quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

FELIZ ANO NOVO


ANO NOVO FELIZ


Osama Hajjaj. (Jordânia).

O TEMPO FATIADO


O tempo fatiado

Roberto Pompeu de Toledo, aqui, em memorável poema - muitas vezes atribuído, de forma errônea, a Carlos Drummond de Andrade -, louvou o mentor do 'fatiamento' dessa coisa misteriosa chamada tempo: o fato de o tempo 'parar', 'retroagir', e tudo voltar ao 'início', fluindo do zero, oxigena a vontade de que as coisas mudem para melhor:

O Tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, 
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

....
No que tange à conjuntura, o que se espera - ao menos no âmbito dos que agem com boa fé - é que o pleito presidencial de 2014 tenha definitivamente se encerrado neste prolongado 3º turno que encalhou e infelicitou o Brasil ao longo do ano que se finda.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

ADIÓS


Duke.

DESAGRAVO A 2015


"Repilo e deploro qualquer tentativa de desqualificar 2015. Eu só não diria que foi um grande ano porque terá 365 dias como todos os outros. Mas foi o ano em que a democracia brasileira resistiu a várias tentativas de golpe comandadas por um conluio entre picaretas notórios, analfabetos políticos e fascistas, estes últimos recém-saídos do armário em que se esconderam desde o vexame de Fernando Collor de Mello na Presidência.

Não, o Estado Islâmico e seu terror não nasceram em 2015. A essa turma que tornou a praia um inferno com seus arrastões não foi negada educação só neste ano. As barreiras de Mariana não foram negligenciadas e mal fiscalizadas apenas no momento em que se romperam. Nossos maiores corruptos, de longas carreiras políticas, já estão por aí há décadas.

Como sempre acontecerá, morreu gente legal (e também uma infinidade de pilantras). Mas também nasceu gente boa e outra infinidade de futuros energúmenos.

Foi um ano como outro qualquer, só que a nossa decadência como sociedade fica cada dia mais flagrante, a exclusão vem ganhando há tempos a queda de braço contra os programas sociais dos governos. Os recursos naturais estão se esgotando dia após dia (e continuamos fazendo apologia ao sexo na mídia, um programa de controle de natalidade às avessas).

De mais a mais, a seleção brasileira não levou de sete de ninguém neste ano. E, pelo menos, começaram, ainda que timidamente, a questionar o poder da detentora dos direitos de transmissão sobre o futebol brasileiro.Salve 2015, afinal, ainda estamos aqui pra contar a história."





(De Marcelo Migliaccio, em seu blog, post intitulado "Desagravo a 2015" - aqui).

ADIÓS


Samuca.

ADIÓS


Fausto.

A DESIGUALDADE SOCIAL SEGUNDO SAKAMOTO


"O ultrajante não é alguém morar em um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro vive em um de 40.
O que desconcerta é uma sociedade que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto o outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma ocupação de terreno, seja em Itaquera, Grajaú, Osasco, Pinheirinho, Eldorados dos Carajás, onde for.
Abaixo, cinco formas através das quais tentam te convencer que a desigualdade social e concentração de riqueza são legais pacas:
1) O povo brasileiro não é o mais alegre do planeta – mas é um dos campeões de desigualdade social e de concentração de renda. O Brasil não é o país que tem a mulher mais bonita – mas tratamos mulheres como cidadãs de segunda classe. Nossa comida não foi eleita a mais gostosa – mas estamos entre os campeões globais de uso de agrotóxicos. Não somos a maior democracia racial do universo – o que existe são séculos de escravismo e suas heranças. Adoramos inventar rankings impossíveis para esconder verdades.
2) Valores ensinados cuidadosamente ao longo do tempo nos transformam em guerreiros da causa alheia. Não ganhamos nada com isso, mas preferimos defender que uma propriedade privada seja usada para cultivar vento ou criar ratos e baratas do que transformá-la em assentamento ou conjunto habitacional. Tudo em nome de uma concepção equivocada de Justiça. “Por que essas pessoas que não aceitam a vida como ela é se acham melhores do que eu?'', já ouvi um rosário de vezes. Não é uma questão de melhor ou pior. E sim de aceitar bovinamente um destino horrível em uma sociedade que, apenas teoricamente, não é de castas. Ou lutar para sair dessa condição.
3) Você comprou uma TV LED de 60 polegadas e, por isso, consegue se enxergar como cidadão pela primeira vez, pois compartilha de um dos símbolos da nossa sociedade. Mas está endividado por ter que pagar o plano de saúde mequetrefe que te deixa na mão e, ao mesmo tempo, com a corda no pescoço pela dívida contraída com a sua faculdade caça-níqueis de qualidade duvidosa. Agora, me diga: quem é cidadão de fato? Os que podem comprar eletrônicos no crediário ou os quem têm ao seu dispor serviços de educação, saúde, segurança, cultura, transporte de qualidade?
4) É justo que todos que suaram a camisa e conseguiram guardar algum queiram deixar uma vida mais confortável para os seus filhos. Mas, a partir de uma determinada quantidade de riqueza (muita, muita riqueza), o que seria apenas garantir conforto transforma-se em transmissão hereditária da desigualdade social e de suas consequências. Europa, Estados Unidos, entre outros países, resolvem isso através de um imposto grande sobre herança que irriga os cofres públicos ou força a doação via fundações privadas. Mas aqui a gente não precisa dessas coisas.
5) Adoro políticos com sensos de humor: “A população tem que entender que o crescimento do PIB vai beneficiar a todos, mas não agora''. Os economistas da ditadura falavam a mesma coisa: “é preciso primeiro fazer o bolo crescer, para depois distribui-lo''. Ou seja, você ajudou a produzir o doce, mas tire a mão dele que não é hora de você consumi-lo. Hoje, são apenas alguns que vão comer, vai chegar a sua vez. Enquanto isso, chupa que a cana é doce."





(De Leonardo Sakamoto, em seu blog na Folha de São Paulo, post intitulado "Cinco maneiras de te convencer que a desigualdade social é legal pacas", reproduzido no Jornal GGN - aqui.

Alguns leitores do Jornal GGN se manifestaram sobre o assunto, e entre as observações ressaltam a educação como processo gerador da redução da desigualdade e a inconformidade de certos setores diante da 'redução da dependência', há décadas - séculos - verificada, das classes pobres relativamente às elites, fruto do combate à miséria e carências sociais do Brasil nos últimos anos. Vale a pena dedicar atenção aos comentários, em vista da diversidade de pontos de vista 

A propósito de desigualdade, aliás, este blog acaba de publicar post em que é exposto o pensamento do filósofo Zygmunt Bauman - AQUI).

OLD CARTOON


SamPaulo - aqui.  (Porto Alegre, jornal A Hora, 31 de dezembro de 1958).

A DESIGUALDADE SOCIAL E A FELICIDADE SEGUNDO ZYGMUNT BAUMAN


"É difícil achar uma pessoa feliz entre os ricos": uma conversa com Zygmunt Bauman

Do Diário do Centro do Mundo

Se uma pessoa no alto dos seus 90 anos comparece a uma entrevista às 8h45, é porque está em forma. Longe do seu inseparável cachimbo, este extraordinário dissidente do capitalismo e hipercrítico com o comunismo, polonês com passaporte britânico, tem aspecto de homem que sabe mais pelo que não diz do que pelo que diz. E disse muito.
Nascido em Poznan em 1925, Zygmunt Bauman é um dos intelectuais europeus vivos mais importantes, Prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades 2010, junto com Alain Touraine. Acredita que a desigualdade se instalou entre nós para ficar e que a elite política há décadas não fala a mesma linguagem que as pessoas comuns. Essa chamada por ele “modernidade líquida” já é modernidade liquefeita e, se duvidar, evaporada…
De ascendência judaica, seus pais fugiram do país após a invasão alemã, em 1939, e se instalaram na União Soviética. Expulso em 1968 da Universidade de Varsóvia por razões políticas, Bauman retomou seu trabalho docente nas universidades de Tel Aviv e Haifa. Desde 1971 é professor emérito de Sociologia na Universidade de Leeds.
A lucidez, sua perspicácia e, talvez, acima de tudo, sua experiência de vida, fizeram-no ser uma referência mundial fundamental, um pensador a quem nada é alheio. Considera a nossa sociedade uma das mais desiguais desde que, um dia, os europeus, com o estado de bem-estar social, acreditaram ter resolvido tudo.
Gostaríamos de saber mais de você que de suas ideias, embora não saibamos se são indissociáveis. É muito ou pouco consumista?
Não se pode escapar do consumo: faz parte do seu metabolismo. O problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo… Desde o paleolítico os humanos perseguem a felicidade. Mas os desejos são infinitos. As relações humanas são sequestradas por essa mania de apropriar-se do máximo possível de coisas.
Nas manhãs de domingo as famílias britânicas não vão à missa, mas ao shopping. É esse o nosso novo templo?
Sou muito cauto na hora de comparar consumismo e religião. A religião é uma transgressão, te leva para além da tua vida. Na América, antes, a tradição era que se reunisse a família ao redor da mesa para comer e conversar. Nos últimos anos, apenas 20% das famílias fazem isso.
Rompeu-se essa ideia nuclear de família?
Sim, era uma interação física. Agora, ao contrário, cada qual pega a sua comida, senta-se na frente do computador e come. O ser humano de hoje passa sete horas e meia diante de algum tipo de tela. Se a interação com alguém na rede não te interessa, aperta um botão e adeus.
Nas relações humanas não é tão fácil desconectar.
O corpo a corpo te obriga a te confrontar com a diferença. Administrá-la com os sentimentos, elaborá-la. Um efeito colateral dessa dissociação é que se perdeu a vontade do trabalho “bem feito” também nas relações. Perdemos a capacidade de nos relacionarmos com esmero.
Qualquer coisa que alguém escolhe modifica o contexto.
Porque resitua a liberdade de outros. O importante é ter a oportunidade de exercê-la. Neste momento, só há um grupo muito reduzido de homens livres e uma grande massa que fica fora do jogo.
As classes médias perdem terreno e parte delas estão se convertendo em proletariado, uma classe que você chamou de “precariado”.
Lamento não ter lido o último livro de Thomas Piketty antes de escrever o meu, porque cita coisas interessantes. Por exemplo, que os direitos humanos são algo que herdamos da Revolução Francesa. Nosso horizonte – que marca a distribuição da riqueza – deveria ser o bem comum. Os ricos agem com toda essa riqueza – a maioria a herdaram – com absoluta impunidade. Acreditam que eles nunca poderão falir.
As 85 pessoas mais ricas do mundo acumulam uma riqueza equivalente aos quatro bilhões de pessoas mais pobres. Qual é a pessoa pobre mais feliz que conheceu e a rica mais infeliz com que já se encontrou?
É muito difícil encontrar uma pessoa feliz entre os ricos.
Bom, então comecemos pelos que não têm nada.
Uma pessoa pobre que consegue tomar café da manhã, almoçar e, com sorte, jantar… é automaticamente feliz. Nesse dia conseguiu seu objetivo. O rico – cuja tendência obsessiva é enriquecer mais – costuma meter-se numa espiral de infelicidade enorme. A grande perversão do sistema dos ricos é que acabam sendo escravos. Nada os sacia, entram em colapso, uma catástrofe!
Você participou da Segunda Guerra Mundial, combateu com o Exército polonês, trabalhou para os serviços de informação militares… Qual foi o pior momento da sua vida e como conseguiu recuperar-se?
Ao final, a vida não é um campeonato de futebol, onde podes dizer “olha, aquele jogo foi o pior”. Mas lhe responderei com uma anedota que pode parecer evasiva, mas não é. Certa vez, o grande poeta Goethe – quando tinha quase a minha idade – foi entrevistado por Eckermann. “Diga-me, você teve uma vida feliz?”, perguntou-lhe. E Goethe respondeu: “Pois, olhe, sim, tive uma vida feliz. Mas não me pergunte se tive uma só semana feliz”.
Então, a felicidade não é a soma de momentos de felicidade, como dizem alguns?
Não, a felicidade é o gozo que dá ter superado os momentos de infelicidade. Ter conseguido transformar teus conflitos, porque sem conflitos as nossas vidas, a minha vida, teriam sido uma verdadeira chatice.
Terá visto tantas circunstâncias que se repetem ciclicamente – sociedades cheias de esperança, outras devastadas, as que ficam destruídas, as que logo se recuperam… Isso o tornou mais cético?
Eu prefiro identificar-me com o “homem esperançado”. Há uma dinâmica da história que te leva ao ceticismo como atitude, porque o otimista diz “estamos no melhor dos mundos” e o pessimista pensa “bom, tanto faz se o otimista tem razão”. Sobre isso, recomendo-lhes “Generativi di tutto il mondo, unitevi!”, de M. Magatti e Ch. Giaccardo, um manifesto publicado este ano e que nos apresenta um conceito novo: a sociedade generativa.
O que significa esse conceito que acaba de ser cunhado: sociedade generativa?
A sociedade de consumo é uma montagem que consiste em que colhas tudo o que há ao teu redor para te preencher. O manifesto gerador propõe o contrário: tudo o que tu podes dar à sociedade, é a única coisa que pode nos salvar.
Como explicaria sua “modernidade líquida” – definição perfeita da sociedade pós-moderna, consumista e banal – a uma criança?
Ensinaria isto (Bauman pega um biscoito em forma de estrela) e diria: “Se isto fosse uma pedra, mesmo que eu a girasse, a virasse… não seria afetada por nada. Depois lhe mostraria este copo cheio de água e lhe diria: “isto, simplesmente decantando, vês?, se modifica”. E se agora não estivéssemos no Hotel Majestic, além disso, derramaria a água sobre a mesa…
Adiante, adiante.
Bom, bastaria para explicar a essa criança que a sociedade onde vive é flexível e extraordinariamente móvel. Antes, se você dava um soco na realidade, a realidade não se movia. Tente fazê-lo agora! Antes se sonhava poder trabalhar durante décadas na mesma fábrica, agora a meca dos jovens é trabalhar no Vale do Silício… E, quando muito, ficam oito meses.
Quando analisa dois totalitarismos – o nazismo e o comunismo – conclui que os nazistas eram criminosos, mas não hipócritas. Executavam o que proclamavam. “O comunismo, ao contrário – acrescenta –, foi uma fortaleza de hipocrisia”. Já não é comunista, segue sendo de esquerda?
Sou socialista. Efetivamente, os nazistas eram transparentes: queriam infligir o mal e o fizeram. Sem espaço para dúvidas. O comunismo foi uma grande farsa, nos enganou. Albert Camus já chamou a atenção para esse fato: o comunismo é o mal sob slogans de ‘buenismo’. Por isso, nas fileiras comunistas surgiu a real rebelião intelectual.
O desencanto, então, foi consequência dessa grande farsa comunista?
Absolutamente. Trouxe a decepção e a dissidência. Igualdade? Bem, foram alcançadas algumas cotas. Mas, e a liberdade? Nada. E a fraternidade? Ainda menos! Essa foi sua grande contradição. (Fonte: aqui).

FELIZ ANO NOVO


Lute.

FELIZ ANO NOVO


Firuz Kutal. (Noruega).

DA SÉRIE PRELEÇÕES SOBRE COMO INICIAR JORNADAS


"Ano novo, vida nova. De que adianta usar branco, pular sete ondinhas, vestir camisetas que pedem paz e levar um monte de hábitos desprezíveis para o ano que começa? Vamos entrar em 2016 livres de atitudes e manias que a gente nunca pensou que fossem tão daninhas, mas estão nos colocando no grupo de pessoas insuportáveis. Prepara!
1 — Não existe o jeito certo
Eu tenho métodos. O jeito certo de lavar louça. A ordem correta de tomar banho. A forma perfeita de organizar os armários. E todos eles foram criados durante os meus 30 anos de vida. Eles são uma mistura do que aprendi com meus pais, meus amigos, vi em filmes, li na internet, e do que faz mais sentido para mim.
Cada vez que meu companheiro vai fazer uma de suas atividades na casa eu preciso respirar fundo para não dizer que ele está fazendo errado. O motivo? Ele não está fazendo errado, apenas não está fazendo do meu jeito. E o meu jeito não é o certo.
Então não adianta a gente dizer que quer dividir tarefas de casa com o companheiro e cobrar que ele as faça no tempo em que a gente faria ou da forma que nós faríamos. Não existe um jeito certo. E se você escolheu estar ao lado daquela pessoa ela não pode ser tão incompetente a ponto de não conseguir desenvolver sua própria maneira de fazer certas atividades, certo?
Olhar para o outro com um pouco mais de generosidade cai bem em 2016 — e em todos os outros anos.
2 — Português correto não é mais importante do que ideias
Uma das coisas que mais me cansam nas discussões escritas sobre qualquer assunto nem é o famoso “vai pra Cuba, petralha” ou seus equivalentes, mas a tentativa de invalidar opiniões porque o português está errado.
A comunicação se baseia em algo simples: o ouvinte entender a mensagem que você quer passar. Deu certo? Pronto. O português estava errado? Foram usadas muitas gírias? Você escolheria outras palavras? O problema, infelizmente, não é da pessoa, mas seu. Lide com sua frustração ou escreva um texto próprio discutindo a questão.
No fundo estamos todos buscando entender nosso lugar na sociedade e quem somos. Essa sensação de não saber o que estamos fazendo ou de sermos fraudes bate em todo mundo de vez em quando, com ou sem português correto. Valorize o que as pessoas têm em comum, não o que as distancia.
Invalidar opiniões só porque você colocaria as informações de outra forma é elitismo, preconceito linguístico e idiotice. Não cai bem para começar o ano.
3 — Brincadeira só tem graça quando todo mundo mundo está rindo
Vou explicar isso da mesma maneira que explico aos meus filhos: se você está em um grupo de pessoas e alguém não riu da piada é porque tem um problema. Quando todo mundo ri de uma pessoa e ela não ri junto, temos um problema. Quando alguém deixa claro que não gostou da brincadeira e ela continua, temos um problema.
A piada ou a brincadeira passam a chamar abuso quando alguém se sente ofendido por ela. Não importa se você não teve a intenção de ofender, o que importa é como bateu no outro. E se você não quer mesmo ofender não vai se sentir mal em deixar de brincar daquele jeito, não é?
4 — Amor não é posse
Duas — ou mais — pessoas podem se amar o máximo possível, mas isso não dá o direito de nenhuma delas dizer o que a outra pode ou não fazer, como deve se portar, se vestir, com quem pode falar ou quais escolhas deve fazer.
Amor é algo lindo, mas não pode ser usado como desculpa para controlar o outro. É bem simples: se você ama a pessoa a ama porque a admira e confia em suas escolhas, não? Se você só a ama porque ela é bonitinha… bem, isso não é amor.
5 — Orientação sexual e identidade de gênero não são escolhas
Ninguém escolhe ser lésbica, bissexual, gay ou trans. A única escolha que existe aí é entre viver uma mentira ou ser quem você realmente é. E a escolha entre essas duas alternativas é bastante fácil, não?
A primeira coisa a fazer é parar de chamar de opção ou dizer que fulano decidiu mudar de sexo. Sabendo que não são escolhas você agora sabe que não faz sentido dizer essas coisas, né? E quando fala-se de orientação é no sentido de direcionamento, não quer dizer que alguém orientou aquela pessoa a seguir esse caminho, fechado?
Comece 2016 mais inteligente e pare de cagar regra sobre a vida alheia. 
6 — Ouvir o outro é mais importante do que falar
Tem uma técnica para criticar as pessoas de forma educada, do filósofo Daniel Dennett, que é incrível: (1) mostre que você entendeu muito bem o ponto do outro, (2) aponte o que você concorda (impossível não ter nada!), (3) mencione o que você aprendeu com aquela visão do assunto e então (4) faça sua crítica ou discorde com elegância. Isso te obriga a realmente ouvir o outro e levar em conta o que ele tem a dizer.
E quando a gente considera uma opinião contrária à nossa sem desacreditá-la no primeiro momento sabe o que acontece? Nossos argumentos ficam ainda mais fortes.
Além disso, é importante lembrar sempre que tem outra pessoa que vai receber sua mensagem, seja no meio que for. Ela é uma pessoa com sentimentos, história, família, problemas, desejos e sonhos. Por mais que você ache que não, ela é parecidíssima com você. Há necessidade de destruir alguém? A discussão é sobre quem está discutindo ou sobre o assunto que está sendo discutido? Pense mais antes de falar ou escrever.
Eu sei que é difícil ter essa paciência em discussões de internet, por exemplo, mas pode ser que aquela pessoa esteja falando pela primeira vez sobre o assunto que você fala sempre. E mudar o mundo dá trabalho, então força.
7 — Comprar não resolve vazio existencial
Seria simples demais se a gente conseguisse ficar feliz porque comprou uma roupa nova e essa felicidade durasse um bom tempo, mas ela não dura nem o tempo da fatura do cartão chegar e isso deve querer dizer algo…
Olhe para dentro com vontade e sinceridade para entender o que você precisa: e não é ter mais coisas que o coleguinha, isso eu posso garantir.
Existe um movimento incrível que busca sustentabilidade, ter uma vida mais equilibrada e sem desperdício. Ele ganha cada vez mais espaço e ajuda muito a entender esse momento que passamos a entender que o planeta não vai aguentar mais muito tempo se não começarmos a ter um consumo mais consciente. Você pode ler um pouco das coisas que a Fe Canna escreve na newsletter dela, seguir os posts do Um Ano Sem Lixo ou acompanhar o Mais Amor, Menos Lixo, fora todos os sites gringos que se baseiam na ideia.
8 — Não é mimimi só porque você não concorda
Cada pessoa vive de um jeito, tem uma história e teve certas experiências. Sabe aquele papo de que gato escaldado tem medo de água fria? Isso também acontece com pessoas. De acordo com o que vivemos nosso cérebro cria defesas para nos manter vivos.
O que pra você é algo simples e banal, como ir à praia, pode se tornar um momento difícil para quem quase se afogou lá. Na sociedade é igual. Certas coisas soam como mimimi para você, mas são importantíssimas para os outros. Se você nunca viveu aquilo como pode dizer que é mimimi? Não parece coisa de criança mimada? Pois é… em 2016 apenas pare.
9 — Pare de destacar as coisas ruins
Há centenas de pessoas produzindo conteúdo transformador. Outras centenas tocando iniciativas que transformam o mundo. Mais um monte de gente pensando em saídas para os problemas. E o que ganha mais destaque? O problema, a desgraça, a tristeza, as fotos de cachorros estrupiados e mulheres agredidas.
Há importância em divulgar essas coisas? Claro que sim. Tem gente que ainda não acredita que essas histórias sejam reais. Só que vamos combinar uma coisa: nesse novo ano tudo de ruim que for compartilhado vai ter, junto, uma solução. Aceita o desafio?
10 — Não repita frases feitas
Dentro dessa sua bela cabeça tem um negócio incrível chamado cérebro. Ele te dá uma capacidade poderosíssima: raciocinar. Você pega sua frase feita preferida, pensa bastante nela, vê se ela faz mesmo sentido e aí encontra sua própria maneira de dizer aquilo.
Por que isso é importante? Porque você vai pensar no que está dizendo e ver se realmente é algo interessante a se dizer. E isso vale para todo mundo: de reacionários a libertários.
Quando você começa a pensar no que está dizendo você cria senso crítico, para de comprar ideias alheias e torna o debate muito mais interessante e rico.
11 — Aceite que cada pessoa tem seu tempo
No ano passado você pensava diferente sobre alguns assuntos. No ano retrasado, sobre outros. E há 20 anos pensava totalmente diferente sobre quase tudo. Isso chama evolução. A gente vive mais, amadurece e vai mudando a forma de enxergar o mundo.
Cada pessoa tem seu tempo para isso. Algumas mudam primeiro coisas que você ainda vai mexer. Outras se transformam ao mesmo tempo que você. Há gente que só vai mudar as opiniões e formas de enxergar o mundo na velhice ou se sofrer algum trauma.
A escolha não é sua, então pare de achar que todo mundo tem que entender as coisas ao mesmo tempo que você. Bateu uma luz e você descobriu algo incrível sobre o mundo? Divida com as pessoas, mas não espere que todas elas batam palmas e concordem.
12 — Não demonize o diferente
Como é fácil ridicularizar quem é diferente da gente, né? Só que cada vez que a gente reduz uma pessoa para se sentir melhor em relação a nós mesmos, estamos sendo beeeeem babacas, não? O desafio na vida não é conviver com quem é igual, mas com quem é diferente.
Tente se colocar no lugar da outra pessoa. Olhe para ela com generosidade. Entenda o que ela quer dizer e como funciona seu raciocínio. Respeite.
Você não precisa concordar, mas também não precisa ser uma criança chorona que quer tudo do jeito dela. Fechado?
13 — Não queira estar certo, queira mudar o mundo
A internet deu voz a um bando de pessoas cheias de boas intenções, mas com um objetivo principal: estar certo. Li um post esses dias que falava bastante sobre isso e vai tocar em muitas feridas por aí. O nome dele é “A senhora lacra, mulher”: O ativismo narcisista e a escuta autoritária.
O resumo é que muita gente só discute na internet, e em espaços físicos, para ganhar palmas de seus amigos e pessoas que o admiram. E esse não é o caminho para sair desse mar de lama que estamos vivendo — seja qual for o mar de lama que você observa à sua frente.
14 — Não se ache melhor do que os outros porque você tem mais grana ou mais estudo
Um dia eu estava em uma reunião escolar e uma mãe disse, sem medo de ser feliz, que poderia pesquisar sobre qualquer assunto no mundo e completou: “sou uspiana”. Não consegui segurar um riso de canto de boca porque dali pra frente ninguém mais ouviria o que ela estava dizendo. Todas as boas ideias, depois desse comentários, iriam para o limbo.
Ninguém quer ouvir um discurso que começa com “eu sou melhor do que você”, seja quais forem as palavras usadas para dizer isso. Só faria sentido ela dizer que tinha se formado na USP se estivéssemos discutindo um problema na USP que só pode ser entendido por quem estudou lá. E, olhe lá, porque ver um problema de fora torna muito mais simples solucioná-lo.
Não importa o quanto você ganha, não importa quantos cursos você fez ou em qual faculdade de formou. Ninguém quer saber. Vivemos em um mundo em que certos grupos de pessoas não têm acesso à educação formal por diversos motivos — sendo um deles a falta de grana. Mas isso não faz com que essas pessoas não criem um amontoado de experiências e as transformem em sabedoria.
“Todo maloqueiro tem um saber empírico”, diz Criolo. E é exatamente isso que as pessoas precisam entender: o saber não vem apenas de uma fonte. Ele está em todos os lugares. Você pode chamar de autodidatismo. Pode encarar como vivência. Pode enxergar como um experimento social vivido na pele por aquela pessoa. A única coisa que você NÃO pode fazer — e que ninguém mais aguenta ver em 2015 — é fingir que aquele conhecimento não existe ou que você é superior a ele. A gente — eu e você — sabe que não é.
15 — Não crie ícones completos, monte o seu frankenstein de inspiração
Pessoas são corruptíveis. Pessoas têm problemas e dificuldades. Falamos isso de várias formas nessa lista, mas vou deixar mais claro: somos todos cagados. Não há palavra melhor que descreva nosso cerne. Estamos todos na merda, mas temos lampejos de genialidade.
Madre Teresa desviava dinheiro. Gandhi era racista e abusador. Tudo isso é uma merda, claro. Só que todo o bem que essas pessoas fizeram não pode ser ignorado.
O perigo de ter um ícone que você usa de modelo é ele ser destruído — porque é apenas um humano — e você ficar sem chão. Por isso é importante você pegar apenas as coisas boas dos heróis: fulano era ótimo em discurso, sicrano entendia as pessoas, beltrano sabia como multiplicar a verba para ajudar os outros. Aí você cria seu próprio frankenstein e sabe que cada pequena parte daquele ser só diz respeito a ela, e não às outras características dos heróis.
Leve esse mantra com você: heróis são pessoas e pessoas são cagadas.
16 — Se você é a exceção pare de se sentir ofendido
Você não tem preconceitos? Que bom. Você não é egoísta? Que lindo! Você não é machista? Maravilhoso! Você nunca abandonaria um cachorro? Adoramos isso! Você não joga lixo no chão? Parabéns!
Só que quando estamos falando sobre preconceitos, egoísmo, machismo, abandono animal ou gente que joga lixo no chão não estamos falando sobre você, certo? Se você não faz essas coisas não deveria nem se preocupar com a sua honra e legado ao ponto de falar: “mas eu não sou assim”.
Poxa, legal que você não é como aquele grupo de pessoas, mas você consegue enxergar que aquele grupo de pessoas existe? E que é importante discutir sobre o assunto para que esse grupo, do qual você não faz parte, deixe de existir?
Esse post do Empodere Duas Mulheres explica bem isso: “É verdade que o coletivo se dá a partir de muitas experiências individuais. Porém, a partir do momento que você usa as suas experiências individuais como argumentação universal, você está excluindo uma grande parcela das pessoas que não tem vivências como as suas”.
Ficar usando frases como “mas nem todo (insira aqui o grupo que você quer defender) é assim” não agrega nada ao debate, apenas mostra que você anda carente, precisa de atenção e um abraço. Porque quando você diz isso não está oferecendo uma solução ou um caminho para ser pensado, apenas está tentando minimizar o problema ao dizer que nem todo mundo faz isso. E, poxa, a gente sabe que nem todo mundo faz aquilo, senão nem teríamos como discutir o assunto, né?
Em 2016 vamos todos aprender que podemos pedir um abraço ou fazer um desenho bem bonito para receber as palmas que precisamos, mas não vamos fazer de conta que problemas não são tão importantes só porque a gente não age daquela maneira horrível. Combinadinho?"






(De Carol Patrocínio, no blog Medium, post intitulado "16 maneiras de não ser babaca em 2016", reproduzido no Jornal GGN - aqui).

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

FELIZ ANO NOVO


Valeri Chmyriov. (Ucrânia).

HAPPY NEW YEAR


Valeri Chmyriov.

EXPECTATIVAS DO ANO NOVO


Quino.

HAICAI DE ANO NOVO



Fica frio, Charlie
Meu faro diz:
será um ano feliz
.

OS DONOS DO MUNDO E SUAS RESERVAS DE MERCADO


O recado dos EUA e Europa a seus capachos 

Por Mauro Santayana

Para os energúmenos que dizem que nos EUA o Estado não interfere na economia, uma notícia: só na semana passada foi aprovado pelo Congresso, em Washington, o fim da proibição da exportação de petróleo norte-americano, que perdurou por longos 40 anos.

Por lá, existe uma lei de conteúdo local, o Buy American Act – que, como ocorre no caso da Petrobras, aqui seria tachada de “comunista” e “atrasada” pelos entreguistas – que, desde 1933, exige que o governo dê preferência à compra de produtos norte-americanos, e que foi complementada por outra, com o mesmo nome e objetivo, em 1983.

Na área de defesa, nem um parafuso pode ser comprado pelas forças armadas norte-americanas, se não for fabricado no país.

E se a tecnologia ou o desenho pertencer a uma empresa estrangeira, ela é obrigada a se associar, minoritariamente, a um “sócio” norte-americano, para produzir, in loco, o produto.

Quem estiver duvidando, que pergunte à Embraer, que, para fornecer caças leves Super Tucano à Força Aérea dos EUA, teve que se associar à companhia norte-americana Sierra Nevada Corporation e montar uma fábrica na Flórida. 

No Brasil, a nova direita antinacionalista grita, nas redes sociais, o mantra da privatização de tudo a qualquer preço. Citando, automaticamente, fora de qualquer contexto, os Estados Unidos, os hitlernautas tupiniquins não admitem que estatais existam nem que deem eventuais prejuízos, ignorando que nos EUA – a que eles se referem, abjeta e apaixonadamente, como se não vivêssemos no mesmo continente, como América – a presença do estado vai muito além de setores estratégicos como a defesa.

No nosso vizinho do Norte o transporte ferroviário de passageiros, por exemplo, é majoritariamente atendido por uma empresa estatal, a AMTRAK, que – sem ser incomodada ou atacada por isso – dá um prejuízo de cerca de um bilhão de dólares por ano, porque, nesse caso, o primeiro objetivo não pode ser o lucro, e, sim, o atendimento às necessidades da população, incluídas as camadas menos favorecidas.

A União Europeia, que posa de liberal no comércio internacional, e cujos jornais econômicos – assim como o Wall Street Journal, dos EUA – adoram ficar (a palavra que queríamos usar é outra) ditando regras para o governo brasileiro, acaba de postergar, até segunda ordem, o acordo de livre comércio com o Mercosul, mesmo depois da eleição de Fernando Macri, adversário de Cristina Kirchner, na Argentina.

Apesar da propaganda contrária por parte da imprensa brasileira, a culpa não foi do Brasil ou do Mercosul.

Como previmos no post “o porrete e o vira-lata” - aqui - os europeus roeram a corda porque, protecionistas como são, não querem eliminar seus subsídios ao campo nem abrir o mercado do Velho Continente aos nossos produtos agrícolas, nem mesmo em troca da assinatura de um acordo que pretendem cada vez mais leonino - para eles é claro - com a maioria dos países da América do Sul. 

Se no plano econômico é assim, no contexto político a estória também não é muito diferente.

Os bajuladores dos EUA entre nós (acusavam)/acusam a Venezuela e a Argentina – onde a oposição venceu democraticamente as respectivas eleições há alguns dias – de ditaduras “bolivarianas”.

Mas não emitem um pio com relação a “democracias” apoiadas pelos EUA, como a Arábia Saudita - governada e controlada por uma família real com algumas centenas de membros.

Um reino que detém um fundo, estatal e bilionário, que acaba de comprar 10% da terceira maior empresa de carnes brasileira, a Minerva Foods.

E uma monarquia fundamentalista na qual as mulheres votaram pela primeira vez, apenas na semana passada. (Fonte: aqui).