terça-feira, 18 de setembro de 2012
PALAVRAS VERÍSSIMAS
Elas não estão no dicionário
Por Luis Fernando Veríssimo
Marulho - Barulho do mar.
Marmúrio - Barulho longínquo do mar.
Blaguette - Pão com formato engraçado.
Zerossímil - Que não se parece com nada.
Enfradonho - Padre chato.
Triglodita - Muito, muito primitivo.
Pubicidade - Propaganda erótica.
Aptosentado - Aposentado que ainda poderia estar trabalhando.
Faxixista - Fascista com incontinência urinária.
Amigdalomania - Mania de ter amígdalas maiores que as dos outros.
Pedofiló - Que tem tara por rendas.
Flaternidade - Solidariedade entre flatulentos.
Missantropria - Horror a misses.
Errodição - Conhecimento falho.
Luanático - Louco pela Luana Piovani.
Andrógenio - Gay muito inteligente.
Diabúlico - Demoníaco mas preguiçoso.
Enfético - Enfaticamente ético.
Apocalipizicato - O que ouviremos no fim do mundo.
Thrauma - Aflição por não poder pronunciar o "th" em inglês.
Cornocópia - Abundância de maridos traídos.
Prolotário - Trabalhador enganado.
Hipérbola - Diz-se de quem está jogando um bolão.
Biotique - Farmácia natural bem transadinha.
Epiquete - Como se comportar em manifestações.
Sobarba - Atitude de um adolescente quando começam a crescer os primeiros cabelos no rosto.
Pradar - Bolsa falsa para presente.
Jungamento - Análise baseada nas teorias de C. G. Jung.
Sigmund Fraud - Obviamente um impostor.
Fetichina - Obsessão pela China.
Tse-tsenami - Uma invasão de moscas.
Retólica - Discurso infantil.
Coorrupção - Corrupção em grupo.
Torrismo - A proliferação de prédios altos.
Onirrico - Quem sonha com muito dinheiro.
Decionário - Dicionário inconfiável.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
COMO NUNCA SE VIU
"Além de não citar fontes, o texto não tem uma prova sequer, um documento, uma imagem comprometedora, uma gravação que seja.
Se amanhã essas provas aparecerem contra Lula, tudo bem, serei o primeiro a criticá-lo, mas quem morre de véspera é peru. E condenação pelo jornal para mim não vale. Para você, vale?
Por falar em gravação, a tal revista não comenta as centenas de horas de conversas telefônicas gravadas pela Polícia Federal entre seu editor-chefe e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. É bom lembrar que a mulher de Cachoeira chegou a ameaçar um juiz com a publicação de um dossiê sobre ele justamente na tal revista. Nunca vi tanto poder de influência..."
(Marcelo Migliaccio, em seu blog Rio Acima, post "A fofoca da semana". Para ler o post completo, clique AQUI).
A VOZ DO BRASIL
Com uma hora de duração, o programa radiofônico A Voz do Brasil está no ar há mais de 70 anos, levando aos cidadãos, das 19h às 20h, de segunda a sexta-feira, notícias sobre os Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Todas as empresas de radiodifusão estão obrigadas a retransmiti-lo.
Ocorre que os conglomerados de comunicação não se conformam com tal exigência, invocando até o artigo 220 da Constituição Federal (veda qualquer restrição ao direito à informação, entre outros) para tentar calar definitivamente A Voz do Brasil, ou conseguir sua transmissão em horário alternativo.
E tudo isso mesmo após o Supremo Tribunal Federal haver firmado o entendimento de que a exigência, como está, é constitucional (Adin 561).
Mas a atitude dos inconformados não deve causar espécie: a própria Justiça (Tribunal Federal da 4ª Região) autorizou uma rádio FM a transmitir o programa em horário alternativo - o que exigiu da União a interposição de recurso, o qual acaba de ser acatado pelo STF.
A propósito, li hoje um artigo - "Veja e o pecado capital do PT" (clique aqui para lê-lo) - que alude à Voz do Brasil, oferecendo concisa abordagem sobre o mérito do programa:
"São exatamente estes conglomerados, representantes do capitalismo informativo/desinformativo, que querem golpear a Voz do Brasil, programa que (alcança) enorme audiência, talvez o único a fornecer informações sem o crivo deformado do mercado para uma grande massa de brasileiros, em todos os grotões deste país, massa que é praticamente proibida da leitura de revistas e jornais."
CONFISSÕES DE MONTEIRO LOBATO (II)
Monteiro Lobato e o racismo entre nós
Por Paulo Moreira Leite
Eu já não era tão jovem quando se dizia que a melhor definição de bobo era
do sujeito que não consegue mascar chiclete e andar ao mesmo tempo.
Acho que isso se aplica ao debate sobre Monteiro Lobato. É nosso maior autor infantil. Deixou uma obra densa e complexa, com várias contribuições ao entendimento do país. Mas Lobato era um autor racista e isso não pode ser escondido nem disfarçado. Precisa ser reconhecido e discutido pelos brasileiros, num sinal de respeito por nossa história e pelas vítimas de uma atitude que nossa Constituição define com crime inafiançável. Creio que devemos esse favor às futuras gerações, já que pouco podemos fazer pelas passadas, além de realizar um esforço para conhecer e estudar as dores do tempo em que viveram.
O racismo de Lobato aparece para crianças, quando ele fala do “beiço” de Tia Anastácia, de sua “carne preta” e chega a dizer que ela subia numa árvore como “macaca de carvão.” O racismo para adultos foi explicitado em sua correspondência privada. Em cartas, ele admitiu que tinha inveja dos norte-americanos que tinham sido capazes de formar uma organização como Ku Klux Klan, associação terrorista que sequestrava, torturava e enforcava negros no Sul, como uma vingança pela abolição da escravatura.
Este aspecto da obra de Lobato é horrível e inaceitável mas não é um traço pessoal do autor. É expressão do Brasil daquela época. Aprendi com Edward Said, um dos grandes autores de nosso tempo, indispensável para entendermos outro tipo de preconceito – contra povos árabes – que nenhum homem está 100% livre dos atrasos mentais de sua época. Estamos condenados a carregar, por herança familiar e social, as mazelas de nossa cultura e nosso meio. Podemos nos considerar felizes quando somos capazes de reconhecer e nos emancipar de parte deles, em vez de apenas reproduzir e fortalecer as forças daninhas que foram interiorizadas em nossa formação. Mas ninguém é 100% livre de seu passado.
Fingir que o racismo não existe e denunciar toda reação como patrulha politicamente correta é um ato simplista, de quem se esconde atrás da liberdade de expressão para manter a discriminação e o preconceito.
Quando Lobato escreveu muitos de seus livros infantis, a escravidão fora abolida há apenas 50 anos. Os antigos escravos eram marginalizados, discriminados e segregados.
Sem resposta aceitável para uma situação aberrante e vergonhosa, a cultura oficial brasileira daquela época olhava para estes brasileiros e tudo aquilo que representavam com uma visão de superioridade – racismo. Era uma forma de jogá-los para fora da história. Sofriam porque mereciam. A escravidão, no fundo, era justa. Civilizava o negro, dizia outro grande escritor, José de Alencar, adversário empedernido da abolição, mesmo em 1888. A ciência explicava as raças e, com elas, as diferenças entre os homens, dizia o racismo científico que inspirava outro grande autor, Euclides da Cunha.
Num momento posterior, tentou-se adotar uma outra visão sobre essa condição do negro. A de que vivíamos numa democracia racial, onde todos eram iguais e não havia preconceito em função da cor da pele. Hipocrisia organizada, a ideologia da democracia racial atingiu um ponto maior de sofisticação a partir de um silogismo maroto. Já que os homens de ciência não reconhecem raça como um valor científico, biológico, e os homens são animais que acreditam na ciência, o racismo simplesmente não pode existir.
Sabemos que tem gente que se julga muito inteligente e ganha a vida repetindo isso. Coisa de quem não sabe conviver com duas ideias diferentes. Racismo está na cultura, nos livros, no pensamento e, como vimos, em Monteiro Lobato. O porteiro da balada que cria dificuldade para deixar um negro entrar não tirou nota 10 em biologia, certo?
Se você for honesto pode encontrar racismo até na obra de Gilberto Freyre, que não queria ser racista e condenava o racismo quando era capaz de enxergá-lo – o que não acontecia sempre, como nós sabemos, a partir da regra de que ninguém zera sua herança cultural ou ideológica (...). Freyre chega a atribuir o temperamento, a inteligência e outros traços de um indivíduo ao fato de ser descendente de branco, negro ou indígena. Dizia, por exemplo, que o negro possuía uma “energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical”, sugerindo que isso explicava que fosse usado no trabalho duro do engenho. Comparando populações brasileiras, Freyre dizia que o caráter “alegre, expansivo, sociável, loquaz” dos brasileiros nascidos da Bahia devia-se ao elemento “negróide” de sua constituição, em contraste com populações “tristonhas, aladas, sonsas e até sorumbáticas” de outros Estados, que seriam “menos influenciadas pelo sangue negro e mais pelo indígena.”
É esta herança que devemos debater, discutir e impedir que seja retransmitida às novas gerações.
Eu acho, por isso, que o racismo da obra de Lobato deve ser exposto e colocado, em sala de aula, nas conversas de pais e filhos e toda vez que uma criança passar por aquelas palavras horríveis, deprimentes – mas que, nós sabemos, fizeram parte da experiência de homens e mulheres de uma época.
Sou contra proibir uma obra de Lobato - e também seria contra proibir O Mercador de Veneza, com várias passagens contra judeus, sucesso absoluto junto a certo publico na Alemanha nazista - embora eu entenda a indignação de quem teve essa ideia.
Entendo porque é humilhante ser ofendido e ouvir, como resposta, que deve ser assim mesmo porque afinal de contas a Constituição garante a liberdade de expressão.
É verdade. Mas a Constituição garante, também, o respeito a dignidade de cada cidadão – e o racismo é uma forma brutal de ataque à dignidade.
Minha opinião é que cabe ao Estado, num país que teve a coragem de colocar o combate ao racismo na própria Constituição, ser coerente com seus princípios e tomar a iniciativa de combater o racismo aonde ele se encontra. Não vale esconder nem fingir que não existe.
É por isso que sou favorável à ideia de que as edições de Caçadas de Pedrinho, reconhecidas pelo MEC, sejam acompanhadas de uma nota explicativa capaz de situar Lobato e seu tempo. Este debate deve ser feito, irá formar crianças e jovens melhores. É um dever com todos brasileiros. (Fonte: aqui).
Acho que isso se aplica ao debate sobre Monteiro Lobato. É nosso maior autor infantil. Deixou uma obra densa e complexa, com várias contribuições ao entendimento do país. Mas Lobato era um autor racista e isso não pode ser escondido nem disfarçado. Precisa ser reconhecido e discutido pelos brasileiros, num sinal de respeito por nossa história e pelas vítimas de uma atitude que nossa Constituição define com crime inafiançável. Creio que devemos esse favor às futuras gerações, já que pouco podemos fazer pelas passadas, além de realizar um esforço para conhecer e estudar as dores do tempo em que viveram.
O racismo de Lobato aparece para crianças, quando ele fala do “beiço” de Tia Anastácia, de sua “carne preta” e chega a dizer que ela subia numa árvore como “macaca de carvão.” O racismo para adultos foi explicitado em sua correspondência privada. Em cartas, ele admitiu que tinha inveja dos norte-americanos que tinham sido capazes de formar uma organização como Ku Klux Klan, associação terrorista que sequestrava, torturava e enforcava negros no Sul, como uma vingança pela abolição da escravatura.
Este aspecto da obra de Lobato é horrível e inaceitável mas não é um traço pessoal do autor. É expressão do Brasil daquela época. Aprendi com Edward Said, um dos grandes autores de nosso tempo, indispensável para entendermos outro tipo de preconceito – contra povos árabes – que nenhum homem está 100% livre dos atrasos mentais de sua época. Estamos condenados a carregar, por herança familiar e social, as mazelas de nossa cultura e nosso meio. Podemos nos considerar felizes quando somos capazes de reconhecer e nos emancipar de parte deles, em vez de apenas reproduzir e fortalecer as forças daninhas que foram interiorizadas em nossa formação. Mas ninguém é 100% livre de seu passado.
Fingir que o racismo não existe e denunciar toda reação como patrulha politicamente correta é um ato simplista, de quem se esconde atrás da liberdade de expressão para manter a discriminação e o preconceito.
Quando Lobato escreveu muitos de seus livros infantis, a escravidão fora abolida há apenas 50 anos. Os antigos escravos eram marginalizados, discriminados e segregados.
Sem resposta aceitável para uma situação aberrante e vergonhosa, a cultura oficial brasileira daquela época olhava para estes brasileiros e tudo aquilo que representavam com uma visão de superioridade – racismo. Era uma forma de jogá-los para fora da história. Sofriam porque mereciam. A escravidão, no fundo, era justa. Civilizava o negro, dizia outro grande escritor, José de Alencar, adversário empedernido da abolição, mesmo em 1888. A ciência explicava as raças e, com elas, as diferenças entre os homens, dizia o racismo científico que inspirava outro grande autor, Euclides da Cunha.
Num momento posterior, tentou-se adotar uma outra visão sobre essa condição do negro. A de que vivíamos numa democracia racial, onde todos eram iguais e não havia preconceito em função da cor da pele. Hipocrisia organizada, a ideologia da democracia racial atingiu um ponto maior de sofisticação a partir de um silogismo maroto. Já que os homens de ciência não reconhecem raça como um valor científico, biológico, e os homens são animais que acreditam na ciência, o racismo simplesmente não pode existir.
Sabemos que tem gente que se julga muito inteligente e ganha a vida repetindo isso. Coisa de quem não sabe conviver com duas ideias diferentes. Racismo está na cultura, nos livros, no pensamento e, como vimos, em Monteiro Lobato. O porteiro da balada que cria dificuldade para deixar um negro entrar não tirou nota 10 em biologia, certo?
Se você for honesto pode encontrar racismo até na obra de Gilberto Freyre, que não queria ser racista e condenava o racismo quando era capaz de enxergá-lo – o que não acontecia sempre, como nós sabemos, a partir da regra de que ninguém zera sua herança cultural ou ideológica (...). Freyre chega a atribuir o temperamento, a inteligência e outros traços de um indivíduo ao fato de ser descendente de branco, negro ou indígena. Dizia, por exemplo, que o negro possuía uma “energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical”, sugerindo que isso explicava que fosse usado no trabalho duro do engenho. Comparando populações brasileiras, Freyre dizia que o caráter “alegre, expansivo, sociável, loquaz” dos brasileiros nascidos da Bahia devia-se ao elemento “negróide” de sua constituição, em contraste com populações “tristonhas, aladas, sonsas e até sorumbáticas” de outros Estados, que seriam “menos influenciadas pelo sangue negro e mais pelo indígena.”
É esta herança que devemos debater, discutir e impedir que seja retransmitida às novas gerações.
Eu acho, por isso, que o racismo da obra de Lobato deve ser exposto e colocado, em sala de aula, nas conversas de pais e filhos e toda vez que uma criança passar por aquelas palavras horríveis, deprimentes – mas que, nós sabemos, fizeram parte da experiência de homens e mulheres de uma época.
Sou contra proibir uma obra de Lobato - e também seria contra proibir O Mercador de Veneza, com várias passagens contra judeus, sucesso absoluto junto a certo publico na Alemanha nazista - embora eu entenda a indignação de quem teve essa ideia.
Entendo porque é humilhante ser ofendido e ouvir, como resposta, que deve ser assim mesmo porque afinal de contas a Constituição garante a liberdade de expressão.
É verdade. Mas a Constituição garante, também, o respeito a dignidade de cada cidadão – e o racismo é uma forma brutal de ataque à dignidade.
Minha opinião é que cabe ao Estado, num país que teve a coragem de colocar o combate ao racismo na própria Constituição, ser coerente com seus princípios e tomar a iniciativa de combater o racismo aonde ele se encontra. Não vale esconder nem fingir que não existe.
É por isso que sou favorável à ideia de que as edições de Caçadas de Pedrinho, reconhecidas pelo MEC, sejam acompanhadas de uma nota explicativa capaz de situar Lobato e seu tempo. Este debate deve ser feito, irá formar crianças e jovens melhores. É um dever com todos brasileiros. (Fonte: aqui).
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Sobre o assunto, publiquei neste blog, em abril do ano passado, o post "Confissões de Monteiro Lobato", aludindo a cartas escritas nos anos 40 pelo autor de Caçadas de Pedrinho e transcrevendo texto que Martinho da Vila produziu quando da visita de Barack Obama ao Brasil.
Lá, fiz o seguinte comentário: "Já haviam sido detectados trechos racistas na literatura de Lobato. Ano passado, houve questionamentos em face de 'As caçadas de Pedrinho', obra sobre a qual o MEC recomendou contextualização em sala de aula, por parte dos professores, tendo em conta o racismo nela exposto. (...)."
Para ler o post, clique aqui.
domingo, 16 de setembro de 2012
A FOGUEIRA DAS ARMAÇÕES (III)
Ilustração: Basquiat.
O filme "Inocência dos Muçulmanos" não é caso isolado. Reproduzo a seguir duas interessantes abordagens:
1. Filmes com mensagens anti-islâmicas não são uma raridade na América pós-11 de Setembro. A Clarion Foundation, criada pelo rabino canadense Raphael Shore, especializou-se nesse tipo de documentiras doutrinárias e vai de vento em popa. Estreou em alto estilo com Obsession, paranoico alerta sobre a guerra que os muçulmanos radicais deflagrariam contra o Ocidente caso Obama se elegesse presidente, distribuído gratuitamente em milhares de domicílios durante a campanha presidencial de 2008.
Anders Breivik, o recém-condenado terrorista de Oslo, menciona Obsession uma dezenas de vezes em seu manifesto islamofóbico. (Fonte: Sérgio Augusto: aqui).
2. Documentário que expõe de maneira detalhada como o cinema de Hollywood, desde o início da sua história até os mais recentes blockbusters, mostrou os árabes de forma distorcida e preconceituosa.
O filme tem como apresentador o aclamado autor do livro “Reel Bad Arabs”, Dr. Jack Shaheen, Professor da Universidade de Illinois e estudioso do assunto.Faz uma análise, baseado em uma longa lista de imagens de filmes, de como os árabes são apresentados como beduínos bandidos, mulheres submissas, homens violentos, sheiks sinistros ou idiotas perdulários, ou ainda como terroristas armados e prestes a explodir pessoas e lugares. Uma maneira brilhante de mostrar, em uma narrativa bem construída, como as imagens contribuíram e contribuem para formar os estereótipos em torno dos árabes, suas origens e sua cultura.
O filme "Inocência dos Muçulmanos" não é caso isolado. Reproduzo a seguir duas interessantes abordagens:
1. Filmes com mensagens anti-islâmicas não são uma raridade na América pós-11 de Setembro. A Clarion Foundation, criada pelo rabino canadense Raphael Shore, especializou-se nesse tipo de documentiras doutrinárias e vai de vento em popa. Estreou em alto estilo com Obsession, paranoico alerta sobre a guerra que os muçulmanos radicais deflagrariam contra o Ocidente caso Obama se elegesse presidente, distribuído gratuitamente em milhares de domicílios durante a campanha presidencial de 2008.
Anders Breivik, o recém-condenado terrorista de Oslo, menciona Obsession uma dezenas de vezes em seu manifesto islamofóbico. (Fonte: Sérgio Augusto: aqui).
2. Documentário que expõe de maneira detalhada como o cinema de Hollywood, desde o início da sua história até os mais recentes blockbusters, mostrou os árabes de forma distorcida e preconceituosa.
O filme tem como apresentador o aclamado autor do livro “Reel Bad Arabs”, Dr. Jack Shaheen, Professor da Universidade de Illinois e estudioso do assunto.Faz uma análise, baseado em uma longa lista de imagens de filmes, de como os árabes são apresentados como beduínos bandidos, mulheres submissas, homens violentos, sheiks sinistros ou idiotas perdulários, ou ainda como terroristas armados e prestes a explodir pessoas e lugares. Uma maneira brilhante de mostrar, em uma narrativa bem construída, como as imagens contribuíram e contribuem para formar os estereótipos em torno dos árabes, suas origens e sua cultura.
Para escrever o livro, o autor analisou mais de 900 filmes, o que possibilitou formar esta contra-narrativa, reforçando a necessidade de mostrar a realidade e a riqueza da Cultura e da História Árabes.
O filme foi exibido em diversos festivais nos EUA, Europa e Mundo Árabe e recebeu o apoio do Comite Anti-Discrimição dos Árabes Americanos. (Fonte: blog ComTexto Livre. Para ver o filme-documentário, clique aqui).
sábado, 15 de setembro de 2012
SOBRE O NORDESTE BRASILEIRO
Pernambuco e o fator Nordeste
Por Luis Nassif
Secretário da Fazenda de Pernambuco, Paulo Câmara substituiu o governador Eduardo Campos no Seminário Brasilianas sobre o Nordeste e trouxe algumas informações sobre o modelo de desenvolvimento de Pernambuco.
Hoje em dia, o Nordeste tem população de 28% do total brasileiro e seu PIB representa apenas 13,5%. 51% da população recebem apenas um salário mínimo. O índice de analfabetismo é de 17% contra 9% do Brasil.
Nos anos 40 e 50 o Nordeste cresceu a 3,2% ao ano; na década de 50, a 5,8%.
Em meados da década foi criada a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), tendo como primeiro superintendente Celso Furtado.
Com o binômio Sudene-Finor (Fundo de Investimento no Nordeste), a região cresceu nos anos 70. E estagnou a partir dos anos 80 quando estourou a crise econômica brasileira e esgotou-se a capacidade de financiamento do Estado.
Foi a década perdida, com crescimento de 2,7% ao ano.
A década de 90 foi pífia, com a região crescendo a 2% ao ano. Culminou com 2002. Para corrigir abusos da Sudene e do Finor, extinguiram-se ambos. A região ficou sem instrumentos de estímulo às empresas. A saída foi uma enorme guerra fiscal que, de qualquer modo, ajudou a atrair muitas empresas para a região – mas exclusivamente atrás de incentivos fiscais e de mão de obra barata.
Os modelos de planejamento brasileiros foram demolidos nos anos 80 e 90. De escritórios de engenharia a fundações estaduais, poucos sobreviveram.
Pernambuco abeberou-se da tradição de estudos da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) e da Fundação Joaquim Nabuco. Depois, da assessoria do MBC (Movimento Brasil Competitivo), que ajudou a consolidar métodos gerenciais na gestão de governo.
Os fatores que levaram ao renascimento do Nordeste são muitos. De um lado, a Lei de Responsabilidade Fiscal, ajudando os estados a enquadrar suas contas. Depois, as políticas de proteção social, com valorização do salário mínimo, aparecimento de nova classe social e novo modelo de desenvolvimento.
Mesmo com problemas de implementação, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) trouxe nova dinâmica de investimento em infraestrutura para a região.
Agora, o desafio é criar segurança para o investidor e aprimoramento da mão de obra através da educação.
Um dos grandes problemas da educação é o fato de que a educação básica está nas mãos dos municípios. O grande desafio é montar modelos que criam formas decisivas de indução dos municípios a promover a educação básica.
Pela legislação tributária, 25% do ICMS vão para municípios. 75% desse total são distribuídos proporcionalmente ao que é gerado de ICMS no município. 25% são redistribuídos através de Lei Complementar.
O que o estado vez foi definir dez indicadores. O atendimento a cada indicador melhora a parcela adicional de ICMS ao municípios. Entre os indicadores, há a nota do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), os programas de saúde da família, indicadores de mortalidade infantil, localização de presídios, tratamento do lixo etc.
Ainda há muita água para rolar no Nordeste. Mas o ponto central das mudanças nordestinas foi o fato de, nos útimos anos, ter aposentado toda uma geração de coronéis da região, abrindo espaço para novas lideranças. (Fonte: aqui).
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Na fonte da matéria acima (blog de Luis Nassif) há comentários interessantes sobre o assunto.
É evidente que o Nordeste amarga ainda, e muito, problemas estruturais tanto na área econômica como no âmbito social. Mas é fato que houve um salto positivo nos últimos anos, devido fundamentalmente a investimentos públicos federais e programas sociais estatais, com destaque para o Bolsa Família e o crescimento real do salário-mínimo (ambos figurando como os principais responsáveis pelo surgimento dos chamados novos mercados internos).
Além da questão da educação, destacada pelo analista Nassif, há que se ressaltar também a necessidade do aprimoramento dos sistemas de fiscalização da aplicação de recursos públicos, pondo-se em prática, ao máximo, os propósitos da Lei de Acesso à Informação e demais diplomas legais. É que iniciativas corruptas sempre serão intentadas - o que impõe ao Estado ações mais atentas e tempestivas.
A FOGUEIRA DAS ARMAÇÕES (II)
Tim Dax, acima, à direita.
Ator de filme anti-Islã revela bastidores de gravações
Em entrevista a revista Time, o ator Tim Dax fala sobre como sua experiência no set de gravação de "Innocence of Muslims" ("Inocência dos Muçulmanos"). O filme causou controvérsia e manifestações por seu conteúdo anti-Islã, debochando do profeta Maomé, que resultou em um ataque ao consulado dos EUA na Líbia na terça-feira e na morte do embaixador Chris Steven.
Não é difícil reconhecer Tim Dax. O ator tem o corpo de um fisiculturista e uma tatuagem no rosto que se assemelha a um capacete antigo. Segundo a revista Time, Dax teve alguns papéis de pouco destaque na televisão norte-americana, como no seriado CSI e, com um nome diferente, em um filme pornográfico homossexual.
Há alguns meses atrás, Dax se inscreveu em uma seleção para participar de um filme através da internet que prometia um enredo sobre guerreiros de um mundo antigo. Dax foi selecionado e se apresentou em um estúdio em Los Angeles. Dax esperava que o filme fosse uma chance para crescer na competitiva indústria cinematográfica, mas ao invés disso, encontrou uma produção estranha, cuja péssima qualidade se tornou motivo de piada entre os membros do elenco.
Segundo Dax, a maior parte das gravações era feita em frente à um fundo verde pintado na parede de um celeiro. Os atores não recebiam o script com antecedência para ensaiar e tomavam conhecimento de suas falas instantes antes das gravações. Mesmo quando cometiam algum erro, o diretor ficava satisfeito com a cena e não pedia outros takes. Os diálogos causavam estranheza aos atores, mas Dax afirma que eles preferiam não questionar o diretor.
O filme foi anunciado aos atores com o nome Desert Warrior ("Guerreiros do Deserto"), mas foi publicado no YouTube em um fragmento de 14 minutos sob o título "Innocence of Muslims". Algumas das falas dos atores foram dubladas e a história focou em denegrir o profeta Maomé. (Fonte: aqui).
................
Quem armou essa? Nada se pode afirmar. Mas pode-se dizer que o propósito (insuflar/indignar adeptos do Islã, notadamente fanáticos radicais) foi alcançado. Corrijo-me: o propósito inicial foi alcançado, pois não é improvável que haja um outro objetivo, ou mais de um, em 'n' searas...
Ator de filme anti-Islã revela bastidores de gravações
Em entrevista a revista Time, o ator Tim Dax fala sobre como sua experiência no set de gravação de "Innocence of Muslims" ("Inocência dos Muçulmanos"). O filme causou controvérsia e manifestações por seu conteúdo anti-Islã, debochando do profeta Maomé, que resultou em um ataque ao consulado dos EUA na Líbia na terça-feira e na morte do embaixador Chris Steven.
Não é difícil reconhecer Tim Dax. O ator tem o corpo de um fisiculturista e uma tatuagem no rosto que se assemelha a um capacete antigo. Segundo a revista Time, Dax teve alguns papéis de pouco destaque na televisão norte-americana, como no seriado CSI e, com um nome diferente, em um filme pornográfico homossexual.
Há alguns meses atrás, Dax se inscreveu em uma seleção para participar de um filme através da internet que prometia um enredo sobre guerreiros de um mundo antigo. Dax foi selecionado e se apresentou em um estúdio em Los Angeles. Dax esperava que o filme fosse uma chance para crescer na competitiva indústria cinematográfica, mas ao invés disso, encontrou uma produção estranha, cuja péssima qualidade se tornou motivo de piada entre os membros do elenco.
Segundo Dax, a maior parte das gravações era feita em frente à um fundo verde pintado na parede de um celeiro. Os atores não recebiam o script com antecedência para ensaiar e tomavam conhecimento de suas falas instantes antes das gravações. Mesmo quando cometiam algum erro, o diretor ficava satisfeito com a cena e não pedia outros takes. Os diálogos causavam estranheza aos atores, mas Dax afirma que eles preferiam não questionar o diretor.
O filme foi anunciado aos atores com o nome Desert Warrior ("Guerreiros do Deserto"), mas foi publicado no YouTube em um fragmento de 14 minutos sob o título "Innocence of Muslims". Algumas das falas dos atores foram dubladas e a história focou em denegrir o profeta Maomé. (Fonte: aqui).
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Quem armou essa? Nada se pode afirmar. Mas pode-se dizer que o propósito (insuflar/indignar adeptos do Islã, notadamente fanáticos radicais) foi alcançado. Corrijo-me: o propósito inicial foi alcançado, pois não é improvável que haja um outro objetivo, ou mais de um, em 'n' searas...
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
A FOGUEIRA DAS ARMAÇÕES
A mídia ocidental intitula de sátira o turbilhão de ofensas dirigidas a Maomé; Tio Sam diz que a Constituição dos EUA assegura o direito ilimitado de expressão (e, no caso, de ofensa), razão por que nada pode fazer; as forças de segurança americanas até o momento desconhecem a verdadeira identidade do 'diretor' do filme - cujos 60 atores alegam haver sido iludidos, visto que a denominação de personagem como "Maomé" somente foi feita na fase final, a chamada montagem do filme.
Já o governo do Egito informa que ingressará na Justiça contra os ofensores do Islã, embasando-se em diretrizes do direito internacional.
Enquanto isso, há quem continue achando que, independentemente de qualquer desfecho, a fogueira das armações continuará crepitando.
É hora de desarmar Deus
Por Mauro Santayana
O grande problema de Deus é que não o conhecemos senão na mente e no coração dos homens. E os homens constroem a sua fé com a frágil experiência de seus limitados sentidos, suficientes apenas para o trânsito no mundo em que vivemos. Os olhos podem crescer nos telescópios e ir ao fundo dos universos, ou na perscrutação das moléculas e átomos, mas isso é pouco para encontrar Deus, e menos ainda para construí-lo.
Já o governo do Egito informa que ingressará na Justiça contra os ofensores do Islã, embasando-se em diretrizes do direito internacional.
Enquanto isso, há quem continue achando que, independentemente de qualquer desfecho, a fogueira das armações continuará crepitando.
É hora de desarmar Deus
Por Mauro Santayana
O grande problema de Deus é que não o conhecemos senão na mente e no coração dos homens. E os homens constroem a sua fé com a frágil experiência de seus limitados sentidos, suficientes apenas para o trânsito no mundo em que vivemos. Os olhos podem crescer nos telescópios e ir ao fundo dos universos, ou na perscrutação das moléculas e átomos, mas isso é pouco para encontrar Deus, e menos ainda para construí-lo.
Sendo assim, e desde que há comunidades políticas, o monoteísmo tem servido para identificar ou acerbar as razões ou desrazões nacionais.
O Ocidente judaico-cristão não assimilou a chamada terceira revelação, a de Maomé, embora ela não tenha significado nenhuma apostasia essencial ao hebraísmo. O problema se tornou político, com a expansão dos povos árabes pelo norte da África e a invasão da Península Ibérica. Os islamitas sempre toleraram os cultos judaicos e cristãos nas áreas sob sua jurisdição política, mas a política recomendava aos reis cristãos a expulsão dos árabes da Europa e a guerra, continuada, fosse para contê-los, fosse para fazê-los retroceder ou para eliminá-los.
As cruzadas ainda não acabaram, e se tornaram menos românticas e mais cruéis por causa do petróleo.
Agora, um filme de baixa qualidade técnica e artística – conforme a opinião de especialistas – traz novo comburente às velhas chamas. Sem nenhum fundamento histórico, um fanático israelita (é o que se sabe) produz película eivada de insultos e ódio contra o fundador do islamismo, como se Maomé tivesse sido o mais infame e desprezível personagem da História. Como o filme foi produzido nos Estados Unidos, a reação imediata foi contra as representações diplomáticas nos países islâmicos. Essa reação, que culminou com a morte do embaixador norte-americano na Líbia, ainda não se encontra contida, e é provável que ainda se agrave, apesar das declarações do governo norte-americano, que busca distanciar-se dos insultos.
Os republicanos, em plena campanha eleitoral, devem ter exultado. A morte do Embaixador (asfixiado no incêndio do Consulado em Benghazi) pode ter sido uma baixa para os seus quadros, mas representa um trunfo contra Obama: sua política não tem conseguido dar segurança absoluta aos cidadãos norte-americanos. É essa a mensagem de Romney ao eleitorado dos Estados Unidos. A resposta de Obama, enviando dois destróieres à Líbia, não foi a melhor para reduzir as tensões; ela pode intensificá-las.
O que o governo de Washington e os republicanos não dizem é que o apoio, incondicional, aos radicais de Israel, que pregam abertamente a eliminação dos muçulmanos do mundo — assim como os nazistas desejavam a eliminação de todos os judeus – estimula os insultos infamantes ao Islã e a resposta espontânea e violenta dos fanáticos do outro lado contra aqueles a quem atribuem a responsabilidade maior: os norte-americanos. E há ainda a hipótese, tenebrosa, mas provável, diante dos precedentes históricos, de que as manifestações tenham partido de agentes provocadores dos próprios serviços ocidentais – ou israelistas, o que dá no mesmo.
A mentira de Blair e Bush – dois homens que o bispo Tutu, da África do Sul, quer ver no banco dos réus em Haia – custou centenas de milhares de civis mortos no Iraque e no Afeganistão, e muitos milhares de jovens norte-americanos mortos, feridos, enlouquecidos nos combates inúteis. Nada é pior para os capitalistas do que a paz – e nada melhor do que a guerra, que sempre os enriquece mais, e na qual só os pobres morrem. (Fonte: aqui).
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Artigo. Religião. Fanatismo. Islã. Maomé.
FIFA: TATU BOLA É O MASCOTE DA COPA 2014
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Jbosco.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
O GARGALO DA CRISE MUNDIAL
Rodrigo.
Austeridade não leva a crescimento mundial, diz Unctad
Por Akemi Natahara
As medidas de austeridade e o achatamento dos salários enfraquecem o crescimento dos países desenvolvidos e não estimulam a economia como o esperado, sem criação de empregos, redução nos déficits fiscais ou aumento da confiança dos mercados financeiros.
É o que aponta o Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2012 - Políticas para o Crescimento Inclusivo e Equilibrado, divulgado (...) pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). O documento indica que os países em desenvolvimento ficam vulneráveis, já que os cortes fiscais nos países mais ricos prejudicam a recuperação.
Nos últimos dois anos, a Unctad emitiu avisos sobre o risco de trocar prematuramente as medidas de estímulo econômico por cortes no orçamento, o que leva ao enfraquecimento do mercado interno e pessimismo dos empresários.
O relatório aponta que a desaceleração ocorre em todas as regiões do mundo. Apesar de países em desenvolvimento aplicarem políticas para apoiar as demandas internas, as medidas não são suficientes para atingir as economias avançadas. O crescimento global ficou em 2,7% em 2011, ante 4,1% em 2010. Para 2012, a expectativa da Unctad é de crescimento global de 2,5% e de apenas 1% entre os países desenvolvidos. As economias em desenvolvimento podem chegar a 5%.
Segundo a Unctad, o relatório de 2010 já advertia que a recuperação econômica deveria ocorrer com o aumento da demanda interna, e não com a redução da dívida do governo. O relatório deste ano confirma os temores e acrescenta que a recessão nos países desenvolvidos dificulta a recuperação global. Além disso, aponta um erro no diagnóstico, já que os déficits fiscais são o resultado e não a causa da crise, diz o documento.
Como solução, a Unctad aponta a restauração do crescimento e das receitas fiscais que, a longo prazo, vão resolver o problema do aumento da dívida pública. Também são necessárias medidas macroeconômicas, além de reformas estruturais, para reforçar a segurança social e o apoio econômico do Estado, como vem ocorrendo em países em desenvolvimento.
De acordo com o relatório, 74% da produção global, entre 2006 e 2012, ocorreu nos países em desenvolvimento, enquanto essa proporção, nos anos 1980 e 1990, era de 75% nos países desenvolvidos.
Segundo a Unctad, reduzir a desigualdade na renda leva a benefícios sociais e a um maior crescimento econômico, tendência observada nos últimos 30 anos em países desenvolvidos e em desenvolvimento. O relatório aponta também que um dos fatores que levaram à crise foi a grande concentração de renda nas mãos de poucos e o endividamento das massas assalariadas para manter o padrão de vida, reduzindo o consumo das classes mais baixas.
O documento destaca que a eficiência econômica não é incompatível com a redução da desigualdade. A Unctad recomenda que os governos adotem medidas que preservem o emprego e melhorem a distribuição de renda entre os trabalhadores, como a tributação progressiva e o aumento dos gastos públicos, ao contrário do que vem sendo adotado, de minimizar a intervenção do Estado e flexibilizar a proteção ao trabalho.
A Unctad aponta que os governos devem se apropriar de uma parte das rendas provenientes das commodities, para que os recursos do país beneficiem toda a população, e não apenas os atores nacionais e internacionais envolvidos.
Quanto à flexibilização da proteção ao trabalho, o relatório indica que as medidas reduziram o emprego ao invés de aumentar, já que o crescimento da produtividade global sem o aumento proporcional dos salários não leva ao aumento da demanda e do consumo. (Fonte: aqui).
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
SOBRE A PROPOSTA DE NOVO CÓDIGO PENAL
Projeto do novo Código cria mercado da pena
Por Marcelo Semer
A calúnia do jornalista será punida com até seis anos de prisão – muito mais, por exemplo, que manter alguém em cárcere privado por duas semanas.
A caça profissional de animais silvestres será quase tão grave quanto o homicídio – sendo que apenas perseguir o bicho já é suficiente para caracterizar o crime.
Promover a briga de galo vai dar mais cadeia do que lesionar uma pessoa e incapacitá-la para o trabalho.
Falar sobre o desequilíbrio das penas no projeto do Código Penal é quase como chutar cachorro morto.
Basta ter paciência para ler - se o receptador, por exemplo, tiver essa disposição, certamente vai admitir perante o juiz que praticou ele mesmo o furto, para receber uma pena menor.
Mas o projeto está longe de se distinguir apenas por esses equívocos.
O texto apresentado no Senado está imbuído de um absoluto senso de ubiquidade, levando o direito penal a tentar resolver quase todo o tipo de conflito. Bem distante assim do ideal que os penalistas costumam chamar de ultima ratio.
O projeto passa a punir criminalmente o cambismo, incorpora a antiga contravenção de perturbação de sossego e estabelece até mesmo pena para o fornecedor que der preferência a um cliente na frente de outro. Se der certo, as filas dos restaurantes não serão as mesmas.
Mas acreditar na eficácia do direito penal para evitar a prática de crimes é o triunfo da esperança sobre a experiência – prometer o que não vai ser entregue. Como a proposta de tipificar o terrorismo praticado com “armas de destruição em massa” durante grande evento esportivo, na expectativa de que por causa disso nada atrapalhe o bom andamento da Copa de 2014.
A ânsia de levar o direito penal à eficácia total fez o projeto contemplar inclusive a barganha, que promete transformar em um ‘mercado’ a aplicação das penas de prisão.
Importado de um direito com que o nosso não guarda nenhuma semelhança, a barganha se funda na ideia de um acordo de vontades que torna o processo praticamente desnecessário.
O réu confessa antes de serem ouvidas testemunhas e o promotor lhe oferece uma pena mínima.
O mercado da pena é marcadamente utilitarista e fragiliza a ideia de processo como garantia.
Torna o que sempre foi irrenunciável como disponível. E celebra a confissão como prova cabal, o que a doutrina custou anos de refinamento para combater.
Concede, ainda, um poder excessivo ao Ministério Público como senhor da pena, pois sua atuação normalmente vinculada passa a ser um ato de vontade. Além de confiar em demasia na capacidade de discernimento de réus em precária situação. Esquece, sobretudo, dos riscos do comodismo, que podem prejudicar até os objetivos da própria repressão.
Com o esvaziamento do processo, vai-se perdendo um dos últimos bastiões do controle do poder punitivo.
Os autores do projeto podem até ficar satisfeitos porque a “opinião pública” é em regra adepta de punições, encara o processo como impunidade e costuma entender que direitos humanos são inaplicáveis a quem comete crimes.
Mas como ensina Eugênio Raul Zaffaroni, um poder punitivo sem controle é o primeiro passo para o autoritarismo. E daí para a barbárie. (Fonte: aqui).
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Em junho, publiquei aqui análise de autoria de Luiz Garcia sobre a proposta de novo Código Penal. Lá, deixei o seguinte comentário:
"Pode ser um projeto e tanto, como enfatiza o articulista, mas convém aguardarmos, inclusive para saber se serão adotadas certas práticas, como:
.enquadramento do crime de corrupção como crime hediondo, e
.punição de pessoas jurídicas corruptoras (empresas, sócios e dirigentes).
Espera-se, também, que o novo código estabeleça tratamento mais enérgico relativamente a crimes ambientais (o contrabando de madeira, por exemplo, é considerado, pela legislação em vigor, como de baixo potencial ofensivo - constituindo, na prática, um estímulo ao crime)."
Não tive acesso à proposta, mas as observações do juiz Marcelo Semer deixam clara a necessidade de um amplo debate.
"Pode ser um projeto e tanto, como enfatiza o articulista, mas convém aguardarmos, inclusive para saber se serão adotadas certas práticas, como:
.enquadramento do crime de corrupção como crime hediondo, e
.punição de pessoas jurídicas corruptoras (empresas, sócios e dirigentes).
Espera-se, também, que o novo código estabeleça tratamento mais enérgico relativamente a crimes ambientais (o contrabando de madeira, por exemplo, é considerado, pela legislação em vigor, como de baixo potencial ofensivo - constituindo, na prática, um estímulo ao crime)."
Não tive acesso à proposta, mas as observações do juiz Marcelo Semer deixam clara a necessidade de um amplo debate.
CORTE NAS TARIFAS DE ENERGIA
Amorim. (Nonsense típico de Juarez Machado, o mago de Joinville, SC, e do Brasil).
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Consumidores domésticos e entidades representativas da indústria, comércio e serviços louvaram a inédita iniciativa (redução em cerca de 16% nas tarifas domésticas e de até 28% nas demais). Já setores da grande imprensa, seguindo a tradição, foram bem, digamos, discretos, como o apresentador de um grande jornal televisivo, que, circunspecto, e sem se dar ao trabalho de citar sua eventual fonte, tascou: "Mesmo com as anunciadas reduções nas tarifas de energia elétrica, o Brasil ocupará o 8º lugar no ranking dos que praticam os preços mais elevados." E mais não disse, o iluminado (a iluminação, aí, é isenta de tarifa).
A CÂMERA QUE CHEGOU ANTES
Aquela câmera...
Por Luis Fernando Veríssimo
Até hoje tem gente que duvida que o homem chegou na Lua. Teria sido tudo encenação, tudo feito em estúdio. Em vez de um triunfo da Nasa e do programa espacial americano, um triunfo de Hollywood e seu poder de criar ilusões. Tudo propaganda, encomendada pelo governo americano para camuflar o atraso do país em relação à União Soviética na exploração do espaço. Um golpe de relações públicas, não uma conquista científica.
A teoria não se aguenta, claro. Uma trapaça deste tamanho demandaria uma teia de segredos e cumplicidades difícil de imaginar. A ilusão teria sido denunciada há tempo e a farsa desmascarada - pelos próprios americanos, que gostam de uma revisãozinha histórica como ninguém. Mas nenhuma versão séria da teoria da encenação apareceu. Não houve uma conspiração. A conquista aconteceu mesmo e foi admirável. Homens caminharam mesmo na superfície da Lua e até trouxeram suvenires. Mas...
Mas tem a questão daquela câmera. A que registrou a descida do Neil Armstrong de dentro do módulo espacial, pela escadinha, para dar o primeiro passo da humanidade num corpo celeste que não era o seu. Foi o momento mais emocionante da aventura, e a câmera estava lá, registrando tudo. Como a câmera estava lá, montada no lugar certo para não perder nada?
A explicação oficial foi que a câmera tinha sido ejetada de dentro do módulo e caído a alguns metros de distância na posição ideal para gravar a descida de Armstrong. Uma explicação plausível: afinal, para quem coloca um módulo na Lua com aquela precisão, colocar uma câmera de pé no lugar desejado não seria nada de mais. Mas em vez de imaginar a câmera sendo expelida do módulo com tripé e tudo, dando uma cambalhota no ar e caindo no lugar certo, imaginemos uma alternativa.
Imaginemos Neil Armstrong, que morreu (há alguns dias), com 82 anos, de problemas com o coração, usando seus últimos alentos para confessar "Foi tudo mentira..."
- O que é isso, comandante?
- A descida na Lua. Foi mentira.
- Como, mentira? Foi verdade. O senhor foi o primeiro homem a pisar na Lua e...
- A câmera. Fui eu que montei. Desci do módulo, montei a câmera no seu tripé, acertei o foco, e voltei para dentro do módulo. Depois, desci a escadinha, fingindo que era pela primeira vez. Era mentira.
- Não, comandante. Aquele foi o momento mais bonito de todos. Sem a câmera ali, a emoção não seria a mesma. Foi a mentira que tornou a verdade espetacular. (Fonte: aqui).
terça-feira, 11 de setembro de 2012
ONZE ANOS DO 11/09 (III)
Sinfrônio. (Jornal O Povo).
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11 de setembro e o papel da mídia
Por Altamiro Borges
Os bárbaros atentados de 11 de setembro de 2001 continuam gerando intensas polêmicas. Há divergências sobre as suas causas e sobre a resposta dos EUA. Há suspeitas, até, sobre a postura de George W. Bush. Infelizmente, porém, pouco se fala sobre o papel que a mídia desempenhou neste episódio que abalou o mundo. Na verdade, a mídia prefere evitar este tema tão constrangedor.
Os atentados confirmaram a tese de que os impérios midiáticos servem aos interesses políticos e econômicos da classe dominante. Como já ensinou o marxista Antonio Gramsci, nos momentos de crise e tensão, a imprensa desempenha o papel de partido do capital. Ou, segundo a máxima do senador ianque Hiram Johnson, “a primeira vítima, quando começa a guerra, é a verdade”.
A máquina de propaganda da guerra
A ligação entre as corporações midiáticas e as potências capitalistas ficou patente na difusão acrítica das mentiras de George Bush sobre os atentados e na cobertura amplamente favorável à posterior invasão e genocídio no Iraque e Afeganistão. A mídia virou uma poderosa máquina de propaganda da “guerra ao terror” desencadeada pelo governo terrorista dos EUA.
A Fox, do mafioso Rupert Murdoch, foi a mais agressiva no apoio. Ela chegou fazer campanha de boicote aos produtos franceses em repúdio ao governo deste país que criticou a “guerra”. Já a CNN abandonou seu falso ecletismo. No primeiro dia da ocupação, ela introduziu a vinheta “começou a libertação” e criou um sistema de script approval (aprovação do original), censurando seus repórteres. Oficiais militares, muitos deles ligados às empresas contratadas pelo governo do EUA – como a firma de mercenários Blackwater – foram usados como “articulistas” pelas TVs.
(Para continuar a leitura, clique aqui).
FOGUEIRA DAS REDES
Ilustração: Gorka Olmo.
O Facebook como espelho
Por Luli Radfahrer
Ainda me lembro da época em que o público de um espetáculo musical estava lá para ouvir música, talvez para cantar e dançar, certamente não para fotografar e ser fotografado. Silenciosamente algo mudou. A popularização das câmaras e das redes de compartilhamento parece ter despertado até nos mais tímidos uma compulsão por mostrar tudo o que é vivido, mesmo que seja um acontecimento banal.
"Se não fotografou e não publicou, então não existe." O exibicionismo é expresso em páginas, video-casts, perfis e linhas do tempo que parecem relatórios clínicos de narcisistas compulsivos, em suas várias formas: fotografias com caras e bocas, opiniões rasas a respeito de praticamente tudo, vídeos em que nada de interessante acontece e a triste alegria coletiva com o grotesco e a humilhação.
A exposição é razoavelmente recente. Uma das primeiras autobiografias dedicadas ao registro do cotidiano é "Confissões", de Rousseau. Arrojado e provocador para o século 18, o iluminista francês ficaria chocado com o tamanho da exibição de hoje. Desde os anos 1980, quando yuppies, computadores pessoais e o culto ao corpo abriram canais para a expressão individual, o particular é cada vez mais público e amplificado.
Celulares e redes de compartilhamento transformaram os 15 minutos de fama em uma espécie de "Show de Truman" universal, em que registros banais e confissões diversas tornaram todos um pouco inseguros, verificando a composição de sua figura no espelho do Facebook e corrigindo seu discurso e conduta de acordo com as menções e aprovações recebidas.
Nem o Narciso mitológico seria tão autocentrado. Aquele que morreu afogado ao se apaixonar por sua figura refletida em um espelho d'água poderia argumentar que não sabia que via um reflexo. Como muitos usuários de redes sociais, ele se apaixonou por uma tela e sucumbiu ao confundi-la com a realidade.
Essa confusão entre o real e o fictício publicado é uma das faces mais assustadoras do narcisismo digital. Muitos têm uma visão de realidade tão distorcida pela percepção alheia, tão fragmentada e amplificada pelos perfis e grupos a que pertencem, que geram especulações maiores do que pode supor sua vã fenomenologia.
A vida na vitrine da interface, livre da moderação e da compostura que qualquer grupo social demanda, cria uma gigantesca câmara de eco, em que mensagens são referências de referências de referências, perdendo significado e substância no processo.
O sucesso de uma trilogia pornô, derivada de uma fantasia de fã da série "Crepúsculo", que por sua vez é derivada das clássicas histórias de vampiros, é o exemplo mais recente. Impulsionado pela indicação do amigo do amigo do amigo nas redes sociais, "50 Tons de Cinza" se transformou no maior best-seller do país que um dia foi de Shakespeare e Charles Dickens.
Há uma certa melancolia na situação. Ambientes que permitem tanta exposição e manifestação de identidades múltiplas demandam coerência de pensamento para que seus atores não se tornem reféns das personagens que representam.
Sem contar que todo esse egocentrismo é muito, muito chato. (Fonte: aqui).
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Convenhamos: ter à mão um instrumento como o Face é singular. Nunca se tinha visto coisa tão acessível, onipresente em tempo real no mundo inteiro, atraente, fascinante. É natural que se alastre. O deslumbramento é normal, até chegar o momento em que certa disciplina (ou sobriedade) passe a ser observada.
Até lá, porém...
Por Luli Radfahrer
Ainda me lembro da época em que o público de um espetáculo musical estava lá para ouvir música, talvez para cantar e dançar, certamente não para fotografar e ser fotografado. Silenciosamente algo mudou. A popularização das câmaras e das redes de compartilhamento parece ter despertado até nos mais tímidos uma compulsão por mostrar tudo o que é vivido, mesmo que seja um acontecimento banal.
"Se não fotografou e não publicou, então não existe." O exibicionismo é expresso em páginas, video-casts, perfis e linhas do tempo que parecem relatórios clínicos de narcisistas compulsivos, em suas várias formas: fotografias com caras e bocas, opiniões rasas a respeito de praticamente tudo, vídeos em que nada de interessante acontece e a triste alegria coletiva com o grotesco e a humilhação.
A exposição é razoavelmente recente. Uma das primeiras autobiografias dedicadas ao registro do cotidiano é "Confissões", de Rousseau. Arrojado e provocador para o século 18, o iluminista francês ficaria chocado com o tamanho da exibição de hoje. Desde os anos 1980, quando yuppies, computadores pessoais e o culto ao corpo abriram canais para a expressão individual, o particular é cada vez mais público e amplificado.
Celulares e redes de compartilhamento transformaram os 15 minutos de fama em uma espécie de "Show de Truman" universal, em que registros banais e confissões diversas tornaram todos um pouco inseguros, verificando a composição de sua figura no espelho do Facebook e corrigindo seu discurso e conduta de acordo com as menções e aprovações recebidas.
Nem o Narciso mitológico seria tão autocentrado. Aquele que morreu afogado ao se apaixonar por sua figura refletida em um espelho d'água poderia argumentar que não sabia que via um reflexo. Como muitos usuários de redes sociais, ele se apaixonou por uma tela e sucumbiu ao confundi-la com a realidade.
Essa confusão entre o real e o fictício publicado é uma das faces mais assustadoras do narcisismo digital. Muitos têm uma visão de realidade tão distorcida pela percepção alheia, tão fragmentada e amplificada pelos perfis e grupos a que pertencem, que geram especulações maiores do que pode supor sua vã fenomenologia.
A vida na vitrine da interface, livre da moderação e da compostura que qualquer grupo social demanda, cria uma gigantesca câmara de eco, em que mensagens são referências de referências de referências, perdendo significado e substância no processo.
O sucesso de uma trilogia pornô, derivada de uma fantasia de fã da série "Crepúsculo", que por sua vez é derivada das clássicas histórias de vampiros, é o exemplo mais recente. Impulsionado pela indicação do amigo do amigo do amigo nas redes sociais, "50 Tons de Cinza" se transformou no maior best-seller do país que um dia foi de Shakespeare e Charles Dickens.
Há uma certa melancolia na situação. Ambientes que permitem tanta exposição e manifestação de identidades múltiplas demandam coerência de pensamento para que seus atores não se tornem reféns das personagens que representam.
Sem contar que todo esse egocentrismo é muito, muito chato. (Fonte: aqui).
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Convenhamos: ter à mão um instrumento como o Face é singular. Nunca se tinha visto coisa tão acessível, onipresente em tempo real no mundo inteiro, atraente, fascinante. É natural que se alastre. O deslumbramento é normal, até chegar o momento em que certa disciplina (ou sobriedade) passe a ser observada.
Até lá, porém...
O NÚMERO UM DO SÉCULO XXI
China ou Estados Unidos: quem será a potência do século XXI?
Por Marcelo Justo
Com o estouro financeiro de 2008, formou-se um crescente consenso de que a China se converteria na potência dominante do século XXI. O debate se centrava mais em quando ela superaria os Estados Unidos: 2015, 2030 ou em meados do século. Em todo caso, o declínio estadunidense era tão inevitável como o do império anterior, o britânico, que no final do século XIX começou a mostrar sinais de debilidade que se tornaram irreversíveis nas primeiras décadas do século XX.
Essa polêmica foi reaberta. Em um recente debate na BBC, o coautor de “The American Phoenix” (A Fênix Americana), Charles Dumas, assinalou que a China era um insustentável castelo de cartas enquanto que os EUA estavam mostrando sinais de recuperação. “A China cresceu baseada em um modelo exportador que se esgotou porque os Estados Unidos já não estão em condições de absorver seus produtos. Já os Estados Unidos estão mostrando novamente sua capacidade histórica para se reinventar”, opinou Dumas.
No lado oposto do debate, Arvind Subraminian, do Peterson Institute, de Washington, e autor de “Eclipse: living in the shadow of chinese economic dominance”, disse à BBC que a China tinha fundamentos para dar um salto qualitativo em relação ao impressionante crescimento das últimas décadas. “Por seu poder populacional, por seu dinamismo interno e por sua extraordinária capacidade financeira, a China vai substituir os Estados Unidos”, assinalou Subraminian. Em meio à polêmica, chama a atenção que a posição oficial chinesa se aproxime mais da do “cético” Dumas que da do “otimista” Subraminian.
Enigma chinês
A menos de dois meses da mudança de direção que regerá o destino do país nos próximos dez anos, o Partido Comunista chinês insiste que a China é uma economia em desenvolvimento com urgentes problemas sociais. Alguns dados abonam essa tese. No Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, a China se encontra em 101º lugar, abaixo da maioria dos países latino-americanos (só está acima de El Salvador, Paraguai, Bolívia, Honduras e Nicarágua). Comparado com os Estados Unidos, tem uma receita per capita seis vezes menor.
Apesar destes dados, Arvind Subraminian lembra que no ano passado, quando a eurozona parecia a ponto de se desintegrar, seus dirigentes não procuraram uma solução nos EUA, mas olharam para a China. O fato é sintomático. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a China estava mergulhada em sua guerra civil e a Europa buscava ajuda na nova potência mundial, os Estados Unidos, que, em meio à guerra fria, propôs o Plano Marshall para contrapor o avanço da União Soviética.
Hoje, os EUA não estão em condições de desempenhar esse papel: a China, sim. Em suas três décadas de crescimento médio de 10% ao ano, ela se converteu na maior reserva financeira do mundo: cerca de três trilhões de dólares (30% das reservas globais). O enigma é se este modelo é sustentável e se poderá ser substituído com sucesso por um novo.
Como outras nações asiáticas (Japão, Coreia do Sul), a China cresceu a passos gigantescos a partir de um modelo exportador com mão de obra barata e uma conjuntura internacional favorável. Esse modelo está esgotado hoje pelo desequilíbrio que se produziu com os Estados Unidos e outras economias. O investimento estatal massivo de 2008-2009 serviu para romper a estagnação, mas, segundo os céticos, corre o perigo de gerar bolhas insustentáveis. “A China cresceu com um investimento de quase a metade do PIB. Enquanto isso, o consumo interno só constitui 34%. Este modelo constitui uma distorção insustentável”, diz Charles Dumas.
Entre 2009 e 2010, os bancos chineses emprestaram cerca de três trilhões de dólares. Os pessimistas que vaticinam uma aterrisagem forçada da economia chinesa estimam que em torno de 30% destes empréstimos podem ficar sem pagamento. Nos anos 80, o Japão era a sombra que ameaçava o poder estadunidense: um estouro bancário-imobiliário no final da década levou a uma estagnação de quase duas décadas. É este o espelho real chinês?
As sombras dos Estados Unidos
Se nem tudo são luzes no caso chinês, no estadunidense, os desequilíbrios e sinais de decadência são evidentes há tempos. O gigantesco duplo déficit fiscal e comercial estadunidense baseou-se em um modelo que, segundo seus críticos, é também insustentável. O salário real médio é o mesmo da década de70. A dívida público-privada é três vezes o PIB nacional. “Os EUA são como um edifício que foi motivo de orgulho há muito tempo. Hoje, os andares de cima, os mais ricos, seguem se expandindo, os do meio estão diminuindo e os de baixo estão inundados e o elevador não funciona”, diz Subraminian.
Apesar deste panorama social deslocado, os Estados Unidos seguem dominando um setor chave da economia moderna: a inovação tecnológica. As grandes invenções da última década – desde o Windows até o Facebook – vieram dos Estados Unidos. Mas, além disso, com o estouro financeiro de 2008, há sinais de uma mudança de modelo. Se entre 1982 e 2007 o crescimento se baseou no consumo financiado com o crédito fácil em detrimento da indústria, hoje os EUA voltaram a exportar: suas vendas ao exterior foram quase a metade de seu crescimento econômico no ano passado.
Além disso, não é a primeira vez que se anuncia o inevitável fim da hegemonia estadunidense. O Japão dos anos 80 é o caso que mais se assemelha à China, mas nos anos 50 e 60 o prognóstico da moda era que a falecida União Soviética deixaria os EUA para trás.
Segundo assinalou à Carta Maior, Shaun Breslin, autor de “China and the global political economy”, o resultado será mais matizado que uma mera vitória ou derrota. “Em nível militar, a China não vai alcançar os Estados Unidos. Mas, por sua mera gravitação populacional, a China não será como o Japão dos 80. Sua importância em nível mundial é muito clara como se vê pelo impacto que tem na América Latina e nos países em desenvolvimento”, observa Breslin.
Em grande medida, a resposta estará em como cada um sairá da incerta crise econômico-financeira que estourou em 2007-2008 e que ainda cobre com sombras o panorama global. (Fonte: aqui).
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A disputa China X EUA já vem se desenrolando com todo o gás na África (recursos minerais), nos arredores do Oriente Médio (basicamente petróleo) e em outras plagas, como América do Sul (matérias-primas, gêneros alimentícios, relações de comércio...). A China é a principal fiadora do mastodôntico e crônico déficit norte-americano; sem ela, os EUA estariam há tempos contabilmente falidos. Mas, antes de Tio Sam eventualmente vir a ser compelido a entregar os pontos, muita água terá rolado por baixo e por cima da ponte. Certamente, para nosotros a postura mais adequada será cuidar para que o Brasil siga o caminho certo, que é o da busca do desenvolvimento integral, virtuoso e soberano. Até porque a Lei de Murici estará sempre na ordem dia em todos os países do mundo, especialmente os da alta cúpula.
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Economia. China e EUA. Número um do mundo.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
E LA NAVE VA
Aqui quem fala é da Terra
Por Rafael Garcia
A sonda espacial Voyager-1, que acaba de completar 35 anos ainda na ativa, parecia estar prestes a celebrar um marco histórico: seu salto para o espaço interestelar.
Carregando um disco de ouro com imagens e sons da Terra e informações científicas, a nave marcou época por ser a primeira "mensagem na garrafa" cósmica enviada pelo nosso planeta -um recado para possíveis civilizações extraterrestres que derem a sorte de encontrá-la. (...)
Agora, porém, cientistas estão em dúvida sobre sua localização -pode ser que ela ainda não esteja nas fronteiras do Sistema Solar, ao contrário do que se pensava.
O fenômeno que traça a fronteira entre a zona de influência do Sol e a exterior é o chamado vento solar: as partículas eletricamente carregadas emitidas por nossa estrela em alta velocidade.
Os cientistas da Voyager-1 achavam que a nave já tinha se aproximado da chamada heliopausa, onde o vento solar encontra o vento interestelar (vindo do resto da Via Láctea). Nessa fronteira, os dois se anulam.
Em abril de 2010, a nave parou de sentir o vento solar, e cientistas concluíram que a calmaria era sinal de que as partículas do Sol estavam sendo freadas pelas da região interestelar. A nave estaria exatamente na transição da heliopausa, prestes a saltar para fora do reino do Sol.
Para confirmar a descoberta, em 2011, os cientistas decidiram rotacionar a Voyager-1 para fazer mais medidas. Mesmo sendo incapaz de detectar o vento solar radial (vindo diretamente do Sol), a espaçonave deveria sentir o vento meridional (que ricocheteia na heliopausa e sopra perpendicularmente).
A tentativa, porém, foi em vão, relatou Robert Decker, astrofísico da Universidade Johns Hopkins (EUA), na revista "Nature". Os detetores da nave não estavam sentindo nem uma brisa.
"Concluímos que a Voyager-1 não está perto da heliopausa", escreveu Decker. Existe a possibilidade, diz, de que essa região seja uma fronteira móvel e tenha se afastado ao longo de um ano.
O célebre disco de ouro das Voyagers foi idealizado pelo astrônomo pop star Carl Sagan (1934-1996). O comitê reunido por ele fez de tudo para que as instruções para tocar o disco pudessem ser entendidas por qualquer criatura com conhecimento científico avançado, usando como unidade o período de uma transição dos átomos de hidrogênio -os mais comuns e "básicos" do Universo.
À velocidade atual, a pobre nave precisará de 17 mil anos -mais ou menos o tempo que nos separa do auge da Idade do Gelo- para viajar um ano-luz completo. (Fonte: aqui).
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Elastecendo o título: e la nave va... mas, ponderemos, não tanto.
Atualização: Ruy Castro publicou hoje crônica ("Sons da Terra") em face do assunto em destaque. Para ler o texto, clique AQUI.
domingo, 9 de setembro de 2012
PARTIU O PRINCIPE DO SAMBA
"Hoje não tem ensaio não,
Na escola de samba
O morro está triste,
O pandeiro calado..."
Mas hoje não é por causa da Maria da Penha,
eternizada nesse lindo samba do Wilson Batista. É que hoje perdemos o grande
Roberto Silva, um dos maiores cantores brasileiros, que cantou com grande beleza
esses versos que acabo de citar. Roberto faleceu aos 92 anos de vida e como ele
mesmo conta no vídeo abaixo, com 74 anos dedicados ao samba! Vá em paz mestre, e
que sua voz seja fonte de inspiração pra muitos cantores!
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A homenagem acima foi oferecida por Vinicius Terror, em seu blog Receita de Samba. Para ver o vídeo referido por Vinicius, clique AQUI.
STF: SATISFAÇÕES A DAR
A crítica em julgamento
Por Janio de Freitas
O momento mais ilustrativo, na semana de julgamento do mensalão, não veio de uma das várias condenações. Nenhuma surpreendeu. O momento especial também não surpreendeu se considerado o seu protagonista. O teor, sim, foi ilustrativo.
O ministro Joaquim Barbosa não suportou ouvir o ministro-presidente, Ayres Britto, dirigindo-se aos que, de fora do tribunal, tenham feito alguma crítica ao desenrolar do julgamento. Interrompeu-o: "Presidente, o Supremo Tribunal Federal não tem que dar satisfação a ninguém!"
Daí em diante, tratou ele próprio dos seus críticos, pessoas "irresponsáveis", em particular "um ex-juiz, hoje comerciante".
O Supremo tem a função de proteger a Constituição. Seja dirimindo dúvidas quanto à afinidade de determinada questão com os preceitos constitucionais, seja julgando condutas ou situações que se contraponham ao Estado de Direito expresso pela Constituição.
A função do ministro Joaquim Barbosa, como a de seus colegas, é dar voz ao tribunal. Mas a guarda da Constituição não é em abstrato. Há de ter uma finalidade. E esta finalidade somos nós outros, cidadãos filhos e pais de cidadãos e de futuros cidadãos, e são os nossos direitos. A começar do direito de viver em regime democrático, no qual o direito de crítica é um dos essenciais.
Para que cumpram tal função protetora é que nós outros pagamos os impostos com os quais são pagos os ministros do Supremo.
São eles, portanto, servidores públicos, denominação bastante clara sobre quem é remunerado para prestar serviço a quem. E toda prestação de serviço, público ou privado, implica a eventual prestação de satisfações a respeito. Até por força de lei.
Nada na legislação isenta de crítica os ministros do Supremo, como ninguém está isentado. O que não falta no Supremo, aliás, são críticas mútuas. Com frequência, sem preservar nem sequer a civilidade.
E isso não se refere a ocorrências, não raras, distantes das câmeras da excelente TV Justiça, conquista da cidadania claudicante e da cultura democrática em construção. Ocorre na sala de julgamentos.
O ministro Joaquim Barbosa condenou Ayanna Tenório, funcionária do Banco Rural ao tempo das transações com Marcos Valério. Os demais nove ministros a absolveram. Só poderiam fazê-lo pelo voto, que é uma forma de crítica frontal ao voto do ministro-relator.
Não compõem uma exposição de sinceridade as toneladas de elogios que os ministros permutam o tempo todo. O que levou o ministro Marco Aurélio Mello a dizer, já no julgamento do mensalão, que não seguiria o hábito de fazerem todas as louvações à sabedoria de um voto para, em seguida, contrariá-lo.
Em resposta a Joaquim Barbosa, os ministros Ayres Britto e Celso de Mello lhe explicaram que as palavras aos críticos eram (e são) esclarecimentos. Na mesma sessão de julgamento, a mais recente, o próprio Joaquim Barbosa disse, por exemplo, que o dinheiro usado pelo Banco Rural na trama com Marcos Valério "não é dinheiro próprio".
Claro, bancos são o mais esperto dos negócios inventados porque só usam dinheiro dos depositantes e aplicadores.
Mas, no capítulo da publicidade Visanet/Banco do Brasil, o procurador-geral Roberto Gurgel, o relator Joaquim Barbosa e a maioria dos ministros do STF afirmaram que o dinheiro era do Banco do Brasil. Seria, como parece, só para permitir a afirmação de uso de dinheiro público na trama chamada de mensalão? A esclarecer. (Fonte: aqui).
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Os 9 votos contrários ao juízo do PGR e do relator quanto à funcionária Ayanna me pareceram a crítica mais contundente ao ministro Joaquim Barbosa, que de início (após o voto do revisor) criticou o entendimento colidente, para em seguida silenciar.
A fundamentação das decisões é devida, sempre. E mais: se restarem dúvidas, a parte tem a prerrogativa de, no momento oportuno, pedir explicações (embargos de declaração).
As observações do articulista afiguram-se procedentes - exceto no que tange ao dinheiro usado pelos bancos. De fato, o dinheiro dos depositantes e aplicadores é o combustível dos bancos, mas, em caso de quebra da instituição, o 'seguro' (fundo garantidor) só contempla valores que se contenham em determinado teto (acho que de 50 mil reais); o que ultrapassar o teto vai para o buraco, e quanto maior o buraco, maior o risco de quebra do próprio sistema, ou seja, do próprio Estado. Logo, é lícito afirmar-se que o dinheiro dos bancos é, ao fim e ao cabo, público.
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