terça-feira, 3 de julho de 2018

A LÓGICA DA LAVA JATO DILACERA A RACIONALIDADE DO STF

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O 'apequenamento da Corte', a que alude o articulista Semer, fica evidenciado, p. ex., no cenário descrito no editorial "Fuzuê", publicado na edição de ontem, 1, do EstadãoAQUI. Mas há quem considere que a amarga realidade, que se acentuou agora, vem de longa data, anterior ao Impeachment, ostentando como marco inicial a AP 470, popularmente conhecida como Mensalão. 


A lógica da Lava Jato dilacera a racionalidade do STF

Por Marcelo Semer (Na Revista Cult)

A ministra Cármen Lúcia está a poucas semanas de encerrar seu mandato como presidente do Supremo Tribunal Federal e aparentemente não vai conseguir realizar o principal de seus intentos: evitar que a Corte se apequene. Uma contribuição considerável a este fracasso se deu justamente pela adesão desenfreada em busca do prestígio popular a que parte do Judiciário se entregou sem perceber o seu potencial corrosivo.  
A luta por engrandecer a Justiça, em resumo, se transformou em uma corrida do cachorro em busca do próprio rabo.
Por mais serviços que tenha prestado ao erário e mesmo à autoestima dos promotores, como resgate de uma tradicional noção de impotência contra réus poderosos – e não pretendo aqui discutir o mérito de nenhum das dezenas de processos dela derivados – é a lógica da chamada Operação Lava Jato, sobretudo, que tem dividido a Corte.
A ideia de que é preciso flexibilizar a lei para que se faça justiça, de que é necessário fragilizar os mecanismos de defesa para dar correto trâmite às acusações, de que o apoio popular é essencial para a obtenção de resultados justos.
A lógica Lava Jato envolve uma transposição da atuação dos operadores do direito de guardiães da lei, nos quais devem coexistir tanto os fundamentos quanto os limites da acusação, para um arranjo que mistura coragem, arrojo e, sobretudo, obstinação para alcançar o resultado.
Se é difícil obter a prova que demonstra autoria, suplanta-se por uma que apenas a insinua; se os mecanismos da lei impedem que se constranja a defesa, uma leitura inovadora pode abrir caminhos; se o apelo popular depende do conhecimento de dados sigilosos, fundamenta-se a divulgação. Enfim, se o sucesso da operação pode não ser replicado com segurança em outros processos, crie-se uma nova lei à sua imagem e semelhança –e falo aqui das malsinadas dez medidas do MPF, que sem sucesso pretendeu fazê-lo.
Parte considerável da procedência nas ações deveu-se às chamadas colaborações premiadas, por intermédio das quais a verdade é adquirida em troca de penas mais leves, regimes mais brandos e até reembolso de valores. Tal qual uma cascata, a ideia de delação acabou por entronizar a prisão provisória como regra de um processo penal para o qual havia sido criada como hipótese de exceção.
Foi justamente para preservar a higidez e a continuidade das delações que a ideia de “prisão após julgamento de segunda instância” foi incorporada artificiosamente às decisões, como se estivesse no texto constitucional desde sempre. E não fosse ela uma fissura no horizonte que o legislador havia imposto como cláusulas pétreas, inclusive a si mesmo.
É possível prender provisoriamente a qualquer momento do processo, até mesmo antes dele começar, desde que demonstrada a necessidade cautelar, como uma espécie de garantia para a normal realização do processo ou para a aplicação de suas penas. Mas porque era necessário que réus se sentissem fortemente intimidados com a proximidade da prisão e não pudessem apostar eles mesmos em uma decisão dos tribunais superiores, operou-se uma mudança de entendimento, muito mal absorvida pelos membros da Suprema Corte.
A ética de resultados pode estar contaminando decisões processuais. O ministro Marco Aurélio, há 28 anos na Corte, afirmou recentemente que nunca viu manipulação da pauta como esta.
Os fatos podem lhe dar razão. Dependendo da decisão que se espera, julga-se um processo individual ou uma ação direta com efeitos para todos; de acordo com a sentença que se aguarda, a competência para o julgamento vagueia das turmas para o plenário ou vice-versa.
Independente do lado que se esteja, das preferências ideológicas ou visões jurídicas que se tenha, é muito difícil não constatar que o STF está perto de se transformar em um tribunal ad-hoc, daqueles que julgam de acordo com as partes, o momento político ou a pressão da mídia.
Os juízes, efetivamente, têm pensamentos diferentes e isso é parte integrante da democracia.
A independência, como dizia Eugenio Raul Zaffaroni, é uma premissa da jurisdição –existe, mesmo que não venha escrito em canto algum. E junto com o pluralismo que a Constituição também agasalha, impedem que um juiz seja punido por decisões jurisdicionais, ainda que o apelo ao controle ideológico e as tentativas de tutela do pensamento permaneçam extemporaneamente resistentes.
Mas o STF é um desaguadouro natural destas diferenças. Aos poucos, elas vão sendo corporificadas em jurisprudências que, diante da construção eminentemente coletiva, do amadurecimento judicial, costumam angariar respeito.
Assim foi o STF quando firmou em 2009 que, diante da interpretação que, em outros processos e temas correlatos já vinham fazendo os ministros, de que não podia haver, como expresso no texto constitucional, tratamento ao réu como culpado, antes de sua condenação definitiva – exceto quando presentes as exigências cautelares. Com base nesta interpretação, fruto de um amadurecimento gradual nos vinte anos de aplicação da Constituição, a própria lei foi alterada, aprovando projeto encaminhado, ainda em 2001, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, que congregava o pensamento consolidado dos doutrinadores de processo constitucional.
Foi assim que se mudou o artigo 283 do Código de Processo Penal, que vincula a prisão provisória à condenação definitiva, quando não presentes outros fundamentos.
Mas justamente a pressão política, jurídica e midiática da Lava Jato fez com que o STF decidisse, de afogadilho, alterar seu próprio e refletido entendimento: porque isso, enfim, poderia obstar futuras delações –o que foi defendido expressamente pelo ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot. Nessa época, Gilmar Mendes era o ponto de contato com o STF nesse campo – e foi ele justamente quem mudou de opinião.
Foi tanto de afogadilho a mudança que o STF nem se preocupou em dizer, enfim, se o artigo 283, do Código de Processo Penal – e outro de mesmo teor da Lei das Execuções Penais – estavam ainda valendo. E até hoje não se conseguiu saber por que o tema nunca é pautado.
O resto da história é mais ou menos conhecido. Com a deposição de Dilma Rousseff, Gilmar Mendes voltou ao garantismo que havia marcado seus votos (e algumas das principais decisões do plenário do STF) e teve que se desdizer até em certos processos em andamento, como foi na apreciação da perda de mandato da chapa vencedora no TSE, quando isto significaria não mais a deposição da presidenta, como supunha até então, mas agora de seu vice.
A partir desta decisão, Gilmar incorporou, sem pudores e até com coragem, que isso fique consignado, o figurino de inimigo do povo, reassumindo, de uma forma um pouco inusitada, a função contramajoritária que é da essência do papel do juiz criminal. O julgamento ad-hoc, o controle da pauta, a estratégia de alteração de competência, o apelo ao sentimento popular. A ética de resultados é a convidada indesejada na agenda de um tribunal que jamais pode se apequenar.
Mas a verdade é que o se pode chamar de lógica Lava Jato dilacerou a racionalidade do STF. E ainda vai demorar um pouco para juntar os cacos.  -  (Aqui).
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(MARCELO SEMER é juiz de Direito e escritor. Mestre em Direito Penal pela USP, é também membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia).

FORÇA MAIOR


André Farias.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

COPA 2018: BRASIL 2 X 0 MÉXICO

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México elege López Obrador

                  - PACIENCIA, NO SE PUEDE GANAR TODAS!

Simanca.

HAICAI DO BRASIL DE NEYMAR

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A explicação:

Mário.
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O ASTRO, BRILHANDO
HOJE NÃO TENTOU
SER MALANDRO

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(Se bem que a reação ao 'pisão' de Layún pareceu malandramente exagerada...).

COPA 2018: PAGODE RUSSO


Mário Alberto.

OLHO NO VÍDEO (PEPE ESCOBAR: PUTIN E A COPA DO MUNDO 2018)


OLHO NO VÍDEO 

Pepe Escobar: Copa 2018 é vitória de Putin ................ AQUI.

PRA CIMA DO MÉXICO, BRASIL!

domingo, 1 de julho de 2018

OLD CARTOON


Yuri Kosobukin. (Ucrânia).
Em algum lugar do passado.

NONSENSE CARTOON


Angel Boligan. (México).

NONSENSE CARTOON


Bahman Abdi. (Irã).

FUZUÊ


"O STF deixou de ser uma casa onde se pratica o Direito, para se transformar numa casa de jogos, onde o que importa é ganhar e não interpretar e aplicar corretamente as leis
Previsto para ser o guardião da Constituição Federal e o cume hierárquico do Poder Judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de ser uma casa onde se pratica o Direito, para se transformar numa casa de jogos, onde o que importa é ganhar e não interpretar e aplicar corretamente as leis. Sem o mínimo pudor, juízes da Suprema Corte operam os mais variados estratagemas para conseguir que as causas sob sua competência tenham o resultado que almejam.
Que fique bem claro o que se tem visto no STF: não são as partes, compreensivelmente interessadas num determinado desfecho do caso, que estão jogando. São os próprios ministros, cujo cargo exige isenção e imparcialidade, os jogadores desse intrincado tabuleiro.
A cada semana há um novo lance e já não se sabe com segurança o que pode e o que não pode ser feito no Supremo. Os processos caminham num clima de forte insegurança jurídica. Três ministros convertem uma reclamação em habeas corpus de ofício e concedem liberdade ao sr. José Dirceu, em clara oposição à jurisprudência do plenário. Passo seguinte, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, despacha um recurso da defesa do sr. Lula da Silva para o plenário da Corte, mas a defesa desejava que o caso fosse resolvido na Segunda Turma.
O assunto tem enorme relevância, uma vez que não cabe às partes, e tampouco a um juiz, escolher arbitrariamente qual é a instância judicial competente para o feito. É imperioso respeitar, sem exceções, o princípio do juiz natural e aplicar o procedimento legal previsto. No entanto, o atual Supremo não parece muito afeito a essas questões jurídicas, por mais relevantes que elas sejam num Estado de Direito. O rigor técnico tem cada vez menos importância. O que importa é a perspicácia de antever os movimentos dos outros ministros e assegurar um jeito para que sua posição prevaleça. É assim que se pratica a tavolagem na Suprema Corte.
Outra jogada habitual no STF - indecentemente habitual - são as decisões liminares que, num passe de mágica, se tornam definitivas. A tática é melhor ainda quando empregada às vésperas do recesso do STF. Assim, uma decisão monocrática, de natureza temporária e sujeita à revisão do colegiado, ganha ares de coisa julgada por um longo período. Trata-se de uma perversa inversão, em que o STF, órgão máximo de defesa da democracia e da Constituição, assume uma natureza escandalosamente autoritária. A voz provisória de um único ministro torna-se mandamento irrevogável para todo o País.
Na quarta-feira passada, por exemplo, faltando três dias para começar o recesso do STF, o ministro Ricardo Lewandowski decidiu, por medida cautelar, retirar a Companhia Energética do Estado de Alagoas (Ceal) do leilão de privatização de distribuidoras da Eletrobrás. Qualquer revisão da decisão pelo colegiado só será possível no mês de agosto. Como a data prevista para o leilão é o dia 26 de julho, a partida - ou seja, o leilão da distribuidora - só voltará a ser jogada quando os deuses da sorte decidirem. E o povo que pague o prejuízo da distribuidora.
Outra famosa decisão liminar, provisória, mas que tem um custo definitivo para o País, é a concessão de auxílio-moradia a todos os juízes e procuradores. Ainda que seja revertida a decisão pelo plenário do STF, é impossível que retorne aos cofres públicos todo o montante que vem sendo pago a cada mês, desde o segundo semestre de 2014, a título de auxílio-moradia por força da decisão do ministro Luiz Fux.
Recentemente, o ministro Gilmar Mendes externou sua avaliação sobre o atual Supremo Tribunal Federal. "Acho que estamos caminhando bem, o Supremo voltando a ser Supremo", disse o otimista ministro. Isso seria ótimo, se fosse correto. O Supremo tem-se tornado cada vez menor, com sua miríade de decisões que exalam protagonismo, posturas ideológicas e o que mais seja. Assim, fica muito difícil que o Supremo tenha autoridade e, principalmente, que cumpra o seu papel constitucional de baliza do bom Direito. Já não se vislumbra um único colegiado, mas tão apenas a performance individual de seus integrantes e, agora, já também o comportamento de suas turmas e de seu plenário. Onde há esse tipo de divisão não há uma Suprema Corte - há um fuzuê."



(Do jornal O Estado de são Paulo, em sua edição desta data, editorial sob o título 'Fuzuê' - Aqui.
A fogueira das vaidades, enfim, disse a que veio).

VEM AÍ O 5 DE OUTUBRO: 30 ANOS DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA


Jota Camelo.

DOMINGO É DIA DE ANÉSIA


Will Leite.

MUDANÇAS NO CLIMA DA FEIRA DE RIQUEZAS

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Começar o mês com a indispensável coluna de Jânio de Freitas. Boa pedida. Que a operação desmonte não prospere conforme sinistros planos entreguistas.


Feira de riquezas

Por Jânio de Freitas

O governo sumiu. Foi sua melhor providência em dois anos de invasão da Presidência e adjacências. O Supremo Tribunal Federal ocupou o vazio: em uma semana, foi mais criticado do que em todo o seu tempo pregresso, cujo silêncio impositivo, por temor ou interesse, só foi perfurado já no século 21. Mas do Supremo saiu, apesar de logo atacada, uma decisão há muito necessária. 

Desde o governo Fernando Henrique, não haveria melhor ocasião para exigir-se que privatizações sejam submetidas ao Congresso, como vem determinar medida do Supremo, pelo ministro Ricardo Lewandowski. A deficiência moral do Planalto de Temer não decorria só da presença, lá, do hoje encarcerado Geddel Vieira Lima. Logo, a pretendida venda da gigante Eletrobras ao gosto do governo seria, sem dúvida, a reprodução das vendas de gigantes como a Vale do Rio Doce e as telefônicas. Nas quais o próprio Fernando Henrique deixou gravados, tal como Temer com Joesley Batista, indícios óbvios das cartas marcadas nas transações.

Em entrevista recente à Folha, Armínio Fraga repetiu um pretenso argumento de uso comum nos neoliberais: "Governo não deve ter empresa". É verdade. Não deve e não tem. Nenhuma estatal é de governo. Todas são do chamado Patrimônio da União, os bens conjuntos do país. É descabido, quando não é criminoso, que um grupelho decida fazer negócio com bens da nação, por critérios de sua autoria, senão de compradores. Sem ao menos submetê-los ao Congresso para o exame das razões e condições, sua divulgação ao país e a autorização, ou não, dos ditos representantes da sociedade.

Não houve privatização que escapasse ao fracasso senão graças a brutais aumentos dos seus preços. Aqui mesmo foi publicada a constatação do ator Nelson Xavier, hoje morto, de que o quilo do aço de Volta Redonda era vendido, como fixou o então ministro Maílson da Nóbrega, pelo preço de um molho de cheiro-verde na feira. Feita a privatização, depressa o preço cresceu cinco vezes, e não parou aí. Com os telefones só foi diferente por ser pior.

Há cinco dias soubemos de mais vendas de fatias da Petrobras. Foram-se três distribuidoras, de combustíveis, óleos e gás; serviços de abastecimento em três aeroportos, quase 200 postos e outros negócios no Paraguai. Tudo por R$ 1,45 bi. Se muito barato, como parece, caro ou a preço razoável, não se sabe. Assim, sem que o país conheça as razões e os critérios, estão indo há mais de dois anos as sucessivas fatias, na simplória política de vendê-las para cobrir dívidas —o que qualquer camelô faria no lugar em que estavam o louvado Pedro Parente e seu conselho de administração.

Tanto faz se, como especulado, a medida de Lewandowski tem ou não a ver com a encaminhada venda de parte da Embraer, empresa privatizada a preço inferior ao que o país investiu para criá-la. Certo é que os motivos de compra atribuídos à Boeing soam infantis. Uma indústria do seu porte não precisaria da Embraer para produzir aviões de linhagens menores. A Boeing é empresa civil que usa farda e bate continência. É vista como ligada aos departamentos da Defesa e de Estado mais do que aos próprios acionistas.

A Embraer já foi impedida de vendas grandes em razão do poder de veto dos Estados Unidos, imposto para o uso de componentes americanos nos aviões. É um pequeno sinal dos problemas que a esperam e aos projetos que tem com a FAB, se efetivado o negócio com a Boeing. Mas o caso é diferente do que se passa entre as estatais e as privatizações. Aí, a precaução chamaria a polícia.  -  (Fonte: Folha; post reproduzido Aqui).

OLHO NO VÍDEO (XICO SÁ)


OLHO NO VÍDEO

Ferréz em Construção Entrevista XICO SÁ  -  AQUI.

O jornalista, escritor e poeta Xico Sá conversa com Ferréz sobre influências e inspirações literárias, 'Geração Mimeógrafo', independência jornalística, conjuntura política tupiniquim, mazelas vivenciadas por escritores da ativa no Brasil atual etc, etc. Tudo salpicado de pitadas de humor.

A REDENÇÃO DO SINDICALISMO DE VERDADE


"Os sindicatos passarão a promover ações coletivas, em defesa dos seus associados, que, se bem sucedidas, também lhes renderão recursos.

A​ reforma diminuiria a litigiosidade individual, ​porque obriga​ o trabalhador ​a ​pagar as custas do processo​,​ se derrotado, mas aumentaria a litigiosidade coletiva​:​ os sindicatos entra​m​ com mais ações coletivas.​ E se perderem, quem paga é o sindicato e, não, o trabalhador individualmente."

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"A reforma vai obrigar os sindicatos e trabalhar com outras referências. Muito provavelmente vamos presenciar um fenômeno crescente de unificações sindicais e de categorias (p.ex. sindicato dos trabalhadores do ABC, juntando todas as categorias, diretorias, sedes).

Esses movimentos podem aumentar o poder de pressão, organizar as finanças e redimensionar a ação sindical de uma tal ordem que podem deixar a situação ingovernável à​s​ empresas.

Convenhamos, o sindicalismo atual - salvo as exceções conhecidas - está dominado pelos empregadores

Essa mudança de patamar pode acabar com a governabilidade deles.

Por mais que façam malabarismos, é inexorável que a atividade econômica depend​a​ de organização e de ambiente de pacificação.

O rompimento desse equilíbrio ​- agora celebrado na sessão de chá, como diz você, na Casa Grande e no Supremo - ​desanda tudo!

Ou seja, a crise oferece oportunidade de redenção.

O que hoje é aparentemente domínio total pode ser o começo do desespero da Casa Grande.

Pode​m​ faltar polícia e decisões dos TRTs para conter a reação coletiva.


Não se esqueça: o sistema sindical foi estruturado para EVITAR a ação coletiva.

Essas - ​e muitas outras - possibilidades são reais e possíveis.

Muito provavelmente serão ​construídas​ pela parte verdadeiramente sindical do atual sistema."






(De dois sindicalistas brasileiros, a propósito da reforma trabalhista e diante, em especial, do fim da obrigatoriamente da contribuição sindical, à vista de recente decisão do plenário do Supremo Tribunal Federal. As declarações foram prestadas ao jornalista Paulo Henrique Amorim, titular do Conversa Afiada, conforme post "Os sindicatos de verdade estão mais vivos do que nunca!" - AQUI.

Várias conclusões podem ser extraídas a partir da nova realidade. Uma delas: com o predomínio das ações coletivas, restará evidenciado o superdimensionamento da estrutura judicial trabalhista brasileira. A conferir).

COPA 2018: MESSI, O SÓ

Genildo.
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"Mas é um senhor craque."
"O que prova que andorinha, só, não faz verão."

MESSI E O INSUSTENTÁVEL PESO


Duke.

sábado, 30 de junho de 2018

CRÍTICA DE CINEMA: SOBRE O FILME EXPERIMENTOS

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Enquanto meditamos sobre o fortalecimento da impressão de que é vão o empenho da defesa do ex-presidente Lula no sentido de alcançar a sua liberdade e o direito de concorrer à presidência da República, independentemente dos argumentos apresentados - especialmente o espelhado no inciso LVII do artigo 5º da Constituição da República -, cumpre abrir alas para a crueldade no âmbito da ficção, com o filme 'Experimentos'.
(Mas, antes, um lembrete: No próximo dia 5 de outubro, a Constituição da República, referida como Lei Maior, erga omnes, estará completando 30 anos de vigência...
E uma nota adicional: clique AQUI para conferir o que diz o jurista e ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo sobre a Constituição e o momento atual do Brasil).


O Mal está na crueldade cotidiana no filme "Experimentos"

Por Wilson Ferreira

A velha questão permanece: como são possíveis holocaustos e genocídios, sistemática e profissionalmente organizados seja na guerra ou em sistemas metódicos cotidianos? Quem são essas pessoas que executam as ordens? Burocratas que apenas obedecem superiores ou monstros frios e maus? No filme “Experimentos” (“Experimenter”, 2016), sobre os célebres experimentos relativos a autoridade e obediência realizados pelo psicólogo social Stanley Milgram em 1961, a resposta é paradoxal: nem uma coisa e nem outra, intuiu Milgram. Para entender o jogo da autoridade que cria ilusões, somente criando uma outra ilusão: uma experiência de simulação na qual o voluntário era colocado em um dilema moral – é possível obedecer ordens mesmo que confrontem convicções íntimas? “Experimentos” mostra como o insight gnóstico muitas vezes está presente na Ciência: a ilusão pode definir um cenário no qual a verdade pode ser revelada – a “banalidade do mal”, que é mais cotidiana do que podemos imaginar.

Um homem responde a um anúncio de jornal buscando voluntários para um experimento em Psicologia sobre o efeito das punições nos processos de aprendizagem. Os US$ 4,50 levam esse homem a um laboratório da Universidade de Yale. Ele se depara com um pesquisador sério vestindo um imponente jaleco cinza. Pacientemente ele explica para o homem e um outro participante o procedimento.  

Um sorteio definirá quem é o Professor e o Aluno. O Aluno ficará isolado em uma sala, enquanto o Professor fará uma série de perguntas pré-definidas e, a cada erro, apertará um botão que aplicará um choque elétrico inicial de 15 volts no Aluno. A cada erro, a voltagem vai aumentando até o limite de 450 volts – carga extremamente perigosa e potencialmente fatal.

Da sala anexa, o homem começa a ouvir os gritos do “Aluno” a cada eletrocução. Os gritos ficam mais altos, e o homem diz ao pesquisador que não se sente confortável em aplicar mais castigos. “É necessário que você continue o experimento”, diz secamente o pesquisador, com uma fisionomia grave.

Após 405 volts o “Aluno” deixa de responder. “Será que aconteceu alguma coisa com ele?”, o homem pergunta seriamente preocupado. Mas o pesquisador assegura de forma dúbia: “Asseguro-lhe que os choques não causam nenhum dano tecidual...”.

A máquina indica que o próximo choque será “extremamente severo”. Mas o homem pensa: “Poderia ser eu no lugar dele... um simples sorteio me livrou de estar preso em uma cadeira elétrica”. O compenetrado pesquisador assume a responsabilidade, e o “Professor” aciona os últimos choques potencialmente fatais.


Essa macabra experiência abre o filme Experimentos (Experimenter, 2015), sobre o famoso e controvertido “Experimento de Milgram” relativo a autoridade e obediência feita pelo psicólogo da Universidade de Yale Stanley Milgram em 1961.

 Apesar da dramaticidade e da angústia real dos “Professores” que deveriam aplicar as cargas elétricas como castigo, o voluntário ignorava que tudo não passava uma simulação. Nem os choques eram de verdade e muito menos o “Aluno” era outra cobaia remunerada pelo experimento: era um ator que acionava um gravador que disparava gritos no interior da sala onde supostamente estaria amarrado a uma cadeira.

A verdade através da ilusão


Pelos resultados, Milgram comprovaria o quão facilmente pessoas comuns seriam capazes de cometer as maiores atrocidades. Como numa situação de submissão à autoridade, pessoas comuns seriam capazes de abandonarem seus princípios morais passando toda a responsabilidade por atos bárbaros a alguém hierarquicamente superior. Essa pessoa veria a si própria como um mero instrumento neutro das ordens de uma autoridade.

Esse experimento mostrado diversas vezes no filme Experimentos até hoje sofre uma série de críticas éticas – seriam procedimentos que submeteriam os voluntários a situações constrangedoras, opressoras, nas quais os violentos dilemas morais poderiam resultar em experiências traumáticas. Segundo os parâmetros de comitês reguladores atuais, jamais essa experiência (e a sua repetição em décadas posteriores) seria realizada.


Mas o argumento de Milgram em sua defesa era surpreendentemente gnóstico, assim como todo o enfoque da questão da obediência à autoridade.

A certa altura do filme, Milgram (Peter Sarsgaard) se confronta com críticas de que seu experimento era apenas uma trapaça: uma situação artificialmente criada, muito longe de uma situação real. Não era uma prova científica.

“Eu gosto de pensar nisso como uma ilusão, e não uma trapaça”, dispara Milgram. “A ilusão tem uma função reveladora, como em um jogo. A ilusão pode definir o cenário para a revelação, para revelar as dificuldades para se chegar à verdade”, conclui o pesquisador.

Se o poder ideológico da autoridade é uma ilusão, nada melhor do que combater a ilusão com uma simulação. Se o mundo é uma ilusão, a única forma de encontrar a verdade por trás desse véu é através de um jogo de ilusões: a simulação.


O Filme e o contexto


Experimentos é mais do que uma biografia do psicólogo social Stanley Milgram: o filme inicia com os famosos experimentos cujos resultados Milgram acreditava que explicariam tragédias como a barbárie nazista – como compreender atos tão cruéis sob o álibi do “estou apenas obedecendo ordens”?

A narrativa deixa claro o contexto no qual os experimentos aconteceram. Em 1961 estavam em andamento os tribunais de Jerusalém, e estava sendo julgado Otto Adolf Eichmann, oficial nazista capturado pelo Mossad (agência de inteligência de Israel) em Buenos Aires. Ele era considerado “o arquiteto do Holocausto”. Suas declarações impressionaram pela frieza e pelo modo como seus subordinados seguiam cegamente suas ordens.

A virtude de Experimentos é mostrar como a pesquisa de Milgram se diferenciava da até então visão corrente sobre o tema da obediência: rígidas cadeias hierárquicas, lavagem cerebral militar etc. Mas para Milgram, qualquer situação persuasiva poderia levar alguém a abandonar seus preceitos morais.

O que é mais incrível nas situações apresentadas pelo filme é que não parecia haver qualquer causa aparente para os voluntários começarem a obedecer cegamente às ordens do pesquisador – nenhuma relação hierárquica, familiar, forma de poder, autoridade etc. Não, apenas um homem de jaleco cinza com uma voz asséptica dizendo “por favor, continue... é necessário dar continuidade para que possamos concluir o experimento...”.

Ficam explícitas as angústias e conflitos internos dos voluntários (morder os lábios, suar, tremer, cravar as unhas na pele etc.), mas seguiam em frente até a eletrocução fatal.


Onde está o Mal?


Didaticamente, a narrativa detalha a descoberta de Milgram que o diferenciava do senso comum corrente: o que ele chamou de “estado de agente” – é a própria “política do trabalho”: numa sociedade ou cadeia de trabalho na qual o indivíduo perde a noção do propósito do Todo. O indivíduo passa a se definir como instrumento de realização dos desejos do outro. “Apenas faço o meu trabalho”, é o mantra de organizações burocráticas, de trabalho superespecializado.

“Quando cheguei já estava assim!” é uma outra variável. Em outras palavras: a conclusão de Milgram ao final de Experimentos é que o problema não está na autoridade em si. E muito menos em uma natureza humana comportamental. Mas nas estruturas da própria sociedade moderna industrial de trabalhos pequenos e especializados nos quais não podemos agir sem um tipo de comando.

Os experimentos foram repetidos por décadas, sempre apresentando os mesmos resultados. Mesmo na sociedade pós-industrial em que vivemos – de serviços terceirizados e precarizados. 

Ou será que os resultados de Milgram apenas pioraram em uma organização econômica atual baseada na terceirização generalizada dos serviços e a “uberização” do chamado “capitalismo cognitivo”? – aplicativos passam a ser o intermediário entre prestação de serviço e consumidor, sem vínculos trabalhistas.

Organizações flexíveis nas quais jogamos a responsabilidade em organizações, aplicativos, sociedades anônimas ou em um sistema sem rosto.


A chave da ilusão


O que torna Experimentos interessante é como articula a noção de “ilusão” como a chave do insight de Milgram. Em gigantescos sistemas burocráticos sem rosto com relações mediadas por formas de comunicação vertical (do velho memorando aos aplicativos atuais), a autoridade se diluiu em uma máquina totalitária incompreensível. Em uma ilusão, na qual jogamos a responsabilidade como forma de sobrevivência.

Os dilemas morais nos quais eram jogados os voluntários eram tão reais na simulação criada por Milgram como na vida real de organizações. A chamada “vida real” é tão ilusória como o experimento de Milgram. Se a consciência de um Todo não existe para o indivíduo que obedece “as ordens”, de forma análoga também a consciência da simulação não existe para o voluntário.

Ilusão e simulação são os conceitos-chave do filme. Tanto que o próprio filme faz em muitos momentos um exercício metalinguístico de mostrar a si próprio como uma ilusão: em muitas cenas, propositalmente o filme tem um aspecto teatral, no qual percebemos o fundo das cenas como cenários ou projeção de imagens em movimento para criar a ilusão de movimentação do carro que Milgram dirige com sua esposa Alexandra (Winona Ryder).

Aliás, nem o próprio Milgram, tanto no filme como na vida real, negaram sua inspiração no incipiente gênero reality show que surgia na TV norte-americana naquele momento, como o programa precursor iniciado em 1948 chamado “Candid Camera” – câmeras escondidas flagravam reações engraçadas de anônimos em situações incomuns, algumas delas envolvendo “pegadinhas”.

Portanto, o filme Experimentos nos mostra um bom exemplo de como o viés da filosofia gnóstica pode perpassar em muitos momentos a Ciência: primeiro, no insight de Milgram procurar a verdade através da ilusão, partindo do princípio de que o que chamamos de “realidade” (no caso de Milgram, a “autoridade”) nada mais é do que um jogo de ilusões.


E segundo, a premissa de que a questão da obediência não é comportamental (individual), mas estrutural: na própria estrutura de trabalho (o “estado de agente”) burocrática, hierárquica, baseada na super-especialização (e hoje na radical terceirização e flexibilização do trabalho)  e a alienação do indivíduo em relação aos objetivos ou sentido.

Em essência, a origem da “banalidade do mal” (Hanna Arendt) está no próprio estranhamento do homem (alienação) nesse mundo. É a condição gnóstica humana: a banalidade do Mal não está no homem, mas no mundo que o aprisiona. 

Ficha Técnica 

Título:  Experimentos
Diretor: Michael Almereyda
Roteiro: Michael Almereyda
Elenco:  Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Jim Gaffigan, John Palladino
Produção: BB Films Production, FJ Productions
Distribuição: Magnolia Pictures
Ano: 2016
País: EUA

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(Fonte: Blog Cinegnose - Aqui).