quarta-feira, 29 de julho de 2015

PESQUISA REVELA QUE MENOS DE 5% DOS BRASILEIROS CONFIAM NA IMPRENSA

                    (Apenas 4,8% das pessoas confiam na imprensa).

Dodó Macedo. 

SMARTPHONE LOOK


Liam Walsh.  (In The New Yorker magazine).

O ESTRATÉGICO BNDES


A Odebrecht e o BNDES

Por Mauro Santayana

Nos últimos dias, diários e portais jornalísticos vêm dando ênfase à informação de que os empréstimos do BNDES para a Odebrecht haviam disparado de 2007 até agora, e que os diplomatas brasileiros que prestam serviço na Venezuela e em outros países teriam apoiado a empresa e celebrado, em comunicados e correspondências internas, o fato de seus negócios no exterior terem aumentado nos últimos anos. 
Chamam a atenção sobre isso como se houvesse algo irregular nesses dois fatos.
Primeiro lugar, no fato de que o nosso maior banco de fomento, que leva em suas siglas os adjetivos “econômico” e “social”, financie clientes internacionais da maior empresa de engenharia e construção da América Latina, a aquisição de produtos e serviços brasileiros.
Logo, na ação dos diplomatas brasileiros, apoiando a expansão de empresas nacionais no exterior, como o fazem cotidianamente os embaixadores e encarregados de negócios norte-americanos em todo o mundo, como se pode ver em centenas de documentos secretos revelados pelo Wikileaks.
De acordo com os dados levantados, os financiamentos do BNDES a clientes da Odebrecht no exterior haviam superado uma média de 166 milhões de dólares por ano, de 1998 a 2005, a um bilhão de dólares em média de 2006 a 2014.
Uma quantia que equivale a um percentual – como o próprio artigo acaba informando mais abaixo – de apenas 8,4% dos contratos totais da Odebrecht fora do Brasil no período, que totalizaram 119 bilhões de dólares, em sua maioria emprestados por bancos internacionais – o que mostra também que o BNDES não é o único a ter confiança na empresa – para o financiamento da execução de projetos dos seus clientes em outros países.
Para se ter uma ideia, os recursos do BNDES para financiar os pagamentos à Odebrecht alcançaram, em 2014, apenas 7% dos 14 bilhões de dólares que a empresa faturou no ano passado.
Entretanto, ao ler o artigo, muitos leitores podem chegar a pensar que esse aumento foi só para a Odebrecht, ou, como dizem muitos colunistas e movimentos de oposição, que o BNDES está investindo muitos recursos fora do país em vez de aplicá-los em projetos dentro do Brasil.
Isso seria verdade se o BNDES tivesse retirado do seu orçamento histórico, sem aumentá-lo, o dinheiro para as obras realizadas pela empresa no exterior nos últimos anos, e se essas obras não tivessem criado milhares de empregos para brasileiros, dentro e fora do país.
Mas o que ocorreu foi exatamente o contrário.
Os investimentos do BNDES para o financiamento de todos os setores da economia passaram de menos de 35 bilhões de reais em 2002, a 187 bilhões de reais em 2014.
E mais, se de 1990 a 2006, em 16 anos, o BNDES EXIM, seu braço de apoio à exportação, destinou aproximadamente 23 bilhões de dólares a diferentes projetos, nos sete anos seguintes, entre 2007 e 2014, esse valor aumentou para mais de 40 bilhões de dólares – para ser mais exatos, 128 bilhões de reais, que beneficiaram não só a Odebrecht e outras grandes empresas, mas também milhares de pequenas e médias empresas brasileiras.
Outra impressão que fica no texto (...) para certo tipo de público é que a Odebrecht seria uma organização “terceiro-mundista”, “comunista” e “bolivariana”, que só se expandiu no mundo graças ao apoio do PT.
Entre os projetos da Odebrecht no exterior nos últimos anos estão: o metrô de Caracas e de Los Teques, na Venezuela – o primeiro financiamento para essa obra foi do governo de Fernando Henrique Cardoso – centrais hidroelétricas e termoelétricas no Equador, Angola, Peru e República Dominicana, um gasoduto na Argentina, aeroportos “como o de Nacala, em Moçambique”, e o Porto de Mariel, em Cuba, onipresente nas críticas da imprensa brasileira há alguns meses.
Mas não se dá maiores informações aos leitores, e a toda a sociedade brasileira, sobre o fato de que a mesma Odebrecht que levantou o Porto de Mariel também realizou obras no Porto de Miami, como a infraestrutura que permitirá receber os supercargueiros que atravessarão o novo Canal do Panamá, que foi ampliado. Que se fez obras no aeroporto de Nacala, também as fez no aeroporto de Miami – o novo Terminal Norte do Miami Airport, construído pela Odebrecht, recebeu o prêmio Global Best Projects, da prestigiada revista ENR, Engineering News-Record –, e também nos aeroportos de Orlando e de Fort Lauderdale. Que se construiu o metrô da capital da Venezuela, também trabalhou em uma linha ferroviária de superfície em Miami, em rodovias como a Route 56, na Califórnia, e a SR 836/I-395, na Flórida, ou na Sam Houston e na Grand Parkway, no Texas. Viadutos como o Golden Glades e estádios como o American Airlines Arena, em Miami, centros culturais como o Adrienne Arsht Center for Performing Arts, na mesma cidade, sistemas de proteção hidráulica contra inundações, como a represa de Seven Oaks, na Califórnia, ou o LPV-9.2, que protege as estações de bombeamento do Lago Pontchartrain, na Louisiana, contra eventuais furacões.
Tudo isso nos Estados Unidos, país onde está presente desde 1990, e no qual emprega milhares de trabalhadores de 33 diferentes nacionalidades – entre eles, muitos brasileiros.
Como vemos, a situação é tão surrealista e absurda que, ainda que a capital da Odebrecht fora do Brasil seja Miami – a cidade mais conservadora dos EUA – e não Havana, seu presidente está preso e é fustigado diariamente nas redes sociais brasileiras pelo suposto “bolivarianismo” da sua empresa e as eventuais “conexões” com o PT.
Já faz algum tempo que o BNDES vem sendo violentamente atacado nas redes sociais.
O que se está promovendo através do argumento da “liberdade total” é a prorrogada, persistente e duradoura temporada de caça ao chifre em cabeça de cavalo, ou de pelo em ovo, tentando envolver o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social em alguma irregularidade.
Se transformou num lugar comum dizer que existe uma “caixa preta” no BNDES, que, se aberta, sacudiria a República – nos círculos mais ignorantes da sociedade, se mantém vivo o mito urbano de que a família de Lula é dona da Friboi, também beneficiada por financiamentos do banco. Na verdade, o banco estatal é uma das instituições mais sérias e competentes do Brasil, e um pilar de grande importância para o desenvolvimento econômico e social do país.
Outro mito comum nos últimos tempos é que as operações do BNDES no exterior teriam aberto um rombo no tesouro e causado bilhões de dólares de prejuízos ao país.
Ao contrário do que muitos pensam, o BNDES não tem o costume de salgar a carne podre, e é uma das instituições mais sólidas do mundo.
Enquanto o índice de Basileia exige mais de 11%, o do BNDES é de 15,9%. O capital principal tem que ser de mais de 4,5%, quando o do BNDES é de 10,6%. A exposição cambial tem que ser de menos de 30%, e no BNDES é de apenas 4,8%. A exposição ao setor público deve ser de menos de 45%, e no BNDES é de 26,2%. A imobilização deve ser menor que 50%, e no BNDES, é de somente 11,4%. Os dados são de dezembro de 2014.
Seus ativos aumentaram de 782 a 977 bilhões de reais (eram menos de 43 bilhões em 2002), entre dezembro de 2013 e o mesmo mês no ano seguinte. O patrimônio líquido subiu de 60 a 66 bilhões de reais, a inadimplência se manteve num modestíssimo 0,01%, enquanto os lucros, o resultado líquido, subiram de 8,1 a 8,5 bilhões de reais no final de 2014.
O que dificulta a expansão da infraestrutura no Brasil não é a falta de dinheiro. É a ortodoxia monetária que impede o governo de se endividar eventualmente para desenvolver e inclusive para defender o país – como habitualmente o fazem nações como os Estados Unidos, que estão entre as maiores devedoras do mundo –, e diversos tipos de obstáculos e sabotagens os fatores que fazem com que obras como a hidroelétrica de Belo Monte ou a refinaria Abreu e Lima enfrentem dezenas de interrupções.
O Congresso aprovou o fim do segredo em operações de financiamento exterior do BNDES – vetado pela senhora Dilma Roussef – como se a norma fosse praticada em bancos de apoio à exportação de países como a Coreia do Norte, apesar de formar parte do comportamento normal de bancos e instituições similares na Alemanha (KFW), Canadá (Banco de Desenvolvimento do Canadá), Espanha (ICO) e Japão (JFC e JBIC), para não entregar informações gratuitas à concorrência.
Não se trata de ter mais simpatia pela Odebrecht do que por qualquer empresa que gere o número de empregos que ela gera, e que tenha a importância estratégica que ela tem para o Brasil, visto que ela está à frente da construção da nossa nova base submersa, dos vários submarinos convencionais e do novíssimo submarino atômico nacional que formarão parte da frota brasileira, entre outros importantes projetos – condição também ameaçada pelos problemas que está vivendo agora.
Também é hora de que as empresas que são financiadas pelo BNDES no exterior promovam uma ação institucional coletiva para explicar ao público como funcionam os financiamentos do banco nesta área e a importância da exportação de serviços de engenharia para o Brasil e para a economia nacional, e que o BNDES faça o mesmo, já que tem o dever de render contas à população.
Mas o primeiro compromisso do jornalista é com a verdade.
E a verdade, independente dos fatos acima citados, é que não se fazem grandes nações sem grandes bancos públicos como o BNDES, para financiar seu desenvolvimento e suas exportações, sem uma diplomacia ativa em defesa dos interesses nacionais e sem grandes grupos empresariais, especialmente das áreas de engenharia e infraestrutura, que possam apoiar a venda dos seus produtos e serviços, e projetar a imagem de um país ativo e competente mundo afora – em lugares menos e mais desenvolvidos que o nosso.
Os financiamentos do BNDES no exterior garantem 1,5 milhão de empregos no Brasil, e a sobrevivência de milhares de empresas brasileiras, como as que fornecem serviços e produtos para clientes da Odebrecht no exterior, cuja lista (só das mais importantes) retirada do site da empresa, estamos dispostos a publicar depois deste texto.
São instrumentos de financiamento, apoio governamental, know-how avançado, entre outros – que distinguem os países fortes e bem sucedidos dos mais dependentes e fracos, e que abrem o caminho para o avanço de certas nações em detrimento de outras, em um planeta cada vez mais complexo e competitivo.
E existem nações que se arriscam a isso, ou que estão impedidas – infelizmente, até mesmo dentro – de alcançar o desenvolvimento e o progresso, pelo surgimento insidioso de uma quinta coluna em que desfilam, ombro a ombro, o arbítrio, a intriga, a hipocrisia, a subserviência com os de fora, a intolerância com os oprimidos, a manipulação, o auto-preconceito e a ignorância. (Fonte: aqui).

................
Altamente didático esse artigo de Mauro Santayana acerca da magnitude do BNDES, notadamente num momento de tanta turbulência, em que interesses nacionais correm o risco de sofrerem impactos irreparáveis. Há uma CPI na pauta, visando à análise das ações desse banco. Boa oportunidade de se deixarem claros os seus méritos, afastando suspeitas que pairam no ar, independentemente dos propósitos de quem as formula.

NONSENSE CARTOON


Kursat Zaman. (Turquia).

LAVA JATO: VARIAÇÕES EM TORNO DO V


"Cópia de trecho de relatório da Polícia Federal com suas deduções persecutórias [grifo meu]:

No relatório de 31 páginas da Polícia Federal chamou a atenção dos investigadores a utilização da palavra “feira” em vários tópicos, e que posteriormente aparece relacionada a João Vaccari Neto. “Presume-se que esteja diretamente relacionada a distribuição de valores para pagamentos de contas estranhas a operação normal das atividades econômicas do grupo Odebrecht, tal assertiva se baseia em anotações datadas de 09/01/2013, onde Marcelo utilizava tal palavra [feira] vinculando-a ao número 40 e a Vaca (alusão a Vaccari)”, assinala a Polícia Federal.
O blog que apresenta documentos da defesa de Vaccari (https://verdadesobrevaccari.wordpress.com/) esclareceu:

a “vaca” que aparece nas anotações do celular é na verdade um animal, comprado numa feira agropecuária por R$ 2,2 milhões. [Fonte: Viomundo]

O Agente 86 autor do relatório é o delegado PF Wiligton Gabriel Pereira.

No intuito de colaborar com o desenvolvimento intelecto-dedutivo não só do delegado Wiligton mas de nossa PF, o Blog do Mello reproduz o conto 'Geografias', de Julio Cortázar, uma boa aula de nem tudo é o que parece ser:
  
Demonstrando que as formigas são as verdadeiras rainhas da criação (o leitor pode tomá-lo como uma hipótese ou fantasia: de qualquer maneira lhe fará bem um pouco de antropofuguismo), eis aqui uma página de sua geografia:

(P.84 do livro; assinalam-se entre parênteses os possíveis equivalentes de determinadas expressões, segundo a clássica interpretação de Gaston Loeb.)

"... mares paralelos (rios?). A água infinita (um mar?) cresce em certos momentos como uma hera-hera-hera (idéia de uma parede muito alta, que expressaria a maré?) Se a gente vai-vai-vai-vai (noção análoga aplicada à distância) chega à Grande Sombra Verde (um campo semeado, um mato, um bosque?) onde o Grande Deus eleva o celeiro para suas Melhores Operárias. Nesta região abundam os Imensos Seres Horríveis (homens?) que destroem nossos caminhos. Do outro lado da Grande Sombra Verde começa o Céu Duro (uma montanha?). E tudo isso é nosso, mas com ameaças".

Essa geografia foi objeto de uma outra interpretação (Dick Fry e Niels Peterson Jr.). O trecho corresponderia topograficamente a um pequeno jardim da Rua Laprida, 628, Buenos Aires. Os mares paralelos são dois pequenos canais de esgoto; a água infinita, um banho para patos; a Grande Sombra Verde, um canteiro de alface. Os Imensos Seres Horríveis insinuariam patos ou galinhas, embora não se deva descartar a possibilidade de que realmente se trate de homens. A respeito do Céu Duro desenvolve-se uma polêmica que não acabará tão cedo. A opinião de Fry e Peterson, que veem nele uma parede de tijolos, opõe-se a de Guillermo Sofovich, que presume um bidê abandonado entre as alfaces."




(De Antonio Mello, em seu blog, post intitulado "Cortázar ensina nossa Polícia Federal a não confundir 'vaca' com 'Vaccari'" - aqui. 

O bom senso parece recomendar que, antes de dar seguimento à peça produzida pelo imaginoso agente federal, seu superior realizasse breve análise crítica de seu conteúdo. Certamente, ao deparar com as delirantes ilações do subordinado, procuraria esclarecê-las, reformulando o texto, de sorte a poupar a instituição de ridículo tão acachapante. Se bem que, pelo andar da carruagem, isso, como dizem observadores mais atentos, não vem ao caso...).

EUA: CONFLITOS RACIAIS EM SÉRIE


Steve Sack. (EUA).

terça-feira, 28 de julho de 2015

SOBRE OS ÁCIDOS ÔNUS DAS ALIANÇAS FIRMADAS


"Nesses tempos ácidos, enquanto o país é sacudido por um sem-fim de pressões e previsões pessimistas, enquanto todo mundo trata de buscar explicações para o que não entende, enquanto a sanha golpista, baseada sobretudo na ignorância política e histórica mais gritante, se mostra em seu apogeu, é preciso pensar com calma.

Enquanto toneladas de informações desencontradas são despejadas dia sim e outro também sobre os brasileiros, e a Justiça se mostra capaz de um exibicionismo suicida, enquanto se mantêm presos empresários de altíssimo calibre com o argumento de que são suspeitos, suspeitíssimos de tenebrosas transações, embora nada justifique a prisão antes da condenação, pois enfim, enquanto acontece tudo isso, o Rio de Janeiro (e oxalá o resto do Brasil: não me dei o trabalho de pesquisar...) vive uma insólita temporada de tangerinas. Feiras, mercados, supermercados, ambulantes que ofertam de tudo nos sinais de trânsito, ostentam uma formidável oferta.

E aí começam minhas dúvidas. Há os que oferecem tangerinas, da mesma forma que há os que propõem mexericas, mixiricas, poncãs, ponkans, e por aí vai. Claro que sabemos todos que num país vasto como o nosso os regionalismos encontram solo fértil e sólido. Meus amigos do sul, por exemplo, dizem bergamota.

Desalentado pela falta de explicação para boa parte dos males que despencam sobre nossas pobres cabeças, decidi consultar o sábio mais à mão, o doutor Google. E me deparei com dados que me levaram à seguinte conclusão: no fundo, seja lá (qual for) o nome escolhido, estamos falando de pequenas variedades da mesma fruta. Por mais que apresentem diferenças significativas, estamos falando sempre da tangerina. Portanto, é ela a fruta-mãe, a origem básica.

A diferença está na espessura da casca, na densidade do óleo. As variedades todas são descendentes de uma fruta nascida originalmente na Ásia, e, mais especificamente, na região onde hoje se encontram países que sugerem exotismos pungentes, como a Índia, a China, a Birmânia, a Malásia.

Olhando o quadro que vivemos hoje no Congresso que tem como principal característica ser o de menor nível (ético, político, moral) desde a retomada da democracia, fica um tanto mais fácil traçar a analogia entre a tangerina e o cenário brasileiro.

Sim, sim, é desalentador. Mas como para mudar a realidade é preciso, acima de tudo e em primeiro lugar, enxergar de forma clara essa realidade, a única saída é ir em frente.

Há poucos dias, um artigo do respeitável veterano mestre Jânio de Freitas (respeitável muito mais por mestre que por veterano; afinal, sobram por aí veteranos que nem pela amplidão de sua trajetória merecem respeito algum) recordava algumas figuras que agora mesmo estão no centro das discussões: Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Fernando Collor de Melo.

Cunha e Calheiros têm poder de fogo suficiente para continuar hostilizando o governo e chantagear, com a ameaça de paralisar o Congresso, qualquer passo destinado a sair do atual impasse em que nos encontramos.

São eles as figuras-chave de um Congresso onde, entre outras tantas aberrações, agora mesmo aparece um desmiolado propondo que se desenvolva alguma técnica que seja capaz de detectar, no feto abrigado no útero materno, tendências criminosas. E, quando isso ocorrer, que se determine que a mãe seja impedida de trazer semelhante criatura à luz. Ou seja, seria o aborto seletivo, a eugenia sonhada por Hitler aplicada de maneira irreversível. 

Cunha e Calheiros são as figuras-chave que decidem se deve-se ou não dar continuidade de voo a bizarrices como as propostas pelo esbugalhado mental deputado Jair Bolsonaro, para não mencionar o vasto e inacreditável batalhão de pastores e bispos eletrônicos, inventores de seitas baseadas na ignorância e na miséria alheias e cujo objetivo único e essencial está em suas próprias algibeiras e alforjes. 

Pois é: mexerica, mixirica, poncã, ponkan, não passam de variedades da mesma tangerina. Buscando-se a origem de Renans e Cunhas, chega-se à tangerina, chamada Fernando Collor de Melo. Um era o menino-prodígio preferido pelo apetite voraz de Paulo César Farias, o PC Farias eliminado por um tiro oportuno quando estava na cama ao lado de uma moça talvez não tão oportuna, mas que teve o mesmo final trágico e jamais esclarecido. 

O outro era o braço direito (e a mão direita, e talvez até mesmo o bolso direito) de Collor de Melo. Soube romper no momento exato, algo típico dos vilões: quando a imagem do patrono começou a ruir.

Vale repetir: não passam, bem como seus congêneres menos visíveis, de variantes da mesma tangerina.

Uma coisa, porém, é especialmente intrigante: como essa variedade consegue sobreviver tanto tempo? Cunha, o de menor expressão, se fez forte usando os mesmos métodos de seus patronos. Calheiros, o de expressão maior, se fez fortíssimo da mesma forma, só que mais visível. Chegou a ser ministro da Justiça – da Justiça! – de Fernando Henrique Cardoso.

Quanto a Collor de Melo, é um fenômeno fenomenal. Em 2008, foi eleito para a Academia Alagoana de Letras, o que mostra a que ponto chegou o analfabetismo na terra do mestre soberano Graciliano Ramos. 

No Senado, continua agindo como se ainda fosse aquele que alguma vez julgou ser, uma espécie de faraó de si mesmo.

No Rio de Janeiro, como na política nacional, o que chama a atenção é como se alastrou a oferta de mexericas. Ou mixiricas. Ou poncãs. Ou ponkans. No fundo, o que se alastra é o poder da tangerina. 

Triste e ácido retrocesso. Azedas alianças."





(De Eric Nepomuceno, jornalista, no site CartaMaior, post intitulado "Dúvidas dramáticas: mexerica, tangerina, poncã? Pobre país..." - aqui. 

Resta exclamar, inutilmente: Governabilidade, quantos equívocos se cometem em teu nome!).

PONTO DE INTERROGAÇÃO


Aliedo.

REDUÇÃO DA POBREZA E DA FOME: BRASIL CUMPRIU METAS DO MILÊNIO


Brasil atingiu meta do milênio em redução de pobreza e fome, diz ONU

A especialista do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, Renata Rubian, afirmou que o Brasil conseguiu atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ODMs, em relação à pobreza e à fome.

Em Nova York, Rubian disse em entrevista à Rádio ONU que o país buscou metas bem mais ambiciosas do que as determinadas pelas ODMs.

“Por exemplo, a meta de redução da pobreza no Brasil não é de 50%, a meta de redução do Brasil que o governo adotou é de reduzir a 25% a incidência da pobreza extrema. A meta de redução da fome no Brasil também não é de redução de incidência de 50%. É uma meta de erradicação da fome”.

Em relação aos países de língua portuguesa, ela citou resultados mistos. Rubian falou sobre a situação em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste, que registrou avanços no setor de saúde.

“O Timor-Leste ainda não atingiu a meta de redução de pobreza, mas a gente vê que o Timor é um sucesso, na verdade, na redução da mortalidade infantil e na melhoria da saúde materna. No caso dos países africanos, é uma situação complexa. A gente vê, por exemplo, Angola e Moçambique que têm um crescimento econômico astronômico. Angola, a gente sabe muito bem de todas as riquezas naturais, como diamantes e petróleo. Mas infelizmente, no caso de Angola e Moçambique, esse crescimento econômico não se traduziu numa redução da pobreza.”

No caso da Guiné-Bissau, Rubian disse que o país enfrentou mais desafios devido a instabilidade política e acabou não registrando avanços na redução da pobreza.

No geral, a especialista do Pnud afirmou que o mundo conseguiu reduzir a taxa de pobreza de 36% em 1990, para 15% atualmente.

Segundo ela, os grupos mais afetados pela pobreza extrema são as mulheres, os idosos, as pessoas com deficiências e as minorias étnicas.


(Para continuar, clique aqui).

................
Salvo as exceções de praxe, o fato é que notícias como a acima não comovem a grande mídia: a indiferença é a tônica. Nenhuma estranheza, claro. De qualquer modo, não obstante os muitos desafios ainda presentes, importa dizer que o Brasil, quanto ao combate à miséria e à fome, está de parabéns.

CARTUM AQUOSO


Waldez.

LAVA JATO: O PORQUÊ DOS VAZAMENTOS SELETIVOS


"A grande maioria dos brasileiros apoia a Operação Lava Jato, dizem as pesquisas. De fato, as empreiteiras, algumas das quais enriqueceram sob a ditadura militar, sempre pairaram impunes nos bastidores de nossa política.

Demonstraram seu poder na Justiça, com a anulação da "Operação Castelo de Areia", restrita à Camargo Corrêa. Comprometia gente de praticamente todos os partidos, mas tinha ênfase nas obras paulistas do Rodoanel e do Metrô. Nesse caso, a PF teve acesso simplesmente ao livro da contabilidade paralela da empresa! Sobre o assunto, Conceição Lemes escreveu: Mídia concentra foco na Lava Jato, mas ignora empreiteiras na Castelo de Areia e no trensalão.

Sempre é bom lembrar que não se trata apenas de corrupção: o poder das empreiteiras é responsável pelo “obrismo”, pela ênfase dos administradores em governar fazendo obras vistosas que deem retorno eleitoral e garantam financiamento de campanha. Quanto mais cara a obra, maior o retorno.

Neste momento, o assunto parece não interessar muito à nossa mídia, mas um olhar sobre a expulsão dos moradores da Vila Autódromo para a construção do Parque Olímpico, no Rio, seria suficiente para demonstrar o escandaloso conluio entre políticos e empreiteiros, em benefício próprio e em detrimento do interesse público.

A consequência natural da Operação Lava Jato deveria ser a aprovação do financiamento [somente] público de campanhas. Na mais recente pesquisa da CNT, 78,1% se disseram contra o financiamento por empresas. Porém, como isso não interessa aos conservadores, cujos interesses coincidem com os do setor privado, o assunto não recebe na mídia cobertura equivalente à que recebem as delações premiadas.

Acompanho à distância, através de um blog recomendado pelo repórter investigativo Tony Chastinet, o desenvolvimento da ação do FBI e do Ministério Público dos Estados Unidos no caso FIFA. Nele, uma pessoa não identificada coloca todos os documentos públicos sobre o caso.

Até agora, o juiz federal Raymond Dearie, do tribunal do Brooklyn, só atendeu oficialmente a um pedido da imprensa, tornando público um depoimento do ex-cartola Chuck Blazer, que colabora com as autoridades.

                     O juiz Dearie ainda não saiu na capa de revista

Um grupo de repórteres queria que ele fizesse o mesmo em relação a um dos delatores mais importantes do esquema, o empresário brasileiro J. Hawilla:



Porém, até agora o juiz não os atendeu. Por quê?

Porque ao FBI e à Promotoria dos Estados Unidos os vazamentos não interessam. E eles argumentam nesse sentido junto ao juiz do caso.

Motivos:

1. Os vazamentos têm o potencial de atrapalhar as investigações, ao permitir que os investigados destruam provas ou “convençam” testemunhas durante o desenrolar das apurações;

2. Os vazamentos têm o potencial de cometer injustiças, ao divulgar nomes de pessoas e empresas que ficam imediatamente sob suspeita, mesmo que sejam inocentes.

Logo depois dos indiciamentos no caso FIFA, a procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, deu uma entrevista coletiva ao lado de autoridades que investigam o caso.

O Departamento de Justiça, o FBI e a Promotoria de Nova York divulgaram notas oficiais. E só.

Não há um espetáculo em torno do caso FIFA nos Estados Unidos — e, como mostra a carta acima, não é por falta de vontade dos jornalistas.

J. Hawilla fez uma aparição no tribunal de Nova York no dia 12 de dezembro de 2014 e até hoje não sabemos detalhadamente o que ele disse! Não sabemos o conteúdo das gravações clandestinas que ele fez com outros investigados, que só serão reveladas — se forem — durante o julgamento.

Enquanto isso, no Brasil, seja pela mão de policiais federais, seja pela mão de procuradores, vaza absolutamente tudo: depoimentos, relatórios e bastidores da operação, não por acaso batizada por alguém nas redes sociais de Vaza Jato.

É o que permite à mídia — e aos delegados e promotores — fazer uma leitura seletiva das denúncias, inclusive de acordo com preferências empresariais ou mesmo pessoais.

Já nos Estados Unidos, Ricardo Teixeira não sabe até agora oficialmente se é alvo ou não do FBI. Numa entrevista ao "Terra", ele presume que sim e ataca o ex-parceiro J. Hawilla.

Na denúncia dos promotores norte-americanos, aqueles que ainda não foram indiciados foram identificados nos documentos apenas como “co-conspiradores”. Por um lado, os suspeitos são preservados. Por outro, sem conhecer detalhes do que foi dito por delatores, fica mais difícil tentar obstruir a investigação. Por exemplo, chegando primeiro que a polícia às testemunhas-chave. Nesse sentido, deixar os suspeitos no escuro é a melhor estratégia policial.

Já no Brasil, os vazamentos politizam as operações da PF. Documentos oficiais viram moeda de troca na mão de jornalistas e de políticos.

A única tentativa da Polícia Federal de supostamente proteger investigados foi um desastre, no famoso caso da tarja preta. Segundo informou o "Estadão", a PF assim agiu para proteger acusados que têm direito a foro privilegiado. Curiosamente, o nome de ECunha aparece nos registros recolhidos nos celulares do empresário Marcelo Odebrecht. Não recebeu a tarja preta, mas JS recebeu.

“Adiantar 15 p/ JS”, está escrito lá. JS é José Serra.

No mais, é um vale-tudo.

O objetivo de policiais e promotores é óbvio. Acusações gravíssimas replicadas como se fossem verdade factual pela mídia podem mais tarde justificar uma condenação sem que haja a necessária robustez de provas: é o "clamor da opinião publicada". A mídia a serviço da Justiça e a Justiça a serviço da mídia são uma deformação institucional gravíssima. Há repórteres com promotores e delegados literalmente [$$$$] de bolso — e vice-versa. Ao fim e ao cabo, são os barões midiáticos a decidir se a Lava Jato interessa mais ao público que a Operação Zelotes e o caso do HSBC.

Na Suíça, mesmo depois do acordo pelo qual Ricardo Teixeira e João Havelange devolveram parte do dinheiro recebido como propina, o promotor-juiz Thomas Hildbrand teve o cuidado de usar códigos para não associar pessoas e empresas inocentes aos crimes dos quais foram acusados os cartolas. Isso depois de terminado o processo!

Curiosamente, o procurador Deltan Dallagnol, ao fazer um balanço da Lava Jato na sexta-feira, parece ter se incomodado com o fato de a Odebrecht se defender publicamente, através de notas na imprensa. Ele disse: “Nós nos aproximamos da verdade por meio de provas e documentos, e não por meio de notas à imprensa”. Ou seja, ele nega interesse na batalha da informação ao mesmo tempo em que dá uma entrevista coletiva com grande estardalhaço!

Dallagnol também disse: “Ninguém está acima da lei”.

Repete, assim, a capa da revista "Época", que poderia ter usado a frase abaixo perfeitamente com as fotos dos irmãos Marinho [donos da Rede Globo], pegos em flagrante pela Receita Federal em milionária sonegação. Mas, para a mídia, só existe corrupção na ou por causa da esfera pública.

O Ministério Público e a Polícia Federal deveriam ser os primeiros a combater os vazamentos da Lava Jato, pois são eles que abrem espaço ao justiçamento midiático e às consequências políticas dele.

Na pesquisa da CNT a que me referi no topo - aquela que deu 7,7% de aprovação a Dilma e 4,8% à imprensa –, um detalhe curioso chamou a atenção.

Dos entrevistados, 69,2% consideraram a presidente Dilma culpada pela corrupção na Petrobras, 65% atribuíram a culpa ao ex-presidente Lula e apenas 3,5% às construtoras...

Isso mesmo: os corruptores privados, muitos dos quais estão presos, escapam praticamente impunes no tribunal da opinião pública. Resultado óbvio de uma cobertura distorcida, quando não partidarizada, abastecida 24 horas por dia por vazamentos seletivos que atropelam a presunção da inocência."




(Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo, post intitulado "No Brasil, delações premiadas vazaram todas; nos EUA, no caso Fifa, ainda não sabemos o que disse ou fez J. Hawilla").

CERTAS PALAVRAS


Liberati.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

MANIPULAÇÃO, A ORIGEM

                                     (A estreia da licença artística)

Adrian Raeside. (EUA).

DA SÉRIE PRIMÓRDIOS DO DESASTRE DA GRÉCIA


Como o Goldman Sachs lucrou com a crise da dívida grega

Por Robert B. Reich

A crise da dívida grega põe em evidência uma vez mais os poderes de persuasão e predação de Wall Street – uma peça que permanece invisível na maioria dos relatos sobre a crise do outro lado do mundo.

A crise foi agravada anos atrás por uma operação do Goldman Sachs, arquitetado pelo atual diretor-executivo do banco, Lloyd Blankfein. Junto com sua equipe, Blankfein ajudou a Grécia a esconder a verdadeira dimensão da sua dívida e, no processo, a fez praticamente dobrar de tamanho. Da mesma forma como ocorreu na crise do subprime americano, e que levou à atual situação crítica de muitas cidades americanas, um empréstimo predatório de Wall Street teve um papel importante na crise grega, embora pouco reconhecido.

Em 2001, a Grécia buscava maneiras de mascarar seus crescentes problemas financeiros. O Tratado de Maastricht exigia que todos os membros da zona do euro mostrassem melhoras em suas contas públicas, mas a Grécia ia na direção oposta. Então o Goldman Sachs veio em seu socorro, oferecendo um empréstimo secreto de 2,8 bilhões de euros, disfarçado de swap cambial não contabilizado – uma operação complicada, em que a dívida da Grécia em moeda estrangeira foi convertida em obrigações em moeda local, utilizando uma taxa de câmbio fictícia.

Como resultado, cerca de 2% da dívida da Grécia magicamente desapareceram de suas contas nacionais. Christoforos Sardelis, então chefe da Agência de Gerenciamento da Dívida Pública da Grécia, mais tarde descreveu o acordo na Bloomberg Business como "uma história muito sexy entre dois pecadores”. Pelos serviços, o Goldman recebeu a soma colossal de 600 milhões de euros (793 milhões de dólares), de acordo com Spyros Papanicolaou, que substituiu Sardelis em 2005. Isso representou quase 12% da receita da gigantesca unidade do Goldman de trading e principal-investments em 2001 – que, aliás, bateu recorde de vendas nesse ano. A unidade era dirigida por Blankfein.

Então, o negócio azedou. Após os ataques de 11 de setembro, o rendimento dos títulos caiu, resultando em grande perda para a Grécia por causa da fórmula usada pelo Goldman para calcular o pagamento da dívida do país com o swap. Em 2005, a Grécia já devia quase o dobro do que constara no acordo, fazendo a dívida não declarada saltar de 2,8 bilhões para 5,1 milhões de euros. Em 2005, o acordo foi reestruturado e a dívida fixada em 5,1 milhões. Talvez não por acaso, Mario Draghi, hoje presidente do Banco Central Europeu e um ator importante no atual drama grego, era então o diretor da divisão internacional do Goldman.

A Grécia não foi a única a pecar. Até 2008, as normas contábeis da União Europeia permitiam que os membros gerissem suas dívidas através das chamadas tarifas fora do mercado em trocas de moedas, estimuladas pelo Goldman e por outros bancos de Wall Street. No final da década de 1990, o JP Morgan permitiu que a Itália ocultasse sua dívida trocando de moeda a uma taxa de câmbio favorável, comprometendo assim a Itália a realizar pagamentos futuros que não apareciam nas contas nacionais como obrigações futuras.

Mas era a Grécia quem estava em pior situação, e o Goldman foi o maior facilitador. Sem dúvida, o país sofre por anos de corrupção e evasão fiscal de sua elite. Mas o Goldman não foi um espectador inocente: aumentou seu lucro, especulando ao máximo com a Grécia, assim como boa parte do mercado global. Outros bancos de Wall Street fizeram o mesmo. Quando a bolha estourou, toda aquela especulação deixou a economia mundial de joelhos.

Mesmo com a economia global se recuperando dos excessos de Wall Street, o Goldman ofereceu à Grécia outro artifício. No início de novembro de 2009, três meses antes de a crise da dívida do país se tornar notícia mundial, uma equipe do Goldman propôs um instrumento financeiro que prolongaria a dívida do sistema de saúde da Grécia por muitos anos. Desta vez, porém, a Grécia não topou.

Como sabemos, Wall Street foi socorrida pelos contribuintes norte-americanos. Nos anos seguintes, os bancos tornaram-se novamente rentáveis e reembolsaram seus empréstimos de resgate. As ações dos bancos dispararam. Em novembro de 2008, uma ação do Goldman era negociada a 53 dólares; hoje, vale mais de 200 dólares. Os executivos do Goldman e de outros bancos de Wall Street têm recebido enormes bônus e promoções. Só no ano passado, Blankfein, hoje diretor-executivo do Goldman, ganhou 24 milhões dólares.

Enquanto isso, o povo da Grécia luta para comprar remédios e comida.

Há situações análogas nos EUA, a começar pelos empréstimos predatórios feitos pelo Goldman, outros grandes bancos e empresas financeiras com que estavam aliados nos anos que antecederam o estouro da bolha. Hoje, enquanto os banqueiros curtem as férias nos Hamptons, milhões de americanos continuam a sofrer as consequências da crise financeira, quando perderam empregos, economias ou mesmo suas casas.

Da mesma forma, cidades e estados americanos têm sido obrigados a cortar serviços essenciais por estarem presos a operações similares, negociadas pelos mesmos bancos de Wall Street. Muitas destas operações envolvem swaps como o realizado entre o Goldman e o governo grego. Assim como fizeram com o governo grego, o Goldman e outros bancos asseguraram aos municípios que a troca de taxa de variação cambial permitiria pegar empréstimos mais baratos do que se negociassem com taxas fixas tradicionais – enquanto, por outro lado, minimizavam os riscos do negócio. Quando as taxas de juros desabaram e os swaps acabaram custando muito mais, o Goldman e os outros bancos se recusaram a renegociar com os municípios, que tiveram que pagar pesadas multas para encerrar os contratos.

Há três anos, o Departamento de Água de Detroit teve de pagar ao Goldman e outros bancos multas num total de 547 milhões de dólares para encerrar swaps de taxas de juros desvantajosos. Hoje, 40% do preço das contas de água de Detroit ainda vão para o pagamento da multa. Moradores de Detroit cuja água foi cortada porque não puderam pagar não têm ideia de que os responsáveis pela situação são o Goldman e outros grandes bancos. Da mesma forma, o sistema educacional de Chicago – cujo orçamento já foi cortado até o talo – deve pagar mais de 200 milhões de dólares em multas pelo encerramento de uma operação de Wall Street que obrigava as escolas de Chicago a pagar 36 milhões de dólares por ano em swaps de taxas de juro.

Uma operação envolvendo swaps de taxa de juro que o Goldman negociou com Oakland, Califórnia, mais de dez anos atrás, acabou custando à cidade cerca de 4 milhões de dólares por ano, mas o banco se recusou a encerrar o acordo sem que Oakland pagasse 16 milhões de dólares pela rescisão – levando os legisladores locais a aprovar uma resolução para boicotar o Goldman. Quando, em uma reunião de acionistas, Blankfein foi perguntado sobre o caso, explicou que romper um contrato válido ia contra os interesses dos acionistas.

Goldman Sachs e os outros bancos gigantes de Wall Street são extremamente hábeis para vender operações complexas, exagerando seus benefícios e minimizando os custos e riscos. É assim que abocanham taxas gigantescas. Quando um cliente tem problemas – seja este cliente um investidor americano, uma cidade dos EUA, ou a Grécia – o Goldman se esquiva e se esconde por trás de formalidades legais e dos interesses dos acionistas.

Os devedores que se encontram com problemas raramente são irrepreensíveis, é claro: além de gastarem muito, foram ingênuos ou estúpidos o bastante para embarcar na canoa do Goldman. A Grécia criou seus próprios problemas, assim como muitos proprietários e municípios americanos.

Mas, em todos os casos, o Goldman Sachs sabia muito bem o que fazia. Conhecia melhor os riscos reais e os custos das operações que propunha do que aqueles que os aceitaram. "É uma questão de moralidade", disse o sócio na reunião Goldman em que se abordou a situação de Oakland. Exatamente. (Fonte: Carta Maior - aqui).

A MARCA SOMBRIA DE TIO SAM


Patrick Chappatte. (EUA).

FLAGRANTE DA VIDA REAL


Simanca.

QUANDO O INTERESSE NACIONAL PARECE NÃO INTERESSAR


Destruição política de empresas: o caso Panair

Por André Araújo

Novo livro sobre a saga da Panair do Brasil, companhia aérea que representava a bandeira do Brasil em linhas para todo o mundo, inclusive Atenas, Beirute e Cairo. A Panair nasceu como subsidiária da Pan American, mas tornou-se independente depois da guerra e criou um padrão de qualidade, organização e abrangência nacional e internacional jamais igualado; uma companhia padrão internacional, seus pilotos eram disputados pelo mundo.
A Panair foi politicamente destruída, de propósito, por uma visão caolha do regime militar. A implicância veio porque o maior acionista da Panair, Mario Wallace Simonsen, era amigo do presidente deposto João Goulart.
O caso Panair é um clássico exemplo de uma empresa que foi atacada pelo Poder e deixou de existir por causa dessa ação. Foi predecessora do caso das 29 empresas atacadas pela Operação Lava Jato, as quais estão sendo deliberadamente destruídas em nome da justiça, como se outros valores tão ou mais importantes não estivessem em jogo, o principal dos quais é o INTERESSE NACIONAL, que diz respeito à população de hoje e às gerações futuras.
A Panair do Brasil era um capital do País, como toda grande empresa.  Não era só um negócio privado, era também a bandeira do Brasil no exterior. Suas lojas eram verdadeiros consulados do País, lojas grandes e espaçosas com jornais diários do Brasil, café do Brasil; brasileiros usavam como ponto de encontro e endereço de correspondência.
Seus aviões Constellation eram, na época, os mais modernos no mundo aeronáutico e suas tripulações eram o top da aviação nacional e internacional. Era realmente uma das mais conhecidas empresas aéreas do planeta, suas rotas até hoje não foram igualadas, nenhuma linha aerea brasileira vai hoje a Atenas, Beirute ou Cairo.
A Odebrecht é a 8ª construtora do mundo, no ranking da respeitada revista ENGINEERING NEWS RECORD, que anualmente faz a lista das 250 maiores construtoras globais. Grande parte dessas maiores construtoras no ranking são hoje de países emergentes, coreanas, chinesas, indianas, indonésias, turcas, malaias, paquistanesas, árabes.
Nenhuma delas jamais foi submetida a um ataque tão violento como se faz no Brasil contra as maiores construtoras nacionais. A Lava Jato vai, aliás já conseguiu em vários casos, DESTRUIR o setor nacional de construção de obras públicas em nome da santidade e da pureza no mundo dos negócios de construção.
Muitos bem pensantes respondem: "Ah, mas as médias empresas agora podem ocupar esse lugar ou que venham as entrangeiras". Afirmações de completos desconhecedores do tema.
As grandes empreiteiras são INTEGRADORAS de mão de obra, de centenas de fornecedores, de prestadores de serviços subcontratados, elas conhecem o terreno geológico brasileiro, conhecem a nossa mão de obra, nossos materiais, o tipo de projetos de engenharia que se adequa ao Brasil. Uma ponte americana é completamente diferente de uma ponte do mesmo tamanho no Brasil. As características de solo, os materiais, o tipo de projeto são próprios de cada País. Uma estrangeira levaria décadas para entender todo esse know how doméstico, as médias não tem a curto prazo capital e corpo técnico para rapidamente assumir grandes obras públicas de infra estrutura.
O Brasil, em nome de uma visão justiceira menor, está destruindo CAPITAL NACIONAL que não é só dos donos das construtoras, é também do País; grandes empresas em qualquer País são PATRIMÔNIO NACIONAL, por isso são defendidas com vigor por seus governos. Mas e a propina? Era o MODELO DE NEGÓCIOS corrente, o empresário se adapta às circunstâncias para ganhar contratos. Todas as construtoras dos países emergentes operam dentro das circunstâncias. Obras públicas no Oriente Médio, na Ásia, na África no geral carregam propina. Vamos acabar com nossas empreiteiras, que ficaram queimadas no mercado internacional pela escandalização das prisões mas as empreiteiras de paises emergentes vão continuar a operar do mesmo jeito, agora sem a concorrência das brasileiras, destruídas em nome da moral e dos bons costumes por um Poder que também tem seus pecados e que não são poucos. O Tribunal Federal do Rio está fazendo um rodízio diário de juízes para duplicar os salários, o juiz finge que muda de Vara e ganha um adicional, todos os juízes estão fazendo esse troca troca para aumentar os ganhos, o caso foi reportado em matéria de meia página na imprensa, com todos os detalhes e tudo fica por isso mesmo.
O que no caso Panair e no caso das empreiteiras não foi e não está sendo defendido é o INTERESSE NACIONAL, que está acima da justiça, da moral e outros valores individuais. Como os demais grandes países operam pelo guia do INTERESSE NACIONAL, os países que desprezam esse objetivo estão fadados à mediocridade e à decadência.
A Odebrecht levou 40 anos para ganhar o mercado internacional. Os sacristãos da força tarefa liquidaram com esse capital em nome da santidade dos negócios, algo que o mundo desconhece. Seremos os únicos coroinhas no bordel das grandes empreiteiras em disputa de obras pelo mundo. Não teremos contratos mas poderemos nos orgulhar da pureza de nossas empreiteiras, purificadas no altar de Curitiba, no Estado menos corrupto do Brasil. (Fonte: aqui).
................

Para ler "PANAIR, um caso que ninguém pode esquecer", de Daniel Leb Sasaki, clique aqui.
....
A impunidade é abominável, ponto. O que não me impede de raciocinar, a partir de escândalo de proporções monumentais estourado em 2008/9, que motivou crise econômica mundial cujo impacto somente encontraria paralelo na Grande Depressão dos anos 30 do século passado:  

a) grandes bancos americanos foram os principais agentes 'deflagradores' da tal crise;  b) a crise provinha basicamente de hipotecas fraudulentas (valores artificialmente inflados), cujos títulos eram posteriormente negociados sob a forma de derivativos (aumentando ainda mais o bolo), tudo isso graças a uma legislação afrouxada em anos anteriores (incidindo, por exemplo, no disciplinamento de bancos comerciais e bancos de investimento);   c) os bancos e respectivos dirigentes, portanto, deveriam ter sido mandados para as cucuias, mas o governo americano seguiu caminho 'surpreendente': mandou injetar capitais (sob a forma de empréstimos especialíssimos) para cobrir os rombos de cada banco, medida responsável pela preservação do sistema, ou seja, da 'ordem econômica' (os empréstimos foram/estão sendo resgatados pelos bancos; além disso, foram pagas pesadas multas por bancos e banqueiros/dirigentes);  d) a pergunta que se faz: Por que o governo americano agiu assim? A resposta que se obtém: Porque falou mais forte o INTERESSE NACIONAL.