domingo, 31 de janeiro de 2016

REVISITANDO SÍTIOS


Uma visita ao sítio

Por Jânio de Freitas (Folha de São Paulo)

A renovada notícia sobre obras em um sítio que a família de Lula frequentaria, na paulista Atibaia, dá oportunidade à recuperação de dois casos reais da afinidade rural comum a presidentes e empreiteiros. Embora um caso se passasse na ditadura e outro na democracia, a discrição que os protegeu teve a mesma espessura.

A ótima localização de um sítio em Nogueira, seguimento de Petrópolis, não chegava a compensar o aspecto simplório dada à área, nem a precariedade da casa. Em poucos meses, porém, acabou o desagrado do general-presidente com as condições locais. O terreno foi reurbanizado, a casa passou a ser um moderno bangalô de lazer. Surgiram piscina, uma pista de hipismo, estrebaria, estacionamento e um jardim como as flores gostam. Uma doação da empreiteira Andrade Gutierrez ao general Figueiredo, então na Presidência.

Em poucos anos de novo regime, a Andrade Gutierrez podia provar que sua generosidade não padecia de pesares nostálgicos. Proporcionou até uma estrada decente para a fazenda em Buritis, divisa de Goiás e Minas, que o já presidente Fernando Henrique e seu ministro das Comunicações e sócio Sérgio Motta compraram em operação bastante original. Como a democracia tem inconvenientes, dessa vez a estrada foi guarnecida de um pretexto: era só dizer que serviria a uma área que a empreiteira comprara ou compraria na mesma região.

O sítio que não é de Lula, mas recebeu-o em visitas injustificadas para a imprensa e depois para a Lava Jato, entrou nas fartas suspeições de crime quando "Veja" e logo Folha noticiaram, em abril do ano passado: a OAS de Léo Pinheiro "realizou uma reforma em um sítio a pedido do [já] ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva", área de 173 mil m² dos sócios de um filho de Lula.

A descoberta desse fato deu-se, disse a notícia, nas "anotações feitas por Léo Pinheiro no Complexo Médico Penal, em Curitiba". Mas, como ninguém da Lava Jato falou nada, os jornalistas calaram o assunto por sete meses. Ou até que, em novembro, a opinião pública foi blindada com a aparente notícia de que "a Polícia Federal investiga se a OAS beneficiou a família do ex-presidente" Lula "ao pagar por obras" no sítio "frequentado pelo petista e seus parentes". Mas a obra deixara de ser "realizada" pela OAS para ser apenas "paga" pela empresa.

Nove meses depois da revelação, o sítio reaparece, ainda sem um esclarecimento da Polícia Federal e da Lava Jato: não houve delação a respeito, logo, só se investigassem. Nem por isso faltam novidades: sumiram a OAS e Léo Pinheiro e entrou a Odebrecht, empreiteira da moda. Citada por uma senhora vendedora de material de construção e um carpinteiro, com alegada base em alguns recebimentos que tiveram. E a tal anotação de Léo Pinheiro, que falava em OAS? Outra tapeação?

Figuras imaculadas, deve ter sido para não ver os seus novos bens em tal protelação e barafunda que Figueiredo, Fernando Henrique e Sérgio Motta preferiram que ninguém soubesse deles. Mas o sítio de Atibaia mostra bem o quanto fatos relevantes, pelas suspeitas-já-acusações que os utilizam, estendem consequências no tempo e confundem a indefesa opinião pública.

Como o sítio de Atibaia, há muitos fatos e circunstâncias, não só da Lava Jato, na atualidade brasileira.

O MENTIROSO

O delator Fernando Moura deixou uma pista nos depoimentos em que se desdisse, muito sugestiva de qual deles é o autêntico. No segundo, que desmentia o de suas ofertas para ter direito a delação premiada, negou que José Dirceu fosse o patrono da nomeação de Renato Duque na Petrobras, como a Lava Jato difundiu. Disse que Dirceu foi chamado a dirimir a indecisão final entre dois pretendentes, em reunião a que estava presente também Dilma Rousseff, então da equipe de transição. A indicação foi de Silvio Pereira.

Para quem buscava o prêmio por delação, seria um acréscimo estúpido citar a própria presidente da República como testemunha em narração que fosse falsa, sujeitando-se a um trompaço desmoralizador. Fernando Moura é cínico, mas não é estúpido. Só veio a desdizer o depoimento corretivo porque oprimido pela ameaça, reiterada em público, que lhe fez um procurador da Lava Jato. (Fonte: aqui).

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Entreouvido nos bastidores: "Conseguir dar o recado em pleno covil de leões não é para todo mundo. Jânio de Freitas é exemplo de coragem e habilidade jornalística".

A ÚLTIMA CONTRA O EX-PRESIDENTE

Montanaro. (Da Folha de São Paulo).
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Clique aqui para ler nota do Instituto Lula sobre os últimos acontecimentos.

ABBEY ROAD


Kap.

O BALÃO


Oguz Gurel.

BRASIL, TRANSAÇÕES CORRENTES E PERSPECTIVAS


"O Banco Central do Brasil (BCB) divulgou nesta semana, no dia 26 de janeiro de 2016, as estatísticas de transações correntes do Brasil em 2015. Segundo os dados apresentados pelo BCB, o déficit do Brasil nas operações de bens, serviços e rendas com o exterior caiu 43% com relação ao ano de 2014, ficando em US$ 59 bilhões, contra US$ 104 bilhões no ano anterior.

O resultado foi mais do que compensado pelos investimentos estrangeiros diretos no Brasil naquele período, que chegaram a US$ 75 bilhões, proporcionando um saldo positivo de US$ 16 bilhões.

À guisa de comparação, o déficit dos EUA em transações correntes excede US$ 400 bilhões e o do Reino Unido é superior a US$ 114 bilhões. Canadá, Austrália e Índia têm deficit aproximado ao do Brasil, mas não atraem os mesmos volumes de investimentos estrangeiros diretos, nem têm reservas em moedas estrangeiras tão significativas [como as brasileiras]. Hoje, as reservas externas brasileiras se equiparam a nada menos do que 50% daquelas de toda a área do Euro, composta por 17 países.

O anúncio do bom resultado deve melhorar a percepção no exterior da vitalidade da economia brasileira, depois de feito o necessário ajuste cambial para um patamar compatível com a realidade. Nos anos anteriores, a supervalorização da moeda brasileira tirava a competitividade internacional de nossa economia e dava um perverso incentivo aos fornecedores estrangeiros. O Real era uma das quatro moedas mais supervalorizadas do mundo. Por conseguinte, as compras de bens e serviços no exterior eram encorajadas.

Com o ajuste cambial, nosso agronegócio, um dos mais eficientes do mundo, adquire ainda maior competitividade natural e nossa combalida indústria, prejudicada pelos anos de adversidade na política cambial, retoma tentativas de se reinserir nos mercados internacionais. Esse processo levará certamente alguns meses, mas terá desfecho seguramente favorável pela experiência externa adquirida por muitas empresas, inclusive nas importações de bens e produtos estrangeiros, que serão substituídos em grande parte.

As novas perspectivas de competitividade internacional do Brasil irão encorajar investimentos internos e externos, com o objetivo de conquistar novos mercados e aumentar a oferta. A economia, por conseguinte, irá reagir no segundo semestre de 2016. Essa visão é compartilhada por um dos maiores brasilianistas chineses, o ex-embaixador chinês no Brasil, Chen Duqing que, em artigo publicado na imprensa da China neste mês, afirmou ser a vilificação do Brasil muito exagerada, que a economia brasileira tem muitas áreas fortes, que as reservas externas do País estão intactas e com viés de crescimento, e que os nossos problemas são mais de ordem política 
que econômica."








(De Durval de Noronha Goyos, advogado paulista, especialista em Direito Internacional, post intitulado "Melhoram as transações correntes do Brasil" - aqui.

De fato, nossos problemas são basicamente de ordem política, no sentido amplo do termo, circunstância que desde o anúncio do resultado da eleição presidencial de 2014 estamos a vivenciar - há quem considere a palavra 'amargar' como mais recomendável -, mobilizando Câmara dos Deputados, TSE, serviço da dívida pública, república do Paraná e sua 'embaixada' em São Paulo. Bom seria se o Brasil pudesse seguir na luta tendo um único front contra quem lutar: o das pressões externas).

INTERNET, A OUTRA INVENÇÃO


Pavel Constantin.

SOBRE A INCONTROLÁVEL OBSESSÃO INQUISITORIAL


Escandalização de denúncias prejudica imagem do país

Por André Araújo

Getúlio Vargas

Getúlio matou-se por causa de uma campanha anti-corrupção onde ele era o epicentro. Governou o Brasil por 15 anos e mais 4 no segundo Governo. Deixou de herança um apartamento de 3 quartos, na Tijuca, e 1/5 de uma fazenda em São Borja que herdou do pai, General Manoel Vargas.

Juscelino Kubitschek, construtor de Brasília, pintado pela mesma imprensa de hoje como a "7ª fortuna do mundo", morreu e deixou a muito digna viúva dona Sarah com recursos mais que medianos; depois de certo tempo dona Sarah teve que vender quadros que estavam na parede do apartamento para se manter.

Mario Andreazza, poderoso Ministro dos Transportes do Governo Militar, contratante de incontáveis obras de rodovias e pontes, era cantado em prosa e verso pela imprensa como multimilionário. Morreu e seu singelo enterro foi bancado por amigos. Andreazza, militar de carreira,  não era só Ministro dos Transportes, fazia parte do núcleo central de poder.

O hoje quase imortal Delfim Netto teve seus tempos de fama de corrupto, atacado por uma mídia ávida de escândalos em torno de um certo "relatório" onde se afirmava que ele cobrava 10% em obras. Hoje, o sábio ex-Ministro vive e sempre viveu uma modestíssima vida de classe média em São Paulo, mandou nas finanças do Brasil como poucos e não enriqueceu,  vilipendiado por décadas assim como Roberto Campos, outro que se foi desta vida legando um simples apartamento no Arpoador que já era dele há 40 anos e um Opala velho, mas sempre no visor das acusações da mídia inconsequente.

O Brasil e o Chile são os dois países de MENOR índice de corrupção na América Latina - não é frase de efeito.

Os 13 Presidentes da República Velha, depois Getúlio, Dutra, Café Filho, Carlos Luz, Nereu Ramos, JK, Janio, Jango, Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo saíram do poder como entraram, alguns adquiriram bens, mas nada fantástico, enquanto os Presidentes do PRI mexicano saíam do governo com US$ 1 a 2 bilhões cada um, em um acordo tácito de cúpulas onde se permitia tal feito e parte do pacto era sair do México depois que deixassem a Presidência.

Na Argentina, Perón saiu com US$ 200 milhões (em moeda de hoje seriam bem mais que US$ 1 bilhão), no Paraguai Stroessner saiu multimilionário, Odria no Peru, Marcos Perez Gimenez na Venezuela, Somoza, Trujillo e os cubanos Gerardo Machado e Fulgencio Baptista, os dois Duvalier, por toda a América Latina o enriquecimento dos poderosos é a regra, no Brasil a tradição é bem mais modesta e MUITOS, incontáveis Ministros poderosos saíram como entraram.

Os filhos engenheiros do Presidente Médici vivem de seu trabalho em empregos mais que médios; fui amigo de um digno militar, Chefe do Estado Maior do Exército, vida simples em casa simples - é uma tradição do militar brasileiro, sinto dizer que é bem diferente no resto da América Latina.

O Brasil deveria se orgulhar do conjunto de seus homens públicos mas HOJE, graças à escandalização, estamos sendo apresentados ao mundo em termos de corrupção africana com grave prejuízo à imagem do País. (Fonte: aqui).

INTERNET APAVORA A MÍDIA ANTIGA


Pavel Constantin. (Romênia).

sábado, 30 de janeiro de 2016

SOBRE O CASO DO IATE


O 'iate' do Lula e o jornalismo 'sem noção'

Por Fernando Brito

Folha hoje se supera.
Apresenta como “prova” da ligação de Lula com o sítio que ele nunca negou frequentar, em Atibaia, um barco comprado por D. Mariza, sua mulher e mandado entregar lá.
A “embarcação”, como se vê no próprio jornal,  é um bote de lata comprado por R$ 4.100.
Presta para navegar num laguinho, com a mulher, dois amigos e o isopor, se ninguém fizer muita gracinha de se pigar em pé, fazendo graça.
É o “iate do Lula”, quase igual ao Lady Laura do Roberto Carlos e só um pouco mais modesto do que as dúzias de lanchas que você vê em qualquer destes iate clubes que existem em qualquer cidade praiana.
A pergunta, óbvia, é: e daí que o Lula frequente o sítio? E daí que sua mulher tenha comprado um bote, sequer a motor, para pescar umas tilápias, agora que já não podem, como nos velhos tempos, fazer isso na represa Billings?
Qual é a prova de que a reforma do sítio foi paga pela Odebrecht (segundo a Folha) ou pela OAS (segundo a Veja)?
E se o Lula frequentasse a mansão de um banqueiro? E se vivesse nos iates – os de verdade – da elite rica do país?
O que o barquinho mixuruca prova a não ser a absoluta modéstia do sujeito que, quatro anos atrás, escandalizava essa gente carregando um isopor para a praia?
Os jornais, a meganhagem e a turma do judiciário – que já não se separam nisso – estão dedicados a destruir o “perigo lulista”.
Esqueçam o barquinho: o que eles querem é ter de novo o leme do transatlântico.
Perderam até a noção do ridículo, convencidos de que já não há resistência a ele nas mentes lavadas do país.
E acabam revelando que, em suas mentes,  o grande pecado  de Lula, que ganha em  palestras pagas o suficiente para comprar uma “porquera” daquelas por minuto que passe falando, ou para alugar uma cobertura na Côte D’Azur do Guarujá,  é continuar pensando como pobre:  querendo comprar apartamento em pombal e barquinho de lata para ficar de caniço, dando banho em minhoca.
É que ter nascido pobre é um crime que até se perdoa, imperdoável mesmo é continuar se identificando com eles. (Fonte: aqui).
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De fato, o furor contra o 'perigo lulista' mobiliza diversas 'frentes' e parece não ter limites. 
Lida a 'manchete' no 'home' do Uol, o leitor vai à matéria e depara com a foto do 'iate' - de alumínio, sem motor, como acima reproduzida - do Lula. Como diria a turma d'O Pasquim, 'Cáspite'. Seria perfeitamente compreensível se um leitor ironizasse: "Tás brincando, Folha!..." 

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Nota: Voltando a esse caso notabilíssimo: Há pouco, o Jornal Nacional repercutiu a 'denúncia' da Folha, acima tratada, mas, estrategicamente, para evitar ridículo maior ainda, deixou de exibir a foto do tal iate, quero dizer, barco de alumínio, sem motor. (Como diria Paulo Francis, ao tempo do 'Diário da Corte': "Pfiu").

O PAÍS DA INQUISIÇÃO


O país da inquisição

Por Luis Nassif

A Folha publica reportagem atribuindo a Lula a propriedade de um sítio em Atibaia que teria sido reformado pela Odebrecht. Esforço próprio de reportagem? No mesmo dia, segundo a Folha de hoje, procuradores e delegados da Lava Jato do Paraná já se deslocaram para o local mencionado. E um barco de alumínio, de R$ 4 mil, passa a ser a prova do crime da família Lula.
Tal rapidez destoa da programação da Lava Jato. É evidente que o jornal foi alimentado previamente pelos procuradores e delegados da Lava Jato, antes mesmo de terem provas consistentes se houve a tal reforma bancada pela empreiteira.
No Estadão, um lobista justifica-se ao seu empregador afirmando que perdeu uma licitação da Secretaria de Educação do governo de São Paulo porque o vencedor pagou R$ 100 mil ao ex-Secretário Herman Voorwald.
Pouco importa se o lobista chutou a explicação apenas para limpar a barra perante seus contratantes. Pouco importa se a vítima, em questão, tem vida limpa, conduta ilibada e sempre se ateve à carreira acadêmica. Caiu na rede é peixe, é o bordão de uma imprensa leviana, inconsequente que há muito perdeu a noção de reportagem.
No Rio, uma acusação inconsistente de ação terrorista contra um físico franco-argelino altamente qualificado é endossada de pronto pelo Ministro da Educação, sem sequer ouvir o acusado. O Brasil, que poderia se tornar uma ilha para abrigar a imigração qualificada, entra na lista dos países intolerantes.
Todos esses capítulos mostram uma opinião pública doente, um país doente, inquisitorial, na qual os princípios fundadores do estado democrático foram jogados no lixo por essa combinação fatal de mídia-procuradores-delegados.
O cerco que se montou sobre Lula em nada difere da campanha contra Vargas em 1954.
A chamada publicidade opressiva da mídia exige alimentação constante de fatos, factoides, meros rumores. Por mais que haja criatividade, não se consegue alimentar o noticiário sem o apoio de algum evento que cuspa permanentemente as informações.
No caso de Vargas, uma CPI que se julgava inócua – a da Última Hora – passou a ser o motor gerador de factoides, permitindo o uso da publicidade opressiva por parte da mídia, especialmente da rádio Globo.
Dia após dia a CPI soltava seus factoides, que alimentavam o noticiário. Samuel Wainer recebeu xis de financiamento do Banco do Brasil, bradava a mídia. E escondia o fato de que o Globo e a própria Tribuna da Imprensa (de Carlos Lacerda) receberam mais. O financiamento da UH era reverberado dia e noite condenando os adversários perante a opinião pública e, através dela, pressionando os tribunais superiores.
Criado o clima, despertado o monstro do efeito manada, toca a uma devassa implacável sobre todos os atos de governo.
Aí se descobre que o guarda-costas Gregório Fortunato era dono de uma fortuna apreciável. Mais: que aceitou adquirir uma fazenda de um filho de Getúlio, para que ele pudesse quitar dívidas pessoais.
É evidente que o exercício do poder abre facilidades que acabam sendo aproveitadas pelos elos moralmente mais fracos da corrente. Assim como é evidente que existem sempre áulicos que arrotam a suposta intimidade com o poderoso para enriquecer. E é evidente também que o exercício corriqueiro do poder seleciona ganhadores. São parte da própria lógica econômica medidas oficiais de estímulo à economia. Para estimular a economia, na outra ponta há os setores que se privilegiam.
Basta juntar tudo no mesmo caldeirão e alimentar o monstro. Tudo passa a ser criminalizável. É o que comprova a ofensiva da Operação Zelotes contra uma Medida Provisória que foi aprovada por unanimidade no Congresso, de mera prorrogação de uma decisão tomada pelo governo anterior, do PSDB, de estimular a indústria automobilística em regiões menos desenvolvidas.
Por que a fixação nessa MP? Porque supõe-se que no final do arco-íris esteja Lula.
É um trabalho extraordinariamente facilitado quando encontra pela frente um Ministro da Justiça vacilante ou cúmplice, e governos que não sabem se defender.
Em São Paulo há um controle rígido sobre as ações do Ministério Público Estadual. As apurações caminham lentamente e jamais chegam no andar de cima. No máximo vaza alguma coisa para a imprensa, que dura o tempo máximo de uma edição de jornal.
Tome-se a última denúncia contra a Delta, uma prorrogação de contrato no valor de R$ 71 milhões aprovado pela DERSA. Na CPMI da Cachoeira foi desvendada a estratégia da construtora. Ganhava licitações com preços baixos, tendo a garantia de aditivos posteriores.
No máximo, a investigação baterá em algum subalterno da DERSA, mesmo com o episódio Paulo “não se deixa um aliado caído no campo de batalha” Preto ainda fresco na memória de todos.
Na Lava Jato a militância do juiz Sérgio Moro, dos procuradores e delegados é claramente partidária e alimenta o noticiário há mais de ano E ai de quem ousar rebater e atribuir à operação propósitos autoritários. Imediatamente aparecerá na mídia um procurador enviado de Deus acenando para o ímpio com duzentos anos de prisão. (Fonte: aqui).

SISTEMA FINANCEIRO LOUVA OS JUROS


Nem todo mundo perde na recessão

Por André Barrocal

“Na recessão, todo mundo perde”, disse o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social com Dilma Rousseff e alguns ministros nesta quinta-feira 28. A julgar por dois números divulgados horas antes, a declaração do banqueiro-sociólogo escolhido pessoalmente por Dilma como um dos oradores da reunião é mais retórica do que uma expressão da realidade.
No ano passado, o Bradesco teve lucro de 17 bilhões de reais. Foi o segundo maior lucro bancário já registrado no País, de acordo com uma consultoria especializada na análise de balanços de empresas de capital aberto, a Economática.
desemprego também terminou 2015 em nível alto. A taxa oficial do País, medida pelo IBGE, chegou a 6,9% em dezembro, a maior desde 2007. Foi a primeira vez que o IBGE identificou uma redução do número total de pessoas com emprego formal no setor privado de um ano para o outro desde que começou a fazer esta pesquisa.
O gordo lucro bancário e o avanço do desemprego ocorreram em um mesmo cenário. Um ano em que a economia encolheu perto de 3%, segundo algumas estimativas – o resultado oficial sai só em março. Sinal de que nem todo mundo perde na recessão.
O sistema financeiro não precisa de expansão da economia para ganhar dinheiro, ao menos no Brasil. Em 2014, o Itaú teve lucro de 20 bilhões de reais, o maior já visto no País, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) estagnava (cresceu 0,1%).
Altas taxas de juros fixadas pelo Banco Central (BC) e pagas pelo Tesouro Nacional na rolagem da dívida pública bastam para garantir riqueza ao sistema financeiro.
Em 2014, o BC subiu seu juro Selic de 10% para 11,75% e em 2015, para 14,25%. Uma taxa que não significa nada para o cidadão comum, mais familiarizado com a usura do cheque especial (287% em 2015, maior média em 21 anos) e do cartão de crédito (431% na média de 2015, recorde histórico). Mas que rende dividendos polpudos aos bancos que negociam com a dívida pública.
Em seu balanço do ano passado, o Bradesco apontou o fator “juros” como explicação principal para o lucro de 17 bilhões.
A elevação na taxa de juros é também uma das principais causas do aumento da dívida pública e do déficit público em 2015, conforme dados divulgados nesta sexta-feira 29 pelo BC.
A dívida líquida, que desconta valores que o Estado tem a receber, pulou para 36% do PIB (era 2,9 pontos menor em 2014). Já a bruta, que ignora o que o Estado tem a receber, subiu de 57% para 66%. O déficit público de 0,57% do PIB em 2014 virou um de 1,88% no ano passado. (Fonte: Carta Capital; reproduzida aqui).
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"Altas taxas de juros fixadas pelo Banco Central (BC) e pagas pelo Tesouro Nacional na rolagem da dívida pública bastam para garantir riqueza ao sistema financeiro"... além, evidentemente, das taxas e tarifas impostas aos correntistas, custos, aliás, decorrentes da Selic. 
Alguém desabafa: "Tudo isso é fruto da 'realidade estrutural' brasileira!"; ao que banqueiros, rentistas e sonegadores fiscais, comovidos, agradecem.

CARTUM SOB CONTROLE


Ares.

CONFRONTO DE RÓTULOS


O esquerdista fanático e o direitista visceral: dois perfeitos idiotas

Por Frei Betto

Direitista visceral e esquerdista fanático – os dois são perfeitos idiotas. O direitista padece da doença senil do capitalismo e o esquerdista, como afirmou Lênin, da doença infantil do comunismo

Nada mais parecido a um esquerdista fanático, desses que descobrem a nefasta presença do pensamento neoliberal até em mulheres que o repudiam, do que um direitista visceral, que identifica presença comunista inclusive em Chapeuzinho Vermelho.

Os dois padecem da síndrome de pânico conspiratório. O direitista, aquinhoado por uma conjuntura que lhe é favorável, envaidece-se com a claque endinheirada que o adula como um dono a seu cão farejador. O esquerdista, cercado de adversários por todos os lados, julga que a história resulta de sua vontade.

O direitista jamais defende os pobres e, se eventualmente o faz, é para que não percebam quão insensível ele é. Mas nem pensar em vê-lo amigo de desempregados, agricultores sem terra ou crianças de rua. Ele olha os deserdados pelo binóculo de seu preconceito, enquanto o esquerdista prefere evitar o contato com o pobre e mergulhar na retórica contida nos livros de análises sociais.

O esquerdista enche a boca de categorias teóricas e prefere o aconchego de sua biblioteca a misturar-se com esse pobretariado que nunca chegará a ser vanguarda da história.

O direitista adora desfilar suas ideias nos salões, brindado a vinho da melhor safra e cercado por gente fina que enxerga a sua auréola de gênio. O esquerdista coopta adeptos, pois não suporta viver sem que um punhado de incautos o encarem como líder.

O direitista escreve, de preferência, para atacar aqueles que não reconhecem que ele e a verdade são duas entidades numa só natureza.

O esquerdista não se preocupa apenas em combater o sistema, também se desgasta em tentar minar políticos e empresários que, a seu ver, são a encarnação do mal.

O direitista posa de intelectual, empina o nariz ao ornar seus discursos com citações, como a buscar na autoridade alheia a muleta às suas secretas inseguranças. O esquerdista crê na palavra imutável dos mentores do marxismo e não admite outra hermenêutica que não a dele.

O direitista considera que, apesar da miséria circundante, o sistema tem melhorado. O esquerdista vê no progresso avanço imperialista e não admite que seu vizinho possa sorrir enquanto uma criança chora de fome na África.

O direitista é de uma subserviência abjeta diante dos áulicos do sistema, políticos poderosos e empresários de vulto, como se em sua cabeça residisse a teoria que sustenta todo o edifício de empreendimentos práticos que asseguram a supremacia do capital sobre a felicidade geral.

O esquerdista não suporta autoridade, exceto a própria, e quando abre a boca plagia a si mesmo, já que suas minguadas ideias o obrigam a ser repetitivo. O direitista é emotivo, prepotente, envaidecido. O esquerdista é frio, calculista e soberbo.

O direitista irrita-se aos berros se encontra no armário a gola da camisa mal passada. Dedicado às grandes causas, as pequenas coisas são o seu tendão de Aquiles.

O direitista detesta falar em direitos humanos, e é condescendente com a tortura. O esquerdista admite que, uma vez no poder, os torturados de hoje serão os torturadores de amanhã.

O direitista esbraveja por ver tantos esquerdistas sobreviverem a tudo que se fez para exterminá-los: ditaduras militares, fascismo, nazismo, queda do Muro de Berlim, dificuldade de acesso à mídia etc. O esquerdista considera o direitista um candidato ao fuzilamento.


Direitista e esquerdista – os dois são perfeitos idiotas. O direitista padece da doença senil do capitalismo e o esquerdista, como afirmou Lênin, da doença infantil do comunismo.

Embora mineiro, não fico em cima do muro. Sou de esquerda, mas não esquerdista. Quero todos com acesso a pão, paz e prazer, sem que os direitistas queiram reservar tais direitos a uma minoria, e sem que os esquerdistas queiram impedir os direitistas de acesso a todos os direitos – inclusive o de expressar suas delirantes fobias. (Fonte: aqui).

OLIMPÍADA 2016 SOB RISCO


Luscar.

O LEGÍTIMO TAPETE MÁGICO


Angel Boligan.

USAR O INGLÊS SOA BEM


Usar o inglês soa bem

Por Frei Betto

As palavras dançam, trocam de par e de país, andam de sandálias de dedo ou salto alto. Gabriel García Márquez dizia que, ao escrever, espalhava sobre a mesa vários dicionários, de modo que as palavras brigassem umas com as outras.
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Pelo que se observa, há palavras chiques e banais. Em qualquer aeroporto, se você viaja de classe econômica, a indicação da fila está assim mesmo, em português. Porém, se embarca em classe executiva, então a palavra se veste em Londres: business class. Ainda que viaje apenas por lazer, sem nenhum propósito de fazer negócios.

Se tomar um café com uma fatia de bolo em casa, às quatro da tarde, isso é um lanche. Se à mesma hora o lugar do café for em uma empresa, então muda de figura – coffee break. Soa mais elegante, embora não necessariamente mais farto e saboroso.

Todo idioma se gasta pelo uso e, também, pela submissão colonialista

Soa mais charmoso o colonizado empregar termos proferidos pelo colonizador. A moda hoje é o inglês, como foi o grego na Antiguidade e será, com certeza, o mandarim no futuro.

Assim, há quem diga que trabalha full time. Jamais a faxineira usará essa expressão. Dirá apenas que trabalha o dia todo, inclusive sem tempo para aprender o que significa full time. E jamais ouvi quem trabalha meio período dizer part time.

O anglicismo pega fundo. Liquidação virou sale. Ora, se a intenção do lojista é vender o estoque, melhor anunciar isso em bom português, considerando que apenas 5% da população brasileira domina fluentemente o inglês.

Outrora se dizia que fulano era diretor de vendas ou gerente comercial. Agora a bossa é qualificá-lo de diretor de marketing. Se isso aumenta o volume de vendas, dou a mão à palmatória. E sugiro aos novos escritores se qualificarem como writers na tentativa de fazerem suas obras se tornarem best sellers.

Se você se hospeda em um hotel estrelado certamente encontrará no apartamento um kit de higiene. Só um hotel de baixa categoria ousa anunciar: "Utensílios de higiene”.

Nos estádios, nos teatros, nas cerimônias, costuma ter uma ala vip. Destinada a very important person – pessoa muito importante. Às vezes, quem tem direito ao acesso à ala privilegiada nem tem alguma importância, mas o dinheiro ou a função fala mais alto. "Ala das autoridades” ou "ala das celebridades” seria adequado, desde que uma multidão pernóstica, que nem é autoridade nem celebridade, não se considerasse tão importante.

Uma área que sofre de anglicismo crônico é a da informática. Mouse significa rato. Mas soa menos repulsivo manipular um mouse que um rato.

E há expressões com prazo de validade. Meu pai se referia ao chato dizendo que era um "sujeito pau”. Imbecil era tratado de boçal. Hoje em dia já não convém dizer que me senti incomodado. Soa mais in falar que deixei minha zona de conforto.

Muito eu teria a escrever sobre isso, mas como o jornal me impõe um deadline, prazo para a entrega do texto, melhor parar por aqui. (Fonte: site Adital).
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Frei Betto é escritor, autor do romance policial "Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

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Oportunidades de trabalho, qualificação/ascensão profissional, leitura de livros e documentos diversos no original - além de filmes -, muitos são os diferenciais oferecidos pelo domínio de outras línguas, notadamente o inglês. De fato, a incorporação no cotidiano de termos em inglês evidencia a plena dependência do País à metrópole. Vários países, a exemplo da França, se rebelam contra essa 'ditadura' , mas os fatos demonstram que a rebeldia deu/dá com os burros n'água. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

HAICAI DA MÍDIA BRASIL


Ares. (Cuba).
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PT, PT
Só tenho olhos
Pra você

A DÍVIDA PÚBLICA E SEUS CONTEXTOS


Enquanto a mídia se esmera em repercutir manifestações contrárias ao pacote de crédito lançado pelo governo (se se mantém paralisado, é inoperante, se busca alternativa, entra em cena o consagrado mote do 'não vai dar certo'), cuidemos de um outro assunto: a dívida pública brasileira, que mereceu da Folha a seguinte manchete: "Dívida pública fecha 2015 em nível recorde de 66,2% do PIB" - AQUI -. Texto e gráficos dão o recado, mas bem que a jornalista Isabel Versiani, autora da matéria, poderia ter contextualizado o tema, abordando a realidade observada em outros países, cujas perspectivas para 2015 foram estimadas em post de Diego Costa, reproduzido por este blog - AQUI - em setembro. Poderia, também, haver aproveitado a oportunidade para emitir juízo de valor a respeito da composição e serviço da dívida pública, assunto tratado por André Araújo - "A base podre da dívida pública" - em análise reproduzida no dia 20 - AQUI.

A seguir, vejamos análise igualmente recente, produzida antes da divulgação, nesta data, da matéria da Folha:

Dívida pública: o que o noticiário não diz nem os jornais explicam

Por José Salvador Faro

Neste caso específico do volume de recursos financeiros que oneram o Estado através da dívida pública, me parece que dois contextos precisam ser obrigatoriamente constituídos para que a dimensão social da notícia seja alcançada. Um primeiro contexto é o da causalidade racional do fato.

Num país de fraca acumulação capitalista e que tem à frente de suas práticas empresariais uma burguesia anêmica e provinciana - mais preocupada em burlar direitos e em lucrar no nível da ganância - corresponde ao Estado o papel de indutor e de promotor dos investimentos. Sem que cumpra essa função - que lhe dá a definição de desenvolvimentista - o Brasil estaria ainda vivendo o estágio da economia agrário-exportadora da era colonial. Aliás, no agro-negócio há muita semelhança entre um período e outro.

Essa é uma dimensão estrutural da dívida pública e gigantescamente estrutural pois que o valor de R$ 2,8 trilhões indicados na matéria, levando em conta as grandezas do quadro econômico e social de um país como o nosso, é até pequeno. E um aumento anual dessa dívida em 21,7% pode perfeitamente ser relativizado frente a outras demandas. Onde isso tudo aparece no noticiário?

O segundo contexto é um círculo que envolve o condicionamento político da dívida pública pelo qual seus próprios beneficiários são culpados: o diabólico sistema de desonerações fiscais e de subsídios de todo o tipo que o governo põe à disposição dos empresários imaginando que com isso vai tirá-los da letargia e do parasitismo em que estão acostumados a viver desde sempre. As matérias indicadas abaixo dão bem a dimensão do problema, mas é suficiente emoldurá-lo: cumprimos todos os anos a liturgia de transferir da sociedade para as mãos privadas da nossa burguesia uma soma estratosférica de recursos e o nome disso é dívida pública.

Os impostos que a precária inteligência da Fiesp quer pagar a menos são o tiro no pé dos próprios empresários. E isso nem o Sr. Paulo Skaf tem coragem de dizer (talvez nem mesmo saiba do que estamos falando) nem os jornais dizem, preocupados como estão em construir textos pobres de entendimento e ricos em espetacularização.

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José Salvador Faro é Professor da UMESP e da PUC-SP

DINAMARCA NO TOPO, PERO NADIE ES PERFECTO


J Bosco.

Dos jornais: Dinamarca estabeleceu medida que confisca bens, joias e dinheiro de imigrantes que buscam asilo no país. A nova lei prevê que todo valor acima de 10 mil coroas dinamarquesas (US$ 1.450) seja entregue para as autoridades do país e que joias e bens que alcancem valor superior a esse também sejam confiscados.

NONSENSE CARTOON


Arcadio Esquivel. (Costa Rica).

RETORNANDO A UM NOTÓRIO PONTO FORA DA CURVA


"A defesa de Marcelo Odebrecht, detido no contexto da Operação Lava-Jato, pediu a reabertura do inquérito – que já entra na fase de julgamento - depois que descobriu que trecho do depoimento em vídeo feito pelo delator “premiado” Paulo Roberto Costa em que ele eximia Odebrecht de participação direta no esquema de propina foi omitido na transcrição feita pelo Ministério Público, e encaminhada ao Juiz Sérgio Moro, ainda antes da prisão do empresário.
 
“Se a declaração completa estivesse nos autos, obviamente teria inibido o juiz a determinar a realização de buscas e apreensões e a prisão de uma pessoa que foi inocentada por aquele que é apontado como coordenador das condutas criminosas no âmbito da Petrobras.”- declarou o advogado Nabor Bulhões, que solicitou acesso a todos os outros depoimentos em vídeo que citem seu cliente, para se assegurar que eles não foram alterados e correspondem às transcrições.
 
Em resposta à solicitação, o Juiz Sérgio Moro disse que “processo anda para frente” e deu a entender que não se pode voltar a etapas já encerradas para mudar essa questão.
 
E o Ministério Público, por intermédio do Procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, deu a entender que a transcrição não é literal devido ao (fato de) o termo de declarações ser “fidedigno” porque “sua função é resumir os principais pontos do que foi dito”.    
     
Ao agir como o fez, o MP promove censura subjetiva ao alterar o teor das declarações, quase como se cortasse cenas “proibidas” de um filme inadequado para certos tipos de público.   
 
Quem deverá julgar o que é importante ou não no depoimento dos delatores da Operação Lava-Jato é a sociedade brasileira, no final desse processo interminável que parece pretender se tornar um fator de intervenção permanente no processo político brasileiro.
 
Principalmente, porque, como correu no caso do “mensalão”,  ele se sustenta, básica e exatamente, nisso: mais em delações “premiadas” e em distorcidas interpretações de teorias como a do Domínio do Fato, do que em provas concretas.   
 
Cada cidadão brasileiro deve ter o direito de ver, como um strip-tease perverso - e ter a possibilidade de interpretar do jeito que lhe apeteça -  cada detalhe, cada palavra dita, cada suspiro entre frases, cada insinuação, cada sugestão, cada levantar de sobrancelha, de cada um dos presentes em cada audiência em que se procederam essas  “delações”.
 
Subjetivamente, se for o caso.
 
Emocionalmente.
 
Do mesmo jeito que esses mesmos “depoimentos” – e provas ínfimas, cheias de “se”, de ilações e de condicionantes - têm sido produzidas, aceitas, interpretadas e julgadas pelos procuradores e o juiz da Operação Lava-Jato.
 
A esses senhores não lhes foi facultado o direito de cortar ou alterar um segundo, ou de decidir, per si, o que é ou não relevante na fala de cada “delator”.
 
Qualquer corte nesses depoimentos poderá ser interpretado como uma tentativa de manipulação e de grave alteração das provas que estão, ou deveriam estar - registradas, protegidas e incólumes - à disposição da justiça e da própria História.
 
Não é aceitável que, em uma operação como a Lava-Jato, que se sustenta quase que totalmente no disse me disse de bandidos, muitos dos quais já se encontram, na prática, em liberdade, ainda se alterem os depoimentos transcritos em desfavor de citados que podem estar sendo caluniados ou vir a ser condenados devido a essas mesmas delações.
 
Nesse caso, cada palavra é preciosa, e pode ser fundamental para a defesa dos réus em instâncias superiores às quais eles têm o direito de recorrer, e certamente recorrerão, no futuro.
 
Está muito equivocado o Ministério Público, quando pretende restringir o que deve ser ou não divulgado ao que “interessa” ou não “interessa” à investigação.
 
Há muito a Operação Lava-Jato deixou de ser um mero processo judicial.
 
O que está em jogo, nesse esquema, de flagrante dimensão política,  que se imiscuiu, ao ritmo dessas delações, como os antigos inquéritos stalinistas, por todo o país e os mais variados setores da sociedade e da economia brasileiras, é o futuro da Nação e da República.
 
E mais grave ainda: a curto e médio prazos, o destino direto e indireto de obras, projetos e programas estratégicos para o desenvolvimento nacional, nas áreas de energia, defesa e infra-estrutura.
 
Para não falar da sobrevivência da engenharia brasileira e de milhares de trabalhadores que estão perdendo postos de trabalho, porque se confunde o combate a uma ação de corrupção que envolveria teoricamente uma comissão de 3%, com a destruição e a inviabilização, paralisia e sucateamento dos outros 97% que foram efetivamente, inequivocamente, aplicados em equipamentos, obras, empregos, investimentos, com o precioso dinheiro do contribuinte. 
    
E que não se alegue sigilo de justiça.
 
Porque além de “editar” o que se considera que deve ser omitido, permite-se, paradoxalmente, que se divulgue, seletivamente, por outro lado, o que alguns acham que deva ser levado aos olhos e ouvidos da população, em uma operação em que o Juiz defende publicamente o “uso” da imprensa pelo Judiciário, na conquista do apoio da opinião pública, e que desde o início deveria ter sido chamada de “Queijo Suíço”, para ressaltar o seu caráter de inquérito mais vazado da história do Brasil.
 
Finalmente, a pergunta que não quer calar é a seguinte: se Paulo Roberto Costa tivesse dito que Marcelo Odebrecht tratava diretamente com ele de propina, ou lhe entregava pessoalmente dinheiro, o trecho teria sido cortado da transcrição de seu depoimento?
 
Ou acabaria “vazando” e sendo amplamente divulgado pelos jornais, portais e revistas?"







(De Mauro Santayana, post intitulado "O Ministério Público e as 'cenas proibidas' da Operação Lava Jato", publicado em seu blog e reproduzido pelo Jornal GGN - aqui.

Corruptos, obcecados em auferir ganhos e convictos da impunidade, deram a mínima para o 'eventual' risco de o País vir a amargar um cenário sombrio como o hoje observado. Não virá ao caso!, teriam dito alguns deles. Jurisconsultos prolongando meritória - sim, meritória - Operação, a tentar, porém, impedir acordos de leniência, recorrendo, em oportunidades diversas, a artimanhas nos moldes acima relatados - como se não existisse o duplo grau de jurisdição... -, de tudo isso resultando uma prolongada situação de sucateamento econômico, gerando desemprego, incerteza, desinvestimentos, comprometimento/agravamento de atividades estatais?! Ora, ora...

Alguém precisa fazer chegar a quem de direito o alerta de Satayana: o que está em jogo é o futuro da Nação e da República).