quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
OS LEGADOS DE CHRISTOPHER HITCHENS
Texto de CARLOS ORSI
Eu devia ter escrito algo sobre a morte de Hitchens já há alguns dias, mas passei o fim de semana no Rio de Janeiro sem acesso decente à internet, então não deu para lançar nada no blog. Daí é que, com atraso, sai esta postagem.
O principal legado de Christopher Hitchens é, obviamente, sua obra. Mal recebi a notícia de que ele havia morrido, baixei no kindle seu mais recente livro de ensaios, o Arguably
Mas esta postagem será sobre outro tipo de legado deixado por Hitchens, o legado oferecido por sua ruptura com o que ele mesmo chamava de "esquerda antiimperialista" e por sua campanha sem tréguas contra aquilo que "envenena tudo", a religião.
No primeiro caso, é notável que o jornalista, britânico de nascimento e naturalizado americano, tenha tido a estatura moral de sair do Fla-Flu ideológico a que o mundo parece, em vários níveis, reduzido. Como Richard Dawkins nota na entrevista que fez com Hitchens para a edição de Natal da revista New Statesman, quando se sabe a opinião de uma pessoa sobre um tema controverso -- pena de morte, por exemplo -- é possível prever, com alto grau de precisão, o que a mesma pessoa pensa sobre vários outros assuntos, da legalização do aborto à invasão do Iraque.
No caso de Hitchens, no entanto, esse tipo de "perfil ideológico" não funcionava. Obituaristas preguiçosos valeram-se do fato para afixar nele a pecha de "contraditório", mas o ponto não era esse: o ponto era que Christopher Hitchens formava suas opiniões de acordo com sua própria consciência, e não para agradar à manada.
A pressão de grupo, ou o "poder de manada" das ideologias (e das religiões, por falar nisso) é tão grande quanto pouco mencionado. Em seu romance O Homem Demolido, o escritor de ficção científica Alfred Bester imagina a existência de um grupo de pessoas capazes de se comunicar por meio da transmissão de pensamentos; esse grupo vive sob regras estritas, e a única pena para os violadores do código da guilda é a exclusão: todos os demais telepatas fecham suas mentes para o rebelde, que se vê condenado à terrível pena de só poder se comunicar com pessoas "inferiores", as que dependem do uso rude da palavra.
O homem de esquerda (ou de direita, ou o católico, luterano, judeu, muçulmano) que deixa de recitar a "linha do partido" sofre um tipo de exclusão semelhante no mundo polarizado atual. A tendência do militante que se vê excluído dessa forma é cair nos braços do polo oposto -- de fato, seus ex-colegas assumem que foi exatamente isso que aconteceu.
(Essa tendência de tratar o dissidente como vira-casaca é uma forma muito conveniente de defesa das próprias crenças: é fácil descontar as opiniões de uma pessoa que discorda de você em tudo -- basta presumir que ela está errada ou tem má-fé -- mas pessoas que discordam parcialmente são especialmente perturbadoras: é difícil descontar como canalha ou idiota alguém que, em alguns temas importantes, chegou às mesmas conclusões que você.)
Hitchens, no entanto, manteve-se suficientemente fiel à própria consciência para abandonar o "consensão" da esquerda sem, no entanto, aderir ao "consensão" da direita. Ao mesmo tempo em que era capaz de defender o uso do poderio militar americano para derrubar ditaduras e de dizer que a independência dos EUA tinha sido a única revolução legítima da modernidade, ele também condenava os "métodos avançados de interrogatório" da CIA como tortura, elogiava o romance socialista de Upton Sinclair, The Jungle, e, claro, condenava de modo veemente a interferência da religião na vida pública.
Isso faz dele um homem contraditório? Só se você assumir que os "consensões" a que ele se recusava a aderir são perfeitamente consistentes e mutuamente excludentes. Eu, cá comigo, já tenho minhas dúvidas.
A segunda lição de Hitchens que eu gostaria de destacar é forma virulenta, impiedosa, quase cruel, com que ele atacava as religiões em geral. Uma de suas últimas frases de efeito -- a de que, nos anos 30, em boa parte da Europa catolicismo conservador e fascismo eram virtualmente sinônimos -- é tão cortante quanto lúcida e verdadeira.
Entre os ateus anglo-saxões há uma expressão, "tone trolls", ou "trolls de tom", usada para se referir aos que não se cansam de pedir um tratamento respeitoso da religião, uma moderação nas críticas; enfim, pessoas que, embora não discordem da substância do que dizem os ateus mais loquazes, queixam-se do tom em que aquilo é dito.
Hitchens era um alvo fácil para os "tone trolls", mas em minha opinião sua virulência revelava um profundo respeito, não pelas ideias religiosas que ele tanto desprezava, mas pelas pessoas que mantinham (e mantêm) essas ideias. Ao atacá-las abertamente, ele se recusava a tratar os religiosos como crianças que precisam ser mimadas, ou como idiotas que requerem condescendência. Se existe uma arrogância dos ateus, é a de supor que os teístas são todos uns neurastênicos inflantiloides, incapazes de assimilar críticas explícitas com equanimidade.
Se Christopher Hitchens achasse que as ideias de alguém eram estúpidas, ele diria isso, e explicaria o porquê. Trata-se de uma combinação de coragem e honestidade muito rara neste nosso mundo tomado por patrulhas de "consensões" e de "tone trolls". Por isso, entre outros motivos, ele fará muita falta.
O FIM DO DITADOR COREANO
Por Olle Johansson.
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O ditador, ao herdeiro: "Tudo isso será teu, meu filho..."
Em meio ao choro tresloucado, entrecortado por gritos desesperados, ecoam os louvores: "Oh, nosso líder, pai extremoso! Homem de palavra, fiel cumpridor de suas promessas..."
O TEMPO SEGUE CÉLERE
Muita calma com os velhinhos
Por Claudia Tajes
Natal é tempo de fraternidade, desde que não haja um velhinho pagando tranquilamente as suas compras no caixa do supermercado. Quando isso acontece, homens e mulheres de boa-vontade, e menos idade, esquecem a máxima aquela de respeitar os mais velhos. E a fila vira um festival de reclamações.
Admiro os velhinhos e as velhinhas com disposição para ir ao supermercado, eu que só me animo a abastecer a casa quando a geladeira já virou um deserto. Velhinho no supermercado pode tudo, apertar os pãezinhos até achar o mais crocante, fazer o rapaz da fiambreria tirar e recolocar as fatias até completar exatas cem gramas de queijo, pedir bis nas mesas de degustação.
É um prazer ver as senhoras de cabelos brancos escolhendo tomates com os critérios que só as muito experimentadas em molhos têm. E os senhores que estacionam os carrinhos para uma conversa no meio do corredor, coisa boa de se ver.
Para a minha mãe, passada rápida no supermercado foi algo que jamais existiu. Qualquer produto com remota cara de novo merecia um certo assombro e nunca faltou o trololó com a moça do caixa. A senha do cartão de débito era digitada com concentração máxima e zero de pressa. Se fosse o caso de procurar moedas na carteira, aí quem estava atrás na fila já começava a bufar. Eu, esperando para carregar as sacolinhas dela, bufava.
Quando não se tem mais um velhinho por perto, olhar para os outros velhinhos dá uma saudade danada. Fora a culpa de não ter encarado com paciência as idas ao súper em busca de um amaciante alguns centavos mais barato.
Por isso, se um velhinho trancar a fila do caixa porque não pesou as maçãs ou porque não se afoba para pagar, o jeito é encarar a situação com bom humor e, principalmente, com a tal da fraternidade. E não só no Natal.
Sem esquecer que, se tudo der certo, um dia a gente também vai chegar lá.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
ABRINDO ALAS PARA O REI DO BAIÃO
Cinema público canta em coro nas filmagens de "Gonzaga: de pai para filho"
Começou (no domingo, 11), no Recife, uma das mais aguardadas produções cinematográficas brasileiras dos últimos anos. O drama biográfico Gonzaga: de pai para filho, o quarto longa-metragem de Breno Silveira, teve sua primeira sequência rodada no Marco Zero. No finalzinho da tarde, as luzes do palco se misturaram com o azul do céu quase escuro para iluminar um show que Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, teria feito na cidade no início da década de 1950. Cerca de 60 figurantes estavam na primeira fila, vestidos com roupas de época, alpercatas e chapéus – atrás deles o casario do Bairro do Recife.
As filmagens tiveram o apoio logístico da Prefeitura do Recife e serviram como uma das atrações da abertura do Ciclo Natalino do Recife. O público que foi conferir o jovem Luiz Gonzaga vivido pelo paulista Nivaldo Expedito de Carvalho, o Chambinho do Acordeon, participou ativamente da cena. O forrozeiro, de 31 anos, cantou três músicas de Gonzagão e logo caiu nas graças da plateia. Sem precisar de ensaio, Que nem jiló, A morte do vaqueiro e Asa branca foram acompanhadas em uníssono ao mínimo gesto de Chambinho. “Eu nasci em São Paulo por acidente, mas sou nordestino de coração”, confessou emocionado, assim que saiu do palco.
Apesar de não estar com o orçamento fechado, Breno Silveira disse que o filme deverá custar cerca de R$ 10 milhões. Em fevereiro, a equipe se dirige ao Sertão do Araripe para rodar cenas da infância de Luiz Gonzaga, até a partida para o Rio de Janeiro. “As filmagens no Rio serão muito complexas porque teremos que interferir na paisagem e colocar muitos carros antigos na rua. Como todo filme de época, a produção é muita cara”, avaliou o cineasta de 2 filhos de Francisco.
Mesmo com a produção já em andamento, o diretor ainda não concluiu a escalação do elenco. “Estou quase fechando o nome do ator que vai interpretar Luiz Gonzaga na velhice. Mais um pouquinho e todo mundo vai saber quem é”, disse em tom de suspense.
Além de resolver este problema, Breno Silveira vai aproveitar o hiato até fevereiro para finalizar o longa À beira do caminho, que tem como mote as canções de Roberto Carlos. “É um filme pequeno, bem diferente do que já fiz. Roberto já está liberando as músicas e só falta isso para ele ficar pronto. Tenho uma alma musical. Eu gostaria de me dedicar à música, mas não sei tocar nenhum instrumento”, confidenciou.
Em 2005, a história da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano foi responsável por levar aos cinemas mais de 5 milhões de espectadores. Graças ao apelo popular dos irmãos, o primeiro filme de Breno Silveira, um dos sócios da produtora carioca Conspiração Filmes, faturou milhões, muito embora os críticos não fossem muito simpáticos à obra. Agora, Breno está diante de um novo projeto musical: a produção do longa-metragem Gonzaga: de pai para filho, com lançamento previsto para 2012, ano do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga.
Como em 2 filhos de Francisco, Breno Silvera pretende dar um recorte mais familiar à obra sobre Gonzaga. A produção se debruça, sobretudo, na relação entre Gonzagão e o filho, Gonzaguinha. "Desde 2 filhos de Francisco, vinha procurando uma história tão forte para rodar. Há cerca de seis anos recebi algumas fitas de Gonzaguinha e Gonzagão juntos na turnê Vidas viajantes e aquilo me inspirou, mas agora o filme tomou forma, fala da biografia de Luiz Gonzaga vista pelo seu filho. É uma história que tem a mesma força do meu primeiro filme".
Embora a relação entre pai e filho não fosse das mais tranquilas, Breno enfatiza o interesse de Gonzaguinha em se reconhecer através da história do pai. "Encontrei nessas fitas uma excelente história e um grande material para trabalhar a parte dramática e também a questão biográfica. Luiz Gonzaga é um personagem maravilhoso, é a raiz da cultura nordestina e ainda não havia nenhuma ficção sobre ele", analisou Breno. "O Gonzaguinha quis entender a história do pai e além disso entender a sua história. É a partir delas que faço uma volta ao passado", concluiu o cineasta de Brasília.
A turnê Vidas viajantes, realizada no início da década de 1980, marcou um momento mais ameno da relação entre os dois. Depois da morte da mãe Odaleia, Gonzaguinha foi criado pelos padrinhos Xavier Pinheiro e Leopoldina, desde os dois anos. Luiz Gonzaga o adotou depois, mas não aceitava a escolha do filho de também se tornar um músico e segundo um relato, desses que ficam famosos e aumentam graças ao boca a boca, quebrou o violão de Gonzaguinha. (Fonte: Jornal do Commercio).
ECOS DO ENCONTRO MESSI NEYMAR
Por Latuff.
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A despeito dos percalços, santistas do mundo - e, claro, fãs do Neymar -, continuemos unidos!
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Charge. Neymar e Messi. Encontro Messi Neymar.
domingo, 18 de dezembro de 2011
BONS E MAUS DARWINISTAS
Bons e maus Darwinistas
Por Luis Fernando Veríssimo
Darwinistas bem pensantes se veem frequentemente obrigados a explicar que aceitar tudo o que Darwin disse a respeito de seleção natural, sobrevivência dos mais fortes etc. não significa acreditar que o que se aplica aos animais também se aplica aos homens. Ou seja, darwinismo social, não. O próprio Richard Dawkins, o darwinista mais conhecido em atividade hoje, já disse em mais de um dos seus textos ser possível viver num universo amoral, o universo darwiniano em que a única regra é a vitória do que ele mesmo chama de "gene egoísta" na competição pela vida, e cobrar da sociedade humana um comportamento moral.
Darwinistas mal pensantes, claro, não precisam explicar nada. Para eles o darwinismo social justifica mercados desregulados, empreendedores aéticos e todas as manifestações do gene egoísta que tornam o capitalismo selvagem parecido com o mundo natural. Darwin só não ganhou seu lugar na galeria dos heróis da livre empresa, ao lado do Adam Smith, porque são raros os poderosos e endinheirados que não atribuem sua boa fortuna a Deus, em vez da evolução. Mesmo antes de Darwin nos dar a incômoda notícia de que todos descendíamos de macacos (menos os meus antepassados, que foram adotados) e que pertencíamos a uma espécie tão sem caráter quanto qualquer outra, essa divisão entre o que éramos e o que pretendíamos ser já existia.
O capitalismo moderno e a moral burguesa nasceram juntos e desde então vêm coexistindo nem sempre pacificamente. Há muito tempo vivemos em dois universos simultaneamente, um em que o poder do dinheiro tudo determina, da nossa vida política à nossa digestão – com picos de ganância sem controle do capital financeiro como o que originou a crise atual – e outro em que ignoramos esta onipotência e nos imaginamos seres racionais e até altruístas, ou em nada parecidos com um macaco egoísta. Uma forma do bom darwinista conciliar sua crença na evolução amoral das espécies e sua crença de que o Homem é diferente é cultivar a ideia de que o desenvolvimento da consciência humana foi, mais do que uma evolução natural, uma mudança radical na história dos habitantes deste planeta. Como nenhum outro bicho, somos conscientes de nós mesmos, do nosso passado e dos nossos possíveis futuros. Consciência não muda o poder do dinheiro nem assegura um comportamento moral da nossa espécie – ainda. Mas nos próximos milhões de anos, quem sabe?
A evolução ainda não terminou.
LUZILÂNDIA NATAL LUZ
Dezembro marca não só o Natal, mas a louvação a Santa Luzia, padroeira de Luzilândia, minha cidade favorita, situada na região norte do Piauí.
Luzilândia presenteia a todos com um clima de magia, aconchego e amizade. Uma beleza.
Fotos: 180graus.
sábado, 17 de dezembro de 2011
FELIZ 1976
Crimes sem castigo
Sérgio Augusto
Nesta quinta-feira uma das agressões mais vergonhosas à cultura brasileira completou 35 anos. Em 15 de dezembro de 1976, o então ministro da Justiça do governo Geisel, Armando Falcão, com base na Portaria n.º 8, 401-B, proibiu a circulação e venda em todo o território nacional do quarto livro de contos de Rubem Fonseca, Feliz Ano Novo, sob a alegação de que suas histórias exteriorizavam "matéria contrária à moral e aos bons costumes". Foi o maior presente natalino da ditadura militar ao obscurantismo naquele ano, de resto farto em abusos censórios.
A agressão chegou com pouco mais de um ano de atraso. Parafraseando o Millôr, nas ditaduras fardadas, "a justiça farda mas não talha". Best seller desde o lançamento, pela editora Artenova, em outubro de 1975, e já na terceira reimpressão, o livro de Rubem Fonseca desapareceu subitamente das livrarias. E desaparecido ficou até 1989. Treze meses para ser proibido, 13 anos para ser liberado. A proibição de Feliz Ano Novo foi o mais longamente discutido escândalo lítero-jurídico do regime militar.
Para quem não o leu (a Nova Fronteira reeditou-o este ano): são 15 contos que espelham, sem rebuços, a violência urbana, especificamente no Rio, já uma cidade sem lei e cindida por malignas desigualdades sociais, que nas quatro décadas seguintes só iria piorar. O autor merecia um prêmio qualquer por sua profética crueza, não a perseguição que lhe moveu o mais repugnante ministro da Justiça desta república, ex-aequo (e ex-equus) com Alfredo Buzaid, ocupante da pasta no governo Médici.
Ao cobrir o livro de elogios, na Veja, Affonso Romano de Sant’Anna fizera uma ressalva involuntariamente premonitória: "uma leitura superficial desta obra pode tachá-la de erótica e pornográfica". Como leitor superficial era o que mais havia nos altos escalões da ditadura, tachado de obsceno e pornográfico o livro entrou no index prohibitorum dos milicos.
Um manifesto "pela liberdade de expressão", assinado por 1.046 intelectuais, reagiu de pronto ao ucasse do dr. Falcão. Juristas questionaram a falta de embasamento legal da Portaria, "uma ação profundamente farisaica", protestou o sempre veemente psicanalista Hélio Pellegrino. Pelos critérios invocados para justificar a cassação de Feliz Ano Novo, salientou o poeta Gerardo Mello Mourão, as obras de Dante, Cervantes, Goethe, Shakespeare e outros gigantes da literatura mundial também deveriam ser tiradas de circulação.
Da trincheira oposta, uma patética saraivada de festim. A um repórter que ingenuamente contava com sua solidariedade a Rubem Fonseca, o escritor cearense Nertan Macedo, áulico da ditadura e então assessor do ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen, declarou "ignorar o assunto"; de propósito, "para não fazer publicidade de autores idiotas". Com intelectuais assim, para que censores?
No mesmo dia, o nada saudoso senador potiguar Dinarte Mariz, folclórica figura da Arena, partido oficial do governo, não só se revelou espantado e arrepiado (sic) com os contos de Feliz Ano Novo ("pornografia de baixíssimo nível, que não se vê hoje nem nos recantos mais atrasados do país"), como propôs que Rubem Fonseca, além de censurado, fosse preso.
Em 2 de maio de 1977, Rubem Fonseca ajuizou ação ordinária contra a União, reclamando a ilegalidade do ato arbitrário e pleiteando sua anulação. O pedido foi julgado improcedente. Três anos depois, os advogados do escritor apelaram da sentença no Tribunal Federal de Recursos. Obrigada a explicar-se, a Censura alegou que Feliz Ano Novo retratava, "em quase sua totalidade, personagens portadores de complexos, vícios e taras, com o objetivo de enfocar a face obscura da sociedade na prática da delinquência, suborno, latrocínio e homicídio, sem qualquer referência a sanção, utilizando linguagem bastante popular e onde a pornografia foi largamente empregada, com rápidas alusões desmerecedoras aos responsáveis pelos destinos do Brasil e ao trabalho censório".
Resumindo: crime só com castigo - elogios aos agentes da lei.
Convocado a avaliar o arrazoado da Censura, o crítico literário Afrânio Coutinho não deixou de pé uma só aleivosia. Em seu parecer, transformado em livro sobre literatura e erotismo, editado pela Cátedra, eximiu Rubem Fonseca de qualquer transgressão à lei: "O fato de usar quadros da vida real - sexo, violência, miséria - não quer dizer que ele os aprove ou desaprove. Simplesmente descreve-os, testemunha-os, usando, para ter mais eficiência artística, todos os recursos que a arte literária antiga e atual coloca à sua disposição".
Dois procuradores da República e um juiz, cujos nomes merecem ser esquecidos, socorreram a arbitrariedade do governo com novo estoque de despautérios, acusando o escritor de "dar voz a conversas de subgente", a "tipos patológicos" cujas atividades poderiam levar "certos leitores a cometer atos de natureza degradante". Quando o caso ainda estava sub judice no Tribunal Federal de Recursos, Deonísio da Silva publicou um ensaio a respeito, O Caso Rubem Fonseca: Violência e Erotismo em ‘Feliz Ano Novo’ (Alfa-Ômega, 1983), que forma, com o parecer do professor Afrânio Coutinho, um autêntico J’Accuse tupinambá.
Para defender a liberdade de Rubem Fonseca escrever como bem entendesse, seus advogados tiveram de esperar o fim da ditadura. Aí apelaram para o Tribunal Regional Federal, instância criada pela Constituição de 1988, onde, por dois votos a um, ou seja, jogo duro até o fim, o livro foi liberado em 1989. De volta às livrarias, como sói acontecer, vendeu horrores. Nada supera o marketing da censura.
Ilustração: Liberati.
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Feliz Ano Novo. Rubem Fonseca. Sérgio Augusto.
BALANÇO DA SEMANA
Charge de Berzé
Livro e imprensa: um ponto de ruptura
Luciano Martins Costa
Do Observatório da Imprensa
Esta semana marca um ponto de ruptura da imprensa brasileira tradicional, aquela chamada de circulação nacional. O fato de os principais jornais do país haverem ignorado o tópico mais divulgado na internet – o livro que denuncia atividades criminosas atribuídas a familiares e pessoas próximas do ex-governador José Serra – representa uma declaração pública de que a imprensa tradicional não considera relevante o ambiente midiático representado por blogs, sites independentes de empresas de mídia e grupos de discussões nas redes sociais.
A fidelidade canina das grandes empresas de comunicação ao político Serra é um caso a ser investigado por jornalistas e analisado por cientistas políticos. Na medida em que essa fidelidade chega ao ponto de levar as bravas redações – sempre animadas para publicizar toda espécie de malfeitoria envolvendo protagonistas do poder – a fingir que não tem qualquer relevância o fenômeno editorial intitulado A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., cria-se um precedente cujas consequências não se pode ainda avaliar.
Por iniciativa da imprensa tradicional, aprofunda-se o fosso que a separa da mídia alternativa.
(Para continuar a ler a matéria, clique AQUI).
Livro e imprensa: um ponto de ruptura
Luciano Martins Costa
Do Observatório da Imprensa
Esta semana marca um ponto de ruptura da imprensa brasileira tradicional, aquela chamada de circulação nacional. O fato de os principais jornais do país haverem ignorado o tópico mais divulgado na internet – o livro que denuncia atividades criminosas atribuídas a familiares e pessoas próximas do ex-governador José Serra – representa uma declaração pública de que a imprensa tradicional não considera relevante o ambiente midiático representado por blogs, sites independentes de empresas de mídia e grupos de discussões nas redes sociais.
A fidelidade canina das grandes empresas de comunicação ao político Serra é um caso a ser investigado por jornalistas e analisado por cientistas políticos. Na medida em que essa fidelidade chega ao ponto de levar as bravas redações – sempre animadas para publicizar toda espécie de malfeitoria envolvendo protagonistas do poder – a fingir que não tem qualquer relevância o fenômeno editorial intitulado A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., cria-se um precedente cujas consequências não se pode ainda avaliar.
Por iniciativa da imprensa tradicional, aprofunda-se o fosso que a separa da mídia alternativa.
(Para continuar a ler a matéria, clique AQUI).
NATAL (IV)
Por Biratan Porto
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HAICAI PARA O CARTUM:
vampiro pra lá de radical:
nem uma gota do espírito
de Natal
CANADÁ ABANDONA PROTOCOLO DE KYOTO
O Canadá se retirou do Protocolo de Kyoto sobre a redução das emissões de gases do efeito estufa, declarou o ministro canadense do Meio Ambiente, Peter Kent, após a conferência da ONU sobre o aquecimento global encerrada no domingo em Durban, África do Sul.
Segundo o ministro canadense, "Kyoto não é o caminho para uma solução global para a mudança climática, e sim um impedimento".
"Acreditamos que o caminho para se avançar passa por um novo acordo, com compromissos legais vinculantes para todos os maiores emissores que nos permita, como país, seguir gerando empregos e crescimento econômico".
Kent também assinalou que a saída do Protocolo de Kyoto evitará grandes impactos sobre a economia canadense: "Atingir os objetivos de Kyoto em 2012 seria o equivalente a tirar cada carro, caminhão, trator, ambulância, patrulha da polícia ou qualquer outro tipo de veículo das ruas canadenses, ou fechar todo o setor agropecuário ou até cortar a calefação em cada residência, escritório, hospital, fábrica e prédio no Canadá". (...)
O Protocolo de Kyoto, fechado em 1997, é o único tratado global que fixa reduções de emissões globais de carbono. Mas as reduções fixadas afetam exclusivamente os países ricos, com exceção dos Estados Unidos, que não é signatário do acordo, o que também ocorre com grandes emergentes como China e Índia.
Sob o Protocolo de Kyoto, o Canadá concordou em reduzir até 2012 suas emissões de carbono a 6% menos que os níveis registrados em 1990, mas, em vez disso, suas emissões aumentaram consideravelmente. (...)
Os representantes de cerca de 190 países aprovaram no domingo na conferência da ONU sobre o clima de Durban um mapa do caminho para um acordo global em 2015 destinado a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Se for aprovado em 2015, o acordo entrará em vigor em 2020 e se tornará a primeira arma na luta contra a mudança climática. (Fonte: France Presse).
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Para começar, muitos sustentam que o chamado desaquecimento global é balela. O Protocolo de Kyoto vem sendo um quase fiasco, face à ausência de grandes potências, como EUA. Países pobres e ou em desenvolvimento, por sua vez, garantem que por trás de Kyoto residem os maus propósitos dos grandes, que ora exigem sacrifícios por parte dos pobres, mas só agora, quando devastaram impunemente o meio ambiente ao longo de décadas, acumulando riqueza e poder. Há quem veja o futuro ambiental com otimismo, há quem, além de se preocupar, está mesmo é apreensivo.
Charge: Jorge Braga.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
IMITANDO DESCARTES
Penso, logo existo?
Penso, logo desisto.
Penso, e é só isto.
Penso, logo te avisto.
Penso, logo insisto.
Penso, pelo visto.
Penso, logo coexisto.
Penso, logo sou um misto.
Penso, logo estoy listo.
Penso, longe disto!
Penso, logo listo.
Penso. Logo nisto?
Penso e me assisto.
Penso como Cristo.
Penso no que visto.
Penso, logo entrevisto.
Penso, logo despisto.
Penso, logo me alisto.
Penso se sou benquisto...
Penso, logo conquisto.
Penso, logo sou malvisto.
Entre a loucura e a genialidade, almejarei sempre a loucura. Como móvel da insânia, a loucura me anestesiará.
Já a genialidade me acarretaria um sofrimento estupendo. (...)
................
(PAULO SANT'ANA. Trecho de crônica publicada em ConteúdoLivre).
PRIVATARIA NA CÚPULA
A força das redes sociais, a capacidade da blogosfera, o fim da onipotência da Grande Imprensa brasileira, tudo isso está sendo evidenciado pelo livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, que, lançado há exatamente uma semana, encabeça listas dos mais vendidos não obstante o rumoroso silêncio das corporações midiáticas, Globo à frente.
Ontem, a Folha de São Paulo enfim se manifestou, embora tenha cuidado, desde logo, de apontar, digamos, aspectos segundo ela merecedores de reparos (sobre o autor, p. ex.), porém espertamente omitindo a espinha dorsal, ou espinhas dorsais do escândalo. Mas pelo menos se manifestou.
A Globo manteve-se indiferente mesmo diante das notas ontem divulgadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seu partido.
Mas independentemente desses percalços o livro segue bombando, e são positivas as perspectivas de elevação dos decibéis, face à caixa de ressonância de CPI.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
ROTULANDO A CRISE
A democracia sob risco
Por Celso Ming
(...) o Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, escreveu no New York Times que é preciso perder ilusões e dar às coisas o nome correto: "Estamos em depressão" - avisou.
Quando se fala em depressão econômica, a referência é o que aconteceu nos anos 30 em escala mundial, especialmente nos Estados Unidos: profunda paradeira, estancamento do comércio mundial, alto desemprego, quebradeira nos negócios e pânico generalizado.
Os analistas relutam em dar este nome para a crise atual pelos registros funestos que evoca e por remeter às suas consequências, principalmente a 2.ª Grande Guerra. Um importante estudioso das crises financeiras globais, o economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, escreveu artigo em agosto que ganhou notoriedade. Nele, prefere chamar o atual colapso econômico de "Segunda Grande Contração".
Mas há fatores que parecem justificar a relutância em chamar de depressão o que acontece hoje. As bolsas de valores, por exemplo, estão, sim, em relativo estancamento, mas mantêm se longe de um crash generalizado - como o dos anos 30. Salvo em alguns momentos muito particulares - como durante a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008 -, não há pânico nos mercados. O comércio mundial está recuando, mas não é uma catástrofe.
Os preços das matérias-primas (principalmente das commodities) seguem relativamente altos. Os grandes bancos centrais podem não estar fazendo tudo o que está a seu alcance para reverter a situação, mas vêm atuando como não fizeram nos anos 30. E também não se registram quebras em cadeia de empresas, em parte, porque os Tesouros nacionais também têm agido.
Provavelmente, o fator que parece diferenciar definitivamente o panorama de hoje do prevalecente na década de 1930 é o bom desempenho das economias emergentes da Ásia, com destaque para China e Índia. Naquele período, o maior país emergente eram os Estados Unidos,que estavam prostrados. Desta vez, as economias em desenvolvimento (e o Brasil continua lhes fazendo companhia) mostram surpreendente grau de imunidade à peste.
Krugman está preocupado sobretudo com o acirramento das tendências autoritárias na Europa, em boa dose, decorrente do desvanecimento do sonho de um continente unificado.
Não há um Hitler a caminho, admite o economista. No entanto, partidos de extrema direita ganham repentino respaldo político com as massas desempregadas e espalham discursos xenófobos porto da a Europa, com maior intensidade na Áustria, na Finlândia e na Hungria.
Paira no ar outra síndrome politicamente desintegradora, não mencionada por Krugman.
Trata-se do atual endividamento insuportável dos Estados soberanos da Europa cujo tratamento está exigindo mais austeridade e sacrifícios e menos crescimento econômico. A enorme dívida imposta à Alemanha pelo Tratado de Paz de Versalhes (1919) foi justamente o caldo de cultura que gerou o nazismo e tudo o que veio com ele. O maior risco vai por aí.
HENFIL NÃO SILENCIARIA
"(...) O cartunista Henfil (1944-1988) costumava dizer, nos anos 1970, que só se poderia ter certeza de algo que saísse no New York Times. Notícias sobre prisões, torturas, crise econômica no Brasil não eram estampadas pela mídia local, submetida a rígida censura. Mas dava no NYT. Aliás, esse era o título de seu único longa metragem, 'Tanga: deu no New York Times', de 1987. Era a história de um ditador caribenho que tomava conhecimento dos fatos do mundo através do único exemplar do jornal enviado ao seu país. As informações eram sonegadas ao restante da população.
Hoje quem sonega informação no Brasil é a própria grande mídia, numa espécie de censura privada. O título do filme do Henfil poderia ser atualizado para 'Deu na internet'. As redes virtuais furaram um bloqueio que parecia inexpugnável. E deixam a mídia bem mal na foto..."
(Gilberto Maringoni, no texto 'Internautas furam o bloqueio midiático', publicado no site CartaMaior, abordando o modo como o livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, foi/está sendo tratado pela grande midia brasileira. Silêncio obsequioso, omissão conivente, cara de paisagem... Diante de tal cenário, o velho Henfil, ácido cartunista, com certeza não se omitiria: providenciaria um bombardeio de charges - além de consignar sua indignação em algumas das Cartas da Mãe com que frequentemente brindava Dona Maria).
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
UNESCO HASTEIA BANDEIRA PALESTINA
Um mês e meio depois de aprovar oreconhecimento da Palestina como Estado, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) realizou ontem (13), em sua sede, em Paris (França), uma cerimônia na qual a bandeira palestina foi erguida ao lado das bandeiras dos outros 194 Estados-membro da organização.
A cerimônia contou com a participação do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, segundo quem o hasteamento da bandeira na Unesco é “um bom presságio” para que a Palestina seja reconhecida como Estado pelas Nações Unidas.
O pedido oficial foi feito em setembro por Abbas, mas está parado no Conselho de Segurança. Os palestinos precisam de nove dos 15 votos, mas os Estados Unidos já garantiram que vão vetar o pedido. Os EUA, assim como Israel, consideram que os palestinos não poderiam ter abandonado os diálogos bilaterais e buscado o reconhecimento na ONU de forma unilateral. (...).
Fonte: Blog do Nassif. (Clique aqui para ler mais).
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Palestina. Unesco hasteia bandeira palestina.
CARTUM DE ÉRICO
Por Érico.
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Com o cartum acima, Érico Junqueira Ayres, de São Luis (MA), ganhou prêmio especial no International Cartoon Solin 2011, realizado na Croácia. Parabéns, amigo.
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Cartum. Prêmio especial. Cartum de Érico.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A IMPARCIALIDADE SELETIVA DA VELHA MÍDIA
Liberdade de imprensa: para quê, para quem?
Por Ricardo Kotscho, no Balaio
Lançado faz apenas quatro dias, com 15 mil cópias, o livro A Privataria Tucana, do meu colega Amaury Ribeiro Jr., já é o mais vendido do país e está esgotado nas livrarias. O fenômeno editorial só não teve a oportunidade ainda de aparecer nas folhas da grande imprensa.
Como trata dos malfeitos do processo de privatização promovido pelo governo anterior, envolvendo com provas e documentos a fina flor do tucanato, até o momento em que comecei a escrever este texto, no final da tarde de segunda-feira, o livro foi solenemente ignorado.
O estrondoso silêncio contrasta com o barulho das denúncias contra ministros do governo atual, que repercutem imediatamente em todos os veículos, e passam semanas nas capas e manchetes.
Se o livro do Amaury não é bom e não prova nada, que se escreva isso com todas as letras. O que não dá é para fingir que o livro, resultado de mais de dez anos de pesquisas do repórter, não existe, é um fantasma criado pela blogosfera desvairada.
Meu amigo Nirlando Beirão, colega de trabalho aqui no R7 e no Jornal da Record News, já comentou o assunto em seu blog hoje ("Conheça o livro A privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr.") e no telejornal com o Heródoto Barbeiro, na sexta-feira.
Volto ao tema apenas para fazer as perguntas aí do título, que já repeti mil vezes e ninguém me responde. É para isso que defendem a liberdade de imprensa com tanto fervor e chamam de censura qualquer tentativa de se regulamentar a área de comunicação social?
Trata-se do exemplo mais descarado de manipulação da informação e do tratamento seletivo das denúncias do "jornalismo investigativo" da velha imprensa.
Para quê e para quem, afinal, serve esta liberdade de imprensa pela qual todos nós lutamos durante os tempos da ditadura, que eles apoiaram, e hoje é propriedade privada de meia dúzia de barões da mídia que decidem o que devemos ou não saber?
As respostas, por favor, podem ser enviadas aqui para a área de comentários do Balaio.
ENTREOUVIDO NOS BASTIDORES DA PRIVATARIA
"Diante de nosso silêncio em face de A Privataria Tucana, nós e nossos parceiros de Veja, Estadão, Globo e Folha podemos ser acusados de tudo, mas nossos desafetos jamais, jamais poderão lançar contra nós o opróbrio da deslealdade."
"Muito bem. Afinal, como dizia Sêneca, 'A lealdade é o bem mais sagrado do coração humano'."
O MAIOR MEDO DO HOMEM
O maior medo do homem
Por David Coimbra
Não é a morte o que mais assusta o homem. É o acaso. Contra o acaso, o homem constrói sistemas de pensamento, filosofias, mitologias, religiões. Para se proteger do acaso, o homem criou Deus. Aí está: o homem se diz criatura, quando é o criador.
Mas crentes e carolas não precisam se ouriçar, não estou pregando o ateísmo. Porém, é preciso entender que, ainda que Deus exista, Ele continuará sendo uma abstração. A ideia de Deus tem de ser aprendida. E, se tem de ser aprendida, tem de ser concebida. Criada. Logo, Deus é criatura. Zeus, Amon, Jeová, Astarte, Cibele, Alá, Tupã, seja qual for o nome do ser divino, ele tem de ser concebido pelo homem, junto com sua mitologia.
E por que o homem teve de criar Deus? Por que existe essa necessidade em todo lugar e em todo tempo? Exatamente para que o homem possa se defender do acaso. O acaso é tão apavorante, que o homem criou até o diabo para combatê-lo.
É preferível enfrentar uma legião de demônios com intenções bem claras e regras de comportamento definidas do que simplesmente cogitar a hipótese de que as coisas possam acontecer sem que sejam movidas por razão alguma.
Você precisa encontrar um desígnio oculto por trás de qualquer ocorrência da sua vida. Toda consequência teve uma causa. E, se toda consequência tem uma causa, em tudo podem ser vistos méritos e culpas. Você faz tudo certinho, age bem, é uma boa pessoa, não faz nada de errado?
O Todo-Poderoso o recompensará com uma vida venturosa. Você faz coisas erradas, oprime o próximo e rouba a merenda escolar das criancinhas? Você será punido em algum momento, você não perde por esperar as terríveis consequências de seus atos.
É assim que deveria ser, se o acaso não existisse. Se o mundo fosse justo. Mas o acaso existe. Mas o mundo não é justo. Coisas ruins acontecem a todo momento com pessoas que não merecem sofrer. Coisas boas acontecem a todo momento com pessoas que não merecem a felicidade.
Canalhas são homenageados, incompetentes ganham aumento, oportunistas usufruem da fama, cofres caem do oitavo andar, vírus são contraídos pelo ar, rádios tocam axé a cada minuto. A vida é cheia de perigos e você não pode fazer nada para evitá-los. O mundo está repleto de cafajestes e muito provavelmente a maioria deles jamais será punida. Não adianta rezar. Não adianta cultivar superstições. Não adianta esperar pela intervenção transcendental.
Adianta, um pouco, prevenir-se. Pessoalmente, há muitas formas de prevenção. A principal delas é zelar pela saúde. Comunitariamente, o Estado tem a função de fazer a prevenção. No caso de o Estado estar acometido de alguns desses males, como a corrupção endêmica brasileira, só se pode, mesmo, fiscalizar.
E a fiscalização só é viável quando ocorre em âmbito municipal, quando o cidadão encontra a autoridade na farmácia, no supermercado, na igreja, no estádio de futebol, e o olha na cara, e cobra, com o mero olhar, o efeito de seus atos. A municipalização não tem poder divino, não evita a corrupção, não impede a ação de cafajestes nem as tramas incompreensíveis do acaso. Mas ajuda a preveni-los.
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O texto acima foi publicado originalmente no blog ConteúdoLivre, em outubro passado.
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Texto. O maior medo do homem. David Coimbra.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
HAICAI DE TIO SAM
não vos inquieteis:
o dólar ainda sangra, digo,
singra os mares
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Ilustração: Angel Boligan.
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