quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

PERSPECTIVAS 2017


Perspectivas para 2017

Por Rui Daher

Serão as perspectivas para 2017, na opinião dos especialistas acolhidos pelas folhas e telas cotidianas, melhores do que as retrospectivas por elas mesmas realizadas para o ano que se vai?
Baita muro, construído com tijolos de argila ideologicamente cozida. Equilibram-se sobre ele sem atentar para formas mais baratas e seguras de fabricá-los e dispô-los sobre o nosso peso.
Não que ranheta esperasse deles, se perguntados, responderem “não sei”. Há um dever de jactância opinativa, por mais sensatas ou estapafúrdias que sejam.
Ma perché mi chiedono, perguntaria o capitão do navio que não voltou a bordo.
A única opinião que me pareceu fazer algum sentido foi a trazida pela Folha de São Paulo, na edição do dia de Natal, de que para nove em cada dez brasileiros, “o sucesso financeiro vem de Deus”.
A melhor peitada que sábios Zés e Marias poderiam dar nos rapazes do mercado financeiro. Algo como “pô, vocês não entendem merda nenhuma, só ganham quando Deus acerta”. O mesmo vale para a indústria, o comércio e os serviços nacionais. Ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, por exemplo, não deve ter faltado reza.
“Todo o sucesso financeiro da minha vida eu devo, em primeiro lugar, a Deus”, fala um entrevistado. Quem viria em segundo lugar? À AK-47 é que não seria. Vive calada.
“As pessoas pobres, em geral, não têm fé em Deus, e por isso não conseguem sair dessa situação”, diz outro entrevistado. Bem que eu tenho recomendado aos repórteres Nestor e Pestana, do nosso Blog-Boteco, no GGN, mais fé, orações e missas. Quem sabe a mira Divina nos alcança e troquemos as cortinas da Redação ... ateus irresponsáveis.
Eu mesmo, neste Natal, um tanto inconsequente, polêmico e impuro, depois da ceia com mulher, filhos, cães e pernilongos, que poucos foram os refugiados para atender tantas consciências pesadas, me pus a ver e ouvir Bergoglio, na Missa do Galo. “É de manhã (...) Vou pela estrada/E cada estrela/ É uma flor/Mas a flor amada/É mais que a madrugada/E foi por ela/Que o galo cocorocó”.
Na minha cabeça, surpreendentemente sóbria, Francisco, em meio àquela parafernália ritualística, declamava os versos de Caetano e pedia uma flor amada que envolvesse cada pobre do planeta.
Entendi Francisco e o estendi não a Deus ou Seu Filho, mas ao revolucionário, indignado com a desigualdade que naquela Basílica, tomada por senhores e senhoras enlutados, caminhava com seus apóstolos fiéis Tito e Beto, Paulo Arns, Leonardo Boff, Che, Castro, “Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus”, ajuda de Bosco e Blanc, também no salmo:
“Grampearam o menino do corpo fechado/E barbarizaram com mais de cem tiros/Treze anos de vida sem misericórdia/e a misericórdia no último tiro”.
Essa a minha religiosidade. Inverter, em 2017, um ano de “muita matraca pra pouco berro”.
Agronegócios em 2017
Precisa? Tá.
O Brasil colherá mais uma safra recorde de grãos. Plantou-se mais, com alto uso de tecnologias convencionais, embora mais caras e menos efetivas se não completadas com tratamentos orgânicos, e o clima está ajudando.
A comercialização será feita a preços menores do que os da safra anterior, não ao ponto ainda de quebrar alguém, mas já no bojo do início de uma etapa altamente protecionista.
No Brasil, as legislações favorecerão a compra de terras por estrangeiros e a liberação de agrotóxicos fabricados pelas multinacionais. Assentamentos agrícolas serão sacrificados e mais se politizarão. Poucas exigências do código de preservação ambiental serão cumpridas.
Direitos constitucionais do trabalhador rural serão retirados. As nações indígenas e quilombolas nem apitos terão. A agricultura familiar continuará a se preservar em luta própria, se enforcando ao dar aos bancos garantias reais, nas formas de seus meios de produção (terras e máquinas). - (AQUI).
....
(Rui Daher escreve semanalmente para a revista CartaCapital sobre agronegócios e afins). 

CARTUM SOMBRIO


S Salvador.

CARTUM DA TRANSLAÇÃO 2016


Jarbas.

CARTUM DO ELEMENTAR


Duke.

PARA PRESERVAR A SOBERANIA NACIONAL


"O Brasil se apresenta como uma nação pacífica, amiga dos EUA. Mas os EUA se comportam como se fossem inimigos do Brasil. Muitos especialistas em política internacional, como o infatigável Moniz Bandeira, têm apontado essa contradição, mas a realidade veio à tona quando se divulgou que a NSA, principal agência de espionagem norte-americana, espionou a Petrobrás e a Presidenta Dilma. A reação da Presidenta foi simbólica: adiou uma visita a Washington. Já a Petrobrás não teve espaço para reagir, pois os próprios EUA, como se sabe hoje, trataram de usar o juiz Sérgio Moro para divulgar os escândalos de seus diretores.
Foi a partir dessa espionagem que se tornaram mais frequentes as viagens do juiz Sergio Moro para palestras e recepção de prêmios nos Estados Unidos. Hoje se sabe com bastante segurança que o juiz e os procuradores da Lava Jato não apenas receberam informações sobre a Petrobrás de autoridades americanas, oriundas da espionagem, como transmitiram ilegalmente a elas informações obtidas em delações premiadas não apenas sobre a Petrobrás mas também sobre a cadeia de empresas privadas em torno dela. Não sou jurista mas, no meu entender, acho que se trata de uma clara situação de crime de lesa-pátria.
O povo ainda não se deu conta de que a corrupção – inequívoca, é verdade – está sendo usada para mascarar a conquista da soberania  brasileira pelo capital financeiro e pelas petrolíferas internacionais, com foco nos EUA. Isso já não se faz com canhoneiras, exceto se uma convulsão social instigada no Brasil pelos próprios americanos resultar numa guerra civil cuja parte contrária às posições deles ameaçar ganhar. Nesse caso entrarão para “defender” a democracia como fizeram no Iraque, na Líbia, no Egito, na Síria, através não só de marines mas principalmente das ONGs que se apresentam como defensoras dos direitos humanos e paladinas contra a corrupção.
Os Estados Unidos não nos dão sequer o status de inimigos. Isso é para a Rússia e a China, que são potências nucleares. Nós, cujo projeto atômico secreto do Exército foi liquidado pelo “democrata” Collor de Mello, merecemos a posição de subalternos. Por imposição deles, sem qualquer contrapartida, assinamos o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Eles não se deram sequer ao trabalho de garantir a nós, e ao mundo, que jamais usarão bombas nucleares em primeiro lugar contra nós ou contra qualquer país. Ao contrário, se dão o direito de tomar a iniciativa de destruir o mundo com a estratégia de “guerra nuclear protegida” – a ideia de desfechar um primeiro ataque e proteger o próprio território tecnologicamente.
Propusemos aos Estados Unidos transformar o Atlântico Sul, nosso vizinho, numa zona não nuclearizada. Já que desistimos de fazer a bomba atômica que nos dessem ao menos o direito de não ter armas atômicas nas nossas costas. Riram de nós. Reativaram a IV Frota, com seu poderio nuclear, certamente com vistas à “proteção” do nosso pré-sal, descoberto por nós com tecnologia nossa, e agora visado por eles com sua ganância peculiar. Apenas num ponto ficaram assustados: quando nos aliamos à China, à Rússia e à Índia na criação dos BRICS. A partir daí passaram a nos sabotar, e o meio adotado foi, adivinhem, a corrupção da cúpula do poder no Brasil. A propósito, estudo do Bank of America Merryl Linch acaba de decretar abertamente que “é hora de dividir os BRICS”, grupo que “nunca fez muito sentido”.
O movimento que demos na direção de uma relativa autonomia geopolítica e geoeconômica, contra a tendência asfixiante da globalização financeira, foi reforçado pela nossa conquista no desenvolvimento de centrífugas para enriquecimento de urânio até 20%, o que nos possibilitará ter combustível nosso para o submarino nuclear que estamos construindo com tecnologia transferida pelos franceses. Provavelmente por ordem dos Estados Unidos o esquema do juiz Moro mandou para a cadeia, com pena de 43 anos, o herói nacional Almirante Othon, do qual não conseguiram arrancar em delação premiada, justamente por ser um herói, a rota no mercado negro dos equipamentos usados para construir as centrífugas.
Espero que os militares leiam e reflitam sobre esse artigo. Se quisermos preservar nossa soberania temos que nos aliar a potências não subalternas aos Estados Unidos. O caminho é óbvio. Um tratado de proteção recíproca no âmbito dos BRICS pelo qual se ofereça à Rússia e à China, e preferivelmente às duas simultaneamente, uma base militar na costa brasileira em condições de defender o pré-sal e o Atlântico Sul. O presidente que se opuser a isso deve ser afastado por desídia em relação a interesses fundamentais do Brasil. Com esse tratado poderemos dormir em paz sem precisar de armas nucleares sob nosso controle, obedecendo ao que ordenou a Collor o governo norte-americano."



(De José Carlos de Assis, economista e professor, post intitulado "Um meio de ter proteção nuclear sem os custos de fazer a bomba", publicado no Jornal GGN - aqui. 
Post de autoria de Luis Nassif, reproduzido neste blog - aqui - sob o título "O MPF, a soberania e o Brasil", certamente contribuirá para o entendimento da conjuntura acima exposta.

A situação é complexa, mas a alternativa de base militar estrangeira na costa brasileira parece demasiadamente heterodoxa, para dizer o mínimo.

De qualquer modo, ressalte-se o trabalho de cooperação da promotoria suíça no deslindamento do emaranhado dos propinodutos desenvolvidos por meliantes brasileiros. A Suíça, afinal, após décadas de silêncio ante fundadas suspeitas de ser paraíso fiscal, resolveu romper a blindagem, expondo à luz do sol falcatruas as mais variadas. No caso brasileiro, o que se está, agora, a imaginar é quais seriam os resultados de eventual investigação, pela mesma promotoria, sobre transações corruptas verificadas em períodos anteriores a 2003 - ano 'curiosamente' estabelecido pela força tarefa Brasil como marco inicial, quando até mesmo executivos condenados pela Lava Jato, a exemplo de Pedro Barusco, dão conta de que o assalto aos cofres da Petrobras já vinha acontecendo desde meados dos anos 90, quando do governo FHC).  

O HORROR, O HORROR


André Farias.

É TUDO QUASE-VERDADE: A SAGA DE UM FILÓSOFO


Newton da Costa, um lógico em busca da quase-verdade

Por Fernando Tadeu Moraes 

Reconhecido internacionalmente por ter desenvolvido a lógica paraconsistente, o curitibano Newton da Costa, talvez o mais destacado brasileiro no campo da filosofia e da lógica, fala nesta entrevista sobre sua carreira e a continuidade de seus esforços no esclarecimento do que é o conhecimento científico.

Aos 87 anos, o lógico e filósofo Newton Carneiro Affonso da Costa não cogita parar de pesquisar e de ensinar: "Se me tirarem isso, vão me tirar tudo".

Mais intimidado pela envergadura de da Costa como pensador do que impressionado pelo seu vigor intelectual, este repórter reencontra seu antigo mestre –foi seu orientando no mestrado até 2011– para uma conversa de cerca de duas horas. Há seis décadas, o pesquisador dedica-se integralmente à construção de uma obra que, para muitos, é a mais relevante da filosofia brasileira.

Autor de títulos de referência como "Ensaio sobre os Fundamentos da Lógica" (Hucitec) e "O Conhecimento Científico" (Fapesp), ele é também o criador da chamada lógica paraconsistente, teoria considerada como um dos maiores desenvolvimentos no campo da lógica na segunda metade do século 20.

Nascido em 1929, em Curitiba, Newton da Costa fez toda a sua carreira dentro de universidades brasileiras, embora tenha passado por instituições de Austrália, França, EUA, Polônia, Itália, Argentina, México e Peru como professor visitante ou pesquisador.

Inicialmente, trabalhou na Universidade Federal do Paraná, onde também se formou e fez doutorado. Transferiu-se para a Universidade de São Paulo no final dos anos 1960, tendo lecionado primeiro no Instituto de Matemática e Estatística e, depois, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas –sempre como professor titular.

Aposentado e cansado de São Paulo, mudou-se com a companheira de seis décadas, Neusa, para Florianópolis, onde moram dois de seus três filhos. Desde 2002, é professor voluntário no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina e ministra toda semana um seminário para a pós-graduação. Concomitantemente, mantém sua pesquisa –atualmente voltada para os fundamentos da mecânica quântica–, publicando nas mais importantes revistas de filosofia do mundo.

Da Costa é reconhecido sobretudo pelo desenvolvimento de um tipo de lógica diferente da clássica, a paraconsistente, hoje amplamente estudada. Seu trabalho, em resumo, põe em xeque o princípio da não contradição –segundo o qual uma sentença qualquer e sua negação não podem ser ambas verdadeiras–, um dos pilares da lógica clássica.

O filósofo paranaense mostrou que é possível construir sistemas lógicos que admitam contradições sem por isso se tornarem triviais, isto é, sem que a verdade e a falsidade se tornem indistinguíveis dentro deles. Suas ideias, divulgadas em mais de 250 trabalhos, estendem-se para a filosofia da ciência, a filosofia da física, as teorias da verdade, os fundamentos da matemática, a economia, a teoria da computação e o direito, entre outros campos.

Apesar da abrangência e da importância de sua obra, o professor afirma que gostaria de deixar como legado sobretudo dois traços que, segundo ele, pautaram sua jornada intelectual: a independência de espírito e a autocrítica.
*
Como era o ambiente intelectual na sua casa, durante a infância e a adolescência?
Newton da Costa - Eu tive muita sorte, pois minha mãe era professora de francês. Com ela eu li vários autores franceses, e começou uma grande admiração pela filosofia, pela literatura e pela França em geral. Convivi muito também com duas tias, uma que era professora de inglês, e outra de história da música, que me ensinaram muita coisa nesses campos. Houve ainda a influência do meu tio Milton Carneiro, que era professor na Federal do Paraná. Ele foi uma verdadeira mola propulsora para mim.

Por quê?
Ele tinha uma biblioteca impressionante e me incentivou a pensar e a ler filosofia. Quando eu completei 15 anos, ele me chamou para almoçar e, durante a refeição, me perguntou: "Newton, você é capaz de provar que existe?". Eu disse, "bom, eu estou aqui, então eu existo". Ele me respondeu, "isso pode ser sonho". Aí eu digo, "penso, logo existo", e ele, "isso mostra que existe pensamento", e assim foi indo. Então eu percebi que, na verdade, você não pode provar que existe. A existência é uma coisa contingente. Aí começou o meu interesse por filosofia e, depois, pela matemática.

E, no entanto, o senhor primeiro foi estudar engenharia civil. Por quê?
Eu gostava de matemática. Na época, pareceu-me que a escola de engenharia tinha mais possibilidades de me oferecer alguma coisa. Já existia a faculdade de matemática, mas os professores ganhavam muito mal. Então optei pela engenharia, mas quando cheguei ao terceiro ano, já não queria saber de engenharia. No fim das contas, o curso serviu para algumas coisas, como mostrar aplicações da matemática. Hoje, no entanto, eu teria entrado diretamente, como depois fiz, no curso de matemática.

Como foi no curso de matemática?
Na matemática foi diferente. No início dos anos 1950, estava no Paraná o professor João Remy Teixeira Freire, um português que conhecia bem matemática, e ficamos muito amigos. Ele me colocou em contato com matemáticos de São Paulo e do exterior, e foi o impulso final que fez com que eu me dedicasse exclusivamente à lógica, à matemática e à filosofia.

No início dos anos 1960, o senhor se tornou professor da Universidade Federal do Paraná. Como era o ambiente acadêmico naquela época?
A Universidade do Paraná, naquele momento, era uma escola que ensinava, mas não havia pesquisa. E o pior era que, com algumas exceções, a maioria dos professores não tinha consciência do que significava uma universidade. Então eu me esforçava enormemente em fazer alguma coisa pela instituição, mas chegou um ponto em que percebi que não era possível, que se eu quisesse ficar no Brasil, a única possibilidade era ir para São Paulo.

Por que São Paulo?
Ah, lá o ambiente era totalmente diferente. A Universidade de São Paulo sistematicamente entrava em contato com pesquisadores de outros centros, havia gente de outros países e realmente se fazia pesquisa matemática por lá.

Na USP, o senhor passou primeiro pelo Instituto de Matemática e Estatística e, depois, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Como foi a sua experiência nesses locais?
No Instituto de Matemática, minha convivência com alguns colegas era muito boa, mas com outros havia certo atrito. Aliás, até hoje, quando converso com gente de lá, dizem que é uma brigalhada. Uma vez, eu fui convidado para ir à Polônia para ajudar na produção de um número de uma revista em minha homenagem. Quando voltei, alguns colegas acharam ruim, porque eu vivia viajando para receber prêmios e fazer conferências, e criaram um problema enorme para mim. Essa foi uma das razões pelas quais eu me aposentei e saí do IME. Fui para os Estados Unidos. Depois de um período, a Marilena Chaui e o João Paulo Gomes Monteiro me convidaram para voltar ao Brasil para criar um grupo de lógica na filosofia da USP.

Na filosofia foi melhor?
Muito melhor, totalmente diferente, porque lá ninguém se metia na vida do outro. Eu conseguia fazer o que queria: trabalhar, produzir e publicar.

E depois o senhor veio parar em Florianópolis...
A vida estava muito difícil em São Paulo. O dia a dia era complicado; o trânsito, horrível. Grandes amigos, como Edison Farah, haviam morrido. E como meus filhos viviam aqui e alguns ex-alunos eram professores por aqui, após me aposentar, resolvi vir.

Gosta daqui?
Muito. Aqui, pelo menos, você tem vida. Porque em São Paulo... Eu estive lá recentemente, até atravessar uma rua é complicado.

O senhor gosta de música, literatura?
Sempre adorei música, mas, lastimavelmente, apenas música de um certo tipo. Não aprecio música popular, talvez por falta de gosto. Considero genial as coisas feitas por Chopin, Beethoven, Bach... Cheguei a estudar música e composição, mas nunca fiz nada. Quando eu estou meio deprimido, uma coisa que me faz muito bem é escutar música clássica, sobretudo, dos românticos alemães, como Mendelssohn e Schumann.

E literatura?
Gosto muito, sobretudo da literatura francesa, Victor Hugo, [Paul] Valéry, por exemplo. Já li muita coisa e até cheguei a compor alguns versos.

O senhor também escreve poesia?
Eu escrevo por uma espécie de força interior. Sempre achei que, por meio de ciência, matemática, lógica, você só vai até certo ponto. Se quiser ir além disso, tem de ser de outro modo. Para mim, a parte artística preenche um vácuo. Mas eu só publiquei um trabalho [assinado com um pseudônimo], por insistência de um amigo. Eu adoro poesia como uma saída, um complemento da ciência e da filosofia.

Com 87 anos, o senhor continua dando aulas e produzindo artigos. Como explica esse vigor?
Não tem muita explicação. Quando eu não puder fazer mais essas coisas, aí sim eu morri. Eu fico entusiasmado quando consigo ajudar alguém. É uma distração, me faz bem. Se me tirarem isso, vão me tirar tudo.

O senhor sente os efeitos da passagem do tempo sobre o seu intelecto, sobre a sua criatividade?
A memória eu sinto que vem caindo. O vigor também diminuiu. Fisicamente eu sinto que a coisa está cada vez pior, mas a parte intelectual, no sentido de ter senso crítico, continua intacta. Eu percebo que minhas aulas não são como eram quando eu era mais jovem, mas, mesmo assim, ainda sinto que posso transmitir ideias, coisas novas.

Quais foram os filósofos que mais o influenciaram?
Acredito que o filósofo que mais li e que mais me influenciou foi Bertrand Russell, sobretudo pela sua atitude, sempre rebelde, embora sua obra seja grandiosa.

Outros são [Rudolf] Carnap, Marcel Guillaume, [Willard van Orman] Quine, de quem eu era amigo. Tenho uma grande admiração também por dois filósofos, ambos assassinados pelos alemães na Segunda Guerra, Jean Cavaillès e Albert Lautman, além de [Léon] Brunschvicg, de [Henri] Poincaré e [Federigo] Enriques. Mas isso não quer dizer que eu aceite "ipsis litteris" todas as coisas que esses pensadores fizeram ou escreveram. Todos esses filósofos me influenciaram muito, mas não no sentido de eu ser um filhote deles, por assim dizer, alguém que siga suas ideias.

Essa não é a maneira mais sensata de exercer influência. Você deve dar as diretrizes, chamar a atenção para grandes problemas, o resto é com os outros. Detesto esse negócio de cabresto. Nunca fui conduzido e nem quero conduzir ninguém assim.

Quanto à sua obra, o sr. é conhecido sobretudo pelo desenvolvimento da lógica paraconsistente. Considera-a seu trabalho mais importante?
Pelo menos é o que mais sacudiu as pessoas. Hoje em dia, falar de lógica paraconsistente é uma coisa meio pacífica, mas no começo a situação era muito diferente. Lembro que, enquanto ainda estava no Paraná, comentei sobre a lógica paraconsistente com um padre, que era professor da universidade, e ele me disse que achava que eu estava ficando maluco. De fato, na época, era algo quase impensável. Hoje, o desenvolvimento da lógica paraconsistente é uma loucura, com aplicações em controle de tráfego aéreo, medicina, economia, por exemplo. Há umas histórias engraçadas do começo da lógica paraconsistente.

Poderia contar alguma?
Um dos meus grandes amigos, Jayme Machado Cardoso, professor de geometria, uma vez me disse que achava que a lógica paraconsistente era uma grande tapeação. Quando meus primeiros trabalhos começaram a sair na Academia de Ciências de Paris, fui mostrar para o Jayme. Ele então me disse: "Newton, eu tiro o chapéu para você. Para tapear nesse nível, você tem que ser muito inteligente!".

Que outros trabalhos o sr. destacaria na sua carreira?
Outro trabalho importante, que vem logo em seguida, é a teoria da quase-verdade. Muitas pessoas pensam que a ciência busca a verdade, mas não é isso. Você a busca, mas nunca a atinge. Então vamos deixar de lado um pouco a verdade e dizer que a ciência, sobretudo no caso da física, busca a quase-verdade. Ela busca teorias que salvam as aparências. No fundo, tudo se passa como se determinada teoria fosse verdadeira naquele domínio de aplicação. A mecânica clássica de Newton não é verdadeira, pois a mecânica relativística de Einstein é mais precisa. Mas muita gente ainda usa a mecânica clássica, sobretudo engenheiros, para fazer aviões e pontes, pois a mecânica clássica funciona bem nesses casos, ela é quase-verdadeira.

E no que o sr. vem trabalhando nos últimos tempos?
Hoje eu trabalho com fundamentos da mecânica quântica, inclusive com um grupo de pesquisadores da Argentina, e tenho publicado sistematicamente nessa área. Estamos tentando entender o significado da mecânica quântica, uma teoria completamente fora das normas usuais da física clássica, e de modo especial, a teoria quântica de campos.

Acha que sua obra é mais conhecida fora do Brasil do que aqui dentro? Ressente-se disso?
É difícil dizer, mas tenho a impressão que sim. Não [me ressinto], porque esse desconhecimento se dá com relação a quase todas as coisas boas feitas em ciência e filosofia no Brasil.

Há algum problema que resume as suas reflexões filosóficas?
Uma questão que me acompanha desde o começo é a pergunta "o que é o conhecimento?", especialmente o conhecimento científico. É o problema da minha vida.

O senhor chegou a uma conclusão?
Entendo o conhecimento científico como uma atividade de busca da quase-verdade. Uma busca racional da quase-verdade, de acordo com uma lógica. Essas verdades parciais, daqui a um tempo, talvez se transformem em verdades, mas isso é outro problema.

Que legado gostaria de deixar para a filosofia brasileira?
Mais do que as minhas obras, eu gostaria de deixar o meu exemplo como legado. Que a pessoa trabalhe e erre por conta própria, ou seja, que tenha independência de espírito, e acho que essa é também a mensagem de Russell. Independência de espírito e autocrítica são as coisas mais importantes que existem para o pensamento. A filosofia consiste em investigar, investigar, investigar e provavelmente nunca chegar à certeza absoluta de nada.

Um destino trágico, não?
Mas a vida toda é trágica. Quando você chegar na minha idade, vai ver: mesmo com quase 90 anos, não sei o que é a vida. Não sei nem por que estou aqui.

Mudando de assunto, como vê, de maneira geral, a pesquisa em filosofia feita no Brasil?
A minha impressão é que não se faz filosofia propriamente no Brasil, e acho que vai demorar bastante para isso acontecer. Aqui se faz sobretudo exegese. A pesquisa é muito concentrada em autores, na exegese de alguns filósofos.

No começo, o argumento era o de que todo estudante de filosofia deve fazer a exegese de algum autor para depois pensar sozinho, mas, pelo menos em lógica e filosofia da ciência, isso não faz sentido. Você pode fazer grandes contribuições sem precisar estudar [Karl] Popper, por exemplo. E aqui, pior ainda, não se tem o hábito de publicar nem em espanhol. Não se vê praticamente nada em inglês. Assim, mesmo se a pessoa fizer um grande trabalho, ninguém vai saber se ela só publicar em português.

Qual é a razão disso?
Não sei, o Brasil tem essa tendência histórica de focar na história da filosofia. Essa parte vai bem por aqui, há pessoas que fizeram coisas muito bonitas nesse campo. Mas não há muito incentivo para o pensamento independente. Parece que o Brasil, desde que foi descoberto, vive de reflexos, e não de produzir luz própria. Esse, porém, é um problema da América Latina inteira, e mesmo nos Estados Unidos, o máximo que eles fizeram lá de novidade foi o pragmatismo, com [William] James, [Charles] Peirce. É difícil você transformar isso aqui numa Alemanha, é enrolado. Precisaria mudar tudo, a começar pelas nossas universidades.

Como acha que a formação universitária em filosofia no Brasil deveria ser?
Na minha área, pelo menos, de lógica e filosofia da ciência, precisa mudar completamente. É preciso que o aluno tenha logo bons cursos de lógica, alguns cursos de matemática e de física. Ou talvez separar. Na Inglaterra, se não me engano, em alguns lugares você faz uma divisão entre aqueles que se interessam por filosofia da ciência e coisas correlatas, os que se interessam por ética, os [entusiastas] da metafísica, os da estética etc. Assim você prepara melhor a pessoa. Como você vai falar de mecânica quântica se você não conhece isso? O complicado aqui no Brasil é que você vê gente que se intitula filósofo da física e não sabe física. É uma coisa no mínimo estranha.

O que é fazer filosofia para o sr.?
Significa produzir, nas áreas usualmente consideradas partes da filosofia, como estética, ética, lógica e fundamentos da ciência, ideias originais. E elas precisam existir, o que quer dizer, ser publicadas e estar abertas à discussão e à crítica.

O sr. gosta de ser chamado de filósofo?
Gosto de ser chamado de lógico e filósofo da ciência. É isso que eu sou.

....

Fonte: Folha de São Paulo; post reproduzido pelo Jornal GGN - AQUI.

ECOS DA BOA NOVA


Pelicano.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

SOBRE OS BENEFÍCIOS DE CEM BILHÕES DE REAIS PARA AS TELES


O que o queijo tem a ver com o escândalo das teles? 100 bilhões de conexões

Por Lenio Streck

Começo com uma provocação: Em um país em que aquele que provoca tumulto em um posto de gasolina Petrobras situado em Agudo ou em Inhambu corre o risco de ser julgado em Curitiba face à competência infinita da operação "lava jato", eis, aqui, um prato cheio e uma grande oportunidade de os procuradores e o juiz estenderem seus tentáculos para um esquema de corrupção que pode ocasionar cinco vezes mais prejuízos do que o caso Petrobras.
Como a "lava jato" pode ser competente? Sei lá. Não faço a mínima ideia. Estou apenas metaforizando. Moro sempre dá um jeito de ver e encontrar uma conexão. Aqui, uma ideia: o escândalo de que falo é o da Lei Geral das Telecomunicações, que concede benefícios às teles no valor de R$ 100 bilhões. Tão escandaloso que a Ministra Cármen Lúcia concedeu liminar para trancar a tramitação relâmpago no Senado (para evitar, inclusive, de corrermos o risco de o Presidente Temer sancionar).
Qual é a tese da conexão, então? Simples: como se trata de um escândalo envolvendo telecomunicações e como todos os envolvidos possuem telefones celulares e alguns componentes dos aparelhos vem do petróleo, bingo. Eis a conexão para levar tudo para Curitiba. Tudo sempre está interligado, como na história do sujeito que dá uma bofetada no outro por tê-lo chamado, por dedução, de “corno”. Afinal, o desafeto ofereceu-lhe um pedaço de queijo. Que vem do leite. Que vem da vaca. Que tem chifres. Simples, pois.
É uma blague, mas estou provocando a seletividade reinante no combate à corrupção em Pindorama. O Procurador-Geral da República já deveria ter entrado em campo. Ele mesmo deveria ter entrado com a ação para evitar a criação desse monstrengo de mais de R$ 100 bilhões (isso é demonstrado por várias fontes: o próprio mandado de segurança, informações do Tribunal de Contas, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a Associação Brasileira de Procons e outras 18 organizações civis assinaram uma nota de repúdio contra o ato da Mesa Diretora do Senado Federal que rejeitou recursos parlamentares que pediam a análise em plenário do projeto de lei; basta procurar no Google).
Até a revista Veja falou no assunto, mostrando de onde veio o “presente” para as Teles. Está lá, bem claro, como f(Oi), ao vivo, tim tim por tim tim. O que quero lembrar? Quero lembrar os gritos (histéricos) dos parlamentares na hora do afastamento da Presidente Dilma: “ - pelo Brasil, por meus filhos, por um país decente, pela Lava Jato, por meus cachorros, por minha namorada, por minha amante etc”.  Como se começasse um Brasil do zero. Ora, ledo engano. Ilusão de quem acreditava nisso, hipocrisia de quem se aproveitou da situação. Basta ver o número de pessoas que estão listadas nas delações.
Portanto, um aviso aos moralistas de plantão: não existe uma sociedade sem vícios. Como já tantas vezes contei aqui, temos de reler, constantemente, a fábula das abelhas do barão de Mandeville:  Vícios privados, benefícios públicos. As abelhas que tentaram zerar os vícios a qualquer custo – que eram as abelhas moralistas - , ajudaram a colocar a sociedade no caos, a ponto de pedirem para a rainha que restaurasse os vícios. Está lá na fábula. Leiam. Daí a máxima: vícios privados, benefícios públicos. Só que, em Pindorama, o lema é: vícios públicos, benefícios privados. Invertemos a fábula do Barão.
Tentando ser mais simples, o episódio do Telegate (ou os bilhões natalinos das teles) apenas mostra que, em uma democracia, temos de seguir as regras do jogo. Não se tem como obrigar a que as pessoas sejam virtuosas. De que adianta fragilizar direitos fundamentais? De que adianta violar garantias e querer legitimar provas ilícitas obtidas de “boa fé”? De um lado se faz isso... e de outro vem um escândalo cinco vezes maior. Isso apenas prova que o patrimonialismo brasileiro tem raízes fortes. E que, no combate à corrupção, não existem bons e maus corruptos. Não dá para ser seletivo.  Mas não dá, mesmo.
Que este escândalo das teles (o TeleGate) seja um exemplo de que não podemos escolher inimigos. Que devemos ser imparciais no combate à corrupção. E que há vários modos de fazer corrupção. Pode-se receber dinheiro de caixa dois, etc aos moldes Lava Jato; mas também é possível entregar mais de 100 bilhões para empresas – cujo dinheiro daria para tapar o dito déficit da Previdência. As abelhas entendem bem isso?
Sendo sarcástico mais uma vez: O que mais dói é ver que as multas que as Teles receberam durante esses anos foram apagadas no tal projeto. Tudo ao Vivo. Bem Claro. Com um Oi para a malta. Mas tudo Tim Tim por Tim Tim (desculpem-me o trocadilho). Todos os meus telefonemas para o Procon, meus stresses com o 0800 foram em vão. Quero ver denúncias, agora, falando no clássico “lavagem de dinheiro e formação de quadrilha” ou coisas do gênero. Se o instituto da conexão “funcionar” – se me entendem a ironia – as celas de Curitiba deverão ser esvaziadas para novos hóspedes.
Ou não?
(Fonte: Site Consultor Jurídico - AQUI).

................
Quantos editoriais a grande mídia dedicou à condenação dessa excrescência chamada Telegate? Quantas abordagens enérgicas foram veiculadas no JN, tão cioso que foi ao convocar as manifestações contra o governo golpeado? A bolsa mídia é mesmo um fenômeno.

FLAGRANTE DA VIDA SURREAL


J Bosco.

APÓS DENÚNCIA, VERBA PARA LANCHE NABABESCO PRESIDENCIAL É CANCELADA


Jarbas.

A TRANSAÇÃO PETROBRAS TOTAL SEGUNDO A FRANÇA


A repercussão da transação Petrobras/Total na imprensa francesa

Por Conceição Lemes, no Blog Viomundo

Na última quarta-feira (21/12), a Petrobras fechou um acordo com a petroleira francesa Total estimado em US$ 2,2 bilhões.
Ele prevê a cessão à Total dos direitos de exploração destas áreas do pré-sal: 22,5% do campo de Yara e 35% do campo de Lapa, que começou a operar no dia anterior na Bacia de Santos.
O acordo envolve ainda compartilhamento de terminal de regaseificação e transferência de fatias em térmicas, entre outros negócios.
Para a imprensa francesa, a Total fez um bom negócio com a Petrobras.
O Les Echoes (tradicional diário francês de economia) destaca (o negrito é nosso):
Esses campos “guardam reservas gigantescas de petróleo e o valor pago foi interessante.
(…) as reservas do grupo francês serão acrescidas de 1 bilhão de barris, a um custo estimado entre US$ 1,75 e US$ 2,4 o barril. Nas reservas adquiridas anteriormente pela companhia, o preço do barril custou US$ 2,55.
A Radio France Internationale, também conhecida como RFI, em matéria transmitida para o mundo inteiro na sexta-feira, 23 de dezembro , conclui:
“a Total pagou pouco em relação ao que vai lucrar extraindo o petróleo brasileiro”.
A RFI é uma rádio pública francesa, com sede em Paris.
O Viomundo conversou com João Antônio de Moraes, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), sobre essa repercussão.
Viomundo – O que achou da avaliação da imprensa francesa?
João Antonio de Moraes — Só confirma o que a FUP e os movimentos sociais vêm denunciando há bastante tempo. A gestão Pedro Parente-Michel Temer está entregando nossas reservas de petróleo a preço vil.
Veja bem. É a imprensa francesa assumindo que a França está levando grande vantagem em cima do Brasil ao se apossar de nossas reservas de petróleo a um preço muito aquém do mercado internacional.
Viomundo – O que significa esse acordo com Total?
João Antônio de Moraes – Perda de soberania energética. Ele fere a nossa soberania energética, independentemente do preço.
E, mais uma vez, confirma que o golpe, longe de ser para combater a corrupção, veio para entregar as riquezas do nosso povo e liquidar os direitos trabalhistas. A questão energia também estava no centro dos golpes contra Getúlio Vargas e João Goulart.
Viomundo – Explique melhor.
João Antônio de Moraes – Nos anos 50, houve uma tentativa de golpe contra o presidente Getúlio Vargas. Foi logo após a criação da Petrobras.
Já João Goulart, depois de tomar posse, havia dito que iria nacionalizar as refinarias de petróleo. Na sequência, ele foi vítima de um golpe. E a exemplo desses dois golpes, o contra a presidenta Dilma veio para entregar as nossas riquezas.
Viomundo – Supondo que o preço fosse justo, valeria a pena vender esses ativos à Total?
João Antônio de Moares – Ainda assim seria ruim para o Brasil, pois o país perderia controle sobre reservas extremamente estratégicas. As áreas sob o controle da Petrobras garantem o abastecimento do Brasil. Já sob o controle da Total garantem o abastecimento da França.
Viomundo – O que fazer?
João Antônio de Moraes — Mais do que lamentar, a gente tem que lutar e resistir para impedir que essa situação continue. E nisso os blogs da imprensa alternativa, progressista, como o Viomundo, têm um papel importante em divulgar o que a grande mídia esconde todos os dias. (Aqui).

CARTUM BISSEXTO


S Salvador.

A IDEOLOGIA SEPARATISTA


A direita sulista na ideologia de Curitiba

Por André Araújo

A cruzada moralista de Curitiba tem forte enraizamento em uma faixa de opinião pública cristalizada  numa direita antinacional, com raízes separatistas, que tem longa sedimentação nos embates entre correntes em disputa pelo poder no Brasil moderno. Uma história nada pacifica e nada mansa, a História do Brasil é violenta, destrutiva, conflituosa e dada à fragmentação do poder.
Essa direita sulista vê no Norte-Nordeste uma raiz dos males do Brasil em contraste com o Sul operoso, virtuoso e honesto. Essa direita acha que o Sul estaria melhor separado do resto do Brasil. Essa é a base dos chamados "movimentos separatistas" que foram combatidos por Getúlio no Estado Novo, este aliás nasceu entre outras razões para combater um rebrotar desses sentimentos na década de 30. Vargas usou a força policial para enfrentar espasmos  regionalistas de natureza étnica nas áreas de colonização alemã e italiana, durante os anos 30 e 40 e, especialmente, durante o período de guerra.
Não é, portanto, coincidência que a operação anticorrupção tenha seu epicentro em Curitiba e seus condutores em nomes de origem italiana.  Curitiba é a sede do movimento separatista O SUL É MEU PAIS, fundado em 1992 por Adilcio Cardorin, movimento que tem existência legal e que pretende desligar o sul do resto do Brasil. Todo conjunto de sinais emitidos a partir da operação anticorrupção leva a mensagem de um profundo desprezo pelo Brasil tradicional, da mesma gênese pela qual os milaneses manifestam seu maior desprezo pelo Sul da Itália, "depois de Roma começa a África", já dizia minha bisavó veneta. Os lombardos preferindo se considerar parentes dos alemães do que primos dos atrasados do Sul.
Nem se diz aqui que a força-tarefa tem ligação direta com esses movimentos, mas o ambiente local emana fluidos de uma certa visão do Brasil – que não é aquela da grande integração que o império lusitano conseguiu impor do Oiapoque ao Chui e depois consolidada pelos dois Imperadores da Casa de Bragança, que sufocaram levantes e revoltas contra a unidade nacional na vastidão do território continental. A continuidade territorial do Brasil mantida contra todas as tendências de fragmentação que prevaleceram na America Espanhola mostra uma imensa força  da vontade lusófona, ao manter tão vasta região sob uma só bandeira.
Esse grande Estado brasileiro é a criação da Coroa portuguesa, da Igreja Católica e das Forças Armadas, esse Estado não é um aglomerado de colônias de alemães, polacos, italianos, o Estado brasileiro é a criação de gigantes vultos do passado que atravessaram a pé o território de São Vicente  para as fronteiras da Colômbia e depois dessa luta titânica de séculos vêm comedores de macarrão dizer "o Sul é meu Pais" como se fossem eles que tivessem criado o Brasil.
Na Itália, precursora de uma Operação Mãos Limpas que serve de modelo à operação de Curitiba, o sentimento separatista implícito em um Norte virtuoso e um Sul corrupto a ser combatido produziu como rescaldo um forte partido separatista, a Lega Lombarda de Umberto Bosi na esteira da completa liquidação dos partidos centrados em Roma e no Sul, especialmente a Democracia Cristã que salvou e recuperou a Itália do pós guerra.
A destruição de todo sistema político causado pela Mãos Limpas na Itália é a meta não escrita da Operação de Curitiba. O sistema político do pós-guerra que trouxe à Itália décadas de prosperidade foi eliminado pela Mãos Limpas, levando a Itália a 30 anos de decadência, paralisia econômica e regressão social e política, situação que os admiradores da Mãos Limpas preferem não comentar.
A cruzada moralista, apoiada pela direita sulista, tem em São Paulo o suporte de uma definida parcela da opinião publica que gira em torno dos grandes escritórios de advocacia corporativa, dos bancos de investimento, das consultorias econômicas e empresariais, das escolas de "business" de ponta (Insper e FGV), um mundo globalizado e mais ligado ao exterior que ao Brasil profundo. Todavia, a expressão repetida ad nauseam pela GLOBO de que a operação de Curitiba tem o apoio da opinião publica, como se esse apoio fosse unânime, é falsa e manipulada.
Um dos apoiadores mais simbólicos da operação anticorrupção, o prof. Modesto Carvalhosa, um dos líderes dessa opinião pública paulista, que vê nas empresas brasileiras a emanação do demônio e nas estrangeiras as representantes celestiais do bom comportamento, disse (dias atrás) na Rádio Jovem Pan que todas as empreiteiras deveriam ser fechadas e no seu lugar seria ótimo virem empreiteiras suecas.
Um emblemático apoiador da Lava Jato na mídia é Diogo Mainardi, um dos maiores detratores do Brasil como Pais, seu meio de vida é falar mal do Brasil e dos brasileiros, mais um italiano da Lava Jato a mover essa corrente antibrasileira, lembra em seu blog e programa de TV quão horrível é o Brasil, quão bom são os EUA, país corretíssimo e onde não há corrupção nem em Wall Street.
Mainardi pode ser considerado o mascote da operação anticorrupção, pois esta confirma suas piores prédicas sobre o Brasil. Tem um apoio específico desse grupo social que vê na operação de Curitiba uma força modernizadora e dentro da agenda global de transparência e governança que eles cultuam.
Essa agenda global é mais uma espécie de teatro do que realidade, os grandes blocos geopolíticos do mundo, Rússia, China e Índia, não seguem esse agenda e o pais líder desse movimento de transparência e governança, os EUA, está dando marcha à ré no próximo Governo Trump. Portanto, essa agenda é mais desejo que realidade, aqui vendida como algo universal e incontroverso quando é de fato uma agenda especifica de um grupo ideológico politicamente correto que está longe de ser unânime no mundo, tanto que o líder de uma plataforma política que contesta essa agenda foi eleito Presidente dos EUA.
A agenda americana de transparência e férreo combate à corrupção e aos crimes financeiros é coisa de Hollywood e não de realidade. Na mega crise de 2008, ninguém foi punido, ninguém foi condenado e ninguém foi preso. E o rombo foi de 700 bilhões de dólares, não gerou sequer um inquérito, portanto é lenda que o Departamento de Justiça combate a ferro e fogo o crime financeiro; é LENDA, repetida pelos bobos alegres da mídia brasileira; há poucos dias, no programa Três em UM da Jovem Pan, foi dito "olhe, eles não perdoam crimes financeiros, veja o que eles fizeram na crise de 2008". Não fizeram nada!, vocês não sabem nada.
O Departamento de Justiça está fazendo a festa com empresas brasileiras, levadas de bandeja para serem tosquiadas em Washington, dinheiro que sai do Brasil para os cofres do Tesouro americano sem que se saiba sob que estatuto legal uma potência estrangeira pode cobrar multas de empresas brasileiras por delitos cometidos no Brasil ou em terceiros países por brasileiros que não estão sujeitos às leis americanas e não lesaram interesses americanos; qual a justificativa dos EUA cobrarem multas no Brasil? (Fonte: aqui).

...............
"... qual a justificativa dos EUA cobrarem multas no Brasil?"

A alegação é a de que qualquer empresa estrangeira que realize transação bancária em território americano (ordem de pagamento, transferência entre contas etc) passa a situar-se sob jurisdição do Departamento de Justiça dos EUA, sujeita, em decorrência, aos 'rigores da lei' - revogadas quaisquer disposições em contrário, obviamente.

Quanto ao Nordeste, bem, o fascismo jamais deixou de mirá-lo, e esse abjeto sentimento é, pelo visto, eterno. E felizmente inútil.