazamentos das delações premiadas, como sempre, mantidas em sigilo.



(b) Contaminação de cores e gestalt


Todo o comercial faz um jogo de contaminações metonímicas nas quais imagens e palavras tomadas isoladas tem um sentido. Mas próximas ou colocadas em sequência tem um significado completamente outro.

Depois da introdução mostrando manifestantes nas ruas, que termina com imagem do estádio do Maracanã lotado na Copa (alusão ao período 2013-2014 das grandes manifestações de rua), entra a locução “um esquema que começou em 2009” (recorte arbitrário da história da corrupção brasileira – tudo parece ter começado exclusivamente no período lulo-petista) para, em seguida entrar o gari que varre santinhos eleitorais na rua.

A sequência é um primor subliminar de Gestalt, cores e movimento. Temos o som de cuíca ao se falar em “esquema de malandragem” – o estereótipo carnavalesco de “jeitinho brasileiro” associado preconceituosamente a uma suposta índole brasileira. Mas, contraditoriamente, tudo só começou em 2009...

Nos “santinhos” varridos em plano fechado vamos a previsível cor vermelha e uma estrela estilizada na mesma cor sob a sigla PCE de um partido genérico. Pode parecer paranoia desse humilde blogueiro, mas numa estratégia de engenharia de percepção, vermelho, estrela e “PC” (“Partido Comunista”) são alusões sugestivas e contaminantes em um comercial de poucos segundos e com muito movimento e deslocamento de planos de câmera.

Mais além: ao lado desse “santinho” há um de outro partido. Nele vê-se uma mulher sorridente. Não se identificam as iniciais do partido, mas um número bem destacado em amarelo: “73”. Mas a gestalt torna-se ambígua com o movimento da vassoura que varre o lixo eleitoral – em movimento a gestalt confunde-se com “13”, número do PT - veja fotos acima.


(c) Acelera!... o Chevrolet ou Doria Jr.?


Mas a alusão mais explícita vem imediatamente depois: “... e que acelera na direção certa...”. Depois do vermelho, da estrela e do 13 sendo varridos, temos uma inacreditável alusão ao slogan de João Dória Jr. (PSDB-SP) na eleição à Prefeitura de São Paulo: a exortação “Acelera São Paulo!”.

Esse slogan  foi ainda inspirado em outro usado em 2011 num projeto da Secretaria Estadual de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do governo Alckmin (PSDB-SP) – “Acelera SP”.

Obviamente o leitor deve estar pensando: “que blogueiro paranoico! (ou "petralha"?) Você não é muito diferente do espécime usado pela revista IstoÉ! O comercial pede apenas para que o consumidor acelere o novo Chevrolet Cruze...”

Esse pensamento somente incorreria numa ingenuidade semiótica. Ou, pior: em analfabetismo visual. Claro que tomado da forma literal e isolada, a exortação “Acelera!” é unicamente voltada ao consumidor. Mas quando “acelera!” vem acompanhado de toda uma digressão político-ideológico-partidária, o verbo é imediatamente contaminado e, dessa vez, voltado para o cidadão. Como toda bomba semiótica, apenas reforça subliminarmente pautas, slogans e clichês disseminados liminarmente pela grande mídia.

Por isso, quando um comercial pretende se posicionar sobre ética e política para vender um produto, fica a questão: a mensagem publicitária está dirigindo-se para o consumidor ou para o cidadão? Certamente para a criação publicitária, essa questão não se coloca. Afinal, para o universo publicitário no qual acelerar um carro é a mesma coisa que acelerar um país para o futuro, consumo e cidadania são a mesma coisa. O que torna-se semioticamente perigoso e volátil: as palavras ficam perdidas em um reino metonímico no qual slogans de marcas de uísque e de carros facilmente viram slogans “apartidários” para gente supostamente politizada. (Fontes: Blog Cinegnose - AQUI; e Jornal GGN - aqui).